quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal: tempo de pensar e fazer o bem


Todos os anos os cristãos celebram o Natal de Jesus. Recordar o nascimento de Jesus é um convite a pensarmos na vida. Pensar na vida é uma virtudes de poucas pessoas. Hoje, pensa-se muito pouco na vida. Há pessoas que vivem toda a vida sem pensar no verdadeiro sentido da existência humana. O homem nasceu com a capacidade de pensar sobre si mesmo e sobre o mundo em que vive. O pensar evita a alienação do ser humano. Uma pessoa alienada é um ser que não sabe que é. A alienação é a ausência do pensar sobre si e sobre o mundo. Uma pessoa alienada é uma pessoa cega, que não enxerga a realidade, impossibilitando uma ação crítica diante da vida.

A humanidade atual precisa de transformações emergentes. A realidade é desumanizadora. Impera-se uma crise de humanidade, que torna as pessoas insensíveis e até cruéis diante da vida. As guerras, a fome, as desigualdades sociais e todas as formas de opressão ideológica são provas da existência da crise de humanidade. A crise financeira também é fruto de uma crise de relações. As relações entre pessoas, famílias, povos e nações são injustas, logo desumanas. As relações humanas estão pautadas no interesse e na objetalização das pessoas, ou seja, as pessoas estão sendo reduzidas a objetos de uso e desuso.

A dignidade da pessoa humana é um direito universal. Este direito está sendo cruelmente desrespeitado. Aumenta cada vez mais a distanciamento entre ricos e pobres: são poucos os que se tornam mais ricos e muitos os que se tornam mais pobres. Descobriu-se a tecnologia de produção de alimentos, mas aumentou-se o número dos que passam fome. A preocupação das grandes potências econômicas do planeta não está na erradicação da fome e da miséria do mundo, mas no fortalecimento injusto dos mercados, na procura de lucros cada vez mais altos. Quando a crise aumentou no mercado norte-americano, eles injetaram 700 bilhões de dólares para a contenção; o mesmo fez o Japão na data da publicação deste artigo: injetou uma verba extra de 54 bilhões de dólares para ajudar a economia japonesa a não cair na recessão. Diante disto, pergunto: Por que não utilizar todo esse montante de dinheiro para erradicar a fome na África?...

O que é que o Natal de Jesus tem a ver com isso? Falar do nascimento do Salvador da humanidade é pensar na realidade e buscar transformá-la. A transformação concreta dos problemas sociais é posterior a uma séria reflexão dos sinais dos tempos. Refletir sobre os sinais dos tempos é procurar VER a realidade e tentar entende-la aos olhos da fé cristã. O Natal de Jesus é muito significativo para quem se propõe a JULGAR a vida a partir do projeto de salvação proposto por Jesus. Jesus veio a este mundo com a missão de restaurar o homem e a humanidade. Esta restauração consiste na construção do Reino de Deus. E este Reino é justiça e paz para todos. Toda pessoa que crer que Jesus é o Senhor e Salvador é convidada a AGIR na construção do Reino de Deus. Nenhum cristão pode fugir na missão de ser um agente transformador da realidade na qual está inserido.

É nesta perspectiva que espero ter contribuído para uma reflexão mais profunda de nosso tempo. Não podemos “dormir”, precisamos vigiar. E vigiar significa está atento aos sinais dos tempos e aquilo que o Espírito nos revela. Abrir o coração para compreender e acolher a mensagem de Jesus é tornar-se disponível para a missão. Que o Emanuel, Deus conosco, nos sensibilize, para que possamos ser mais sensíveis às realidades sofridas de tantos irmãos e irmãs que estendem a mão pedindo nossa compreensão e ajuda. Que o amor de Jesus se torne efetivo em nós, tornando-nos mais humanos e mais humildes diante da vida.

FELIZ NATAL!

Tiago de França da Silva

Colônia Leopoldina – AL, 20 de dezembro de 2008.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mercado da fé


Estive observando a realidade religiosa de Colônia Leopoldina - AL, desde que cheguei, há uma semana. Fortaleza, cidade em que realizo os estudos preparatórios para o sacerdócio, é uma capital onde há uma diversidade religiosa marcante. Colônia Leopoldina está numa situação semelhante, claro que em número muito menor. São dois os pontos que me chamam a atenção diante da pluralidade das ofertas religiosas em ambas as realidades:
1- O alto crescimento de seitas;
2- O grande número de migrações de pessoas nas mesmas.
O surgimento exacerbado de seitas aponta para dois graves problemas:
1 - As pessoas não têm certeza de sua fé nem têm espírito de pertença à sua igreja;
2 - Há uma forte carência espiritual que impulsiona as pessoas a buscarem soluções para seus problemas.
A partir de uma análise teológica da fé e da religião, observa-se um espírito fortíssimo de incerteza nas pessoas e em suas relações com a religião. Cada vez mais cresce na consciência das pessoas a idéia de que professar a fé é frequentar um templo, a fim de que Deus possa resolver os problemas que surgem. As igrejas ou seitas que surgem, têm como objetivo atender às necessidades temporais e espirituais das pessoas. A leitura bíblica que as seitas fazem é puramente deturpadora, ou seja, apresentam Jesus como fonte de solução para todos os problemas. Escutei, certa vez, o bispo Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, dizer: "Quanto mais você investir em Jesus, mais ele agirá em ti e em tua família". A fé, neste sentido, baseia-se numa troca: eu dou a Jesus uma quantidade de dinheiro e ele resolve os meus problemas financeiros e espirituais. Não há dúvidas de que se trata de um verdadeiro mercado religioso. Utiliza-se da boa fé das pessoas e da Palavra de Deus contida na Bíblia, para tirar das pessoas o dinheiro conseguido com muito suor. E no caso dos pobres, tira-se da boca do pobre aquilo que lhe resta para sobreviver. É uma triste realidade que cresce cada vez mais e que não corresponde à vontade de Deus. Pode-se perguntar: Por que esta realidade cresce tanto entre nós? A resposta não é nenhum mistério, porque os interesses são explícitos. Antes, precisamos partir do mandato de Jesus. O que Jesus pediu? Quem ler o Evangelho sabe que Jesus mandou anunciar a Boa Nova da salvação à toda a humanidade. Foi somente isto que Jesus pediu: EVANGELIZAR. É bom que fique claro: Jesus pediu para evangelizar, não para explorar as pessoas. Toda pregação e anúncio que visa pagamentos e retribuições é falso anúncio e exploração. Quem prega o Evangelho visando tirar das pessoas 10% ou mais de sua renda, é falso profeta e mentiroso. E não adianta usar a Bíblia para convencer as mentes daquelas pessoas que nada entendem da Bíblia. Jesus, no capítulo 10, versículo 13 do Evangelho de João chama de MERCENÁRIO todo aquele que engana e tira proveito do rebanho do Senhor. Quem é o rebanho do Senhor? É toda uma sociedade, que perseguida pelo sofrimento, procura em Deus ajuda e Nele deposita sua confiança, mas que encontra centenas e centenas de pastores e pastoras, que ao invés de ajudar, aprovoveitam-se da situação de sofrimento das mesmas. Além de ser um pecado horrível contra Deus, esta é uma realidade que se tornou uma injustiça social. São milhares as pessoas que são enganadas e que vão parar na justiça procurando recuperar as posses perdidas por falsas promessas de bênçãos. A situação se agrava porque percebe-se também uma onda de lavagens cerebrais, que tornam as pessoas convencidas de enriquecimento e curas absurdas. Os pastores e pastoras parecem dominar as forças divinas, realizando curas mentirosas e caluniosas, brincando com a Palavra de Deus. Não há dúvidas de que estamos diante de falsos profetas e falsos evangelizadores, apontados pelos evangelistas Mateus e João, juntamente com o Apóstolo Pedro. É preciso denunciar essa situação injusta e dizer para as pessoas que todo cristão é livre e que Deus condena tal abominação religiosa, que ao invés de libertar, escraviza cada vez mais.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Advento: preparação para o Natal e parusia do Senhor


A Igreja reservou um tempo na liturgia para o cristão pensar, rezar e viver uma preparação para a vinda do Cristo e memorizar seu nascimento. Pensar no nascimento de Jesus é situá-lo em seu contexto histórico. Como Jesus veio ao mundo? Esta pergunta nos revela muitas coisas. Primeiro, Jesus não é um ser extraterrestre. Ele não pode ser identificado como uma entidade espiritual. Jesus é uma pessoa. Uma pessoa que tem duas naturezas e forma uma só realidade: ele foi humano e consubstancial ao Pai ao mesmo tempo. Ele se submeteu a tudo e a todos. Não fugiu de sua condição nem de sua realidade. Foi plenamente humano. O teólogo Leonardo Boff certo dia disse que “humano como Jesus só sendo Deus”. Ninguém foi perfeitamente tão humano quanto Jesus, o Nazareno. Não usou de sua igualdade para com Deus para aproveitar-se dos homens, alienando-os e explorando-os. Jesus teve a oportunidade de governar todo o mundo, mas não veio a este mundo com este projeto. O mundo já tem seus governos, ele não precisava tomar o poder de ninguém. Jesus recusou e condenou toda forma de poder que oprime o ser humano. E esta recusa o levou à morte de cruz, porque esta recusa estava acompanhada de denúncias explícitadas. O medo não fazia parte da vida de Jesus. Ele teve medo como todo ser humano tem, mas não se deixou dominar. Foi um homem plenamente corajoso e fiel aos desígnios de Deus. É este o Salvador que celebramos na Solenidade do Natal do Senhor todos os anos. O Advento é o momento litúrgico-espiritual no qual os católicos são convidados a esperar e vigiar.
A figura do profeta João Batista é muito forte no Advento do Senhor. Ele preparou o caminho para Jesus passar. E batizando o Messias no rio Jordão, confirma-o na missão. É a partir do batismo que Jesus inicia sua atividade missionária nos povoados, estradas e vilarejos. João Batista reconhece o Messias prometido pelos profetas. Realmente, Jesus confirma as profecias do Antigo Testamento apresentando-se como o missionário do Pai que veio evangelizar os pobres. Optando pela pobreza radical e pelas vias “impuras” de seu tempo, demonstra claramente de que lado Deus está. Os profetas diziam que Javé está do lado dos oprimidos e contra os opressores, e a ação missionária de Jesus confirma esta opção. Quem não ler e não acreditar em Jesus nesta perspectiva pode não entender Jesus e segui-lo de forma equivocada. O Advento chama-nos para a conversão neste sentido: é preciso revisar a maneira de vermos Jesus, para podermos mudar algumas atitudes antievangélicas.
A realidade do mundo atual exige de cada pessoa um repensar de posturas. A humanidade caminha por estradas que levam a morte. Celebrar a vigilância não é olhar para o céu e esperar que as nuvens se abram e de lá venha o Libertador da humanidade, aquele que resolverá todos os nossos problemas. Os problemas não são de Jesus, mas nossos. Ele caminha conosco e nos auxilia. Por que é que a transformação do mundo demora tanto para acontecer? Porque a grande maioria dos homens e mulheres não está agindo conforme seu credo e sua fé. Se formos analisar os milhões de pessoas que estão voltadas para o sagrado, mas nada fazem pelo bem comum do planeta é de se lamentar!... O homem pós-moderno precisa superar um dos piores males do sistema capitalista: o egoísmo. Um exemplo disso está na maneira como os norte-americanos vêem o mercado internacional e lidam com a crise financeira e moral: eles só se preocupam com o bem-estar deles. Não estão preocupados com as conseqüências do regime capitalista na vida dos países emergentes, que sofrem porque não suportam os impactos dos números milionários. Aí está a verdadeira crise que está por trás da crise financeira: a crise de humanidade. Vigiar significa está atento aos sinais dos tempos e alimentar a esperança de que outro mundo é possível. Que o Advento nos motive e nos reanime na caminhada, nos confirme na fé e nos fortaleça no seguimento de Jesus.


Tiago França

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A promoção e a defesa da vida


Estamos assistindo aos atentados terroristas na Índia, que já dizimaram mais de cem pessoas e trezentos feridos. Os EUA preparam-se para receber os soldados enviados ao Iraque com a missão de construir o que eles chamam de democracia. A juventude brasileira está cada vez mais imersa na violência e na prostituição. Milhares de pessoas são assassinadas diariamente em todo mundo, vítimas da violência incontrolável. O mundo até parece um calderão efervescente, onde as pessoas matam umas às outras num gesto de desamor à vida. As pessoas vivem assustadas, sentem-se ameaçadas, não dormem e nem têm paz... Até quando aguentaremos esta situação?... O que está acontecendo com os seres humanos?...
São diversos os fatores que levam a humanidade ao caos que estamos assistindo e vivendo. Podemos resumir em uma só palavra toda esta situação: desamor, falta de amor. Na Bíblia diz o Apóstolo João: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus” (1 Jo 4,16). O homem precisa conhecer a Deus, e este conhecimento não é teórico, mas prático. Conhece-se a Deus por meio do amor, porque Ele é amor. Por isso, quem ama conhece a Deus e nele permanece. E quem permanece em Deus é incapaz de fazer e permanecer no mal. Eis o centro e o sentido da fé cristã: viver o amor. “Ama e faz o que queres”, disse Santo Agostinho. A vocação cristã está alicerçada no amor. Não se pode falar de cristãos e de Cristo sem pensar no amor, porque este é a essência da fé cristã.
O mundo que temos é fruto do desamor. Somente no amor o homem consegue ser feliz. Fora do amor não há felicidade. O grande mal de todos os tempos e mais ainda do tempo presente é o esquecimento de Deus. Cada vez mais, as pessoas estão voltadas para aquilo que é material. O sistema capitalista construído sobre fundamentos materialistas e individualistas está assassinando muitas pessoas. Segundo este sistema que escraviza e aliena, ter a vida é possuir bens. Quem não produz nem possui está excluído e não tem vida. O capitalismo ensina que a vida do homem está no comprar e no vender. Quem se deixa seduzir pela doutrina deste sistema não está em paz, porque jamais se sacia, sempre quer ter mais.
Os bens são necessários à vida. Os homens precisam comer, vestir-se, ter uma casa, viajar, trabalhar, estudar, ter saúde, comunicar-se. São necessidades básicas comuns a todo homem, são direitos inalienáveis. Todo ser vivo precisa do básico para viver. Utilizando-se de sua inteligência e criatividade, o homem inventou as tecnologias. O objetivo é oferecer conforto, segurança e facilitar a vida. Quase tudo se tornou mais fácil. Uma das tecnologias mais eficientes desenvolvidas pelo homem é a rede mundial de computadores (Internet). Por meio desta, consegue saber muitas coisas, viajar e conhecer o mundo em fração de segundos, sem precisar sair do lugar. São muitas as vantagens e comodidades, mas mais inúmeros ainda são os males e as desvantagens. Um dos principais males consiste na grande parcela da humanidade que não tem acesso a estes bens e a estas tecnologias (exclusão). E esta exclusão gera marginalização e morte. É de assustar o fato de o homem avançar tanto em tecnologia e conhecimento e permitir que 925 milhões de pessoas passem fome todos os dias no mundo. A fome se globalizou! Enquanto os milionários investidores das bolsas de valores lutam para não perder seus bilhões de dólares, temos no mundo mais de nove centos milhões de pessoas que não tem o que comer.
A partir desta constatação percebe-se o quanto insensível tornou-se o homem. Para se ter uma idéia, a Microsoft, do empresário Bill Gates, tem um faturamento anual de 44 bilhões de dólares (dado de 2007). O capitalismo faz com que uma só empresa tenha um rendimento de mais de quarenta bilhões de dólares por ano!... Como pode um homem como Bill Gates afirmar que crer em Deus?!... Acreditar seria uma contradição, se for analisar na ótica de Jesus, o pobre de Nazaré. Não quero demonizar o capitalismo com suas tecnologias, mas apenas recordar que temos muita gente na miséria por causa deste sistema impiedoso e assassino.
Deus não criou o homem para a infelicidade. Quando criou o mundo, de nada esqueceu. Entregou ao homem tudo em ordem. “Deus viu tudo o que havia feito e era muito bom” (Gn 1, 31). O homem destruiu e continua destruindo os frutos da bondade de Deus, e além de destruir a natureza está destruindo também a própria vida, que é dom de Deus. A vida está ameaçada. Será que falaremos em extinção humana da face da Terra?... Se o curso da história continuar como está, parece que sim!... Aqui aparece a missão do cristão: promover e defender a vida. Jesus Cristo, enviado ao mundo por amor do mundo e do homem, veio ensinar que a vida deve está em primeiro lugar. Todo poder, toda lei, toda ideologia que for contra a vida deve ser denunciada pelos cristãos, pois o verdadeiro cristão não pode calar-se diante das ameaças à vida. A Igreja deve ser a voz que grita para o mundo e neste grito deve dizer: O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é Vida e quer a vida do homem. Nós não aceitamos o assassinato da vida do homem e do mundo, porque o Caminho que anunciamos é o caminho da vida e da liberdade.
Tiago França

domingo, 23 de novembro de 2008

Onde estão os profetas?



A presente reflexão busca compreender o sentido desta pergunta e procura respondê-la. Antes, é preciso responder a outra pergunta: o que é um profeta? Houve, há e sempre haverá profetas e profetisas, homens e mulheres escolhidos e enviados por Deus para anunciar a Boa Notícia e denunciar as injustiças que acontecem no mundo. A missão do profeta é anunciar e denunciar. Se não há anúncio nem denúncia, não há profetas. Se fizermos uma leitura do Antigo Testamento da Bíblia veremos que havia os profetas da corte e os profetas do povo de Deus. Foi a partir do profeta Elias que temos esta divisão. Os profetas da corte eram funcionários dos reis. Sua função era legitimar o poder dos reis. Para que o povo obedecesse cegamente aos reis, era necessária uma confirmação divina das decisões, e esta vinha por meio dos profetas. Os profetas eram os homens dos oráculos e da vidência (cf. 1Sm 10,10; 19,20 – 24), gozavam de grandes prestígio e credibilidade junto ao povo. Os profetas de Javé formavam um grupo autônomo e clandestino. Eram respeitados e bem aceitos entre o povo pelos sinais que manifestavam, mas a característica principal deles era sua posição diante do poder dos reis. Eles denunciavam as injustiças praticadas pelo poder real. Logo, eles estavam do lado do povo. Eram homens de oração e de vivência. Homens simples e trabalhadores. Os profetas de Javé eram gente do povo. Eles tinham uma forte intimidade com Deus (experiência de Deus) e viviam a realidade dos pobres (experiência da realidade). Eles apontavam três caminhos para se chegar à conversão: o caminho da justiça, o da solidariedade e o da mística. Eles viviam segundo estas três dimensões. Os profetas da corte que defendiam e legitimavam os crimes dos reis são considerados falsos profetas. No Novo Testamento temos Jesus e os Apóstolos como os profetas de Deus. Jesus é o profeta por excelência, e foi reconhecido como tal (cf. Jo 6,14).
Desde suas origens a Igreja teve profetas e profetisas. A Igreja, fundada sobre os fundamentos dos Apóstolos é chamada a ser boca de Deus no mundo. Logo, como coluna da verdade e da unidade do gênero humano, a Igreja é convidada a anunciar Jesus, que é a Boa Notícia, e a denunciar os crimes praticados na humanidade. Está é sua missão profética. Todo aquele que aceita seguir Jesus e é batizado em seu nome é profeta, do contrário, não é cristão. Não é possível separar o ser cristão do ser profeta, pois ser cristão é ser profeta na Igreja e na sociedade. No filme Dom Hélder Câmara, o santo rebelde, diz Leonardo Boff: “O profeta é o homem da palavra e dos gestos. Não pode ter amor ao próprio pescoço”. Esta verdade resume o sentido da vocação profética. Tomando o próprio Dom Hélder como profeta veremos que ele era um homem da palavra e da ação, pois denunciou no Brasil e no mundo, os horrores da ditadura militar (1964 – 1985). Quando ameaçado de morte dizia: “Eu não tenho medo da morte. Estou nas mãos de Deus”. Escutando Dom Hélder Câmara percebe-se que o profeta confia incondicionalmente em Deus. Ele entrega-se nas mãos de Deus e confia na sua Palavra. O profeta é o homem que escuta Deus e convida a humanidade a voltar-se para Deus. É aquele que restabelece e renova a Aliança entre Deus e os homens quebrada pelo pecado. A Ir. Doroth Stang é outro grande exemplo. Abraçou o martírio por amor ao Reino de Deus. O testemunho deste santos e santas jamais podem ser esquecidos, pois já dizia o grande teólogo Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Observando a Igreja atual parece que está havendo uma crise de profetas. Os cristãos, em sua grande maioria, estão caindo na tentação de salvar a própria vida. Esqueceram da palavra do Mestre que disse: “Quem procurar salvar a própria vida vai perdê-la e quem perde a sua vida por causa de mim vai salvá-la” (cf. Mt 10,39). Os cristãos estão se dando demais às orações e shows religiosos. Nosso Senhor não nos pediu isso. O que ele pediu foi a continuidade da construção do Reino de Deus, baseado no amor e na justiça. A grande maioria dos “seguidores de Jesus” se recusa a trabalhar com suor e sangue pelo Reino porque se trata de um caminho estreito, difícil. O cristianismo midiático e festivo é mais fácil, mas este não tem nada que ver com o Evangelho de Jesus. O seguimento de Jesus não está na satisfação dos desejos, mas compromisso evangélico com a realidade gritante deste mundo em crise de humanidade.

Tiago de França da Silva

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Reza, Maria (poema)


Suam no trabalho as curvadas bestas
E não são bestas
São homens, Maria!

Corre-se a pontapés os cães na fome de ossos
E não são cães
São seres humanos, Maria!

Feras matam velhos, mulheres e crianças
E não são feras, são homens
E os velhos, as mulheres e as crianças
São os nossos pais
Nossas irmãs e nossos filhos, Maria!

Crias morrem à mingua de pão
Vermes na rua estendem a mão à caridade
E nem crias, nem vermes são
Mas aleijados meninos sem casas, Maria!

Do ódio e da guerra dos homens
Das mães e das filhas violadas
Das crianças mortas de anemia
E de todos os que apodrecem nos calabouços
Cresce no mundo o girassol da esperança

Ah! Maria,
Põe as mãos e reza
Pelos homens todos
E negros de toda parte
Põe as mãos
E reza, Maria!

(José Craveirinha, Moçambique - África)

domingo, 16 de novembro de 2008

Irmã Dorothy Stang, uma prova de amor pela vida


Todas as vezes que escuto falar do martírio da Irmã Dorothy Stang fico revoltado e ao mesmo tempo feliz. Revoltado porque o latifúndio parece um câncer incurável em nosso país. A situação é tão visível e a justiça brasileira parece não enxergar nada, funciona lentamente e absolve por unanimidade àqueles que são os verdadeiros culpados pelos crimes. São pouquíssimos os criminosos que são julgados e condenados por crimes ambientais neste país. No caso da Irmã Dorothy, os condenados foram os executores do crime, não os mandantes, que são os responsáveis pelo crime. Quem manda matar é que deve ser preso, porque uma vez absolvido encontrará outros pistoleiros para mandar matar outros profetas e profetisas que vivem denunciando tantas injustiças sociais e ambientais. A falta de justiça provoca revolta na população e a revolta destrói a paz. Isto explica o fato de o Brasil ser um país tão violento. Onde não há justiça, não há paz; porque a paz é fruto da justiça. A impunidade é um dos grandes problemas sociais do Brasil. Ela alimenta o ódio e a vingança dos homens que só pensam em destruir a natureza e contribuir com o fim da democracia brasileira. A impunidade afeta diretamente os direitos humanos, porque é um atentado à dignidade da natureza e da pessoa humana. Por outro lado, na morte da Irmã Dorothy encontramos a vida da natureza defendida por ela. É na morte que a vida nasce. É com a morte dos profetas e profetisas que a Igreja encontra forças para continuar na luta pelos direitos humanos. A morte da Irmã Dorothy reforça cada vez mais o espírito dos homens e mulheres de boa vontade, que com coragem e ousadia profética doam sua vida pela preservação da Terra, nossa Casa comum, e na luta dos direitos dos mais pobres e excluídos, que já não têm mais força nem voz para lutar. Se os criminosos e mandantes pensaram que matando a Irmã Dorothy acabariam com a luta pela vida da floresta, enganaram-se profundamente. Eles pensam dessa forma porque desconhecem a história dos mártires da Igreja ao longo dos séculos. Toda a Igreja necessita estudar, aprofundar, rezar e contemplar a vida e o testemunho dos mártires, porque a Igreja foi fundada sobre o sangue dos primeiros cristãos. A Igreja só existe por causa do sangue dos primeiros cristãos, que corajosamente enfrentaram o poder dos reis e imperadores em nome de Jesus e de seu Reino de amor e de justiça. Não valorizar o testemunho dos mártires é esquecer as origens da Igreja e trair o projeto original e fundacional. O mártir é aquele que dá testemunho da verdade e morre por ela. Sendo Jesus a verdade, todo mártir morre por Jesus e quem morre por ele tem a vida eterna. Por isso, com toda a certeza de nossa fé, a Irmã Dorothy faz parte da grande multidão que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Apocalipse 7,14). Que que seu testemunho nos encoraje cada vez mais a sermos cristãos coerentes, fiéis observantes do mandamento de Jesus que é o AMOR.

Tiago de França

sábado, 15 de novembro de 2008

"Deixai toda esperança, ó vós que entrais" - Dante


São noites de silêncio
Vozes que clamam num espaço infinito
Um silêncio do homem e um silêncio de Deus.
Talvez seja esta a vonz humana de nosso tempo.
Quem o entende?
Como se faz entender?
E quando fala, o que diz?
Senhor, vivestes esta hora junto ao vosso pai amado.
Para que buscastes esta forma de vida?
Por que orastes? Por acaso não sois vós Deus?
Que pedias? Por que não disseste aos teus amigos
teus encontros em noites escuras e de trevas?
Afastado num monte, belo, simples como toda beleza
tu pediste ao teu Pai, a tua paz, o teu sentido
Da tua missão,
Da tua paixão,
Da tua solidão.
Algumas vezes, quando te encontro te vejo só. Incompreendido.
Também abandonado.
Meu pai, meu pai, por que me abandonaste?
Senhor, será que teu Pai te abandonou?
Quanto a mim, estou só. Num mundo; não sei qual mundo.
Talvez da incerteza, mas também da Esperança:
de um dia ver-te face a face.
Como gostaria de ver
e de perguntar apenas:
O que queres de mim?
Por acaso, não me chamaste à vida?
E por que me abandonas?
ou será que meus ouvidos
já estão surdos à tua voz?
Vozes do silêncio,
Vozes das dores,
Voz de um sofrimento mesclado com tua maneira
de ser diante de mim.
Qual é a palavra de teu silêncio?
O meu, tu bem sabes...
Nem mesmo compreendido.
Não retires de mim teu Espírito
Nem se afaste de minha face.
Mas que eu te veja!
Mostrai-me teu rosto, para que seja um acalanto
Um canto de minar da criança que se entrega
inteira
Aos teus braços de consolo e de paz.

Frei Tito de Alencar, OP.
L'Arbresle, 1973 ou 74

sábado, 1 de novembro de 2008

Morte e vida


A morte continua sendo um mistério na vida do homem. É a única certeza que há no destino humano. Ninguém escapa da morte. Todos, ricos e pobres, têm o mesmo destino: a morte. Neste sentido todos são iguais. O dia de finados é a data que faz lembrar que todos são pó da terra. A morte nem é entendida nem aceita entre os humanos dotados de razão (capacidade de pescrutar o sentido das coisas). A morte parece não ter sentido, pois simplesmente põe um fim na existência material do homem. Jesus deu um sentido para a morte. Se lermos o Evangelho de Jesus veremos que ele teve medo da morte e quis livrar-se dela. Ele tinha poder para isso, como Filho de Deus, mas optou por fazer a vontade de Deus. E a vontade de Deus era que ele fizesse novas todas as coisas por meio de seu sangue derramado na cruz. A morte de cruz era um dos piores, talvez o pior tipo de morte de seu tempo. Jesus foi obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,8). O mistério é muito grande e insondável. Jesus, Filho de Deus, consubstancial ao Pai, morre na cruz. Sendo consubstancial ao Pai ele é Deus e sendo Deus morreu na cruz. Como entender isso? Só Deus sabe. A razão é limitada para explicar tal acontecimento histórico. É importante crer que nem o Filho de Deus escapou da morte. A grande Boa Notícia é que no terceiro dia JESUS RESSUSCITOU dentre os mortos. Esta é a mensagem central do Cristianismo, pois como diz o Apóstolo São Paulo, se Jesus não tivesse ressuscitado, vã seria nossa fé (1 Cor 15,14). A Ressurreição é vitória de Jesus diante da morte: O Cristo venceu a morte. Logo, a morte deixa de ser a última sentença, a última palavra sobre a vida humana. Ela dar um fim no corpo material, que também no último dia será ressuscitado, conforme as Escrituras. Acreditar na Ressurreição de Jesus é crer que a vida não tem fim. A morte é apenas um ponte que leva o ser humano a viver uma outra vida, que é eterna e boa. Eterna porque a morte não existirá mais, e boa porque consiste na contemplação de Deus, a plena visão, novo céu e nova terra, a plenitude do Reino de Deus. É um mistério revelado em Jesus, que se vive no amor e na justiça. A liturgia da Igreja neste Dia de Finados convida cada cristão à vigilância. Jesus voltará. ninguém sabe o dia nem a hora. Sabe-se que voltará. É preciso vigiar sem cessar... Vigiar significa colocar-se a serviço do Deus da vida que liberta o homem do poder da morte. São muitas as forças de morte atuando no mundo. O cristão espera Jesus combatendo estas forças e construindo o Reino de Deus. Quem esperar Jesus de braços cruzados, sem nada fazer pelo bem comum, vivendo isolado no seu mundo egoísta e mesquinho, não terá olhos para ver o Redentor da humanidade e nem terá parte com ele. Enquanto há vida no corpo e no cosmos o homem precisa agir por meio do amor, pois o amor é a força que renova todas as coisas. Jesus salvou a humanidade por meio do amor. Deus enviou Jesus ao mundo porque amou muito o mundo (Jo 3,16). Nada está perdido, porque Deus tudo pode e acolhe a todos, pois enviou seu Filho unigênito para a salvalção de todos. A missão de Jesus foi de salvar o que estava perdido (Mt 18,11). Vejamos o que diz o documento Sacrossanctum Concilium no n.5 a respeito da missão salvadora de Jesus Cristo: "Deus, que «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (I Tim. 2,4), «tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas» (Hebr. 1,1), quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração, como ,médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os homens. A sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação. Por isso, em Cristo «se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino". Esta é a garantia que temos de que Jesus é verdadeiramente nosso Salvador. A missão da Igreja é anunciar este Jesus ao mundo, o Cristo evangelizador dos pobres que trouxe vida para todos. Façamos a memória dos mortos na certeza que eles nos anteciparam no Reino de Deus.

domingo, 26 de outubro de 2008

O amor e a missão


O texto do Evangelho do XXX Domingo do Tempo Comum da liturgia da Igreja (Mt 22, 34 - 40) reflete sobre o maior mandamento, aquele que é mais importante na vida de quem segue a Jesus: O AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Desde todos os tempos os cristãos sempre refletiram sobre sua missão neste mundo. Apareceram várias correntes teológicas, contruíram-se várias reflexões, pensaram vários caminhos. Mas, toda a reflexão teológica cristã destes 21 séculos resume-se na seguinte verdade: DEUS É AMOR E QUER QUE NOS AMEMOS UNS AOS OUTROS. O amor é o sentido e a base da espiritualidade do caminho de Jesus. Sem o amor não há caminho de Jesus, mas suposições ilusórias. A compreensão deste amor é simples. O próprio Jesus viveu o amor de Deus para ensinar seus seguidores a fazerem o mesmo. Viver o amor sempre foi um desafio porque a vivência do amor se contrapõe a valores que desumanizam o ser humano, criado a imagem e semelhança de Deus. O amor supera todas as forças do mal que operam no ser humano e no mundo. O mundo só será uma Casa possível quando os que nela habitam se conscientirem que a transformação do mundo vierá para prática do amor. Há muitas pessoas que amam e são amadas. É por isto que o mundo está sendo possível para muita gente. Os valores justiça e paz existem no mundo por causa das pessoas que amam, porque quem ama vive a justiça e a vivência desta provoca a paz. É por isso que se diz que a paz é fruto da justiça. O século XXI está marcado pela violência e pelo processo de destruição da vida. O mundo perdeu a consciência ética da preservação da vida. Os ambientalistas, filósofos e teológigos apontam para o surgimento de uma consiência planetária. O teólogo Leonardo Boff afirma que a Terra é a Casa comum dos seres vivos e não vivos e que o CUIDADO para com a natureza é extremamente urgente, porque a humanidade, dia após dia, caminha para a morte plena do planeta. A realidade ecológica é a maior prova de que o ser humano não aprendeu a amar a natureza. Ele esqueceu que é parte desta natureza. Surge uma indagação: Se o ser humano não consegue amar a si mesmo e aos outros de sua espécie, como vai conseguir amar a natureza?... O problema da relação entre os humanos reflete na degradação da natureza. O fato é que a natureza está sendo dizimada e que a ausência do amor na vida das pessoas está causando a morte da vida na Terra. O homem precisa revisar sua maneira de ser e de agir no mundo, pois percebe-se uma visão deturpada da natureza, como seus recursos fossem ingesgotáveis e infinitos. A natureza é a Mãe que sente a dor da exploração e está clamando por justiça, por meio das catástrofes que estão ocorrendo na atualidade. A solução para todo esse problema está no AMOR. Só o amor reconstrói o ser humano e com a reconstrução deste, naturalmente a natureza também se regenera. Refletindo sobre o AMOR do ponto de vista religioso temos o papel do Cristianismo. A Igreja já se declarou defensora da vida humana. Há um processo de conscientização religiosa a respeito da preservação e com o cuidado com a vida. Leonardo Boff deixou de escrever sobre temas especificamente teológicos e eclesiásticos para pensar a questão ecológica. Suas contribuições estão sendo valiosíssimas para a Igreja e para o mundo, porque para defender a natureza o homem precisa conhecer a riqueza do universo natural. A Igreja está dizendo para o mundo que quem ama promove e defende a vida, porque amor é vida, amar é viver. Na cotidiano da vida, por meio de gestos e palavras, todos são responsáveis pela promoção e defesa do amor e da vida. O respeito, a solidariedade, o perdão, a justiça, a paz, a amizade, a consciência planetária, o cuidado, o diálogo e tantos outros valores éticos e cristãos são gestos concretos de amor e vida. E Deus disse a Ezequiel: "Não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva" (Ez 33,11). O homem precisa se converter ao amor, pois só por meio desta conversão é que conseguirá viver. Esta é a missão do cristão: amar e viver.

sábado, 11 de outubro de 2008

O sofrimento na vida cristã


Sabendo dos pesados dias em que passa a humanidade, resolvi escrever sobre o sofrimento humano do ponto de vista da fé cristã. Tenho assistido a muitas pessoas em situações de risco e também tenho sofrido no seguimento de Jesus.
Antes de tudo é preciso fixar algumas verdades importantes nesta reflexão:
a) O sofrimento faz parte da condição humana;
b) O sofrimento faz parte da vida dos seguidores e seguidoras de Jesus;
c) O sofrimento também está atrelado à nossa condição de pecadores;
d) Jesus é o modelo por excelência de sofredor, apresentando-se como o Servo Sofredor;
e) A caminhada do povo de Deus se faz num caminho estreito e perigoso.
Compreender o sofrimento é muito importante. Todo sofrimento tem uma causa, um motivo. O cristão precisa dar sentido ao seu sofrimento, pois ninguém sofre à toa. A natureza da cada ser vivo não aceita o sofrimento porque este causa mal estar físico, psicológico e até espiritual. Desde o processo de gestação de uma criança até a morte na velhice o sofrimento sempre fez parte do ser humano. Diante disso, pode-se perguntar: e onde fica a felicidade? Ela existe? É inegável que ela existe. Claro que a felicidade existe! Só que há um detalhe na reflexão sobre a felicidade, que consiste na existência da felicidade plena. Esta só existe na plena visão de Deus, ou seja, o ser humano só será plenamente feliz quando estiver com Deus. E este está com Deus é o fim último do gênero humano. Só na eternidade com Deus o homem será plenamente feliz. O mundo não oferece a felicidade plena. A felicidade do homem é humana e condicional. É um estado passageiro de bem estar para alguns. Digo alguns porque não são todos os seres humanos que têm uma vida digna. Mesmo que o homem tenha tudo o que considera bom ao seu alcance, ainda não é feliz. Aqui está a angústia dos que possuem riqueza material, pois possuem tudo, menos a verdadeira paz. Como pode uma pessoa viver em paz tendo tudo, enquanto tantos milhões no mundo não têm o mínimo para viver?
“Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga”, disse Jesus em Mt 16, 24. Esta é a exigência de Jesus para toda pessoa que deseja segui-lo. São três passos: renunciar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo. Atender a essas exigências é abraçar o sofrimento. Em muitas outras citações evangélicas, Jesus exige renúncia àqueles que desejam segui-lo. Se não há renúncias não há seguimento. Se o cristão não aceita tomar a cruz, não pode ser considerado cristão. Quando o sofrimento humano está ligado ao sofrimento de Jesus, este sofrimento tem sentido evangélico. Quando o sofrimento está ligado à causa do Reino de Deus, trata-se de um sofrer edificante. O sofrimento dos mártires é um exemplo disso. Quem são os mártires? São pessoas que escutando a voz de Deus na realidade do mundo, anunciam a Boa Notícia e denunciam as injustiças, e por causa disso, são perseguidos e mortos. Neste sentido, a maior tentação que o seguidor de Jesus sofre é a de buscar uma vida tranqüila, sem perturbações, sem incômodos, sem perseguições. Quando encontramos pessoas que dizem: “Não me comprometa! Não tenho nada que ver com isso! Quem tiver seus problemas que resolva!” Estas são pessoas que buscam fechar os olhos diante da realidade, evitando se comprometer com a mesma. Mas, por que isso acontece? Porque estas pessoas procuram viver em “paz”. Na verdade, são as mais angustiadas porque se recusam viver confirme o convite de Jesus. Faz parte da natureza humana fugir e não aceitar o sofrimento, pois o nosso ser físico pede conforto, mas a condição cristã pede-nos renúncia a uma falsa tranqüilidade de espírito. Os cristãos da Igreja Primitiva eram pessoas que se sentiam mais felizes nos momentos mais desafiantes da missão. Os imperadores romanos e oficiais do exército ficavam admirados sem entender a alegria dos cristãos diante da perseguição e da morte.
Alguns que não pensam muito no sentido da vida, da existência humana e sobre a ação de Deus no mundo afirmam: “Deus não existe, pois se ele existisse não permitiria tanto sofrimento”, “Deus é o causador do mal, pois ele permite tal situação de miséria humana”. Pensar dessa forma é desconhecer e negar a essência de Deus. Diante de tais acusações, basta afirmar: “Deus é amor e bondade”. Deus criou o ser humano livre. O homem é livre até para negar a Deus, que o concedeu a vida e a liberdade. Quando se afirma que o homem é livre para fazer o bem e para fazer o mal, isso já explica a realidade do mundo. Toda a maldade que há no mundo é fruto da ação humana. O mal não é criação do demônio, mas do homem. O homem não é mal na sua essência, mas pratica a maldade. Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, logo ninguém pode dizer que o homem é mal. Mas, o mal se infiltrou no mundo por escolha do próprio homem que se voltou contra Deus. O homem é livre para evitar e fazer o mal. Quando o homem não age conforme a vontade de seu Criador, termina por trilhar caminhos que não são os de Deus, caminhos que não elevam o homem a Deus. É uma questão de escolha. Deus respeita a escolha do homem e não interfere na sua liberdade. “Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias”, disse Jesus em Mt 15, 19. Facilmente o homem procura colocar a culpa no demônio pelos males que acontecem no mundo, mas na verdade não é o demônio que está construindo as estruturas de pecado, mas o próprio homem, consciente ou inconscientemente. Na sua essência, Deus é amor e bondade, logo é incapaz de fazer o mal. O mal não provêm do amor e da bondade, afirmar isso seria uma grave contradição e um pecado contra o próprio Deus.
Mesmo sendo tentado pela sua condição humana, Jesus não renunciou ao sofrimento das perseguições e da morte de cruz. Ele foi fiel ao projeto de Deus de resgatar o ser humano de todo o pecado e opressão. Jesus lutou contra as forças da morte que reinavam e ainda reinam no mundo. Sua ressurreição é o ápice de sua mensagem. A ressurreição de Jesus é a resposta de Deus perante os poderes opressores que regem este mundo. Optando pela condição sofredora dos pobres, Jesus quis dizer à humanidade que Deus existe e que quer a vida do homem. A mensagem de Jesus é um forte apelo em favor da vida do homem e do mundo. A vinda de Jesus é sinal de que Deus não abandonou a humanidade corrompida pelo pecado. O desejo que a Palavra de Deus deixa transparecer é que Deus quer ver o homem livre e feliz. E que esta liberdade e felicidade deve ser uma conquista do próprio gênero humano. Deus optou por não conceder “de mãos beijadas” a liberdade ao ser humano, mas com o auxílio de sua graça, o homem pode chegar a possuir a Deus, e possuir a Deus é ser plenamente livre. A caminhada do povo de Deus na história da humanidade mostra claramente isso. É uma caminhada difícil de realizar, mas possível porque Deus está presente na história. A Sagrada Escritura mostra muito bem a ação dinamizadora e libertadora de Deus em favor do homem. Quando o profeta Isaías disse que o Messias era o Emanuel, que quer dizer Deus está conosco (cf. Is 7, 14), quis dizer que Deus não está sentado em seu trono de glória observando “de braços cruzados” a situação do mundo, mas que o Deus da vida está trabalhando junto com o homem na instauração do Reino de Deus. O caminho que leva à vida plena é estreito. As estradas do Senhor são pedregosas. Por isso, toda pregação que anuncia um Deus que dá tudo a todos sem exigir nada de nossa parte, é mentirosa e antievangélica. A Teologia da Prosperidade vivida pelo neopentecostalismo é uma distorção do Evangelho de Jesus. Trata-se de uma reflexão superficial que está desviando muitas pessoas do verdadeiro caminho de Deus. Tal reflexão recria um Cristianismo descomprometido com a realidade dos pobres sofredores deste mundo. Falam de sofrimento e de fé, mas não aceitam o compromisso com a mudança das estruturas religiosas, sociais e políticas. Falam de conversão, mas não de uma transformação da pessoa no serviço do amor gratuito. “Invocam sem cessar a Bíblia, mas desconhecem seu conteúdo”, disse o teólogo Joseph Comblin em seu livro O Caminho, ensaio sobre o seguimento de Jesus. A Igreja Católica precisa revisar seu método de evangelização, pois a Teologia da Prosperidade está cada vez mais se infiltrando nas realidades eclesiais que se recusam a um maior compromisso com a libertação integral do ser humano. A Igreja não pode se tornar um instrumento de cura espiritual. Todo o documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II ensina que a Igreja é sacramento universal de salvação. E esta salvação é integral, ou seja, não se trata de anunciar a salvação da alma humana. Jesus não veio ao mundo salvar as almas, mas integralmente o homem (corpo e espírito). Deus salva o homem de sua condição espiritual e material de pecado, por isso que o pecado social passou a fazer parte do discurso e do método de evangelização da Igreja. O trabalho de evangelização que não leva em consideração a situação concreta do homem não pode ser considerado anúncio do Evangelho. “Como núcleo e centro da sua Boa Nova, Cristo anuncia a salvação, esse grande dom de Deus que é libertação de tudo aquilo que oprime o homem, e que é libertação, sobretudo do pecado e do maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por ele conhecido, de o ver e de se entregar a ele. Tudo isto começa durante a vida do mesmo Cristo e é definitivamente alcançado pela sua morte e ressurreição; mas deve ser prosseguido, pacientemente, no decorrer da história, para vir a ser plenamente realizado no dia da última vinda de Cristo, que ninguém, a não ser o Pai, sabe quando se verificará”, n. 09 da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, do Papa Paulo VI. Nas palavras do Papa Paulo VI encontra-se o verdadeiro sentido da Evangelização na vida da Igreja.

Tiago de França da Silva
Seminarista

sábado, 4 de outubro de 2008

São Francisco de Assis e a Igreja


Quando Deus quer interferir na história da Igreja e da humanidade, ele se faz presente nas circunstâncias da vida. O Deus de Jesus é um Deus presente. Os cristãos acreditam nesta presença, que é real e que também é misteriosa. É misteriosa porque nem todo cristão consegue ver a Deus nas circunstâncias da vida. A história bíblica revela que Deus se revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Esta foi a escolha de Deus: optar pelos mais fracos, pelos oprimidos, pelos desumanizados de todos os tempos e lugares. Aí está o sentido do seguimento de Jesus: fazer a mesma opção que ele fez, imitá-lo. A história da Igreja está marcada pelos testemunhos dos mártires e santos, que deram a vida por causa do Evangelho do Reino. E no grande número dos santos de Deus está Francisco de Assis, nascido no século XII. A Igreja no tempo de Francisco era a Igreja da Idade Média, voltada para a conquista do poder junto ao Estado. No discurso teológico, Deus estava no centro da reflexão (teocentrismo) e a Igreja era considerada a "dona da verdade". Foi neste contexto de Igreja que Francisco nasceu e foi educado. Inicialmente, homem rico e entregue à tudo aquilo que a riqueza poderia oferecer. A conversão do jovem Francisco deu-se no encontro com os pobres de seu tempo: leprosos marginalizados das ruas de Assis. Resolveu abraçar a Senhora Pobreza como esposa por toda a vida. Tornou-se um pobre entre os pobres. E neste despojamento de tudo que era material, iniciou seu novo projeto de vida: seguir Jesus no espírito de pobreza, na simplicidade e humildade. São Francisco fundou a Ordem dos Frades Menores, em 1209 e teve a aprovação da regra pelo Papa Inocêncio III. Qual a regra da Ordem fundada por ele? Viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Toda a vida de São Francisco de Assis muito questiona a vivência dos atuais cristãos em todo o Cristianismo. São Francisco faz lembrar a Igreja, já no século XII, que a Igreja deve estar do lado dos pobres, sendo pobre como os pobres. Quando Deus responde a Francisco: "Vai e reconstrói a minha Igreja", está apontando justamente nesta direação: Jesus deseja que a Igreja seja mais humilde, mais simples, mais humana, mais missionária. Ao mesmo tempo em que era um místico estigmatizado, São Francisco de Assis era o homem da ação huamana entre os humanos. Ele renunciou ao mundo vivendo humanamente no mundo, pois vivia simples e humildemente no meio dos pobres e em plena comunhão com a Mãe Natureza. Para ele toda a Criação é Irmã do homem e a missão deste é justamente viver em plena sintonia com esta natureza. Qual o legado que São Francisco deixa para a Igreja e para a humanidade? Resumidamente, podem-se dizer que são dois: o amor misericordioso pelo próximo e o cuidado com a natureza. As atitudes dele revelavam um homem que quis reconstruir a Igreja por meio do amor, porque sabia que só o amor é que converte o ser humano. Ele sabia que não eram as leis nem os dogmas da religião que convertiam as pessoas, mas o amor de Deus vivido na relação fraterna. Morreu em 03 de outubro de 1226 e em 1228 foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Tornou-se patrono da ecologia e padroeiro da Europa e um dos santos mais populares da Igreja em todo o mundo. Dom Hélder Câmara, que era devoto dele, disse: "Há homens que, vivendo profundamente a problemática do seu tempo e de seu povo, são tão humanos que permanecem como inspiração para todos os tempos e todos os povos. Francisco de Assis é um desses homens raros que, ao longo dos séculos, das latitudes e longitudes, interpelam, questionam, desinstalam".
- São Francisco, modelo de missionário do Pai,
rogai por nós!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

São Vicente de Paulo e a opção preferencial pelos pobres


A Igreja reservou o dia 27 de setembro para celebrar a memória de um de seus maiores santos: São Vicente de Paulo. Sacerdote de oração e ação, homem evangélico sempre atual, amante da caridade missionária e iniciador de um grande projeto. A vasta biografia deste grande ícone da caridade na Igreja não me permite apresentar em um breve artigo sua fecunda história de amor pelos pobres. Portanto, tenho a intenção de expor brevemente aquilo que já foi escrito e estudado por muitos e que constitui o centro da espiritualidade da Família Vicentina: o seguimento de Jesus Evangelizador dos pobres.
“A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza” (cf. 2 Cor 8, 9) [1]. O que o Papa Bento XVI quis dizer com isso? Na fé professada em Jesus está implícita a opção preferencial pelos pobres. E quem é este Deus? É aquele que desceu até nós, tornou-se “igual a nós, exceto no pecado” [2]. Ele é o Emanuel, o “Deus que está conosco” [3]. A riqueza do cristão é ter consigo este Deus. Quando São Vicente leu a passagem da Escritura que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu; e enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres” [4] entendeu o chamado de Deus que o interpelava para assumir com a vida esta opção. Falando às Filhas da Caridade, ele expressa sua alegria e consolação: “Quanto a mim, minhas Irmãs, eu vos confesso que jamais senti maior consolação do que quando tive a honra de servir aos pobres” [5]. Estas palavras nos falam do sentimento que brota do coração de São Vicente de Paulo. Lendo com os olhos fé vemos e sentimos um homem apaixonado pelos pobres.
Na reflexão teológica pós-conciliar os pobres ganharam lugar de destaque. Os documentos conciliares, e especialmente os das Conferências do CELAM, apresentam uma preocupação evangélica pela situação dos pobres no mundo. E já no século XVII, deixando-me iluminar pela Palavra de Deus, São Vicente de Paulo soube entender e viver a opção que se tornou o núcleo do sentido do trabalho de evangelização da Igreja na América Latina. São Vicente de Paulo entende a evangelização da seguinte maneira: “A evangelização dos pobres é um ofício tão importante que foi, por excelência, o ofício do Filho de Deus. a ele nós nos aplicamos como instrumentos dos quais se serve o Filho de Deus que continua a fazer no céu o que fez na terra” [6]. Neste pensamento percebe-se explicitamente a opção preferencial pelos pobres implícita na fé cristológica. Para São Vicente de Paulo, Jesus é o modelo de missionário. O Cristo de São Vicente é o missionário do Pai. Quando escreveu ao Pe. Portail, um dos primeiros membros da Congregação da Missão, ele diz: “Lembre-se Pe. Portail, que vivemos em Jesus Cristo pela morte de Jesus Cristo, e que temos que morrer em Jesus Cristo pela vida de Jesus Cristo; que nossa vida deve está oculta em Jesus Cristo e plena de Jesus Cristo, e que para morrer como Jesus Cristo devemos viver como Jesus Cristo” [7]. A partir destas sábias e santas palavras, pode-se afirmar que o carisma vicentino é eminentemente cristológico e totalmente voltado à evangelização dos pobres. Esta é a identidade da Família Vicentina, composta de homens e mulheres, leigos e ordenados, consagrados para desenvolver esta árdua missão.
Os vários escritos de São Vicente de Paulo são considerados instruções sobre o verdadeiro exercício da caridade. No tempo de São Vicente de Paulo os pobres eram esquecidos. Esquecidos pela sociedade e pela Igreja. O clero de seu tempo estava voltado para a busca do ter e do poder, imerso num verdadeiro lamaçal de corrupção. Inicialmente, o próprio Pe. Vicente de Paulo também almejava participar deste infortúnio eclesiástico, mas tocado pela graça de Deus que se manifestou pelas influências de diretores espirituais como São Francisco de Sales, do Cardeal de Bérulle e André Duval e a realidade gritante dos oprimidos marginalizados, São Vicente de Paulo encontrou o verdadeiro sentido da vida e fim último do homem: o Deus de Jesus Cristo na pessoa do pobre. Este encontro marcou tanto sua vida, que ele declara para os Padres da Congregação da Missão por ele fundada: “Jesus Cristo é a regra da Missão” [8], e as Constituições rezam que “Jesus é o Centro de sua vida e de sua ação” [9]. Por isso, tantos os Padres como os demais membros dos demais ramos que constitui a Família Vicentina, deve ter em Jesus o fundamento e a força que encoraja e anima no exercício da caridade organizada.
Um dos alimentos do missionário e da missionária na missão do seguimento de Jesus segundo tal opção é a oração. Falando aos Padres da Missão, São Vicente de Paulo fala da importância que se deve dar à oração: “Dá-me um homem de oração e ele será capaz de tudo. Pode-se dizer como o apóstolo: tudo posso naquele que me fortalece. A Congregação durará enquanto praticar com fidelidade a oração, que é como a fortaleza inexpugnável que defende os missionários contra toda espécie de ataques” [10]. Dificilmente, um missionário pode desenvolver bem sua missão sem este alimento salutar. O mundo pós-moderno está levando ao desespero muitos cristãos, que por falta da intimidade com Deus, que se dá por meio da oração, estão perdendo as esperanças e o sentido da existência. O vicentino não pode chegar a este estado, porque aprendeu com seu Fundador a necessidade de rezar. A falta de oração torna as pessoas insensíveis diante dos sofrimentos do próximo, pois assim como Jesus mostrou a São Vicente de Paulo o verdadeiro sentido do ser cristão, que é o servir os pobres, este mesmo Cristo continua hoje apontando para estes mesmos pobres.
O carisma vicentino permanece atual porque os pobres nunca deixaram de existir. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o número de pessoas com fome no mundo passou de 850 milhões para 925 milhões em 2007, notícia publicada no dia 17 do corrente mês. Estamos diante de uma realidade que clama por socorro. O capitalismo exacerbado dos países ricos e industrializado está acentuando cada vez mais a miséria no mundo. A partir de uma leitura teológica desta realidade pode-se afirmar que esta é uma situação pecaminosa grave, que provoca a ira de Deus, pois Deus não criou os seres humanos para morrerem de fome sobre a face da Terra. O que isso tem que ver com o carisma vicentino? O que São Vicente de Paulo faria se estivesse conosco? Com certeza ele denunciaria essa aberração contra os pobres e assim como Madre Teresa de Calcutá, Dom Hélder Câmara. Ir. Doroth Stang e tantos outros e outras, que deram sua vida em prol da libertação integral do ser humano e da promoção da dignidade humana. Organizar e conscientizar os pobres devem ser o primeiro passo. Isso significa fazer com o que o pobre construa sua própria história, denunciando também toda forma de assistencialismo alienante e toda falsa prática da fé.
Finalizo esta breve reflexão expondo a visão que São Vicente de Paulo tinha dos pobres, para que também nós não os percamos de vista em nossa ação pastoral como Igreja de Jesus Cristo: “Não devemos considerar um pobre camponês segundo o seu exterior, nem segundo o alcance do seu espírito. Ainda mais quando freqüentemente quase não têm a figura, nem o espírito de pessoas racionais, tanto grosseiros e terrestres. Mas, virai a medalha e vereis, pela luz da fé, que o Filho de Deus, que quis ser pobre, nos é representado por esses pobres. Ele quase não tinha figura humana, em sua paixão. Passava por louco, no espírito dos pagãos, e por pedra de escândalos, no espírito dos judeus. E com tudo isso, ele se qualifica evangelizador dos pobres! Ó meu Deus, como é belo ver os pobres, se os consideramos em Deus e na estima que Jesus Cristo teve deles” [11]. São Vicente de Paulo, rogai por nós!

Tiago de França da Silva
Seminarista Lazarista

Notas:
[1] Discurso Inaugural proferido pelo Papa Bento XVI na Sessão Inaugural dos Trabalhos da V CELAM, 3;
[2] Hb 4, 15;
[3] Mt 1, 23;
[4] Lc 4, 18;
[5] X, 681;
[6] Conferência aos Padres da Missão (Correspondência, Conferências, Documentos. Paris, 1920 – 1925, vol. XII, trechos, p. 80 – 87;
[7] I, 230;
[8] XI, 429;
[9] Constituições da Congregação da Missão, nº 5;
[10] XI, 778;
[11] XI, 30.

domingo, 21 de setembro de 2008

Trabalhar na vinha do Senhor


O texto do Evangelho deste 25º Domingo do Tempo Comum é Mt 20,1 - 16. Trata-se da parábola do patrão que chamou trabalhadores para a sua vinha. É um texto rico em detalhes, que merece uma profunda reflexão, mas aqui irei destacar somente alguns verbos de ação que revelam o sentido original do texto. Um deles é o verbo CHAMAR. O patrão chamou trabalhadores para trabalhar. Este patrão é Deus. A vinha pode ser o mundo e a Igreja. Sendo o mundo, o Senhor chama cada pessoa humana a trabalhar pelo bem comum de todos. Como habitantes de passagem deste mundo, os homens são chamados por Deus para trabalhar, contribuir para a construção de um mundo melhor. Cada ser humano deve contribuir para um outro mundo possível: sem violência, sem fome, sem desamor... A Igreja está no mundo, e nela cada batizado é chamado a ser membro ativo. Trabalhar na vinha do Senhor é praticar a fé na dimensão do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Como instrumento da verdade e da vida no mundo, a Igreja Povo de Deus é chamada a ser sinal de libertação do mundo presente. Esta libertação só acontece através do amor grauito de Deus semeado nos corações dos homens. Tendo o amor de Deus, o homem é capaz de amar o próximo sem limites fazendo com que surjam novo céu e nova terra. A parábola fala dos "primeiros" e dos "últimos". Na pedagogia do amor de Deus acontece a inversão daquilo que pensamos, ou seja, quem chegou cinco da manhã irá receber o mesmo valor de quem chegou às cinco horas da tarde; quem se afirma ser o primeiro, irá ser recebido por último. Quem são os primeiros de nossa sociedade e de nossa Igreja? São aquelas pessoas que se julgam melhores e mais santas que às outras; são os considerados "justos" de nossa sociedade; os que assumem cargos e encargos importantes; são as pessoas aplaudidas e tidas como figuras respeitáveis da sociedade civil e eclesiástica. Estes primeiros serão os últimos... E quem são os últimos de nossa sociedade e Igreja? São todos os excluídos e esquecidos da sociedade; aqueles que são considerados "descartáveis", que tiram a beleza das praças públicas, que são chutados e chamados de "vagabundos" por aqueles que se acham trabalhadores; são os que não praticam a religião, que não recebem os sacramentos, os que são considerados "perdidos" por muitos que pensam que têm fé; entre tantos outros maltratados pelo sistema neoliberal. Estes últimos serão os primeiros no Reino de Deus. Agora, cada um deve olhar para si e perguntar-se: Quem sou eu? O que revelam minhas atitudes?...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O corpo de Cristo (escrito patrístico)


Isto é o que disse Pai Daniel, o Faranita: "Nosso Pai Arsenius nos contou sobre um habitante de Scetis, de vida digna e fé simples; pela sua ingenuidade, ele foi enganado e disse, "O pão que recebemos não é verdadeiramente o Corpo de Cristo, mas um símbolo. Dois anciãos souberam que ele dissera aquilo, conhecendo seu modo de vida correto acreditaram que ele não falara por malícia, mas por simplicidade. Então, vieram a ele e disseram: "Pai, ouvimos da parte de alguém uma proposição contrária à fé, que disse que o pão que recebemos não é verdadeiramente o corpo de Cristo, mas um símbolo. O ancião disse, "fui eu quem disse isso." Então os outros dois o exortaram dizendo, "não mantenha essa crença, Pai, mas aquela em conformidade com o que a igreja Catolica nos deu. Acreditamos, de nossa parte, que o pão por si mesmo é o Corpo de Cristo, como no início, Deus formou o homem à sua imagem, tomando do pó da terra, sem que ninguém possa dizer que ele não é a imagem de Deus, mesmo que não pareça. Do mesmo modo, com o pão do qual ele disse, "este é meu corpo", assim nós cremos que é verdadeiramente o Corpo de Cristo. O ancião disse-lhes, "Enquanto eu não for convencido pela coisa em si, não estarei completamente convicto." Então eles disseram, "Vamos rezar a Deus sobre este mistério por toda a semana e acreditamos que Deus vai nos revelar isto." O ancião ouviu isso com alegria e rezou nessas palavras, "Senhor, vós sabeis que não é por malícia que eu não creio, e, de maneira que eu não erre por ignorância, revele isto a mim, Senhor Jesus Cristo." Os dois homens voltaram a suas celas e rezaram também a Deus, dizendo, "Senhor Jesus Cristo, revele esse mistério a esse homem de modo que ele creia e não perca sua recompensa." Deus ouviu suas preces. Ao final da semana eles vieram à igreja no domingo e se sentaram todos os três no mesmo tapete, o ancião no meio. Em seguida seus olhos se abriram e quando o pão foi colocado na mesa sagrada, aparecia-lhes uma criança pequena, sozinha. E quando o sacerdote estendeu a mão para partir o pão, viram um anjo descer do céu com uma espada e servir o sangue da criança no cálice. Quando o padre partiu o pão em pedacinhos, o anjo também cortou a criança em pedaços. Quando se aproximaram para receber os sagrados elementos o ancião sozinho recebeu um pedaço da carne sangrenta. Vendo isto, ficou com medo e gritou, "Senhor, eu creio que isto é vosso corpo e este cálice vosso sangue." Imediatamente a carne que ele segurava em suas mãos se tornou pão, de acordo com o mistério e ele o tomou dando graças a Deus. Em seguida os dois homens lhe disseram, "Deus conhece a natureza humana e sabe que o homem não pode comer carne crua e é por isso que ele mudou seu corpo em pão e seu sangue em vinho, para aqueles que o recebem na fé. "Em seguida, deram graças a Deus pelo ancião, porque Ele não permitiu que o mesmo perdesse a recompensa pelo seu trabalho. Então, todos três retornaram com alegria para suas celas."

sábado, 6 de setembro de 2008

O amor e a liberdade


A segunda leitura da liturgia deste domingo, 23º do Tempo Comum, tem como tema central o amor mútuo. O Apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos diz: “...quem ama o próximo está cumprindo a lei” (Rm 13,8). O amor faz com que as pessoas jamais se ofendam umas às outras. As crianças da favela do Recife cantavam para Dom Hélder Câmara escutar: “Só o amor constrói”. Quem verdadeiramente ama o próximo está incapacitado de fazer o mal, porque o amor nos cumula de uma força e de um poder que nos impede de fazermos o mal. O mal está fora do amor. Sendo Deus amor, o mal não provém de Deus. O mal é invenção nossa. O mal é a falta do amor no coração das pessoas. Quando a pessoa não ama, termina por fazer o mal. Jesus não fazia o mal porque vivia impulsionado pelo amor, que é o próprio Deus. Quando o livro do Gênesis afirma que somos imagem e semelhança de Deus, dessa forma afirma também que somos imagem e semelhança do amor. É por isso que podemos afirma sem medo de ser feliz: fomos criados para amar. Deus é amor e nos criou para amá-lo. Ele nos ama e quer que nós O amemos. Quando o poder do amor toma conta das pessoas, tudo se transforma e o Reino de Deus se realiza em cada pessoa amada. O Reino de Deus não é outra coisa senão a humanidade amando-se e amando a Deus. Voltar-se para Deus significa voltar-se para o irmão e amá-lo do jeito que ele é, sem indiferenças nem hipocrisias. Quem ama cumpre a lei porque jamais pode transgredi-la. O amor gera em nós uma obediência a Deus, que é bom e fiel. Paulo finaliza o texto deste domingo afirmando categoricamente: “Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (v. 10). Quem ama está cumprindo toda a lei. O grande Santo Agostinho também afirmou: “Ama e faz o queres”. Só o amor pode libertar integralmente o ser humano. Fora do amor o ser humano não é e nem pode ser livre nem se libertar. O amor é tudo na vida de quem segue a Jesus. Foi o amor incondicional pelo ser humano que fez Deus dar seu único e amado Filho para a redenção da humanidade (Cf. Jo 3, 16). Não houve e nem haverá prova de amor maior que a do próprio Deus por cada pessoa que nasce neste mundo. Deus nos ama e nos quer bem e a partir da vivência desta certeza é que somos felizes, porque seremos capaz de amor e sermos amados.
Também neste domingo celebra-se o Dia da Pátria, a festa da Independência do Brasil, que no calendário civil está registrado no dia 7 de setembro de 1822. A verdade é que não somos um país livre, mas que estamos trabalhando para a conquista da liberdade. Conquistar a liberdade é um processo histórico lento, que se dá na medida em que cada brasileiro toma consciência de seu papel como cidadão. O Brasil vai se libertando a partir do momento em que cada brasileiro vai se conscientizando de seus direitos e deveres. A libertação sempre foi um desejo ardente de cada ser humano em seu processo histórico neste mundo. Todos almejam a liberdade. Ninguém aceita ser escravo de ninguém. Todos nascem para a liberdade, apesar dos condicionamentos que a vida nos impõe. O fato de o Brasil ser um país em que a maioria do povo professa a fé cristã pode ajudar no processo de libertação. Mas pode também atrapalhar, caso a fé não seja essencialmente vivida e direcionada para a vivência da liberdade. Crer na democracia significa crer que se pode construir um país livre e soberano. A realidade mostra um grande retrocesso na vida política, em que a corrupção está gritando mais forte. Isto não significa que o país está perdido. A solução está no resgate dos verdadeiros valores democráticos e este resgate se dá no pleno exercício da cidadania, por meio do voto direto e das reivindicações e lutas pelos direitos humanos. Pode-se afirmar que os políticos representam o povo brasileiro, e se alguns não “prestam” é porque teve uma parcela da população que não soube votar conscientemente. Mas, apesar dos pesares da conjuntura política de nosso país, o Brasil ainda tem jeito!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vocação: chamados a servir


Eis o que disse Jesus a Simão e seu irmão André: “Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens” (Mc 1, 17). Este mesmo convite é estendido a toda pessoa que aceita Jesus e é batizada em seu nome. A presente reflexão tem como pretensão reanimar o chamado de Jesus e aprofundar este chamado em vista da evangelização do mundo. Neste mês de agosto a Igreja volta seu olhar para um assunto fundamental do conteúdo de nossa fé: o chamado de Deus.
Refletir sobre o chamado de Deus é uma necessidade constante de toda pessoa que se sente chamada pelo Senhor. Pois, para sermos seguidores de Jesus precisamos conhecê-lo. Vamos tentar responder às questões:
- Quem nos chama? Como nos chama?
- O que devo responder? Como responder?
- O que fazer depois de uma resposta madura e consciente?

A primeira frase do nº 129 do Documento de Aparecida afirma: “Por assim dizer, Deus Pai sai de si para nos chamar a participar de sua vida e de sua glória”. Somos chamados a participar da vida de Deus e de sua glória. Deus quer partilhar de sua intimidade conosco. Participar da vida de uma pessoa é sinal de amor e confiança. “Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2, 24). A união do homem e da mulher prefigura nossa união com Deus. Assim como o homem se torna uma só carne unindo-se à mulher, todo ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), é chamado à participar de sua divindade, de sua vida. Só o ser humano, entre todos os seres vivos da terra, é que tem esse privilégio. Como participar da vida divina? Esta é uma questão que foi pensada e meditada desde os primórdios do povo de Deus no antigo Israel até nossos dias. Os Padres da Igreja são unânimes em dizer que o nosso fim último é o próprio Deus. A comunidade dos cristãos pertence a Cristo. Eis o que afirma a Apóstolo Paulo: “... mas vocês são de Cristo e Cristo é de Deus” (1 Cor 3, 23). Nós pertencemos a Deus. Ele é que é nosso guia. A vida divina não está fora de nosso mundo. Vivemos uma vida com Deus neste mundo. Antes de tudo, Deus nos chama à vida. Esta vida é divina porque está ligada a Deus. Aí entra o papel da religião: religar o gênero humano a Deus. Participar da vida divina significa crer que Deus é vida e a partir dessa crença, agir conforme a vontade de Deus. Quem aspira a vida divina precisa obedecer a vontade de Deus. Para viver com Deus precisamos saber onde ele está e como está agindo. Onde está Deus? Na liturgia não cansamos de responder: “Ele está no meio de nós!” E Jesus nos garantiu: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). O mesmo evangelista confirma o que disse o profeta: “Ele será chamado de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco” (1, 23). Não há dúvidas de que Jesus permanece em nosso meio e participa na construção do Reino de Deus. A nossa glória está na alegria de sabermos que Deus não nos abandonou em meio às trevas de nossos erros. Ele nos chama a sermos seguidores de seu Filho Jesus Cristo. Aproximemo-nos, pois, de Jesus para conhecê-lo melhor. Esse aproximar-se nos revela a resposta à indagação: Como ele nos chama? Não esperemos que Deus nos chama por meio de visões, sonhos ou êxtases. Ele nos chama a partir de nossa vida, de nossa realidade. A partir da experiência e da vocação de Jesus aprendemos que Deus não é um enigma, mas um Pai amoroso que se revelou nas pessoas e situações simples da vida humana. Em Jesus, Deus se tornou humano para ser compreendido e amado por aqueles e aquelas que foram criados à sua imagem e semelhança. Deus se encarnou na história da humanidade. Este foi seu querer. Se não compreendermos a encarnação divina na história humana, não compreenderemos a nossa verdadeira vocação. O ser humano compreende a si mesmo a partir de sua compreensão de Deus. Se somos imagem e semelhança de Deus, ao compreender este Deus estaremos compreendendo a nós mesmos. Compreender e conhecer a Deus não quer dizer que devemos ser doutores em Teologia. Vejamos a importância que o evangelista dá ao conhecimento de Deus, quando cita as palavras de Jesus: “Ora, a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17, 3). Conhecer a Deus e a Jesus é possuir já neste mundo a vida eterna. Para alcançar a sabedoria divina e/ou conhecer a Deus não é necessário tornar-se sábio ou inteligente, pois a estes o Senhor não se revela (Cf. Mt 11, 25). Deus nos chama por meio de nossa vida. A partir de uma leitura evangélica podemos afirmar que ele se torna mais presente nos momentos mais sofridos da vida, especialmente da vida dos pobres. Estes nos revelam a vontade de Deus. Deus nos fala através dos pobres. A experiência dos pobres mostra o poder e a presença de Deus na história. Quem ignorar os pobres está ignorando o próprio Deus. Assim sendo, o clamor dos pobres torna-se a voz e o clamor de Deus. Isso explica a paixão de Jesus pelos pobres, esquecidos e marginalizados das sociedades de todos os tempos. Ele nos chama a sermos promotores da vida. E os pobres, que são massacrados pelo sistema neoliberal, são os principais destinatários da salvação. Ignorar esta verdade é não entender da verdade do Evangelho de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres” (Lc 4, 18). Esta é a verdade e não há outra. Desviar o sentido desta palavra é se opor à vontade de Deus que se manifestou nas ações de Jesus para com os pobres.
Qual a nossa resposta diante do chamado de Deus? E como responder a este chamado? A resposta a estas questões damos com a vida. O grande pacifista da humanidade, Mahatma Gandhi, disse: “Não tenho mensagem para dizer, minha mensagem é a minha vida”. Toda a vida de uma pessoa que segue Jesus deve ser uma resposta definitiva ao chamado de Deus. Para respondermos a Deus precisamos saber antes respondermos a outra pergunta: Para que Deus me chama? É indiscutível que Deus nos chama. Isso é uma certeza. Deus chama a todo ser humano para o bem, para fazer o bem. Cada pessoa tem sua maneira de ser e dessa forma, chamada a fazer o bem a seu modo. Não importa a religião nem a condição da pessoa, importa escutarmos a voz de Deus e dar-lhe uma resposta madura e consciente. “Senhor, que queres que eu faça?” Ele nos dá sua resposta, porque se mostrou necessitado de nossa ação. Deus precisa de nós? Isso mesmo! Ele quis partilhar sua vida conosco e isto interpela nossa participação. Essa participação na vida divina é recíproca. A nossa vida se une a Deus e Ele se solidariza conosco. Responder a Deus é colocar-se a seu serviço. Quem se opõe a servir não pode dizer que respondeu ao chamado de Deus, pois descobrimos os verdadeiros seguidores de Jesus a partir do serviço que presta à comunidade cristã. O serviço fraterno, que é o amor ao próximo, é a marca indelével do seguimento de Jesus, ou seja, quem não ama não segue Jesus. O amor é a condição do seguimento, é a marca que confirma e identifica. A resposta ao chamado deve ser madura e consciente, pois precisamos viver conscientemente a opção de seguir Jesus. Seguir Jesus é uma opção, porque temos outras opções que o mundo nos coloca. Somos livres para optarmos por seguir Jesus. Quem faz essa opção não pode colocar a mão no arado e olhar para trás (Cf. Lc 9, 62). Atentos a realidade e aos sinais dos tempos, somos chamamos a discernir o chamado de Deus. Deus nos chama em função da construção do Reino de Deus. O chamado é algo pessoal: Deus chama a cada pessoa pelo nome. Mas a resposta é coletiva: chamados a servir aos irmãos e irmãs. Por isso, separar vocação de serviço é algo impossível. Falso profeta é aquele que afirma ser enviado por Deus ou consagrado ao Senhor, mas que se recusa a servir à comunidade. Conhecemos os discípulos de Jesus pelo amor serviçal praticado na vida.
Em nosso atual contexto de mundo e de Igreja o serviço fraterno torna-se cada vez mais desafiador. O documento Gaudium et Spes nº 17 afirma: “Mas é só na liberdade que o homem pode se converter ao bem”. Isso significa que a vocação cristã não pode ser vivida fora da liberdade. Precisamos ser livres e libertar as pessoas para o seguimento de Jesus. O teólogo José Comblin afirmou: “Uma libertação integral exige um processo pelo qual cada pessoa se liberta a si mesma e desfaz todos os laços que a mantêm presa ao passado, para construir laços de uma sociedade livre” (Cf. O espírito Santo e a Libertação. Série II. Petrópolis, 1987, p. 160). Cada pessoa é convidada a se libertar. Paulo Freire, famoso cientista da educação, costumava dizer que “ninguém liberta ninguém, nos libertamos em comunidade”. Os cristãos, especialmente os católicos, possuem um peso muito grande na maneira de ser Igreja, que é a tradição. A grande maioria de nossos católicos está presa e até escrava da tradição. Vivenciar o chamado de Deus sendo escravo da tradição é impossível. Não é que a tradição em si mesma seja um mal na Igreja. O que é preciso é absorver da tradição aquilo que é bom e que pode ser vivido em nossos dias. Construiu-se uma Igreja espiritualista, à margem da sociedade humana. Pensaram uma sociedade misteriosa e espiritual implantada no mundo, mas sem contato com ele. Essa é a Igreja da Cristandade, que predominou na Idade Média. Disse Dom Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito de São Félix do Araguaia, MT: “A Igreja era virgem e pura enquanto habitava as catacumbas. Quando saiu das catacumbas se amasiou com o império” (Em entrevista a Caros Amigos, SP, fevereiro de 2000). Não precisamos citar os pecados da Igreja do passado e do presente, pois já são bastante conhecidos. Este desprendimento do passado é uma necessidade urgente para muitos fiéis e clérigos de nossa Igreja. Esta prisão ideológica e doutrinal em relação à Cristandade e à visão de Igreja construída pelo Concílio de Trento está impossibilitando a muitos a viver coerentemente a vocação cristã. Esta prisão faz um mal que é ainda pior: causa conflito entre os cristãos da mesma Igreja. Uns aceitam o Vaticano II e buscam traçar sua história vocacional segundo seus princípios e decisões, outros consideram o Vaticano II um erro por parte da Igreja e ainda ousam afirmar que o Vaticano II dispersou os cristãos e desorganizou a Igreja. O que o chamado de Deus tem a ver com isso? Todo cristão age conforme a doutrina que crer. Se creio na doutrina de Jesus, minhas ações condizem com as de Jesus. A doutrina da Igreja busca se configurar a doutrina de Jesus. Se a visão de Igreja é a de Trento, então irei agir como se estivesse nos tempos de Trento. Foi isso que preocupou o Santo Padre João XXIII e o levou a convocar um novo Concílio. A proposta dele foi o aggiornamento, palavra italiana que em português podemos traduzir por atualizar-se, atualização. O Papa bom propôs a atualização dos princípios da Igreja à realidade. Uma atualização prudente e coerente. Pessoalmente, penso que somente pelo fato de o Papa João XXIII ter tido a coragem profética e evangélica de convocar um novo Concílio com tal proposta, já demonstra sua fidelidade à missão apostólica e sua santidade pessoal. Foi um Papa que escutou e atendeu aos apelos do Espírito que assiste a Igreja ao longo da história. Diante disso, se não tivermos a coragem de nos desprendermos de nossa velha catequese, então fica difícil construirmos a Igreja missionária sonhada pelos Bispos reunidos na V CELAM, em Aparecida, SP. Na verdade, esta Igreja missionária é um sonho de todos os católicos de boa vontade que acreditam na proposta do Concílio Vaticano II. A formação teológica de nossos Seminários precisa se converter neste sentido, pois do contrário, continuaremos alimentando uma Igreja que já faleceu e foi sepultada pela história. A grande maioria de católicos que não aceitam a ressurreição desta “Igreja falecida” espera de nós o aggiornamento proposto pelo Papa João XXIII. A revisão do estado presbiteral em nossa atual Igreja é uma questão de urgência, pois a mentalidade de nossos fiéis está mudando e eles não estão aceitando mais certos comportamentos e homilias que não correspondem com a realidade. Na Sessão Inaugural da V CELAM, em Aparecida, SP o Papa Bento XVI propõe que os sacerdotes “tem de ser, como Jesus, um homem que procure, através da oração, o rosto e a vontade de Deus, cultivando igualmente sua preparação cultural e intelectual”. Uma boa preparação intelectual e cultural possibilita ao leigo e ao presbítero ter uma visão ampla e aberta da realidade e da Igreja.
Uma mente aberta não ignora as novidades que o Espírito faz brotar no seio da Igreja. O novo sempre causou medo naqueles que são inimigos das mudanças, mas estas são urgentemente necessárias. Mudar de mentalidade é desarmar-se e ir ao encontro da sociedade secularizada e globalizada de nossos dias, sem hipocrisias nem dogmatismos. O seminarista de hoje é o padre de amanhã falando de Deus ao mundo. Caso se recuse a fazer uma leitura orante, evangélica e coerente da realidade da vida no mundo, por mais que fale bonito às multidões, num curto intervalo de tempo tudo cairá no esquecimento! A mudança de mentalidade na Igreja e na sociedade exige um programa de formação que vise a conscientização das pessoas e o pleno conhecimento da vontade de Deus e seu projeto. Trata-se de um caminho exaustivo, pois não é fácil renunciar a convicções que foram construídas e ensinadas durante séculos. Exige-se também uma revisão nas estruturas da Igreja, seus organismos, dioceses e congregações; pois a história já provou que as estruturas têm atrapalhado bastante na evangelização do povo de Deus. Tudo isso requer abertura e boa vontade. Tais transformações devem ocorrer sábia e prudentemente, na fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. Cada vocação na Igreja, no silêncio e na perseverança, cofiando na graça e na misericórdia de Deus, é chamada a ir dando passos rumo às grandes transformações; pois no Reino de Deus as coisas acontecem aos poucos, lentamente. O nosso Deus é paciente e bondoso, ele não está preocupado com o tempo, mas com a felicidade humana que se concretizará plenamente na plenitude do Reino entre nós. A história também nos mostra, que apesar das fraquezas, a Igreja tem dado alguns passos rumo à conversão. O pedido de perdão realizado pelo Papa João Paulo II na abertura do Terceiro Milênio foi um sinal positivo. Quando se fala em mudança de mentalidade, o lugar em que a mesma pode ocorrer eficazmente é na formação seminarística, pois os padres são na Igreja e para a Igreja, construtores de opinião. E se eles opinam de forma equivocada, infelizmente levam a muitas pessoas ao erro e ao anti-Reino. Faço votos de que o Espírito de Amor, que sonda até as profundezas de Deus (Cf. 1 Cor 2, 10) nos ajude no nosso processo de conversão. Que São Vicente de Paulo nos ajude com sua intercessão a sermos fiéis seguidores de Jesus na fidelidade aos pobres.

Tiago de França da Silva,
Seminarista

domingo, 31 de agosto de 2008

A arte de calar (autor desconhecido)

Calar sobre sua própria pessoa, é humildade.
Calar sobre os defeitos dos outros, é caridade.
Calar, quando a gente está sofrendo, é heroísmo.
Calar diante do sofrimento alheio, é covardia.
Calar diante da injustiça, é fraqueza.
Calar, quando o outro está falando, é delicadeza.
Calar, quando o outro espera uma palavra, é omissão.
Calar, e não falar palavras inúteis, é penitência.
Calar, quando não há necessidade de falar, é prudência.
Calar, quando Deus nos fala no coração, é silêncio.
Calar diante do mistério que não entendemos, é sabedoria.

sábado, 16 de agosto de 2008

Assunção da Virgem Maria


Desde os primórdios do Cristianismo, a Virgem Maria é venerada na Igreja Católica. Esta veneração decorre do valor da Virgem Maria, como a Mãe do Filho de Deus. Sendo Jesus consubstancial ao Pai, ou seja, tendo a mesma natureza de Deus, então afirma-se que Jesus é Deus, e sendo ele Deus, Maria foi proclamada Mãe de Deus. No que se refere à Assunção (elevação) de Maria ao céu, inicialmente era celebrada a Dormição da Virgem Maria. No século VII, o Imperador bizantino Maurício oficializou esta festa para os cristãos do oriente. No mesmo século, o Papa Sérgio I também introduziu esta festa em Roma, mas somente após um século, o termo "dormição" foi substituído por "assunção". Definitivamente, no dia 1º de novembro de 1950, o Papa Pio II proclamou o dogma da Assunção (subida de corpo e alma ao céu) da Virgem Maria, Mãe de Deus e da Igreja, por meio da Constituição Munificentissimus Deus. Assim determina o Papa Pio XII no número 44 da citada Constituição: "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".
O texto bíblico escolhido para esta Solenidade foi o de Lc 1, 39 - 56. Trata-se do encontro da Virgem Maria com sua prima Isabel, seguido do Magnificat (Cântico de Maria). O evangelista Lucas coloca na boca de Maria é um hinos mais lindos da Escritura Sagrada. Além da beleza das palavras dirigidas ao Criador, o conteúdo do Cântico de Maria é de um teor profético muito forte. A Virgem entoa as maravilhas de Deus manifestadas a seu povo. O Cântico é uma manifestação alegre e inspirada demonstrando a gratidão da Virgem a Deus pelos seus feitos no meio do povo de Israel. Este Cântico revela ainda uma verdade imprescindível para a fé cristã: DEUS NÃO ABANDONOU O SEU POVO. Em sua oração ferverosa a Deus, Judite afirma categoricamente: "Louvai ao Senhor nosso Deus, que não abandonou os que puseram nele a sua esperança" (Jt 13,17). A Virgem Maria eleva a Deus um louvor pelos benefícios de Deus em favor dos pobres da Casa de Israel. Esta Solenidade convida-nos a imitarmos a Virgem Maria: mulher humilde e servidora. A Virgem Maria era uma mulher humilde. A humildade é a maior virtude que um ser humano pode ter. Depois da graça de Deus, a humilde supera todas as coisas. A pessoa humilde chega facilmente ao coração de Deus. A pessoa humilde é superior a todos, justamente porque em nada é superior a ninguém. A outra virtude da Virgem Maria era o serviço fraterno. O fato de Maria ter ido até sua prima Isabel, demonstra a sensibilidade de uma mulher que vai ao encontro das fraglidades e necessidades dos outros. Ser sensível, ter compaixão e agir com o coração aberto de quem ama, essa foi a virtude da Virgem Santíssima. Roguemos, pois, a Deus nosso Pai amoroso, que nos encha de seu amor e nos ensine a amar gratuitamente nosso semelhante. Os pobres da Virgem Maria precisam do serviço de seus devotos e devotas. Não podemos venerar a Virgem Maria somente através da reza do Rosário. Este é necessário, mas só tem sentido se for acompanhado com a caridade praticada por aquela que foi, é e continuará sendo a Mãe de Deus, Mãe da Igreja e nossa Mãe.
Nossa Senhora da Assunção,
rogai por nós!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

10 Objetivos de ação dos participantes do FSM 2009 em Belém - PA (notícia)

Entre 10 e 12 julho, integrantes da Comissão de Metodologia do Conselho Internacional e do Grupo Facilitador local estiveram reunidos em Belém para avaliar as respostas à consulta realizada entre maio e junho e definir o conjunto final dos objetivos de ação dos participantes do FSM 2009.

A consulta proposta pelo Conselho Internacional do FSM buscava ampliar ou adequar os objetivos de ação para o evento de 2009. Em torno destes objetivos serão organizadas as diversas atividades (conferências, painéis, seminários, oficinas entre outras) no evento de Belém. Veja abaixo a lista de objetivos em torno dos quais serão organizadas as atividades no território do Forum de Belém. Destacadas em negrito estão as adições feitas aos objetivos definidos originalmente para o FSM 2007, realizado em Nairóbi (Quênia).

1. Pela construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas, livre de armas, especialmente as nucleares;

2. Pela libertação do mundo do domínio do capital, das multinacionais, da dominação imperialista patriarcal, colonial e neo-colonial e de sistemas desiguais de comércio, com cancelamento da dívida dos países empobrecidos;

3. Pelo acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza, pela preservação de nosso planeta e seus recursos, especialmente da água, das florestas e fontes renováveis de energia;

4. Pela democratização e descolonização do conhecimento, da cultura e da comunicação, pela criação de um sistema compartilhado de conhecimento e saberes, com o desmantelamento dos Direitos de Propriedade Intelectual;

5. Pela dignidade, diversidade, garantia da igualdade de gênero, raça, etnia, geração, orientação sexual e eliminação de todas as formas de discriminação e castas (discriminação baseada na descendência);

6. Pela garantia (ao longo da vida de todas as pessoas) dos direitos econômicos, sociais, humanos, culturais e ambientais, especialmente os direitos à saúde, educação, habitação, emprego, trabalho digno, comunicação e alimentação (com garantia de segurança e soberania alimentar);

7. Pela construção de uma ordem mundial baseada na soberania, na autodeterminação e nos direitos dos povos, inclusive das minorias e dos migrantes;

8. Pela construção de uma economia centrada em todos os povos, democratizada, emancipatória, sustentável e solidária, com comércio ético e justo;

9. Pela ampliação e construção de estruturas e instituições políticas e econômicas - locais, nacionais e globais - realmente democráticas, com a participação da população nas decisões e controle dos assuntos e recursos públicos;

10. Pela defesa da natureza (amazonica e outros ecossitemas) como fonte de vida para o Planeta Terra e aos povos originários do mundo (indígenas, afrodescendentes, tribais, ribeirinhos) que exigem seus territórios, linguas, culturas, identidades, justiça ambiental, espiritualidade e bom viver.

sábado, 19 de julho de 2008

Buscar o Reino de Deus e sua justiça


O texto do Evangelho de hoje (Mt 13, 24 - 33) apresenta Jesus contando três parábolas. Estas eram usadas por Jesus para mostrar ao povo o caminho que leva ao Pai. Jesus foi muito inteligente ao utilizar recursos simples nas parábolas contadas. A questão central do Evangelho deste domingo é: o que é o Reino de Deus? Jesus tenta, por meio de parábolas, mostrar o sentido e significado do Reino de Deus. Até os dias de hoje as pessoas não entendem sobre o que vem a ser o Reino de Deus. Jesus compara o Reino de Deus a três situações:
1 - a um homem que semeia boa semente no seu campo, mas que depois aparece também o joio;
2 - a uma semente de mostarda que um homem pega e semeia num campo e
3 - a uma porção de feremento misturada a três porções de farinha.
O texto finaliza com Jesus explicando a primeira parábola a seus discípulos. Não irei me deter a explicar ou repetir a explicação de Jesus. Tudo está bem claro no texto. É preciso insistir no verdadeiro sentido do Reino de Deus. Quando rezamos a oração do 'Pai nosso" dizemos:"...venha a nós o vosso reino..." Esta verdade ensinada por Jesus já diz muita coisa. O Reino de Deus vem a nós. Em outras palavras, nós não vamos ao Reino de Deus. O sentido do ser cristão está no fato de que todo batizado, toda pessoa que professa a fé em Jesus, o Filho de Deus, está convidado a trabalhar na construção do Reino de Deus. Quem se nega a participar desta construção não pode afirmar ser cristão, logo não pode afirmar-se seguidor de Jesus. Jesus inauguou nesta terra o Reino de Deus. Crer em Jesus significa aderir ao seu projeto. Quando estava neste mundo, fisicamente falando, Jesus obedeceu a vontade de Deus. E a vontade de Deus era a inauguração do Reino de Deus. E como é este Reino? São várias as passagens na Bíblia que podem responder a esta pergunta. Mas podemos responder sinteticamente: O REINO DE DEUS É UM REINO DE AMOR. E este Reino de Amor é marcado pela JUSTIÇA E PELA PAZ. No Reino de Deus justiça e paz se abraçarão (Isaías 32, 17). O nosso mundo atual é um mundo de injustiças. E se não há justiça não pode haver paz. Cada ser humano, independentemente de religião e nacionalidade é chamado a ser construtor da justiça e da paz. A paz e a justiça formam um valor universal. O ser humano só consegue viver bem se houver justiça e paz no mundo. Todo e qualquer gesto coletivo pode influenciar para a construção e destruição da paz mundial. Governantes e governados são responsáveis pelo que está acontecendo no mundo! Deus não vai descer do céu para impor sobre nós a justiça e a paz, pois a construção de um mundo mais humano e fraterno é de nossa responsabilidade. Deus se faz presente, mas não é ele o construtor. Ele é o dono da obra, mas desde os primórdios demonstrou que não gosta de trabalhar sozinho.

sábado, 14 de junho de 2008

Pe. Cícero de Juazeiro: modelo de obediência à Igreja e fidelidade aos pobres (I)


A Igreja tem reconhecido, ao longo dos séculos, homens e mulheres que morreram com fama de santidade. Antes de qualquer constatação sobre a vida deste grande homem precisamos rever o conceito de santidade. O que é a santidade? Como ela se dá na vida das pessoas? Por que veneramos os santos? Para respondermos com coerência a estas indagações precisamos acolher as palavras de Jesus que diz: "Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5, 48). Com estas palavras, Ele nos diz que o Pai é perfeito e nos convida a sermos perfeitos como este Pai.

Podemos afirmar que é possível ser santo, porque Jesus nos chama à santidade. Assim sendo, a santidade é a resposta concreta e evangélica ao chamado que o próprio Deus nos faz no cotidiano da vida. Este chamado implica o seguimento a Jesus e a renúncia a nós mesmos. Mas, esta renúncia não pode ser entendida como fuga do mundo, mas vivendo a vida do mundo somos chamados a seguir Jesus na escuta e prática de sua palavra. Somos santos e santas na medida em que buscamos abraçar a cruz de Cristo todos os dias de nossa vida alimentando a viva esperança da ressurreição. Portanto, ser santo é ser neste mundo testemunha da ressurreição de Jesus Cristo.

O padre Cícero Romão Batista nasceu na cidade do Crato (CE), às cinco horas da manhã do dia 24 de março de 1844. Era filho do comerciante Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana, conhecida como "dona Quinô". Aos seis anos de idade, iniciou seus estudos com o professor Rufino de Alcântara Montezuma. Aos doze anos de idade fez voto de castidade, depois de ter feito a leitura da vida de São Francisco de Sales. Em 1860 continua seus estudos em Cajazeiras (PB). Depois de dois anos, teve que regressar à casa paterna, devido a morte de seu pai, vítima de cólera-morbo, doença incurável na época. Depois de ter ajudado no equilíbrio financeiro da família, pois era o único filho homem da casa, com o apoio de seu padrinho de crisma, o coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, o jovem Cícero inicia seus estudos no Seminário da Prainha, em Fortaleza (CE). Após longa e exaustiva formação é ordenado sacerdote na Igreja do Seminário da Prainha, no dia 30 de novembro de 1870, pelo então bispo diocesano dom Luiz Antônio dos Santos. Após ser ordenado, enquanto esperava provisão para alguma paróquia, padre Cícero atendeu ao convite do amigo José Teles Marrocos para lecionar em seu pequeno Colégio.

Na solenidade do Natal do Senhor do ano de 1871, a pedido do professor Simeão Correia de Macedo, padre Cícero celebrou pela 1ª vez no povoado Taboleiro Grande, que em 22 de julho de 1911 tornou-se município (Juazeiro do Norte) tendo como primeiro prefeito o próprio padre Cícero. E na Quaresma de 1889, a partir do dia 6 de março, ocorreu o milagre da Hóstia, fato que trouxe grandes e prolongados sofrimentos ao padre Cícero. Todas as vezes que dava a comunhão à beata Maria de Araújo, a hóstia transformava-se em sangue. O povo nordestino começou a ter conhecimento de tal fato e deu-se início às romarias ao Juazeiro.

O bispo de Fortaleza, dom Joaquim José Vieira intimou padre Cícero a comparecer na Cúria para explicar o fato. Ele foi e explicou detalhadamente o acontecido, respondendo ao minucioso interrogatório. Depois, foram enviadas duas comissões de padres a Juazeiro. A 1ª relatou o fato como inexplicável pela ciência e compreensão humana. A 2ª reprovou o fato e o relatório desta foi enviado ao Tribunal do Santo Ofício, em Roma. No dia 6 de agosto de 1892, padre Cícero foi suspenso de ordem, ficou proibido de exercer suas funções sacerdotais.

Em nenhum momento de sua vida, padre Cícero desobedeceu às normas e punições impostas pela Igreja. Foi um servo humilde e obediente. Quando indagado quanto ao seu posicionamento diante dos fatos ocorridos em Juazeiro reponde firmemente: "...é uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revolta contra a Igreja. Nunca tive dúvidas sobre a fé católica; nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em qualquer escrito nenhuma falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja".