terça-feira, 30 de junho de 2009

O que ficou do Ano Paulino?


De 28 de junho de 2008 a 28 de junho de 2009, a Igreja celebrou o Ano Paulino. Todas as comunidades foram convidadas a refletir sobre a vida e a obra de São Paulo, Apóstolo. Este grande missionário de Jesus ensina que a Igreja é chamada a ser discípula e missionária de Jesus Cristo no mundo. Os escritos paulinos nos recordam o caminho de Jesus. Depois de sua conversão, Saulo de Tarso, que outrora perseguia os discípulos do Caminho, torna-se um entre os caminheiros.

Paulo não encontrou Jesus no Templo de Jerusalém nem numa sinagoga dos judeus. Não encontrou Jesus na lei nem na corte imperial, mas o encontrou no caminho de Damasco. O caminho é o lugar de Jesus. Este sempre se identificou com o caminho. Ele próprio declarou-se ser o Caminho que leva a Deus. O jeito de ser e os escritos de Paulo formam o seu legado e a espiritualidade missionária vivida por ele deve motivar e ensinar a Igreja a também ser missionária.

O que ficou do Ano Paulino estabelecido pelo Papa? O que aprendemos de São Paulo? São questões que precisam ser pensadas. Acredito que a Igreja precisa repensar a missão. A Igreja precisa continuar seu processo de evangelização. Rever acertos e desencontros é fundamental para evangelizarmos melhor. O mundo atual exige mais inserção por parte da Igreja. Esta não pode ficar alheia diante dos problemas do mundo pós-moderno. A mensagem paulina exorta-nos para a missão e se não correspondermos à missão não estaremos vivenciando o carisma essencial da Igreja, que é evangelizar. A Igreja nasceu para evangelizar, pois foi isto que Jesus pediu. Agora, como evangelizar? Para sermos fiéis ao mandato missionário de Jesus precisamos olhar para o testemunho do missionário Jesus, Filho de Deus e nosso Irmão maior, e também de São Paulo, que soube tão bem imitar Jesus.

Paulo ensina-nos a sermos missionários livres no meio do mundo. Obedientes aos apelos do Espírito nos deslocamos e vamos ao encontro de quem precisa conhecer e seguir Jesus. Trata-se de viver a experiência da missão e levar outras pessoas a fazer o mesmo. Para sermos verdadeiramente missionários, precisamos deixar nossas acomodações e partirmos. Quem parte sempre deixa algo para trás. E só é missionário quem tem a coragem de partir. Quem não tem, pensa que é missionário no mundo isolado e cômodo, mas é pura ilusão. A pedagogia de Jesus é muito interessante. Por que ele fala de caminho? Porque quem caminha não tem como acumular nada nem se apegar a nada. O verdadeiro missionário não acumula riquezas e nem se apega às pessoas. Isso não significa que o missionário não gosta das pessoas e não as amem, muito pelo contrário, ele ama tanto a comunidade e a sua missão, que terá que partir para viver a experiência do amor com outras pessoas, novas e diferentes pessoas. Um missionário apaixonado pela missão é um homem feliz!

A felicidade do missionário está no encontro com Jesus nas pessoas e nas comunidades por onde passa. Ele é um homem sempre rejuvenescido porque a riqueza de cultura e de fé do povo de Deus o transforma, tornando-o experiente e aberto às novidades do Espírito. A missão é ida, encontro, renúncia, despojamento, emoções, celebração, caminho, itinerância, amor, vida, fé, alegria no Espírito de Deus.


Tiago de França

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O bicho


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Manuel Bandeira, dezembro de 1947.

domingo, 28 de junho de 2009

Solenidade de São Pedro e São Paulo


Celebrar São Pedro e São Paulo é falar de espiritualidade missionária, pois ambos foram missionários, principalmente São Paulo. Se analisarmos as personalidades destes Apóstolos, veremos que eram homens comuns, santos e pecadores. Pedro é famoso pela sua coragem. Homem casado (cf. Mt 8, 14), Pedro aceita o convite de Jesus para segui-lo. Em vários momentos demonstrou sua fraqueza no seguimento de Jesus. Cito duas ocasiões: sua falta de fé, quando quis andar sobre as águas (cf. Mt 14, 29 – 31) e quando traiu Jesus três vezes antes do catar do galo (cf. Mt 26, 69 – 75). Estas duas ocasiões mostram a condição humana e pecadora de Pedro. Já o Apóstolo Paulo de Tarso, antes de seguir Jesus e anunciá-lo ao mundo, era perseguidor dos cristãos (cf. At 26, 11). Depois de encontrar-se com Jesus no caminho de Damasco e de ter ficado cego até ser batizado, tornou-se cristão e perseguido. Homem letrado e fiel à educação recebida, São Paulo deixou-se conduzir pelo Espírito de Deus que o fez missionário entre os gentios. Estes dois homens têm muito a ensinar à Igreja que nasceu a partir deles e dos demais Apóstolos de Jesus.

É preciso entendermos que Jesus chamou homens pecadores para a missão. Jesus sabia muito bem o temperamento de Pedro, mas o confiou o pastoreio do rebanho. Não vejo Pedro como Chefe! Penso que foi um coordenador humilde e simples, servo de todos, que apesar das fragilidades inerentes à condição humana foi fiel ao chamado de Jesus até o fim, até o derramamento de sangue. O mesmo se pode dizer de Paulo de Tarso, um missionário livre e itinerante, fundador de muitas comunidades cristãs e escritor da verdade do Evangelho. Ambos foram missionários a partir da realidade em que viviam. Renunciaram ao medo, à covardia dos grandes, à acomodação e anunciaram com coragem e audácia o Evangelho da vida e da liberdade. É preciso se fazer uma releitura metodológica da atividade missionária dos Apóstolos de Jesus para que a missão da Igreja torne-se possível e eficiente. A fidelidade ao mandato missionário de Jesus exige fidelidade ao Evangelho, pois antes de anunciá-lo é preciso vivenciá-lo. Pedro e Paulo eram homens da palavra e da ação, eram profetas da palavra que incomoda aos opressores do povo de Deus e liberta os oprimidos da escravidão do pecado e do poder da morte. Este, manifesta-se neste mundo, por meio de sistemas e ideologias contrárias à verdade e aos valores do Reino de Deus.

No n. 17 da Constituição Dogmática Lumen gentium, do Concílio Ecumênico Vaticano II, está explícito o caráter missionário da Igreja. A Igreja é chamada a ser missionária, porque a sua natureza é missionária. Ela foi fundada por missionários e no contexto da missão. Os capítulos VI e VII do Documento de Aparecida (V CELAM) falam da missão da Igreja no mundo. Também a Encíclica Redemptoris missio, de João Paulo II também fala da missão da Igreja. Cito tais documentos para mostrar que a Igreja tem plena consciência da necessidade da missão. Diante disto, pergunto? A Igreja atualmente é missionária? Na Introdução da Redemptoris missio, João Paulo II responde que “a missão de Cristo redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento”. Olhando a história da Igreja veremos muitas mulheres e homens que foram verdadeiros missionários de Jesus Cristo. Cito dois exemplos de exímios missionários cristãos em terras estrangeiras: o padre francês São João Gabriel Perboyre (Lazarista) e o padre espanhol São Francisco Xavier (Jesuíta). O primeiro foi martirizado na China em setembro de 1840. Estes homens e tantos outros e outras, missionários e missionárias de Jesus, foram fiéis ao mandato permanente de Jesus.

A história não mente ao falar do pecado da Igreja em suas alianças com os poderes deste mundo. Até hoje e graças também às suas estruturas quase que imutáveis, a Igreja tem dificuldade de viver uma espiritualidade autenticamente missionária. A estrutura não é um problema em si, mas o problema está nas pessoas que se apegam às mesmas. Alguns teólogos apontam radicalmente para o problema das estruturas, pois graças a ela, a Igreja “estagnou-se”. O Documento de Aparecida fala de conversão pastoral e revisão de estruturas, mas na prática não vejo mudanças. Há pouco esforço para transformar as paróquias em comunidades de comunidades como pede o documento, para que a Igreja seja verdadeiramente missionária. O clero ainda não está preocupado com a missão, salvo algumas exceções.

Para que possamos viver uma espiritualidade missionária na Igreja, é preciso que ela se arrisque na missão, pois temos plena consciência da necessidade de sermos missionários, agora é hora de agirmos! Para agirmos missionariamente no contexto religioso em que vivemos precisamos renunciar às pastorais de manutenção a que estamos acostumados. O que precisamos manter? Precisamos nos manter corajosos e audaciosos para a missão. Esta deve ser nossa disposição, pois pelo batismo somos chamados a sermos discípulos e missionários de Jesus. O Espírito Santo gera e guia a missão da Igreja, isto significa que, se ainda não somos autênticos cristãos no mundo é porque ainda estamos presos ao que nos impede de atendermos aos apelos do Espírito: medo, preguiça, acomodação, poder, prestígio, etc. A renúncia de si mesmos, o tomar a cruz e o seguimento de Jesus (cf. Lc 9, 23 – 24) constituem a espiritualidade missionária. É desta forma que estaremos construindo o Reino de Deus entre nós, pois é isto que Jesus pediu para fazermos: construir o Reino e não esperarmos que ele chegue pronto em nossas mãos!


Tiago de França

sábado, 27 de junho de 2009

Michael Jackson, riqueza e fama


Estive acompanhando as notícias da morte de Michael Jackson ocorrida na quinta-feira, dia 25/06, em Los Angeles, no estado da Califórnia, EUA. Com o devido respeito aos fãs do mesmo, faço um breve comentário, do ponto de vista da fé cristã, a respeito da riqueza e da fama. Nós, cristãos, somos chamados a pensar nossa fé a partir da realidade. Espiritualmente, não quero julgar a pessoa do Michael Jackson, pois não sou juiz da vida dos outros, porque somente Deus tem poder para isto.

Michael Jackson foi um dos homens mais ricos dos EUA e morreu com a fama de “rei do pop”. Era idolatrado por milhões de pessoas. Foi o único cantor do mundo que conseguiu vender mais de 100 milhões de discos. Homem polêmico, envolvido com pedofilia, e graças aos processos judiciais, perdeu quase toda a sua fortuna. Quem o conheceu de perto, fala que era um homem frágil, indeciso, um pouco tímido e psicologicamente abalado. Apegado às riquezas, sempre levou uma vida de milionário e sentia-se bem com isto. No decorrer da vida, mudou completamente sua fisionomia, com plásticas e mudanças na cor da pele: nasceu negro e morreu branco. Diante de sua trajetória, que confesso conhecer pouco, indago: Que mensagem de vida deixa Michael Jackson para os jovens de hoje?...

O Presidente dos EUA, Barack Obama, disse que Michael Jackson foi o “ícone da música” norte-americana. Quando olho para a foto e a história de M. Jackson vejo a cultura e a cara dos norte-americanos: um povo apegado às riquezas e à fama. É claro que deve haver nos EUA, pessoas que não são assim, apegadas a tais “valores”. Se no Brasil a corrupção faz parte da vida política, isso não quer dizer que todos os políticos são corruptos. Se assim afirmasse, incorreria a uma falácia! A vida de M. Jackson deve levar os jovens a uma séria reflexão sobre a riqueza e a fama. Qual o perigo que o dinheiro e o prestígio imprimem na vida de uma pessoa?...

Falar de fé cristã é falar de Jesus. Este nos adverte quanto aos bens deste mundo quando afirma: “Abstende-vos de qualquer cobiça, porque, por mais rico que alguém seja, a vida não depende dos bens” (Lc 12, 15). É verdade que precisamos dos bens para viver, pois comemos, bebemos, vestimos, calçamos, nos locomovemos, compramos e vendemos. Mas os “bens” a que se refere Jesus não são os bens necessários à vida comum. Jesus fala dos bens supérfluos. E o que são bens supérfluos? São bens desnecessários à nossa vida. Na verdade, os bens supérfluos não nos pertencem, pois eles são daquelas pessoas que não têm o necessário para viver. Enquanto M. Jackson esbanjava dinheiro com plásticas, compras e processos, muitas pessoas morriam e ainda morrem de fome em todo o mundo.

Jesus diz ainda no seu Evangelho: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Desde que o homem inventou o dinheiro para trocar por mercadoria, o próprio homem tornou-se mercadoria do dinheiro. Só para citar um exemplo atual. O jogador de futebol é uma mercadoria caríssima! O jogador brasileiro Kaká foi comprado por 180 milhões de reais pelo Real Madri, time de futebol da Espanha. As pessoas são compradas e vendidas! E depois ainda dizem que tal jogador é evangélico e segue a Jesus Cristo! Que tipo de seguimento é este?... Eu queria escutar a explicação de quem fala e crer nessa mentira...

Há pessoas neste mundo, e não são poucas, que passam toda a vida servindo ao senhor Dinheiro. O pensar, o falar e o agir dessas pessoas são centrados no dinheiro. Elas pensam em dinheiro, falam em dinheiro e agem para ganhar dinheiro! Infelizmente, estas mesmas pessoas não têm tempo para viver... Quem serve ao dinheiro não tem paz de espírito porque tem medo de perder o que possui. Alguns se mostram até religiosos, mas quando a religião não se apresenta como uma ameaça à sua riqueza. Alguns ricos são até solidários, mas são inimigos da partilha! Como entender isso? É simples. Alguns ricos vivem o assistencialismo para com os pobres e pensam estar vivendo a caridade. Assistencialismo é dar sem compromisso, é dá algo a alguém para se ver livre da pessoa. Caridade é partilha não somente do bem material, é também comunhão de vida. Quem vive a caridade, comunga com a vida do outro, sendo-lhe verdadeiramente solidário e fraterno. Um dia escutei um rico me dizer: “Eu até ajudo, mas o pobre na casa dele e eu na minha. Não aceito invasão de privacidade”. Na verdade, a preocupação não era com a privacidade, mas com o medo de se misturar com o pobre e ser tocado por ele. Os ricos não se sentem bem quando o pobre se aproxima, porque a condição do pobre questiona a sua riqueza. Por isso que o cão é muito útil em certas residências!...

Creio que nossos jovens devem se inspirar em outras pessoas, que contribuíram mais e melhor com a construção de um mundo mais justo. Somente para citar algumas, podemos falar em Martin Luther King Jr, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Francisco de Assis, Dorothy Mae Stang, Dom Hélder Câmara, Chico Mendes, Che Guevara, Muhammad Yunus (ainda vivo), Nelson Mandela (ainda vivo) entre tantos outros que doaram suas vidas em prol da humanidade mais humana. Estes verdadeiros ícones de humanidade não podem ser esquecidos, pois falaram com a vida que a vocação humana é para a felicidade e a verdadeira felicidade está no amor. Nossos jovens precisam recuperar o espírito idealista da luta pela promoção e prevenção da vida do homem e do planeta em que vivemos. Se a música não fizer o jovem pensar na vida e cultivar sentimentos bons, o futuro tornar-se-á mais difícil do que o presente.


Tiago de França

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O jogo da política


Recordo-me bem que quando o Presidente Lula era apenas um sindicalista e metalúrgico, homem da luta e da discussão acirrada, ele condenava muito as oligarquias das famílias de Antônio Carlos Magalhães, na Bahia e de José Sarney, no Maranhão. Todos sabemos do estilo de governo destas famílias, principalmente a família Sarney, que até hoje impera no Maranhão. Diante das denúncias contra o Presidente do Senado Federal, senador José Sarney (PMDB – AP), o Presidente Lula vem falar de integridade política do senador José Sarney. Admiro o Presidente Lula pela sua história e acertos políticos, mas neste ponto, seu eu pudesse falar com ele, diria que ficasse calado diante de tal situação, pois se há “atos secretos”, há crime! Isto é indiscutível. E agora aparece uma série de denúncias contra o senador José Sarney.

Eu até entendo a atitude do Presidente Lula, pois além do senador José Sarney fazer parte do partido da base aliada do Governo, também é Presidente do Senado Federal e, quer queira, quer não, trata-se de uma autoridade constituída e um apoio político muito forte. O Presidente Lula sabe que, dentre outros motivos, foi graças à falta de apoio do Congresso Nacional que o então Presidente Fernando Collor de Melo foi derrubado do poder. No mundo da política, certas alianças superam o poder da lei e das denúncias de corrupção. Está claro e evidente que o Congresso Nacional brasileiro está desgastado demais, e mais do que nunca, o discurso ético é quase que impossível dentro de Brasília. Fico pasmo com a situação, pois quando penso que as denúncias vão cessar, aparecem outras mais graves ainda.

A incompetência e a falta de ética na política brasileira são fruto de uma nação que não tem consciência política. Já ouvi alguém dizer que “o Congresso Nacional é a cara dos brasileiros”. É verdade que tal situação não se apresenta como novidade para a nação, mas não podemos nos conformar diante de tantas injustiças, porque é o dinheiro público que está sendo desviado dos cofres públicos. Enquanto os políticos brasileiros forem julgados por eles mesmos, esta situação não mudará. O tal do foro privilegiado é um benefício inconstitucional, levando em consideração que a Carta Magna da Nação afirma que todo cidadão é igual perante a Lei. Onde está esta igualdade? O ladrão de galinha rouba e vai preso; o político desvia milhões e quando não responde em liberdade, é absolvido. Até quando assistiremos a esta situação?... O sociólogo Betinho afirmava sabiamente e com muita razão, a respeito do surgimento de um novo país, mais justo e humano para todos, quando disse: “Para nascer um novo Brasil, humano, solidário, democrático, é fundamental que uma nova cultura se estabeleça, que uma nova economia se implante e que um novo poder expresse a sociedade democrática e a democracia no Estado”, e diante dos falsos políticos de sua época, ele afirmava sem medo que no “no Brasil não existe filantropia, o que existe é pilantropia”.


Tiago de França

Sabedoria dos Padres do deserto


Um dia Pai Arsenius consultou um velho monge egípcio sobre seus próprios pensamentos. Alguém notou e disse a ele, "Abba Arsenius, como é que o senhor com uma educaçao tão aprimorada em Grego e Latin, pergunta a um camponês sobre seus pensamentos?" Ele replicou, "Realmente aprendi Grego e Latin, mas não sei nem ao menos o alfabeto desse camponês."

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Fazer a vontade de Deus


“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas o que põe em prática a vontade do Pai que está nos céus” (Mt 7, 21). Estas palavras de Jesus são muito sérias. Colocar em prática a vontade de Deus, eis o desafio. Mas quem é Deus e qual é sua vontade? Para correspondermos à exigência de Jesus se faz necessário conhecermos a Deus e sua vontade. O Apóstolo João ajuda-nos a conhecermos a Deus quando diz: “E sabemos que o conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele” (1Jo 2, 3 – 4). Na medida em que obedecermos aos mandamentos, então conhecemos a Deus. O conhecimento de Deus não é um conhecimento pronto e elaborado, mas um processo, uma relação. É na obediência à vontade de Deus que O conhecemos.

E qual é a vontade de Deus? O mesmo Apóstolo responde: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1Jo 4, 7). A vontade de Deus é que amemo-nos uns aos outros e neste amor Ele está presente, porque Ele é o amor por excelência (cf. 1Jo 4, 8). O ensinamento é claro e fácil de ser compreendido, mas para muitas pessoas, isto é impossível. No diálogo com Maria, a serva do Senhor, diz o Anjo: “Para Deus, com efeito, nada é impossível” (Lc 1, 37), mas nós não somos deuses, e sim seres humanos, limitados. Será que Deus iria nos pedir algo que nós não poderíamos realizar?... Penso que não! Ao mesmo tempo penso que, confiando no poder e na graça de Deus, todos podemos cumprir seus mandamentos; também creio que nossas limitações não permitem um cumprimento pleno de sua vontade. Que dilema! Para entendermos melhor, vejamos o que nos disse o Apóstolo Paulo: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto” (Rm 7, 15). Creio que somente Jesus Cristo guardou plenamente os mandamentos de Deus e o obedeceu fielmente (cf. Jo 15, 10).

Sabemos que somos imperfeitos e limitados, logo ninguém nos pode exigir perfeição, apesar de Jesus nos ter pedido isto (cf. Mt 5, 48); da mesma forma, não podemos exigir que os outros sejam perfeitos. Somente o Deus Uno e Trino é perfeito. O seguidor de Jesus caminha para a perfeição, mas sua condição é limitada. Por isso que acreditamos no que diz o salmista: “Tu Senhor, Deus de piedade e compaixão, lento para a cólera, cheio de amor e fidelidade” (Sl 86, 15). Não podemos acreditar que Deus seja vingativo, que se aproveita de nossos erros para nos castigar; pois quem suportaria um deus desses?... O Pai de Jesus e nosso Pai nos conhece muito mais do que nós mesmos nos conhecemos. Ele não exige o que não podemos realizar, porque assim Ele não seria justo. É verdade que não podemos usar de nossa condição para não procurarmos fazer a vontade divina, pois seria injusto de nossa parte. É Deus que nos auxilia com sua graça no cumprimento da vontade divina, porque sem a graça de Deus não podemos amar a Deus e ao nosso semelhante como Jesus pediu.

Pode parecer utópico e para alguns, ultrapassado; mas o amor é a única saída que temos para nos libertarmos da crise de humanidade à que a humanidade está sujeita. A Igreja nunca deve cansar de ensinar ao mundo, que é o amor que humaniza o homem e o faz encontrar-se com a verdadeira vida e felicidade. Em um mundo tomado pelo ódio e pela vingança, que geram a intolerância e as guerras entre países, a mensagem cristã do amor é atual e necessária. Quem ama faz a vontade de Deus, conhece a Deus e permanece em Deus. Quando os homens são iniciados no amor e amam de verdade, o mundo melhora e a felicidade começa a existir; do contrário, quando tomados pelo ódio e pela vingança, a espécie humana é totalmente ameaçada, porque o ódio e a vingança geram a destruição e a morte. Assim pensava Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”. Precisamos acreditar no amor e, apesar de tudo, vivenciá-lo.


Tiago de França

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Natividade de São João Batista


João foi o profeta que preparou o povo para acolher Jesus e o batizou no rio Jordão. João nasceu de um ventre idoso e inicialmente estéril. Seu pai era sacerdote zeloso do templo. A respeito deste e de Isabel, a mãe de João, diz Lucas 1, 6: “Ambos eram justos diante de Deus e, de modo irrepreensível, seguiam todos os mandamentos e estatutos do Senhor”. A fidelidade do casal idoso, Zacarias e Isabel, agradava a Deus que os fez férteis como um casal de esposos jovens. O dia de nascimento de João Batista foi motivo de medo e de admiração para toda a comunidade. Primeiro, porque devido o pai ter duvidado da palavra do anjo, ficou mudo até o nascimento do menino. Segundo, porque o nome do menino não tinha ligação alguma com a parentela do casal. E todos se perguntavam: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1, 66). No mesmo versículo o médico Lucas declara: “De fato, a mão do Senhor estava com ele”. O profeta João foi um homem enviado por Deus com a missão de preceder Jesus no anúncio do advento do Reino de Deus.

João era um profeta e dos mais importantes que existiu até então. Quem é João? Jesus responde abertamente às multidões: “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido com vestes finas? Ora, os que usam vestes suntuosas e vivem em delícias estão nos palácios reais. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais que um profeta. É dele que está escrito: ‘Eis que eu envio meu mensageiro à tua frente, ele preparará o teu caminho diante de ti’ (Ml 3, 1). Digo-vos que dentre os nascidos de mulher não há maior do que João; mas o menor no Reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7, 24 – 28). Interessante como Jesus dá ênfase à pobreza material do profeta João, que era um testemunho vivo de denúncia contra as suntuosidades dos palácios dos reis.

O profeta é um homem da palavra e do gesto. João tinha as duas coisas. A mão de Deus está com o profeta. Este não tem medo de nada. Como disse Leonardo Boff a respeito de Dom Hélder Câmara: “Um profeta não pode ter amor a seu pescoço”, ou seja, é um homem preparado para o martírio, dar a vida pela verdade do Evangelho. Todo profeta é um homem livre. A liberdade é característica imprescindível de um profeta. Quando ele fala, anuncia a Boa Nova e denuncia as injustiças. Se for um homem da instituição, como o foi Dom Hélder Câmara e tantos outros Bispos, Padres, religiosos e religiosas, profetas e profetisas, denunciam primeiro as injustiças cometidas pela instituição. Mesmo a instituição os condenando e julgando-os nos tribunais, eles permanecem firmes na profecia até o fim, porque a profecia é dom do Espírito de Deus e não emana da instituição nem do poder humano. Na intimidade espiritual, o profeta sabe que não consegue calar-se diante das injustiças, porque o Espírito o inquieta e o faz falar ao mundo. Não há poder no mundo que possa calar a voz de um profeta no exercício da profecia.

João não tinha consigo os males que denunciava nos ricos e poderosos de seu tempo. Era um homem santo, como atesta Mc 6, 20: “... pois Herodes tinha medo de João, e sabendo que era um homem justo e santo, o protegia. E quando o ouvia, ficava muito confuso e o escutava com prazer”. João era o homem do deserto. O deserto é o lugar do silêncio, da solidão, da escuta, da meditação e da tentação. O homem do deserto é um homem maduro, equilibrado, sensato, experimentado e sábio. Os profetas costumam ser místicos. O que é um místico? Antes de qualquer coisa, o místico é um homem humano. Muitos pensam que os místicos são homens mergulhados em Deus, que já não vivem neste mundo. Este não é um místico, mas um homem que vive fugindo do mundo. O místico é um homem humilde e simples. Alguém dotado de uma inteligência e espiritualidade fora do comum, mas que vive comumente entre os homens. É uma pessoa mergulhada no mistério divino e que revela Deus a este mundo. A mansidão, a paciência, o diálogo, a alegria, a fé inabalável, o amor, o silêncio e a sabedoria são características de um místico.

No deserto, João vivia mergulhado em Deus. A oração é um dos meios mais eficazes de comunhão com Deus. O cotidiano da vida também é lugar da vivência mística. Na história da Igreja posso colocar São Vicente de Paulo, homem de Deus e da caridade para com os pobres, como exemplo de homem místico. Em suas conferências, São Vicente de Paulo era escutado por padres, bispos, doutores e por figuras ilustres da sociedade parisiense, pois a sua sabedoria não era oriunda dos tratados teológicos nem das cátedras de Filosofia e Teologia, mas do Espírito que revelava-lhe a vontade divina no cotidiano da vida dos pobres. São Vicente de Paulo não tinha êxtases, visões, sonhos, bilocações etc., mas na simplicidade da vida estava em Deus comungando-O no próximo. Tudo isto é um mistério insondável de amor. A experiência mística de um cristão é muito difícil de ser dita com palavras, pois estas não conseguem esgotar o mistério vivencial de tal experiência. Lendo os escritos de São Vicente de Paulo, sinto no espírito a doçura e a profundidade de suas palavras. Feliz de quem encontrar e saborear a Palavra de Deus saindo da boca de um cristão místico, pois se trata de uma experiência ímpar na vida.

O místico é um homem que sabe escutar a voz do Espírito. Ele sabe o que o Espírito diz às Igrejas (cf. Ap 2, 29), que está muito a frente do tempo presente. Creio que todo místico é um profeta, pois o Espírito é que faz os profetas. Outra característica essencial dos místicos é o estar oculto aos elogios e ao prestígio, ou seja, que não admite ser exaltado diante dos homens. Ele pode até permitir, porque impedir é impossível, mas ele não se vangloria com discursos nem elogios. O místico luta cotidianamente contra todo tipo de vaidade, pois precisa conservar em si a humildade e simplicidade de espírito e vida. Assim fala a sabedoria de um Padre do deserto: “A humildade não é um dos pratos do banquete, mas o tempero que dá sabor a todos os pratos”.

A Igreja de nosso século e dos séculos vindouros precisa de profetas e profetisas, homens e mulheres atentos aos apelos do Espírito, dotados de humildade, simplicidade e fé, que mostrem ao homem o caminho de Deus: amor, justiça e misericórdia. Não fiquemos aflitos diante dos escândalos na Igreja e na sociedade, pois os profetas místicos estão por aí, na clandestinidade, alguns visíveis, outros invisíveis, que no cotidiano da vida, vivem o ministério desafiador da profecia sem medo de serem felizes no amor de Deus.


Tiago de França

terça-feira, 23 de junho de 2009

A alegria de sentir-se amado e escolhido


Jesus,
Desceste do céu
E vieste ao nosso encontro,
E encontrando-nos,
Assumistes nossa humanidade pobre e limitada.

Assumindo nossa humanidade,
Abraçaste os riscos
E os males de nossa condição.
Foste mais humano
Que nós mesmos.

Não rejeitaste,
Nem condenaste a nós,
Míseros pecadores,
Mas amaste-nos
Com amor inigualável e incondicional.

Tu participaste
De nossas tristezas,
Testemunhaste nosso pecado,
Libertaste-nos
Com teu amor e com tua graça.

Escolheste
Nascer, viver e morrer
Entre os pobres, teus irmãos.
Ensinaste
Que é preciso optar por eles.

Mostraste-nos
Com a palavra e com a vida
Que o amor é o bem maior,
Que torna o homem humano
E que liberta de todo mal.

É nesta certeza,
Meu amado amigo,
Que me sinto amado e escolhido por Ti,
E estando Tu comigo,
Quero testemunhar esta alegria e verdade aos meus irmãos.


Tiago de França

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Pe. Pedro Opeka, CM - um missionário entre os pobres


Um amigo, Adriano Sousa Santos, padre lazarista da Província de Fortaleza, enviou-me uma entrevista que fez com o lazarista, Pe. Pedro Opeka, missionário em Madagascar (África). Fui autorizado a publicar aqui tal entrevista que vale a pena ler, pois se trata de um testemunho vivo de caridade fraterna com os pobres. As respostas às indagações são oriundas de um padre pobre que vive entre os pobres. É o carisma vicentino sendo vivido na atualidade da Igreja. Boa leitura!

Segue a entrevista.

Pe. Adriano Sousa Santos, C.M
Entrevista Pe. Pedro Opeka,C.M

Uma esperança engajada. Uma fé que transforma. Uma caridade audaciosa. Um padre vicentino que há trinta e seis anos transformou sua convivência junto ao pobre de Madagascar numa certeza: a partir dos pobres a pobreza pode ser vencida.
Não são dez respostas, mas dez dicas de alguém que pelo exemplo, não só fala do lugar do pobre, mas ao coração do pobre e do mundo
:
Pe. Pedro Opeka,C.M


1) O maior desafio para vencer a pobreza?


Acreditar que ela pode ser vencida. Lançar-se no mundo dos pobres, mas acreditando que toda situação injusta pode mudar. Outro passo importante são os gestos concretos no meio dos pobres e com eles agir como seres humanos, como cristãos e vicentinos.

2) A mudança social precisa da mudança de mentalidade?

Sim. A pobreza gera no povo pobre uma mentalidade que o faz viver de forma fatalista. É urgente que essa mudança aconteça mesmo sabendo que isso leva bastante tempo. Ela exige paciência.

3) Qual a consciência pessoal dos pobres quando se sentem decretados a morrer na miséria?

Eles pensam que a pobreza é um destino e a exclusão social ocorre por não terem capacidade de sair da pobreza. Nós vicentinos temos que levar a esperança ao dizer que a pobreza pode ser vencida por eles. É dever nosso descobrir e despertar em sua alma, talentos e potencialidades que Deus ofereceu a cada um deles.

4) Ao comentar sobre a sua experiência junto aos pobres do lixão em Madagascar o senhor falou da auto-estima destruída. O que realmente pode provocar isso e como foi possível mudar essa situação?

A auto-estima do pobre acaba quando ele perde a sua força espiritual. Um povo na miséria ou enfermo fica sem força interior. Sem essa força não há auto-estima. É o espírito que anima a pessoa. Só é possível reverter essa situação através da presença solidária e permanente junto ao pobre. É mais que urgente despertar o seu poder de transformação.

5) Quais os fatores que podem levar a uma transformação que seja de fato estrutural e não apenas emergencial?

A transformação estrutural passa por várias etapas: ajuda humanitária e mudança de sistemas injustos. O mais importante é se concentrar nas formas possíveis de erradicação da pobreza. Qualquer mudança estrutural necessita tempo.


6) Os países desenvolvidos concentram, controlam e gerenciam a riqueza no mundo. A pobreza que se procura vencer é criada por esses países. Ao se falar em mudança sistêmica isso também não deveria afetar a consciência dos países ricos? Como fazer isso?

A pobreza mundial tem suas raízes em mecanismos de ordem econômica, política e social. É difícil para os paises ricos assumirem essa culpa. Entretanto, podemos começar por outro extremo indo ao encontro do pobre e despertá-lo para a solidariedade com os outros pobres. A organização dos pobres é a sua arma política para pressionar os ricos a mudarem suas estruturas.

7) Qualquer transformação por mais localizada que seja tem o poder de mudar o mundo?

Sim. Mesmo sendo localizada, a mudança tem o poder de atravessar fronteiras e mudar o mundo. Toda obra de justiça rapidamente repercute porque muita gente necessita de obras concretas que resultem numa mudança sistêmica. Eu nunca pensei que vivendo no lixão para vencer com o pobre a sua pobreza pudesse alcançar outras regiões do mundo. Já fui recebido pelo papa, pelo presidente da França, pelo príncipe de Mônaco. Ao longo dos meus trinta e seis anos aconteceram coisas impensáveis.

8) Como conseguiu captar sonhos e outras urgências para além da fome e miséria daquele povo?

Todo ser humano acalenta sonhos. Como vicentinos podemos convencer os pobres que o seu sonho pode virar realidade. Aos pobres temos que dizer: nunca deixe de sonhar, nunca deixe de crer, nunca deixe de esperar porque o sonho é possível. É urgente ajudar o pobre a ter confiança nele e acreditar no seu talento sem medo e sem prejuízos. A sociedade é muita dura com o pobre. Não é fácil levantá-lo de sua dor. Com a nossa ajuda, porém, eles realizam seu sonho de mudança.

9) O senhor tem consciência que o seu trabalho junto ao povo do lixão provocou uma mudança sistêmica?

Eu tive essa consciência alguns anos mais tarde. Não se trata de aplicar uma determinada fórmula quando se quer mudar uma realidade, mas em viver e sentir o contexto particular do pobre. Ele sente a sua realidade. Com ele compartilhamos fracassos, dores e provações. A mudança sistêmica é uma ajuda e não o fim. É uma ferramenta que ajuda a analisar a situação injusta sofrida pela pobre. Tal mudança deve ser adaptada a contextos específicos e a cultura de cada povo. A finalidade vai ser sempre resgatar a dignidade e a liberdade do pobre.

10) O documentário produzido pela televisão austríaca e apresentado durante o XI Encontro Nacional da Família Vicentina acerca de seu trabalho junto aos pobres do lixão foi bastante interpelativo. As novas mídias podem ajudar na mudança sistêmica? Sensibilizar é um critério para transformar?

Sim. Temos que saber utilizar os meios de comunicação social. Eles têm muita força para sensibilizar e despertar a consciência de ricos e pobres. Vivemos no mundo da imagem. A imagem deve suscitar sinais de esperança e levar as pessoas a se comprometerem com um mundo justo e fraterno. Uma boa imagem fala por si mesma e estimula a imitação daquele gesto em favor dos mais pobres.

Quem somos?


Nós não somos o que gostaríamos de ser.
Nós não somos o que ainda iremos ser.
Mas, graças a Deus,
Não somos mais quem nós éramos.


Martin Luther King Jr.

domingo, 21 de junho de 2009

A fé


O texto do Evangelho deste XII Domingo do Tempo Comum é Mc 4, 35 – 41. Jesus e seus discípulos atravessam o lago de Genesaré. Jesus sobe no barco e vai dormir e os discípulos remam. De repente surge uma tempestade e o barco começa a se afundar. Apavorados, os discípulos fazem uma pergunta curiosa: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” (v. 38). Pelo fato de Jesus está dormindo na parte de trás do barco sobre um travesseiro, os discípulos pensam logo que ele não está preocupado com o que está acontecendo. Esta pergunta demonstra a falta de conhecimento dos discípulos em relação a Jesus. Eles não conheciam suficientemente Jesus para confiar nele. Se realmente conhecessem, com certeza, saberiam que aquela tempestade não seria motivo de preocupação ou pavor, pois Jesus é o Filho de Deus e seu poder está acima de todas as coisas, principalmente das forças da natureza.

Diante da pergunta, Jesus acalma a tempestade com uma expressão de quem tem autoridade: “Silêncio! Cala-te!” (v. 39). As águas impetuosas obedeceram imediatamente à palavra de Jesus. Diante do medo dos discípulos, Jesus faz uma importante e reveladora indagação: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (v. 40). Jesus conhece o medo dos discípulos. O medo atrapalha no seguimento de Jesus. A verdadeira fé erradica o medo da vida do seguidor de Jesus. O texto termina com a pergunta dos discípulos: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (v. 41). O Evangelho segundo Marcos tem a finalidade de responder à pergunta: “Quem é Jesus?” Este primeiro milagre no evangelho segundo Marcos é a primeira prova de Jesus fazendo-se conhecer pelos discípulos. O leitor deste evangelho é convidado a compreender Jesus no cotidiano da vida de seus discípulos. Conhecer Jesus é uma necessidade de todo aquele que deseja segui-lo, pois não se pode seguir a um estranho.

O medo é um mal terrível na vida de uma pessoa. Uma pessoa medrosa não consegue viver bem, pois o medo a aprisiona. Ele imobiliza a pessoa diante da vida, fazendo com que ela não avance para “as águas mais profundas” da existência. O medo tira da pessoa a coragem de viver e ser feliz. Ele consegue fazer com que a pessoa pense que tudo é perigoso, estranho e ameaçador. O medo é um dos maiores obstáculos no seguimento de Jesus, porque quem é dominado pelo medo não pode trilhar as pegadas de Jesus e participar de sua sorte. O caminho de Jesus requer uma coragem inabalável. O caminho de Jesus é difícil, cheio de espinhos, estreito e desafiador; uma pessoa medrosa jamais poderá trilhá-lo. Não podemos ter medo do medo, ele faz parte de nossa condição. Assim pensava Jean-Paul Sartre: “Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem”. O que não podemos permitir é que o medo nos domine.

A fé liberta-nos do medo. Uma pessoa de fé é uma pessoa corajosa. A fé é um elemento primordial no seguimento de Jesus. Quem não tem fé não pode seguir Jesus. É preciso ter fé nele e perseverar. A fé é um dom gratuito dado por Deus, que precisa ser alimentado todos os dias. A oração ajuda muito no cultivo da fé, é um meio pelo qual a pessoa fortalece a vivência de fé. Na oração temos contato direto com Aquele em quem depositamos nossa fé, logo uma pessoa de fé é também uma pessoa de oração. Somente quem reza e que tem fé pode libertar-se do medo. Sem a fé é impossível agradar a Deus (cf. Hb 11, 6), pois é pela fé que demonstramos nossa confiança em Deus e dele recebemos a verdadeira vida. É pela fé que somos salvos (Ef 2, 8 – 9). Disse, ainda, Mahatma Gandhi: “A fé – um sexto sentido – transcende o intelecto sem contradizê-lo”.

Os discípulos se apavoraram diante da tempestade. Ninguém escapa das tempestades da vida. Elas são difíceis, mas necessárias. As pessoas de fé podem até indagar a Deus, como fizeram os discípulos de Jesus: “Senhor, não te importas que eu pereça?” Somos tentados a pensar que Deus está alheio às nossas tempestades. Certamente, não é Deus o causador de nossos problemas, de nossas tempestades. Deus não causa problema na vida de ninguém. Ele não é um problema na vida de ninguém. São muitos os que pensam que Deus é um homem severo e mal, que castiga o homem fazendo-o sucumbir em seus pecados. Quem assim pensa, não conhece a Deus. Na primeira leitura da liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, sexta-feira passada, disse Deus por meio do profeta Oséias: “Ensinei Efraim a dar os primeiros passos, tomei-o em meus braços, mas eles não reconheceram que eu cuidava deles” (Os 11, 3). Deus cuida de nós, porque ele nos ama. Então, por que temermos às tempestades da vida? “Não tendes fé?”, pergunta-nos Jesus. Precisamos aprender a confiarmos em Deus, porque ele é nosso Deus, nosso salvador, nossa força e salvação (cf. Is 12, 2). Permaneçamos em Cristo, pois nele somos novas criaturas (cf. 2 Cor 5, 17), porque renovados em Cristo vencemos o medo e nos tornamos pessoas de fé.


Tiago de França

sábado, 20 de junho de 2009

A crise do Senado da República


A crise do Senado Federal é de fazer vergonha a qualquer brasileiro! A cada dia se descobrem mais irregularidades. A mais recente denúncia refere-se aos “atos secretos”, que permitem realizar nomeações sem que sejam publicadas nos boletins oficiais, ou seja, pura corrupção! Interessante como ninguém sabe explicar o que está acontecendo e os senadores não fazem outra coisa senão implantar CPIs para “apurar” seus próprios desvios de conduta. Revoltante foi o discurso do Presidente do Senado, José Sarney (PMDB – AP), colocando-se como a vítima da situação e tentando se mostrar um político honesto na história deste país. Quem quiser conhecer a família Sarney convido a permanecer alguns dias no Estado do Maranhão, escutando o povo pobre falar da administração desta família há décadas. Mais uma denúncia, desta vez contra a filha de José Sarney, Roseana Sarney, Governadora do Estado do Maranhão, que tem um mordomo a seu serviço sendo pago pelo Senado Federal, o mesmo ganha, com gratificações, em torno de 12 mil reais. A mulher governa o Estado, tem seu bom salário, e ainda tem um mordomo pago pelo Senado Federal! Se a denúncia proceder, ele será, no mínimo, demitido e ela continuará no exercício de seu mandato, sem sofrer nenhuma penalidade. Como entender uma coisa dessas?...

O Brasil precisa de uma reforma política urgente. A questão que se impõe é: Quem vai fazer esta reforma? Se forem senadores como o Presidente do Senado e a maioria corrupta do Congresso Nacional, não teremos reforma, mas homens brincando com o poder, dando a impressão de que estão trabalhando para mudar a situação. Se a reforma política não passar pela participação popular, tudo vai continuar do mesmo jeito e rios de dinheiro continuarão sendo desviados dos cofres do povo. Creio que a reforma política deve passar pelo voto secreto no dia das eleições. O eleitor deve prestar bastante atenção no que está acontecendo, construir um juízo de valor, e acabar com essa raça mentirosa e corrupta no dia das eleições. O poder popular no regime democrático está na participação. Se os brasileiros participassem das decisões políticas e do destino nacional, estes falsos políticos não durariam muito tempo. Infelizmente, a falácia que impera no meio popular é: “Futebol, religião e política não se discutem”. É não discutindo o que se passa, que políticos corruptos se aposentam no exercício do mandato, como foi o caso de Antônio Carlos Magalhães, oligarca falecido da Bahia.

O que mais me preocupa é que a grande maioria dos jovens de nosso país não está preocupada com a situação política do país, mal reclamam. São poucos os que procuram se informar, sendo que são justamente os jovens que mais sofrem com as péssimas conseqüências das ações dos políticos corruptos. É preciso acordar para uma nova consciência. Não podemos assistir passivamente tal situação. É verdade que ainda temos políticos honestos, que levam a sério a função pública em favor da verdadeira cidadania, como foi o caso do senador Jefferson Peres (PDT – AM, falecido). Temos grandes nomes como o senador Cristovam Buarque (PDT – DF), a senadora Marina Silva (PT – AC) e tantos outros. É preciso que elejamos pessoas que tenham história, que tenha passado político e acima de tudo, idoneidade política. O candidato precisa ter vocação para a “coisa pública”, não pode ser qualquer pessoa. O caráter, a ética, a responsabilidade, a seriedade, a transparência, a moral, etc. são valores da pessoa que lida com o que é do povo.

Um senhor, em um coletivo aqui de Fortaleza, dizia em tom forte para todos escutarem: “O homem só nasce uma vez e tem que ter vergonha na cara”. Os políticos corruptos de nosso país precisam urgentemente saber disso! Ter vergonha na cara significa ser responsável por aquilo que faz, ser honesto e coerente diante da vida, do contrário, não vale a pena viver neste mundo.


Tiago de França

O analfabeto político


O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.


Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta alemão.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A missão do presbítero na pós-modernidade


Com esta breve reflexão pretendo refletir um pouco sobre a missão do presbítero no mundo atual. Quero partir de uma simples análise da figura do presbítero na Igreja e da realidade de nossos dias. O que me motiva a escrever sobre tal temática é a convocação do Ano Sacerdotal (19/06/2009 a 19/06/2010), pelo Papa Bento XVI, por ocasião do 150º aniversário de morte de São João Maria Vianney, o Cura de Ars, que será proclamado padroeiro de todos os sacerdotes do mundo.

“Com efeito, o sacerdócio ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa” (Lumen Gentium, n. 10). As palavras deste importante documento conciliar mostram a relação que deve haver entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum, onde o primeiro está a serviço do segundo. O presbítero é chamado a “fazer as vezes de Cristo”, ou seja, imitá-lo. O n. 209 do Documento de Aparecida, confirmando o que disse Lumen Gentium n. 31, afirma: “Os fiéis leigos são ‘os cristãos que estão incorporados ao Cristo pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam segundo sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo’”.

Citei o sacerdócio comum dos fiéis no parágrafo anterior porque sem este não se entende o sacerdócio ministerial, isto porque o presbítero não existe para si mesmo nem em função da hierarquia da Igreja, mas em função do serviço ao povo de Deus e ao mundo. Isto significa que nenhum presbítero pode pensar ou querer ser superior ao povo de Deus, porque o seu ministério está para o serviço e não para a autoridade. É preciso lembrar o que disse Jesus no Evangelho: “Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20, 24 – 27). Com este ensinamento, Jesus quer nos dizer que a autoridade do apóstolo está no serviço, da mesma forma, a autoridade do presbítero está no serviço que o mesmo deve prestar ao povo de Deus. O pai de Dom Hélder Câmara, antes deste ingressar na formação do Seminário da Prainha, disse-lhe: “Meu filho, ser padre é coisa muito séria; padre e egoísmo não se unem”. O pai de Dom Hélder, no momento em que pronunciou este sábio ensinamento era maçon e não era um praticante da religião. O egoísmo não pode fazer parte da vida do presbítero.

O mundo atual está em crise. As notícias nos mostram a situação do mundo. O sistema capitalista neoliberal tem levado o homem à morte. Os sinais de morte são muito fortes. A destruição da natureza tem provocado catástrofes horríveis e virão muitas outras no futuro próximo. A pessoa humana está perdendo cada vez mais sua dignidade, pois está valendo muito pouco. As ideologias são muitas e estamos num tempo de confusão. Os valores éticos e morais estão se tornando relativos e o homem proclama cada vez mais sua independência em relação a Deus. As injustiças sociais se acentuam e os direitos humanos e a cidadania estão sendo esquecidos. Pode parecer uma visão pessimista ou antimodernista da realidade, mas não é, pois é isto que assistimos em nossos dias. Não podemos fechar os olhos diante de tanta fome, violência, desemprego, doenças, etc. O desespero leva muitas pessoas a perderem a esperança num mundo possível, mais humano e fraterno. O ex-frade e teólogo Leonardo Boff, que ultimamente tem se voltado para a Ecoteologia, tem dito que a pior das crises a que estamos submetidos refere-se à crise de humanidade. O homem está perdendo a sensibilidade diante da vida e está agonizando no “salve-se quem puder”. Diante desta situação, pergunto: Qual a missão do presbítero?

A Igreja deve está a serviço do mundo, pois está inserida no mundo e sua missão é no mundo. O presbítero precisa ter a plena consciência de que não foi ordenado para viver uma realidade metafísica, ou seja, longe ou fora da realidade do mundo. A espiritualidade cristã não está voltada para as nuvens, mas para a vivência do amor neste mundo criado por Deus. Há presbíteros que vivem fugindo do mundo e das pessoas. Como pode exercer sua missão fugindo da realidade? Abraçar o ministério ordenado não é renunciar ao mundo, como muitos pensam, mas guiado pelo Espírito de Deus, que sonda todas as coisas e encoraja-o, o presbítero é convidado a dar testemunho do Evangelho vivendo a vida comum, inserido no mundo, a exemplo de Jesus Cristo, que deixando a morada do Pai nas alturas, encarnou-se no mundo e neste remiu-nos, salvou-nos e inaugurou para nós, o Reino de Deus.

Há três conselhos evangélicos que todo presbítero, seja religioso, seja diocesano, precisa observar: a obediência, a pobreza e a castidade no seguimento de Jesus Cristo. Num mundo onde reina a revolta, à intolerância, o desrespeito, o presbítero é chamado a dar testemunho de obediência à vontade de Deus. Na Igreja, o presbítero é convidado a obedecer aos seus superiores, porque estes devem levar o mesmo ao pleno cumprimento da missão nas funções a ele confiadas. Todo presbítero promete obediência, os superiores devem lembrá-lo sempre desta promessa nos momentos em que ela correr o risco de ser quebrada. A obediência não tem a finalidade de diminuir ou humilhar o presbítero no exercício de seu ministério, mas ajudar-lhe no seu amadurecimento pessoal. Ela deve levar o presbítero a realizar em sua vida a vontade de Deus. A obediência não está para atender aos caprichos dos superiores, que detêm a autoridade.

Diante de um mundo onde o prestígio, o poder e a riqueza regem as relações e constroem uma sociedade individualista, corrupta e hipócrita; o presbítero é convidado a ser um homem pobre. Jesus e os doze apóstolos eram homens pobres. O presbítero ser um homem pobre sempre foi um desafio na vida da Igreja. O presbítero, pela Sagrada Escritura, deve ser um operário da vinha do Senhor. E um operário trabalha. O trabalho deve fazer parte da vida do presbítero. É verdade que o presbítero deve ter os meios necessários para o exercício da missão, mas aquilo que é supérfluo é desnecessário. Um presbítero não pode ser rico porque ele vive para o serviço do povo de Deus e para servir não precisa ser rico. A riqueza atrapalha porque ocupa e preocupa o presbítero na manutenção da mesma. Todo homem rico procura manter sua riqueza, porque não aceita ficar pobre e também porque a sociedade prega que pobreza é sinal de maldição. Precisamos discernir entre pobreza e miséria. Jesus privilegia os pobres no anúncio no Evangelho. Isso não quer dizer que a miséria é vontade ou criação divina, afinal de contas, Deus não criou o mundo sem a natureza, fonte de toda riqueza. Um presbítero pobre é aquele que tem onde dormir, o que comer e o que vestir. Basta ao presbítero ser como os pobres, estes irão escutá-lo e acolhê-lo com seriedade e alegria. Uma vida humilde é necessária.

Diante de um mundo erotizado, dado à depravação, em que a pessoa torna-se objeto de desejo sexual e o aliciamento é presença forte no cotidiano da sociedade, o presbítero é chamado a ser casto. Na Igreja, o celibato aparece como um dos meios de se viver a castidade. A castidade deve está ligada à pobreza. O presbítero celibatário e rico é uma aberração! É impossível não dizer que um presbítero rico não seja egoísta, pois adquire e mantêm só para si os bens que possui. Uma vez orientado para aceitar e viver o celibato, o presbítero precisa unir a sua vida à de Cristo e vivê-la na maturidade, alegria e dedicação. O celibato só é possível quando por meio dele o presbítero procura ser santo e na santidade de vida, procura servir ao povo de Deus com toda humildade, simplicidade e despojamento; do contrário, é impossível agradar a Deus em tal condição.

É preciso que a Igreja repense o perfil e o ministério do presbítero para o nosso mundo atual. E aqueles que se sentem chamados a tal ofício devem saber que o serviço, que se vive no amor gratuito, é a centralidade da vida presbiteral, assim como o foi na vida de Jesus (cf. Mt 20, 28).


Tiago de França da Silva, seminarista lazarista.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O perdão


“De fato, se vós perdoardes aos homens as faltas que eles cometeram,
vosso Pai que está nos céus também vos perdoará.
Mas, se vós não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará
as faltas que vós cometestes”
(Mt 6, 14 – 15).

O perdão é um dom e uma experiência de Deus. Todos os homens pecam e necessitam do perdão divino, pois somente Deus é que tem o poder de perdoar. No versículo acima, Jesus apresenta uma exigência para se receber o perdão de Deus: perdoarmos a quem nos tem ofendido. Humanamente, é um pouco difícil perdoarmos às pessoas que nos ofendem, pois toda ofensa machuca e até revolta as pessoas. Sempre somos tentados a não perdoarmos a quem nos tem ofendido, principalmente quando somos plenamente vítimas da situação. Procuramos sempre nos justificar afirmando sempre que a culpa foi do outro e que este é que deve implorar nosso perdão.

A discórdia é um mal na Igreja e na sociedade. Na Igreja, quando os cristãos não se unem e vivem a competição entre si, não aceitando o jeito de ser do outro e excluindo-o da comunidade. A discórdia na vida de Igreja gera o farisaísmo, pois pensamos estar seguindo a Jesus tendo inimizade com nosso irmão. Para sermos Igreja precisamos viver unidos, pois a unidade foi vivida e é querida por Jesus. No seguimento de Jesus precisamos aprender a vivermos unidos no amor, e o perdão é essencial neste aprendizado. O perdão aproxima e reconcilia as pessoas no mesmo ideal da fé. Não podemos seguir o mesmo Cristo trilhando o caminho da discórdia.

Há pessoas que sentem muita dificuldade em perdoar as ofensas sofridas. Escutando certos relatos vejo que são até compreensíveis certas situações, pois as pessoas encontram-se bastante tristes e abatidas, porque foram profundamente humilhadas. Quando não unimos as nossas humilhações às de Jesus, toda humilhação torna-se revoltante e gera ódio no coração e vingança nas relações. Infelizmente, as relações em nosso mundo atual estão pautadas no ódio e na vingança e isto resulta na intolerância. Esta está presente nas Igrejas (intolerância religiosa) e na sociedade. Pessoas intolerantes não suportam as fraquezas do próximo, não compreendem a si mesmas, geralmente são revoltadas e inimigas da unidade e da paz.

O perdão é um exercício constante na vida da pessoa. Antes de tudo, é preciso perdoar-se. Quem não se perdoa, não consegue perdoar o outro. O perdão está intimamente vinculado ao amor, pois somente quem verdadeiramente ama é quem está preparado para perdoar e ser perdoado. O amor cultiva em nós o dom do perdão e nos ensina a perdoar. O versículo acima deixa bem claro, que é perca de tempo implorarmos o perdão de Deus se nos recusarmos a perdoar nossos irmãos. O mesmo Deus que exige o perdão é quem dá a graça de vivenciá-lo. A Igreja e o mundo precisam de pessoas misericordiosas, pois somente quem perdoa e é perdoado pode viver em paz. Esta, além de ser fruto da justiça, também é fruto do perdão. Que o Deus da vida nos perdoe, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.


Tiago de França

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O desperdício da vida


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor
que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca
e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos, também, a felicidade".

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 16 de junho de 2009

Resultados da Campanha da Fraternidade 2009


O Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB (Consep) começou ontem, dia 15, na sede da CNBB, em Brasil, a reunião de avaliação da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano, que teve como tema “Fraternidade e Segurança Pública”. Segundo a própria CNBB, somente 17% das dioceses participaram da avaliação respondendo aos questionários enviados às mesmas e aos regionais. Isso significa que 83% das dioceses não responderam ao questionário. Precisamos pensar sobre isto.

Quando a Igreja se propõe a realizar uma Campanha, ela precisa avaliar os resultados. Sem esta avaliação não sabemos se os objetivos foram alcançados. Sem avaliação da caminhada, a Igreja pode repetir os mesmos erros na ação missionária. O número de dioceses que não responderam ao questionário é muito grande. Exigir que os leigos correspondam aos anseios da Campanha e as dioceses não sentam para avaliar, é totalmente contraditório. A avaliação metodológica é uma necessidade na vida da Igreja, pois a avaliação torna o trabalho mais eficiente. Não vejo sentido em lançar uma campanha e depois esquecê-la no texto-base. É verdade que algumas dioceses, principalmente aquelas que responderam ao questionário, mostraram-se muito comprometidas com a Campanha e os sinais de transformação foram visíveis.

Outro equívoco que ocorre todos os anos com a CF é que quando termina o Tempo Quaresmal e se celebra a Páscoa, a CF já fica esquecida. Não se fala mais em CF, como se a problemática abordada já tivesse sido resolvida. Estamos em 2009, mas já estão escrevendo o texto-base da CF de 2011 sem uma avaliação precisa da CF deste ano. Isto tem que ser revisto, porque do contrário, a CF vai perder sua visibilidade na Igreja e no país. Temos que chamar a atenção para o compromisso permanente com as temáticas abordadas. O tema da CF deste ano é muito rico e atual, pois a violência bate às nossas portas. Toda CF é uma oportunidade de os cristãos, principalmente os católicos, de viverem os valores evangélicos que professam pela fé.

Toda e qualquer campanha visa resultados. Se estes não são alcançados, frustrada é a campanha. Graças a Deus e à mobilização de muitos cristãos autênticos, a CF tem incomodado um pouco os executores dos crimes que a mesma denuncia e tem levado muita gente a uma reflexão crítica da realidade. A CF visa a realidade. É esta que nos interessa e o método ver-julgar-agir deixa bem claro isso. Avaliar o AGIR é muito importante para continuarmos acertando na ação. A realidade clama por justiça e precisamos escutar os apelos de quem sofre e agirmos da melhor maneira possível, pois quem sofre tem pressa e não pode esperar.


Tiago de França

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A vida do homem


A vida,
mistério insondável,
fonte de possibilidades
de humanização.
A vida,
dom que nos foi dado,
dom que ultrapassa nossa compreensão.

Viver,
aventura de corajosos,
de gente audaciosa
que se arrisca sem temer...
Ousar,
é enfrentar o desconhecido
na plena certeza de chegar.

Chegar,
é ter encontrando a ferramenta
de se melhorar a vida
para continuar vivendo
porque
o caminhar é infinito.
E a vida...
a vida é a vida vivida!

O homem e o viver,
uma pessoa e uma missão,
uma missão da pessoa
e a pessoa de uma missão.
É um desafio possível
ser homem
e deixar-se desafiar
pela missão de viver:
Viver a missão
e a missão de viver
a vida.


Tiago de França

domingo, 14 de junho de 2009

O Reino de Deus: pequenez e força


O texto do Evangelho deste XI Domingo do Tempo Comum é Mc 4, 26 – 34. A semente é usada por Jesus em duas parábolas para se entender o Reino de Deus. Jesus se utiliza de coisas das quais o povo tinha conhecimento, dos instrumentos do cotidiano da vida do povo. Desta vez, Jesus se utiliza da atividade do homem do campo para levar os ouvintes a entenderem a dinâmica do Reino de Deus. Este, por sua vez, tem uma dinâmica e uma lógica que, quem não entendê-las, também não vai compreender nem participar do Reino de Deus.

O mundo tem sua lógica própria, lógica esta que abarca todo ser humano numa cadeia de relações. Estas, por sua vez, são pautadas no interesse. Sempre os interesses pessoais e dos grupos superam o interesse pelo bem comum. Costumo dizer que a lógica do mundo tem suas características: competitividade, consumismo, materialismo, agressão ao meio ambiente, ganância, poder, prestígio etc. Os valores do Reino de Deus andam na contramão da lógica do mundo. Como ensina o biblista Carlos Mesters: “O Reino de Deus é caminhar com Jesus na contramão”. O mundo preza pela grandeza, pela multidão, pela globalização da desumanização da pessoa, ou seja, a opressão humana é um mal globalizado, porque o capitalismo chegou a toda parte e vitima milhões de pessoas.

O texto do Evangelho de hoje vem mostrar como o Reino de Deus se apresenta e se enraíza no mundo. A simplicidade dos pequenos acontecimentos da vida da comunidade cristã são sinais vivos do Reino de Deus acontecendo entre nós. Estes sinais são simples, humildes, mas muito significativos. A mídia não se interessa com estes sinais e quando os publica, deprecia-os enfaticamente. Um exemplo de sinal do Reino que acontece entre nós é a luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra pela Reforma Agrária no Brasil. Quando este Movimento aparece na mídia é tido como um movimento de baderneiros, de pessoas que invadem as propriedades alheias. Por que isto? Porque a mídia está a serviço da ideologia capitalista. Ela alicia para o consumismo e não está preocupada com a dignidade da pessoa. A pessoa é exposta em sua intimidade e vista como objeto de consumo.

O Evangelho fala que o Reino é como uma semente. O que é uma semente? Não é uma planta, mas algo aparentemente sem vida e sem brilho, mas quando semeada em terra fértil produz uma linda árvore, que produz muitos frutos. A semente da mostarda é citada no Evangelho e constitui a menor dentre todas as sementes, mas quando nasce e cresce, torna-se uma dentre as maiores árvores. O Reino de Deus é do mesmo jeito. Iniciou-se com um grupo de doze homens pobres e pecadores. A partir de uma leitura do Evangelho veremos que Jesus e os doze não significavam nada diante do poder imperial. Jesus e seu grupo não representavam nenhuma instituição, eram destituídos de poder. Não podiam nada, a não ser anunciar ao mundo o amor de Deus.

O Reino de Deus não está representado no exercício do poder temporal, tão corrompido pela ação humana, mas se manifesta no meio dos oprimidos deste mundo. Onde estão os oprimidos, aí está acontecendo o Reino de Deus. A luta incansável por justiça e paz em todas as partes do mundo é um sinal vivo do Reino de Deus acontecendo entre nós. Mas é preciso não se esquecer da semente, daquilo que é menor. Tudo é muito simples, não há espetáculos no Reino de Deus. Os espetáculos não têm ligação com o Reino de Deus, porque onde há espetáculo há prestígio e poder. No ano que vem teremos um grande espetáculo mundial, a Copa do Mundo. Só que não tem ligação com o Reino de Deus, porque não visa promover a dignidade humana. O povo africano mal consegue sobreviver, devido à fome, o clima, à pobreza, às doenças etc., mas terão que arcar, com a ajuda de outros países, com despesas altíssimas para receber o evento mundial. Terminada a Copa do Mundo de 2010, poderemos perguntar: A Copa mudou o cotidiano sofrido do povo africano?... Não tenho nada contra o futebol, mas investir milhões de dólares em construções de estádios e outros investimentos em detrimento da saúde, educação e desenvolvimento sustentável de uma nação é profundamente vergonhoso e lamentável.

Precisamos viver sempre mais os valores do Reino de Deus, pois a vida do mundo depende da vivência dos mesmos. E o valor supremo do Reino de Deus é o amor, pois somente pelo amor é que há promoção e preservação da vida humana. Quando amamos, vivemos a justiça, o perdão, a solidariedade, a partilha, o respeito, a unidade, a coletividade, etc. Toda pessoa que professa a fé em Jesus Cristo é convidada a semear com a vida os valores do Reino de Deus, pois o nascer destes sinais é a construção do Reino e quem se recusa a semeá-los não participa e nem participará da plenitude do Reino de Deus com a vinda definitiva de Jesus entre nós.


Tiago de França

sábado, 13 de junho de 2009

Santo Antônio de Pádua, doutor da Igreja


Os santos são na Igreja a continuidade da missão de Jesus Cristo. É muito importante falar a respeito da vida dos santos, porque foram fiéis seguidores de Jesus Cristo, e podemos aprender muito com a vida de cada um deles. Hoje a Igreja celebra a vida de Santo Antônio de Pádua, nascido em Lisboa (Portugal) em 1190 e falecido em Pádua (Itália), em 13 de junho de 1231, por volta dos quarenta anos de idade. Primeiramente, frade agostiniano em Coimbra, depois frade franciscano na Itália.

No Brasil, santo Antônio de Pádua é tido como o “santo casamenteiro”, aquele que intercede pelas pessoas que desejam casar-se. Particularmente, a partir da leitura da biografia dele, não vejo muita ligação do santo com a questão matrimonial. Claro que santo Antônio reconhecia o valor de tal sacramento, mas em sua época não morreu com a fama de “santo casamenteiro”. Isto é religiosidade popular, que precisa ser reconhecida e respeitada e que, sem sombras de dúvidas, santo Antônio deve atender aos pedidos daquelas pessoas que desejam se casar.

Quero ressaltar, brevemente, duas qualidades de santo Antônio, que devido à ligação que se faz com a questão do casamento, terminam-se passando despercebidas: Santo Antônio missionário e grande orador do Evangelho. Na Igreja temos um problema no que se refere à veneração dos santos: o conhecimento das biografias dos mesmos. Muitas pessoas são devotas de santo Antônio, mas desconhecem sua história de vida. Venerar um santo sem conhecer sua história é um pouco arriscado! Primeiro, porque não é o santo que faz o milagre, pois os santos não têm poder. Este pertence a Deus e o papel do santo está na intercessão. Muitas pessoas não entendem isto, pois afirmam que “santo Antônio é poderoso”. Quem é poderoso, senão Deus?... Segundo, porque quando veneramos santo Antônio não nos tornamos seguidores dele, mas a seu exemplo seguimos Jesus Cristo. A centralidade da fé cristã na Igreja não está na veneração dos santos, mas no seguimento à pessoa de Jesus Cristo.

Santo Antônio foi um verdadeiro missionário de Jesus, pois pregou em vários lugares, a saber: Marrocos, Itália e França. Não foi um santo sedentário, mas um homem itinerante que viveu aquilo que Jesus pediu: “Ide e evangelizai”. Numa época atribulada pelos crimes civis e eclesiásticos, santo Antônio destacou-se pelo despojamento e pelo espírito evangélico da missão. Foi um grande pregador do Evangelho, um dos maiores de seu tempo, pela sapiência e eloqüência. Formado em Direito Canônico, Filosofia e Teologia, tornou-se o primeiro professor de Teologia da Ordem dos Frades Menores, a pedido de São Francisco. Inicialmente, este não queria que os frades estudassem nem possuíssem livros, mas dada a sabedoria de santo Antônio, permitiu então que o mesmo lecionasse Teologia aos frades. Antes de ser ordenado presbítero, santo Antônio, então Frei Fernando de Bulhões, fora aluno dos Mosteiros dos Cônegos Regrantes de S. Vicente de Fora e no de Santa Cruz de Coimbra. Foi um aluno destacado pela inteligência e sabedoria com que lidava com os estudos e a vida cotidiana.

Os sermões escritos por santo Antônio revelam que foi um homem que tinha uma forte intimidade com Deus pela oração e pela leitura orante da Palavra. Santo Antônio era um homem de oração. Esta qualidade deve fazer parte da vida de todo cristão, e mais precisamente, de todo presbítero. Santo Antônio ensina a todo presbítero que sem a oração não é possível viver tal ministério. Mediante a correria da vida paroquial e do cotidiano da pós-modernidade, sinto que os presbíteros de nossa Igreja precisam rezar mais. A intimidade com Deus por meio da leitura da Sagrada Escritura é outro valor importante na vida de um religioso e na vida cristã. Santo Antônio foi profundamente profético e místico no ensino da verdade e na pregação do Evangelho, isto se devia à leitura assídua da Palavra de Deus. Em 1946, o Papa Pio XII o declarou Doutor da Igreja, por meio da bula Exulta, Lusitania felix.

Além de sua sapiência e oratória, santo Antônio tornou-se um exemplo de cristão autêntico e de homem coerente, que uniu fé e vida no exercício de seu ministério. Resta-nos pedir a Deus que faça surgir na Igreja homens e mulheres, livres e coerentes, que anunciem ao mundo a Boa Nova do Reino de Deus.
Santo Antônio de Pádua, rogai por nós!


Tiago de França

O amor, somente o amor


O amor,
somente o amor
é capaz de levar o homem
a viver a sua verdadeira vocação.

A verdadeira vocação
de todo ser humano
é ser plenamente feliz
e fazer seu semelhante
também
ser feliz.

Ser feliz
é buscar ser, antes de mais nada,
humano.
E ser humano
é um desafio possível
àqueles que se aventuram
na dinâmica inalienável do amor.

Amor,
somente o amor
é que
verdadeiramente
converte e salva
o homem.

O homem e o amor:
um nasceu para o outro.
O homem
nasceu para o amor
e o amor
nasceu para o homem.
Um não existe sem o outro!


Tiago de França

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Namorar e ficar


Hoje é o Dia dos Namorados. Pensei em escrever algo para os namorados. Não posso falar a partir de uma experiência pessoal e atual, pois sou seminarista. O celibato presbiteral nos coloca outra proposta, e desde a formação seminarística somos iniciados na vida celibatária. Em outras palavras, quero dizer que seminarista não deve namorar, tendo em vista a opção que fez, ou seja, caminhar para o sacerdócio ministerial. Mas esta não é a problemática que quero discorrer neste artigo.

Ultimamente, tenho tido contato com muitos jovens e assistido alguns casais de namorados e noivos. Confesso que a situação dos jovens enamorados é preocupante, pois há um relativismo sentimental. O que é isso? Os sentimentos que surgem entre os jovens no campo da afetividade e sexualidade são muito relativos, ou seja, sem profundidade e sem seriedade. Claro que há exceções. A maioria dos jovens procura curtir a vida. Este curtir significa viver sem pensar nas conseqüências dos atos praticados, ou seja, brincam com coisa séria.

Quase tudo é relativo entre os jovens, e dentro desta relatividade está o famoso ficar, que é o oposto de namorar. O ficar é passageiro e descompromissado. A falta de compromisso com os sentimentos do outro é algo grave quando se leva em consideração a maturidade humana. Esta falta de compromisso gera pessoas imaturas e instáveis, pessoas que não têm o privilégio de viver um sentimento duradouro e sério. Encarar a vida com seriedade é uma necessidade que se impõe para a vivência estável num momento incerto e cheio de inseguranças.

Infelizmente, os jovens descarregam suas energias em circunstâncias e sentimentos desnecessários e instáveis. A juventude pós-moderna está mergulhada na erotização. Há uma exacerbada exposição do corpo e o aliciamento sexual está presente nas relações entre os jovens. Os jovens estão se tratando como objetos de desejo sexual. As conversas, o olhar, o pensar, o agir, o sentir e o tocar estão implícitos, e às vezes, explicitamente ligados ao aliciamento, à idéia de sexo. O ficar torna as pessoas descartáveis. O mercado e a tecnologia oferecem todos os meios necessários e possíveis para a vivência das relações superficiais entre os jovens. Os meios mais usados são a internet, o celular, a moto, a moda, os shoppings, etc.

O ficar tem na relação sexual seu ápice. Enquanto o casal não “fizer amor”, não fizeram nada! A gíria é clara: “Mas fulano tem uma pegada!”... O preservativo é usado para proteger daquilo que é indesejável: doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. Uma vez que o preservativo impede tais conseqüências, então os jovens “ficam a vontade”. Neste sentido, a Igreja acerta quando condena o uso da camisinha, tendo em vista que, talvez, se esta não existisse, os jovens fizessem menos sexo, pois tinham certo medo das doenças e da gravidez indesejada.

O namoro é uma relação que é chamada a ser durável e séria, pautada na construção do amor e no respeito mútuo. Trata-se do primeiro estágio de conhecimento recíproco, experiência necessária para o desenvolvimento do ser humano, enquanto ser sexuado. Creio que nem os eclesiásticos deveriam se privar da experiência afetiva do namoro! Antes da formação do seminário ou do convento, o namoro não desvia aquele que é chamado por Deus ao serviço do povo de Deus, afinal de contas, os eclesiásticos não são privados da sexualidade. Os votos e a consagração não nos destituem sexualmente. Somos seres sexuados da ponta dos pés até o fio de cabelo da cabeça! É no namoro que os jovens se conhecem, partilham os sonhos e pensamentos. Partilham as tristezas e alegrias das descobertas recíprocas de um relacionamento que tende para o estado matrimonial. É no namoro que os jovens aprendem a ser co-responsáveis e fiéis. Tal aprendizado se dá por toda a vida do casal, principalmente após a celebração das núpcias.

Seria muito bom se os jovens namorassem mais e ficassem menos. O namoro constrói a pessoa e o ficar fere a dignidade sexual da pessoa. É tão triste ver jovens mulheres, que chegado o dia do casamento, já não se lembram mais de quantas relações sexuais fizeram durante a vida pregressa... Diante disto, pergunto: Como essas jovens vão educar suas filhas? O que vão dizer para elas, quando as virem diante de homens que só querem conhecê-las sexualmente?... Isso também vale para os jovens homens, futuros pais. Não quero ser moralista, pois o moralismo não constrói, mas é urgente que os pais reflitam com seus filhos tal situação, pois somos filhos de Deus e somos pessoas, não objetos de desejo sexual de ninguém.


Tiago de França da Silva

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eucaristia, banquete da vida


“Tomai, isto é meu corpo. Isto é o meu sangue,
o sangue da aliança, que é derramada em favor de muitos” (Mc 14, 22.24).

Desde o século XIII, na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a Solenidade de Corpus Christi. É a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, com ênfase na sua presença real na Eucaristia. Jesus se faz presente nas espécies do pão e do vinho e dar-se como alimento que fortalece a caminhada do povo de Deus. Esta presença eucarística de Jesus faz cumprir aquilo que ele mesmo disse no seu Evangelho: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28, 20). Com isto, temos a plena certeza que não somos órfãos, não estamos abandonados, mas o Pai em Jesus e no Espírito permanece conosco. Deus comunga de nossa vida e nós comungamos da vida de Deus.

A nossa participação na Eucaristia levanta alguns questionamentos que nos levam a compreender melhor o mistério que celebramos em cada Missa, a saber: Por que comungar? Como comungar? Quem pode comungar? Pensemos a resposta a tais indagações a partir do Evangelho de Jesus, justo e misericordioso. Disse Jesus: “Os sãos não tem necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento” (Lc 5, 31 – 32). Falar de justo e pecador é levar o doença para o nível espiritual da vida humana. Os nossos pecados nos deixam doentes diante de Deus. O pecado é uma doença do espírito. Jesus não veio para os justos, afinal de contas, quem é justo diante de Deus?... Essa justificação não pode ser sinônimo de isenção de pecado, pois quem está isento do pecado?... Somos pecadores, esta é a nossa condição. O pecado age como que imperativamente em nossa vida, como nos ensina o apóstolo Paulo de Tarso: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto” (Rm 7, 15). Jesus veio para os injustos e são estes que são chamados para participar da Ceia do Senhor.

Por que comungar? Esta pergunta nos leva a pensar nas verdadeiras motivações que nos levam a comungar. Seria muito bom se todos que comungam procurassem saber das motivações para a participação eucarística, pois quando não nos perguntamos, nossa participação no Sacramento torna-se mecânica. A mecanicidade da participação não invalida o sacramento, pois Jesus está presente, mas invalida a nossa vida de fé. Quem participa por participar não alimenta um compromisso com a Eucaristia. Esta falta de compromisso não gera conversão. A pessoa comunga, mas não muda nem progride na vida espiritual. No campo das motivações há dois equívocos gravíssimos a seres revistos: o primeiro refere-se às pessoas que comungam em função dos próprios pecados, ou seja, há pessoas que comungam somente para se libertarem de seus pecados, como se a finalidade da Eucaristia fosse somente para o perdão dos pecados. Quando se tem o pecado como motivação maior, pode-se até ficar sem comungar, pois a pessoa se sente indigna de participar do Corpo e Sangue de Cristo. Se olharmos bem a realidade de nossas Missas veremos que muitas pessoas se recusam a receber a Eucaristia porque se sentem pecadoras e indignas do Corpo do Senhor. Infelizmente, temos ministros e presbíteros que reforçam tais sentimentos quando avisam com voz forte nas igrejas: “Venham comungar os que estiverem preparados”. Este viso é contraditório diante da oração que pronunciamos antes de comungar: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. Quem é digno de receber o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo? Ninguém! Comungamos porque Deus é bom e misericordioso e porque nos amou primeiro.

Como comungar? Esta questão nos remete à Celebração do mistério eucarístico. Analisando bem nossas Missas, estas estão se tornando cada vez mais espetáculos e isto não é bom. Não vale brincar de celebrar a Eucaristia nem fazer teatro na Missa, pois isto irrita e impacienta a assembléia orante. Há presbíteros, que infelizmente, buscam dramatizar o Evangelho, tornando a Celebração num verdadeiro espetáculo de fé. Em outros casos, em um show da fé como vive e ensina o missionário protestante R.R. Soares. Isto é muito triste, porque encobre o verdadeiro sentido da Celebração Eucarística. A humildade e a simplicidade não devem fazer parte somente da conduta cristã das pessoas, mas também de nossos atos litúrgicos. A Celebração Eucarística não pode se tornar num momento insuportável na vida das pessoas, como já acontece com alguns cristãos praticantes. É triste saber de fiéis que buscam participar das Missas de outras comunidades, porque não suportam mais as Missas, ora barulhentas, ora extensas demais, em sua comunidade. Alguns excessos precisam ser cortados, porque andam afastando muita gente deste momento sagrado na vida de fé. Não são os cantos emotivos e os paramentos litúrgicos que apresentam o sentido da Celebração, mas a simplicidade e a humildade na celebração da Palavra e da Eucaristia, que constituem a Missa. Cantos com letras que estejam em plena sintonia e paramentos que prezam pela simplicidade da beleza tornam a Celebração mais alegre e agradável. Tudo deve transparecer a glória de Deus e não nossas aparências chamativas.

Quem pode comungar? Disse Jesus: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Jesus não veio a este mundo remir algumas pessoas ou para um grupo de pessoas em particular. A salvação oferecida por Jesus é universal. Ele veio para todos. Agora, se nem todos serão salvos, aí é outra questão. Se nem todos acolhem Jesus em suas vidas, o problema não é de Jesus. Ninguém é proprietário de Jesus, ele é universal. Todos podem ter acesso a Jesus e por meio dele podem ter acesso a Deus. Jesus deu-nos vida com sua vida. A Eucaristia é o próprio Jesus dando-se a nós como alimento. Toda pessoa precisa se alimentar para viver. Todos precisam receber Jesus para ter a vida eterna, pois assim ele disse: “Quem come a minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Todos são convidados para participar da vida divina no Sacramento da Eucaristia. Ninguém pode impedir a pessoa de comungar, pois ninguém pode impedir a pessoa de se aproximar de Jesus, pois o mesmo Cristo diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7, 37). Toda pessoa que segue Jesus precisa recebê-lo na Eucaristia. Ninguém pode ser excluída da mesa eucarística, do altar do Corpo do Senhor.

Jesus é nosso alimento. Para darmos continuidade à construção do Reino, este santo e sublime alimento deve fazer parte de nossa vida. Jesus está em nós e nós em Jesus quando o recebemos na Eucaristia. Nossa participação na Eucaristia nos mantém unidos a Jesus. Assumirmos o compromisso com os valores do Reino de Deus: amor, justiça, solidariedade, perdão, acolhida, hospitalidade, partilha, amizade, compaixão, respeito, paz etc. é comungar da vida divina na Eucaristia. Quando nos recusamos a nos comprometer com a justiça do Reino de Deus, então nos tornamos indignos do Corpo do Senhor e a nossa participação na Eucaristia torna-se mecânica. Não podemos separar participação eucarística e compromisso com o Reino de Deus, pois é para construirmos o Reino que precisamos comungar. Esta é a nossa vocação e missão. Que Jesus eucarístico nos converta e nos ponha em seu caminho, caminho de justiça e de paz para todo gênero humano criado à imagem e semelhança de Deus. Que nossa participação na Eucaristia fortaleça em nós nossa capacidade de amarmos a Deus e ao próximo como a nós mesmos.


Tiago de França da Silva

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Palavras de Santo Antônio de Pádua


“Fala em línguas quem está repleto do Espírito Santo. As diversas línguas são o testemunho que devemos dar em favor de Cristo, a saber, humildade, pobreza, paciência e obediência. Quando os outros virem em nós estas virtudes, estaremos nós falando a eles. Nossa linguagem é penetrante quando é nosso agir que fala. Eu vos conjuro, pois, deixai vossa boca emudecer-se e vossas ações falar! Nossa vida está tão cheia de belas palavras e tão vazia de boas obras”.


(Santo Antônio de Pádua. Sermões sobre São Mateus 23,1-12)

terça-feira, 9 de junho de 2009

A misericórdia de Deus


No discurso religioso e em nossa vida de fé costumamos falar muito da misericórdia de Deus. No evangelho segundo Lucas está escrito: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso” (6, 36), estas são palavras de Jesus. Ele pede-nos para sermos misericordiosos a exemplo de Deus Pai. Isso significa que aprendemos com o Pai a sermos misericordiosos. Mas como se dá a misericórdia de Deus?

A compreensão da misericórdia de Deus está ligada com o conceito de bondade. Deus é eternamente bom e porque é bom, é misericordioso. Sumamente perfeito, Deus conhece as imperfeições humanas e vem ao encontro do homem, auxiliando-o com a sua graça. Deus tem misericórdia do homem porque Ele o ama. É no amor de Deus que se revela a sua misericórdia para conosco, e é na misericórdia de Deus que se manifesta o amor de Deus por cada um de nós.

Sobre a misericórdia de Deus, disse São Vicente de Paulo: “O segredo mais íntimo de Deus é a Misericórdia. A liturgia indica-a como própria de Deus, que se deixa inspirar para tal. Que Deus se conceda dar-nos estes sentimentos de misericórdia e de compaixão, em abundância, e a mantê-los sempre vivos em nós” (XI, 341). Quando suplicamos e clamamos a misericórdia divina, Deus não nos abandona nem nega-nos seu perdão. Somos acolhidos pela misericórdia de Deus. A maior prova de que Deus é misericordioso é a vinda de Jesus para a nossa remissão e salvação. Deus, infinitamente santo e bom, compadeceu-se de nossas faltas, enviando-nos Jesus. A vinda de Jesus a este mundo, sua paixão, morte e ressurreição são a maior prova de amor de Deus por cada homem e cada mulher.

A Igreja é convidada a ser um sinal de misericórdia no meio do mundo. Ela não pode ser a juíza da humanidade, pois esta não é a sua missão. A missão da Igreja é levar as pessoas a construírem o Reino de Deus no exercício cotidiano do amor e da misericórdia. No cap. VII, n. 13 da Encíclica Dives in misericórdia está escrito: “A Igreja professa a misericórdia de Deus, a Igreja vive dela na sua vasta experiência de fé e também no seu ensino, contemplando constantemente a Cristo, concentrando-se n’Ele, na sua vida e no seu Evangelho, na sua Cruz e Ressurreição, enfim, em todo o seu mistério”. A história da Igreja não deixa mentir e nos ensina que, quando a mesma se esqueceu de viver a misericórdia divina oprimiu e extinguiu a vida de muitas pessoas. Não cabe à Igreja julgar e condenar o homem e a sociedade, mas apontar-lhes o caminho de Jesus, que é o caminho do amor e da justiça.

Em nossas relações interpessoais precisamos aprender a sermos misericordiosos. Se quisermos que Deus continue tendo misericórdia de nós, então precisamos aprender a sermos misericordiosos com os outros, pois como nos ensinou Francisco de Assis: “... é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado...” A misericórdia não pode ficar no campo do discurso e do conceito, mas na prática cotidiana de quem segue a Jesus. O seguimento de Jesus exige a vivência da misericórdia e da compaixão. Talvez, se as pessoas fossem mais misericordiosas e compassivas, o nosso mundo seria melhor e o homem fosse mais humano. Não permitamos que a insensibilidade e o ódio tomem conta de nossos corações e de nossas relações, pois somos chamados a amar, misericordiosamente.


Tiago de França da Silva