quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dom Luciano Mendes de Almeida, um exemplo de cristão


Um artigo é insuficiente para falar sobre Dom Luciano Mendes de Almeida, SJ. Não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, mas mesmo assim, atrevo-me a escrever algo sobre este grande Bispo da Igreja, nascido no dia 05 de outubro de 1930 no Rio de Janeiro. Filho de família rica, tradicional e de vasta cultura, teve acesso a uma boa educação, que o transformou em um grande intelectual. Estudou no Colégio Santo Inácio, no RJ e no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. Ingressou na Companhia de Jesus (jesuítas) em 1947. Nos anos 50 e inícios da década de 60 estudou em Roma, onde fez doutorado em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma e em 1958, ainda em Roma, foi ordenado presbítero. Foi nomeado Bispo Auxiliar de São Paulo, sendo sagrado por Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, OFM, Dom Clemente Isnard, OSB e Dom Benedito de Uchoa Vieira. Em 1988, o Papa João Paulo II o nomeou Arcebispo de Mariana, MG, onde permaneceu até a morte. Ficou mais conhecido no Brasil quando foi eleito Secretário Geral da CNBB (1979 – 1987) e Presidente da mesma de 1987 a 1995 (dois mandatos consecutivos). Além do português, falava e escrevia em inglês, francês, alemão e latim. Também era um ótimo caricaturista.

Qual a personalidade episcopal de Dom Luciano? Dom Luciano era um intelectual e um homem moderado na palavra. Não era de escandalizar as pessoas, apesar de seu aguçado pensamento crítico. Ele gostava de dizer: “Sou moderado no discurso e radical na ação”. De fato, quem o conheceu pessoalmente concorda planamente com suas palavras. Seu discurso moderado o fez ocupar grandes cargos e ser escutado por muitas pessoas. Tinha o dom da palavra certa na hora certa e para a pessoa certa. Presidiu a CNBB em momentos difíceis, período em que vigorou a redemocratização do Brasil. Acertadamente, o Papa Paulo VI o nomeou Bispo da Igreja e, profeticamente, o colocou junto a outro grande pastor da Igreja, o então Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, OFM. Certamente, o Espírito do Senhor não faltou ao Papa Paulo VI em tal nomeação! Posteriormente, João Paulo II desfez a aliança fraterna dos dois profetas da Igreja Particular de São Paulo, nomeando Dom Luciano para o Arcebispado de Mariana, MG.

Dom Luciano era conhecido pela sua ternura para com os pobres. Durante toda a sua atividade de pastor zeloso, costumava recolher as crianças abandonadas nas praças e calçadas das ruas, principalmente pela madrugada. Era um homem que dormia pouco. Este serviço aos pobres abandonados, entre tantos outros, o transformou num pastor simples e humilde. Todos que se aproximavam dele ficavam extasiados pela sua inteligência, simplicidade, ternura e humildade. Uma oportuna colaboração para a Igreja latino-americana foi sua participação na Conferência de Puebla. Graças a ele e aos demais Bispos do grupo da “Igreja dos Pobres” é que tal Conferência teve bom êxito, sem dar muita margem às influencias da Cúria Romana. Foi em Puebla que a Igreja teve a coragem de se propor à opção preferencial pelos pobres.

Dom Luciano deixa à Igreja, principalmente aos Bispos uma grande lição: o exercício da autoridade no serviço e na humildade. Ele ensinou que a autoridade só é válida e respeitada quando se coloca a serviço, principalmente dos esquecidos da sociedade. Dom Luciano era um Bispo discreto em suas ações. No silêncio da madrugada e na ação misteriosa do Espírito de Deus buscou servir humildemente aos prediletos de Jesus, os pobres. Isto o constituiu cristão. Ele ensinou que, antes e durante o exercício das ordens sacras, os pastores do povo de Deus devem procurar ser cristãos. Se conseguirmos ser cristãos, então corresponderemos aos anseios do Evangelho e seremos santos no amor de Deus. Simplesmente, Dom Luciano mostrou com a vida que ser cristão é ser santo. A santidade da vida consiste em sermos cristãos de verdade. Trata-se de um mistério simples de ser compreendido, mas que é vivido somente por aqueles que se dispõem à aventura do amor.

A Igreja de nossos dias precisa de Bispos da linha de Dom Luciano, Dom Hélder Câmara, Dom Oscar Romero, Dom Pedro Casaldáliga entre outros. Foi uma geração de Bispos que compreenderam o evento Vaticano II e procuraram colocá-lo em prática. Estes homens foram profetas (Dom Pedro Casaldáliga ainda está entre nós). Foram profetas porque se deixaram guiar pelo Espírito que sopra onde quer. A ação do Espírito do Senhor só é plenamente compreendida por aqueles que se deixam conduzir, porque vivem conseqüentemente a aventura do amor. Que nossos Bispos sejam solícitos com aqueles que profeticamente os precederam no ministério episcopal, e que os projetos de amor e vida sejam reanimados e revigorados na Igreja, pois os pobres estão à espera da caridade fraterna dos verdadeiros cristãos. As injustiças são gritantes, precisamos urgentemente de profetas. Jamais o Espírito deixará faltar à Igreja homens que a ajudem a converter-se ao caminho do Evangelho, caminho de Jesus.

Cremos que os santos são autênticos cristãos, portanto não vejo exagero nem erro reconhecer a santidade de Dom Luciano Mendes de Almeida. E se esta não for canonicamente reconhecida, certamente o bom Deus o já tem feito na morada dos justos, assim como aqueles e aquelas que o conheceram de perto. Hoje, dia 27 de agosto, dia em que também celebramos a memória da Páscoa de Dom Hélder Câmara, coirmão no episcopado de Dom Luciano. Completados os 75 anos, idade exigida pelo direito canônico para a renúncia dos Bispos, em Mariana – MG, entregou seu espírito a Deus num gesto de amor-serviço. Como são misteriosos os desígnios da Providência! Dom Hélder celebrou a Páscoa definitiva em 27 de agosto de 1999 e seu coirmão Dom Luciano no mesmo dia 27 de agosto do ano de 2006, sete anos após. Pela vida e testemunho destes dois santos, demos graças a Deus!


Tiago de França

2 comentários:

Lucia disse...

Caro Tiago,

Muito bonitas suas palavras sobre meu tio Luciano. Ele realmente foi um santo. Falava e escrevia o italiano e o espanhol tambem.

Lucia disse...

Voce sabe onde foi tirada esta foto?