sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O pecado, fraqueza do homem


Não costumo falar de pecado. É um tema que sempre me recuso a falar, apesar de estar presente na vida humana. Alguns jovens me pediram para escrever algo sobre o pecado. Eles querem saber se o pecado é pecado mesmo e se é pecado pecar! Certa vez, um padre me disse que não devemos nos preocupar com o pecado, pois se dermos muita atenção, o mesmo se introduzirá em nosso pensamento e não conseguiremos pensar em outra coisa. Acabei por concordar porque conheço pessoas que de tanto pensar no risco de pecar, terminam por pecar, esquecendo-se de que o pecado não é o centro da vida cristã. Muitas pessoas vivem atormentadas pelo medo de pecar, porque escutam nas igrejas que quase tudo na vida é pecado. Será que é verdade mesmo?...

Qual a origem do pecado? Numa explicação simples e levando em consideração o pecado de Adão e Eva no livro do Gênesis, o pecado não é criação divina. Então, quem criou o pecado? Como surgiu? Será que foi o demônio? Brevemente, podemos dizer que o pecado surgiu do mau uso da liberdade. Deus criou o homem livre e este resolveu desobedecer aquele. A catequese cristã ensina que o pecado surgiu na desobediência do homem e da mulher em relação à vontade de Deus. É o que nos remete o livro da Criação. Santo Agostinho, Bispo de Hipona, na sua obra De libero arbitrio ensina-nos que o homem recebeu de Deus o dom da liberdade, sendo capaz de soerguer-se por sua livre iniciativa. Assim sendo, o homem é livre para pecar e para obedecer a Deus. Quando o homem se volta para Deus, ele não peca, porque a vontade divina não induz ao pecado, mas liberta do mesmo.

Durante toda a Idade Média até o Concílio Vaticano II reinou na Igreja uma forte idéia de pecado. Durante este período, a Igreja deu muita ênfase ao pecado, principalmente aos pecados pessoais. O rigor disciplinar fazia parte do cotidiano da Igreja. A prática da ascese como caminho para a perfeição era o ideal proposto pela Igreja a todos que nela professassem a fé. Ligado ao pecado aparecia o inferno, que amedrontava a todos, pois a pregação dos padres nas igrejas chamava a atenção dos fiéis para a presença do demônio no mundo. Até nossos dias impera-se tal espiritualidade na vida de muitas pessoas, que não se libertando, vivem a se confessar periodicamente, com medo de ir para o inferno. Com isto, não quero afirmar que não há pecado e inferno, nem pretendo invalidar o Sacramento da Reconciliação, tão necessário à vida cristã dos católicos, mas quero apenas afirmar que tal espiritualidade vivida ao extremo, criou em muitas pessoas o que chamo de complexo de culpa. Numa linguagem espiritual, tal complexo torna a pessoa inferior e a escraviza, fazendo com que a mesma sinta-se permanentemente culpada por cometer pecados, que muitas vezes, nem chegaram a ser cometidos, ou que não mereçam extrema atenção, por não serem graves.

No Evangelho encontramos Jesus. Cremos e professamos que ele não cometeu pecado algum, mesmo sendo homem. Justamente por ser homem, Jesus entendeu a realidade e a condição do homem. Ele viveu a condição humana e se compadeceu. Por isso, ao cometer o pecado, por meio de Jesus, o homem alcança o perdão de Deus. Cremos que Deus é misericordioso porque tendo se encarnado neste mundo por meio de Jesus, conhece profundamente o íntimo de cada homem e sabe de seus limites. Deus é fiel em nos socorrer nas tentações. Vejamos o que diz o Apóstolo Paulo: “Vocês não foram tentados além do que podiam suportar, porque Deus é fiel e não permitirá que sejam tentados acima das forças que vocês têm” (1 Cor 10, 13). Deus não exige que sejamos perfeitos como ele, porque sabe que somos limitados.

Analisando as atitudes de Jesus diante das pessoas consideradas “pecadoras”, principalmente aquelas que eram mais condenadas pela sociedade, percebe-se que Jesus não se une à condenação feita e exigida pela lei e pela sociedade. Duas sentenças de Jesus esclarecem bem seu posicionamento diante de tais pessoas: diante da mulher pega em adultério, disse Jesus: “Quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8, 7), e aos fariseus, respondeu Jesus: “Aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’. Porque eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9, 13). Jesus faz questão de ensinar que não podemos julgar as pessoas que pecam, mas ajudá-las a superar o pecado. Não se trata de relativizar o pecado, numa tentativa de inocentar culpados e condenar inocentes, mas criar em nós uma atitude de misericórdia diante da fragilidade do próximo. Uma vez que todos somos pecadores, estamos proibidos de julgar uns aos outros, pois estamos no mesmo patamar.

No processo de Evangelização da Igreja vamos encontrar o pecado e o demônio na pregação dos pastores. No ambiente dos irmãos separados, encontramos certa insistência nos temas pecado, graça, demônio, inferno e paraíso. A idéia central é vencer o pecado e alcançar o que chamam de céu. Todos querem ir para o céu! E nesta busca, Deus deixa de ser nosso Pai para ser “meu Pai”, Jesus deixa de ser universal e se torna “meu Jesus”, propriedade particular dos que crêem. Cultiva-se cada vez mais uma fé individualista, portanto fora do espírito comunitário. A religiosidade encerra-se numa relação pessoal entre o meu eu e Deus. Uma fé que não se interessa com a situação pecaminosa do mundo, pois basta que Deus perdoe meus pecados, porque somente estes é que lhe interessam. Para as pessoas complexadas com o pecado, Deus se torna um vigia permanente, que não deixa passar a oportunidade de castigar na hora certa pelo pecado cometido. Para estas pessoas, Deus é o Supremo Senhor e Juiz, o Onipotente e Santo, em detrimento da verdadeira imagem de Deus revelada em Jesus, o Emanuel misericordioso que vem ao nosso encontro e nos acolhe com amor e ternura.

No ambiente católico, predominantemente na Renovação Carismática Católica e nas novas Comunidades de vida de inspiração neopentecostal, há um grande esforço de se voltar à Cristandade. A regra é a seguinte: Confessar os pecados ao padre e comungar constantemente para se alcançar o que chamam de “estado de graça”. Esta espiritualidade também não está interessada com a realidade do mundo. Os problemas do mundo não interessam aos neopentecostais, pois a responsabilidade na resolução de tais problemas é do Governo e suas instâncias. A idéia de Igreja é a retratada pelo padre João do Auto da Compadecida ao cangaceiro Severino, “a Igreja cuida da parte espiritual”. Para não passar a idéia de que a caridade não existe, os neopentecostais gostam de campanhas assistencialistas que não questionam a situação estrutural da sociedade.

Certamente, os pecados que mais ferem a dignidade humana e mais provocam a Deus são os pecados sociais. O Deus revelado por Jesus não aceita a exploração do homem pelo homem nem a agressão à mãe natureza. O Deus e Pai de Jesus e também nosso Pai, quer a vida do mundo e do homem, e é da responsabilidade do homem o cuidado com a vida doada gratuitamente. A ausência do cuidado com a vida é o maior pecado que o homem comete. Somos infantis e alienados se pensarmos que Deus está preocupado com nossas pequenas falhas cotidianas. A Sagrada Escritura testemunha que Deus está preocupado com a exploração feita aos pobres da terra, aqueles que não têm vez nem voz (cf. Ex 3, 7- 9).

No que concerne ao pecado, precisamos anunciar a Boa Notícia. Não podemos usar a Palavra de Deus para anunciar o medo. Este não é parte integrante do anúncio da vida. O medo impede a vida brotar. Anunciamos o Evangelho para libertar as pessoas do medo que o pecado produz. Infelizmente, há pastores do povo de Deus que se utilizam da Palavra de Deus para semear medo nos corações das pessoas. Cria-se até campanha contra o pecado, como é o caso do PHN da Canção Nova. Seria importante se todo este marketing fosse empregado numa grande campanha pela justiça e solidariedade entre as pessoas. É preciso combater o pecado, não sou contra isso, mas precisamos combater os pecados graves, tais como: a fome, a miséria, a violência, a prostituição, a desonestidade, a corrupção e tantos outros que estão presentes na sociedade. Estes pecados ferem a dignidade humana e tiram a vida do povo de Deus. É contra estes pecados que precisamos fazer campanhas. Que o Senhor seja misericordioso conosco, assim como estamos sendo com nossos irmãos, e que o pecado não domine a nossa consciência e a nossa vida.


Tiago de França

2 comentários:

Wellington R disse...

Belo texto amigo.
Só ressaltando, a preocupação da igreja contra os pecados graves realmente é grande, porém é a origem de todos os acontecimentos no mundo como fome, miséria, prostituição, exploração e entre muitos outros.

A gravidade do pecado sendo mortal, quando fere os DEZ MANDAMENTOS da lei de DEUS causam tudo isto que hoje vivemos no mundo.

Amar a DEUS sobre todas as coisas. Este mandamento nos indique que DEUS é tudo e ele deve ser amado com toda as nossas forças, acima de tudo e em qualquer situação.
Quando se ama a DEUS em primeiro lugar você consegue gozar do amor de DEUS, na qual você (nós) conseguirá cumprir os demais mandamentos. Quando você (nós) não conseguimos amar a DEUS sobre todas as coisas, certeza que não conseguiremos amar o proximo
e como consequência teremos tantas desigualdades, tantas miséria no mundo. Quando amamos cuidamos, e assim cuidariamos o nosso irmão que está na rua, na qual se inumeram em muitos mendigos e muitas pessoas passando fome.

Entre outros mandamentos, como não matar, nao roubar não pecar contra a castidade, tudo isto quando desobedecidos, faz com que nós nos afastamos do amor de DEUS. Deus quer sempre nos amar e ele jamais não quer que pecamos, mas
por nos amar tanto tanto, ele nos deu o dom da liberdade assim como muito bem citado por você.

Temos sim que ter medo do pecado mas com temor a DEUS. DEUS nos amou tanto que deu o seu único FILHO para morrer por nos, carregando a cruz de todos para perdoar a nos de nossos pecados e para que quem crer em seu filho seja salvo.

FIQUE COM DEUS.

Wellington R disse...
Este comentário foi removido pelo autor.