sábado, 12 de fevereiro de 2011

O cristão e a observância da lei


“Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16).

O discurso sobre a lei está no centro da Liturgia da Palavra deste VI Domingo Comum. Somos chamados ou não à observância da lei? Devemos obedecer a Deus ou à lei? Qual a sua finalidade? Jesus instituiu uma nova lei? A comunidade cristã é chamada a refletir a respeito destas questões à luz da fé e da palavra de Jesus. Este é apresentado pelo evangelista Mateus como aquele que ensina a prática da justiça e a realização da vontade de Deus. O texto evangélico deste Domingo (Mt 5, 17 – 37) está inserido no discurso do sermão da montanha, onde Jesus ensina aos discípulos e à multidão reunida em torno dele.

A lei e a justiça

Jesus começa dizendo que não veio abolir a lei e os profetas. Logo, não podemos acusá-lo de ser mais um revolucionário desobediente entre os judeus. A palavra de Jesus revela que ele aprovou e reforçou o texto da lei judaica dada aos antigos, mas este reforço exigiu a realização de alguns “reparos”. Somos levados a pensar que o problema não está na lei em si mesma, mas na prática da lei. Os fariseus e mestres da lei observavam-na, rigorosamente; ou seja, se preocupavam com a letra da lei, não com seu espírito. Assim, mostravam-se ultraconservadores e legalistas, pois cumpriam a lei pela lei.

O cumprimento da lei pela lei tem como conseqüência o esquecimento ou a marginalização da justiça. Os fariseus e os mestres da lei não estavam preocupados com a prática da justiça que preserva e promove a vida do ser humano, mas, somente, com observâncias minuciosas da lei através de uma burocracia escravizante que não considera a dignidade da pessoa. Quando fala sobre a lei e os profetas, que resumem todo o Antigo Testamento, Jesus quer chamar a atenção para a prática da lei que deve colocar o ser humano em primeiro lugar.

Colocar a pessoa em primeiro lugar significa que esta é maior do que a lei, ou seja, não é a pessoa que deve viver em função da lei, mas esta em função daquela. Tanto no aspecto social quanto religioso, ninguém está obrigado à obediência de leis que oprimem e/ou que não promovem a justiça. Jesus cumpriu a lei levando-a a perfeição. Ele nos ensina que a prática da lei corresponde, necessariamente, à prática da justiça. O contrário disso se expressa na opressão oriunda do farisaísmo e da alienação.

Na sociedade e na Igreja temos as leis, que deveremos observá-las seguindo o exemplo de Jesus. Tanto numa quanto noutra há o risco de nos tornarmos escravos. As leis não são produções divinas, mas humanas; portanto, sujeitas a reparos. Nas constituições e códigos civis temos as chamadas “emendas”, ou seja, aperfeiçoamentos necessários para o pleno cumprimento das leis que devem promover a justiça social. Todas as leis devem ter como fim a promoção da justiça social.

As leis eclesiásticas devem ter o mesmo tratamento, ou seja, não foram ditadas por Deus, mas são oriundas da inteligência humana, e devem convergir para a prática da justiça que constrói o Reino de Deus. Na Igreja temos fariseus e mestres da lei, que a interpretam segundo interesses, meramente, institucionais e/ou grupais. Na vida eclesial, as leis canônicas e litúrgicas devem ter como princípio fundamental a vida do ser humano. Quando ocorre o contrário, assistimos humilhações, exclusões, julgamentos injustos e condenações, hipocrisia, alienação e toda espécie de opressão religiosa.

Os fundamentalismos bíblico, teológico e religioso são frutos da interpretação equivocada e da aplicação exacerbada das leis e/ou prescrições canônico-religiosas. Portanto, peca contra Deus toda Igreja e/ou autoridade religiosa que se utiliza da lei para julgar e condenar as pessoas. A Igreja nasceu para trabalhar, incansavelmente, na construção do Reino de Deus, não para reforçar a opressão que os poderosos exercem sobre as pessoas, principalmente sobre os empobrecidos.

Ofensa e reconciliação

Em segunda, Jesus fala, também, dos valores que dignificam as relações interpessoais: além de não devermos matar, não devemos odiar nem difamar o próximo; somos chamados à reconciliação e ao diálogo. Tudo isto nos remete a uma sadia convivência na comunidade. Aliás, não podemos viver nem construir comunidade sem vivermos o respeito, a reconciliação e o diálogo. Somos seres humanos, falantes e racionais, portanto, chamados a construir um mundo de justiça e de paz.

Jesus não dita códigos e/ou normas de conduta. O amor deve ser a norma que deve reger a conduta do discípulo missionário de Jesus. Ele não fez nenhum acréscimo ao conjunto das leis que encontrou na comunidade judaica, pois esta não foi a sua missão. A missão de Jesus de Nazaré, missionário do Pai, foi a de reconciliar as pessoas com Deus, reconciliação que acontece na relação sadia com o próximo. A prática da justiça do Reino de Deus é o ensinamento fundamental de Jesus de Nazaré, esta justiça supera a dos fariseus e mestres da lei.

O mundo padece pela falta da prática da justiça do Reino de Deus, pois as injustiças tornaram-se coisa comum entre as pessoas. Ser justo virou motivo de escândalo. Aos poucos, o povo está se acostumando com as injustiças. A situação é tão gritante que ser injusto é normal, ser justo é anormal!

A pessoa inteligente e esperta é aquela que é desonesta e que pauta sua vida na desonestidade, seu progresso material é certo numa sociedade regida pelo capitalismo selvagem; enquanto que a pessoa justa, que pauta sua vida na prática da justiça que promove o Reino de Deus é tida como atrasada, e seu progresso material é, muitas vezes, ínfimo. Esta é lógica do mundo.

Jesus nos ensina que ter vantagens em detrimento da vida do próximo é um pecado gravíssimo que se mostra quase que imperdoável. A realidade nos mostra que não tem futuro a pessoa que assim procede; cedo ou tarde todos descobrem a falsidade das aparências e a corrupção das atitudes.

O enriquecimento ilícito é prática comum em nossos dias e tem levado ao empobrecimento cada vez mais agravante de muitas pessoas: uns cada vez mais ricos em detrimento de outros cada vez mais pobres. Um exemplo atual disso está no Egito: enquanto o ditador Hosni Mubarak, durante quase trinta anos no poder, desviou bilhões dólares dos cofres públicos para as próprias contas em outros países, metade da população padece pela falta daquilo que é básico para sobreviver; mas graças ao Deus da vida e à luta incansável da maioria jovem daquele país, a libertação está se tornando possível.

Adultério e fidelidade

Jesus legitimou a legítima união entre o homem e a mulher. O matrimônio é, de fato, um dom de Deus. A traição desta união chama-se adultério. Jesus ensina que a fidelidade alimenta a verdadeira união entre os cônjuges. Fidelidade é sinônimo de confiança, ou seja, a pessoa que, verdadeiramente, ama a outra na relação conjugal é chamada à confiança que gera a fidelidade.

As experiências conjugais de nossos dias estão cada vez mais escassas. As pessoas se casam, mas tal casamento dura pouco. A desconfiança é um dos fatores que tem levado à separação de muitos casais. O homem e a mulher precisam aprender que a recíproca confiança gera comunhão. Assim, pessoas extremamente desconfiadas, que têm dificuldades de construir relações duradouras costumam não ser felizes na relação matrimonial, porque não conseguem confiar no/a outro/a.

Jesus recomenda que a pessoa se separe da outra no caso de fornicação, ou seja, ninguém está obrigado a viver com o cônjuge traidor. A traição quebra, às vezes, definitivamente, a confiança entre as pessoas. Depois da experiência da traição, as pessoas nunca voltam a ser o que eram. É verdade que há casais que se perdoam, mutuamente; mas isto tem acontecido muito pouco. Recomenda-se que aconteça, mas as pessoas tem se mostrado cada vez indispostas.

Em matéria de matrimônio e adultério é preciso que tenhamos em mente a seguinte sentença: Não há neste mundo a mulher e o homem ideais, justos e santos na relação. O ser humano é fraco, que tende para o pecado; e quando este último está diretamente relacionado ao corpo, às faculdades sexuais, tende, portanto, ao desequilíbrio. Não é à toa que Jesus declarou em outra oportunidade: “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). Por isso, orar e vigiar devem ser práticas constantes do casal que deseja ser feliz.

A confiança no Deus que nos conhece (cf. Eclo 15, 20) e que nos concede e nos revela a sabedoria que nos conduz à vida (cf. 1 Cor 2, 7. 10) é um valor evangélico imprescindível na vida do cristão. Devemos pedir a Deus que nos ensine a viver seus preceitos (Sl 118, 33), a fim de que nos faça alcançar aquilo que foi preparado para cada um de nós deste a eternidade: “algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu” (1 Cor 2, 9). Este algo é, certamente, a vida feliz do Reino de Deus que devemos, cotidianamente, construir com a prática do amor e da justiça.


Tiago de França

Um comentário:

Marivan disse...

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