sexta-feira, 25 de março de 2011

Dom Oscar Romero: pastor, profeta e mártir


“Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”
(Dom Oscar Arnulfo Romero Galdemez)

Na Igreja, desde seus primórdios, o Espírito do Senhor fez surgir mulheres e homens que anunciaram a Boa Notícia do Reino de Deus até as últimas conseqüências, até o derramamento de sangue. Hoje é dia de um dos mais santos bispos da Igreja: Dom Oscar Arnulfo Romero Galdemez, assassinado há 31 anos, durante uma Missa no hospital da Divina Providência, em El Salvador. Este santo Bispo, impelido pelo Espírito do Senhor, foi ao encontro dos oprimidos do rebanho de Cristo e os amou até o fim, e a exemplo do mesmo Cristo, deu a sua vida por causa do Evangelho da vida e da liberdade.

Nasceu no dia em que a Igreja celebra a Assunção da Virgem Maria ao céu, em 15 de agosto do ano de 1917, foi ordenado padre em 1942, aos 25 anos de idade. Sua fidelidade à Igreja o fez Bispo no dia 22 de fevereiro de 1970, aos 53 anos. “Sentir com a Igreja”, este era o seu lema episcopal. Dez anos após, aos 63 anos recebeu a coroa do martírio no altar do Senhor, com o cálice e a patena nas mãos. Nesta reflexão vamos meditar sobre alguns aspectos da pessoa deste profeta da justiça do Reino de Deus a partir daquilo que ele foi: pastor, profeta e mártir.

Dom Oscar Romero, pastor

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11). Estas palavras de Jesus são apropriadas para falar do pastor Oscar Romero. Quando aceitou a nomeação episcopal, ele não sabia o que estava por vir. Sua biografia mostra claramente que o mesmo não desejava, inicialmente, ser um Bispo dos pobres, mas um homem fiel ao magistério da Igreja e obediente ao Bispo de Roma, o Papa. Assim ele era conhecido: homem rigoroso, ortodoxo, tradicional e, conseqüentemente, conservador.

Os apelos divinos são mais fortes do que qualquer doutrina ou ortodoxia na vida de uma pessoa atenta aos sinais dos tempos. No dia 03 de fevereiro de 1977, Dom Oscar Romero foi nomeado Arcebispo de San Salvador. O clero desta Arquidiocese, empenhado na luta pelos direitos humanos se viu perplexo, pois conhecia o conservadorismo do nomeado. Mais uma vez, Roma investiu em um Bispo que não entrasse em conflito com os governantes e demais autoridades. Neste tempo, os militares estavam ceifando a vida dos pobres e perseguindo clérigos e religiosos. Era tempo de ditadura.

O Arcebispo, de início, ficou assistindo a situação calamitosa de El Salvador, até que os militares assassinaram o padre Rutílio Grande, missionário jesuíta. Esta morte chamou a atenção de Dom Oscar Romero, que passou a entender que a política de segurança nacional era uma farsa e um crime inaceitável. Diante desta e de outras centenas de mortes e de tantas outras injustiças praticadas pelo regime militar, Dom Oscar Romeiro abriu os olhos e ouvidos e escutou o clamor dos oprimidos, que viviam como ovelhas sem pastor.

A partir daí morreu em Dom Oscar Romero a velha figura de Bispo insistentemente alimentada pela Igreja. Ele deixou de ser o amigo dos poderosos, o homem do gabinete e das rubricas, o mandatário e conservador, e passou a ser considerado pelos militares como o comunista e subversivo. Utilizando-se de todos os meios que lhe estavam ao alcance, Dom Oscar Romero se colocou a serviço dos pobres, desprotegidos e marginalizados.

O bom pastor é aquele que se preocupa com a vida de suas ovelhas, que as conhece e as cuida. O pastor zeloso vai ao encontro de suas ovelhas, especialmente daquelas afastadas e/ou transviadas. As ovelhas conhecem a voz de seu pastor e o escutam porque sabe que ele deseja somente a vida delas. Dom Oscar Romero conquistou o coração dos pobres de El Salvador e foi amado por eles. Ele nos ensinou com sua vida que o lugar do Bispo, do padre, do/a religioso/a e de toda e qualquer liderança religiosa é no meio do povo pobre.

Dom Oscar Romero, profeta

“Veja: estou colocando minhas palavras em sua boca. Hoje eu estabeleço você sobre nações e reinos, para arrancar e arrasar, para demolir e destruir, para construir e plantar” (Jr 1, 9 – 10). Em um depoimento sobre o testemunho de Dom Hélder Câmara, profeta da Igreja de Deus que está em Olinda e Recife, PE, disse Leonardo Boff: “O profeta não tem amor ao próprio pescoço”. Isto não quer dizer que o profeta não tenha amor à própria vida, mas significa que não tem apego à mesma. Amor é diferente de apego. Dom Oscar Romero foi um homem desapegado, despojado, ao ponto de doar-se a si mesmo até as últimas conseqüências na libertação integral do povo salvadorenho.

O profeta não tem medo da morte, mas crê na ressurreição. Esta fé na ressurreição leva-o à entrega total de si em prol da vida e da dignidade do ser humano. Dom Oscar Romero foi um Bispo da verdade, proclamava-a sobre os telhados. Ele foi, de fato, luz do mundo e sal da terra, conforme pede Jesus em seu Evangelho. Não tinha medo de expor a verdade contida no Evangelho, verdade que incomodava os militares corruptos e sanguinários. Em nenhum momento Dom Oscar Romero contou com proteção policial, pois entregou, plenamente, a sua vida nas mãos Daquele que o chamou ao ministério profético na Igreja de El Salvador.

Quanto mais aumentavam as perseguições e ameaças, mais o santo Bispo denunciava as injustiças cometidas pelo regime ditatorial militar. O contato com o sofrimento do povo, a Celebração Eucarística e sua experiência de oração pessoal ajudavam-no a se manter fiel à missão. Não cedia diante das recomendações contrárias oriundas de eclesiásticos medrosos que não compreendiam nem aceitavam a sua missão. Além destas recomendações, Dom Oscar Romero teve que enfrentar muitas inimizadas por parte de padres e Bispos contrários à luta pela libertação integral do povo de Deus daquele sofrido país.

Por isso, sua palavra profética estava, corajosa e incisivamente, contrária à ditadura e aos setores conservadores da Igreja. Seu testemunho estava em plena comunhão com a Igreja pensada pelo Concílio Vaticano II e confirmada pelas conferências de Medellín e Puebla: uma Igreja que é chamada a ser pobre entre os pobres trabalhando na libertação dos pobres, construindo, assim, o Reino de Deus. Austero consigo mesmo, Dom Oscar Romero é um testemunho profético de consagração radical ao serviço humilde e simples dos oprimidos de seu tempo.

Dom Oscar Romero, mártir

“Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26, 39). Estas palavras de Jesus demonstram seu medo diante da morte. Certamente, o santo Bispo rezou muitas vezes esta oração, e a exemplo de Jesus não procurou fazer a própria vontade, mas a de Deus. É uma virtude divina o desapego da própria vida para doá-la em favor da vida e da liberdade de um povo aflito e sofredor.

Na vida da Igreja não são poucos os que procuram salvar a própria vida em detrimento da vida do povo de Deus, vivendo cômoda e tranquilamente. Estas pessoas se fazem de surdas e cegas diante do sofrimento dos pobres; são egoístas, pois só querem saber de si mesmas e de suas comodidades. São diversos os casos de clérigos e religiosos/as que se utilizam da condição de consagrados para viver uma vida burguesa, a custa do suor e do sangue dos mais pobres.

Por outro lado, existiu, existe e vai continuar existindo um pequeno número de mulheres e homens que se doam na defesa e promoção da dignidade do ser humano até o derramamento de sangue. Para citar um caso recente, basta-nos lembrar da Beta Lindalva Justo de Oliveira, Filha da Caridade de São Vicente de Paulo, brutalmente assassinada na Sexta-feira da Paixão do Senhor do ano de 1993, enquanto servia o café da manhã para idosos num asilo em Salvador, BA.

Dom Oscar Romero foi assassinado diante do altar do Senhor, durante uma Celebração Eucarística. Com Cristo, por Cristo e em Cristo se ofereceu a Deus. Ele acreditou na força do Evangelho de Cristo e se entregou por amor e pela vida do povo de Deus. Esta é a verdadeira imagem da Igreja de Deus: Igreja que luta pela vida do pobre até as últimas conseqüências, que fala a verdade e desmascara o mentiroso e opressor, Igreja da opção preferencial pelos pobres. A missão da Igreja é assumir a esperança dos pobres.

Com Dom Oscar Romero, o Espírito está exigindo a conversão integral da Igreja, a fim de que esta abandone de uma vez por todas o espírito de grandeza e de uniformidade, as riquezas e o conservadorismo que a tornam farisaica e hipócrita, e tantos outros vícios que a desviam do caminho de Jesus. É hora de todo cristão procurar viver segundo a verdade e a justiça do Reino de Deus. Deus nos chama para caminharmos com Jesus na contramão da história e seu Espírito habita em nós e entre nós, nos confirmando e conferindo-nos força, coragem e perseverança.


Tiago de França

2 comentários:

minhas partilhas disse...

" Parabéns por sua postagem.
Quero te seguir por um único motivo porque me indentifiquei com o que você escreve. É isso aí! Deus o abençoe!!sl

Mudar... é preciso! disse...

Olá Tiago. Conheci o nome deste maravilhoso homem, Óscar Romero, enquanto fazia uma peregrinação a Santiago de Compostela. Foi um espanhol quem me falou dele e fiquei curiosa. Hoje, através do seu blog, fiquei a conhecê-lo ainda mais um pouco. Obrigada.