sábado, 5 de janeiro de 2013

Solenidade da Epifania do Senhor


“Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1).

            Epifania quer dizer manifestação. A Festa da Manifestação do Senhor é a festa do reconhecimento da universalidade da salvação. Não há um povo, um grupo, uma religião, uma pessoa a quem se destina com exclusividade a salvação oferecida por Deus em Jesus de Nazaré. Os cristãos precisam meditar este mistério. É mistério de amor, de doação, de redenção do gênero humano e de toda a criação. É o Deus Uno e Trino que vem ao encontro do ser humano para divinizá-lo, para chamá-lo à plenitude da vida.

            O texto evangélico escolhido para a celebração litúrgica desta grande festa (cf. Mt 2, 1 – 12) traz algumas informações que merecem destaque. Não é um texto de caráter propriamente histórico, mas profundamente teológico. Olhando para o povo da antiga Aliança, o autor sagrado quer falar do significado e do lugar do Messias na história da salvação. O Messias prometido, enviado pelo Pai, realmente veio não somente para cumprir as promessas realizadas na antiga Aliança, mas para salvar toda a humanidade. Jesus é o Messias da humanidade, o esperado para reconfigurar a história humana e resignificar a caminhada do povo de Deus.

            Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes. A geografia da época coloca Belém como um lugar sem muita importância, a periferia da Judéia. Jesus nasceu em um lugar sem importância política e econômica, onde nascem e vivem os últimos. Esta escolha não é sem importância, mas revela a predileção divina por aquilo que é pequeno, insignificante, frágil. Isso legitima a escolha divina de um povo pequeno e fraco, carente de proteção e cuidado. Jesus nasceu no seio do povo de Deus.

            Frequentando as igrejas urbanas fico escandalizado. Como desfiguram o pobre Jesus! É tudo muito grande, sofisticado, excessivamente fino e destinado aos ricos. Católicos e evangélicos investem na construção dos santuários, no estilo do Templo de Jerusalém. Não restam dúvidas de que são necessários muitos profetas para descer o chicote e expulsar os vendilhões, os exploradores do povo! É preciso fazer saber que Jesus nasceu em Belém (é unânime entre os exegetas a ideia de que Jesus nasceu mesmo em Nazaré e não em Belém, mas isso não muda o foco de nossa reflexão) e que a grandeza e o luxo dos templos sagrados desfiguram-no, escandalosamente.

            O lugar de nascimento fala da identidade da pessoa. O fato de Jesus ter nascido e vivido entre os pequenos é um dado incontestável nos evangelhos. Ninguém pode mudar isso, por mais que incomode a consciência dos ricos que frequentam as igrejas. Os ricos admiram a pobreza de Jesus e a predileção divina pelos humildes e pobres, mas não aceitam de modo algum esta preciosa revelação. Há muitas reflexões até de teólogos que tentam amenizar a situação dos ricos em relação aos pobres, mas perdem o seu tempo. No exercício de sua missão, o Messias foi claro ao reafirmar e cumprir a profecia de Isaías, declarando a todos que foi enviado para evangelizar os pobres (cf. Lc 4, 18).

            Os reis magos seguiram a indicação de uma estrela que os levou até o Messias recém-nascido. Estes magos não eram judeus, não pertenciam ao povo de Deus, desconheciam o Deus dos judeus; mesmo assim colocaram-se a caminho e foram ao encontro do Messias. Aqui aparece a dinâmica do caminho e do interesse pelo caminhar. O interesse dos magos era adorar o Messias. Depois que cumpriram sua missão voltaram para sua terra natal. Eles deixaram-se guiar pela estrela.

            Há um caminho que leva seguramente ao Messias e uma orientação fundamental: o caminho é o dos pobres e a orientação fundamental é o evangelho de Jesus de Nazaré. O caminho dos pobres é cheio de aperreios, difícil de trilhar. Caminho de humilhações, perseguições e de lutas; de poucas vitórias e de muitas derrotas. Os pobres sofrem, mas não perdem a esperança. Portanto, é o caminho da verdadeira esperança. Os ricos e os que se identificam com as riquezas tem pavor do caminho dos pobres. Na vida da Igreja, mulheres e homens como Dom Helder Câmara, Madre Teresa de Calcutá, Dom Oscar Romero, Ir. Doroth Stang e tantas outras pessoas ousaram se colocar no caminho dos pobres e se encontraram verdadeiramente com o Messias.

            Estas pessoas se deixaram conduzir por uma estrela de valor fundamental: o evangelho de Jesus de Nazaré. Sem o evangelho não se chega ao Messias. A ausência do evangelho causa total desorientação e confusão. Nenhum sistema doutrinal nem devocional consegue substituir o evangelho. Este possui uma força transformadora capaz de mudar radicalmente a vida dos que o escutam e praticam. O evangelho é perigoso. Somente os que desejam realmente ser livres é que podem compreendê-lo e praticá-lo, pois é caminho que conduz à liberdade.

            Ao saber que o Messias tinha nascido em Belém, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Herodes logo se sentiu ameaçado e reuniu os amigos próximos (mestres da lei e sumos sacerdotes) para ter informações a respeito do lugar do nascimento do Messias. Como liam as Escrituras, as autoridades religiosas logo entenderam que se tratava do Messias que deveria nascer em Belém, na Judéia. Utilizando-se de todos os meios, Herodes procura eliminar Jesus. A notícia do nascimento do Messias deixou muita gente perturbada, principalmente os poderosos, que viviam a custa dos pobres. Os reis magos foram até Jesus, as autoridades religiosas não ousaram fazer o mesmo.

            O discípulo missionário de Jesus precisa ter coragem para enfrentar o poder herodiano que impera no mundo. Este poder se manifesta por meio de forças que atrasam, corrompem, alienam, iludem, confundem, dispersam e desorientam o ser humano: são as forças do anti-Reino. Estas forças trabalham na direção da destruição dos indefesos e frágeis; elas não toleram a pequenez, mas se manifestam na arrogância dos grandes deste mundo. O Messias está aí, junto a nossas portas, nas ruas e praças, olhando o movimento do mundo, despertando a esperança no coração das mulheres e homens de boa vontade. Esta é sua maneira misteriosa e ao mesmo tempo escandalosa de se manifestar. Bendito seja Deus por nos ter enviado Jesus!

Tiago de França

Um comentário:

Rolando Lazarte disse...

Thiago, pertenço ao grupo Kairós-Nós Também Somos Igreja. Poderiamos trocar textos, se quiser. Um abraço, Rolando