quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Votos para o novo ano

          Inicia-se mais um novo ano. As pessoas se alegram e desejam saúde, paz, alegria, dinheiro e tantos outros bens necessários à vida. 2014 se inicia com os melhores desejos possíveis. O momento é de alegria e de renovação da esperança. Apesar dos pesares de 2013, todos esperam que o novo ano seja melhor. Esta esperança renovada e conservada empurra a vida para frente. É esta mesma esperança que evita o desespero e faz as pessoas olharem para frente, mesmo com lágrimas no rosto diante das incertezas do futuro desconhecido.
            Esta esperança não pode ser abandonada durante o transcorrer do ano. Geralmente, as pessoas se esquecem dos bons desejos e dos bons propósitos que fizeram por ocasião do início do novo ano e, infelizmente, comportam-se de forma contraditória em relação aos desejos, propósitos e promessas feitas: desejam alegria e provocam tristeza, desejam saúde e provocam doenças, desejam a paz e causam violência. Assim ocorre com as demais promessas e desejos. Neste sentido, o ideal é que nossos desejos e promessas sejam compatíveis com nossas atitudes cotidianas.
            Recomendo três atitudes para que o novo ano e nossa vida se tornem melhor, mais alegre e feliz: o desapego, a compreensão e a atenção. São três atitudes fundamentais que, geralmente, estão sendo cada vez mais abandonadas pelo ser humano. As pessoas tem medo de serem desapegadas, compreensivas e atenciosas porque tais atitudes, assim como qualquer outra, geram consequências. E a consequência natural da prática destas é a liberdade. O ser humano sempre teve medo da liberdade, sempre preferiu viver a partir das programações e sistemas dotados de estruturas e regras de conduta.
            O desapego nos torna livres porque nos ensina que não somos o que pensamos ser. O que é o ser humano? Pessoa criada por Deus para simplesmente viver. O que geralmente ocorre? As pessoas pensam que são poderosas. Há uma competição constante e violenta, cada um querendo ser maior do que o outro. Há uma sede de dominação, uma vontade descontrolada de dominar o outro, subjugando-o aos desejos e caprichos. Em nome do que chamam de amor, há uma vontade de controlar o outro.
            Os bens materiais são possuídos e as próprias pessoas se tornam objeto de posse. Fulano é meu, cicrano é teu. Os objetos de desejos são tomados, usados e abusados. Outros desejos vão surgindo e reclamando satisfações. A vida vai se tornando uma teia de prazeres. A isto dão o nome de felicidade. Assim, a pessoa feliz é aquela que tem todos os seus desejos satisfeitos. O homem olha para si e diz: “Eu tenho uma casa, um carro, um computador, um celular, um bom salário, uma mulher e filhos; portanto, sou feliz!” Sente-se feliz porque possui coisas e pessoas.
            Vivemos numa época marcada pela posse dos bens. Sempre foi assim e parece que vai continuar sendo. Não estamos afirmando que o ser humano não precise dos bens necessários à vida. Estamos afirmando que o supérfluo, que consiste no acúmulo de bens, é um mal terrível na vida humana. O supérfluo é o que sobra na vida de uns e falta na vida de outros. As pessoas se apoderam do que não lhes pertencem. É uma espécie de roubo legitimado. Há muitas justificativas para nos convencer do contrário, criadas pelo sistema econômico vigente, de modo que as pessoas se convencem de que a riqueza e a miséria são realidades comuns e normais e até necessárias!
            O apego leva inevitavelmente à mesquinhez porque os objetos de desejos passam a controlar as pessoas. Estas chegam a matar o próximo por causa dos objetos de desejos, quando estes lhes são tirados. O apego em si já é uma violência porque tira a liberdade das pessoas. Portanto, o desapego é um movimento progressivo rumo à liberdade. Desapegar-se de si mesmo, das coisas, das pessoas, das circunstâncias e dos lugares é caminho de liberdade. O outro não me pertence; as coisas não constituem o senhor da minha vida; as circunstâncias passam, não são estáticas; não somos daqui nem dali; quanto a nós mesmos, somos simplesmente pessoas, evoluindo rumo à plenitude da vida. Com apegos só há escravidão!
            A compreensão é uma virtude, assim como o desapego e a atenção. Compreender significa ver as coisas como elas são, sem as lentes dos pré-conceitos e julgamentos. Geralmente, a realidade existe, mas preferimos acreditar nas ideias que criamos sobre a realidade: este é o motivo pelo qual as pessoas não se entendem. Antes de qualquer diálogo o que existe é a violência. Compreender o outro é enxergá-lo com suas circunstâncias. Não há ser humano sem contexto, sem história, sem relações. Quando não se busca a compreensão, busca-se o oposto dela. Quando há esforço para que haja compreensão, confere-se às pessoas a liberdade de poderem expressar a verdade de si mesmas.
            O mundo certamente seria bem melhor se o ser humano buscasse compreender mais a realidade. As diversas formas de violência cessariam ou diminuiriam. Quando compreensivas, as pessoas se tornam realmente pacíficas, pois não há paz sem compreensão de si mesmo e do outro. Como compreender o outro se não busco compreender a mim mesmo? Como aceitar o outro se não me aceito como sou? A compreensão liberta a pessoa de toda forma de ilusão. Esta fantasia a realidade e cega a pessoa, impedindo o conhecimento da verdade.
            Por fim, consideremos a atenção como o caminho que nos conserva acordados na vida. Prestar atenção é algo tão simples e tão necessário, mas, geralmente, as pessoas estão dispersas, não enxergam a vida, suficientemente. A virtude da atenção nos faz humanos perante o próximo. Este não é visto se não há atenção. Perceber a realidade faz bem às pessoas porque a vida acontece na realidade e jamais fora dela. Nossa imaginação e fantasia costumam criar mundos e ilusões, mas não é neles que vivemos. Isto não significa que não podemos sonhar, mas o sonho difere da ilusão. O sonho tem projeção na realidade, pode se tornar realidade. É o desejo da felicidade, mas pra não ser maléfico precisa permanecer longe da ilusão.
            A atenção nos concede a graça da contemplação. Contemplar é permanecer admirado com a vida, com as pessoas e com o mundo; é conservar o encantamento. Olhar a chuva cair, escutar os pássaros cantar, ver o verde do campo, apreciar o sorriso das pessoas, sentir o cheiro das flores e o gosto dos diversos pratos, caminhar sem medo de ser feliz. Tudo isto confere sentido à vida. Só o ser humano é capaz disso. Não nascemos para passar pela vida, mas para vivê-la intensamente e isto significa viver com liberdade. A atenção não nos permite que deixemos a vida passar despercebidamente. Há muita beleza e suavidade para ser contemplada e isto só é possível graças à atenção.
            O novo ano que se inicia precisa de pessoas novas, de espírito renovado. Estas três virtudes certamente nos ajudarão a sermos pessoas melhores. O mundo carece de pessoas cada vez mais humanas, integradas e felizes. Só há harmonia interior e exterior onde as pessoas são desapegadas, compreensivas e atentas. Presenciamos atualmente uma acentuada piora do gênero humano, sendo intensamente desumanizado. A indiferença está fazendo parte da personalidade de muita gente. É urgente que nos libertemos integralmente para vivermos o amor, mas não o amor de palavras, mas o amor de atos. Amor e liberdade tornam o ser humano verdadeiramente feliz. Não há felicidade fora do amor e da liberdade.
            Que neste novo ano prevaleçam em nossas vidas o amor e a liberdade!
FELIZ ANO NOVO!

Tiago de França

Um comentário:

Ineide Soares disse...

Sabias palavras, lindo texto. Feliz ano novo pra ti também!