sábado, 22 de fevereiro de 2014

A perfeição no amor

“Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

            Falar do amor é algo sublime e gratificante porque é falar da vocação cristã por excelência. Antes de qualquer coisa, toda pessoa que acredita em Deus é chamada a fazer a experiência do amor. Quais são as características do amor de Deus? Como ele se revela? Quem pode escapar da experiência do amor? A felicidade humana está no amor. Vamos pensá-lo a partir do que disse Jesus em Mateus 5, 38 – 48, últimas palavras do famoso sermão da montanha.

O amor

            Para entendermos o amor precisamos nos libertar de duas imagens que tornam difícil experimentá-lo: a primeira é o amor do discurso e não dos fatos; a segunda, o amor como obrigação. Atualmente, estão muito em voga as declarações de amor. A princípio, elas parecem bem intencionadas, mas, na verdade, costumam esconder a falta de amor. Os excessos declaratórios, geralmente, são encobridores do desamor. Jesus não falava muito sobre o amor, mas seus gestos eram provas de amor. Neste sentido, as pessoas precisam fazer a passagem do amor de palavras para o amor de atos. Viver conforme o amor. Isto é belo, justo e agradável a Deus.

            Ninguém está obrigado ao amor. Este não obriga porque é pura liberdade. Ama-se para ser cada vez mais livre. O amor necessita da liberdade. Amar alguém significa deixá-lo livre porque no amor toda pessoa se torna humana, torna-se, transforma-se, encontra a felicidade. Na obrigação existem satisfações a dar, correspondência, expectativas, exigências, cobranças, prisão. Aí não cabe o amor. No amor se gera a confiança, a cumplicidade, a honestidade; na obrigação gera-se a pressão, o sufocamento, a desconfiança, o medo. Este último tira da pessoa a capacidade de amar. Quem ama não tem medo porque não possui o outro, mas o ama na liberdade.

O amor a Deus e ao próximo

            Jesus era judeu e como tal fazia leitura dos textos sagrados que orientavam a vida do povo de Deus. Nestes textos, Deus é Santo, Justo e Perfeito. Deus é tudo isso e muito mais porque Ele é o amor por excelência. O amor é a essência, a substância de Deus. Por isso, Deus é Pai amoroso, incapaz de odiar, de vingar-se do ser humano, obra de suas mãos. Este Pai amoroso não necessita do nosso amor para ser e existir, mas Ele é a fonte do amor que toda pessoa necessita para ser e existir. Quanta beleza! Quanto mistério! É o que conseguimos dizer com nossa linguagem limitada: Deus é amor, Ele nos ama e nos acolhe, forma-nos em seu amor, cria-nos em sua benevolência.

            Como amar este Pai amoroso? Ele está dentro de cada pessoa. Assim o quis, livremente. Toda pessoa é santuário, é casa, é guardiã do Amor. Por isso, o amor brota de dentro, do mais profundo da pessoa. Esta se maravilha com este mistério, alegra-se, encontra a luz e o sentido da vida. Onde está o sentido da vida humana? Dentro de cada pessoa, quando é capaz de não somente compreender, mas de sentir a presença amorosa do Pai, que cuida, vigia, livra, abençoa e ama, infinitamente. Todo e qualquer erro que esta pessoa cometer não tira dela o amor colocado por Deus em seu interior, em seu coração. Diante do amor, o pecado nada pode fazer. O amor expulsa do ser humano o pecado e o faz transcender, libertando-o do medo, inclusive do medo da morte.

            Quando as pessoas se amam e se acolhem no amor estão amando o Pai, seu Deus. O Pai se encontra nas relações amorosas, nas relações pautadas na acolhida, no perdão e na solidariedade. Solidariedade é o sobrenome do amor. Quando não há solidariedade, não há amor, pois aquela é a concretude deste. Neste sentido, em uma de suas cartas, o apóstolo João pergunta: Se não sou capaz de amar o próximo que consigo ver, como posso afirmar que amo a Deus que é invisível? Deus está no próximo e é amando a este que amo aquele. O rosto do outro resplandece a face de Deus. Assim Ele o quis: permanecer no e com o ser humano.

O amor aos inimigos

            O próximo pode ser nosso inimigo? A palavra “inimigo” é um pouco forte. Em si, causa divisão. Recorda-nos da maldade, da malícia, da desavença. Tudo isso existe, é verdade; mas é verdade também que tudo isso não é maior do que o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Pai das luzes. Jesus ensina que o ódio gera ódio. Este parece ser filho do rancor, do ressentimento, da ira desmedida. Sentir raiva é natural porque passa; sentir ódio, não. Além de fazer mal para a saúde da mente e do coração, faz mal também ao espírito. Dominado pelo ódio, o ser humano tende à destruição e à morte. No ódio não há nada de proveitoso, mas somente caminho que leva à morte.

            O mundo sempre foi marcado pelo ódio. Facilmente, as pessoas se deixam dominar por ele. O resultado todo mundo conhece: as diversas formas de violência que matam tristemente milhões de pessoas em todo o mundo. As pessoas se odeiam e partem para a eliminação do outro. Enquanto no amor há acolhida generosa, no ódio há separação e eliminação. Toda pessoa precisa aprender a controlar seus impulsos de raiva, impedindo, assim, que se chegue ao ódio. O que Jesus ensina é simples de compreender, mas difícil de praticar: “amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!” Segundo Jesus, quem assim procede se torna filho de Deus.

            Como é possível amar quem nos odeia e rezar por quem nos persegue? Alguém poderia dizer: “Isto não é possível! Só Jesus é quem  fez isso!” Isto nos faz pensar noutra pergunta: Será que Jesus iria nos pedir algo impossível? Penso que não. Então, como amar os inimigos? Para amar os inimigos, três atitudes são necessárias, a saber: primeira, que se queira amá-los de verdade, sem falsidade. É preciso um querer verdadeiro. Segunda, perdoá-los com sinceridade de coração. Perdoar é sinônimo de libertação interior e reconhecimento da limitação do outro. Terceira, desejar o bem aos inimigos, invocando sobre eles o nome de Deus, a fim de que encontrem a paz e o caminho da verdade e da liberdade.

Amar os inimigos não quer dizer que meramente relevemos a ofensa e nos reaproximemos deles. Isto seria falta de prudência e entendimento. O que os inimigos nos fizeram está feito, o perdão que lhes é oferecido nos confere a feliz oportunidade de nos desapegarmos daquilo que nos foi feito. Não podemos ficar com aquilo que não nos pertence. Os efeitos da ofensa precisam ser superados pela força do amor a que somos chamados a experimentar.

O amor nas Igrejas cristãs

            Por fim, é preciso dirigir algumas palavras a respeito da prática do amor no interior das Igrejas cristãs. Há muita falta de amor entre aquelas pessoas que frequentam o culto religioso. Respeitando as exceções para não faltar com a caridade com as mesmas, geralmente, há muito ódio e vingança entre os que pautam sua fé nas práticas religiosas. Falta solidariedade. As pessoas se encontram no templo, mas não se conhecem, a não ser de vista. E o que é pior: fazem o maior esforço para continuar conhecendo somente de vista. Onde fica o amor? O amor fica na pregação. No culto, de modo geral, as pessoas vão para rezar para Deus, numa relação vertical (Deus e eu). O outro não interessa. Interessa cumprir a obrigação cultual diante de Deus. E o espírito comunitário? Este fica na pregação.

            Jesus nos ensina a sermos perfeitos no amor e para o amor. Tal perfeição não está ligada à ausência de defeitos ou pecados. Todo cristão é pecador, redimido pela graça de Deus. Sem o amor não há seguimento de Jesus. Sem amor ao próximo não há amor a Deus e sem amor aos inimigos, o mundo continuará em guerra. Na família, na escola, na rua e em todo lugar, sejamos promotores da cultura da não violência. Promover a paz significa se arriscar a viver o amor a Deus, a nós mesmos, ao próximo (amigos, inimigos e desconhecidos). Conformarmo-nos ao amor. Que Deus nos conceda esta graça!


Tiago de França

Um comentário:

Paulo Luiz disse...

Incêndio em mato verde.

Parece estranho que o fogo possa alastrar-se em uma mata verde e úmida. O que acontece: A progressão do fogo ateado a um ponto qualquer, se dá pelo fato de, á medida que ele avança vai aquecendo o ambiente ao seu redor, propiciando seu alastramento com muita facilidade.
A solidariedade e o amor ao próximo funcionam da mesma maneira, ou seja, quando nós demonstramos solidariedade e amor ao próximo a alguém, sem que percebamos estamos irradiando algo que contagia as pessoas próximas, com isso induzindo-as a participarem da mesma prática.
Isso parece simples filosofia, mas não é. Tudo na nossa vida tem relação, pois estamos todos ligados a um propósito comum, que é a preservação da vida e a busca da felicidade.
O principal mal que assola a humanidade é o individualismo associado ao egoísmo. Se todos os humanos da face da terra, com a inteligência que tem se irmanassem, fariam da terra um verdadeiro paraíso, não um utópico paraíso divino, mas sim um lugar paradisíaco perfeitamente equilibrado e ótimo para viver.

Paulo Luiz Mendonça.