domingo, 16 de fevereiro de 2014

A vontade de Deus e o cumprimento da lei

“Porque eu vos digo, se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus” (Mt 5, 20).

            A discussão em torno da importância da lei em consonância com o cumprimento da vontade de Deus é muito interessante no evangelho segundo Mateus, assim como em toda a Sagrada Escritura. Vamos pensar tal relação a partir do que Jesus falou em Mateus 5, 17 – 37, texto lido neste domingo na liturgia da Igreja Católica. É preciso frisar que Mateus escreve seu evangelho tendo como referência não somente sua convivência com Jesus como também a lei dada por Moisés, explicitada no antigo testamento das Escrituras, especialmente na Torá judaica; portanto, é o evangelista que mais faz referência à lei.

A lei dada a Moisés

            Em um determinado momento da vida do povo de Deus, o patriarca Moisés percebeu que a convivência entre as pessoas estava ficando complicada, ou seja, estava havendo muitos conflitos e, assim, apareceu a necessidade da lei. Assim sendo, a lei foi dada por Deus a Moisés para que o povo pudesse, observando-a, viver em paz. O decálogo (dez mandamentos) é constituído de “normas” claras, sendo a maioria delas iniciadas com a palavra “Não”, ou seja, de cunho proibitivo. O povo precisou aprender o que seria proibido. A lei era simples e direta, e com o desenvolvimento da vida do povo foram aparecendo outras leis, até se chegar ao complexo sistema de leis, que se tornou um fardo pesado para ser colocado nas costas do povo.

            Doutores da lei e fariseus eram os intérpretes da lei, as figuras competentes (autorizadas) para fazer a interpretação correta (ortodoxa). O povo simples, principalmente os pecadores públicos não entendiam da lei e eram condenados pela intepretação que se fazia da mesma. A ignorância (desconhecimento) em relação à lei dava margem a toda forma de exploração por parte dos intérpretes, que somente interpretavam, mas não a cumpriam. Segundo Jesus, isto não poderia ser aceito, pois era hipocrisia. Aqui está o motivo principal dos conflitos entre Jesus e os intérpretes da lei: estes últimos, aparentemente, eram respeitados pelo povo, mas eram mentirosos e hipócritas, pois se utilizavam da lei para explorar o povo simples.

Jesus e a lei

            Jesus foi acusado pelos doutores da lei e fariseus de ser um sujeito desobediente e rebelde. Eles entenderam e faziam o povo entender que Jesus era subversivo, portanto, contrário à lei dada a Moisés. Em Mateus, na mencionada citação, Jesus é claro e objetivo: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. Posteriormente, a fala de Jesus segue frisando a respeito da importância de se cumprir a lei. Como entender Jesus? À luz do evangelho, o que significa cumprir a lei?

            A prática missionária de Jesus desmente todo leitor do evangelho que ousar pensar que Jesus é favorável ao cumprimento literal da lei. Toda lei está sujeita à interpretação e o problema sempre se encontra no complexo exercício da interpretação. Tanto a lei de Deus quanto a lei dos homens precisam ser interpretadas. Não se cumpre a lei sem prévia compreensão da mesma. A pergunta que se deve fazer diante de qualquer texto bíblico é: O que isso significa? Diante das palavras de Jesus: O que Jesus quis dizer para aquelas pessoas e o que estas palavras significam hoje? São questões que nos fazem interpretar.

            Jesus não aboliu a lei e como judeu procurou observá-la, mas sem hipocrisia alguma. Não era escravo da lei, mas livre em relação a ela. Não submeteu sua inteligência aos ditames da lei. Não aprovou os abusos cometidos em nome da lei. Para Jesus, lei e liberdade caminham sem conflito. A observância da lei está em função da liberdade do homem. Se a observância da lei gera escravidão, então esta lei não vem de Deus. Neste sentido, muitas das leis dadas pelos patriarcas e líderes do povo de Deus não correspondiam à vontade de Deus, mas era fruto da inteligência humana. Muitas vezes, a intenção era boa, mas quando a lei era posta em prática, a consequência era a escravidão e até a morte da pessoa. Exemplo claro disso: toda mulher pega em flagrante adultério era apedrejada até à morte em praça pública. A lei autorizava isso. Diante disso pergunta-se: tal morte do apedrejamento correspondia à vontade de Deus?...

            Surge ainda outro questionamento: diante de tais leis opostas à vontade de Deus, ninguém parava para analisá-las com prudência e cuidado, a fim de reformulá-las ou aperfeiçoá-las? Repetidas vezes, em várias citações, aparece a ideia fundamental de que a lei de Deus é perfeita. De fato, a lei de Deus e não a dos homens, é perfeita. Tal perfeição deve ser entendida não no sentido da forma escrita da lei, mas de sua real intenção: a vida do povo. A lei de Deus é perfeita porque cumprindo-a o ser humano encontra a vida e a liberdade. Assim, o judeu compreendia que nada poderia ser mudado na lei. Esta era perfeita, mesmo autorizando a morte da mulher adúltera por apedrejamento em praça pública.

            Jesus ensinou aos seus discípulos com palavras e ações que a lei deveria ser cumprida, mas com plena liberdade. Jesus não foi enviado pelo Pai para enquadrar as pessoas na lei. Isto jamais! Também não veio para criar um mundo desordenado. Jesus sabia muito bem que o ser humano carece de orientações, pois tende à dispersão e ao pecado. A fraqueza humana pede o auxílio da lei de Deus. Sem a lei de Deus o crente se torna um desorientado, não consegue viver de acordo com a vontade divina.

Aos discípulos Jesus advertiu: “Porque eu vos digo, se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus”. Claramente se entende o que Jesus quer dizer: se seus seguidores não superassem a justiça dos intérpretes da lei judaica, não iriam entrar no reino dos céus. Em outras palavras, os discípulos de Jesus não deveriam fazer como os mestres da lei e fariseus, que em nome da lei exploravam o povo simples.

A lei e o evangelho nas comunidades cristãs

            Assim como no judaísmo clássico, a Igreja Católica, após ter sido proclamada como religião oficial do império romano, no séc. IV, passando por toda a Idade Média e Moderna, até chegar ao Concílio Vaticano II, sempre teve a tendência de ensinar os cristãos a observar severamente as normas, prescrições e orientações emitidas pelo clero (especialmente o Papa) e pelos órgãos eclesiásticos responsáveis por manter a ortodoxia e a disciplina na Igreja. A história mostra o desenvolvimento da lei canônica dentro da Igreja até chegarmos ao atual e complexo sistema eclesiástico de leis. Basta dar uma lida no código de direito canônico e logo se percebe que a Igreja possui lei para tudo. Detalhe: a maioria dos católicos não faz ideia sequer de um quarto da metade destas leis!

            As leis eclesiásticas são necessárias? Diria que algumas sim, outras não. As que não são necessárias, geralmente, não estão de acordo com o evangelho de Jesus. Algumas se opõem totalmente ao que Jesus ensinou. Exemplo: há na Igreja regras que falam a respeito de quem deve ou não comungar. Assim, estão excluídas da mesa eucarística todas as pessoas que se encontram em estado matrimonial irregular (casais de segunda união). Isto está de acordo com o evangelho? Penso que não. Há muitas outras leis que excluem as pessoas da comunhão eclesial. Esta comunhão só será possível quando as pessoas se sentirem incluídas e forem, de fato, acolhidas sem julgamentos nem condenações.

            Pergunta-se: por que a Igreja demora tanto em aperfeiçoar leis como esta? A resposta é simples, mas que muitos, principalmente os mais conservadores (que se julgam mais ortodoxos!) não aceitam: demora porque o evangelho de Jesus ainda não está no centro da vida eclesial, pois a preocupação maior é mais com a aplicação da lei do que com o anúncio do evangelho. Se o leitor não concorda e se for praticante, peço-lhe que observe com atenção sua comunidade paroquial. Quais as prioridades de sua paróquia? Nelas você vai saber se o essencial, o anúncio do evangelho, é ou não o fundamental da comunidade.

            Na vida pessoal e social, o cristão precisa, antes da lei, ler e interpretar o evangelho; entender a palavra de Jesus e buscar viver de acordo com ela. Todo aquele que assim proceder estará cumprindo a lei, tanto a dos homens quanto a de Deus. O verdadeiro cristão é íntegro no seu modo de ser. Sendo assim, não contraria a lei de Deus nem a lei dos homens. O evangelho é muito simples e é na simplicidade que o observamos.

Não precisamos criar regras para observar o evangelho. As regras são necessárias para a religião, não para o evangelho. Jesus não ditou regras para seus discípulos, mas somente lhes revelou o Pai. Seremos felizes e o mundo se transformará se observamos o evangelho de Jesus, que ensina que o amor deve ser o centro de nossas vidas. Que o Espírito nos ajude a sermos cada vez mais amorosos e nos liberte do legalismo doentio que ainda reina nas comunidades cristãs.


Tiago de França

Um comentário:

Clailton Benes disse...

Excelente e esclarecedor texto