quinta-feira, 6 de março de 2014

O amor de Deus e o amor humano

             
                   Há alguma diferença entre o amor de Deus e o amor humano? Como Deus nos ama e como as pessoas se amam? Certamente, trata-se de uma questão complexa, a respeito da qual ouso fazer algumas provocações. O amor é um tema demasiadamente tratado pelo ser humano. É uma realidade a ser compreendida e vivida, pois nela se encontra a felicidade. Nossa reflexão parte deste pressuposto: não há felicidade fora do amor. Esta afirmação desmente muitas coisas que falam de algo que não é amor, mas apego doentio. Vamos pensar o tema a partir de algumas afirmações que, à primeira vista, podem nos escandalizar, mas que nos libertam de alguns pensamentos equivocados a respeito do amor.

Somente Deus ama com perfeição 

            Esta afirmação pode não ser novidade para muitos, mas escandaliza quando nos ensina a renunciarmos à exigência que fazemos às pessoas, de que estas devem nos amar com perfeição. Geralmente, não reconhecemos nem aceitamos os limites do outro que nos ama. Exigimos perfeição, não aceitamos que o outro se equivoque, ou que não consiga expressar com perfeição o que sente por nós.

            Neste sentido, procura-se a pessoa perfeita, idealizada segundo a imaginação e a fantasia. Onde está a pessoa perfeita? Onde se encontra aquela que pode amar perfeitamente? Encontra-se na mente de quem idealiza. Tal pessoa não existe na realidade. Mesmo sabendo disso, somos demasiadamente exigentes. Mesmo sabendo que não conseguimos corresponder com perfeição ao sentimento do outro, exigimos que este haja com perfeição, sem fraqueza, sem limites. Somente Deus é perfeito e, consequentemente, nos ama com perfeição.

            Toda realidade humana é limitada porque o ser humano é limitado, tudo é imperfeito e sujeito ao erro. Mesmo se policiando, o erro é inevitável. Daí a importância do reconhecimento, da humildade, do acolhimento, da compreensão do outro. É preciso que haja um constante esforço de crença no outro, pois este é essencialmente capaz de amar e ser amado. Todo ser humano é capaz de amar. É preciso crer nesta capacidade, apostar nela, pois é a única saída para a felicidade. Assim, é preciso ter o devido cuidado para não cair na tentação da intolerância e da impaciência. O amor é descoberta e cada pessoa tem o seu ritmo.

O amor liberta e acontece na liberdade

            Somente consegue ser livre a pessoa que se arriscar a viver por amor. Não há outro caminho para a liberdade. Certa vez afirmou Santo Agostinho: “Ama e faze o que queres!” Quem pauta a sua vida no amor pode fazer o que quiser! Isto nos remete à realidade do engano no qual vive muita gente que pensa que ama o outro. Na relação “amorosa” de muitas pessoas existe escravidão, dominação de um em relação ao outro. A sede de controlar, manipular, subjugar, coibir, ter o outro “na palma da mão” é algo diabólico. “Amo fulano porque ele faz tudo o que eu quero!”, afirmam muitas pessoas. Aí não há amor, mas escravidão.

            Há pessoas que procuram outras para a satisfação de seus desejos e caprichos. Para conseguir o que quer do outro, a pessoa se utiliza de gestos carinhosos e declarações nitidamente falsas. O outro é objeto de satisfação de desejos. Perde-se a maravilhosa oportunidade do amor, que é essencialmente gratuito e desinteressado. Pessoas assim, que veem no outro oportunidade de mera satisfação são manipuladoras da vontade e da liberdade alheia, portanto, veem no outro um instrumento e não uma pessoa. A maioria dos escravos do consumismo age dessa forma, consciente e inconscientemente; mas não precisa ser consumista para agir assim, bastando não resistir à tentação do controle do outro.

            O amor necessita da liberdade e gera a liberdade. São realidades inseparáveis. Para ser livre precisamos amar e para amar precisamos ser livres. Quem ama de verdade quer ver a liberdade do outro. O ser humano é um ser para a liberdade e o amor jamais se opõe a isto. Portanto, se amamos uma pessoa e esta não se sente livre, o que existe nesta relação não é amor, mas controle, prisão. Algo está errado, alguém está sufocando, prendendo, tirando a liberdade. Não basta sentir-se bem ao lado do outro, mas é preciso sentir-se livre. “Você me faz sentir livre”: esta é a afirmação que corresponde a uma relação sadia, prazerosa e feliz.

            O medo de perder o outro é sinônimo de apego e não de amor. Quem ama não perde nada porque não possui o outro. No amor não há posse do outro, mas companheirismo. Ser companheiro significa estar junto, livremente. Permanecer junto, ser presença libertadora na vida do outro, ajudando-o a ser cada vez mais livre, mais humano; despertando a liberdade para que o amor cresça, amadureça e encontre vida. De modo geral, as pessoas se apoderam umas das outras e, uma vez se tornando coisas, se tratam como tal. Deus nos ama na liberdade e para a liberdade. Ele não nos vigia, não nos pune nem nos condena, mas simplesmente nos liberta por meio do amor.

O amor gera responsabilidade, confiança e ternura

            “Onde está o teu irmão?”, perguntou Deus a Caim, referindo-se a Abel, que havia sido assassinado. “E, por acaso, eu sou o guarda do meu irmão?”, respondeu Caim. Vou utilizar o verbo guardar para dizer que no amor as pessoas precisam aprender a se cuidar. Guardar o outro não quer dizer escondê-lo nem tomá-lo para si, mas chamá-lo para a roda da vida, fazendo com que dance, alegre-se e viva. O cuidado é sinônimo de responsabilidade. Muitas pessoas afirmam que amam, mas são irresponsáveis. A responsabilidade é expressão do amor, do cuidado para com o outro.

            Se não há cuidado e responsabilidade não há amor. Cuidar do outro não é substituí-lo na belíssima arte de aprender a viver, mas ser auxílio, compreensão e atenção. Cuidar é mais que oferecer carinho e atenção, é ser com o outro. Na relação conjugal, o cuidado é essencial, assim como nos demais tipos de relação amorosa. O amor humano morre facilmente sem o cuidado. Este gera confiança porque toda pessoa bem cuidada se sente atraída, acalentada, confortada, segura e protegida.

Cuidar é uma das formas mais sublimes de ganhar a confiança do outro, confiança que precisa ser recíproca, verdadeira, constante, alicerçada no amor. Confia-se porque se ama e entrega-se porque se confia. Isto é ternura. Cuidar com ternura é como que o alimento do amor. Deus cuida diurnamente de cada pessoa e, infelizmente, é grande o número das que não percebem isso. Sentir-se cuidado por Deus é acreditar que Ele jamais se esquece de seus filhos e filhas porque somente Ele é fiel.

Quem ama de verdade perdoa o outro

            O perdão é um gesto que parte de um coração humilde, é a retomada do amor. Para perdoar, a pessoa precisa exercitar a compreensão. Como perdoar o outro se não faço o mínimo esforço de compreendê-lo? Como compreender o outro se não procuro compreender a mim mesmo? Pessoas insensíveis perdem a oportunidade de fazer a experiência libertadora do perdão, fechando-se em seu egoísmo. Recusar-se à reconciliação é tirar de si mesmo a belíssima oportunidade de amar. O amor ajuda o ser humano a superar o egoísmo, o fechamento, o isolamento e a frieza. O perdão é um gesto sublime de amor.

            Geralmente, assim ocorre: ontem as pessoas juravam amor umas às outras e hoje agem como inimigas. Como entender isto? Isto ocorre porque se deixam levar pela insensibilidade e pela falta de compreensão. Busca-se dar ênfase mais aos defeitos do que às virtudes do outro. Quem assim procede dificilmente consegue perdoar. A espiritualidade cristã nos ensina que negar o perdão ao outro é um pecado gravíssimo, pois como posso pedir perdão a Deus se não sou capaz de perdoar o outro? Nada justifica a falta de perdão. Em Cristo, toda pessoa é perdoada diante de Deus. Deus nos perdoa verdadeiramente e isto significa que Ele não guarda ódio nem rancor. Ai do ser humano se Deus fosse rancoroso!...

Perdoar o outro não é meramente esquecer a ofensa, mas crer na capacidade que este tem de restabelecer-se no amor. A vida amorosa é um constante e recíproco pedido de perdão, pois todos somos sujeitos ao erro e necessitados do perdão para amar livremente. Quem perdoa hoje necessitará ser perdoado amanhã e, assim, vamos aprendendo a lidar com nossa condição humana, incontestavelmente limitada e aberta ao aprendizado.

Quem ama se salva, quem não ama se condena

            Concluo estas provocações com esta belíssima afirmação. Considerando o que ensinou Jesus de Nazaré, a salvação de cada pessoa depende do amor. Para sermos salvos não precisamos fazer nada, pois a salvação é gratuita como é o amor. O amor não se compra nem se conquista, mas acontece entre as pessoas. Estas são chamadas (vocacionadas) ao amor. Este é irresistível porque transmite paz, tranquilidade, encontro, amizade, liberdade, felicidade.

Fora do amor não existe salvação: eis a verdade evangélica ensinada por Jesus. Somos livres para amar. Se quisermos, seremos felizes e salvos. Se não quisermos, seremos infelizes e nos perderemos. O amor é caminho aberto, que nos faz participar da vida de Deus, que nos conduz à sua intimidade. Ele é o amor por excelência. Pelo amor o conhecemos, somos irmãos uns dos outros e nele mergulhamos. Nele somos e existimos. Deus se revela no amor humano.

            Agora que você concluiu a leitura desse texto, responda, sinceramente, para si mesmo: Como estou amando as pessoas? O que devo “fazer” para amar as pessoas como Jesus as amou? Para mim, o amor é posse ou doação? “É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã...”, diz a canção. Por isso, ame-se a si mesmo, ame as pessoas, ame a Deus e seja feliz!


Tiago de França

Um comentário:

Ineide Soares disse...

Sábias palavras, pena que nem todos pensam que nem ti e nem como manda a sagrada escritura... se mudassem de conceito e seguissem o amor de Deus viveriamos em um mundo melhor.