sábado, 8 de novembro de 2014

O chicote de Jesus e a exploração do povo de Deus

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2, 16).

            Com chicote nas mãos, Jesus expulsa os comerciantes do templo de Jerusalém. Segundo Jesus, o templo foi transformado numa casa de comércio. Aquele era um lugar sagrado para o povo judeu: era o centro de sua vida religiosa, política e social. Jesus era judeu e ficou indignado com o que viu.  

Não viu um lugar de oração, mas de exploração. Portanto, o relato bíblico (cf. Jo 2, 13 – 22) revela uma forte denúncia de Jesus contra os exploradores do povo que frequentava o templo. Aqui está o núcleo do texto, o seu sentido. Jesus não está defendendo um templo religioso, mas está denunciando, veementemente, a exploração religiosa. É Jesus o templo de Deus. É ele que com o Pai e o Espírito habitam em nós. Somos templos vivos da Trindade Santa. Vamos a três questões fundamentais da denúncia de Jesus e que servem para explicitar o valor e o lugar do templo na vida cristã.

O templo: lugar do culto

            Desde a época de Jesus os cristãos frequentam o templo para celebrarem o culto. Jesus não construiu nenhum templo nem pediu nenhuma espécie de culto. É bom que isto fique bem claro. Não há um versículo na Bíblia que nos permita confirmar que Jesus tenha pedido para si ou para Deus, seu Pai, um lugar para a celebração de culto em sua honra. Templo e culto são criações humanas em função de necessidades humanas. 

Neste sentido, vale dizer que Deus não mora nos templos nem se deixa aprisionar neles. Portanto, independentemente da denominação religiosa, nenhum líder religioso está autorizado a dizer que quem deseja adorar a Deus deve, obrigatoriamente, frequentar os templos e prestar o culto. Desse modo, para que servem os templos e o culto? Deus não se faz presente neles?...

            Quando nos templos religiosos se celebram cultos que legitimam a exploração das pessoas, certamente Deus não se faz presente. Deus não aprova nem confirma a exploração das pessoas, pois é o Deus da liberdade e da libertação. Quando padres e pastores se utilizam do culto para enganar e explorar as pessoas, este é um culto a Satanás, o pai da mentira e da escravidão.

Arrecadar dezenas e centenas de milhões de reais para a construção de templos religiosos é algo abominável aos olhos de Deus. O Deus e Pai de Jesus não quer, de forma alguma, ser adorado em um lugar que custou o sangue e o suor das pessoas, em detrimento do bem-estar físico e espiritual destas mesmas pessoas. Tirar o pão da boca dos pobres para a construção de templos religiosos é um pecado gravíssimo. Deus não habita esses templos. Neles cultuam-se ídolos.

O culto: celebração do amor

            Não há religião sem culto. Os cristãos transformaram o cristianismo em uma religião, logo apareceu o culto. Este é constituído por sacrifícios oferecidos por sacerdotes para aplacar a ira de Deus e implorar a sua misericórdia. O Pai de Jesus e nosso Deus não precisa da mediação de sacrifícios para agir, amorosa e misericordiosamente, com seus filhos e filhas.

Também não é um Pai dominado pela ira, rancor, ódio ou ressentimento, mas é o amor por excelência, a fonte inesgotável de vida, fonte capaz de matar a sede de todo aquele que a procura, independentemente da procedência da pessoa.  

            Culto santo e agradável a Deus é aquele que nasce do coração aberto, sincero e generoso do ser humano. Pessoas de coração pacífico e generoso praticam o culto santo e agradável a Deus: a acolhida amorosa do outro, o cuidado atencioso e perseverante, o perdão que regenera e liberta, a amizade que fortalece o amor e manifesta a bondade de Deus.

Na medida em que as pessoas intensificam este culto, o Pai vai se fazendo presente em suas vidas, confirmando-as na fé e, assim, o Reino de Deus vai acontecendo na história. O culto de nossas Igrejas cristãs só é aceito por Deus quando está confirmado pela caridade com os excluídos da sociedade. Deus não aceita o culto que legitima a exploração dos grandes sobre os pequenos porque Ele é o Deus dos pequenos.  

A reforma do culto

            Os líderes religiosos precisam renunciar ao culto que serve somente para enganar e explorar as pessoas. Em nome de Deus e através do culto, inúmeros pastores ganham muito dinheiro, causam discórdia e confusão, julgam e condenam as pessoas. Este culto é maldito!  

Na verdade, os que assim procedem não são líderes, mas ladrões e assaltantes do povo de Deus. Não são pastores, mas lobos famintos, que devoram carnes humanas. Mais cedo ou mais tarde, estes falsos pastores e mercenários experimentam o chicote de Jesus, arcando com as consequências de seus crimes.

Os membros do povo de Deus não podem tolerar nenhuma forma de exploração religiosa em nome da fé, mas precisam denunciar tais abusos, a fim de que ressuscite a verdadeira Igreja, aquela que nasceu a partir do sangue dos mártires e do testemunho de pessoas livres e ungidas pelo Espírito daquele que cria e recria todas as coisas. O Deus e Pai de Jesus deseja a vida de seu povo. Assim, todos os gestos e palavras que promovem a vida e a liberdade do povo de Deus são sinais de ressurreição e constituem o culto santo e agradável a Deus.


Tiago de França

Um comentário:

Jama Libya disse...

Porque Jesus Cristo não salvou os africanos dos genocídios dos traficantes de escravos. Porque Jesus Cristo não salvou ou libertou escravos brasileiros da cruel escravidão de séculos. Porque Jesus Cristo não salva hoje os negros de tanto sofrimento, pobreza, miséria, desemprego, exploração, violência social e policial, marginalidade, perseguição, injurias, ingratidão, exclusão, judiação, ignorância, alienação, droga, alcoolismo, prostituição adulta e infantil e pedofelia, Porque Jesus Cristo não salvou os africanos os negros e negras afro-decentes do terrorismo, genocídio, discriminação, preconceitos do racismo, de tanta injustiça, ignorância, desumanidade, insensibilidade, intolerância Porque Jesus Cristo não nos salva do cristianismo.