quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Arrisquemo-nos viver por amor

         
             Não poderia terminar o ano sem falar daquela força poderosa, que alcança a todos, capaz de transformar-nos por dentro, de nos arrancar de nossa insensatez.

            Insensatez que causa dor, esquecimento e morte. Que deixa no frio quem precisa de calor, de alento, de voz e de ternura.

            Ternura que livra da frieza, do olhar atravessado, irado. Di-vi-são hostil, que torna o ouvido insensível e a visão cega.

            Cega de ódio por causa da cor, da cultura aparentemente estranha, do gosto pelo que é novo, questionador. Ódio de quem não pensa como eu, que me contraria. Escândalo!

            Escândalo da falta de cuidado, falta de abraço, falta de encontro, falta de ser com o outro, falta... Por que tanto medo e aversão?...

            Aversão contra quem e para quê? Há uma dose pesada de banalidade do mal, que se alastra igual ao mosquito que se multiplica e pica, causando hemorragia, febre e morte!

            Morte da consciência, da virtude, do discernimento, da esperança que ousa sobreviver no lamaçal do desespero... África, Síria, Paris, Mariana... Desgraça!

            Pausa. Reflexão. Conversão. Com os pés banhados na água fria do silêncio iluminador: O que fizeste? Cadê o teu irmão? Não fujas. Não te escondas. Assumi-te. Levanta-te e anda.

            Que no teu peito bata um coração de carne. Carne fértil, adocicada, da qual floresça a palavra boa, o abraço caloroso, o beijo da paz. Ressuscitas! Ergue a cabeça, abraça a paz e vai com ela em teu caminho. Não olhes para trás. O que passou não existe mais.

            Re-iniciemos: Somos felicidade. Entreguemo-nos ao amor e sejamos livres!

            Feliz Ano Novo!
Tiago de França
Curvelo – MG, 30 de dezembro de 20015.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Família: Lugar de encontro com Deus

“Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente se um tiver queixa contra o outro” (Cl 3, 12 – 13).

            A família é chamada a ser um dos lugares de encontro com Deus. Para que haja esse encontro, é necessário que haja abertura ao outro. No seio de nossas famílias há esta abertura? Somos, de fato, capazes de compreender os limites de nossos parentes? Acolhemo-nos, mutuamente, ou vivemos, continuamente, condenando-nos uns aos outros? Quando escreve aos Colossenses, o apóstolo Paulo nos fala do amor de Deus: Somos amados por Deus. Abrindo-nos a este amor, nos unimos a Deus e agimos como Ele: Somos revestidos pela santidade de Deus.

            Segundo o evangelho, Jesus pertencia a uma família. Deus não quis enviar seu Filho a este mundo, descendo através das nuvens. Em outras palavras, Jesus não apareceu do nada, mas assumiu a condição humana, nascendo do ventre materno, como os demais homens. Jesus é filho de família humana e viveu no contexto familiar marcado pelos valores da tradição judaica. O evangelho fala que Jesus foi um filho obediente, porém não preso à família (cf. Lc 2, 41 – 52). O vínculo familiar não tirou a sua liberdade. Na verdade, Jesus fez parte da grande família humana, cujo Pai é Deus.

            Eis outro ensinamento que se apresenta às nossas famílias: Abertura não somente para os de casa, mas, inclusive, para o mundo, para a sociedade. A família não deve se transformar em um gueto, num grupo isolado, pois assim não sobrevive. Quando bem estruturada porque alicerçada em valores fundamentais, a família torna-se, de fato, a base da sociedade. É comum escutarmos a famosa sentença de que quando a família vai mal, a sociedade também sofre. Realmente, se olharmos bem para a sociedade brasileira, não teremos nenhuma dificuldade para constatarmos que vivemos mergulhados numa crise de valores.

            Em parceria com o Estado, com as Igrejas e com a Escola, a família não pode se omitir diante da situação na qual está profundamente atingida. Novas formas de entidade familiar estão surgindo, assim como novas formas de conflitos e modismos. O que fazer diante desta realidade complexa e desafiadora? A realidade tem mostrado, claramente, que a criminalização e a condenação das pessoas não constituem solução.  

Infelizmente, a discriminação, a criminalização e a condenação das pessoas tem, vergonhosamente, ocorrido com frequência. É de causar indignação os atos de intolerância e tantas outras formas de violência contra casais homoafetivos, noticiados diariamente nos jornais. Somos um povo marcado pela intolerância, preconceito e homofobia. E o mais absurdo é que, em muitos casos, os intolerantes, os preconceituosos e os homofóbicos agem em nome de Deus, como se fossem soldados de Cristo que combatem o mal, sendo que, na verdade, são agentes de Satanás, que visam, em nome de um discurso religioso tradicional, destruir as pessoas.

Todas as famílias são abençoadas por Deus. Nenhuma delas está excluída do projeto salvador de Deus. Em Deus não há exclusão de pessoas porque estas são suas filhas. Na religião existe condenação, mas não em Deus. Os homens criam leis e sentenças, julgam, absolvem e condenam, mas Deus, que é puro amor, não age nos moldes humanos. E, além disso, Deus não deu a homem nenhum o poder e a autoridade para julgar e condenar pessoas em seu nome. Por isso, os pais e mães devem ensinar aos filhos a verdadeira imagem de Deus: A imagem de um Deus misericordioso. Se a crença em Deus não passar pelo cultivo da misericórdia, facilmente os crentes caem na tentação de viver julgando e condenando as pessoas.

Hoje, a família precisa urgentemente resgatar o valor que as edifica e sustenta, sem o qual não sobrevive: O amor. Quando não há amor, a família vive de aparência. A falta de amor deixa a família totalmente vulnerável e sem vida. Quando o amor está presente, a alegria também se faz presente. A tristeza, as intrigas, o julgamento e a condenação do outro, os olhares sombrios, a falta de sentido; enfim, tantos outros males estão nas famílias que desprezam o verdadeiro amor.

Na verdade, aí já não há mais família, mas uma justaposição de pessoas, que sobrevivem em um ambiente hostil e, portanto, insuportável. Não há pureza, mas puritanismo; não há moral, mas moralismo; não há fé, mas descrença; não há reta intenção, mas malícia; não há paz, mas desordem e toda espécie de energia negativa. Somente o amor é capaz de libertar os núcleos familiares que se encontram nesta triste situação. E não adianta somente rezar pelas famílias, mas é preciso tomar atitudes libertadoras, impulsionadas pelo amor e para o amor.


Tiago de França

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MENSAGEM DE NATAL 2015

Deus permanece conosco

Caros amigos e amigas, irmãos e irmãs no Cristo Jesus,

Graças e paz!

            A celebração anual do Natal de Jesus nos traz uma grande alegria, pois sabemos que a encarnação de Deus no mundo é o maior gesto de amor que este mesmo Deus fez por cada um de nós. Sua vinda nos trouxe a esperança de um mundo novo, marcado por justiça e paz.  

O nascimento de Jesus é a prova de que Deus permanece com seu povo, ajudando-o em suas lutas por libertação. Esta permanência divina é fruto da fidelidade divina, fidelidade que nos convida à ação amorosa para com nossos irmãos e irmãs. Apesar de nossas infidelidades, Deus permanece fiel, e é por isso que Ele jamais nos abandonará. Nossa fé em Jesus nos concede esta feliz alegria.

            Neste sentido, contemplando esta fidelidade de Deus que nos concede a certeza de sua presença amorosa no meio de nós, precisamos nos perguntar, com sinceridade e verdade de consciência: Como tenho celebrado, anualmente, o nascimento de Jesus? Qual tem sido o efeito dessa celebração em minha vida? Tenho, de fato, conformado a minha vida ao verdadeiro significado do Natal de Jesus?...

Estas e outras perguntas nos levam a pensar em nossa maneira de celebrar o Natal, a fim de nos libertarmos do falso Natal, que não passa de uma festa com muita comida e bebida, trocas de presentes e felicitações superficiais, sem a presença de Jesus. O Natal mercadológico não é o Natal de Jesus.

            Infelizmente, temos que admitir que inúmeros daqueles que se dizem cristãos não celebram o Natal de Jesus, mas consideram esta data mais um feriado e, assim, o Filho de Deus cai no esquecimento. Quem se deixa levar por esta terrível tentação, ganha as ruas e avenidas, dominados pelo espírito capitalista, para consumir, desenfreadamente.  

O mercado os convenceu de que não pode existir Natal sem consumo. Quem não consome não celebra o Natal. Nesta realidade, a acolhida do Cristo que vem se torna assunto desnecessário, chato, incompreensível e estranho. Geralmente, as pessoas não tem tempo sequer para pensar em Jesus. Algumas procuram participar, mecanicamente, da Missa de Natal. Das que vão à Missa, poucas se interessam em compreender o sentido humano e espiritual da encarnação de Deus na humanidade.

            O Natal de Jesus nos exige conversão de vida. Olhando para a situação do mundo atual, visivelmente percebemos que a humanidade carece de autênticas testemunhas da encarnação do Verbo de Deus. Nossa conversão pessoal e eclesial passa, necessariamente, pela abertura ao amor. Abrir-se ao amor é abrir-se ao outro.

Torna-se cada vez mais urgente nos entregarmos ao amor, para que cesse a indiferença. Somente através do mandamento do amor, amando-nos mutuamente, à maneira de Jesus, é que conseguiremos nos libertar de todo o mal que assola a humanidade. Por que há guerras, suicídio, preconceito, racismo, intolerância, esquecimento do outro, abandono, ostracismo, calúnia, difamação, injúria, infidelidade no casamento e nas relações interpessoais, crises (financeira, política, moral, religiosa, espiritual), e tantos outros males? A resposta é simples: As pessoas estão fugindo do amor, encerrando-se numa vida de aparência, caindo no vazio existencial. Estas pessoas, vazias e superficiais, levam uma vida sem sentido, entregues aos prazeres passageiros e fúteis, alienadas e escravas de si mesmas, são frustradas e infelizes.

            Desejo a cada um de vocês, neste Natal e no que ano novo que se aproxima, que Jesus de Nazaré possa ser o centro de vossas vidas. Que a liberdade de filhos e filhas de Deus possa se tornar realidade em cada um, e que as dificuldades e desafios não consigam abatê-los. Vamos manter nossos olhos fixos em Jesus e nos deixarmos alcançar pelo seu amor, pois é este amor que nos liberta de todo mal e nos conduz ao Reino de Deus. Assim, despeço-me, pedindo-lhes que rezem por mim.

            FELIZ NATAL E UM ANO NOVO REPLETO DE AMOR, ESPERANÇA, FÉ, SAÚDE E PAZ!

Fraternalmente, no Senhor,

Tiago de França da Silva

Desde Belo Horizonte – MG, 23 de dezembro de 2015.

domingo, 20 de dezembro de 2015

O amor ao próximo (meditação breve)

             Quando Jesus recomendou o amor ao próximo, lembrou que é necessário, em primeiro lugar, amar a si mesmo. Que isto significa? Quem não ama a si mesmo é incapaz de amar o outro. Permanece bloqueado para amar o outro quem não ama a si mesmo. Por outro lado, é preciso ter cuidado para não confundir o amor a si mesmo com o narcisismo, pois neste não há amor, mas egolatria que, por sua vez, se revela no fechamento, no isolar-se em si mesmo, no colocar-se no centro de tudo, como se o mundo girasse em torno de si mesmo. Neste caso, não pode existir felicidade, mas tão somente frustração e sofrimento.

Tiago de França

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O evangelho da misericórdia

             
              Deus é infinitamente misericordioso. A misericórdia é o seu segredo por excelência, pois fala de sua essência, do seu ser. Por isso, é a condição fundamental do evangelho e a chave de compreensão da vida cristã. Exercitar a misericórdia é permanecer unido a Deus, revelando-o ao mundo, fazendo resplandecer a sua bondade.

            Não é mero discurso, nem mera compreensão teológica, mas é ação impulsionada pela força de Deus, manifestada no Espírito de Jesus. Através das mãos e dos braços que servem e acolhem os irmãos e irmãs, a misericórdia divina se manifesta no mundo. Não há abstração. Não é metafísica. É evangelho de Cristo na carne sofrida dos irmãos.

            Em meio às dores, na escuta do clamor das vítimas, ceifadas pelas injustiças que se cometem neste mundo, aparece o óleo da misericórdia. Há samaritanos que socorrem os caídos, curando-lhes as feridas. Há mulheres e homens que acreditam na epifania do mundo novo. Há vozes despertando a esperança. Projetos falando de paz. Tudo isso é manifestação da misericórdia de Deus no mundo.

            Desde Roma, Francisco clama por justiça, denunciando as mazelas da humanidade, a covardia dos homens ambiciosos e a força do mal. Em meio ao clamor dos pobres latino-americanos e africanos, proclama em alta voz a benevolência divina. E os pobres, cansados e abatidos, acolhem a palavra libertadora de Deus e renovam o compromisso de continuarem lutando para que a vida se multiplique, mesmo quando são obrigados a chorar pelo derramamento de sangue. Este é um sinal da ação misericordiosa de Deus.

            Em toda parte há corações e mentes abrasadas, despertadas e disponíveis. Há pessoas que se organizam, que pensam, que ousam desafiar os poderosos; que não se calam, que fazem ouvir o seu clamor. Há braços em movimento, de gente com sangue novo nas veias, tomadas por uma força misteriosa que as faz caminhar com Jesus na contramão do mundo. É a força de Deus que levanta do chão os caídos, fazendo-os caminhar com Jesus, na direção do Pai, rumo à plenitude do Reino.

            Neste dia 8 de dezembro, dia da solene celebração da Imaculada Conceição de Maria, o papa Francisco vai iniciar um jubileu extraordinário: O Jubileu da Misericórdia. Neste mesmo dia, em 1965, encerrava-se, em Roma, o Concílio Ecumênico Vaticano II. Trata-se de um Ano Santo no qual a Igreja proclamará com maior clareza e fervor o dom da misericórdia de Deus, convidando a todos a trilharem o caminho da necessária conversão.

            Desde o início do seu pontificado, o papa Francisco tem proclamado, corajosamente, o evangelho da misericórdia. O que nos ensina este evangelho? O que nos convida a fazer? Na perspectiva de Jesus, o enviado do Pai e evangelizador dos pobres, podemos elencar algumas exigências que brotam do coração deste evangelho de vida e de liberdade. Assim, Jesus nos chama à conversão pessoal e eclesial. Esta conversão passa, necessariamente, pelas seguintes exigências:

- Mudança de mentalidade e abertura ao outro;

- Reconhecimento e acolhida do novo e diferente;

- Promoção da cultura do encontro e erradicação da cultura da eliminação do outro, que ocorre por meio do preconceito, racismo, intolerância, indiferença e ódio;

- Visão do outro como irmão, amigo e companheiro, e não como inimigo a ser combatido;

- Cultivar o desapego e/ou despojamento, em vista de permanecer livre para a missão;

- Intensificar o espírito de oração, meditação e contemplação;

- Buscar reconciliar-se com o outro, evitando intrigas e discussões desnecessárias;

- Reforçar o positivo, evitando o pessimismo, assim como buscar sempre o que há de bom no outro;

- Manter-se atento às necessidades do outro, colocando-se ao seu serviço, de forma gratuita, generosa e solidária;

- Incentivar e colaborar com as iniciativas que visam a libertação integral das pessoas em todas as áreas de atuação humana;

- Promover, nas comunidades eclesiais, a inclusão dos que são socialmente excluídos.

            Como foi dito acima, a misericórdia divina é ação amorosa de Deus no mundo. Ação não é abstração! As posturas acima elencadas, dentre tantas outras, são formas de participação do cristão na missão de Jesus. Por isso, o Ano Jubilar da Misericórdia não pode ficar restrito à liturgia da Igreja. A celebração litúrgica somente ganha sentido e valor quando fala da vida do povo, de um povo que vive da misericórdia divina, praticando-a no seu cotidiano. Não basta participar das práticas religiosas em vista da indulgência jubilar, mas é preciso dar testemunho da misericórdia de Deus em nossas famílias, locais de trabalho e em nossas relações interpessoais.

            Em um mundo marcado por guerras e outras tantas formas de violência, os cristãos precisam, urgentemente, dar testemunho da misericórdia de Deus, combatendo a violência com o diálogo, a tolerância, a compreensão, a escuta, o colocar-se no lugar do outro e a eliminação da indiferença. Precisamos nos mantermos vigilantes, para não cairmos na tentação de nos aproveitarmos da fraqueza do outro. Não somos senhores da vida de ninguém. Deus é o Senhor de todos, nos ama generosamente e no seu amor nos quer ver livres e felizes.

A misericórdia divina nos ensina a sermos misericordiosos com o outro, pois assim Deus é misericordioso conosco. Não alcança a misericórdia divina aquele que não é misericordioso com o próximo. Este é o mandamento de Deus. Sejamos misericordiosos, pois somente assim outro mundo é possível. Esta é a proclamação do evangelho da misericórdia de Deus. É a via única capaz de nos salvar, nesta hora difícil de nossa história. Que Maria, a Imaculada e Mãe da Misericórdia, nos ajude com a sua intercessão, hoje e sempre!


Tiago de França

domingo, 22 de novembro de 2015

O reinado de Jesus

“Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 37).

            Quando olhamos para os reinos deste mundo é impensável conceber Jesus como rei. De fato, ele não reinou neste mundo. E não reinou porque o Pai não o enviou para governar o mundo, mas para dar testemunho da verdade.  

Geralmente, os reis não dão testemunho da verdade, mas são revestidos de poder humano, glorificados e temidos pelos seus súditos. Esta lógica do poder não se aplica a Jesus. Como Filho de Deus, nascido na pobreza da manjedoura, Jesus não tinha poder para nada. Humanamente, era impotente.

Não tinha sequer um lugar para reclinar a cabeça. Então, por que criaram a festa de Jesus Cristo, rei do universo? A história mostra que a festa surgiu para confirmar e/ou legitimar o poder da Igreja na sociedade. O idealizador desta solenidade estava pensando no poder. Por isso, o espírito que deu origem à festa de Cristo rei é reconhecidamente pagão, não evangélico.

            Assim, podemos indagar: afinal de contas, há ou não um reinado de Jesus? Cremos que Jesus há de vir para julgar os vivos e os mortos. Esta verdade integra o nosso credo. Plenamente, não há um reinado de Jesus neste mundo. O reinado de Jesus é o reinado do Pai, e este reinado ainda não é uma realidade plena, mas está se dando, está acontecendo, humilde e discretamente.  

Segundo Jesus, este reinado se parece com uma semente jogada na terra, que silenciosa e misteriosamente está germinando. Os seguidores de Jesus, ao longo da história, a partir das periferias do mundo, estão semeando e cultivando essa semente. E quando nasce o trigo, o joio aparece, mas ainda não pode ser tirado para ser jogado fora. Isto porque ainda não é o tempo da colheita. No tempo oportuno chegará a colheita. E em meio às dores, os filhos de Deus esperam ansiosamente por este dia, dia da libertação definitiva.

            Quando seguem o mestre Jesus, seus discípulos repetem seu gesto libertador: dar testemunho da verdade. O mundo atual, marcado pelas guerras e pelas inúmeras injustiças contra os oprimidos, oriundas da falta de amor, exige discípulos missionários autênticos; e a autenticidade consiste em dar testemunho da verdade.  

Ao dar este testemunho, o cristão permanece na escuta de Jesus; quando se recusa a este testemunho, afasta-se desta escuta. Em que consiste este testemunho? Consiste em permanecer unido a Jesus. Não basta saber dessa permanência, mas é necessário saber também o que ela significa: Onde Jesus está para que eu possa permanecer com ele? Eis o desafio.

Jesus continua nas periferias deste mundo, sofrendo na pele dos sofredores e excluídos. Jesus está sofrendo na vida das vítimas das barragens que se romperam em Mariana, Minas Gerais. Jesus está sofrendo na vida das vítimas dos atentados terroristas de Paris, França. Está na vida das vítimas inocentes dos bombardeios no Oriente Médio... Jesus está gritando de dor, lavado de sangue, mutilado nos membros dos que estão sendo massacrados pelos poderes opressores deste mundo.

            Quem está com estas vítimas? Quem as socorre em seu grito de dor? Quem são os que fazem o papel de bom samaritano, que sente compaixão, se aproxima e cuida das feridas, custeando as despesas da pensão na qual se abriga o caído? Quem irá restituir a dignidade daqueles que ficaram sem lenço e sem documento? Quem restituirá as vidas ceifadas pela lama venenosa, pelas balas e mísseis disparados?...

O que fazer para conter o ódio, a indiferença e a ganância dos poderosos deste mundo? Quem está trabalhando para que a esperança permaneça viva, apesar do clima sombrio e cruel de nossos dias? Será que a mera doação de uma cesta básica, o cumprimento de sentença judicial, impondo multa e outras medidas, é suficiente para tranquilizar a consciência, libertando da culpa e responsabilidade? Qual nossa postura diante do grito ensurdecedor das vítimas? Sacudimos os ombros e cruzamos os braços?...

            Certamente, muitos dirão neste domingo solene, que Jesus deve reinar na vida e nos corações dos cristãos. Isto parece belo, mas até que ponto, verdadeiramente, Jesus é acolhido para reinar nos corações dos que se afirmam cristãos? É verdade efetiva, ou somente afetiva e romântica?...

Os lábios louvam o rei Jesus, mas no cotidiano da vida imita-se o sacerdote do templo e o levita, que passam pelo outro lado do caminho, recusando-se à compaixão e ao amor. Se a celebração do senhorio de Jesus reforça nossa superioridade em relação aos outros e o nosso proceder indiferente, então somos hipócritas e fariseus, maliciosamente diabólicos. Temos que nos converter para enxergarmos que o rei Jesus é o Servo Pobre e Sofredor, que não nos aguarda no conforto dos palácios e dos templos, mas nos quer lá onde a lama suja e sufoca, onde a bala fere e mata.

            Nesta hora difícil da história humana, dar testemunho da verdade é, assistidos pela graça divina, sermos fieis a Jesus. Ser fiel a Jesus é permanecer com ele, e isto ultrapassa todo o louvor e piedade. Permanecer é estar com, é comprometer-se com Ele até as últimas consequências. A todo momento estamos sendo tentados a fazermos o papel de Judas Iscariotes, que traiu Jesus; e, em muitas ocasiões, somos traidores: omissos, covardes, mesquinhos, orgulhosos, arrogantes, frios, prepotentes, maliciosos, mentirosos, caluniadores, falsos, medíocres, desumanos. E o pior é que, quando religiosos, gostamos de aparentar santidade e piedade cristã com o intuito de esconder nossa maldade, praticando, assim, um falso cristianismo.

O Espírito de Jesus nos ajuda a sermos fieis, a não sermos covardes e omissos. Despojemo-nos, pois, de toda ambição e sede de poder. Abramo-nos a este Espírito, para sermos humildes servidores, sal e luz do mundo. Não sejamos agentes de Satanás, pai da mentira e da discórdia, mas permaneçamos em Jesus, Luz do mundo. Que nossos gestos e palavras constituam a verdade, única capaz de libertar este mundo das trevas do pecado e da morte. Sejamos luz, suavidade, ternura, aconchego, acolhida, mãos calorosas que acolhem e cuidam, pois nossa espiritualidade é a do cuidado do outro. Fora dessa espiritualidade não pode existir verdadeira celebração ao Cristo rei do universo.


Tiago de França

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Pacto das Catacumbas: Por uma Igreja fiel ao Espírito de Jesus

           No dia 16 de novembro de 1965, há exatos 50 anos, cerca de 40 Padres conciliares, pouco antes do encerramento do Concílio Vaticano II, celebraram a Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma. Depois da celebração, assinaram um pacto que recebeu o nome de “Pacto das Catacumbas”.  

Qual o significado teológico e espiritual deste Pacto para a vida da Igreja? Não queremos fazer uma análise do Pacto, em suas proposições, mas, para que o mesmo não caia no esquecimento – tentação corrente na Igreja – queremos oferecer algumas provocações necessárias para nossos dias.

            O texto do Pacto, logo abaixo transcrito, revela que seus signatários estavam convencidos da necessidade de conversão ao Espírito de Jesus: Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho...” Antes do Vaticano II, os bispos, salvo exceções, viviam dominados pela “psicologia de príncipes” (expressão do papa Francisco).  

Neste sentido, o Pacto aparece como um convite à conversão do coração e da vida toda a Jesus. Os bispos descobriram que na qualidade de apóstolos de Jesus, pois reivindicam a sucessão apostólica, devem ser como o Mestre: Pobre entre os pobres. Príncipes não são pobres, mas ricos, orgulhosamente vaidosos e entregues aos prazeres e seguranças.

            Viver no estilo dos pobres não é algo fácil em um mundo marcado pela busca incansável da riqueza, do poder e do prestígio. Desde tempos antigos, estes três males tem afetado a vida da Igreja, especialmente os clérigos (padres e bispos, cardeais e papas). Não precisamos explicitar com detalhes a história da Igreja desde a época em que foi reconhecida religião oficial do império romano.  

Os fatos falam por si e nos causam vergonha até os dias de hoje: Uma história marcada pelo apego à opulência e a toda espécie de devassidão. O reconhecimento desse passado sombrio é um passo significativo no caminho da conversão, pois esta não é possível sem o reconhecimento humilde dos pecados e crimes cometidos no passado. Não há arrependimento sem reconhecimento das fraquezas.

            Os bispos que assinaram o Pacto não quiseram somente ficar no reconhecimento das fraquezas: “...colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos...” Quiseram assumir um compromisso perante Deus e toda a Igreja: O compromisso de seres homens pobres entre os pobres, em vista de uma Igreja servidora e pobre. 

Dentre outros brasileiros, Dom Helder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife (PE) foi um dos propositores que assinou o Pacto. Assinou com o testemunho da própria vida, e quem o conheceu de perto viu que, de fato, vivia o estilo de vida dos pobres, residindo, humilde e despojadamente, na sacristia de uma pequena igreja, em Recife, após ter renunciado ao conforto do palácio episcopal.

            O Pacto é um instrumento profético que denuncia a vida luxuosa de inúmeros bispos da Igreja, que viviam e até hoje vivem segundo o “mundanismo espiritual” (outra expressão utilizada pelo papa Francisco). Em que consiste esse mundanismo espiritual na vida dos bispos?  

Consiste naquilo que o Pacto denuncia como pecado contra a vida apostólica: aparência e realidade de riqueza (ouro, prata, roupas caras, paramentos luxuosos, insígnias de matéria preciosa; posse de imóveis e somas de dinheiro em conta pessoal; uso de títulos que signifiquem grandeza e poder; gozo de privilégios e honrarias; preferência pelos ricos e poderosos; distanciamento dos pobres e sofredores; ausência nas lutas por justiça e paz; aposentadorias que envolvem grandes somas; recusa à vivência da colegialidade episcopal; depravação sexual; abuso de poder e autoridade; uso de palácio ou de residências luxuosas; uso de carros luxuosos; entre outros comportamentos que causam escândalo ao povo santo de Deus.

            Bispos verdadeiramente pobres, que aspiram viver como Jesus viveu, não podem aderir a estas condutas e/ou formas de proceder. Não há discurso que convença o povo de que quem assim vive possa agradar a Deus. O Deus e Pai de Jesus se encarnou na periferia do mundo. Na pessoa de Jesus de Nazaré, o bom Deus optou claramente pelos pobres, e esta deve ser a opção da Igreja.

O evangelho de Jesus é muito claro quanto a isto: Seus seguidores devem viver segundo o seu estilo: Pobre e despojado. Com isto, não estamos fazendo apologia à miséria. Jesus não defendeu a miséria, mas a denunciou, assim como denunciou a riqueza. Os discípulos missionários de Jesus precisam ser pessoas pobres, não miseráveis nem ricos. Entendemos como miséria a situação de escassez crônica, da falta do necessário para viver. Por isso, não está de acordo com a vontade do Deus que é fonte da vida em abundância.

            Mesmo após o Vaticano II ter apontado para o caminho da conversão pessoal, estrutural e pastoral, inúmeros clérigos continuaram e até hoje continuam optando pelos ricos e poderosos. Neste sentido, os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, apesar de seus pontos positivos, infelizmente, não ajudaram os clérigos a se converterem a Jesus. A nomeação de bispos fechados às indicações do Vaticano II e aos sinais dos tempos, fizeram com que a Igreja se tornasse cada vez mais uma instituição distante do povo.

A preocupação pelo cumprimento fiel das regras litúrgicas, o devocionismo, o culto à personalidade do papa, a prática de eventos de massa, o rigor disciplinar, as sanções aos teólogos que ousaram evoluir na reflexão sobre a fé, a omissão diante dos abusos sexuais, os acordos firmados com os poderosos deste mundo, a marginalização dos projetos e iniciativas populares, e tantos outros males marcaram mais de três décadas de inverno espiritual na Igreja pós-Conciliar. Neste período, salvo exceções de experiências isoladas e perseguidas, o conservadorismo fez com que o Pacto fosse esquecido. Para os conservadores, o Pacto não é evangélico, mas coisa do comunismo, este entendido como um mal a ser combatido.

            De repente, eis que o colégio cardinalício resolveu permitir que o Espírito trabalhasse na escolha do novo papa e, pela primeira vez na história da Igreja, chega à Diocese de Roma um latino-americano, filho da Argentina e da Companhia de Jesus (Jesuítas). Escandalosamente, um papa sintonizado com o Espírito de Jesus e com o espírito do Vaticano II.  

Ousado, iniciou a reforma da Cúria Romana, sua maior inimiga. Apreciado pelo povo e odiado pelos que vivem apegados ao poder e ao dinheiro, o papa Francisco insiste na continuidade da reforma, apesar dos riscos. Sendo acompanhado pelas preces de toda a Igreja, sob a proteção de Deus, espera-se novos tempos. Mantendo-se fiel à missão recebida, está fazendo jus ao nome escolhido: Franciscus, homem da humildade, da simplicidade e da caridade evangélica, desde Assis, Itália, antes da grande reforma luterana. Para a alegria de muitos e a tristeza de outros, pela primeira vez após o Vaticano II, um papa retoma o Concílio para o bem da Igreja, e as orientações do Pacto para a vida episcopal.

            O que esperar da situação na qual estamos inseridos? A esperança não decepciona porque Deus permanece fiel. À luz do evangelho de Jesus, marcados pelo batismo e auxiliados pela força da Trindade, somos chamados a manter viva a esperança, o amor e a fé. Tanto dentro quanto fora das fronteiras da Igreja, vivemos tempos sombrios, difíceis. Tempos que exigem mulheres e homens fortes, convictos, fieis, alegres, ousados, cheios de amor e fé.

Desastres naturais, atentados terroristas, injustiças de toda espécie, gente sofrendo e morrendo, gritos e lágrimas, indiferença e frieza tem tomado conta do mundo. Apesar disso, os sinais de Ressurreição permanecem vivos. Há muita gente amando em nome de Jesus, construindo, desse modo, o Reino de Deus; livres do desespero, gerador da morte.  

O chamado divino não cessa. Jesus está batendo à porta do nosso coração. Ele quer habitar em nós. Não sejamos omissos. O tempo é de profecia, de graça e salvação. Ai daquele que não enxergar Jesus passar! Mantenhamos as lâmpadas acesas. Deus é amor. A sua presença é certa, peçamos a graça de percebê-la e senti-la. Ele liberta do medo. Ele é vida na liberdade e no amor. Chama-nos, chama-nos, chama-nos... Qual é a nossa resposta?... O Pacto indica o sim generoso, ousado, alegre, manso e confiante.

Tiago de França da Silva
Desde Belo Horizonte – MG, 17 de novembro de 2015.
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PACTO DAS CATACUMBAS (Texto integral)

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

- a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

- a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;

- suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;

- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.


(Catacumba de Domitila, 16 de novembro de 1965)

sábado, 7 de novembro de 2015

O dom da partilha

“Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12, 43 – 44).

            O mundo atual é marcado pela cultura do individualismo. Há muita gente que só pensa em si mesma, vivendo em função de si mesma. Em tudo procura satisfazer-se, não aceitam perder, somente querem ganhar. Essa gente, antes de se envolver em alguma coisa, se pergunta: O que vou ganhar com isso? Por isso, sente dificuldade de praticar a solidariedade porque nesta não há retorno, pois é, essencialmente, gratuita. Estender as mãos para a acolhida do outro, para abraçá-lo em suas necessidades, está se tornando cada vez mais atitude rara. As pessoas querem tirar vantagem em tudo. Quem assim procede não conhece Jesus e sua mensagem.

            Segundo a lógica capitalista, os problemas e necessidades do outro não despertam nenhum interesse nem incômodo. “Eu estou cuidando da minha vida, procurando o meu espaço, satisfazendo as minhas necessidades. Trabalho para isso. Quem tiver seus problemas e necessidades que as resolva! Não tenho nada a ver com isso! Não tenho culpa nas carências de ninguém”, pensa o egoísta no seu íntimo. Visivelmente, quem assim pensa e procede, desconhece Jesus e sua mensagem. Curiosamente, em nossas Igrejas há inúmeras pessoas que pensam e agem dessa forma. Acham que são seguidoras de Jesus, praticando o egoísmo. Ainda não aprenderam que a fé cristã não é compatível com o egoísmo. Quando este vigora aquela desaparece.

            Qual a recompensa merecida para o egoísta? A morte espiritual. Pode ser rico e gozar de alegrias passageiras, mas, no fundo, é triste e infeliz. É assim porque a verdadeira alegria é filha da generosidade e da partilha. Infeliz daquele que não é sensível ao sofrimento do outro. Trata-se de pessoa mesquinha e desprezada, pois são poucos os que suportam conviver com o egoísta. Este anula de sua vida a existência frágil do outro e se coloca como autossuficiente. Trata-se, ainda, de pessoa morta, que ousa ocupar espaço no mundo. A morte do egoísta é a falta de amor, pois quem ama é generoso e solidário com o outro. O egoísta não ama, mas se aproveita das pessoas para a satisfação de seus instintos egoístas.

            É comum vermos as pessoas buscando o poder, o prestígio e a riqueza, com a única finalidade – dizem elas –, de serem felizes. Falam de boca cheia de seus anseios e sonhos materialistas. Dedicam suas energias à busca incansável da vida tranquila e confortável, alicerçada nas seguranças que o poder e o dinheiro podem oferecer. No meio da multidão dos que assim vivem, há uma minoria que pensa e age em função da felicidade do outro. Lutam, diuturnamente, pela promoção da dignidade do outro. Estas, sim, conhecem Jesus e sua mensagem, pois se deixam guiar por seu Espírito, que as liberta do mal do egoísmo. Somente as pessoas generosas, que partilham do que são e do que tem, é que realmente podem ser felizes. Não existe felicidade no egoísmo. Neste somente há mentira e perturbação mental. Todo egoísta não tem paz interior. É uma criatura perturbada, insatisfeita, pois o egoísmo a corrói por dentro, tirando-lhe a verdadeira alegria e tranquilidade.

            O que nos ensina Jesus sobre o dom da partilha? Ensina-nos que somos irmãos. Ser irmão significa reconhecer no outro um filho de Deus. Deus Pai quer que seus filhos vivam a fraternidade. Ser fraterno é reconhecer no outro um irmão, remido no sangue de Jesus. Como o cristão ama a Deus? Não há outra forma de amar a Deus senão amando o próximo. Não se ama a Deus com os lábios e com o pensamento. O amor não é uma realidade abstrata, coisa do mundo das ideias. O amor é concreto, é ação libertadora, é a força poderosa capaz de salvar toda a humanidade. É encontro fecundo e transformador entre as pessoas, que as liberta do preconceito e da indiferença. Somente o amor liberta do egoísmo. O egoísta se converte quando aprende a amar as pessoas na gratuidade, generosidade e liberdade.

            No evangelho segundo Marcos, encontramos Jesus admirado com o gesto de uma pobre viúva que depositou duas moedas no cofre do Templo. Segundo Jesus, ela deu tudo o que tinha para viver. Na sua pobreza, foi mais generosa do que os ricos, que davam daquilo que lhes sobrava. Jesus louva o gesto concreto da viúva e ensina a seus discípulos o dom da partilha. Partilhar não é dar o resto e/ou a sobra. Não é livrar-se das pessoas para que não mais nos incomodem. Não é fazer doações para tranquilizar a consciência. Partilhar, segundo a ótica do evangelho, é voltar-se para o outro. Não é mero gesto momentâneo, mas é permanecer com o outro, atento às suas necessidades e problemas. É colocar-se a serviço do outro. É comungar da sua vida. O dom da partilha exige a necessária compreensão da situação do outro, exige compaixão, atenção, gratuidade, humildade, disponibilidade, muito amor e dedicação. O Deus e Pai de Jesus permanece na vida de quem partilha no amor.

            Quem se abre ao sagrado exercício espiritual da partilha fraterna conhece uma paz interior que o mundo não consegue dar. Exerce uma profecia que denuncia o mal maior que oprime mulheres e homens no mundo inteiro: O apego aos bens materiais. Este apego aos bens gera o egoísmo. Os escravos dos bens materiais não dispõem de tempo para pensar nos outros, pois estão concentrados na manutenção e multiplicação dos próprios bens. Para estes escravos, não se pode nem pensar no outro porque isto representa perda de tempo. Por isso, desconhecem sentimentos como a compaixão, que exige colocar-se no lugar do outro. O verdadeiro cristão não pode ser assim, pois se o é, não é cristão.

            Por fim, abrir-se à ação amorosa do Espírito é a atitude de quem deseja livrar-se, definitivamente, do mal do egoísmo. Este Espírito tem a força de manter o discípulo no caminho de Jesus: Caminho da partilha generosa e feliz. Este Espírito nos concede a graça de partilharmos o sorriso, o abraço, a atenção, o ouvir, o pão. Com o coração humilde, contrito e aberto, somos chamados a sentir as dores do corpo de Cristo nos corpos dos sofredores, a fim de que quando chegar o grande dia da glorificação final dos filhos e filhos de Deus, possamos festejar eternamente, participando do banquete do Reino de Deus. E quando chegar esse dia, a festa vai ser linda de viver!


Tiago de França

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A vida na morte

Segundo São Francisco de Assis, a morte é nossa irmã. Não há quem escape dela: ricos e pobres, arrogantes e humildes, ignorantes e sábios, doentes e sãos, ateus e crentes; enfim, todos os seres vivos se encontram com a morte, que os obriga a deixar a existência material. Quer aceitemos, quer não, ela nos vem ao encontro.

Claro que não precisamos viver em função da morte, pensando nela a todo instante, mas nos faz bem vivermos reconciliados com a certeza de sua vinda. Infelizmente, há um número incalculável de pessoas que vivem ameaçados pela morte todos os dias. São os feridos em sua dignidade, padecendo pela falta de alimento, moradia, saúde, trabalho etc. Estas pessoas não tem paz porque a escassez que as ameaça lhe tirou a tranquilidade. Há uma multidão de gente atormentada neste mundo, e no meio dela há muitas pessoas desejando a morte.

            O que dizer para estas pessoas? As filosofias humanas não possuem uma resposta esperançosa. Há quem diga que é normal que uma parcela da humanidade deva viver sofrendo, sendo ameaçada constantemente pela morte. Segundo esta filosofia da morte, a vida não está para todos, mas para uma parcela da humanidade. Quem adere a esta filosofia não enxerga nenhum problema no extermínio de pessoas na África e no Oriente Médio, assim como em todo o mundo. Adolf Hitler continua tendo seus seguidores em todas as partes do mundo.

A cultura que daí surge é a da eliminação do outro. Este, uma vez excluído, tem que morrer. Deficientes, idosos, doentes crônicos, pobres que nada produzem e nada consomem, viciados no álcool e nas drogas, entre outras categorias de pessoas, são consideradas descartáveis e, por isso mesmo, devem ser eliminadas. Os jornais falam das mortes dessas pessoas e há muita gente que não vê problema nisso. Quem não vê problema algum nesse cenário de morte não pode afirmar-se cristão e, se o fizer, mente descaradamente.  

O que Jesus fala para todas as pessoas que vivem sendo constantemente ameaçadas pela morte, em decorrência das inúmeras injustiças que se cometem neste mundo? A Boa Notícia de Jesus, a este respeito, possui duas certezas maravilhosas: a primeira, consiste no fato de que Jesus permanece entre as vítimas das chacinas que se cometem no mundo. Quando os cristãos sofredores enxergam a presença de Jesus, aí já se inicia o processo glorioso da ressurreição da carne e da vida eterna.

O sofrimento e a morte ganham sentido, deixando de ser sinônimo de desgraça. A segunda certeza está intimamente ligada à primeira, que consiste na fidelidade de Deus ao seu povo. Deus é fiel e jamais o abandonará. Esta é a esperança que move a peregrinação dos que creem, dos que se encontram na caminhada rumo à plenitude do Reino de Deus.

Neste sentido, o Dia de Finados não é dia de celebração da morte, pois em Cristo Jesus a morte perdeu o seu poder, marcando apenas uma leve pausa na existência cristã. Na morte, a força de Deus se manifesta e a vida ressurge. Unidos a Jesus na morte, os cristãos participam da ressurreição.

Antes de participar da morte de Cristo, os seguidores de Jesus fazem a mesma opção que ele fez, ou seja, lutam contra as injustiças geradoras de morte no mundo. As lutas pela vida dos injustiçados já é participação na paixão, morte e ressurreição de Jesus. É nesta perspectiva, que a morte dos mártires não é sinal de derrota nem de desgraça, mas de ressurreição. Os cristãos autênticos não tem medo da morte, pois sabem que o Deus e Pai de Jesus é fiel, permanecendo com os seus filhos na morte para dar-lhes a vida.

Por fim, é preciso dizer que a morte nos recorda da transitoriedade de todas as coisas. Ela nos ensina que somos mais felizes quando vivemos despojadamente, sem nos apegarmos a nada nem a ninguém. A morte das mulheres e homens livres é suave e benfazeja. Quando apegados à riqueza, ao poder e ao prestígio, o ser humano sofre desnecessariamente com a morte, pois esta acaba com os apegos.  

Assim, a morte é a palavra final da liberdade. Uma vez morto, o homem nada possui. Em um mundo marcado pelo materialismo e consumismo, a notícia da própria morte causa angústia e medo. Para os que creem em Jesus e vivem conforme seu mandamento, “é morrendo que se vive para a vida eterna”.


Tiago de França