sábado, 7 de novembro de 2015

O dom da partilha

“Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12, 43 – 44).

            O mundo atual é marcado pela cultura do individualismo. Há muita gente que só pensa em si mesma, vivendo em função de si mesma. Em tudo procura satisfazer-se, não aceitam perder, somente querem ganhar. Essa gente, antes de se envolver em alguma coisa, se pergunta: O que vou ganhar com isso? Por isso, sente dificuldade de praticar a solidariedade porque nesta não há retorno, pois é, essencialmente, gratuita. Estender as mãos para a acolhida do outro, para abraçá-lo em suas necessidades, está se tornando cada vez mais atitude rara. As pessoas querem tirar vantagem em tudo. Quem assim procede não conhece Jesus e sua mensagem.

            Segundo a lógica capitalista, os problemas e necessidades do outro não despertam nenhum interesse nem incômodo. “Eu estou cuidando da minha vida, procurando o meu espaço, satisfazendo as minhas necessidades. Trabalho para isso. Quem tiver seus problemas e necessidades que as resolva! Não tenho nada a ver com isso! Não tenho culpa nas carências de ninguém”, pensa o egoísta no seu íntimo. Visivelmente, quem assim pensa e procede, desconhece Jesus e sua mensagem. Curiosamente, em nossas Igrejas há inúmeras pessoas que pensam e agem dessa forma. Acham que são seguidoras de Jesus, praticando o egoísmo. Ainda não aprenderam que a fé cristã não é compatível com o egoísmo. Quando este vigora aquela desaparece.

            Qual a recompensa merecida para o egoísta? A morte espiritual. Pode ser rico e gozar de alegrias passageiras, mas, no fundo, é triste e infeliz. É assim porque a verdadeira alegria é filha da generosidade e da partilha. Infeliz daquele que não é sensível ao sofrimento do outro. Trata-se de pessoa mesquinha e desprezada, pois são poucos os que suportam conviver com o egoísta. Este anula de sua vida a existência frágil do outro e se coloca como autossuficiente. Trata-se, ainda, de pessoa morta, que ousa ocupar espaço no mundo. A morte do egoísta é a falta de amor, pois quem ama é generoso e solidário com o outro. O egoísta não ama, mas se aproveita das pessoas para a satisfação de seus instintos egoístas.

            É comum vermos as pessoas buscando o poder, o prestígio e a riqueza, com a única finalidade – dizem elas –, de serem felizes. Falam de boca cheia de seus anseios e sonhos materialistas. Dedicam suas energias à busca incansável da vida tranquila e confortável, alicerçada nas seguranças que o poder e o dinheiro podem oferecer. No meio da multidão dos que assim vivem, há uma minoria que pensa e age em função da felicidade do outro. Lutam, diuturnamente, pela promoção da dignidade do outro. Estas, sim, conhecem Jesus e sua mensagem, pois se deixam guiar por seu Espírito, que as liberta do mal do egoísmo. Somente as pessoas generosas, que partilham do que são e do que tem, é que realmente podem ser felizes. Não existe felicidade no egoísmo. Neste somente há mentira e perturbação mental. Todo egoísta não tem paz interior. É uma criatura perturbada, insatisfeita, pois o egoísmo a corrói por dentro, tirando-lhe a verdadeira alegria e tranquilidade.

            O que nos ensina Jesus sobre o dom da partilha? Ensina-nos que somos irmãos. Ser irmão significa reconhecer no outro um filho de Deus. Deus Pai quer que seus filhos vivam a fraternidade. Ser fraterno é reconhecer no outro um irmão, remido no sangue de Jesus. Como o cristão ama a Deus? Não há outra forma de amar a Deus senão amando o próximo. Não se ama a Deus com os lábios e com o pensamento. O amor não é uma realidade abstrata, coisa do mundo das ideias. O amor é concreto, é ação libertadora, é a força poderosa capaz de salvar toda a humanidade. É encontro fecundo e transformador entre as pessoas, que as liberta do preconceito e da indiferença. Somente o amor liberta do egoísmo. O egoísta se converte quando aprende a amar as pessoas na gratuidade, generosidade e liberdade.

            No evangelho segundo Marcos, encontramos Jesus admirado com o gesto de uma pobre viúva que depositou duas moedas no cofre do Templo. Segundo Jesus, ela deu tudo o que tinha para viver. Na sua pobreza, foi mais generosa do que os ricos, que davam daquilo que lhes sobrava. Jesus louva o gesto concreto da viúva e ensina a seus discípulos o dom da partilha. Partilhar não é dar o resto e/ou a sobra. Não é livrar-se das pessoas para que não mais nos incomodem. Não é fazer doações para tranquilizar a consciência. Partilhar, segundo a ótica do evangelho, é voltar-se para o outro. Não é mero gesto momentâneo, mas é permanecer com o outro, atento às suas necessidades e problemas. É colocar-se a serviço do outro. É comungar da sua vida. O dom da partilha exige a necessária compreensão da situação do outro, exige compaixão, atenção, gratuidade, humildade, disponibilidade, muito amor e dedicação. O Deus e Pai de Jesus permanece na vida de quem partilha no amor.

            Quem se abre ao sagrado exercício espiritual da partilha fraterna conhece uma paz interior que o mundo não consegue dar. Exerce uma profecia que denuncia o mal maior que oprime mulheres e homens no mundo inteiro: O apego aos bens materiais. Este apego aos bens gera o egoísmo. Os escravos dos bens materiais não dispõem de tempo para pensar nos outros, pois estão concentrados na manutenção e multiplicação dos próprios bens. Para estes escravos, não se pode nem pensar no outro porque isto representa perda de tempo. Por isso, desconhecem sentimentos como a compaixão, que exige colocar-se no lugar do outro. O verdadeiro cristão não pode ser assim, pois se o é, não é cristão.

            Por fim, abrir-se à ação amorosa do Espírito é a atitude de quem deseja livrar-se, definitivamente, do mal do egoísmo. Este Espírito tem a força de manter o discípulo no caminho de Jesus: Caminho da partilha generosa e feliz. Este Espírito nos concede a graça de partilharmos o sorriso, o abraço, a atenção, o ouvir, o pão. Com o coração humilde, contrito e aberto, somos chamados a sentir as dores do corpo de Cristo nos corpos dos sofredores, a fim de que quando chegar o grande dia da glorificação final dos filhos e filhos de Deus, possamos festejar eternamente, participando do banquete do Reino de Deus. E quando chegar esse dia, a festa vai ser linda de viver!


Tiago de França

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