sábado, 3 de setembro de 2016

Reflexões sobre crises no casamento

“O sacramento do matrimônio é um grande ato de fé e de amor: testemunha a coragem de acreditar na beleza do ato criador de Deus e de viver aquele amor que leva a ir sempre além, além de si mesmo e também além da própria família” (Papa Francisco).

        Pediram-nos uma palavra sobre as crises que muitos casais enfrentam em seus casamentos. Ao receber o pedido para a elaboração destas reflexões, buscamos pensar na realidade da vida conjugal de muitos, e procuramos enumerar algumas das principais causas que ocasionam tais crises. A observação da realidade e a partilha sincera de muitos casais constituem o lugar de onde partimos para nossas reflexões.  

Nosso objetivo é ajudar a quem precisa de uma palavra e despertar nos futuros casais a necessidade de pensar sobre o que desejam e buscam no casamento. Talvez alguns possam se escandalizar com algumas afirmações um tanto radicais, mas que são necessárias para despertar aqueles que possuem uma visão excessivamente romantizada do casamento.

Namoro, noivado e discernimento

        Casamento que não é precedido de namoro e noivado tem grandes chances de não dar certo. Casamento exige prévio planejamento e discernimento. De modo geral, as pessoas não planejam a vida, mas contentam-se em viver desorganizadamente. O povo brasileiro não tem a cultura do planejamento da vida. Vive o presente sem pensar no amanhã. Somos um povo indisciplinado. Poucos pensam nas consequências daquilo que fazem da vida. Quem pensa em casar e não se planeja, não conseguirá levar uma vida a dois.

Toda forma de vida exige um mínimo de planejamento. Durante o namoro e o noivado o casal é chamado a planejar o casamento que deseja viver; do contrário, o casamento não passará de uma aventura. Não estamos falando de planejamento matemático, que detalha rigorosamente as coisas, mas pensar nas exigências da vida conjugal para saber se é isso mesmo que desejam para a vida. Esta ideia inicial oriunda de uma séria reflexão é de extrema importância para o casal.

Discernir é outra necessidade essencial. Durante o namoro e o noivado o casal é chamado a se conhecer. É verdade que nenhuma pessoa conhece outra plenamente. O ser humano é um mistério para si mesmo. Mesmo assim, é possível, antes do casamento, ter uma ideia geral da personalidade do outro: de seus gostos, preferências, temperamento, tendências, sonhos, formas de pensar e de ser. O jeito do outro fala de sua maneira de enxergar a vida. É nesta fase que já se pode ter uma ideia de como a pessoa se comportará no casamento, pois ninguém muda da noite para o dia. Geralmente, as mudanças repentinas costumam ser superficiais.

É muito perigoso uma pessoa casar com outra sem ter as mínimas informações sobre sua personalidade. Os que assim procedem se metem numa vida arriscada. Por mais gentil e tranquila que uma pessoa pareça ser, há sempre algo a ser observado com olhar crítico e perspicaz. Muitas mulheres e homens ficam horrorizados nos primeiros dias, meses ou anos de casamento, pois descobriram que casaram com pessoas excessivamente tendenciosas e problemáticas. Em sã consciência ninguém deseja casar com alguém de personalidade doentia ou desajustada. Discernir é conhecer o mínimo da índole do outro, suas virtudes e seus defeitos.

Atualmente, assistimos a muitos casamentos marcados mais pelo sofrimento do que pela alegria. O cotidiano destes casamentos é marcado pelas reclamações intermináveis. Geralmente, acentuados pela falta de discernimento e planejamento prévios. É assustador o número de pessoas que resolvem casar da noite para o dia, pensando que casamento se resume a um “mar de rosas”, um paraíso.

Certamente, a vida conjugal é muito bela e fecunda, quando vivida no amor; mas as pessoas esquecem que a vida conjugal requer certa estrutura material, psicológica e espiritual, sustentada e orientada pelo amor. Como dizem os mais velhos: “Amor não enche barriga!” Há inúmeros casais de namorados e noivos que levam uma vida totalmente sem limites e sem responsabilidades. Pessoas assim não deveriam casar sem antes aprender a ser organizados e responsáveis. Não há casamento possível sem responsabilidade. Muitos casamentos conhecem o seu fim por causa da falta de responsabilidade de mulheres e homens que querem viver no casamento como solteiros irresponsáveis.

Casamento e vocação

        Há pessoas que resolvem casar sem ter vocação, e isto é muito grave, pois nem todas as pessoas que nascem neste mundo tem vocação para o casamento. Pessoas egoístas não podem casar, pois só pensam em si mesmas. Egoístas não suportam a vida conjugal porque não pensam no outro. Uma pessoa egoísta só permanece casada quando seu cônjuge se torna seu escravo, alguém que somente serve para satisfazer seus desejos e necessidades. O egoísta não consegue amar o outro porque não ama a si mesmo. Egoísmo e amor são realidades incompatíveis.

        Pessoas que gostam de viver sozinhas e independentes, que não gostam de dar satisfação de sua vida para ninguém, também não podem casar. Quando casam, comportam-se como se o outro cônjuge não existisse. Não se importam com a vida do outro e não aceitam que se intrometam em sua vida. São aqueles cônjuges que mal sabem como estão e o que realmente sentem um pelo outro. Olham-se e falam um para o outro: “Vivemos na mesma casa, mas você cuida da sua vida e eu cuido da minha!” Isto não é casamento, mas justaposição de pessoas. Há famílias que se parecem com repúblicas de estudantes: Cada um cuida da própria vida e, assim, todos acham que são livres.

        Há, ainda, aquelas pessoas frias, insensíveis e indiferentes. São idênticas aos egoístas, mas conseguem ser bem piores. Também não podem casar, pois a realidade da vida conjugal não combina com frieza, falta de sensibilidade e indiferença. Vida conjugal rima com comunhão, companheirismo, cumplicidade, cooperação, reciprocidade, sensibilidade e alteridade. Todos os valores que formam o alicerce que sustentam o casamento visam acabar com a falta de sensibilidade e com a indiferença. Cônjuges que não se entregam ao cuidado de um para com o outro vivem um falso casamento. Sem o cuidado, a relação matrimonial não prospera; seu fim se torna necessário e inevitável.

        Vocação para casar não se adquire do dia para a noite. Não é como ganhar um presente. Trata-se de uma questão pessoal, íntima e existencial. É mais do que ter aptidão e jeito. Para casar, a pessoa precisa se perguntar: Eu me enxergo como uma pessoa casada? Quero mesmo con-viver com outra pessoa? E se vierem filhos, me vejo como pai ou mãe? A estrutura familiar me faria bem? O que procuro quando penso em casar? Estas e outras perguntas apontam para uma reflexão imprescindível para aqueles que desejam casar. É verdade que não há respostas prontas para estas questões, mas é verdade também que elas ajudam na descoberta da vocação matrimonial, se esta existe ou não.

Uma pessoa que não tem vocação para o exercício da medicina não deveria ser médica. O mesmo ocorre com o casamento. As pessoas não deveriam se aventurar em casar, mas devem fazer uma reflexão sincera sobre o verdadeiro sentido do casamento na vida humana. Aos que se aventuram sem nenhuma reflexão, na verdade, não estão preocupados com o sentimento do outro. Agem como se casamento fosse uma brincadeira. Quem assim procede somente encontra sofrimento. Procura “sarna para se coçar” e encontra!

Mulheres e homens perfeitos existem?

        Há pessoas que vivem procurando a sua “alma gêmea”. Na verdade, não existe alma gêmea, assim como não existe a “outra metade”. Ninguém nasce incompleto ou pela metade. Nascemos inteiros. O romantismo inventa tais termos, fazendo com que as pessoas pensem que somente serão felizes se encontrarem a “pessoa certa”. Não há pessoa certa, mas somente pessoas. Neste sentido, o romantismo semeia uma ilusão que é desfeita quando a tal pessoa certa se torna a pessoa errada; e, de repente, esta pessoa errada se transforma em um monstro, que pode causar grandes estragos.

Pessoas perfeitas não existem nem existirão. Por isso, quem não aprendeu a tolerar as falhas do outro não pode casar. Toda pessoa comete erros, de diferentes tipos, quantidade e graus. Não há exceção. Considerando essa realidade, que é inerente a todo ser humano, a compreensão e a tolerância são essenciais para o casamento. Aliás, todo tipo de relacionamento necessita destes dois valores para existir.

Ser compreensivo e tolerante não quer dizer que se deve concordar com os erros do outro, mas fazer um esforço para acolhê-lo em seus erros, ajudando-o a superá-los. Geralmente, a postura é de julgamento, condenação e rejeição. Esta é a tendência natural do ser humano. Sem a superação dessa tendência à rejeição do outro não é possível viver um casamento feliz. Ajudar o outro em suas imperfeições é um dos maiores gestos de amor que uma pessoa pode ter. Vale também contar com o auxílio de um outro valor muito importante: A paciência.

Neste sentido, surge uma pergunta: E quando o outro se recusa a se corrigir e melhorar? Aí fica a critério do cônjuge que está suportando as desvantagens dos erros cometidos. Levando em consideração a dignidade da pessoa humana, ninguém está obrigado a passar toda a sua vida suportando os erros de quem se recusa a se corrigir e melhorar.

Um cônjuge que insiste em seu erro, fazendo o outro sofrer, não pode continuar casado, pois fez a opção pelo sofrimento e deve arcar com as consequências de sua atitude. Nestas situações, a humildade que conduz ao reconhecimento dos próprios erros, tendo em vista a necessária mudança de atitude é de suma importância. Se o outro insiste na arrogância e no orgulho, então melhor que leve uma vida de solteiro. Casamento não combina com arrogância nem com orgulho.

Há um erro que não pode ser tolerado no casamento: O adultério. O cônjuge pode perdoar o adúltero, mas não está obrigado a continuar casado com ele. A traição é uma falta gravíssima. Na tradição cristã, a traição é um pecado muito grave. O próprio Jesus condenou-a com veemência. Mulheres e homens adúlteros quebram a confiança depositada no juramento que fizeram ao contrair o matrimônio.

Geralmente, após a traição a relação nunca se restabelece. Permanece o sentimento de desconfiança. Uma vez quebrada, a confiança dificilmente se restabelece. Somente o amor preserva os cônjuges do mal da traição. Quem trai seu cônjuge e, simultaneamente, afirma que o ama, está faltando com a verdade. Mais adiante, faremos uma breve reflexão sobre as causas do adultério. No namoro, noivado e casamento, a traição é inadmissível. Trair a confiança do outro é um grave problema que tem destruído inúmeros relacionamentos.

Causas que provocam as crises no casamento

        São inúmeras as causas que provocam crises no casamento. Iremos elencar as que julgamos ser as mais recorrentes.

1 – A falta de diálogo

        Geralmente, os casais não dialogam, mas entregam-se a longas discussões. Um não escuta o outro. Em muitos lares, as discussões já se tornaram algo natural. Não se consegue mais viver sem brigas. Não se chega a compreender o outro porque não há escuta. O diálogo é atitude de iguais, ou seja, não existe diálogo onde um dos cônjuges procura sempre impor suas ideias e sua vontade. Não pode existir entendimento sem o mínimo de esforço para compreender os sentimentos do outro. Nenhum relacionamento pode perdurar sem esta abertura ao outro, com o objetivo de escutá-lo com atenção e respeito.

        É no diálogo que os cônjuges devem falar de seus sentimentos, alegrias, tristezas, incômodos, impressões, preocupações. Quando não há tempo para o diálogo, o casamento vai, progressivamente, se desgastando e caindo na superficialidade. Mesmo vivendo juntos, os cônjuges vão se distanciando. Aos poucos, um já não sabe o que se passa com o outro. Sem a expressão livre do que se pensa e do que se sente não há união que sobreviva. Perde-se a sintonia. Não há amor que suporte a falta de diálogo.

O mesmo se pode falar em relação aos filhos, principalmente quando estes são crianças e adolescentes: Sem diálogo não há educação possível. Pais que não dialogam com seus filhos, facilmente se transformam em estranhos em relação a eles. Desse modo, os filhos passam a tratar seus pais como meros mantenedores de suas despesas (no caso dos filhos menores). Sem o diálogo aberto, sincero e constante, os pais perdem o respeito por parte dos filhos. Quando isso ocorre, somente são escutados na força do grito. Muitos pais exercem a sua autoridade na força do grito e da ameaça. Assim, não são amados nem respeitados, mas temidos.

2 – A falta de respeito à liberdade do outro

        Muitos casamentos acabam por causa do sufocamento. Toda pessoa precisa do mínimo de liberdade para viver. No casamento, ser livre quer dizer não ser sufocado nem sufocar o outro. Não estamos falando que os cônjuges devem viver cada um por si. Aí já não seria casamento. Deixar o outro livre é permitir que ele seja o que realmente é, sem pressões, sem julgamentos e sem condenações. Em alguns momentos, o outro precisa de um tempo de silêncio para dialogar com os próprios pensamentos. Toda pessoa necessita de algumas pausas silenciosas para estar diante de si mesma. Nestas pausas, o colo aconchegante do outro cônjuge é insubstituível.

Sobrecarregar o outro sem compartilhar as exigências da vida conjugal e familiar é sufocá-lo. Não tomar iniciativas quando estas se mostram necessárias. Esperar sempre que somente um dos cônjuges tome a iniciativa diante dos problemas familiares é sufocante.

Inúmeros casamentos se desfazem com o desgaste de um dos cônjuges, que não mais suporta o comodismo do outro. A falta de respeito à liberdade também se faz presente na relação entre pais e filhos: Estes, muitas vezes, não respeitam a liberdade e privacidade daqueles, assim como há muitos pais que não respeitam a liberdade de seus filhos, tratando-os como escravos. Fora da liberdade não há educação dos filhos. Somente na liberdade as pessoas se desenvolvem e se revelam como verdadeiramente são.

3 – O ciúme

        Este é um dos piores males que afetam praticamente todos os casais, em menor ou maior grau. Geralmente, o ciúme é sinal de insegurança. Pessoas excessivamente ciumentas também podem estar escondendo a traição. Os excessos sempre escondem problemas. Pessoas que se apegam demasiadamente a outras costumam sentir ciúme. Tornam-se possessivas. Querem o outro para si, tratando-o como propriedade exclusiva. O ciúme também revela desajuste na personalidade. Pessoas ciumentas precisam de tratamento psicológico para descobrirem a origem de seu ciúme.

        O ciúme impede que o casal tenha paz. Revela, ainda, uma enorme falta de confiança no outro. O outro cônjuge é visto como objeto de desejo, que uma vez ameaçado, precisa ser protegido pelo cônjuge ciumento. Em alguns casos, a situação torna-se doentia. Possuída e sem controle, a pessoa ciumenta é capaz de tudo para não perder seu objeto de satisfação de desejo.

Alguns chegam a matar o outro por causa do ciúme. Este tira o discernimento e a noção da realidade. Faz surgir na mente pensamentos destrutivos e obsessivos. A pessoa ciumenta passa a conceber situações que não existem no mundo real (espécie de alucinação). Quando chega a esse ponto, deve-se procurar urgentemente um eficiente tratamento psicológico. Não há quem aguente manter uma relação conjugal com uma pessoa excessivamente ciumenta. O casamento se transforma em uma experiência de tormento.

4 – A mentira

        A falta de transparência é um mal que tem prejudicado muitos casamentos. A mentira mais perigosa é aquela que se refere aos sentimentos: O cônjuge, para manter uma falsa paz na relação, não fala a verdade daquilo que realmente sente. E a pior mentira é a que expressa um amor que não existe, sustentando um falso amor. Os que vivem traindo seus/suas companheiros/as costumam se utilizar, permanentemente, da mentira. Esta costuma esconder algo sempre pior. É a ferramenta usual do casamento que vive de aparência.

        A mentira é perigosa porque tende a se multiplicar. Uma mentira sempre pede outras para tentar se manter como se verdade fosse. Quem realmente ama e quer o bem do outro não é capaz de negar-lhe a verdade. Por mais dolorosas que sejam certas verdades, é necessário que sejam ditas nas ocasiões certas e da forma mais amorosa possível. Para ajudar o outro a crescer como pessoa, o cônjuge sempre deve ser verdadeiro. Não prospera o casamento alicerçado na mentira. Casais autênticos constroem famílias sólidas. Onde reina a mentira, também reina a confusão.

        A verdade gera confiança e a mentira somente resulta em desconfiança. O cônjuge que sempre mente para o outro corre o risco de cair no descrédito permanente. O outro vive num permanente estado de desconfiança porque já não sabe mais quando está escutando a verdade e quando está sendo enganado. Quem, com certa frequência, engana descaradamente o outro, mostra que não tem bom caráter.

Trata-se de um grave defeito na personalidade. A mentira faz o mentiroso usar uma máscara numa tentativa desesperada de esconder a sua verdadeira personalidade. Mas o mentiroso sempre encontra aquele obstáculo comum a todos os mentirosos: A mentira tem pernas curtas e a verdade sempre aparece, cedo ou tarde. E quando a verdade aparece, a confusão se inicia e o casamento começa a se diluir. Na relação com os filhos, a mentira também se mostra perigosa: Pais mentirosos, geralmente, criam filhos dados à mentira. A mentira dos pais deseduca os filhos.

5 – A falta de amor

        Este é o pior de todos os males que afetam o casamento. Na verdade, quando o amor não mais existe, o casamento chegou ao seu fim. Sem amor é impossível recuperá-lo. O amor é a base fundamental de todo casamento sem a qual tudo não passa de mentira e aparência. A falta de amor gera todos os outros males que destroem a relação matrimonial e familiar.

Segundo a espiritualidade cristã, o amor de Deus pela pessoa humana nunca se acaba, pois é infinito; mas o amor que uma pessoa tem para com outra pode acabar. Os seres humanos são limitados, assim como seus sentimentos. Estranhamente, uma relação considerada feliz pode, de repente, se transformar numa relação marcada pela vingança e pelo ódio. Os humanos são imperfeitos nas suas formas de amar.

O amor é um tesouro que o casal carrega em vasos de barro. Quanto mais se ama, mais o amor se multiplica e tende a tornar-se forte e inabalável. É uma riqueza inesgotável. Como saber se o amor é verdadeiro? É tudo muito simples. O amor verdadeiro não é o amor dos discursos e das declarações românticas. Estas coisas podem ser até agradáveis, mas o verdadeiro amor é sinônimo de doação, de entrega gratuita e incondicional.

Quem não se doa ao outro não o ama de verdade. Nenhuma declaração de amor, por mais romântica que seja, substitui o doar-se ao outro. As declarações podem ser manipuláveis e mentirosas, mas a doação ao outro, jamais. É no doar-se ao outro que o amor se revela. Doar-se é cuidar do outro. Quem ama, cuida; quem não ama, não se importa com o outro. Portanto, no casamento, quando um cônjuge já não cuida mais do outro, é sinal de que o amor não existe mais. O casamento não passa de aparência, uma mentira escandalosa. O cuidado permanente, fiel até às últimas consequências, é a declaração de amor por excelência.

Enquanto existir o amor na relação, o casamento existe, e todas as limitações podem ser superadas. O amor continua sendo o remédio para resolver todo e qualquer problema. Aqueles que acreditam em Jesus também podem contar com o auxílio da fé. Não há força maior que a do amor e da fé. Quando acreditam na força do amor, os cônjuges conseguem superar todas as dificuldades inerentes à vida conjugal e familiar. Quando ocorre o contrário, ou seja, quando não há mais amor, então já não temos casamento. Neste caso, o caminho mais correto é o da separação conjugal, sem violência e com convicção.

Quando insistem em viver juntos, mas sem amor, os cônjuges transformam suas vidas em um inferno. A vida se torna insuportável. Infelizmente, o número dos que assim procedem não é pequeno e tende a aumentar. O casal já não vive em função do casamento, que não existe, de fato, mas em função da sociedade, para que todos possam pensar que ali existe um casamento feliz. Casamentos falsos tem se multiplicado numa sociedade demasiadamente marcada pela cultura da aparência.

Só o amor constrói

        Eis a conclusão a que podemos chegar com estas nossas breves reflexões: A falta de amor acaba com o namoro, com o noivado e com o casamento. No caso deste último, de nada vale o casal ter uma casa bonita e bem mobiliada; um carro do ano; uma conta recheada de dinheiro; ser mestre ou doutor; ser querido na sociedade; filhos diplomados e encaminhados; e tantos outras coisas e vantagens sem o amor. Há casais que possuem todas estas coisas, mas desconhecem o amor. Logo, não conhecem a felicidade. Vivem de aparência.

E por terem conseguido uma condição financeira que assegura um padrão elevado de vida, muitos casais preferem manter um casamento de aparência, sem o amor. Alguns tentam enganar a sociedade, confundindo padrão de vida com amor. Este não tem nada quer ver com aquele. Na verdade, quanto mais simples e humilde for o casal, mais o amor tem mais chances de permanecer. Os bens materiais tem expulsado o amor da vida de muitos casais. Muitos preferem multiplicar os bens em detrimento do amor. Onde há excesso de bens e de apego a estes, o amor morre sufocado. O amor não aguenta os excessos da vaidade humana, pois combina mais com humildade e simplicidade.

Só o amor constrói um casamento feliz e duradouro. Amor que se traduz na entrega total ao outro por meio do cuidado. Atualmente, os jovens precisam pensar seriamente sobre o valor e o sentido deste amor. A realidade mostra que, de modo geral, a juventude não conhece o verdadeiro amor. Perdem muito tempo com relacionamentos superficiais, caracterizados por carícias e muito sexo. Confundem sexo com amor. Pronunciam muito a palavra amor, mas desconhecem seu conteúdo. Experimentam relacionamentos que não duram porque são descartáveis.

Muitos jovens chegam a casar, mas não sabem o significado do casamento. Outros tem verdadeiro pavor da palavra casamento porque pensam que casamento é sinônimo de prisão. Preferem viver a vida sem grandes responsabilidades no campo afetivo. Esperamos que esse quadro seja revertido para o bem da sociedade. Esta nossa esperança nos motivou a compartilhar estas reflexões. Esperamos que os casais e os que desejam casar possam refletir melhor sobre o verdadeiro sentido do casamento na vida humana: Ser feliz no amor. O mundo padece pela falta de pessoas felizes no amor. Se quisermos construir outro mundo possível, justo e fraterno para todos, o caminho para que isso aconteça é o amor. Fora do amor não há ser humano digno, não há felicidade e não há salvação.

Tiago de França

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