terça-feira, 25 de abril de 2017

Ética, onde estás?

        No mundo antigo, os gregos conceberam o conceito de ética. Este conceito provém de êthos, e significa o conjunto de costumes normativos da vida em sociedade, o modo de ser, o caráter. O filósofo Aristóteles concebeu o homem como zoon politikón, ou seja, animal político: alguém vocacionado à vida em comum na cidade: pólis, em grego. Neste sentido, o homem somente se realiza enquanto ser racional quando vive a sua vocação de sujeito político. A ideia de justiça, para os gregos, surge da relação entre ética e política. Justo é o homem que sabe discernir, e usando do discernimento aprende a viver em sociedade.

        Com o advento da modernidade, surgiram alguns problemas, e um deles ganhou força com o passar do tempo: O liberalismo. Trata-se de uma doutrina que prega uma pseudoliberdade: uma liberdade prejudicial ao homem. É aqui que a relação entre ética e política se torna cada vez mais doente. Na sua essência, o liberalismo não está preocupado com questões éticas. Uma sociedade “livre”, com pouca intervenção do Estado, faz surgir o liberalismo econômico, alicerce do capitalismo selvagem. Na segunda metade do séc. XX, preocupados em revigorar o sistema, os capitalistas resgataram as bases do liberalismo, fazendo surgir o neoliberalismo.

        Qual o resultado prático da separação entre ética e política? A degradação do homem e da natureza. Iluminado pela razão, e crendo que esta solucionaria todos os seus problemas, o homem cria ciência e tecnologia, dando origem à razão instrumental, marcadamente moderna. Com a evolução desta razão, que está a serviço do sistema capitalista, o homem se deu conta de que é capaz de destruir a si mesmo: Somente na primeira metade do séc. XX, consegue ocasionar duas guerras mundiais, e com o alvorecer do séc. XXI, aperfeiçoa cada vez mais o seu poder de autodestruição. Irresponsavelmente, age sem nenhuma preocupação com a própria vida nem com a vida das futuras gerações. O homem se tornou um dos animais mais perigosos, capaz de erradicar a vida do mundo.

        E quanto ao Brasil, o que dizer da relação entre ética e política em nossa conjuntura nacional? Nos últimos anos, nunca se ouviu falar tanto em corrupção como agora. As pessoas já não se surpreendem mais ao ouvir, diuturnamente, os telejornais noticiarem novos escândalos de corrupção. No Brasil, a corrupção mais se parece com a profundidade do oceano: Ninguém consegue medir. Quanto mais se vasculha, mais se acha. Governantes e governados, salvo exceções, vivem metidos na corrupção. O famoso “jeitinho brasileiro” tem se mostrado como a regra, e a honestidade se tornou exceção. A realidade mostra que esta afirmação não é exagerada.

        Não podemos afirmar que o povo brasileiro é corrupto, mas é correto dizer que muita gente do povo é corrupta. Não estamos falando de uma pequena parcela, mas de um número assustador e cada vez mais crescente de pessoas que desconhecem, na vida prática, o significado da palavra ética. Segundo elas, a ética é perda de tempo. Afirmam, categoricamente, que é coisa de gente tola. Defendem que a corrupção vale a pena e traz felicidade ao homem. Acreditam que a vida se encerra em ganhar a qualquer custo. Viver se resume a tirar vantagem em tudo. A esperteza e a capacidade de enganar os outros são exaltadas como marcas do indivíduo corrupto.

        Desde criança, as pessoas já aprendem a mentir e enganar, a tirar vantagem em tudo, a passar os outros para trás. Cria-se uma cultura na qual o outro deve ser ultrapassado, traído, e, se possível, eliminado. A noção de dignidade da pessoa humana não sobrevive numa sociedade marcada pela corrupção. Pessoas corruptas não se preocupam com a dignidade dos outros nem com a própria. Na verdade, desconhecem o real conteúdo da expressão dignidade humana. A corrupção fere de morte a dignidade das pessoas, desumanizando-as. Somente seres humanos dignos são capazes de respeitar e promover a dignidade dos outros.

        Assim, como a maioria do povo brasileiro é capaz de construir uma sociedade justa e fraterna para todos se o combate à corrupção não constitui, atualmente, preocupação fundamental? De modo geral, as pessoas escutam e leem os jornais, mas permanecem com as mesmas atitudes. O médico escuta falar da corrupção, balança a cabeça, reprovando tal situação, mas no seu consultório vende o atestado médico. Uma das características de muita gente corrupta é reprovar a corrupção praticada por outros. São escandalosamente dissimulados! A dissimulação é uma das tentativas de acobertar a corrupção, e com aquela nasce a falsa moral e/ou o moralismo. Por trás de muitos discursos moralistas se esconde muita corrupção.

        Fala-se em corrupção sistêmica, que é aquela que atinge todo o sistema, sem permitir exceções. No Brasil, a corrupção pode ser encontrada em todas as instituições. Chama-nos a atenção, a corrupção no sistema político. Centenas de políticos, em conluio com empresários e alguns agentes do Poder Judiciário, há décadas, assaltam os cofres públicos. Uma parcela dos ladrões envolvidos foi identificada, a outra continua sem ser conhecida. A corrupção no Judiciário não é investigada. Não se tem notícia da citação de um nome sequer. Cita-se o nome de políticos e empresários, mas omite-se os nomes de juízes, desembargadores, ministros, procuradores, e outros sujeitos importantes do Judiciário. Este Poder se coloca acima dos outros, apresentando-se como o único capaz de acabar com a corrupção no Brasil.

Acabar com a corrupção nunca foi a meta do Judiciário, e a história está aí para provar isso. Quem detém poder aquisitivo não teme à justiça, e o motivo é simples: Não há justiça para punir os crimes dos poderosos. No senso comum, o povo já tem decorada a lição: No Brasil, salvo raras exceções, a justiça sempre serviu para castigar os empobrecidos, quando estes se rebelaram e se rebelam contra os poderosos. Estes sabem muito bem que sempre podem contar com a conivência e com a força bruta do Estado. Considerando os desvios praticados, o saldo final de uma operação como a Lava Jato será insignificante. Muita gente poderosa não será punida, e se houver punição para alguns, a pena será branda, aplicada segundo a conveniência, não segundo o que manda a lei. Para escapar da punição, os poderosos mudam a lei, e o juiz simplesmente a aplica no caso concreto, em nome de uma pseudolegalidade.

Ninguém se deixe iludir: O barulho da grande mídia em torno dos escândalos de corrupção não constitui combate à corrupção. A grande mídia não está preocupada em combater a corrupção, pois não nasceu para exercer este papel. Toda cobertura midiática tem seu propósito: Esconder a corrupção, e o faz de modo eficiente e permanente. Durante o período do golpe militar foi assim. A mídia foi a grande responsável em disseminar a ideologia da segurança nacional, domesticando o povo e ceifando a sua capacidade de reação.

Com o fim do regime ditatorial, a mídia permaneceu do mesmo jeito: Antipopular e antidemocrática, portanto, inimiga do bem comum, aliada dos poderosos. Hoje, o sucessor do governo Dilma Rousseff continua se utilizando da aliança com a grande mídia, com objetivo de impor reformas contrárias ao bem comum, profunda e escandalosamente antidemocráticas. O poder midiático é tão forte que o povo mal consegue reagir, e quando o faz é por algumas horas, sob a ameaça constante da força bruta do Estado, que de democrático só tem o nome. O Estado Democrático de Direito é uma ideologia criada para iludir as pessoas, levando-as a pensar que vivem em um País onde os direitos e garantias fundamentais são respeitadas. Como aceitar um Estado Democrático de Direito no qual os direitos fundamentais são, progressivamente, erradicados?... Os mais pobres perdem seus direitos e os poderosos mantém seus privilégios. É isto que está acontecendo, hoje, no Brasil.

E a ética, onde ficou? Permanece com aqueles que se comprometem com a construção de um novo mundo possível. Somente quem assume esta responsabilidade é capaz de ser verdadeiramente ético. Todos aqueles que vivem em função dos próprios interesses, em detrimento do bem comum, não são éticos nem podem ser.

Egoístas, materialistas, individualistas, corporativistas, os defensores e promotores da cultura da eliminação do outro, os covardes, as pessoas de mau caráter, os mentirosos, enfim, todos os que se colocam nas fileiras daqueles que servem à cultura da morte não são éticos nem podem ser. Na verdade, são pessoas mesquinhas e, portanto, nocivas à sociedade. O mundo já não tem espaço para tanta gente assim. Portanto, cabe-nos crer na possibilidade de sermos diferentes, de sermos verdadeiramente éticos: justos, íntegros e ousados, para o bem de toda a humanidade. Isto é possível. Ser ético é uma questão de atitude, não de discurso. Trata-se de uma postura, de um jeito de ser, verdadeiro caminho de felicidade; não de qualquer felicidade, mas aquela que inclui o outro, pois na vida social não é possível ser feliz sem a comunhão com o outro.

Tiago de França

domingo, 16 de abril de 2017

O CRISTO VENCEU, RESSUSCITOU!

Jesus ressuscitou, aleluia!
A morte foi vencida.
A esperança dos pobres vive!
Demos graças a Deus!

As forças do anti-Reino são barulhentas.
O barco está em alto mar.
A tempestade é forte.
Mas o mal não passa disso. Tudo é transitório.

As forças do Reino são silenciosas: são sementes que germinam durante a noite.
O mar bravio obedece à voz Daquele que o criou.
A tempestade não derruba aqueles que estão sobre a Rocha.
O amor não é passageiro. Deus é Pai, infinitamente bom!

Demos graças a Deus porque Jesus ressuscitou.
A morte foi vencida e a esperança dos pobres vive.
Sigamos firmes e alegres.
Deus jamais nos abandona. Ele é a nossa vida, o nosso Tudo.

Feliz Páscoa!


Tiago de França

sábado, 8 de abril de 2017

O escândalo da cruz de Jesus

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6 – 7).

        Jesus foi brutalmente assassinado na cruz. Autoridades religiosas em conluio com o poder político de seu tempo o conduziram ao madeiro da cruz. Sua morte era das piores. Morto, estava entre os piores homens da época. Um escândalo!

        Seus seguidores acreditam que seja o Messias prometido pelos antigos profetas. De fato, identificou-se de tal modo com a vida profética, que cumpriu, na carne, a missão de Messias. Não um Messias convencional, nos moldes esperados. Mas um Messias contestador, um subversivo, um louco, homem muito perigoso à luz da mentalidade romana de então.

        Trataram logo de eliminá-lo. Morto, o problema estaria resolvido. Mas a história não terminou com a morte sangrenta na cruz. Ele não foi enviado para simplesmente ser morto e, assim, permanecer derrotado, exposto à vergonha pública, crucificado como um pecador digno de desprezo.

        Nele havia algo extraordinário: Tornou-se, divinamente, humano! Suas palavras, gestos, seus ensinamentos e sua entrega testemunham a presença de Deus no mundo. Nele, Deus revelou a sua verdadeira Face: humilde e, humanamente, desprovido de poder. Das alturas dos céus, quis Deus descer à terra, tornando-se homem em Jesus.

        Para a tristeza de quem procura por um Deus Todo-poderoso, Senhor dos Exércitos, implacável para com os ímpios... Eis que, de repente, manifesta-se Deus na figura de um homem, carne e osso, plenamente humano, nascido em Nazaré, terra de gente mal afamada. O Pai de Jesus é o Deus dos empobrecidos, é o Pai amoroso que armou sua tenda na periferia, e a partir desta manifestou o seu poder. Qual poder? A sua infinita misericórdia.

        Assim, há algo escandaloso que até os mais piedosos na religião cristã tem dificuldade de compreender e aceitar: A realidade de um Deus que se manifesta a partir da fraqueza humana. Um Deus que se manifesta na pequenez, na insignificância do mundo, na clandestinidade. Um Pai que ama, verdadeiramente, seus filhos, especialmente os mais pecadores.

        Não há teologia nem liturgia que mude tal realidade fática e histórica. Deus é assim: Escandalosamente, amoroso! O homem busca o poder, mas Deus não é poder nem se manifesta nas estruturas de poder humano. Deus não se encontra onde o poder não é serviço, onde as pessoas são enganadas, exploradas e mortas. Ele rejeita a profissão de fé dos poderosos exploradores. Estes não o conhecem, pois adoram um deus falso, um ídolo, e com este perecem.

        Os presidentes dos EUA, da Rússia, da Síria e tantos outros, atualmente, são os inimigos declarados de Deus e seu Reino. São demônios encarnados que maquinam e executam a morte de milhares de inocentes. Em nome de interesses políticos e econômicos derramam o sangue de inocentes. Na Síria, nestes dias, até armas químicas usaram, matando inúmeros inocentes, dentre os quais se encontravam dezenas de crianças. O sangue destes inocentes clama a ira de Deus, clama por justiça. E a fé no Pai de Jesus nos assegura: Cedo ou tarde, os poderosos caem de seus tronos, e os humildes são exaltados.

        A sede de sangue, que domina aqueles que lutam pelo poder, continua fazendo vítimas, em todo tempo e lugar. Há calvários espalhados no mundo inteiro. No Brasil, temos o atual presidente da República, que juntamente com sua base de apoio, está castigando e mandando para o calvário milhões de brasileiros, promovendo reformas que estão custando o suor e o sangue de muitos. Trata-se de um projeto de desmonte dos direitos humanos fundamentais, posto em prática sem dó nem piedade. Os agentes de Satanás estão soltos, sugando o sangue dos pobres da terra.

        Exposto ao sol do meio dia, agonizando, Jesus continua sentindo, na carne, a dor da crucificação. Ele está na carne sofrida dos empobrecidos, que estão sendo castigados nos quatro cantos da terra. Seu grito é ensurdecedor. Seu sangue jorra, sem cessar. As mulheres de Jerusalém choram, desesperadamente, a morte de Jesus; de seus filhos em Cristo Jesus. Os dias são pesados, sufocantes, de agonia e sofrimento. A natureza geme em dores de parto.

        Apesar disso, Jesus e os crucificados da história elevam ao Pai um clamor: Imploram que não sejam abandonados. E o Pai, fiel e misericordioso, permanecendo junto a seu povo, haverá de manifestar a sua força, fazendo ressurgir a vida. E esta vida foi criada para ser eterna. É ela que tem a palavra final. Assim cremos e professamos, por todos os séculos dos séculos.


Tiago de França

Obs: Acompanha esta meditação, uma foto na qual aparecem crianças sírias, mortas em um massacre determinado pelo líder do governo sírio, que mandou utilizar armas químicas, no dia 04/04/17.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O amor. Pensamentos (XXXVII)

O amor é aquela força, a maior de todas, que arrebata as pessoas, libertando-as da mediocridade.


Tiago de França

sábado, 25 de março de 2017

Jesus e o dom da visão

“Acreditas no Filho do Homem?” (Jo 9, 35)

        Conta o evangelista João, que Jesus viu um homem cego de nascença. Esta afirmação pode parecer simplória, levando-nos a pensar que não há nada de tão importante. Pelo contrário, na verdade, Jesus nos vê. Deixar crescer em nós uma consciência espiritual a respeito da visão de Jesus sobre cada um de nós é uma graça, um dom de Deus. Jesus nos vê e deseja que saibamos disso. Deseja também que aprendamos a ver o próximo, nosso irmão na fé.

        O evangelista continua dizendo que o homem cego era mendigo, e que vivia pedindo esmolas ao redor do Templo. A sua condição era humilhante. Era um marginalizado. Não tinha vida digna. Faltava-lhe a visão dos olhos da carne. Diante da situação, Jesus não ficou somente observando, mas agiu: concedeu-lhe a capacidade de enxergar. Vendo pela primeira vez, o homem foi integrado à sociedade, saindo da marginalização.

        Toda pessoa que se liberta de uma limitação ganha nova vida. Para ter acesso à visão, o homem cego, mesmo sem conhecer Jesus, sem saber de onde vinha nem para onde ia, deixou-se curar. Havia nele uma disposição interna, um querer, uma profunda vontade de enxergar. Geralmente, há em nós uma forte resistência à visão. Há pessoas que preferem não enxergar. E aqui não estamos nos referindo à cegueira dos olhos da carne, mas à cegueira dos olhos do espírito. Trata-se da recusa de enxergar a vida como ela é, sem rótulos e sem fugas: enxergar as coisas como elas verdadeiramente são.

        A experiência do homem cego é de confiança na pessoa de Jesus. Não havia nenhuma dúvida em seu coração. Estava ansioso para enxergar, e acreditava que ele poderia fazê-lo ver. Diante de Jesus, o homem estava totalmente confiante, entregue, crente. Na relação de plena confiança, a visão aparece de forma definitiva. As trevas desaparecem porque a luz da visão se manifesta com toda a sua força. A libertação da cegueira dos olhos do espírito exige fé, e esta é sinônimo de plena confiança Naquele que é o único capaz de conceder o dom da visão.

        Narra, ainda, o evangelista que os religiosos do Templo não gostaram da notícia: ficaram incomodados com o fato de o homem cego ter sido libertado da cegueira. Para os religiosos da época, o cego era um homem que nasceu todo em pecado, alguém digno de desprezo e rejeição. Quando questionado, afirmou com convicção: Jesus é um profeta! A profecia de Jesus era muito pesada para os religiosos da época. Estes diziam que ele não vinha de Deus porque não obedecia às prescrições religiosas, não vivia em função delas.

        Isto nos faz pensar sobre a nossa situação religiosa atual, especialmente a realidade do cristianismo. O que tem sido mais importante para os cristãos: a mensagem de Jesus, ou a observância das prescrições religiosas? Se o cristão quiser saber sobre seu destino espiritual, sobre se está ou não no caminho de Jesus, precisa responder a esta pergunta fundamental. Ter fé em Jesus não é obedecer às prescrições religiosas, mas colocar-se no seu caminho e perseverar.

        Quem se encontra com Jesus e é libertado da cegueira se coloca, naturalmente, em seu caminho. Trata-se de um caminho de liberdade porque presente a luz. Em Jesus, a visão é dom porque é compromisso. Muitas pessoas não querem enxergar porque não querem assumir compromisso com aquilo que poderiam ver. Optam pela cegueira porque esta conduz à omissão, e nesta tudo é mais confortável, não há incômodo. Somente a consciência, bem lá no fundo de si mesmo, vez e outra, como que em um despertar repentino, acusa a pessoa omissa de seu pecado. Mas ela não se importa porque uma das marcas da pessoa omissa é não ouvir o apelo de sua própria consciência.

        Jesus nos coloca o desafio e o chamado à visão. Ninguém é obrigado a enxergar. A visão enquanto dom não passa pela obrigação, mas dar-se na liberdade e para a liberdade. É para sermos livres que somos chamados à visão. Ela não ocorre num passe de mágica, mas é processual, de acordo com as circunstâncias e o ritmo de cada pessoa. Ninguém está isolado das próprias circunstâncias. Quem sentir o chamado, aceitando, pode ter acesso à visão, encontrando-se com Jesus.

É arriscado enxergar, mas é caminho de vida e de salvação aberto a todos. Para a construção de um modo novo é imprescindível enxergar a realidade. Quem não enxerga, facilmente é enganado e manipulado. Precisamos ousar enxergar para descobrirmos a mentira e a verdade presentes na realidade. Os poderosos deste mundo precisam cada vez mais de um povo cada vez mais cego e, consequentemente, ignorante. Assim, eles podem continuar explorando, e este povo, uma vez constituído por uma maioria de gente cega, é e sempre será incapaz de reagir à exploração. É isto que está acontecendo atualmente no Brasil. Aos poucos, estamos caminhando rumo ao passado. Estão impondo aos brasileiros, gradativamente, o estilo de vida do Brasil da era colonial.

Feliz aquele que enxerga a vida, pois não há vida digna sem a visão da realidade.

Tiago de França

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma palavra às mulheres

       
      Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Em um país marcado pelo machismo e pelo conservadorismo, as mulheres não tem muito o que comemorar. Causa repugnância a forma como as mulheres são tratadas no Brasil: são desrespeitadas em sua dignidade. Este desrespeito é constituído por inúmeras formas de violência contra a mulher.

A situação é tão grave e vergonhosa, que foi necessária a criação de uma lei para proteger a mulher da violência de inúmeros indivíduos que pensam ser homens. Apesar disso, a Lei Maria da Penha não consegue erradicar a violência contra a mulher, e os fatores são inúmeros.

        Para milhões de indivíduos que pensam ser homens, a mulher é propriedade particular, uma coisa, um objeto de uso, que pode ser utilizado e descartado. Para eles, a mulher serve para ser um depósito de espermatozoides, para lavar e passar roupas, lavar louça e fazer comida, cuidar de crianças e arrumar a casa, enfim, ser a empregada do lar. A mulher é a bela, recatada e do lar. Por isso, trata-se de um ser inferior, que pode ser desrespeitado sem que isso seja considerado um problema.

        Na sociedade, as que conseguem os postos de trabalho até então ocupados pelos homens, não recebem os mesmos salários. As estatísticas mostram que a mulher trabalha mais e ganha menos. O homem trabalha menos que a mulher. E não há nenhum projeto efetivo nem vontade política para mudar isso. A situação se normalizou. Se a mulher é inferior ao homem, então deve ter salários menores: esta é a ideologia dominante.

        Estes mesmos indivíduos defendem, ainda, o absurdo de que a mulher deve sofrer calada. Assédio, agressões, piadas indecentes, olhares, estupros, chantagem emocional, enfim, ela deve sofrer tudo isso calada. Eles defendem o silêncio forçado, a mordaça. No parlamento brasileiro, formado por 90% de homens, a mulher não tem vez nem voz.

Uma boa parcela de parlamentares, constituída por hipócritas e adúlteros, trabalha tão somente para barrar a conquista dos direitos das mulheres. Infelizmente, milhões de mulheres elegeram seus próprios inimigos na política. Quanto mais o político se mostra violento e indecente em relação às mulheres, maior é a sua popularidade. É assim porque parte do povo se identifica com a violência contra a mulher. Trata-se de uma parcela grande de gente ignorante e criminosa.

Na religião cristã, a situação não é muito diferente. Apesar de Jesus ter ensinado a fraternidade e, consequentemente, a igualdade entre mulheres e homens, inúmeros líderes religiosos pregam a subserviência; ensinam que a mulher deve obedecer ao homem, sendo-lhe submissa. Para isso, procuram versículos bíblicos para legitimar seu desejo de dominação.

Sem a mulher, o Cristianismo desaparece, mas esta verdade não é considerada. Na Igreja Católica, a mulher não participa da hierarquia nem preside a Eucaristia. Também em muitas outras Igrejas e religiões, a mulher é excluída de alguns ofícios, que somente podem ser desempenhados por homens, exclusivamente.

Este exclusivismo contraria o evangelho, mas os conservadores não estão preocupados com o evangelho, mas querem continuar exercendo o poder, sem a interferência e participação da mulher. O poder de decisão é do homem. A mulher está para o serviço, especialmente os serviços de ornamentação e limpeza.

        Por estes e tantos outros motivos, não resta à mulher outra alternativa senão ir à luta, permanecendo firme na conquista de seus direitos. Precisa ocupar o seu espaço com dignidade. A mulher necessita, também, aprender cada vez mais a usar a palavra e aproveitar as oportunidades que surgem, sem aderir ao autoritarismo de muitos indivíduos.

Sem perder a ternura, posicionar-se com coragem e firmeza. O mundo carece cada vez mais de mulheres audaciosas, conscientes de seu papel na sociedade, amorosas, livres e libertadoras. O que seria do mundo sem a ternura das mulheres?...
Avante, mulheres!

Tiago de França

domingo, 5 de março de 2017

Despedida. Pensamentos (XXXVI)

Despedir-se de quem a gente gosta é um cálice amargo que a vida nos obriga a experimentar. E por mais que experimentemos, a gente nunca se acostuma.


Tiago de França

quarta-feira, 1 de março de 2017

MENSAGEM QUARESMAL 2017

“Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Joel 2, 12).

        Nenhuma pessoa muda de vida da noite para o dia. Converter-se é mudar de mentalidade e de vida. A conversão é um processo único e pessoal. Único porque cada pessoa tem a sua história e esta é constituída por inúmeras circunstâncias. Pessoal porque cada pessoa precisa tomar a decisão, se quer ou não mudar de vida. Esta decisão é pessoal. Portanto, a conversão se inicia quando a pessoa decide, livremente, mudar de vida. Toda pessoa precisa fazer um propósito, tomar uma direção, colocar-se a caminho e nele perseverar.

        A espiritualidade cristã ensina que somente pela força do Espírito Santo a pessoa é capaz de tomar esta decisão. Este tipo de decisão já constitui uma resposta ao chamado de Deus. É o início de uma resposta que precisa ser generosa e permanente. Responde-se a Deus se dispondo a ouvir o seu apelo de amor. Quem tomou a decisão de trilhar o caminho da conversão, na verdade, se dispôs a abrir os ouvidos à voz de Deus que chama à renovação da vida. Converter-se é abrir-se à renovação da vida.

        Tomada a decisão, inicia-se a caminhada. O caminho é estreito e pedregoso, cheio de tentações. O desânimo oriundo do cansaço é uma das piores tentações. Para não desanimar, a pessoa precisa ter a virtude da paciência, saber esperar em Deus. Este Deus exige que a pessoa se entregue sem medo à experiência da comunhão com Ele. Nesta experiência, Ele revela o seu grande e infinito amor; e neste amor a pessoa experimenta o conhecimento de si mesma. É no encontro com Deus, no mais profundo de si mesmo, que o ser humano conhece as suas sombras, seus pecados.

        Totalmente entregue ao amor divino, a pessoa faz a experiência do perdão. O amor e o perdão caminham juntos. Quem se encontra com Deus tem seus pecados perdoados e encontra a paz de espírito. Deus é amor e Nele toda pessoa encontra a reconciliação consigo mesma. Uma vez reconciliada consigo mesma e com Deus,  é capaz de entrar em comunhão com seus irmãos, seus semelhantes; do contrário, o encontro com o outro não ocorre porque a ausência de paz não cria este encontro necessário. O caminho da conversão é um caminho de reconciliação, de amor, de encontro e de paz.

        O profeta Joel fala da necessidade de se voltar para o Senhor. O bom filho sempre retorna à casa de seu pai e de sua mãe. Deus é este Pai e esta Mãe que permanece de braços abertos porque é puro amor. A partir do evangelho de Jesus, podemos afirmar, categoricamente: Não há pecado no mundo que seja capaz de impedir, definitivamente, o encontro com Deus, Pai e Mãe de misericórdia. Somente aquela pessoa que se recusa mostra-se incapaz de encontrar a Deus. E é assim porque Deus não força o encontro nem a aproximação. Deus é amor gratuito e livre. Deus ama na liberdade e para a liberdade.

        O cristão é chamado a voltar para o Senhor rasgando o coração e não as vestes. O que o profeta Joel quis dizer ao falar em rasgar o coração? De modo geral, as pessoas optam por ter um coração de pedra. Este coração é duro e insensível. Quem tem coração de pedra é incapaz de sentir compaixão e de se entregar ao amor. Este amor não resiste a um coração de pedra. Rasgar o coração significa abandonar o coração de pedra, e em seu lugar fazer surgir um coração de carne. Rasgar é abrir, acolher, deixar sentir e pulsar, renunciar à frieza e à rispidez, cultivar o amor. Converter-se de coração é mudar de vida de verdade, sem mentiras; ir à essência, não se acomodar na superficialidade.

        Nossas Igrejas cristãs, bem como todas as religiões, precisam de homens e mulheres livres no amor, de pessoas de bom coração. Certo dia, escutei de um padre santo a seguinte frase, quando conversávamos sobre a vocação do presbítero na Igreja: “Deus não nos chama a sermos padres, mas nos chama a sermos bons!” A bondade é a marca da pessoa convertida. Ser bom não é ser sem defeito e sem pecado, mas significa ser semelhante a Deus, pura bondade. Quem foi alcançado pelo amor conhece a bondade e, de fato, é bom. O mundo precisa de pessoas boas, de pessoas de bom coração.

        Se quisermos conhecer e viver em um mundo renovado, precisamos aprender a exercitar a bondade no coração, não na aparência. De modo geral, nos refugiamos na aparência, escondendo nosso verdadeiro eu. E é assim porque tendemos à acomodação, recusando-nos à mudança de vida. Esta tentação nos arrasta porque é mais fácil cultivarmos a aparência do que nos ocuparmos com nossa essência.  

Vivemos numa permanente fuga de nós mesmos, e, assim, nos encerramos na tibieza. Que a Quaresma deste ano, seja mais uma oportunidade para avançarmos para as águas mais profundas; para sermos, de fato, pessoas dignas de ser reconhecidas como seres humanos. Deus nos chama a sermos, de fato, humanos. Quem consegue ser humano encontrou a felicidade e a paz; encontrou Deus, que é Tudo em todos.

Feliz caminhada rumo à Páscoa!

Tiago de França

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Ir além... Pensamentos (XXXV)

Feliz a pessoa que descobriu que é preciso ir além de si mesma. É da essência humana essa caminhada. É algo extraordinário e indescritível. É divinamente humano.

Tiago de França

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Compreender e conviver

     
        Nas aulas de introdução à filosofia, conversava com meus alunos sobre a importância da compreensão para a convivência humana. Em uma sociedade marcada pela intolerância, a compreensão é elemento fundamental para que as pessoas possam conviver em paz. Somente haverá a chamada cultura do encontro se houver compreensão entre os sujeitos que compõem o corpo social. De forma sucinta, discorreremos sobre alguns aspectos da dinâmica da compreensão nas relações interpessoais. Nosso objetivo é oferecer algumas provocações para que o leitor possa repensar o seu modo de se relacionar com as pessoas.

        Não pode existir compreensão sem uma prévia disposição interna por parte das pessoas. Quem não se dispõe a compreender o outro, não chega a relacionar-se bem com ninguém. Portanto, é necessário querer compreender. Trata-se de uma atitude interior, que conduz a pessoa para o caminho da compreensão. Sem este querer, tudo se torna embaraçoso e entravado. As coisas tendem a fluir quando a pessoa está motivada a compreender o próximo.

        A sociedade atual, marcadamente violenta, tende a desmotivar e bloquear o surgimento da compreensão. Há um movimento ideológico muito forte que induz as pessoas a pensar que não vale a pena apostar na compreensão. Fala-se, implícita e explicitamente, que compreender o outro é atitude de gente boba, fraca e sem personalidade. E é assim porque ser violento, no sentido de impor determinadas ideias e comportamentos, passou a ser considerado algo normal. Hoje, forte é aquele que se impõe sobre o outro, impedindo-o de ser livre.

        Assim, é necessário que haja um outro movimento contrário, certamente superior, não somente em dignidade e força, mas na capacidade de assegurar resultados dignos do ser humano enquanto tal. Estamos falando do movimento de resistência contra esta onda fortíssima das ideologias de dominação. Precisamos compreender este fenômeno vergonhoso do nosso tempo. As ideologias de dominação tiram a capacidade de pensar de milhões de pessoas, e a grande mídia está a seu serviço. Estamos falando de um avassalador movimento de domesticação das pessoas.

        A compreensão surge de uma consciência livre e amadurecida. Conscientes daquilo que se passa no mundo, da teia complexa de relações, ideologias e interesses, as pessoas conseguem enxergar com clareza a si mesmas, bem como se identificam com aquilo que realmente edifica e/ou constrói. Em outras palavras, a compreensão não pode surgir em um horizonte confuso, marcado pelo bombardeio da mentira e da ilusão. Compreensão exige serenidade, análise, mansidão, concentração e paciência.

        Tudo o que acontece em todos os âmbitos da vida humana está sujeito à compreensão. Desta nada pode escapar. Não há acasos nem destino traçado. Na verdade, vivemos no mundo das possibilidades, das novidades e do chamamento constante aos desafios a serem superados. Tudo tem suas causas e seus efeitos. A vida está no encontro e no desencontro, na convergência e na divergência, na aceitação e na resistência. Quem se dispõe a compreender as pessoas e suas circunstâncias precisa se dispor, sobretudo, à abertura para aquilo que está sempre além do mesmo ou da mesmice. Neste sentido, compreender é ter a ousadia de constatar e pensar naquilo que está além de nossa mediocridade.

        A pessoa bitolada, encerrada em seu horizonte curto de visão, não consegue jamais compreender o outro. O homem atual conseguiu descobrir e manipular muitas coisas. A ciência evoluiu significativamente. Muitas coisas boas e úteis se tornaram acessíveis para o bem de muitos. Mas, simultaneamente, assistimos ao reino da ignorância dominando milhões de pessoas em todo o mundo. Onde reinam as trevas da ignorância não há o salutar exercício da compreensão. Uma pessoa ignorante é uma pessoa fechada à compreensão, portanto, sofre de um mal gravíssimo: o mal da mediocridade.

        Por fim, é preciso considerar outro aspecto que se destaca quando falamos da virtude da compreensão: o desafio de colocar-se no lugar do outro. Deve existir um sincero interesse de saber o que se passa com o outro, para conhecer as motivações que o levam a ser do jeito que é. Geralmente, o outro sempre tem seus motivos que justificam, ou explicam o seu modo de proceder. Quando julgamos determinada pessoa, cometemos o pecado de reduzi-la ao fato ocorrido, esquecendo-nos de enxergar o contexto, e de saber das razões ou motivações da sua ação. É assim porque nossa preguiça mental nos impede de fazermos análises profundas das coisas. Assim procedendo, cometemos dois erros: ou caímos no reducionismo, ou na generalização apressada. Aí também aparece o julgamento precipitado.

        O outro clama por nossa compreensão. Em relação a ele, também nós imploramos a mesma coisa. Esse desejo recíproco por compreensão é inerente ao ser humano. Uma vez satisfeito, este desejo é elemento fundamental na construção da paz. Esta, por sua vez, é filha da cultura do encontro. Compreender não é sinônimo de concordar com aquilo que vai contra os nossos princípios e valores. Compreender é aceitar a realidade como ela é, como ela se apresenta, aceitando-a na sua integralidade. Pessoas compreensivas são verdadeiramente humanas porque permanecem de mãos estendidas e de braços abertos. Não lhes falta a sensibilidade necessária para que se mantenham assim. A própria compreensão faz brotar a sensibilidade.

        Para erradicarmos a intolerância que promove a cultura da eliminação do outro, precisamos, urgentemente, apostar em nossa capacidade de compreender a realidade e as pessoas nela inseridas. Sem compreensão não há ação consciente e benéfica. Não há também resistência contra tudo aquilo que nos desumaniza. Para combater a mentira que tende a dominar o mundo, precisamos ter a serenidade e a sensibilidade necessárias para análises críticas e comprometidas com a justiça e o bem comum.

O mundo carece de pessoas que ousam compreender para, assim, crer na construção de um mundo mais justo e fraterno. Compreendendo, crendo e agindo na esperança podemos ir longe, libertando-nos, definitivamente, do perigoso espírito da mediocridade, que tem aprisionado tanta gente no mundo, impedindo-as de serem felizes. Pessoas medíocres não compreendem as outras e, dessa forma, tendem a não permitir que estas também sejam felizes. Sejamos, pois, compreensivos em vista do bem viver.

Tiago de França

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A justiça do Reino de Deus

“Eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

        A justiça é um tema muito caro à Sagrada Escritura. Deus é Justo e Bom: eis a revelação que esta Escritura nos faz conhecer. Somente Deus goza plenamente desses adjetivos. E é assim porque o próprio Deus é a plenitude da justiça e da bondade. Pela fé, o crente participa da bondade e da justiça divinas. Esta participação torna-o membro do Reino de Deus. Pela graça, Deus envolve seus filhos e filhas numa comunhão plena, fazendo-os conhecer o sentido e o alcance do seu amor, da sua bondade e justiça. Esta é a dinâmica da participação do crente no belíssimo mistério que se revelou na história da salvação.

        Qual o conteúdo da justiça do Reino de Deus? Na vida cotidiana, qual a repercussão prática da crença nesta justiça? A realidade do mundo atual carece de mulheres e homens dispostos à prática da justiça do Reino de Deus. Em primeiro lugar, é preciso considerar que não estamos falando da justiça dos homens: imperfeita e, muitas vezes, tendenciosa. A justiça divina tem a marca da perfeição e da misericórdia. Deus não é um Juiz impiedoso, mas um Pai amoroso e justo, paciente e misericordioso. Sua lei é o amor, e sua justiça consiste na prática deste amor.

        O que a justiça do Reino de Deus fala ao cristão atual? O cristão atual está rodeado pela tentação do desvio e da descrença. O desespero tem tomado conta do mundo. Há uma enxurrada diária de más notícias, que vai tirando a esperança do coração de inúmeras pessoas. O sistema capitalista está cada vez mais seduzindo e coisificando as pessoas. Poucas conseguem escapar de suas garras.

A maioria da humanidade está dominada pelo vírus da sede de poder, prestígio e riqueza. Geralmente, procuram tudo, menos a justiça do Reino. Apegam-se a tudo, e abandonam o amor. Há muita morte por sufocamento: as pessoas morrem sufocadas em um estilo desumano de vida, alicerçado no consumo e no apego a sentimentos ruins, situações conflituosas e bens materiais supérfluos. No plano das relações interpessoais, ser justo significa reconhecer o lugar do outro, vendo-o e tratando-o como amigo e companheiro de caminhada, não como um inimigo a ser eliminado. A justiça divina nos ensina a superarmos a cultura da eliminação do outro.

        O que a justiça do Reino de Deus fala às pessoas enquanto membros do corpo social? A missão cristã no mundo é essencialmente política. Não falamos da política partidária, que tem a sua importância quando bem praticada. Mas falamos da política como participação crítica e pacífica nos rumos da vida social. Tomar a decisão de não participar da dimensão política da vida em sociedade é uma decisão que descreve a antipolítica. Portanto, uma escolha que representa verdadeiro desserviço ao corpo social.

Todo cidadão é chamado a exercer a sua cidadania, e este exercício passa, necessariamente, pela participação na vida social. Para sermos cristãos justos na sociedade não podemos fugir da política. Na verdade, ninguém consegue tal intento. Ao nascermos numa sociedade pré-estabelecida já nos tornamos sujeitos políticos, agentes políticos, mulheres e homens da ação política. Em sociedade, esta é a missão do cristão. Negar-se a esta missão é um pecado gravíssimo. Trata-se de um pecado muito superior a tantos outros reconhecidos como graves no seio da vida eclesial.

Por fim, cabe-nos perguntar: O que a justiça do Reino de Deus, revelada em Jesus de Nazaré, tem a dizer às Igrejas e/ou denominações religiosas que formam o Cristianismo? Infelizmente, precisamos reconhecer, com toda a humildade, que nossas Igrejas estão ocupadas com a própria sobrevivência. Todos os esforços estão concentrados na obsessiva preocupação pela sobrevivência das instituições religiosas. A todo custo procura-se salvá-las. Enquanto isso, a mensagem de Jesus fica marginalizada. O que fizeram com a mensagem de Jesus? Ocultaram-na, transformando-a noutra coisa. Há pouco anúncio, e muito proselitismo religioso.

Na Igreja Católica, o Papa Francisco tem apontado para o coração da mensagem de Jesus: o Reino de Deus. O Papa tem falado do amor, da justiça e da misericórdia de Deus. É incansável na missão de promover a unidade cristã, respeitando a pluralidade das expressões religiosas. Tem anunciado a Boa Notícia do Amor. Suas palavras e gestos falam da bondade de um Pai que abraça a todos, especialmente os pecadores arrependidos. Mas nesta mesma instituição religiosa, há aqueles que acham que o Papa, com estas atitudes, que são as mesmas de Jesus de Nazaré, está cometendo heresias.

Há quem esteja fazendo uma verdadeira campanha para tentar deslegitimá-lo. Na Europa e em outros lugares, há até cardeais que tem participado desta campanha diabólica. Os filhos de Deus promovem a unidade, e os que seguem o diabo promovem a divisão e a confusão no seio do povo de Deus. Sempre foi assim, desde os tempos antigos. O diabo é o pai da mentira e da divisão, e todos aqueles que semeiam mentira e confusão são seus filhos. Este foi o ensinamento deixado por Jesus segundo o que está escrito no evangelho de João. Na comunidade eclesial, o cristão é chamado a praticar a justiça do Reino, amando a Deus e ao próximo, seja este quem for, pois todos, sem exceção, são filhos e filhas de Deus em Cristo Jesus na força do Espírito Santo.

Tiago de França

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Ser sal e luz

“Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13. 14).

        Sem o sal, o alimento se torna impróprio. Comida sem sal é sem gosto, ninguém gosta. Mas não se pode colocar muito para não ficar salgada. É preciso saber a medida certa. Assim, eis o convite de Jesus: somos chamados a ser sal, na medida certa. Não podemos ser insossos nem salgados, mas pessoas de bom gosto, no sentido de sermos, na vida do outro, uma presença que dá gosto, que o ajuda a encontrar-se consigo mesmo e com Jesus.

        A pessoa insossa é aquela que não se posiciona nem se compromete. O mundo está cheio de gente assim: que nada faz e tudo critica; em tudo enxerga defeito, mas nada propõe. Juntamente com elas estão as que são salgadas: são aquelas demasiadamente desproporcionais. Em outras palavras, pessoas que não tem paz de espírito e tendem a tirar a paz do espírito do outro. Impaciência, inquietação, pressa, ausência de discernimento e outros males fazem parte de suas vidas.

        Alargando o horizonte de compreensão da citação evangélica, Jesus nos pede para irmos para além de nós mesmos. Ele nos chama e envia. Quem nele crê se compromete com o Reino de Deus. Assumir este compromisso e manter-se fiel até as últimas consequências: isto é ser sal e luz do mundo. O Reino de Deus acontece no cotidiano de nossas vidas: na oração pessoal e comunitária, no encontro e reencontro com as pessoas, no abraço fraterno, na partilha do pão, no compartilhar das tristezas e alegrias, angústias e esperanças.

        Ser sal da terra e luz do mundo é abraçar o estilo de vida de Jesus: um estilo de vida livre e libertador. Amar como Jesus amou revela o seu jeito de ser e de viver. É o amor que expressa fielmente a pessoa e a mensagem de Jesus. Não precisamos recorrer à letra da lei, ao espírito da lei nem à sistemática dos dogmas. Estas coisas podem falar de Jesus, mas é o amor o centro de sua vida e do seu projeto. Na qualidade de seguidores de Jesus, quando nos entregamos ao amor, amando o próximo como Jesus amou, estamos sendo, de fato, sal da terra e luz do mundo.

        Como Jesus amou as pessoas? O que podemos aprender com a sua experiência amorosa? Vamos ousar algumas afirmações à luz do seu Evangelho. Jesus amou na e para a liberdade. É assim porque somente o amor liberta. Não são as normas que criamos em nossas religiões que nos aproximam de Deus. O que nos faz, simultaneamente, humanos e divinos é o amor. Amor de atos, não de palavras e/ou discursos. As pessoas se cansaram dos discursos e documentos eclesiásticos, mas esperam que sejamos amorosos. Quando amamos, cumprimos a lei e estamos em plena comunhão com Deus. Assim viveu Jesus. Fora do amor não há comunhão com Deus e com o próximo.

        Nos meios eclesiásticos, na Igreja Católica, bem como nas demais denominações religiosas cristãs, há uma excessiva preocupação pela observância dos preceitos religiosos. Há regra para praticamente tudo. Para um conjunto de clérigos e leigos, o mais importante é a observância da lei, e não a observância do evangelho. Jesus exigiu dos seus discípulos que não se tornassem escravos da lei. O apóstolo Paulo ensina que a letra mata e o espírito é que dá a vida. Todo o Novo Testamento da Escritura Sagrada é expressão da nova e eterna aliança, alicerçada no amor e na misericórdia. Mas isto não tem importância para os escravos da lei. Para estes, a lei está acima do Evangelho.

        Todas as leis religiosas precisam estar em sintonia com o Evangelho de Jesus, pois nenhuma daquelas está acima deste. Por mais bem elaborada que seja, nenhuma lei salva. Toda lei é criação humana, imperfeita e passível de mudança. Somente Jesus tem palavras de vida eterna e, portanto, o seu Evangelho permanece para sempre como a palavra da salvação. Todo cristão precisa saber que somente a palavra de Jesus é palavra de salvação. Nenhuma palavra humana pode afastar a palavra de Jesus. Todas as leis, tradições, costumes e regras precisam estar em sintonia com a palavra libertadora de Jesus.

        Nenhum cristão deve obedecer à lei que segrega e, portanto, cria divisão. Toda lei que cria hierarquia entre os cristãos, obrigando-lhes a uma relação de obediência a homens em detrimento da obediência a Deus, não pode ser considerada. Jesus nos ensinou que todos somos filhos de Deus, membros de uma só família, irmãos e amigos. Ninguém recebeu dele o poder de escravizar, de mandar. Estes verbos não fazem parte do genuíno vocabulário cristão. Nas Igrejas e no mundo, todos somos sal, todos somos luz, em Cristo Jesus e na força do Espírito. Ser sal e luz não é um privilégio conferido a um conjunto seleto de pessoas, mas é um chamado universal.

        O mundo atual está mergulhado nas trevas da ignorância e da violência. Diuturnamente, assistimos ao que existe de pior no gênero humano. A situação atual do mundo é a expressão plena daquilo que há de mais miserável na espécie humana. Distante do amor e entregue à busca e satisfação dos próprios interesses, milhões de pessoas incendeiam o mundo, deixando-o em chamas.

Cresce cada vez mais o número das vítimas de um sistema econômico que sobrevive do suor e do sangue dos fracos e oprimidos. Portanto, é urgente que cada seguidor e seguidora de Jesus tome consciência de sua missão no mundo, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, dando, assim, testemunho da Ressurreição de Jesus para a vida do mundo e de toda a humanidade; do contrário, a nossa religiosidade se transforma numa pedra tropeço e motivo de escândalo e confusão, portanto, um desserviço.


Tiago de França

domingo, 29 de janeiro de 2017

O cristão do século XXI

         Segundo Karl Rahner, teólogo jesuíta alemão, o cristão do século XXI é um místico. Quais as características de um místico? Em que consiste a mística cristã? Baseando-nos na teologia mística e na experiência de místicos como Santa Teresinha do Menino Jesus e Dom Helder Câmara, discorreremos, brevemente, sobre algumas características do que podemos denominar cristão místico.

        Não é verdade que o místico é alguém voltado para as alturas dos céus, que vive enclausurado em um outro mundo diferente do nosso. Os místicos não fogem do mundo nem são fariseus (separados). Portanto, não podemos identificar o místico como alguém alheio à realidade, distante do mundo e de seus problemas. O místico está no mundo, mas não é um homem mundano. Não vive o mundanismo espiritual.

        Também não é verdade que os místicos possuem feições angelicais ou características marcadamente diferentes das demais pessoas. O místico não possui aparência estranha, pois não é um ser de outro mundo. Não procura ter semblante piedoso nem vive trajado de hábito religioso para se destacar das demais pessoas. A discrição e a naturalidade marcam o místico. Aparentemente, é igual às demais pessoas.

        Outra realidade falsa que costuma ser relacionada ao místico é a de que este vive rezando diuturnamente. É verdade que os místicos possuem uma profunda vida de oração, mas não é verdade que não fazem outra coisa senão rezar. Sem dúvida ninguém possui um contato mais íntimo com Deus do que os místicos, mas como vivem mergulhados em Deus, eles não vivem diuturnamente encerrados em rituais orantes (liturgia exterior).

        Há, ainda, outra questão importante a ser considerada sobre a vida mística: os místicos não possuem poderes sobrenaturais. Não são mágicos nem adivinhos. Não procuram experimentar fenômenos extraordinários, mas são prudentes (livres da falsa prudência), humildes, e depositam a sua confiança na graça de Deus. A vida mística já se constitui extraordinária, pois é totalmente voltada para Deus sem fugir do mundo.

        Muito se pode falar a respeito da vida mística, mas finalizemos estas breves considerações, discorrendo sobre três características da vida de um místico: vigilância, contemplação, permanecer acordado, despojamento.

        Vigilância. Jesus de Nazaré pediu para sermos vigilantes. Vigiar é estar atento, saber esperar em Deus. A postura do vigilante é a de quem não dorme nem cochila, mas permanece à espera, num permanente espírito de atenção, para não ser surpreendido. O vigilante não espera no escuro, mas com a sua lamparina acesa (cf. Mt 26, 40 e ss.), para estar acordado quando o seu Amigo chegar. O místico sabe que a carne é fraca, mas o espírito é forte. Portanto, sabe que é preciso vigiar e orar, incessantemente.

        Contemplação. Contemplar as maravilhas de Deus presentes em sua criação é missão do místico. A contemplação concede o dom da visão de Deus. Para ver a Deus é preciso contemplá-lo e glorificá-lo em todas as coisas. Mas o místico não é um contemplativo alienado. Alguém que vive repousando no Espírito, sendo indiferente ao mundo. De modo algum! O místico é um contemplativo na ação. Age contemplando a presença de Deus, transmitindo aos outros o amor generoso do Deus que se faz presente.

        Permanecer acordado. Não estamos falamos que os místicos não dormem. O corpo humano precisa de sono. Por isso, não estamos falando do sono do corpo, mas do sono do espírito. O místico não é um cristão de espírito apagado ou sonâmbulo. O Espírito que o conduz é o Espírito de Jesus, que o manteve acordado na missão. Portanto, o místico é alguém que enxerga muito além do mundo físico, mas consegue discernir e identificar a presença divina em todas as coisas. Quem passa a vida dormindo não é capaz disso. O místico é alguém que foi despertado para a vida, para viver a vida, senti-la como Deus a criou.

        Despojamento. Os seguidores de Jesus são homens e mulheres livres. Livres porque despojados, desapegados de tudo e de todos. Os místicos nada acumulam, nem física nem espiritualmente. Nada possuem nem são possuídos por nada. Uma vez livres, nada consegue prendê-los. São como os pássaros do céu, não se preocupam com comer nem com o que vão vestir, pois sabem que a Divina Providência não lhes falta. Procuram o Reino de Deus, e isto lhes basta. O caminho do místico é o caminho de Jesus, marcado pela procura de Deus. Do ponto de vista material, os místicos são pessoas pobres, assim como Jesus o foi.

        Por fim, é preciso considerar que os místicos não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito. Mas isto não significa que são moralistas, como eram os fariseus e mestres da lei do tempo de Jesus. Os místicos não são legalistas, pois não vivem segundo a lei. Viver segundo a carne é viver segundo a lei dos homens, desprezando a lei de Deus. Viver segundo o Espírito é viver segundo a lei de Deus. O Espírito nos faz capazes do amor. Os místicos procuram amar. O amor é a lei do Espírito, a lei de Deus, a lei que rege a vida mística.

        Há místicos religiosos, que praticam a mística no interior da religião. Mas isto não quer dizer que são místicos porque são religiosos. De modo algum! Não é a religião que faz o místico, mas o apelo ao amor. Há outros que não vivem no interior de nenhuma religião, mas seguem Jesus sem praticar preceitos religiosos. São como Jesus, que era criticado por não cumprir fielmente os preceitos do Judaísmo. Jesus não vivia segundo a carne.

Os místicos estão no mundo, lugar da manifestação de Deus. Eles apontam para Jesus e não para si mesmos. São sinais da presença de Deus. No Cristianismo, eles recordam e, por isso mesmo, incomodam, ao proclamar a verdade fundamental e salvadora: Jesus é o centro da vida cristã, e no centro da sua mensagem está o Reino de Deus. O Cristianismo perde o sentido se esquecer da centralidade da mensagem de Jesus. Sem a mensagem de Jesus, o Cristianismo se transforma num mundanismo espiritual, portanto, desnecessário à humanidade. Os místicos são a memória viva de Deus no mundo, dentro e fora da religião.

Tiago de França