terça-feira, 15 de agosto de 2017

Chamados a seguir Jesus no mundo atual

Introdução

        Anualmente, por ocasião do mês das vocações (agosto), partilhamos algumas provocações sobre o tema da vocação enquanto chamado de Deus às mulheres e homens de boa vontade. Sempre é possível e necessário repensar a vocação, pois os tempos mudam. Precisamos escutar o chamado divino à luz do que está acontecendo. Contamos com a assistência do Espírito Santo, guia da Igreja peregrina, povo de Deus em marcha, que, diuturnamente, trabalha na obra do Pai, continuando a missão de Jesus, neste mundo dilacerado de dores.

        Todos os que recebem este Espírito de amor e de ternura possuem a mente e o coração abertos para enxergar e compreender, para contemplar e agir, para amar e servir. Nenhuma pessoa que se considera cristã deve colocar a mão no arado e olhar para trás. No seu Evangelho, Jesus afirma que esta não é atitude a ser adotada por aqueles que o seguem. O arado da história da salvação é experiência de caminhada esperançosa, que conta sempre com a presença da Trindade, Amor fiel que fortalece e guia, rumo à plenitude do Reino de Deus.

        O momento atual está marcado por uma profunda crise: o ser humano está em processo crescente de desumanização e de morte. Sem cairmos no pessimismo, a visão da realidade, sem ilusões, nos fala de muita dor, muito sangue, muito clamor. Tanto no ocidente quanto no oriente, os poderosos são cada vez mais sanguinários em suas ambições e empreendimentos. Cresce a intolerância, o preconceito, o racismo, o conservadorismo de visões e posturas, e a exploração capitalista dos mais pobres. Resultado de todas estas coisas, cresce também o medo, o desespero e uma total desorientação.

De modo geral, milhões de inocentes não sabem o que está acontecendo e tem a sua esperança abalada. O medo do que poderá acontecer no amanhã é assustador. Teologicamente falando, vivemos num vale de lágrimas: milhões de pessoas sobem com Jesus a ladeira rumo ao Calvário, carregando uma pesada cruz, sendo chicoteados por todos os lados, numa agonia sem fim. Diante de tamanha onda de sofrimento e dor, onde está Deus? A partir de onde Ele nos chama? Deus nos chama para desenvolver que tipo de missão? Como os cristãos estão reagindo a tudo isso? Como seguir Jesus em meio a tanta confusão?...

1. O chamado de Deus

        Deus nos chama sem cessar. A Bíblia fala de um Deus que é Pai e Mãe de bondade, que escolheu caminhar com o homem. Não quis resolver os problemas humanos num passe de mágica. As narrativas bíblicas são fieis ao nos ensinar a grande lição do Deus liberador: Este Deus escolheu um povo na antiga aliança; em Jesus, acolheu a humanidade; no Espírito, acompanha a todos. Não é indiferente a nenhum grito de dor. A sua opção é pelo sofredor, por aquele que é desprezado, que se encontra nas periferias da vida, nos últimos lugares. Essa sua opção é livre e libertadora.

Todos os empobrecidos que um dia escutaram seu chamado sabem que Ele é assim: Ama a todos porque é o Amor, mas ama, preferencialmente, os empobrecidos, as vítimas das diversas formas de opressão em todo tempo e lugar. Esta é a revelação bíblica que jamais muda. Não há teologia capaz de mudar o rumo da história da salvação. Esta é a pedagogia divina. Deus é assim. Naquilo que aparecer de diferente, é falso e não se sustenta. Este é o testemunho das Escrituras Sagradas: O testemunho de um Deus que faz a opção de acampar no meio dos pobres e sofredores deste mundo. Este é o Pai misericordioso, revelado em Jesus, fiel ao seu projeto de vida e liberdade para todos.

Este é o Deus que chama. A sua identidade é clara porque se revelou nos feitos dos patriarcas, matriarcas, profetas e profetisas, e de modo profundamente escandaloso, na pessoa de Jesus de Nazaré. O chamado que faz está intimamente ligado ao lugar da sua atuação e à opção feita desde a antiga aliança, revelada a Abraão, Moisés, Isaac, Jacó, Davi e tantos outros e outras, que, tendo escutado a sua voz, colocaram-se no caminho e nele perseveraram. Portanto, quem não se identifica com o lento, longo e doloroso processo de libertação integral do ser humano, especialmente dos mais pobres, não pode servir a Deus. Somente escuta e se coloca no caminho de Deus aqueles que desejam ser instrumento da libertação operada por Ele no mundo.

Deus chama a partir do lugar no qual cada pessoa vive. Ele alcança a todos, sem distinção. O seu chamado é universal. Não faz acepção de pessoas. Chama a cada uma, de acordo com a cultura e a religiosidade de cada uma. Em todos os tempos e lugares, dentro e fora das religiões, encontramos pessoas servindo a Deus porque foram chamadas por Ele: Foram chamadas, escutaram o chamado e se colocaram no caminho do seguimento.

Na situação particular de cada pessoa, Deus se manifesta e chama. Algumas pessoas sentem o seu chamado na infância; outras escutam a sua voz na adolescência; outras na juventude; outras escutam Deus chamando na vida adulta ou na terceira idade. O chamado nasce no coração das pessoas, que vão tomando consciência aos poucos. Há situações nas quais elas não identificam o chamado, mas já se encontram no caminho de Deus, servindo-o no amor, na justiça e na liberdade. Deus é sempre mistério, e sua maneira de chamar também é misteriosa.

Para aqueles que se tornam íntimos dele, a revelação do chamado ocorre de forma simples, por meio da oração e da humildade da vida cotidiana. Deus gosta do que é simples e frágil para confundir os grandes deste mundo. O chamado divino se dirige sempre aos frágeis. Para descobrir o chamado, quem se acha forte precisa aprender a ser humilde, simples e frágil. Deus se manifesta na fraqueza das pessoas. É a partir desta fragilidade que Ele chama. A dinâmica do seu chamado contradiz à lógica dos pensamentos humanos. O homem parte sempre de cima e do centro; Deus se manifesta e chama a partir de baixo e das periferias.

2. Seguir Jesus

         Deus chama para o seguimento do seu Filho amado, Jesus de Nazaré. Quando Deus fala no Evangelho, pede que o escutemos. Portanto, o chamado é para que o cristão escute Jesus falar. Qual é o conteúdo da fala de Jesus? O Reino do Pai está no centro da mensagem do Filho de Deus. Assim, ignorar a centralidade do Reino de Deus Pai é ignorar a missão de Jesus. Deus o enviou para anunciar este Reino. Ele não foi enviado para fundar religião, nem criar doutrinas humanas, nem para provocar rebelião política. Não está entre os messias convencionais da sua época. A mística do Reino de Deus Pai sempre acompanhou o pensamento, a palavra e os gestos de Jesus: constituiu o centro da sua missão.

        O testemunho de Jesus foi fiel ao do seu Pai: Fez a mesma opção feita na antiga aliança, agora renovada com a sua missão e a sua entrega total até à morte na cruz. Jesus nasceu, viveu e morreu entre os pobres. Entrou em profunda comunhão com todos aqueles que viviam à margem da sociedade. Manifestou a presença de Deus entre os oprimidos do seu tempo. Anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus, subversivamente contrária ao império romano, que ceifava a vida dos pobres. Também encontrou oposição na religião judaica, na pessoa de seus líderes. Para os doutores da lei e fariseus, especialmente, seu testemunho de vida foi um verdadeiro escândalo.

        Convivendo com os excluídos, Jesus se tornou um deles. Foi odiado e perseguido por aqueles que se consideravam justos e santos. Identificado com os pecadores públicos, foi condenado pelas autoridades religiosas da época, que não o reconheciam como o Messias prometido. Em nome de Deus, Jesus anunciou a construção de uma nova humanidade, alicerçada no amor e na justiça do Reino de Deus Pai. Denunciou as injustiças cometidas pelos poderes políticos da época, bem como a hipocrisia da elite religiosa e da exploração que esta realizava contra os pobres. Com o chicote nas mãos combateu práticas religiosas abusivas, despertando a consciência do povo para que enxergasse e se libertasse da alienação religiosa.

        Jesus revelou quem são os verdadeiros bem-aventurados do Reino de Deus Pai: os pobres, os que choram, os humildes, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos e injuriados por causa da justiça, os mansos e os que promovem a paz. Assim são os seguidores de Jesus: bem-aventurados. Os cristãos dos primeiros séculos da era cristã compreenderam bem a mensagem de Jesus e a colocaram em prática, com amor, ousadia e liberdade. Inúmeros foram martirizados porque permaneceram fieis a esta mensagem de vida e salvação.

        A teologia do seguimento ensina que seguir Jesus é colocar-se em seu caminho e nele perseverar. Trata-se de um caminho estreito e pedregoso. Não é fácil permanecer nele. Não basta ler o texto evangélico e gostar de Jesus. Não basta simpatizar-se com suas ideias. Não basta frequentar o culto para venerá-lo e adorá-lo. O chamado está no Evangelho: É necessário seguir Jesus. Seguir não é imitar nem acreditar somente com a boca. Seguir é comprometer-se com o conteúdo da sua mensagem, é praticar o amor e a liberdade de Jesus. Para segui-lo é necessário amar livremente, assim como ele amou.

        O testemunho dos mártires cristãos de todos os tempos e lugares mostra que o seguimento de Jesus é uma aventura perigosa. Os que se decidem pelo caminho de Jesus correm os mesmos riscos que o atingiram: Podem chegar ao derramamento de sangue. A proclamação do Evangelho de Jesus é missão simples e perigosa, pois este Evangelho é uma denúncia firme de todos os pecados e crimes que afetam o povo de Deus em marcha. O verdadeiro cristão não pode se calar diante das injustiças. A denúncia das injustiças é inerente ao ser cristão.

Todo cristão fiel a Jesus se recusa a adorar o deus dinheiro, que domina e destrói o mundo. Na vida cristã não há espaço para nenhum tipo de ídolo. O cristão só se curva diante da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Para o verdadeiro cristão, o poder, o prestígio e a riqueza são ídolos detestáveis, que conduzem o ser humano à perdição eterna. O dinheiro que não constitui ídolo é o adquirido sem meios ilícitos e para o custeio da sobrevivência. O que está para além disso aparece como realidade pecaminosa diante de Deus. Por isso, todos os que se ocupam com furto e roubo de dinheiro cometem pecado grave, principalmente os ladrões do dinheiro público.

3. Os cristãos religiosos e o seguimento de Jesus

        Um breve olhar sobre a realidade dos cristãos no Brasil nos revela dois contextos diferentes, mas com aspectos semelhantes. No meio não católico, encontramos um acentuado número de denominações cristãs (neopentecostais). No seio de muitas delas ocorrem abusos de toda sorte: falsas curas; distorções da Bíblia; enriquecimento ilícito; disseminação do ódio, do preconceito e da discriminação; lavagem de dinheiro etc. Muitas destas e outras práticas também ocorrem no seio da Igreja Católica. Nestas situações, o Cristianismo é totalmente distorcido, e oculta-se a mensagem de Jesus.

        Quanto à Igreja Católica, há um aspecto que chama a atenção e que precisa ser considerado: Apesar da chegada do Papa Francisco, a Igreja no Brasil permanece tímida na missão de evangelizar. Aparentemente, não se veem muitas mudanças. O Papa possui um discurso progressista em muitos aspectos, mas uma parcela significativa do clero parece estagnada. Parte desta parcela até admira e venera o Papa, mas não se move na direção que ele aponta. A maioria sente saudade dos papas João Paulo II e Bento XVI. Sentem falta da liturgia pomposa e do discurso conservador.  

        O magistério e os gestos do Papa Francisco desafiam a Igreja constantemente. Uma Igreja que sempre caminhou na direção do centro tem muita dificuldade de se dirigir às periferias. A região central sempre foi mais confortável. Falar de Jesus para os mais ricos nunca foi algo incômodo para a maioria dos que formam a hierarquia. Até hoje, o povo não enxerga o padre como alguém próximo, mas como uma autoridade distante. De uns tempos para cá, parte do clero tem melhorado, mas ainda impera a distância entre o clero e o povo. Não se encontra um padre facilmente no meio do povo. A maioria permanece vivendo a vida cômoda da classe média, com hábitos elitistas.

        Para ilustrar, vamos a um mau exemplo: Na minha época de seminário, chamava-me a atenção as roupas, calçados, relógios e carros que muitos padres usavam, e até hoje usam. Eram marcas caríssimas. O curioso era que a maioria pertencia a congregações religiosas, ou seja, professaram o voto de pobreza. Muitos se apresentavam como verdadeiros empresários. Sempre que me encontro com um padre no centro da cidade, o que ocorre raramente, observo que a maioria continua do mesmo jeito: Com aparência de elite. A simplicidade, a humildade e o despojamento de Jesus, o Bom Pastor, passa longe do perfil deles. E cada um procura justificar seus usos e costumes, para não parecer escandaloso aos olhos das pessoas. O testemunho de simplicidade do atual Papa não os comoveu nem os ensinou.

          O seguimento de Jesus no seio das Igrejas cristãs requer renúncia do legalismo e acolhimento das pessoas, especialmente dos mais pobres. No Cristianismo praticado no Brasil reina uma onda conservadora que assusta qualquer pessoa de mente aberta e reciclada. Há um discurso legitimador do ódio e da intolerância que contraria totalmente a mensagem de Jesus. Enquanto Jesus ensinou a acolher e amar, muitos que se dizem cristãos excluem e tratam o próximo com indiferença. Muitas pessoas continuam se recusando a aceitar a fraternidade ensinada e vivida por Jesus. Tais pessoas entendem a Igreja como uma realidade separada do mundo. Não aceitam a realidade da Igreja como rede de comunidades nas quais as pessoas são chamadas a viver segundo o amor e a liberdade.

        Parte do clero continua se comportando como os padres do mau exemplo acima mencionado: Muitos continuam apegados ao dinheiro, ao luxo, ao prestígio e ao poder. Facilmente, tratam as pessoas com desprezo, com ar de superioridade. Somente porque cursaram filosofia e teologia, se acham no direito de humilhar as pessoas, tratando-as como ignorantes em matéria de fé e doutrina. Não se misturam com o povo. Apresentam-se como autoridades, e não como servos. São funcionários do altar. Não são pastores. Ser pastor significa outra coisa: Ser pastor é ser missionário servidor. Quem assume a postura de funcionário do altar se identifica com o poder, e o utiliza de forma autoritária. Clérigos assim são vazios, desprovidos da verdadeira fé em Jesus.

        Entre os não ordenados, denominados leigos, também encontramos uma cultura de submissão e cegueira. Muitos continuam pensando que o bom cristão é aquele que é submisso ao padre. Não conseguem pensar a própria fé. O catecismo ainda é decorado, e o Evangelho esquecido. Não ousam ler o Evangelho sem as lentes do clero. Há batalhões de leigos que se colocam a serviço do velho modelo de paróquia, formado por pastorais que mais segregam que unem as pessoas. A pastoral se transforma em um conjunto de grupos de pessoas que se utilizam da pertença a tais grupos para se sentirem melhores que os demais. Trata-se de um laicato desprovido de formação humana e espiritual suficientemente capaz de libertá-lo da ingenuidade e da cegueira.

        Torna-se cada vez mais urgente a necessidade de se reencontrar Jesus no Evangelho e no meio dos mais pobres do povo. Esse reencontro fará com que a Igreja e todos os que a compõem reencontrem o caminho da profecia. A situação de crise política e econômica do Brasil clama por cristãos autênticos e por uma Igreja profética. Uma Igreja verdadeiramente profética é aquela que sai de cima do muro e faz uma opção clara pelos pobres.

O sistema político brasileiro, profundamente marcado pela corrupção, oprime o povo brasileiro, principalmente os mais pobres. A Igreja Católica precisa se posicionar corajosamente contra esta situação, criando e apoiando iniciativas de organização do povo, para que este resista à opressão, na luta pela libertação. Um Cristianismo que se omite diante das injustiças é um desserviço à humanidade. A Igreja Católica precisa, de uma vez por todas, assumir, com coragem e ousadia, as lutas do povo que sofre.

Sem apoio, incentivo e organização, o povo não caminha. Os líderes religiosos precisam se posicionar, não somente através de notas oficiais na imprensa, mas na organização do povo, conscientizando-o da sua missão como povo. Este povo precisa conhecer e praticar a dimensão política da sua fé, e a Igreja tem a missão de levá-lo a este conhecimento e a esta prática; do contrário, não estará exercendo fielmente a missão que Jesus lhe confiou. As poucas experiências que já existem neste sentido precisam se multiplicar, e isto depende e muito do empenho dos líderes religiosos. Na caminhada do Reino de Deus, o líder religioso deve fazer como Jesus: Permanecer com os pobres, na escuta da voz de Deus e na partilha do pão da justiça, da liberdade e da paz.

Conclusão

        Nesta hora difícil da história mundial, precisamos silenciar o coração para escutar a voz de Jesus. Deus Pai quer que escutemos Jesus. Segui-lo é praticar a obediência, e obedecer é escutar. Quem não o escuta não sabe a direção que deve tomar. Hoje, mais que em outras épocas, precisamos reencontrar Jesus. Para reencontrá-lo é preciso buscá-lo, ir ao seu encontro. Também ele nos procura sem cessar. Renunciar ao medo e nos aproximar dele: eis a atitude urgentemente necessária. Ele está presente e próximo. Ergamos o nosso olhar na direção das pessoas, pois nelas podemos encontrá-lo. Jesus sempre nos espera no outro, principalmente no outro que recusamos encontrar.

        No silêncio da nossa oração também podemos encontrá-lo. Na oração sincera, espontânea, no silêncio da escuta amorosa. Estar com ele em oração é uma experiência de revelação da vontade de Deus. Quem quiser se tornar íntimo de Jesus deve aprender a orar com ele. Orar em plena sintonia com o clamor das vítimas, que não cessam de clamar por justiça e paz. Precisamos aprender a orar com Jesus na agonia da cruz. É nesta agonia que conhecemos a dimensão do amor de um Deus totalmente apaixonado pelo ser humano, capaz de tudo por amor porque é o Amor.

        Ao final desta meditação, fica o convite ao leitor: Deixe-se alcançar por este Deus que é puro amor. A humanidade precisa ser regenerada no amor. Deus quer fazer isso através de cada um que acredita no seu amor. Que cada um possa se entregar ao amor. Ninguém perde nada amando e deixando-se amar. Somente há felicidade no amor. Se não perdermos a fé no amor, o mundo certamente se transformará. Esta transformação passa, necessariamente, pela entrega de cada pessoa ao amor. Quem verdadeiramente ama tem em si a força mais poderosa do mundo. Somente quem ama acredita em Jesus, e quem assim procede entrou no reino da liberdade. Que o Espírito Santo nos conserve neste bom propósito.

Tiago de França

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A banalização da política no Brasil

     
       Aconteceu, nesta quarta-feira, 02 de agosto de 2017, a absolvição de Michel Temer na Câmara dos Deputados. Não é novidade para ninguém o fato de o denunciado ter se utilizado do dinheiro público e do posto de presidente da República para escapar da justiça. A maioria do povo brasileiro tratou a situação com naturalidade: não houve protestos significativos nem se viu o povo do panelaço batendo panelas nas janelas e sacadas de suas casas se apartamentos de luxo.

A elite, como era de se esperar, ignorou totalmente a votação na Câmara. Trata-se de prova incontestável de que não se protesta contra a corrupção no Brasil, considerando que a elite é a grande responsável pelos assaltos aos cofres públicos. Não são os pobres que roubam dinheiro público no Brasil, mas são eles as vítimas, pois dependem das políticas públicas. Até onde se sabe, políticos e empresários não são pessoas pobres. O Estado brasileiro está quebrando porque há inúmeros ladrões que saqueiam os cofres públicos, diária e impunemente. Qualquer cidadão que goze do bom senso sabe disso.

O que ocorre é que a mídia neoliberal, que sempre esteve ao lado dos poderosos e a seu serviço, bem como a serviço do mercado financeiro, impede o povo de enxergar a realidade. Alguém já dizia que no Brasil não existe povo, mas público. O povo se organiza, informa-se e reivindica direitos; o público é aquele que assiste à situação, sentindo-se impotente. Atualmente, o Brasil não possui grandes líderes, capazes de conduzir e construir um povo livre e consciente do seu papel. Na ausência dos grandes líderes, a classe dominante explora, sem dó nem piedade.

A mídia domina a maioria das pessoas, com suas ideologias de dominação. Ocorre, assim, o fenômeno da massificação social. Uma massa de gente que não é capaz de pensar, analisar, criticar, e, portanto, se defender. Para onde a mídia aponta, as pessoas olham. Poucos são os que ousam olhar na direção oposta. Neste sentido, os telejornais, que constituem o meio utilizado pelos mais pobres para a obtenção de informação, na verdade, mais deformam que informam. O jornal recorta a notícia e a veicula de acordo com os interesses corporativistas. As pessoas pensam que estão informadas, mas estão, de fato, enganadas.

Os meios de comunicação, salvo raras exceções, não despertam o interesse das pessoas pela informação precisa e fiel aos fatos. Utilizam-se da mentira para manter situações criminosas. As pessoas nunca sabem o que realmente está acontecendo. Tudo não passa de uma mentira bem contada. Por trás da mentira está o ladrão, aquele que assalta o que pertence ao patrimônio público. Para não ser descoberto, e se o for, para não ser punido, o ladrão usa de suas influências e do fruto do que foi assaltado para comprar pessoas e instituições, tendo em vista sua segurança pessoal e a consequente perpetuação dos desvios e crimes. Portanto, as ideologias veiculadas pelos meios de comunicação são instrumentos eficazes que visam anestesiar o poder de reação das pessoas. Esta é a explicação para a compreensão da passividade da massa.

No verdadeiro Estado democrático de Direito impera a democracia. Entende-se por democracia a realidade de um País no qual o povo participa do exercício do poder. E é assim porque, na teoria, o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes. O regime democrático é marcado pelo respeito e promoção da dignidade da pessoa humana e das liberdades individuais e coletivas. Há, na Constituição da República, direitos e garantias fundamentais a serem respeitados e promovidos, sendo dever do Estado assegurar a implementação de tais direitos e garantias. Estas coisas fazem parte da teoria política da democracia. Mas, o que ocorre na realidade? Temos assistido o oposto.

Hoje, o Brasil vive uma experiência de desgoverno. A maioria dos que compõem a classe política, desde o vereador até o presidente da República, trata a política como um meio de vida, um caminho fácil de enriquecimento ilícito. Quanto mais a justiça investiga, mais aparecem desvios e crimes. Cada cargo assegura ao político, tanto no executivo quanto no legislativo, inúmeros privilégios: altos salários, verbas de gabinete, carros, moradia, auxílios de toda sorte etc. O povo é obrigado a sustentar o luxo da classe política. E além de sustentá-la, ainda é vítima dos desvios das verbas públicas. É uma situação deplorável.

Cresce cada vez mais a desconfiança das pessoas em relação aos políticos porque assistem aos desvios e não veem sequer a possibilidade de a corrupção acabar. O poder judiciário, responsável pela investigação, processamento e condenação dos criminosos, falha no exercício da sua competência: operadores do Direito, principalmente juízes, são ora seletivos, ora omissos na instauração, condução e finalização dos processos.

O que se vê, de modo geral, é que somente os pobres são os que realmente cumprem as penas, tendo que se submeter às péssimas condições do sistema carcerário brasileiro. Geralmente, os ricos, quando julgados e condenados, cumprem suas penas em condições melhores e não demoram muito na prisão. Sempre encontram um jeito de passar pouco tempo. As brechas na lei, as amizades com figuras importantes no judiciário e a atuação de excelentes advogados os ajudam a escaparem da severidade e durabilidade das penas restritivas de liberdade. Com os mais ricos, o tratamento é diferenciado. Psicologicamente, muitos juízes respeitam e até temem aos mais ricos.

Um dos motivos é que inúmeros juízes são filhos da elite. Seria contraditório um filho da elite tratar outra pessoa da elite com severidade e no rigor da lei. Em si, a lei é muito pesada para ser aplicada a uma pessoa rica. A mão de ferro do Estado sempre esteve voltada para os mais pobres. Estes são tratados com severidade e já se conformaram com isso. Já não reclamam tanto porque já se convenceram de que este sistema não muda. O sistema de criminalização dos pobres é eficiente e não mudará. É o que se vê no cotidiano da vida dos brasileiros. Os presídios estão lotados de pobres, e o sistema ostensivo da polícia é implacável no tratamento para com eles. Estes vivem sob o olhar da desconfiança. Os ricos desviam, e os pobres pagam a conta. Isto não é novo no Brasil.

Comumente, fala-se que a solução para estes problemas está na educação. É verdade que a educação é uma ferramenta importantíssima para a emancipação das pessoas. Isto é inquestionável. Mas em matéria política, nem todo tipo de educação serve. Nas sociedades dominadas pelo capitalismo, vigora a educação que prioriza a ciência e a técnica, excluindo a formação da consciência crítica. A conversa que se ouve nos ambientes educacionais, tanto na educação básica quanto na superior, é a seguinte: Deve-se investir nos estudos para que se possa ser alguém na vida. O que é ser alguém na vida? Vejamos.

O capitalismo ensina que ser alguém na vida é ser bem-sucedido, ou seja, estudar para arrumar um emprego que assegure uma vida confortável. A isto o capitalismo chama felicidade. Feliz é a pessoa que tem dinheiro, poder e prestígio. Esta tríade garante a felicidade. E a formação da consciência crítica, onde fica? E a preocupação pelo bem comum e pela ecologia? E a formação de cidadãos conscientes do seu papel na sociedade? Onde encontrar uma educação que lance as pessoas no mundo, com o objetivo de construí-lo, dignamente? Estas perguntas são evitadas. De modo geral, o atual modelo de educação não está preocupado com isso.

Forma-se o indivíduo para o mercado de trabalho, para ser uma peça na imensa engrenagem do sistema. Para os capitalistas, a formação de sujeitos políticos conscientes e autônomos é perda de tempo, é coisa de comunista. Todas as pessoas são educadas para serem capitalistas: escravas do materialismo, consumismo e individualismo. Vigora a lei do salve-se quem puder! Neste tipo de sociedade não há lugar para os pobres, pois a educação que lhes é oferecida não os capacita a praticamente nada. Uma boa parcela sequer conclui a educação básica, e quando conclui, muitas vezes, não sabe ler nem escrever, mas somente reconhecer palavras sem saber o seu significado político.

As ideologias de dominação dizem o contrário do que afirmamos nesta breve reflexão. Elas pregam ilusão e falam mentira. O objetivo é manter uma aparência de normalidade, induzindo as pessoas a pensar que a situação vai ser resolvida. Como o ser humano tende à ilusão, tudo se torna mais fácil. As pessoas sempre esperam a solução de quem não tem interesse de resolver. No senso comum, reina a mentalidade de que somente os poderosos podem resolver a situação. Ilusoriamente, acredita-se que os poderosos irão resolver o problema das crises política, econômica e moral.

Qual seria, então, a solução para a atual situação política do Brasil? Considerando que o Brasil não muda por causa da classe dos poderosos que o governa, a solução se encontra na formação da consciência crítica dos mais pobres. Esta formação deve acontecer nas bases da sociedade, com a criação de núcleos de educação política. Assim, os próprios pobres devem se organizar, e não ficar esperando que os ricos promovam esta organização. Os que exploram gostam de gente desorganizada e desorientada, ignorante e sem perspectivas.

A ignorância, que gera cegueira, e a desorganização das pessoas facilitam a ação dos que se empenham em explorar os outros. O Brasil só terá povo quando os brasileiros aprenderem a ser organizados e unidos. Não há ameaça pior aos poderosos que um povo politicamente formado, unido e consciente dos seus direitos. Já existem algumas experiências interessantes de formação popular nas bases da sociedade, mas são poucas. Estas experiências precisam se multiplicar.

Seria muito bom que os professores, principalmente os das universidades, se interessassem por tais experiências, bem como outros profissionais que estejam preocupados com a atual situação. Quem tem vocação para ser líder deve ajudar a organizar, formar, orientar e encorajar as pessoas. A esperança dos pobres vive, e ninguém se liberta sozinho. A liberdade é essencialmente política e ocorre na reunião das pessoas, que arregaçam as mangas para construir um outro mundo possível.

                  Tiago de França

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Para encontrar Deus em todas as coisas

   
    No testemunho de santidade de Inácio de Loyola encontramos a recomendação que intitula a presente meditação: É necessário encontrar Deus em todas as coisas. Hoje, 31 de julho, os jesuítas e toda a Igreja Católica celebram a memória de Santo Inácio de Loyola, que morreu em 31 de julho de 1556, em Roma. Como encontrar Deus em todas as coisas? A partir da experiência missionária de Jesus, ousaremos algumas provocações que possam responder à questão.

        É importante saber que Deus pode ser encontrado em todas as coisas. Longe de cair numa visão panteísta, Deus, de fato, não se confunde com as coisas, mas está presente em toda a criação. Isto significa que os religiosos não podem aprisioná-lo nos templos religiosos, e significa também que é preciso abandonar o velho discurso de que, para servir a Deus é necessário frequentar o templo religioso. Com isto não estamos dizendo que Deus não possa ser encontrado no templo. Na verdade, ele não está somente lá.

        Deus convida cada pessoa a refazer a forma como se relaciona com todas as coisas. Este refazimento é precedido por um processo lento e necessário de conversão. Conversão da forma de pensar e de ser, conversão da forma como se concebe a si mesmo e ao mundo no qual se vive. Atualmente e de modo geral, as pessoas estão dominadas pela mentalidade capitalista de entender e viver a vida. Daí decorre o processo de coisificação do ser humano: as pessoas se aceitando, se reconhecendo e se relacionando como se fossem coisas.

        O significado da expressão Deus está presente em todas as coisas se opõe ao que prega o capitalismo selvagem. Em Jesus de Nazaré, Deus nos lembrou que as pessoas não são coisas, mas, de fato, pessoas. Afirmar que alguém é pessoa é reconhecer que toda pessoa possui nome, identidade, endereço e história. Não há pessoa no vácuo, desprovida de existência. Toda pessoa nascida neste mundo, sem exceção, é digna de respeito, estima e consideração. Teologicamente falando, toda pessoa está inserida na grande família de Deus, a humanidade.

        Portanto, Deus está presente nas pessoas. Estas são a sua morada. Crer nesta verdade nos impede de maltratá-las, persegui-las, enganá-las, explorá-las, humilhá-las, discriminá-las e matá-las. Amamos a Deus quando amamos as pessoas. Ele quis permanecer nelas. E é assim porque todas as pessoas formam a imagem de Deus. Neste sentido, é preciso resgatar a dignidade de todos aqueles que se encontram desfigurados, maltratados e explorados. A exploração das pessoas contraria a fé cristã. Quem tem fé em Jesus não é favorável à exploração das pessoas.

        Deus também está presente na natureza, esta natureza cansada de ser explorada pelos grandes empreendimentos humanos. Uma natureza usada e abusada para satisfazer as ambições de muitos seres que se dizem humanos. Com sua sede de dinheiro e de poder, parcela dos que dominam a economia mundial exploram e matam a vida na terra. O planeta já dá sinais claros de esgotamento, mas tais pessoas não se convertem: seguem explorando, assassinando animais e vegetais, poluindo o ar e as águas, e matando, inclusive, outros seres humanos. É necessário resgatar a dimensão sacra da natureza, e isto significa reconhecê-la como mãe que governa a todos, digna de respeito e cuidado.

        Por fim, precisamos considerar, ainda, que Deus está presente nas religiões. Queremos dar ênfase ao Cristianismo, que surgiu a partir da experiência de Jesus de Nazaré. Crer que podemos encontrar Deus no seio do Cristianismo significa dizer que encontramos a sua presença nas verdadeiras relações fraternas que ocorrem no seio de nossas Igrejas. Para que as pessoas acreditem que Deus se encontra no seio do Cristianismo é necessário que o amor seja a regra de vida das comunidades cristãs. É o testemunho do amor a Deus e ao próximo que revela o lugar de Deus. Este Deus está onde o amor pode ser encontrado: “Onde reina o amor, Deus aí está”, reza um hino cristão.

        Seguramente, podemos afirmar que Deus está na beleza de todas as criaturas: no perfume das flores, no sorriso das crianças, nos lírios do campo, na brisa suave, na chuva que cai, nas profundezas dos oceanos, no encontro e reencontro das pessoas, nas tristezas e alegrias, nas angústias e esperanças, na luta sofrida do povo, no clamor por justiça, na pele sofrida dos injustiçados, nas feridas abertas dos que agonizam; enfim, Deus é Tudo em todos. Está presente, criando e recriando todas as coisas. Hoje, é o Espírito, que concede os dons do discernimento e da visão da realidade, que nos faz ver a ação amorosa do Deus da vida e da liberdade.

        Deus está em todas as coisas porque tudo revela o seu amor. Ele nos é fiel e nos exige fidelidade. É aquele que permanece, que não se cansa de amar. E quando abertos ao seu amor, aprendemos a amar e nos sentimos amados. Aqui está o sentido da vida: Em sentir-se amado por Deus porque neste sentir o conhecemos tal como Ele é. Esta revelação é muito mais profunda, e as palavras nos faltam para falar da sua profundidade. Deus também está no silêncio...


Tiago de França

sábado, 22 de julho de 2017

Para manter a fé em meio às crises e dificuldades da vida

     
     Algumas pessoas tem nos pedido para falar da fé em meio às crises e dificuldades que se manifestam na vida. Muitas delas reclamam a falta de fé na hora em que mais precisam dela. Afinal, o que ocorre com aquelas pessoas aparentemente muito religiosas, que quando atribuladas não encontram na fé seu porto seguro para se manterem firmes?  

Vamos pensar a fé a partir da experiência missionária de Jesus de Nazaré, a fim de corrigirmos alguns equívocos que se repetem no senso comum sobre a fé e suas manifestações no cotidiano da vida.

        A fé é um dom gratuito de Deus. Isto significa que não é recebida por herança dos nossos antepassados nem é dada pela religião. A fé não pode ser possuída porque não é uma coisa; nem é passível de manipulação porque o dom divino não se submete aos conceitos oriundos da inteligência humana. 

As pessoas manipulam o que elas mesmas inventam. A fé não é invenção humana. A religião está para a fé como o telhado está para a chuva: o telhado somente serve para acolher a água e deixá-la escoar.

        Geralmente, as pessoas pensam que todo aquele que pratica a religião possui o dom da fé. É um equívoco pensar dessa forma. Quem assim pensa, na verdade, confunde religião com fé. Estas realidades são distintas: a fé vem de Deus, a religião vem dos homens. A religião nasceu da inteligência humana, e esta produz cultura. Religião é um produto cultural.  

A fé, enquanto dom divino, pode se manifestar dentro e fora da religião. Por isso, por mais religiosa que seja uma pessoa, pode ocorrer que não tenha fé. As práticas religiosas podem promover a fé, mas também podem impedir que se manifeste e até extingui-la.

        Neste sentido, é possível encontrar no interior das Igrejas cristãs pessoas altamente perigosas: vingativas, ladras e assassinas, amantes do dinheiro, do prestígio e do poder, inimigas do projeto de Deus, que é o seu Reino. Há uma outra parcela que vive mergulhada na ilusão e na ingenuidade, que, enganadas por seus pastores, praticam uma falsa religião, com a repetição incansável de práticas religiosas que não conduzem ao amor a Deus e ao próximo.

Portanto, frequentar o culto religioso não é sinônimo de fé. Uma coisa é a fé, outra são as manifestações da fé. Enquanto dom, a fé é sempre verdadeira. Já as manifestações da fé podem ou não ser falsas. Atualmente, há muitas manifestações falsas de fé.

        As pessoas que vivem mergulhadas na ilusão e na ingenuidade religiosas não conseguem se manter de pé quando atingidas pelas crises e dificuldades. Para manter-se de pé é necessária uma fé amadurecida, consciente de si mesma, totalmente voltada para Deus. Uma fé capaz de levar à comunhão plena com Aquele que a concedeu.  

Há quem leia a Bíblia, frequenta o culto, dar o dízimo, trabalha na pastoral, recebe a Eucaristia, mas tem o coração longe de Deus. Como confia em Deus a pessoa distante dele? Como vai se sentir amada por Ele se a preocupação é somente voltada para manter aparência religiosa? Jesus revelou que Deus não deseja adeptos religiosos, mas quer filhos entregues ao amor.

        Há um salmo na Bíblia que fala que “quem confia no Senhor é como o monte de Sião, nada o pode abalar porque é firme para sempre”. A confiança em Deus é precedida pela aproximação. Aproximar-se de Deus significa abrir o coração para acolhê-lo, pois é Ele que vem ao encontro da pessoa. A iniciativa do encontro é sempre dele. A Escritura ensina que Ele nos amou primeiro, e este amor ensina a amar.  

É no seu amor que aprendemos a amá-lo sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. Somente quem se deixa amar por Deus é capaz de confiar nele. É seu amor que gera a virtude da confiança em nós. O amor de Deus também confere o conhecimento de Deus, e porque conhecemos, podemos confiar. Não se ama o que não se conhece. Para o enfrentamento das crises e dificuldades pessoais é necessária esta fé: livre, madura, filha do amor que gera a confiança em Deus.

A fé tem a força de livrar e libertar a pessoa do vazio existencial, vazio que é fruto da crise de sentido da vida, que marca os tempos pós-modernos. Deus é o Pai amoroso que liberta do abismo do vazio. A sua presença preenche a vida daquele que crê. Esta mesma presença é a única capaz de fazer o crente conhecer e sentir a verdadeira alegria e felicidade. A fé é o único caminho que faz a pessoa conhecer o sentido da sua vida, que se encontra em Deus. Este sentido, sem o qual ninguém vive, não pode ser encontrado no dinheiro, no prestígio e no poder. As pessoas se perdem no vazio porque nestas coisas procuram o sentido e a felicidade da vida.

No campo social e político, a pessoa de fé enraizada em Deus não foge da sua responsabilidade. A fé orienta a pessoa para a ação política, pois, segundo o Evangelho de Jesus, esta mesma fé possui uma dimensão profundamente política, que não pode ser ignorada. Peca gravemente a pessoa que diz ter fé e não se posiciona politicamente.

Atuar politicamente, a partir da fé, significa anunciar e construir uma nova humanidade, profundamente marcada pela justiça, pelo amor e pela verdade. A fé no Deus e Pai de Jesus leva, necessariamente, ao engajamento político e social. Assim, o cristão, pessoa de fé, não se cala diante da injustiça, e encontra-se em estado permanente de protesto. A política se torna, desse modo, a “mais alta forma de caridade” (expressão do Papa Paulo VI). Quem ignora a dimensão política da fé, ignora também o sentido e alcance da realidade do Reino de Deus no mundo.  
       

Tiago de França

quarta-feira, 12 de julho de 2017

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONDENAÇÃO DO EX-PRESIDENTE LULA

Após um mês sem ter tempo para dar continuidade à publicação de nossos artigos, eis que agora podemos retomá-los. Reiniciamos com uma breve análise: algumas considerações sobre a condenação do ex-presidente Lula. Hoje, o juiz Sérgio Moro condenou o ex-presidente a nove anos e seis meses de prisão.

Tendo lido a sentença penal condenatória, publicada pelo mencionado juiz federal, alguns aspectos nos chamaram a atenção, entre os quais algumas “provas” consideradas pelo juiz para condenar o réu.  O juiz se serviu de rasuras encontradas no apartamento do ex-presidente, rasuras que não apontam registro de propriedade do tríplex. Rasuras que contém a escrita de números soltos. A rasura em si não constitui prova porque não indica nada. Mas para quem já tinha a convicção prévia da condenação, a rasura serviu para justificá-la. No direito brasileiro, só era o que faltava: rasuras com escritos que nada indicam se transformam em prova robusta!

Outra “prova” aceita pelo juiz para justificar a condenação foi a existência de uma reserva do tríplex para o ex-presidente e sua falecida esposa. A mera reserva, sem a efetiva compra e registro do imóvel, se transformou em prova cabal, na concepção do juiz. Segundo este, reserva é sinônimo de propriedade. Ao que parece, o juiz entende que a mera proposta de compra e venda transfere a titularidade do imóvel. Trata-se de um entendimento que não se sustenta em lugar nenhum.

A OAS Empreendimentos sempre teve total disponibilidade sobre o imóvel. Considerando o caráter empreendedor da empresa, é evidente a necessidade de melhoramentos em vista da venda do imóvel para quem quer que seja. O juiz cogitou que a empresa reservou, fez os melhoramentos e transferiu a propriedade ao ex-presidente. Não há uma prova sequer nem da reserva, nem da encomenda dos melhoramentos, nem da transferência. O juiz copiou a acusação genérica do Ministério Público, que acusou, mas não apresentou provas suficientes.

Outra “prova” um tanto curiosa, considerada pelo juiz, para justificar a condenação foi a reportagem de jornal. Isso mesmo! No Brasil, o juiz usa até reportagem de jornal para condenar, criminalmente, uma pessoa. Qual o problema desta “prova”? Reportagem de jornal, principalmente do jornal O Globo, não constitui prova contra ninguém. O que faz um jornal? Recorta a notícia e oferece a narrativa dos fatos de acordo com seus interesses, sem, na maioria dos casos, nenhum compromisso com a verdade. É conhecida a perseguição das Organizações Globo ao ex-presidente. Sabendo disso, o juiz sentenciante utilizou justamente reportagem do mencionado jornal como se ela fosse prova suficiente para elucidar a verdade dos fatos.

O depoimento de delator, criminoso confesso, portanto, interessado nos benefícios do acordo de delação; depoimento dado sem nenhum compromisso com a verdade, foi utilizado pelo juiz como prova. Quem entende o mínimo do instituto da delação premiada sabe que a palavra do delator não constitui prova contra quem quer que seja. A palavra do delator é meio para obtenção de prova.

O juiz Moro ignorou este entendimento jurisprudencial, adotado, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal. No dia em que a palavra de um delator for considerada prova suficiente para condenar alguém, então, pode-se entender que não é necessária a investigação do conteúdo da delação. Uma vez o delator falando, de plano, a sua palavra seria considerada verdadeira, espécie de verdade dogmática, inalcançável pelo contraditório. Mas não é esta a realidade do instituto nem é este o entendimento jurisprudencial adotado no Brasil.

Contra o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, o juiz Moro já tinha utilizado a mesma façanha, condenando-o a mais de quinze anos de prisão; condenação que foi “fundamentada” na palavra de delatores. Os desembargadores que revisaram a sentença absolveram o réu porque não se pode condenar alguém, baseando-se somente em delações premiadas.

Sem a devida investigação do conteúdo da delação, é totalmente absurda a confiança na palavra de criminoso confesso. Mas parece que o juiz Moro não aprendeu a lição, e resolveu repetir a dose. Se os mesmos desembargadores se mantiverem fieis à jurisprudência vigente, o juiz de Curitiba vai passar vergonha novamente.

Curiosamente, além destas hipóteses inconsistentes de provas, o juiz aproveitou o espaço da sentença para fazer juízo político do ex-presidente. Este, em depoimento ao magistrado, afirmou, categoricamente, que o processo era para julgar a sua conduta política, dada a ausência de crime. Na ocasião, o juiz negou esta possibilidade; mas na sentença, entrou em contradição: teceu elogios ao ex-presidente, por este ter se dedicado a implementar medidas eficientes de combate à corrupção, e na parte dispositiva da sentença, justificou que não decretou a prisão preventiva do ex-presidente porque isto configuraria uma situação traumática. Trata-se de pura conveniência pessoal, e não processual. Puro capricho do juiz sentenciante. A lei processual penal não respalda este tipo de conduta judicial.

Ao finalizar a sentença, condenando o ex-presidente à pena privativa de liberdade, o juiz copiou parte da exposição do PowerPoint utilizada pelos membros do Ministério Público quando da coletiva de impressa, para fechar com chave de ouro a sua longa e exaustiva sentença penal condenatória. Nesta parte, mencionou possíveis ligações do ex-presidente com os desvios ocorridos na Petrobrás, por meio de possíveis acordos entre o réu e a OAS para assaltar os cofres da estatal.

O juiz somente menciona, mas sem fazer referência à prova nenhuma. Esta parte da sentença faz lembrar os inimigos do ex-presidente que, apaixonadamente, o acusam de ter sido o responsável pelo maior escândalo da história do Brasil, ignorando totalmente a história porque não a estudam. Trata-se de argumento falacioso, que não merece crédito porque desprovido de conteúdo passível de verificação.

Dada esta breve análise de algumas partes curiosas da frágil e descabida sentença do juiz de Curitiba, cabe-nos, ainda, responder à pergunta que não quer calar: A quem interessa a condenação do ex-presidente Lula? Todos sabemos da resposta, mas vale a pena repetir para jamais esquecermos: Interessa, em primeiro lugar, ao PSDB e os partidos coligados que apoiam o nome que este partido vai lançar nas eleições presidenciais de 2018.

As pesquisas de intenção de voto apontam o ex-presidente Lula vitorioso em todos os cenários possíveis, e isto constitui a dor de cabeça do PSDB e da elite brasileira. Neste sentido, a notícia da condenação do ex-presidente acalmou um pouco a dor de cabeça dos caciques do PSDB, partido eternamente fiel aos interesses do mercado e do capital financeiro internacional.

Assim, a condenação do ex-presidente veio numa boa hora para o PSDB, mesmo sabendo que o senador Aécio Neves está praticamente queimado na opinião pública, devido às provas que apareceram nos escândalos de corrupção envolvendo a sua “ilibada” conduta! A sorte do senador tucano é que goza do apadrinhamento por parte de juízes importantes da alta Corte de justiça do País, pois, do contrário, já estaria preso.

Enquanto o juiz Moro condena o ex-presidente Lula, baseando-se em rasura, reportagem de jornal, depoimento de criminoso confesso e outras suposições, o STF devolveu o exercício do mandato do senador tucano porque o considera “chefe de família, com carreira política elogiável”, palavras do ministro Marco Aurélio Mello.

Há, por fim, uma outra questão reveladora: Por que somente hoje, 12 de julho, o juiz Moro resolveu sentenciar o ex-presidente? Nesta semana estão acontecendo dois grandes escândalos em Brasília, que tomaram a cena política nacional: a aprovação da reforma trabalhista no Senado e a discussão da denúncia contra Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Para tirar o foco destes escândalos, o juiz Moro resolveu fazer com que o povo brasileiro se voltasse para o ex-presidente Lula, numa tentativa desesperada de acelerar a sua inelegibilidade. Enquanto isso, Michel Temer usa o dinheiro público para, através de emendas aos parlamentares, comprar votos para escapar da possível autorização para instauração de ação penal no Supremo Tribunal Federal.

A condenação do ex-presidente Lula é uma prova incontestável da politização do Judiciário brasileiro. Incansavelmente, temos dito que a justiça brasileira tem se mostrado cada vez mais seletiva: condena uns, absolve outros, de forma absurdamente arbitrária. Portanto, é mentira que a justiça está passando o Brasil a limpo. Onde há seletividade não há justiça, mas manutenção da corrupção porque os grandes corruptos, milionários, continuam rindo da cara do povo.

Alguns destes criminosos milionários são frequentadores assíduos dos gabinetes e residências de juízes e de outros operadores importantes do Direito. Como a justiça pode passar o Brasil a limpo se o réu almoça, janta e toma uísque com o juiz que vai julgar seu processo?... Assiste-se a uma escandalosa banalização da ideia de justiça. A realidade tem demonstrado que o Judiciário serve para aplacar a ira dos fracos e manter os privilégios dos ricos.

Os pobres continuarão sendo vítimas dos desvios do dinheiro público porque o Judiciário se mostra demasiadamente tendencioso na aplicação da lei. Os criminosos de colarinho branco que ocupam o parlamento brasileiro são tão descarados que até elogiam a operação Lava Jato, pois sabem que ela não os alcançará, uma vez que são criminosos de direita, totalmente atrelados ao mercado financeiro, que domina a política brasileira e afronta o Judiciário.

Pelo que se vislumbra a curto prazo, esta situação irá permanecer. Pensar que a justiça brasileira passou a punir a elite, de forma imparcial, destemida e eficaz, seria uma ilusão. Sejamos realistas, e a realidade nos diz, que do ponto de vista ético e moral, as instituições da República brasileira chegaram ao fundo do poço. E o povo está tão cansado de saber que “tudo não vai dar em nada!”, que prefere assistir calado. A descrença é tão evidente quanto a cegueira e a apatia. Vivemos tempos sombrios.

Tiago de França

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Optar pelo amor. Pensamentos (XLII)

Quem opta pela paixão, com ela passa. Quem opta pelo amor, com ele permanece.

Tiago de França

domingo, 11 de junho de 2017

Deus é amor

       
        Jesus revelou a verdadeira imagem de Deus. Aliás, mais que uma imagem, revelou a verdadeira face de Deus. E o que revelou? Que Deus é amor. O Pai, o Filho e o Espírito Santo formam a Comunidade do Amor. O amor é como que o conteúdo que dá existência ao mistério do Deus Uno e Trino.  

Deus não existe fora do amor porque é amor. Ele somente sabe amar e é incapaz de ter e alimentar ódio de suas criaturas e do homem, criado à sua imagem e semelhança. No mistério da Trindade todas as coisas são regeneradas e recriadas. Enquanto amor, Deus recria todas as coisas, impedindo que pereçam.

        A revelação bíblica, do Gênesis ao Apocalipse, mostra tudo o que existe foi criado por amor, pelo amor e para o amor. Portanto, toda a criação tem a sua origem no amor e terá o seu fim no amor. Sendo amor, Deus está no começo e no fim; Ele é a fonte da vida, seu sentido e seu fim. Acolher o mistério da Trindade é reconhecer Deus como infinito amor, doação plena, fonte da vida, alegria da criação, felicidade sem fim.  

Acolher o mistério da Trindade, o Amor por excelência, também significa experimentar na vida este mistério de amor. Somente quem ama conhece a Deus. Por isso, para compreender o mistério da Trindade é preciso amar; amar na verdade e na liberdade, até às últimas consequências. Não há outro caminho.

        O amor revela a dinâmica do mistério da Trindade. Mas como amar? Há uma forma própria de amor, para se alcançar o conhecimento deste mistério insondável? A resposta é positiva. É preciso amar como Jesus amou: na verdade, na liberdade e na opção pelos últimos. É verdade que não há neste mundo alguém que possa amar tão perfeitamente como Jesus amou. Somos pecadores e amamos a partir de nossas imperfeições. 

Mas é verdade também que o amor de Deus é mais perfeitamente praticado quando reconhecemos as nossas imperfeições, pois a graça de Deus se manifesta a partir de nossas fraquezas. Deus manifesta seu amor quando, humildemente, diante dele, assumimos a nossa realidade pecadora e clamamos a sua misericórdia.

        Amar como Jesus amou é doar-se no serviço ao próximo: os pais se doam quando assumem com responsabilidade a criação e educação dos filhos; o professor se doa na difícil arte de lecionar quando desperta a consciência crítica de seus alunos; o político se doa quando não desvia o dinheiro público, visando sempre o bem comum; os empregadores se doam quando respeitam seus empregados, assegurando-lhes e promovendo-lhes os direitos trabalhistas; o líder religioso se doa quando não usa do ofício religioso para ser servido, mas empenha-se a dar a própria vida pela vida do rebanho do Senhor; enfim, amar como Jesus amou é doar-se, é sair de si na direção do outro, é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

        Pessoas egoístas são incapazes de conhecer e experimentar o mistério da Trindade, portanto, incapazes de amar a Deus e ao próximo. O egoísta somente enxerga a si mesmo e em tudo busca satisfazer seus próprios interesses. Não sabe o significado prático da palavra doação. Para ele, doar-se é fazer papel de tolo. O mundo está cheio de pessoas egoístas, que usam da esperteza para se aproveitar dos outros.  

Com muita facilidade, os egoístas se deixam corromper porque, em suas vidas, em primeiro lugar está seu próprio bem e não o bem comum. Enxergam a vida como um campo vasto de possibilidades para a satisfação de seus objetivos e sonhos pessoais. Não se importam com o bem comum, pois acreditam que todas as pessoas são “átomos de egoísmo” e que cada um deve se virar como pode, sem a colaboração dos outros, fora do espírito da verdadeira fraternidade.

        Não se vive o amor, que revela o mistério trinitário, no isolamento. Neste não há amor. Pessoas isoladas não amam. O verdadeiro amor não existe em função da própria pessoa. Em outros termos, ninguém nasceu neste mundo somente para amar a si mesmo. Na verdade, não há amor a si mesmo sem amor ao próximo. O amor só existe em função do outro.

Amar é abrir-se ao outro. Quem despreza o próximo jamais pode dizer que ama e conhece a Deus. Tal declaração seria mentirosa. É neste sentido que o apóstolo João afirma que todo aquele que diz que ama a Deus e não ama o próximo é mentiroso (1 Jo 4, 20). Não se ama a Deus odiando o próximo. Quem assim procede está na mentira, jamais na verdade.

        Nas Igrejas cristãs encontramos muita falta de amor: pessoas sendo desprezadas, humilhadas, excluídas, julgadas e condenadas. Em matéria religiosa, teologicamente falando, não se pode afirmar que a acolhida do Amor passa, necessariamente, pelo cumprimento fiel das normas e regras religiosas. Jesus não pediu a instauração de normas e regras, mas ensinou a amar. A prática do amor exige, muitas vezes, a desobediência de normas e regras religiosas.

O próprio Jesus, para amar e ensinar o mandamento do amor, teve que desobedecer a vários preceitos religiosos do Judaísmo. Um exemplo clássico para ilustrar nossa meditação: diante da mulher pega em flagrante adultério, a lei mandava apedrejá-la em praça pública (cf. Jo 8, 1 – 11). E o que fez Jesus? Ensinou que a lei orientava o oposto do amor. Ensinou a amar aquela mulher porque a sua salvação estava no amor. O amor restaura o pecador, não as penas da lei.

        Neste sentido, o Papa Francisco tem feito um bem enorme à Igreja e à humanidade, quando exorta às pessoas de fé, bem como aquelas mulheres e homens de boa vontade que não são católicos nem cristãos, a acreditarem no amor. Acertadamente, fiel ao Evangelho de Jesus, o Papa tem chamado a atenção para o valor da vida e do amor. Em seus escritos, discursos e gestos, tem insistido na necessidade do amor. Torna-se cada vez mais urgente amar o próximo e a natureza, frutos da generosidade divina.

Quem ama não faz mal a ninguém porque reconhece que o mal é incompatível com o amor. Quem ama somente pode fazer o bem. Assim, o amor é a vocação primeira de todo ser humano. O amor ultrapassa os limites das culturas e religiões. Não há humanidade sadia sem o amor, não há pessoa humana fora do amor. Desprovida de amor e desprezando-o, a espécie humana se torna a mais perigosa, com infinito potencial destruidor da vida no mundo.

        Acreditar em Deus é crer no amor. E quem crer no amor vive segundo o amor. E quem vive segundo o amor conhece a Deus, encontrou a paz e é feliz. Quem ama experimenta, de fato, a vida. É o amor que nos dá a certeza de que a passagem neste mundo não é sem sentido. Quem se fecha à possibilidade do amor, que constitui o sentido da vida, realmente não vive, mas apenas ocupa lugar no espaço. A vida no mundo depende do amor. Quem não ama já perdeu a vida, apenas espera a morte fazer desaparecer o corpo.

Quem ama não morre, mas mergulha no reino da liberdade e da vida sem fim. Quem ama se torna morada da Trindade e torna-se, com Ela, um só mistério de amor. Não há palavras para descrever esta comunhão de amor. Quem quiser conhecer, precisa experimentar. É uma experiência linda de viver!


Tiago de França