quarta-feira, 12 de julho de 2017

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONDENAÇÃO DO EX-PRESIDENTE LULA

Após um mês sem ter tempo para dar continuidade à publicação de nossos artigos, eis que agora podemos retomá-los. Reiniciamos com uma breve análise: algumas considerações sobre a condenação do ex-presidente Lula. Hoje, o juiz Sérgio Moro condenou o ex-presidente a nove anos e seis meses de prisão.

Tendo lido a sentença penal condenatória, publicada pelo mencionado juiz federal, alguns aspectos nos chamaram a atenção, entre os quais algumas “provas” consideradas pelo juiz para condenar o réu.  O juiz se serviu de rasuras encontradas no apartamento do ex-presidente, rasuras que não apontam registro de propriedade do tríplex. Rasuras que contém a escrita de números soltos. A rasura em si não constitui prova porque não indica nada. Mas para quem já tinha a convicção prévia da condenação, a rasura serviu para justificá-la. No direito brasileiro, só era o que faltava: rasuras com escritos que nada indicam se transformam em prova robusta!

Outra “prova” aceita pelo juiz para justificar a condenação foi a existência de uma reserva do tríplex para o ex-presidente e sua falecida esposa. A mera reserva, sem a efetiva compra e registro do imóvel, se transformou em prova cabal, na concepção do juiz. Segundo este, reserva é sinônimo de propriedade. Ao que parece, o juiz entende que a mera proposta de compra e venda transfere a titularidade do imóvel. Trata-se de um entendimento que não se sustenta em lugar nenhum.

A OAS Empreendimentos sempre teve total disponibilidade sobre o imóvel. Considerando o caráter empreendedor da empresa, é evidente a necessidade de melhoramentos em vista da venda do imóvel para quem quer que seja. O juiz cogitou que a empresa reservou, fez os melhoramentos e transferiu a propriedade ao ex-presidente. Não há uma prova sequer nem da reserva, nem da encomenda dos melhoramentos, nem da transferência. O juiz copiou a acusação genérica do Ministério Público, que acusou, mas não apresentou provas suficientes.

Outra “prova” um tanto curiosa, considerada pelo juiz, para justificar a condenação foi a reportagem de jornal. Isso mesmo! No Brasil, o juiz usa até reportagem de jornal para condenar, criminalmente, uma pessoa. Qual o problema desta “prova”? Reportagem de jornal, principalmente do jornal O Globo, não constitui prova contra ninguém. O que faz um jornal? Recorta a notícia e oferece a narrativa dos fatos de acordo com seus interesses, sem, na maioria dos casos, nenhum compromisso com a verdade. É conhecida a perseguição das Organizações Globo ao ex-presidente. Sabendo disso, o juiz sentenciante utilizou justamente reportagem do mencionado jornal como se ela fosse prova suficiente para elucidar a verdade dos fatos.

O depoimento de delator, criminoso confesso, portanto, interessado nos benefícios do acordo de delação; depoimento dado sem nenhum compromisso com a verdade, foi utilizado pelo juiz como prova. Quem entende o mínimo do instituto da delação premiada sabe que a palavra do delator não constitui prova contra quem quer que seja. A palavra do delator é meio para obtenção de prova.

O juiz Moro ignorou este entendimento jurisprudencial, adotado, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal. No dia em que a palavra de um delator for considerada prova suficiente para condenar alguém, então, pode-se entender que não é necessária a investigação do conteúdo da delação. Uma vez o delator falando, de plano, a sua palavra seria considerada verdadeira, espécie de verdade dogmática, inalcançável pelo contraditório. Mas não é esta a realidade do instituto nem é este o entendimento jurisprudencial adotado no Brasil.

Contra o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, o juiz Moro já tinha utilizado a mesma façanha, condenando-o a mais de quinze anos de prisão; condenação que foi “fundamentada” na palavra de delatores. Os desembargadores que revisaram a sentença absolveram o réu porque não se pode condenar alguém, baseando-se somente em delações premiadas.

Sem a devida investigação do conteúdo da delação, é totalmente absurda a confiança na palavra de criminoso confesso. Mas parece que o juiz Moro não aprendeu a lição, e resolveu repetir a dose. Se os mesmos desembargadores se mantiverem fieis à jurisprudência vigente, o juiz de Curitiba vai passar vergonha novamente.

Curiosamente, além destas hipóteses inconsistentes de provas, o juiz aproveitou o espaço da sentença para fazer juízo político do ex-presidente. Este, em depoimento ao magistrado, afirmou, categoricamente, que o processo era para julgar a sua conduta política, dada a ausência de crime. Na ocasião, o juiz negou esta possibilidade; mas na sentença, entrou em contradição: teceu elogios ao ex-presidente, por este ter se dedicado a implementar medidas eficientes de combate à corrupção, e na parte dispositiva da sentença, justificou que não decretou a prisão preventiva do ex-presidente porque isto configuraria uma situação traumática. Trata-se de pura conveniência pessoal, e não processual. Puro capricho do juiz sentenciante. A lei processual penal não respalda este tipo de conduta judicial.

Ao finalizar a sentença, condenando o ex-presidente à pena privativa de liberdade, o juiz copiou parte da exposição do PowerPoint utilizada pelos membros do Ministério Público quando da coletiva de impressa, para fechar com chave de ouro a sua longa e exaustiva sentença penal condenatória. Nesta parte, mencionou possíveis ligações do ex-presidente com os desvios ocorridos na Petrobrás, por meio de possíveis acordos entre o réu e a OAS para assaltar os cofres da estatal.

O juiz somente menciona, mas sem fazer referência à prova nenhuma. Esta parte da sentença faz lembrar os inimigos do ex-presidente que, apaixonadamente, o acusam de ter sido o responsável pelo maior escândalo da história do Brasil, ignorando totalmente a história porque não a estudam. Trata-se de argumento falacioso, que não merece crédito porque desprovido de conteúdo passível de verificação.

Dada esta breve análise de algumas partes curiosas da frágil e descabida sentença do juiz de Curitiba, cabe-nos, ainda, responder à pergunta que não quer calar: A quem interessa a condenação do ex-presidente Lula? Todos sabemos da resposta, mas vale a pena repetir para jamais esquecermos: Interessa, em primeiro lugar, ao PSDB e os partidos coligados que apoiam o nome que este partido vai lançar nas eleições presidenciais de 2018.

As pesquisas de intenção de voto apontam o ex-presidente Lula vitorioso em todos os cenários possíveis, e isto constitui a dor de cabeça do PSDB e da elite brasileira. Neste sentido, a notícia da condenação do ex-presidente acalmou um pouco a dor de cabeça dos caciques do PSDB, partido eternamente fiel aos interesses do mercado e do capital financeiro internacional.

Assim, a condenação do ex-presidente veio numa boa hora para o PSDB, mesmo sabendo que o senador Aécio Neves está praticamente queimado na opinião pública, devido às provas que apareceram nos escândalos de corrupção envolvendo a sua “ilibada” conduta! A sorte do senador tucano é que goza do apadrinhamento por parte de juízes importantes da alta Corte de justiça do País, pois, do contrário, já estaria preso.

Enquanto o juiz Moro condena o ex-presidente Lula, baseando-se em rasura, reportagem de jornal, depoimento de criminoso confesso e outras suposições, o STF devolveu o exercício do mandato do senador tucano porque o considera “chefe de família, com carreira política elogiável”, palavras do ministro Marco Aurélio Mello.

Há, por fim, uma outra questão reveladora: Por que somente hoje, 12 de julho, o juiz Moro resolveu sentenciar o ex-presidente? Nesta semana estão acontecendo dois grandes escândalos em Brasília, que tomaram a cena política nacional: a aprovação da reforma trabalhista no Senado e a discussão da denúncia contra Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Para tirar o foco destes escândalos, o juiz Moro resolveu fazer com que o povo brasileiro se voltasse para o ex-presidente Lula, numa tentativa desesperada de acelerar a sua inelegibilidade. Enquanto isso, Michel Temer usa o dinheiro público para, através de emendas aos parlamentares, comprar votos para escapar da possível autorização para instauração de ação penal no Supremo Tribunal Federal.

A condenação do ex-presidente Lula é uma prova incontestável da politização do Judiciário brasileiro. Incansavelmente, temos dito que a justiça brasileira tem se mostrado cada vez mais seletiva: condena uns, absolve outros, de forma absurdamente arbitrária. Portanto, é mentira que a justiça está passando o Brasil a limpo. Onde há seletividade não há justiça, mas manutenção da corrupção porque os grandes corruptos, milionários, continuam rindo da cara do povo.

Alguns destes criminosos milionários são frequentadores assíduos dos gabinetes e residências de juízes e de outros operadores importantes do Direito. Como a justiça pode passar o Brasil a limpo se o réu almoça, janta e toma uísque com o juiz que vai julgar seu processo?... Assiste-se a uma escandalosa banalização da ideia de justiça. A realidade tem demonstrado que o Judiciário serve para aplacar a ira dos fracos e manter os privilégios dos ricos.

Os pobres continuarão sendo vítimas dos desvios do dinheiro público porque o Judiciário se mostra demasiadamente tendencioso na aplicação da lei. Os criminosos de colarinho branco que ocupam o parlamento brasileiro são tão descarados que até elogiam a operação Lava Jato, pois sabem que ela não os alcançará, uma vez que são criminosos de direita, totalmente atrelados ao mercado financeiro, que domina a política brasileira e afronta o Judiciário.

Pelo que se vislumbra a curto prazo, esta situação irá permanecer. Pensar que a justiça brasileira passou a punir a elite, de forma imparcial, destemida e eficaz, seria uma ilusão. Sejamos realistas, e a realidade nos diz, que do ponto de vista ético e moral, as instituições da República brasileira chegaram ao fundo do poço. E o povo está tão cansado de saber que “tudo não vai dar em nada!”, que prefere assistir calado. A descrença é tão evidente quanto a cegueira e a apatia. Vivemos tempos sombrios.

Tiago de França

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Optar pelo amor. Pensamentos (XLII)

Quem opta pela paixão, com ela passa. Quem opta pelo amor, com ele permanece.

Tiago de França

domingo, 11 de junho de 2017

Deus é amor

       
        Jesus revelou a verdadeira imagem de Deus. Aliás, mais que uma imagem, revelou a verdadeira face de Deus. E o que revelou? Que Deus é amor. O Pai, o Filho e o Espírito Santo formam a Comunidade do Amor. O amor é como que o conteúdo que dá existência ao mistério do Deus Uno e Trino.  

Deus não existe fora do amor porque é amor. Ele somente sabe amar e é incapaz de ter e alimentar ódio de suas criaturas e do homem, criado à sua imagem e semelhança. No mistério da Trindade todas as coisas são regeneradas e recriadas. Enquanto amor, Deus recria todas as coisas, impedindo que pereçam.

        A revelação bíblica, do Gênesis ao Apocalipse, mostra tudo o que existe foi criado por amor, pelo amor e para o amor. Portanto, toda a criação tem a sua origem no amor e terá o seu fim no amor. Sendo amor, Deus está no começo e no fim; Ele é a fonte da vida, seu sentido e seu fim. Acolher o mistério da Trindade é reconhecer Deus como infinito amor, doação plena, fonte da vida, alegria da criação, felicidade sem fim.  

Acolher o mistério da Trindade, o Amor por excelência, também significa experimentar na vida este mistério de amor. Somente quem ama conhece a Deus. Por isso, para compreender o mistério da Trindade é preciso amar; amar na verdade e na liberdade, até às últimas consequências. Não há outro caminho.

        O amor revela a dinâmica do mistério da Trindade. Mas como amar? Há uma forma própria de amor, para se alcançar o conhecimento deste mistério insondável? A resposta é positiva. É preciso amar como Jesus amou: na verdade, na liberdade e na opção pelos últimos. É verdade que não há neste mundo alguém que possa amar tão perfeitamente como Jesus amou. Somos pecadores e amamos a partir de nossas imperfeições. 

Mas é verdade também que o amor de Deus é mais perfeitamente praticado quando reconhecemos as nossas imperfeições, pois a graça de Deus se manifesta a partir de nossas fraquezas. Deus manifesta seu amor quando, humildemente, diante dele, assumimos a nossa realidade pecadora e clamamos a sua misericórdia.

        Amar como Jesus amou é doar-se no serviço ao próximo: os pais se doam quando assumem com responsabilidade a criação e educação dos filhos; o professor se doa na difícil arte de lecionar quando desperta a consciência crítica de seus alunos; o político se doa quando não desvia o dinheiro público, visando sempre o bem comum; os empregadores se doam quando respeitam seus empregados, assegurando-lhes e promovendo-lhes os direitos trabalhistas; o líder religioso se doa quando não usa do ofício religioso para ser servido, mas empenha-se a dar a própria vida pela vida do rebanho do Senhor; enfim, amar como Jesus amou é doar-se, é sair de si na direção do outro, é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

        Pessoas egoístas são incapazes de conhecer e experimentar o mistério da Trindade, portanto, incapazes de amar a Deus e ao próximo. O egoísta somente enxerga a si mesmo e em tudo busca satisfazer seus próprios interesses. Não sabe o significado prático da palavra doação. Para ele, doar-se é fazer papel de tolo. O mundo está cheio de pessoas egoístas, que usam da esperteza para se aproveitar dos outros.  

Com muita facilidade, os egoístas se deixam corromper porque, em suas vidas, em primeiro lugar está seu próprio bem e não o bem comum. Enxergam a vida como um campo vasto de possibilidades para a satisfação de seus objetivos e sonhos pessoais. Não se importam com o bem comum, pois acreditam que todas as pessoas são “átomos de egoísmo” e que cada um deve se virar como pode, sem a colaboração dos outros, fora do espírito da verdadeira fraternidade.

        Não se vive o amor, que revela o mistério trinitário, no isolamento. Neste não há amor. Pessoas isoladas não amam. O verdadeiro amor não existe em função da própria pessoa. Em outros termos, ninguém nasceu neste mundo somente para amar a si mesmo. Na verdade, não há amor a si mesmo sem amor ao próximo. O amor só existe em função do outro.

Amar é abrir-se ao outro. Quem despreza o próximo jamais pode dizer que ama e conhece a Deus. Tal declaração seria mentirosa. É neste sentido que o apóstolo João afirma que todo aquele que diz que ama a Deus e não ama o próximo é mentiroso (1 Jo 4, 20). Não se ama a Deus odiando o próximo. Quem assim procede está na mentira, jamais na verdade.

        Nas Igrejas cristãs encontramos muita falta de amor: pessoas sendo desprezadas, humilhadas, excluídas, julgadas e condenadas. Em matéria religiosa, teologicamente falando, não se pode afirmar que a acolhida do Amor passa, necessariamente, pelo cumprimento fiel das normas e regras religiosas. Jesus não pediu a instauração de normas e regras, mas ensinou a amar. A prática do amor exige, muitas vezes, a desobediência de normas e regras religiosas.

O próprio Jesus, para amar e ensinar o mandamento do amor, teve que desobedecer a vários preceitos religiosos do Judaísmo. Um exemplo clássico para ilustrar nossa meditação: diante da mulher pega em flagrante adultério, a lei mandava apedrejá-la em praça pública (cf. Jo 8, 1 – 11). E o que fez Jesus? Ensinou que a lei orientava o oposto do amor. Ensinou a amar aquela mulher porque a sua salvação estava no amor. O amor restaura o pecador, não as penas da lei.

        Neste sentido, o Papa Francisco tem feito um bem enorme à Igreja e à humanidade, quando exorta às pessoas de fé, bem como aquelas mulheres e homens de boa vontade que não são católicos nem cristãos, a acreditarem no amor. Acertadamente, fiel ao Evangelho de Jesus, o Papa tem chamado a atenção para o valor da vida e do amor. Em seus escritos, discursos e gestos, tem insistido na necessidade do amor. Torna-se cada vez mais urgente amar o próximo e a natureza, frutos da generosidade divina.

Quem ama não faz mal a ninguém porque reconhece que o mal é incompatível com o amor. Quem ama somente pode fazer o bem. Assim, o amor é a vocação primeira de todo ser humano. O amor ultrapassa os limites das culturas e religiões. Não há humanidade sadia sem o amor, não há pessoa humana fora do amor. Desprovida de amor e desprezando-o, a espécie humana se torna a mais perigosa, com infinito potencial destruidor da vida no mundo.

        Acreditar em Deus é crer no amor. E quem crer no amor vive segundo o amor. E quem vive segundo o amor conhece a Deus, encontrou a paz e é feliz. Quem ama experimenta, de fato, a vida. É o amor que nos dá a certeza de que a passagem neste mundo não é sem sentido. Quem se fecha à possibilidade do amor, que constitui o sentido da vida, realmente não vive, mas apenas ocupa lugar no espaço. A vida no mundo depende do amor. Quem não ama já perdeu a vida, apenas espera a morte fazer desaparecer o corpo.

Quem ama não morre, mas mergulha no reino da liberdade e da vida sem fim. Quem ama se torna morada da Trindade e torna-se, com Ela, um só mistério de amor. Não há palavras para descrever esta comunhão de amor. Quem quiser conhecer, precisa experimentar. É uma experiência linda de viver!


Tiago de França

sábado, 3 de junho de 2017

O Espírito Santo e o projeto de Jesus

“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

        Neste domingo, a Igreja Católica celebra, solenemente, a festa de Pentecostes. Certamente, muitos não terão a oportunidade de saber da verdadeira missão do Espírito na vida e na missão da Igreja povo de Deus em marcha na história. Geralmente, a pregação reduz a ação do Espírito ao campo da experiência particular.  

Invoca-se o Espírito para que conceda seus dons, em vista de uma vida santa, de uma santidade particular. E não é pequeno o número dos que participam de momentos de “êxtase” e “repouso”, falando da manifestação do Espírito que fala uma linguagem incompreensível, portanto, intraduzível. Ousamos dizer, para a frustração de muitos, que isto não é compatível com o que o Novo Testamento fala do Espírito Santo.

        Quem não se recorda do projeto de Jesus não pode dizer que age sob a ação do Espírito, pois este nos remete, direta e permanentemente, a este projeto libertador. E é assim porque o Pai e o Filho não enviaram o Espírito a este mundo para simplesmente se ocupar com êxtases particulares que tendem a tranquilizar o espírito humano. Em alguns casos, mais perturba que tranquiliza.

Neste sentido, o Espírito não cria no cristão uma fé intimista, que se manifesta na relação fiel – Deus. Onde fica o próximo nesta relação? E a confusão da história humana? E a planície, por acaso fica abandonada, esperando que o cristão desça da montanha da transfiguração?... Pentecostes é celebração da manifestação do Espírito, e para compreendermos bem esta manifestação, ousaremos algumas provocações de ordem espiritual.

        O Espírito está para além das fronteiras de nossas Igrejas cristãs. Nenhuma instituição religiosa tem a posse do Espírito porque este é livre e libertador. Ele age onde, quando e como quer. Não se enquadra nos esquemas humanos, por mais religiosos que sejam.

Não está em função dos projetos humanos, mas foi enviado para que o projeto de Jesus, que é o Reino de Deus, se torne efetivo no meio do mundo. Muito além das fronteiras do Cristianismo, podemos encontrar o Espírito trabalhando, habitando os corações das mulheres e homens de boa vontade, de forma silenciosa e discreta, com a força que lhe é peculiar.  

        O Espírito renova todas as coisas na perspectiva do Reino de Deus. Todas as pessoas que abrirem seus corações à generosidade e bondade divinas, recebem o Espírito. Esta generosidade e bondade já constituem frutos do Espírito. Todas as coisas são recapituladas em Cristo Jesus pela força do Espírito. Não há realidade neste mundo que lhe seja desconhecida. A sua força está presente na bondade de todas as criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus.  

Ele renova todas as criaturas para que permaneçam no espírito do seu Criador, restauradas para a sua glória. O Espírito faz as criaturas participarem da vida do seu Criador, sendo, assim, felizes. E no meio da criação está o homem, elevado em Cristo à dignidade de filho de Deus, para a manifestação definitiva da obra divina. A pessoa humana é o retrato da infinita bondade e misericórdia do Deus. O Espírito revela essa íntima unidade entre Deus e as pessoas, fazendo-lhes partícipes do seu amor.

        O Espírito é a força dos fracos e a Luz que desperta para a plenitude do Reino de Deus. Em todos os tempos e lugares há mulheres e homens que são pisados e explorados por quem detém o poder. Há uma esperança que nutre a caminhada dos fracos, os oprimidos da história. Muitas vezes, eles não sabem de onde ela vem, quem a alimenta. Sabem somente que a cada dia precisam caminhar, levantar-se do chão, reerguer-se, manter-se de pé, fazer a vida acontecer. Estas pessoas gritam, gemem de dor. São desfiguradas, abatidas, mas não totalmente vencidas. 

Elas também festejam, se alegram e cantam, e no mais profundo do seu ser, acreditam que a noite vai passar, por mais tenebrosa que seja. O evangelho revela que é o Espírito enviado a este mundo que desperta e alimenta a esperança destes empobrecidos. Iluminados e sustentados pela força do Alto reconhecem que são amados por Deus, apesar das dores e sofrimentos. Sabem que Deus permanece com eles, diuturnamente, porque é fiel, e sua fidelidade não tem fim.

        O Espírito revela o lugar do encontro com Deus e do movimento cotidiano de seu Reino. Há lugares nos quais podemos encontrar Deus agindo. Geralmente, para estes lugares não queremos ir. E é assim porque estes lugares não são confortáveis, mas incômodos. Lá está o rosto de Jesus que nos questiona, que coloca o dedo na nossa ferida. O rosto de Jesus nos faz enxergar a nossa preguiça, a nossa covardia, a nossa omissão. Queremos viver deitados na rede, tomando água de coco, ou seja, queremos o conforto de nossas capelas, algumas até com ar condicionado.  

Enquanto isso, Jesus nos espera lá na periferia. Não gostamos dessa palavra. Ela nos dá medo. A sociedade, marcada pela mentira e pela hipocrisia, nos induz a pensar que na periferia só tem o que não presta. Fala-se que lá estão as pessoas imundas, sujas, pecadoras, impuras. O Espírito nos revela que Jesus possui exatamente estas características: é imundo, sujo, considerado pecador e impuro. E é assim porque é o Verbo encarnado na periferia do mundo.

No Reino definitivo assistiremos a um escândalo quando estivermos diante do verdadeiro Cristo Jesus: com cara de homem da periferia, homem próximo das pessoas mal afamadas. O Espírito revela que quem quiser conhecer Jesus cuide em se adaptar às periferias existenciais. Cada um precisa conhecer as periferias de sua vida, de seu contexto.

Jesus costuma habitar os lugares e as pessoas que nos causam certa repugnância. E por mais que não aceitemos esta verdade evangélica, ela permanece para sempre porque Deus é o mesmo, ele não muda para satisfazer os nossos gostos e nossos medos. O Reino de Deus está acontecendo nas alegrias, esperanças, angústias, na dor e nas festas dos empobrecidos. Estes são bem-aventurados porque possuem a visão de Deus.

        O Espírito nos faz entrar no reino da liberdade sem fim. Neste mundo, há quem pensa que o poder, o dinheiro e o prestígio libertam. As pessoas se apegam a estas coisas e pensam que são felizes. Confundem conforto material com felicidade. A mediocridade é a palavra que traduz o significado da vida que levam. Contra o mal da mediocridade, a ação amorosa do Espírito é o remédio. Quem faz a experiência da comunhão com o Espírito está livre da sede pelo poder, dinheiro e prestígio.  

Na verdade, os que vivem sob a ação do Espírito fogem do mal do poder, do dinheiro e do prestígio. O Espírito não confere poder humano a ninguém. A sua marca é a da fraqueza. Esta manifesta a sua força. Todas as pessoas espirituais são humanamente frágeis, não possuem poder para nada. O poder que o Espírito confere é o do testemunho. Trata-se de um poder superior a qualquer outro, capaz de arrastar multidões para o caminho de Jesus.

As mulheres e homens espirituais não acumulam dinheiro, não o possuem, mas apenas utilizam-no para a satisfação das necessidades básicas. Elas sabem que vivem da graça de Deus, que as assiste na hora certa. O prestígio não constitui a meta da vida dos que vivem segundo o Espírito. Quando se tornam conhecidas é por causa do seu testemunho, que é como a luz sobre os telhados, para a edificação do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja povo de Deus. Não buscam o sucesso nem o prestígio, mas a discrição, o silêncio, a clandestinidade. Longe dos holofotes da mídia podemos encontrar inúmeros discípulos missionários de Jesus, guiados pelo Espírito.

        Por fim, é preciso considerar que o Espírito liberta o cristão de certa imagem falsa de si mesmo. Ele o faz enxergar e aceitar a verdade de si mesmo. Por isso, é o Espírito que liberta da mentira e da ilusão, abrindo os olhos do crente para que encontre Deus na realidade do mundo. Esta liberdade aponta para a paz de espírito. Toda pessoa que se encontrou consigo mesma conhece a verdadeira paz porque se encontrou com Deus.  

O resultado é que a pessoa se liberta das preocupações e das ambições. Despoja-se das pretensões, passando a buscar somente o Reino de Deus e sua justiça. Quem vive à procura daquilo que o mundo oferece: poder, prestígio e dinheiro, já perdeu a paz. Vive inquieto, perturbado, leva uma vida seca, sem vida. Somente as pessoas livres no Espírito é que conhecem a verdadeira alegria de viver. As demais, gozam da falsa alegria, que o mundo é capaz de dar: uma alegria passageira, que esconde o vazio e as trevas de uma vida sem sentido.

Todos os que permanecem no Espírito são alegres, disponíveis, generosos e transparentes como água cristalina. O mundo e nossas Igrejas precisam cada vez mais de pessoas verdadeiramente livres, conscientes de sua missão no mundo, ungidas pelo Espírito, capazes de amar até às últimas consequências. Esta é a vontade de Deus. Isto é o que o Espírito nos diz nesta hora tão difícil de nossa história. Oremos para que o Espírito nos empurre para o meio do mundo, para darmos testemunho do amor de Deus e de sua justiça. Este é o caminho que conduz a Deus. Que o Espírito permaneça em nós, para sempre, libertando-nos de nossos demônios interiores, para sermos missionários do Reino do Pai.


Tiago de França

sábado, 27 de maio de 2017

A presença de Jesus, o cristão e os escândalos de corrupção

“Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (Atos 1, 11).

        O relato da ascensão de Jesus aos céus pode ser uma excelente oportunidade para meditarmos sobre o mistério de sua presença entre nós. Certamente, alguns pregadores católicos enfatizarão o movimento da subida de Jesus ao céu. Na verdade, Jesus nos chama a atenção para a sua permanência entre nós, pois não nos deixou órfãos. Ele não nos abandona para ir viver confortavelmente em outra dimensão. Ascensão é, na verdade, movimento de descida para a realidade conflituosa da vida.

        Nossa tendência é justamente repetir o gesto dos discípulos de Jesus, que ficaram parados olhando para o céu. Viver parado, olhando para o céu, é a atitude do cristão acomodado, que aprendeu a adorar Jesus no silêncio da capela do Santíssimo. Para quem é católico, não discordamos da importância da adoração silenciosa numa bela capela ou templo religioso. Mas precisamos ser contemplativos na ação. Sempre há algo que pode ser feito, por mais insignificante que pareça ser. Podemos celebrar a ascensão de Jesus, fazendo-o presente na simplicidade de nossa ação.

        Muita coisa ruim anda acontecendo no mundo, especialmente no Brasil. Nesta semana que passou, em terras paraenses, dez pessoas foram assassinadas. Segundo testemunhas, as polícias civil e militar chegaram atirando: as vítimas sequer puderam reagir. Anteriormente, um segurança de uma fazenda foi assassinado. Pelo que se conhece na região, este é o resultado do poder dos fazendeiros, que matam, impiedosamente, com o apoio da polícia. Dada a impunidade que impera no País, será mais uma chacina a cair no esquecimento. Os que foram assassinados são pessoas pobres, e estes não contam para a justiça. No Brasil, a morte de um trabalhador pobre não significa nada.

        A ascensão de Jesus é um mistério que se celebra na vida destes pobres trabalhadores e suas famílias. Certamente, há mulheres e homens indignados por esta injustiça, que se repete, escandalosamente. No Pará, há os irmãos da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, que estão denunciando este crime. Há também membros da Ordem dos Advogados do Brasil, que exigem investigações. No Judiciário, deve existir operadores preocupados com esta terrível situação. Em toda parte, há pessoas que não compactuam com o derramamento de sangue de pessoas que lutam por seus direitos. Nestas pessoas, manifesta-se o mistério da presença de Jesus.

        Além deste fato estarrecedor, que revela o quanto precisamos de um Judiciário que, de fato, funcione, também assistimos ao agravamento da crise política. Nosso atual Presidente é descarado: apesar das denúncias de corrupção, com as devidas provas oferecidas por um dos donos da JBS, insiste em se manter no cargo. O apego ao poder a qualquer custo é algo doentio e deplorável. Mesmo fazendo mal ao País, Michel Temer zomba da cara dos brasileiros, e insiste em permanecer no poder.

É tanta podridão, envolvendo também operadores do Judiciário, que este não sabe que rumo tomar. No mesmo Judiciário, os amigos do Presidente pendem para a impunidade, e já falam de indulto ao Michel Temer. Outros, apontam para o caminho da devida e necessária punição. A situação do Judiciário, de modo geral, é de total parcialidade. Em nome da amizade com corruptos, manipula-se a lei, escancaradamente. Aos inimigos, a lei; aos amigos, a impunidade.

O que um seguidor de Jesus pode fazer diante de uma situação dessas? É necessário manter viva a esperança. Mas não uma esperança passiva. O cristão é chamado a profetizar: crer na verdade e anunciá-la. E a verdade está na realidade dos fatos. Estes falam por si, independentemente de interpretação. É preciso aprender a ler os acontecimentos à luz da presença de Jesus.

No evangelho, Jesus ensina que o cristão deve permanecer do lado de quem está sendo enganado e explorado. Assim, o nosso lado é o dos pobres do povo brasileiro. Há muita gente pobre, que está sendo vítima das ditas “reformas” que o corrupto Michel Temer está fazendo. Jesus permanece presente na vida dos pobres do povo, e quem o segue deve permanecer com ele na vida de seu povo.

Esta é a opção de Jesus: os pobres sofredores do povo. Por isso, nas Igrejas e comunidades cristãs, todos aqueles que aderem aos discursos e práticas dos opressores se colocam na contramão do evangelho, e são dignos que serem chamados de inimigos do povo de Deus. Todos os corruptos são inimigos do povo de Deus, devendo ser desmascarados e punidos. São filhos do demônio, o pai da mentira e do roubo.

E por mais que ostentem amizade com padres, bispos e pastores, tanto católicos quanto protestantes, não deixam de ser discípulos e agentes de Satanás. Sabemos bem que Satanás é sinônimo de divisão, mentira e destruição, e é justamente isso que os corruptos fazem: dividem, mentem e destroem a vida, saqueando o dinheiro do povo brasileiro. Se há pastores que os abençoam, não o fazem em nome do Deus e Pai de Jesus, mas em nome de Satanás, pai da mentira e da confusão. Deus não abençoa quem rouba e mata as pessoas.

Celebrar a ascensão de Jesus é crer que ele permanece fiel, e sua fidelidade é um convite para também sermos fieis a Deus, praticando a justiça para que surja a paz. A alegria da sua presença nos transforma em missionários da justiça do Reino de Deus, incansáveis peregrinos neste mundo, firmes e fortes até às últimas consequências.

Que o Espírito de Jesus nos liberte de toda e qualquer alienação e desespero, a fim de que o Reino de Deus se torne realidade entre nós. Vamos nos manter de pé, combatendo a mentira e denunciando as forças do anti-Reino e seus agentes. Somos da parte de Deus. Ele nos envia, nos confirma e nos anima na fé, no amor e na esperança. Avante, sempre!


Tiago de França

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A gravidade da crise política brasileira

É muito grave a situação política do Brasil. Vive-se numa realidade que podemos denominar antipolítica, pois a verdadeira política é o oposto daquilo que estamos assistindo. Retrospectivamente, o que ocorreu? Em agosto de 2016, sem provas de crime de responsabilidade, derrubaram a Presidenta Dilma Rousseff.

As pedaladas fiscais, motivo alegado para a sua queda, imediatamente após o processo de impedimento, foram consideradas legais. Hoje, os chefes do poder executivo podem pedalar à vontade! O processo contra a Presidente Dilma tinha que ter um motivo, e as pedaladas constituíram, para aquela situação específica, crime de responsabilidade.

Michel Temer chega ao poder, apoiado por todos aqueles que se empenharam em derrubar Dilma Rousseff: PSDB, DEM, empresários, juristas, juízes, procuradores e tantos outros. Uma vez empossado, não perdeu tempo: anunciou “reformas” que tiveram e continuam tendo o único objetivo de reforçar o poder dos ricos e enfraquecer a força dos pobres.

Com o apoio de um segmento forte do Judiciário, a Constituição começou a ser violada, vergonhosamente. Em nome da ordem e do progresso, passou-se a ceifar os direitos adquiridos a duras penas.

No silêncio da madrugada e no sigilo dos telefonemas, e-mails e encontros, o governo e seus apoiadores continuaram fazendo o que mais sabem fazer: cometer ilícitos, faturando milhões e milhões de reais. Como todo criminoso costuma deixar rastro, nem que seja discreto e quase imperceptível, a bomba explodiu!

Além da grande Odebrecht, chegou a vez da JBS. Delatores firmaram acordos com a Justiça e resolveram dar nomes aos bois. Como era de se esperar, Michel Temer e Aécio Neves, até então intocáveis, passaram a ocupar o centro das atenções: estão sendo acusados pela Procuradoria-Geral da República de articularem meios de obstruir o trabalho da Lava Jato.

Além de obstrução de justiça, conduta grave e ilícita, os mesmos formam um trio criminoso: soma-se à periculosidade dos dois, o ex-deputado Eduardo Cunha, que se encontra preso. Amigo pessoal do ainda Presidente Temer, Eduardo Cunha não quer perder a posição: ocupa lugar central na seara da antipolítica brasileira. Temer sabe do quanto seu amigo é perigoso, caso este se torne seu inimigo.

Eduardo Cunha detém a força de derrubar dois presidentes, consecutivamente. O segundo cairá se abandoná-lo, isolando-o na prisão, sem dar-lhe a devida assistência, inclusive financeira. Centenas de políticos em Brasília estão na mira de Eduardo Cunha, que os tem na palma de suas mãos, pois com ele formaram uma das organizações criminosas mais fortes e eficientes da história recente do Brasil.

Nunca antes na história do País a justiça investigou, processou e prendeu tantos criminosos ricos como agora. As provas são robustas e inúmeras: fotos, vídeos, áudios, documentos. Mediante prova, a justiça tem que condenar. A lei processual penal dispõe de condenação mediante provas.

O judiciário tem a grande chance de se redimir perante a sociedade, considerando que é do conhecimento de todos, que o judiciário, historicamente, sempre ignorou os crimes praticados pelos ricos, em detrimento dos pobres. Parcela do judiciário está envolvida, quer na prática de crimes, quer na omissão, recusando-se a julgar os seus verdadeiros autores. Infelizmente, esta parcela de operadores do direito não arca com as consequências dos seus atos e omissões. Muito raramente um magistrado é condenado por crimes cometidos no exercício de sua função.

O que será do Brasil daqui pra frente? O que pode ocorrer? Rodrigo Maia, atual Presidente da Câmara, é o cogitado para substituir Temer na Presidência. A Constituição prevê eleições indiretas pelo parlamento. Portanto, deputados e senadores irão escolher uma pessoa devidamente alinhada aos seus interesses para ocupar o cargo de Chefe de Estado e de Governo, na Presidência da República. Considerando que a maioria dos que compõem o atual parlamento é inimiga da ética, o resultado poderá ser assustador.

O Brasil poderá ter um novo Presidente pior que Temer. Pelo andar da carruagem, o povo não vai às urnas antes do próximo ano. Indiretamente, será eleito um novo Presidente se conseguirem derrubar Temer. Este já adiantou que não renuncia. Talvez, com possíveis e novas revelações, torne-se impossível que o mesmo continue presidindo o País.

Se o Brasil fosse constituído por um povo consciente e unido, o Temer já teria renunciado. Mas ele sabe que o povo demora para enxergar e reagir. Mesmo com os jornais da Globo permanecendo, curiosamente, sugerindo a sua renúncia, o povo só assiste. É claro que existe toda uma militância política devidamente organizada, que está nas ruas do País, protestando, permanentemente.

Mas a maioria do povo permanece de braços cruzados, esperando que o milagre aconteça: espera-se que a cadeira presidencial seja ocupada por uma mulher ou homem justo, que tire a política brasileira do lamaçal vergonhoso da corrupção e liberte o País das crises política e econômica. Enquanto isso, em Brasília, deputados e senadores, bem como alguns outros agentes interessados em continuar sugando o dinheiro público, se organizam para manter a atual conjuntura intacta.

Finalizamos estas breves considerações com uma pergunta que julgamos fundamental para o momento: Até quando o povo brasileiro vai insistir em continuar elegendo pessoas que, declaradamente, não visam a promoção da verdadeira democracia, pautada na justiça social e nos princípios verdadeiramente democráticos?... Em 2018, caso tenhamos eleições gerais, o povo terá, mais uma vez, a chance de dar um basta nestes abusos, ou, pelo menos, amenizá-los. É o que esperamos.


Tiago de França

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Temer, Aécio e a Globo. Pensamentos (XLI)

A Globo está aperfeiçoando o golpe. O que ela está fazendo não tem nenhuma ligação com a democracia. Revelará em breve o que realmente quer com esta cobertura especial do escândalo envolvendo aqueles que são seus amigos. A mídia é mafiosa e jamais renunciará às suas pretensões. Atenção e discernimento são antídotos contra o veneno da serpente, que morde e mata sem piedade.

Tiago de França 

domingo, 14 de maio de 2017

O amor e o cuidado. Pensamentos (XL)

O amor exige o cuidado do outro. Sem o cuidado, somente há aparência de amor.


Tiago de França

domingo, 30 de abril de 2017

Lula cresce nas pesquisas. Pensamentos (XXXIX)

Lula amplia liderança nas pesquisas de intenção de voto para 2018. Pelo que parece, o povo não está dando muito crédito para o que a mídia anda falando dele. Se o juiz Moro não arrumar uma desculpa para prendê-lo, o povo vai reconduzir o nordestino à Presidência da República.

É justamente isso que está preocupando Temer, o PSDB e os inimigos de Lula. E se o juiz de Curitiba ousar prender sem provas robustas, o clima vai ser tenso. Quanto mais perseguem o nordestino, mais ele cresce. Há algo de extraordinário nisso e ninguém pode ignorar.

A Globo terá que se aperfeiçoar mais naquilo que sabe fazer muito bem: mentir e manipular. Estamos praticamente em maio de 2017. O povo clama por mudanças, e os que estão no poder, de forma usurpada e, portanto, abusiva, não podem oferecê-las. Há esperança.

Tiago de França

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sobre a greve geral e sua repercussão. Pensamentos (XXXVIII)

O ministro da Justiça do desgoverno Temer disse que a greve geral de hoje foi fraca, que não intimida, mas encoraja o Congresso na aprovação das reformas. O próprio Temer disse que não recuará nas ditas reformas. 

O prefeito de São Paulo, do PSDB, chamou os grevistas de preguiçosos e vagabundos. Considerando que com estas falas, o governo e seus apoiadores se mostram totalmente indiferentes à voz das ruas, torna-se urgente uma resposta firme nas urnas, em 2018. 

Em relação a São Paulo, a maioria do povo daquele estado merece os governos que tem. Se o resultado das urnas não for manipulado em 2018, o voto de milhões de brasileiros será o único recurso para o povo se libertar dessa corja de hipócritas e mercenários.

Tiago de França

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ética, onde estás?

        No mundo antigo, os gregos conceberam o conceito de ética. Este conceito provém de êthos, e significa o conjunto de costumes normativos da vida em sociedade, o modo de ser, o caráter. O filósofo Aristóteles concebeu o homem como zoon politikón, ou seja, animal político: alguém vocacionado à vida em comum na cidade: pólis, em grego. Neste sentido, o homem somente se realiza enquanto ser racional quando vive a sua vocação de sujeito político. A ideia de justiça, para os gregos, surge da relação entre ética e política. Justo é o homem que sabe discernir, e usando do discernimento aprende a viver em sociedade.

        Com o advento da modernidade, surgiram alguns problemas, e um deles ganhou força com o passar do tempo: O liberalismo. Trata-se de uma doutrina que prega uma pseudoliberdade: uma liberdade prejudicial ao homem. É aqui que a relação entre ética e política se torna cada vez mais doente. Na sua essência, o liberalismo não está preocupado com questões éticas. Uma sociedade “livre”, com pouca intervenção do Estado, faz surgir o liberalismo econômico, alicerce do capitalismo selvagem. Na segunda metade do séc. XX, preocupados em revigorar o sistema, os capitalistas resgataram as bases do liberalismo, fazendo surgir o neoliberalismo.

        Qual o resultado prático da separação entre ética e política? A degradação do homem e da natureza. Iluminado pela razão, e crendo que esta solucionaria todos os seus problemas, o homem cria ciência e tecnologia, dando origem à razão instrumental, marcadamente moderna. Com a evolução desta razão, que está a serviço do sistema capitalista, o homem se deu conta de que é capaz de destruir a si mesmo: Somente na primeira metade do séc. XX, consegue ocasionar duas guerras mundiais, e com o alvorecer do séc. XXI, aperfeiçoa cada vez mais o seu poder de autodestruição. Irresponsavelmente, age sem nenhuma preocupação com a própria vida nem com a vida das futuras gerações. O homem se tornou um dos animais mais perigosos, capaz de erradicar a vida do mundo.

        E quanto ao Brasil, o que dizer da relação entre ética e política em nossa conjuntura nacional? Nos últimos anos, nunca se ouviu falar tanto em corrupção como agora. As pessoas já não se surpreendem mais ao ouvir, diuturnamente, os telejornais noticiarem novos escândalos de corrupção. No Brasil, a corrupção mais se parece com a profundidade do oceano: Ninguém consegue medir. Quanto mais se vasculha, mais se acha. Governantes e governados, salvo exceções, vivem metidos na corrupção. O famoso “jeitinho brasileiro” tem se mostrado como a regra, e a honestidade se tornou exceção. A realidade mostra que esta afirmação não é exagerada.

        Não podemos afirmar que o povo brasileiro é corrupto, mas é correto dizer que muita gente do povo é corrupta. Não estamos falando de uma pequena parcela, mas de um número assustador e cada vez mais crescente de pessoas que desconhecem, na vida prática, o significado da palavra ética. Segundo elas, a ética é perda de tempo. Afirmam, categoricamente, que é coisa de gente tola. Defendem que a corrupção vale a pena e traz felicidade ao homem. Acreditam que a vida se encerra em ganhar a qualquer custo. Viver se resume a tirar vantagem em tudo. A esperteza e a capacidade de enganar os outros são exaltadas como marcas do indivíduo corrupto.

        Desde criança, as pessoas já aprendem a mentir e enganar, a tirar vantagem em tudo, a passar os outros para trás. Cria-se uma cultura na qual o outro deve ser ultrapassado, traído, e, se possível, eliminado. A noção de dignidade da pessoa humana não sobrevive numa sociedade marcada pela corrupção. Pessoas corruptas não se preocupam com a dignidade dos outros nem com a própria. Na verdade, desconhecem o real conteúdo da expressão dignidade humana. A corrupção fere de morte a dignidade das pessoas, desumanizando-as. Somente seres humanos dignos são capazes de respeitar e promover a dignidade dos outros.

        Assim, como a maioria do povo brasileiro é capaz de construir uma sociedade justa e fraterna para todos se o combate à corrupção não constitui, atualmente, preocupação fundamental? De modo geral, as pessoas escutam e leem os jornais, mas permanecem com as mesmas atitudes. O médico escuta falar da corrupção, balança a cabeça, reprovando tal situação, mas no seu consultório vende o atestado médico. Uma das características de muita gente corrupta é reprovar a corrupção praticada por outros. São escandalosamente dissimulados! A dissimulação é uma das tentativas de acobertar a corrupção, e com aquela nasce a falsa moral e/ou o moralismo. Por trás de muitos discursos moralistas se esconde muita corrupção.

        Fala-se em corrupção sistêmica, que é aquela que atinge todo o sistema, sem permitir exceções. No Brasil, a corrupção pode ser encontrada em todas as instituições. Chama-nos a atenção, a corrupção no sistema político. Centenas de políticos, em conluio com empresários e alguns agentes do Poder Judiciário, há décadas, assaltam os cofres públicos. Uma parcela dos ladrões envolvidos foi identificada, a outra continua sem ser conhecida. A corrupção no Judiciário não é investigada. Não se tem notícia da citação de um nome sequer. Cita-se o nome de políticos e empresários, mas omite-se os nomes de juízes, desembargadores, ministros, procuradores, e outros sujeitos importantes do Judiciário. Este Poder se coloca acima dos outros, apresentando-se como o único capaz de acabar com a corrupção no Brasil.

Acabar com a corrupção nunca foi a meta do Judiciário, e a história está aí para provar isso. Quem detém poder aquisitivo não teme à justiça, e o motivo é simples: Não há justiça para punir os crimes dos poderosos. No senso comum, o povo já tem decorada a lição: No Brasil, salvo raras exceções, a justiça sempre serviu para castigar os empobrecidos, quando estes se rebelaram e se rebelam contra os poderosos. Estes sabem muito bem que sempre podem contar com a conivência e com a força bruta do Estado. Considerando os desvios praticados, o saldo final de uma operação como a Lava Jato será insignificante. Muita gente poderosa não será punida, e se houver punição para alguns, a pena será branda, aplicada segundo a conveniência, não segundo o que manda a lei. Para escapar da punição, os poderosos mudam a lei, e o juiz simplesmente a aplica no caso concreto, em nome de uma pseudolegalidade.

Ninguém se deixe iludir: O barulho da grande mídia em torno dos escândalos de corrupção não constitui combate à corrupção. A grande mídia não está preocupada em combater a corrupção, pois não nasceu para exercer este papel. Toda cobertura midiática tem seu propósito: Esconder a corrupção, e o faz de modo eficiente e permanente. Durante o período do golpe militar foi assim. A mídia foi a grande responsável em disseminar a ideologia da segurança nacional, domesticando o povo e ceifando a sua capacidade de reação.

Com o fim do regime ditatorial, a mídia permaneceu do mesmo jeito: Antipopular e antidemocrática, portanto, inimiga do bem comum, aliada dos poderosos. Hoje, o sucessor do governo Dilma Rousseff continua se utilizando da aliança com a grande mídia, com objetivo de impor reformas contrárias ao bem comum, profunda e escandalosamente antidemocráticas. O poder midiático é tão forte que o povo mal consegue reagir, e quando o faz é por algumas horas, sob a ameaça constante da força bruta do Estado, que de democrático só tem o nome. O Estado Democrático de Direito é uma ideologia criada para iludir as pessoas, levando-as a pensar que vivem em um País onde os direitos e garantias fundamentais são respeitadas. Como aceitar um Estado Democrático de Direito no qual os direitos fundamentais são, progressivamente, erradicados?... Os mais pobres perdem seus direitos e os poderosos mantém seus privilégios. É isto que está acontecendo, hoje, no Brasil.

E a ética, onde ficou? Permanece com aqueles que se comprometem com a construção de um novo mundo possível. Somente quem assume esta responsabilidade é capaz de ser verdadeiramente ético. Todos aqueles que vivem em função dos próprios interesses, em detrimento do bem comum, não são éticos nem podem ser.

Egoístas, materialistas, individualistas, corporativistas, os defensores e promotores da cultura da eliminação do outro, os covardes, as pessoas de mau caráter, os mentirosos, enfim, todos os que se colocam nas fileiras daqueles que servem à cultura da morte não são éticos nem podem ser. Na verdade, são pessoas mesquinhas e, portanto, nocivas à sociedade. O mundo já não tem espaço para tanta gente assim. Portanto, cabe-nos crer na possibilidade de sermos diferentes, de sermos verdadeiramente éticos: justos, íntegros e ousados, para o bem de toda a humanidade. Isto é possível. Ser ético é uma questão de atitude, não de discurso. Trata-se de uma postura, de um jeito de ser, verdadeiro caminho de felicidade; não de qualquer felicidade, mas aquela que inclui o outro, pois na vida social não é possível ser feliz sem a comunhão com o outro.

Tiago de França

domingo, 16 de abril de 2017

O CRISTO VENCEU, RESSUSCITOU!

Jesus ressuscitou, aleluia!
A morte foi vencida.
A esperança dos pobres vive!
Demos graças a Deus!

As forças do anti-Reino são barulhentas.
O barco está em alto mar.
A tempestade é forte.
Mas o mal não passa disso. Tudo é transitório.

As forças do Reino são silenciosas: são sementes que germinam durante a noite.
O mar bravio obedece à voz Daquele que o criou.
A tempestade não derruba aqueles que estão sobre a Rocha.
O amor não é passageiro. Deus é Pai, infinitamente bom!

Demos graças a Deus porque Jesus ressuscitou.
A morte foi vencida e a esperança dos pobres vive.
Sigamos firmes e alegres.
Deus jamais nos abandona. Ele é a nossa vida, o nosso Tudo.

Feliz Páscoa!


Tiago de França