domingo, 20 de agosto de 2017

A simplicidade da vida

       
       A vida é simples. Muito antes de o homem criar a complexidade da vida social, tal como se configura hoje, viver era algo muito simples. As pessoas não perdiam tempo e energia para buscar tanta coisa e resolver tanto problema. Em si mesma, a vida não nos apresenta tantos problemas. Estes são criações humanas. Assim como a natureza intocada, a vida é plena harmonia e paz. Toda pessoa nasceu para viver em sintonia com a harmonia do universo, misteriosamente criado para oferecer vida plena.

        A natureza tem muito a ensinar. Nela, todas as coisas tem o seu lugar. Sem a interferência do homem predador, ela ensina e promove a harmonia. Tudo nela desempenha harmoniosamente uma função: plantas, águas, animais, aves, o ar, o calor, a terra etc. Tudo é saudável e respira vida. Nos primórdios, o homem apareceu no meio da infinita riqueza natural e se enxergou como parte dela. Essencialmente, o homem é natureza. Somente depois, perdeu a sensibilidade e a compreensão desta verdade fundamental.

        Quando se associou a outros, o homem descobriu que pode ser feliz con-vivendo em sociedade. Posteriormente, descobriu também que é preciso aprender a con-viver. Na relação com o outro, conheceu, no mais profundo de si mesmo, muitas riquezas, mas também muitos limites: conheceu o amor e sua força transformadora, mas também a indiferença e sua força destruidora. Nas relações sociais, com o passar do tempo, o homem criou o poder. Daí em diante, a humanidade passou a desandar, pois nas relações de poder há sempre uma desigualdade: alguns mandam e a maioria obedece, poucos vivem com fartura e a maioria padece pela falta do essencial para viver.

        De modo geral, os que mandam não pensam no bem de todos. Há um vício destruidor no poder de mando: o de sempre buscar a satisfação dos próprios interesses. Usando de sua inteligência, o homem cria e recria mecanismos de controle, cada vez mais eficientes. Com o capitalismo, esses mecanismos ganharam dimensões globais. Surgiram grandes corporações empresariais, e seus proprietários desejam, por meio delas, dominar o mundo. E este mundo é controlado por elas, que carregam as grandes marcas.

        Como não há quem escape da dominação do capitalismo, pois alcança a todos, direta e indiretamente, muita gente procura viver de forma alternativa: ousam pensar, sentir, enfim, viver de forma diferente, na contramão da dominação. Os que dominam tornam a vida difícil, e buscam sempre controlar a forma de pensar das pessoas, pois sabem que controlando o pensar, as submetem com facilidade. Milhões de pessoas no mundo já não enxergam a possibilidade da construção de uma nova humanidade. Isso decorre da falta de visão da realidade: as pessoas não conseguem enxergar e compreender o mal presente no mundo. Elas sentem seus efeitos, mas não compreendem a origem e não sabem quem o provocam.

        O capitalismo cria e recria um mundo doente: a competição e a desigualdade são realidades cruéis. O mundo da competição tira o sossego das pessoas, obrigando-as a competir para encontrarem um lugar de destaque. O capitalismo é um sistema que gera desigualdade, pois não assegura lugar para todos. O surgimento do mundo da exclusão gera uma sociedade profundamente marcada por pessoas agitadas e violentas. E as pessoas chegam a este ponto porque o sistema as violenta, oprime e mata.

        Essa agitação oriunda da violência, tanto no âmbito privado quanto no público, tira das pessoas a serenidade, o discernimento e a paz de espírito. O estresse e a ansiedade tiram a visão das pessoas, levando-as ao desespero. Assistimos a milhões de pessoas desesperadas e sem rumo, totalmente desorientadas. Também o medo é outra marca do nosso tempo, provocado pela insegurança. Atualmente, essa insegurança é oriunda da violência que cresce cada vez mais, bem como das crises política e econômica que não chegam a um fim.

        Neste clima de perturbação social, as pessoas não conseguem enxergar a simplicidade da vida, pois são convencidas de que a vida é difícil e complexa. O sistema, com suas ideologias, ensina que elas devem viver buscando, se atualizando, consumindo, correndo... De repente, estas pessoas estão diante da morte, surpreendidas e sem saída, e quando olham para trás, percebem que a vida passou sem que tenham visto. Milhões de pessoas morrem sem ter vivido a vida.

        Por mais desafiante que seja a vida, porque o ser humano a tornou, muitas vezes, insuportável, vale a pena viver. Apesar dos condicionamentos, sempre há brechas para escolhas livres. É necessário aproveitar essas brechas para que a liberdade apareça. No mais profundo de si e no segredo da própria consciência, toda pessoa é livre para sonhar e ser feliz. Do reconhecimento e aceitação daquilo que se é, surge pessoas pacíficas, instrumentos de transformação do mundo.

        Os que tem o dom da fé conseguem ir além, pois sabem que Jesus era totalmente livre e ensinou o caminho da liberdade. Os que o seguem trilham o caminho da liberdade em meio às opressões da vida. Não se trata de mero sentimentalismo, mas de conquista diária, de compromisso consigo mesmo e com o outro. A simplicidade está na verdade da vida de cada pessoa. Cada uma traz consigo uma verdade reveladora de si. Conhecer e aceitar esta verdade é caminho de liberdade. O mundo carece de pessoas livres, integradas e simples. Viver a vida como ela é, sem fugas nem ilusões: Eis o caminho que torna uma pessoa simples e livre.

        A você que leu estas reflexões, advertimos e desejamos: Viva a vida como ela é, sem fugas nem ilusões! Assim, seu testemunho iluminará o mundo. Sejamos felizes!
Tiago de França

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Chamados a seguir Jesus no mundo atual

Introdução

        Anualmente, por ocasião do mês das vocações (agosto), partilhamos algumas provocações sobre o tema da vocação enquanto chamado de Deus às mulheres e homens de boa vontade. Sempre é possível e necessário repensar a vocação, pois os tempos mudam. Precisamos escutar o chamado divino à luz do que está acontecendo. Contamos com a assistência do Espírito Santo, guia da Igreja peregrina, povo de Deus em marcha, que, diuturnamente, trabalha na obra do Pai, continuando a missão de Jesus, neste mundo dilacerado de dores.

        Todos os que recebem este Espírito de amor e de ternura possuem a mente e o coração abertos para enxergar e compreender, para contemplar e agir, para amar e servir. Nenhuma pessoa que se considera cristã deve colocar a mão no arado e olhar para trás. No seu Evangelho, Jesus afirma que esta não é atitude a ser adotada por aqueles que o seguem. O arado da história da salvação é experiência de caminhada esperançosa, que conta sempre com a presença da Trindade, Amor fiel que fortalece e guia, rumo à plenitude do Reino de Deus.

        O momento atual está marcado por uma profunda crise: o ser humano está em processo crescente de desumanização e de morte. Sem cairmos no pessimismo, a visão da realidade, sem ilusões, nos fala de muita dor, muito sangue, muito clamor. Tanto no ocidente quanto no oriente, os poderosos são cada vez mais sanguinários em suas ambições e empreendimentos. Cresce a intolerância, o preconceito, o racismo, o conservadorismo de visões e posturas, e a exploração capitalista dos mais pobres. Resultado de todas estas coisas, cresce também o medo, o desespero e uma total desorientação.

De modo geral, milhões de inocentes não sabem o que está acontecendo e tem a sua esperança abalada. O medo do que poderá acontecer no amanhã é assustador. Teologicamente falando, vivemos num vale de lágrimas: milhões de pessoas sobem com Jesus a ladeira rumo ao Calvário, carregando uma pesada cruz, sendo chicoteados por todos os lados, numa agonia sem fim. Diante de tamanha onda de sofrimento e dor, onde está Deus? A partir de onde Ele nos chama? Deus nos chama para desenvolver que tipo de missão? Como os cristãos estão reagindo a tudo isso? Como seguir Jesus em meio a tanta confusão?...

1. O chamado de Deus

        Deus nos chama sem cessar. A Bíblia fala de um Deus que é Pai e Mãe de bondade, que escolheu caminhar com o homem. Não quis resolver os problemas humanos num passe de mágica. As narrativas bíblicas são fieis ao nos ensinar a grande lição do Deus liberador: Este Deus escolheu um povo na antiga aliança; em Jesus, acolheu a humanidade; no Espírito, acompanha a todos. Não é indiferente a nenhum grito de dor. A sua opção é pelo sofredor, por aquele que é desprezado, que se encontra nas periferias da vida, nos últimos lugares. Essa sua opção é livre e libertadora.

Todos os empobrecidos que um dia escutaram seu chamado sabem que Ele é assim: Ama a todos porque é o Amor, mas ama, preferencialmente, os empobrecidos, as vítimas das diversas formas de opressão em todo tempo e lugar. Esta é a revelação bíblica que jamais muda. Não há teologia capaz de mudar o rumo da história da salvação. Esta é a pedagogia divina. Deus é assim. Naquilo que aparecer de diferente, é falso e não se sustenta. Este é o testemunho das Escrituras Sagradas: O testemunho de um Deus que faz a opção de acampar no meio dos pobres e sofredores deste mundo. Este é o Pai misericordioso, revelado em Jesus, fiel ao seu projeto de vida e liberdade para todos.

Este é o Deus que chama. A sua identidade é clara porque se revelou nos feitos dos patriarcas, matriarcas, profetas e profetisas, e de modo profundamente escandaloso, na pessoa de Jesus de Nazaré. O chamado que faz está intimamente ligado ao lugar da sua atuação e à opção feita desde a antiga aliança, revelada a Abraão, Moisés, Isaac, Jacó, Davi e tantos outros e outras, que, tendo escutado a sua voz, colocaram-se no caminho e nele perseveraram. Portanto, quem não se identifica com o lento, longo e doloroso processo de libertação integral do ser humano, especialmente dos mais pobres, não pode servir a Deus. Somente escuta e se coloca no caminho de Deus aqueles que desejam ser instrumento da libertação operada por Ele no mundo.

Deus chama a partir do lugar no qual cada pessoa vive. Ele alcança a todos, sem distinção. O seu chamado é universal. Não faz acepção de pessoas. Chama a cada uma, de acordo com a cultura e a religiosidade de cada uma. Em todos os tempos e lugares, dentro e fora das religiões, encontramos pessoas servindo a Deus porque foram chamadas por Ele: Foram chamadas, escutaram o chamado e se colocaram no caminho do seguimento.

Na situação particular de cada pessoa, Deus se manifesta e chama. Algumas pessoas sentem o seu chamado na infância; outras escutam a sua voz na adolescência; outras na juventude; outras escutam Deus chamando na vida adulta ou na terceira idade. O chamado nasce no coração das pessoas, que vão tomando consciência aos poucos. Há situações nas quais elas não identificam o chamado, mas já se encontram no caminho de Deus, servindo-o no amor, na justiça e na liberdade. Deus é sempre mistério, e sua maneira de chamar também é misteriosa.

Para aqueles que se tornam íntimos dele, a revelação do chamado ocorre de forma simples, por meio da oração e da humildade da vida cotidiana. Deus gosta do que é simples e frágil para confundir os grandes deste mundo. O chamado divino se dirige sempre aos frágeis. Para descobrir o chamado, quem se acha forte precisa aprender a ser humilde, simples e frágil. Deus se manifesta na fraqueza das pessoas. É a partir desta fragilidade que Ele chama. A dinâmica do seu chamado contradiz à lógica dos pensamentos humanos. O homem parte sempre de cima e do centro; Deus se manifesta e chama a partir de baixo e das periferias.

2. Seguir Jesus

         Deus chama para o seguimento do seu Filho amado, Jesus de Nazaré. Quando Deus fala no Evangelho, pede que o escutemos. Portanto, o chamado é para que o cristão escute Jesus falar. Qual é o conteúdo da fala de Jesus? O Reino do Pai está no centro da mensagem do Filho de Deus. Assim, ignorar a centralidade do Reino de Deus Pai é ignorar a missão de Jesus. Deus o enviou para anunciar este Reino. Ele não foi enviado para fundar religião, nem criar doutrinas humanas, nem para provocar rebelião política. Não está entre os messias convencionais da sua época. A mística do Reino de Deus Pai sempre acompanhou o pensamento, a palavra e os gestos de Jesus: constituiu o centro da sua missão.

        O testemunho de Jesus foi fiel ao do seu Pai: Fez a mesma opção feita na antiga aliança, agora renovada com a sua missão e a sua entrega total até à morte na cruz. Jesus nasceu, viveu e morreu entre os pobres. Entrou em profunda comunhão com todos aqueles que viviam à margem da sociedade. Manifestou a presença de Deus entre os oprimidos do seu tempo. Anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus, subversivamente contrária ao império romano, que ceifava a vida dos pobres. Também encontrou oposição na religião judaica, na pessoa de seus líderes. Para os doutores da lei e fariseus, especialmente, seu testemunho de vida foi um verdadeiro escândalo.

        Convivendo com os excluídos, Jesus se tornou um deles. Foi odiado e perseguido por aqueles que se consideravam justos e santos. Identificado com os pecadores públicos, foi condenado pelas autoridades religiosas da época, que não o reconheciam como o Messias prometido. Em nome de Deus, Jesus anunciou a construção de uma nova humanidade, alicerçada no amor e na justiça do Reino de Deus Pai. Denunciou as injustiças cometidas pelos poderes políticos da época, bem como a hipocrisia da elite religiosa e da exploração que esta realizava contra os pobres. Com o chicote nas mãos combateu práticas religiosas abusivas, despertando a consciência do povo para que enxergasse e se libertasse da alienação religiosa.

        Jesus revelou quem são os verdadeiros bem-aventurados do Reino de Deus Pai: os pobres, os que choram, os humildes, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos e injuriados por causa da justiça, os mansos e os que promovem a paz. Assim são os seguidores de Jesus: bem-aventurados. Os cristãos dos primeiros séculos da era cristã compreenderam bem a mensagem de Jesus e a colocaram em prática, com amor, ousadia e liberdade. Inúmeros foram martirizados porque permaneceram fieis a esta mensagem de vida e salvação.

        A teologia do seguimento ensina que seguir Jesus é colocar-se em seu caminho e nele perseverar. Trata-se de um caminho estreito e pedregoso. Não é fácil permanecer nele. Não basta ler o texto evangélico e gostar de Jesus. Não basta simpatizar-se com suas ideias. Não basta frequentar o culto para venerá-lo e adorá-lo. O chamado está no Evangelho: É necessário seguir Jesus. Seguir não é imitar nem acreditar somente com a boca. Seguir é comprometer-se com o conteúdo da sua mensagem, é praticar o amor e a liberdade de Jesus. Para segui-lo é necessário amar livremente, assim como ele amou.

        O testemunho dos mártires cristãos de todos os tempos e lugares mostra que o seguimento de Jesus é uma aventura perigosa. Os que se decidem pelo caminho de Jesus correm os mesmos riscos que o atingiram: Podem chegar ao derramamento de sangue. A proclamação do Evangelho de Jesus é missão simples e perigosa, pois este Evangelho é uma denúncia firme de todos os pecados e crimes que afetam o povo de Deus em marcha. O verdadeiro cristão não pode se calar diante das injustiças. A denúncia das injustiças é inerente ao ser cristão.

Todo cristão fiel a Jesus se recusa a adorar o deus dinheiro, que domina e destrói o mundo. Na vida cristã não há espaço para nenhum tipo de ídolo. O cristão só se curva diante da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Para o verdadeiro cristão, o poder, o prestígio e a riqueza são ídolos detestáveis, que conduzem o ser humano à perdição eterna. O dinheiro que não constitui ídolo é o adquirido sem meios ilícitos e para o custeio da sobrevivência. O que está para além disso aparece como realidade pecaminosa diante de Deus. Por isso, todos os que se ocupam com furto e roubo de dinheiro cometem pecado grave, principalmente os ladrões do dinheiro público.

3. Os cristãos religiosos e o seguimento de Jesus

        Um breve olhar sobre a realidade dos cristãos no Brasil nos revela dois contextos diferentes, mas com aspectos semelhantes. No meio não católico, encontramos um acentuado número de denominações cristãs (neopentecostais). No seio de muitas delas ocorrem abusos de toda sorte: falsas curas; distorções da Bíblia; enriquecimento ilícito; disseminação do ódio, do preconceito e da discriminação; lavagem de dinheiro etc. Muitas destas e outras práticas também ocorrem no seio da Igreja Católica. Nestas situações, o Cristianismo é totalmente distorcido, e oculta-se a mensagem de Jesus.

        Quanto à Igreja Católica, há um aspecto que chama a atenção e que precisa ser considerado: Apesar da chegada do Papa Francisco, a Igreja no Brasil permanece tímida na missão de evangelizar. Aparentemente, não se veem muitas mudanças. O Papa possui um discurso progressista em muitos aspectos, mas uma parcela significativa do clero parece estagnada. Parte desta parcela até admira e venera o Papa, mas não se move na direção que ele aponta. A maioria sente saudade dos papas João Paulo II e Bento XVI. Sentem falta da liturgia pomposa e do discurso conservador.  

        O magistério e os gestos do Papa Francisco desafiam a Igreja constantemente. Uma Igreja que sempre caminhou na direção do centro tem muita dificuldade de se dirigir às periferias. A região central sempre foi mais confortável. Falar de Jesus para os mais ricos nunca foi algo incômodo para a maioria dos que formam a hierarquia. Até hoje, o povo não enxerga o padre como alguém próximo, mas como uma autoridade distante. De uns tempos para cá, parte do clero tem melhorado, mas ainda impera a distância entre o clero e o povo. Não se encontra um padre facilmente no meio do povo. A maioria permanece vivendo a vida cômoda da classe média, com hábitos elitistas.

        Para ilustrar, vamos a um mau exemplo: Na minha época de seminário, chamava-me a atenção as roupas, calçados, relógios e carros que muitos padres usavam, e até hoje usam. Eram marcas caríssimas. O curioso era que a maioria pertencia a congregações religiosas, ou seja, professaram o voto de pobreza. Muitos se apresentavam como verdadeiros empresários. Sempre que me encontro com um padre no centro da cidade, o que ocorre raramente, observo que a maioria continua do mesmo jeito: Com aparência de elite. A simplicidade, a humildade e o despojamento de Jesus, o Bom Pastor, passa longe do perfil deles. E cada um procura justificar seus usos e costumes, para não parecer escandaloso aos olhos das pessoas. O testemunho de simplicidade do atual Papa não os comoveu nem os ensinou.

          O seguimento de Jesus no seio das Igrejas cristãs requer renúncia do legalismo e acolhimento das pessoas, especialmente dos mais pobres. No Cristianismo praticado no Brasil reina uma onda conservadora que assusta qualquer pessoa de mente aberta e reciclada. Há um discurso legitimador do ódio e da intolerância que contraria totalmente a mensagem de Jesus. Enquanto Jesus ensinou a acolher e amar, muitos que se dizem cristãos excluem e tratam o próximo com indiferença. Muitas pessoas continuam se recusando a aceitar a fraternidade ensinada e vivida por Jesus. Tais pessoas entendem a Igreja como uma realidade separada do mundo. Não aceitam a realidade da Igreja como rede de comunidades nas quais as pessoas são chamadas a viver segundo o amor e a liberdade.

        Parte do clero continua se comportando como os padres do mau exemplo acima mencionado: Muitos continuam apegados ao dinheiro, ao luxo, ao prestígio e ao poder. Facilmente, tratam as pessoas com desprezo, com ar de superioridade. Somente porque cursaram filosofia e teologia, se acham no direito de humilhar as pessoas, tratando-as como ignorantes em matéria de fé e doutrina. Não se misturam com o povo. Apresentam-se como autoridades, e não como servos. São funcionários do altar. Não são pastores. Ser pastor significa outra coisa: Ser pastor é ser missionário servidor. Quem assume a postura de funcionário do altar se identifica com o poder, e o utiliza de forma autoritária. Clérigos assim são vazios, desprovidos da verdadeira fé em Jesus.

        Entre os não ordenados, denominados leigos, também encontramos uma cultura de submissão e cegueira. Muitos continuam pensando que o bom cristão é aquele que é submisso ao padre. Não conseguem pensar a própria fé. O catecismo ainda é decorado, e o Evangelho esquecido. Não ousam ler o Evangelho sem as lentes do clero. Há batalhões de leigos que se colocam a serviço do velho modelo de paróquia, formado por pastorais que mais segregam que unem as pessoas. A pastoral se transforma em um conjunto de grupos de pessoas que se utilizam da pertença a tais grupos para se sentirem melhores que os demais. Trata-se de um laicato desprovido de formação humana e espiritual suficientemente capaz de libertá-lo da ingenuidade e da cegueira.

        Torna-se cada vez mais urgente a necessidade de se reencontrar Jesus no Evangelho e no meio dos mais pobres do povo. Esse reencontro fará com que a Igreja e todos os que a compõem reencontrem o caminho da profecia. A situação de crise política e econômica do Brasil clama por cristãos autênticos e por uma Igreja profética. Uma Igreja verdadeiramente profética é aquela que sai de cima do muro e faz uma opção clara pelos pobres.

O sistema político brasileiro, profundamente marcado pela corrupção, oprime o povo brasileiro, principalmente os mais pobres. A Igreja Católica precisa se posicionar corajosamente contra esta situação, criando e apoiando iniciativas de organização do povo, para que este resista à opressão, na luta pela libertação. Um Cristianismo que se omite diante das injustiças é um desserviço à humanidade. A Igreja Católica precisa, de uma vez por todas, assumir, com coragem e ousadia, as lutas do povo que sofre.

Sem apoio, incentivo e organização, o povo não caminha. Os líderes religiosos precisam se posicionar, não somente através de notas oficiais na imprensa, mas na organização do povo, conscientizando-o da sua missão como povo. Este povo precisa conhecer e praticar a dimensão política da sua fé, e a Igreja tem a missão de levá-lo a este conhecimento e a esta prática; do contrário, não estará exercendo fielmente a missão que Jesus lhe confiou. As poucas experiências que já existem neste sentido precisam se multiplicar, e isto depende e muito do empenho dos líderes religiosos. Na caminhada do Reino de Deus, o líder religioso deve fazer como Jesus: Permanecer com os pobres, na escuta da voz de Deus e na partilha do pão da justiça, da liberdade e da paz.

Conclusão

        Nesta hora difícil da história mundial, precisamos silenciar o coração para escutar a voz de Jesus. Deus Pai quer que escutemos Jesus. Segui-lo é praticar a obediência, e obedecer é escutar. Quem não o escuta não sabe a direção que deve tomar. Hoje, mais que em outras épocas, precisamos reencontrar Jesus. Para reencontrá-lo é preciso buscá-lo, ir ao seu encontro. Também ele nos procura sem cessar. Renunciar ao medo e nos aproximar dele: eis a atitude urgentemente necessária. Ele está presente e próximo. Ergamos o nosso olhar na direção das pessoas, pois nelas podemos encontrá-lo. Jesus sempre nos espera no outro, principalmente no outro que recusamos encontrar.

        No silêncio da nossa oração também podemos encontrá-lo. Na oração sincera, espontânea, no silêncio da escuta amorosa. Estar com ele em oração é uma experiência de revelação da vontade de Deus. Quem quiser se tornar íntimo de Jesus deve aprender a orar com ele. Orar em plena sintonia com o clamor das vítimas, que não cessam de clamar por justiça e paz. Precisamos aprender a orar com Jesus na agonia da cruz. É nesta agonia que conhecemos a dimensão do amor de um Deus totalmente apaixonado pelo ser humano, capaz de tudo por amor porque é o Amor.

        Ao final desta meditação, fica o convite ao leitor: Deixe-se alcançar por este Deus que é puro amor. A humanidade precisa ser regenerada no amor. Deus quer fazer isso através de cada um que acredita no seu amor. Que cada um possa se entregar ao amor. Ninguém perde nada amando e deixando-se amar. Somente há felicidade no amor. Se não perdermos a fé no amor, o mundo certamente se transformará. Esta transformação passa, necessariamente, pela entrega de cada pessoa ao amor. Quem verdadeiramente ama tem em si a força mais poderosa do mundo. Somente quem ama acredita em Jesus, e quem assim procede entrou no reino da liberdade. Que o Espírito Santo nos conserve neste bom propósito.

Tiago de França

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A banalização da política no Brasil

     
       Aconteceu, nesta quarta-feira, 02 de agosto de 2017, a absolvição de Michel Temer na Câmara dos Deputados. Não é novidade para ninguém o fato de o denunciado ter se utilizado do dinheiro público e do posto de presidente da República para escapar da justiça. A maioria do povo brasileiro tratou a situação com naturalidade: não houve protestos significativos nem se viu o povo do panelaço batendo panelas nas janelas e sacadas de suas casas se apartamentos de luxo.

A elite, como era de se esperar, ignorou totalmente a votação na Câmara. Trata-se de prova incontestável de que não se protesta contra a corrupção no Brasil, considerando que a elite é a grande responsável pelos assaltos aos cofres públicos. Não são os pobres que roubam dinheiro público no Brasil, mas são eles as vítimas, pois dependem das políticas públicas. Até onde se sabe, políticos e empresários não são pessoas pobres. O Estado brasileiro está quebrando porque há inúmeros ladrões que saqueiam os cofres públicos, diária e impunemente. Qualquer cidadão que goze do bom senso sabe disso.

O que ocorre é que a mídia neoliberal, que sempre esteve ao lado dos poderosos e a seu serviço, bem como a serviço do mercado financeiro, impede o povo de enxergar a realidade. Alguém já dizia que no Brasil não existe povo, mas público. O povo se organiza, informa-se e reivindica direitos; o público é aquele que assiste à situação, sentindo-se impotente. Atualmente, o Brasil não possui grandes líderes, capazes de conduzir e construir um povo livre e consciente do seu papel. Na ausência dos grandes líderes, a classe dominante explora, sem dó nem piedade.

A mídia domina a maioria das pessoas, com suas ideologias de dominação. Ocorre, assim, o fenômeno da massificação social. Uma massa de gente que não é capaz de pensar, analisar, criticar, e, portanto, se defender. Para onde a mídia aponta, as pessoas olham. Poucos são os que ousam olhar na direção oposta. Neste sentido, os telejornais, que constituem o meio utilizado pelos mais pobres para a obtenção de informação, na verdade, mais deformam que informam. O jornal recorta a notícia e a veicula de acordo com os interesses corporativistas. As pessoas pensam que estão informadas, mas estão, de fato, enganadas.

Os meios de comunicação, salvo raras exceções, não despertam o interesse das pessoas pela informação precisa e fiel aos fatos. Utilizam-se da mentira para manter situações criminosas. As pessoas nunca sabem o que realmente está acontecendo. Tudo não passa de uma mentira bem contada. Por trás da mentira está o ladrão, aquele que assalta o que pertence ao patrimônio público. Para não ser descoberto, e se o for, para não ser punido, o ladrão usa de suas influências e do fruto do que foi assaltado para comprar pessoas e instituições, tendo em vista sua segurança pessoal e a consequente perpetuação dos desvios e crimes. Portanto, as ideologias veiculadas pelos meios de comunicação são instrumentos eficazes que visam anestesiar o poder de reação das pessoas. Esta é a explicação para a compreensão da passividade da massa.

No verdadeiro Estado democrático de Direito impera a democracia. Entende-se por democracia a realidade de um País no qual o povo participa do exercício do poder. E é assim porque, na teoria, o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes. O regime democrático é marcado pelo respeito e promoção da dignidade da pessoa humana e das liberdades individuais e coletivas. Há, na Constituição da República, direitos e garantias fundamentais a serem respeitados e promovidos, sendo dever do Estado assegurar a implementação de tais direitos e garantias. Estas coisas fazem parte da teoria política da democracia. Mas, o que ocorre na realidade? Temos assistido o oposto.

Hoje, o Brasil vive uma experiência de desgoverno. A maioria dos que compõem a classe política, desde o vereador até o presidente da República, trata a política como um meio de vida, um caminho fácil de enriquecimento ilícito. Quanto mais a justiça investiga, mais aparecem desvios e crimes. Cada cargo assegura ao político, tanto no executivo quanto no legislativo, inúmeros privilégios: altos salários, verbas de gabinete, carros, moradia, auxílios de toda sorte etc. O povo é obrigado a sustentar o luxo da classe política. E além de sustentá-la, ainda é vítima dos desvios das verbas públicas. É uma situação deplorável.

Cresce cada vez mais a desconfiança das pessoas em relação aos políticos porque assistem aos desvios e não veem sequer a possibilidade de a corrupção acabar. O poder judiciário, responsável pela investigação, processamento e condenação dos criminosos, falha no exercício da sua competência: operadores do Direito, principalmente juízes, são ora seletivos, ora omissos na instauração, condução e finalização dos processos.

O que se vê, de modo geral, é que somente os pobres são os que realmente cumprem as penas, tendo que se submeter às péssimas condições do sistema carcerário brasileiro. Geralmente, os ricos, quando julgados e condenados, cumprem suas penas em condições melhores e não demoram muito na prisão. Sempre encontram um jeito de passar pouco tempo. As brechas na lei, as amizades com figuras importantes no judiciário e a atuação de excelentes advogados os ajudam a escaparem da severidade e durabilidade das penas restritivas de liberdade. Com os mais ricos, o tratamento é diferenciado. Psicologicamente, muitos juízes respeitam e até temem aos mais ricos.

Um dos motivos é que inúmeros juízes são filhos da elite. Seria contraditório um filho da elite tratar outra pessoa da elite com severidade e no rigor da lei. Em si, a lei é muito pesada para ser aplicada a uma pessoa rica. A mão de ferro do Estado sempre esteve voltada para os mais pobres. Estes são tratados com severidade e já se conformaram com isso. Já não reclamam tanto porque já se convenceram de que este sistema não muda. O sistema de criminalização dos pobres é eficiente e não mudará. É o que se vê no cotidiano da vida dos brasileiros. Os presídios estão lotados de pobres, e o sistema ostensivo da polícia é implacável no tratamento para com eles. Estes vivem sob o olhar da desconfiança. Os ricos desviam, e os pobres pagam a conta. Isto não é novo no Brasil.

Comumente, fala-se que a solução para estes problemas está na educação. É verdade que a educação é uma ferramenta importantíssima para a emancipação das pessoas. Isto é inquestionável. Mas em matéria política, nem todo tipo de educação serve. Nas sociedades dominadas pelo capitalismo, vigora a educação que prioriza a ciência e a técnica, excluindo a formação da consciência crítica. A conversa que se ouve nos ambientes educacionais, tanto na educação básica quanto na superior, é a seguinte: Deve-se investir nos estudos para que se possa ser alguém na vida. O que é ser alguém na vida? Vejamos.

O capitalismo ensina que ser alguém na vida é ser bem-sucedido, ou seja, estudar para arrumar um emprego que assegure uma vida confortável. A isto o capitalismo chama felicidade. Feliz é a pessoa que tem dinheiro, poder e prestígio. Esta tríade garante a felicidade. E a formação da consciência crítica, onde fica? E a preocupação pelo bem comum e pela ecologia? E a formação de cidadãos conscientes do seu papel na sociedade? Onde encontrar uma educação que lance as pessoas no mundo, com o objetivo de construí-lo, dignamente? Estas perguntas são evitadas. De modo geral, o atual modelo de educação não está preocupado com isso.

Forma-se o indivíduo para o mercado de trabalho, para ser uma peça na imensa engrenagem do sistema. Para os capitalistas, a formação de sujeitos políticos conscientes e autônomos é perda de tempo, é coisa de comunista. Todas as pessoas são educadas para serem capitalistas: escravas do materialismo, consumismo e individualismo. Vigora a lei do salve-se quem puder! Neste tipo de sociedade não há lugar para os pobres, pois a educação que lhes é oferecida não os capacita a praticamente nada. Uma boa parcela sequer conclui a educação básica, e quando conclui, muitas vezes, não sabe ler nem escrever, mas somente reconhecer palavras sem saber o seu significado político.

As ideologias de dominação dizem o contrário do que afirmamos nesta breve reflexão. Elas pregam ilusão e falam mentira. O objetivo é manter uma aparência de normalidade, induzindo as pessoas a pensar que a situação vai ser resolvida. Como o ser humano tende à ilusão, tudo se torna mais fácil. As pessoas sempre esperam a solução de quem não tem interesse de resolver. No senso comum, reina a mentalidade de que somente os poderosos podem resolver a situação. Ilusoriamente, acredita-se que os poderosos irão resolver o problema das crises política, econômica e moral.

Qual seria, então, a solução para a atual situação política do Brasil? Considerando que o Brasil não muda por causa da classe dos poderosos que o governa, a solução se encontra na formação da consciência crítica dos mais pobres. Esta formação deve acontecer nas bases da sociedade, com a criação de núcleos de educação política. Assim, os próprios pobres devem se organizar, e não ficar esperando que os ricos promovam esta organização. Os que exploram gostam de gente desorganizada e desorientada, ignorante e sem perspectivas.

A ignorância, que gera cegueira, e a desorganização das pessoas facilitam a ação dos que se empenham em explorar os outros. O Brasil só terá povo quando os brasileiros aprenderem a ser organizados e unidos. Não há ameaça pior aos poderosos que um povo politicamente formado, unido e consciente dos seus direitos. Já existem algumas experiências interessantes de formação popular nas bases da sociedade, mas são poucas. Estas experiências precisam se multiplicar.

Seria muito bom que os professores, principalmente os das universidades, se interessassem por tais experiências, bem como outros profissionais que estejam preocupados com a atual situação. Quem tem vocação para ser líder deve ajudar a organizar, formar, orientar e encorajar as pessoas. A esperança dos pobres vive, e ninguém se liberta sozinho. A liberdade é essencialmente política e ocorre na reunião das pessoas, que arregaçam as mangas para construir um outro mundo possível.

                  Tiago de França