sábado, 28 de novembro de 2020

Advento: acolher o Cristo que vem

 


“Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar” (Rm 13,11).

            Na Igreja Católica, o ano litúrgico se inicia com o Tempo do Advento: tempo de vigilância e esperança. Essas são as duas palavras que falam da teologia e espiritualidade deste importante tempo para a vida da Igreja. Dois grandes momentos do mistério pascal de Cristo são precedidos de um tempo de preparação: o Natal e a Páscoa. O Advento prepara o Natal e a Quaresma prepara a Páscoa. Muito sábia a Mãe Igreja ao conduzir seus filhos e filhas a um caminho claro e feliz de preparação para a celebração dos mistérios da encarnação do Filho de Deus e Senhor Nosso Jesus Cristo, e de sua Páscoa, festa sublime da Ressurreição.

            Das vésperas do 1º Domingo do Advento até o dia 16 de dezembro, as leituras apontam para o mistério da parusia do Senhor. Chama-nos à vigilância sincera e ativa, para uma espera fecunda do Cristo que virá. Este Cristo, Senhor da História e Filho do Homem, julgará a todos com justiça, segundo o amor (cf. Mt 25,31-46). A volta definitiva do Senhor é certa, mas de data desconhecida. A ninguém revelou o quando de sua volta para o julgamento definitivo. Por isso, a Igreja chama seus filhos e filhas à vigilância ativa. Não se trata de uma espera passiva e melancólica, mas marcada pelo agir missionário. Esperamos a vinda gloriosa do Senhor, observando o seu mandato missionário.

            A espera do Cristo que vem precisa ser dessa forma, porque o Senhor quer nos encontrar em ação, jamais parados, “olhando o tempo passar”. Batizados e enviados, os cristãos são continuadores da missão do Senhor. Ungidos pelo Espírito, são incansáveis nessa missão. Destemidos e confiantes, esperam o Senhor com os pés na estrada e as mãos abertas e estendidas na direção do próximo, servindo gratuita e generosamente. Segundo a teologia do Papa Francisco, é preciso esperar o Senhor sendo Igreja em saída missionária, manifestando a misericórdia de Deus ao mundo.

            Quando escreve aos romanos, Paulo nos recorda o sentido dessa vigilância (cf. Rm 13,11): “... já é hora de despertar”. Este despertar indica-nos a necessidade da conversão. Advento também é tempo de conversão. É no caminho de Jesus que o discípulo missionário de Jesus se converte. Não há possibilidade de conversão fora desse caminho, porque com Jesus é que se aprende a ser santo. Ele é a fonte de toda santidade; esta “é o rosto mais belo da Igreja”, nos ensina o Papa Francisco na sua exortação apostólica Gaudete et Exsultate, n. 9. Na presença do Senhor e guiado por seu Espírito, o cristão caminha rumo à plenitude da vida, manifestada em Jesus, o Verbo de Deus.

            Do dia 17 a 24 de dezembro, a Igreja convida a uma preparação fecunda para a celebração do mistério do Nascimento do Senhor. Nesses dias, as leituras falam da esperança do povo de Deus. A leitura do profeta Isaías revela, assim como outros profetas, a promessa do Messias. Em Isaías 40,3 aparece a referência a uma voz que clama e convida para que se prepare um caminho para o Senhor.

No Novo Testamento, os evangelistas falam de João Batista, que é esta voz forte, chamando à conversão e à acolhida do Messias. Na voz do profeta João Batista encontramos uma orientação fundamental para a justa e necessária preparação da solene festa do Natal do Senhor: despertos, trilhando um caminho de justiça e santidade, preparamos o coração para a acolher aquele que vem “...para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Quão belo e profundo é o mistério d’Aquele que jamais abandona o seu povo!

O profeta João Batista evidencia a esperança do povo de Deus, alicerçada na confiança que esse povo tinha na realização das promessas divinas, recordadas ao longo do tempo; e os profetas eram os responsáveis por essa recordação. Em sua vida, “Jesus assumiu em si mesmo a totalidade da esperança excepcional do seu povo. Nele ressoa essa esperança. Ele é um arauto dessa esperança de Israel” (Comblin, José. Jesus de Nazaré. São Paulo: Paulus, 2010, p. 85). Portanto, o Pai de Jesus é o Deus da consolação, que fiel às suas promessas, enviou o seu único Filho para salvar “...o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

Consciente de sua missão no mundo, a Igreja é depositária dessa mesma esperança, e procura, apesar de suas fraquezas, colocar-se a serviço de todos os empobrecidos deste mundo, que vivem essa esperança em suas dores e sofrimentos, porque “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n.1). A Igreja prepara a celebração do Natal do Senhor vivendo a esperança do povo de Deus, porque a Igreja é povo de Deus.

Para que a celebração do Natal não seja reduzida a uma data festiva, com muita comida e bebida, e troca de presentes, cada cristão é chamado a refletir sobre a encarnação de Jesus na sua vida e na vida do mundo. Neste sentido, algumas questões podem nos ajudar a refletir sobre esse divino mistério de amor: Tenho acolhido o Cristo pobre e sofredor que sempre aparece em minha vida? Tenho buscado conhecer esse Cristo mais de perto, para crescer na fé e no amor? Minha vida é reflexo do infinito amor de Deus, ou tenho vivido distante de Deus? Estou disposto a acolher Jesus e seu projeto de amor para a vida do mundo? Integro o número daqueles que acreditam e trabalham por um mundo mais justo ou fraterno, ou reforço as forças do mal que destroem a vida humana e a natureza? Motivados por essas questões somos chamados a examinar a nossa consciência, para vivermos uma sincera conversão, “pois já é hora de despertar” (Rm 13,11).

Feliz itinerário rumo ao Natal do Senhor!

Tiago de França

sábado, 21 de novembro de 2020

Jesus: rei compassivo

 


“Vinde, benditos do meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo” (Mt 25,34).

            Jesus, o Filho do Homem, virá em sua glória para exercer o julgamento. Mas ninguém precisa sentir medo, porque o julgamento será nos termos da lei do amor (cf. Mt 5,31-46). Longe de qualquer espírito de vingança e crueldade, Jesus é um juiz justo e compassivo, conhecedor da condição humana, porque a viveu, intensa e plenamente. Portanto, seremos julgados por alguém que participou da nossa condição. Jesus sabe do que somos feitos.

            É verdade que não se pode tomar o texto de Mateus, acima referenciado, ao pé da letra, no sentido de pensar que o juízo final será tal como o texto apresenta. O mais importante é prestar atenção às exigências que Jesus, o rei compassivo, faz ao acolher as ovelhas do rebanho do Senhor, que ficarão à direita do trono. Os benditos do Pai de Jesus são todos aqueles que praticam a lei do amor: os que dão comida aos famintos, que matam a sede dos sedentos, que recebem o estrangeiro, que vestem os nus, que cuidam dos doentes e os que visitam os encarcerados. Os que vivem nessas e em tantas outras situações de necessidade são chamados de meus irmãos mais pequeninos.

            Aqui já é possível uma séria avaliação da consciência para saber se estamos ou não servindo a esses irmãos mais pequeninos de Jesus. No texto, ele fala que tudo o que fazemos a estes irmãos é a ele que fazemos. Ou seja, o rei compassivo é um desses irmãos. Ninguém pode mudar isso. Não adianta o líder religioso pregar na Igreja que Jesus é todo-poderoso, um rei triunfante, como os reis humanos. Tal imagem de Jesus é incompatível com o Evangelho, porque ele é um irmão pequenino. Quer aceitemos, quer não, ele é assim.

            Também é possível que cada cristão cuide em rever, se for o caso, a imagem que tem de Jesus. Se ele é rei compassivo, identificado nos irmãos menores, desprovidos de poder humano, então é necessário aceitá-lo e acolhê-lo nesses irmãos menores. Do contrário, no julgamento, ouviremos a seguinte sentença: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. Todo aquele que se fecha em si mesmo, permitindo-se dominar pelo egoísmo, buscando somente a satisfação dos próprios interesses, não será acolhido no Reino, preparado desde a fundação do mundo para aqueles que viveram neste mundo a lei do amor.

            Olhando para o mundo atual, encontramos tanto individualismo e indiferença. Com a máxima urgência, o discípulo de Jesus precisa livrar-se desses males que podem ser a causa de sua perdição eterna. Os egoístas não entrarão no Reino de Deus. Por mais religiosa que seja uma pessoa, mas se não se libertar do egoísmo, não entrará no Reino de Deus. Jesus, o rei compassivo, no juízo final, não perguntará sobre o grau de religiosidade das pessoas, mas acolherá aquelas que viveram conforme o amor. Mas não um amor de palavras, mas de gestos concretos. Os que fecham os olhos para a necessidade dos outros não poderão participar do Reino de Deus.

            Alguém poderia perguntar: se é o amor que salva, para que serve, então, religião? Certamente, não é Deus que precisa de religião, mas nós, humanos. As doutrinas, ritos, normas etc., servem para manter o discípulo de Jesus no caminho do serviço aos irmãos. A religião tem a missão de congregar as pessoas, de reuni-las para celebrar o mistério do amor. Também é missão da religião ajudar a mantê-las unidas no propósito de viver conforme o amor.

Por meio dela, o cristão aprende que ninguém é salvo afastado dos outros, mas vivendo o amor em comunidade, porque é da natureza desse amor promover o encontro entre as pessoas; encontro permanente, nunca ocasional. As pessoas devem se encontrar para permanecerem no amor. Se a religião não servir a este propósito, então não passa de uma pedra de tropeço na caminha dos discípulos de Cristo, rei compassivo. É na comunidade cristã que o discípulo do rei compassivo aprende o significado da compaixão, vivendo uma vida cheia de sentido e alegria, porque descobriu, na prática, os sentimentos que conduziam Jesus na direção dos famintos, sedentos, nus, enfermos, migrantes, pecadores etc.

Por fim, cabe-nos citar a exortação do apóstolo Tiago, que diz: Com efeito, a religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo. Esses órfãos e viúvas representam todos os irmãos menores de Jesus, e o discípulo sabe onde eles se encontram. A religião precisa tornar as pessoas sensíveis às causas que promovem e cuidam desses irmãos; do contrário, por mais belas que sejam as nossas liturgias, nenhuma delas agradarão ao Pai celestial se não forem acompanhadas do testemunho do amor fraterno. Nestes tempos de pandemia do novo coronavírus, onde estão os irmãos mais pequeninos de Jesus? Procuramos viver em comunhão com eles, ou lhes fechamos os olhos?...

Tiago de França

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Sobre a polêmica em torno da fala do Papa Francisco em relação aos homossexuais



            Muitas das reações negativas sobre a fala do Papa Francisco em relação aos homossexuais são um tanto sintomáticas. No seio da Igreja Católica encontramos um grupo significativo de pessoas que, sempre que tem oportunidade, polemiza as falas do Papa Francisco. Quem tem apreço pela verdade também não pode perder a oportunidade para desmascarar essa gente.

A fala do Papa, veiculada em inúmeros jornais, aponta para duas necessidades: deve-se acolher o homossexual, e tal acolhimento, na sociedade civil, deve ser promovido por leis que o protejam dos ataques dos homofóbicos. Discute-se se o Papa apoia ou não a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Todos conhecem a doutrina tradicional da Igreja no que se refere ao matrimônio. O Papa mudou essa doutrina? Não! Então, por que a polêmica?

A Igreja Católica regula a sociedade, com sua doutrina e com a lei canônica? Não! Essa não é a sua missão. As sociedades têm suas constituições, leis e costumes. No Brasil, o Estado é laico. A laicidade do Estado promove a liberdade religiosa e a tolerância, mas não confere a nenhuma denominação religiosa o poder de regular a vida social. No passado, a Igreja participava de muitos acordos que regulavam a ordem social, mas hoje não existe mais isso. Os Poderes da República são livres para organizar a vida social. Pode a Igreja opinar, criticar, denunciar e se opor a tudo aquilo que contraria a Lei de Deus? Claro que pode!

Se o Papa concordar com a necessária criação de leis que protejam os homossexuais, estaria ele contradizendo a doutrina da Igreja? Claro que não! Há um princípio evangélico que rege a vida cristã: da igual dignidade dos filhos de Deus. O heterossexual é superior ao homossexual? Quem responde positivamente a essa questão, nega o princípio da igual dignidade dos filhos de Deus, bem como o princípio da igualdade que consta no art. 5º, caput, Constituição da República. O homossexual é menos pessoa que as demais pessoas? Claro que não! Fazer tais afirmações é promover o que chamam de "cultura gay"? Claro que não! O Papa não está promovendo a "cultura gay", mas está preocupado com a dignidade das pessoas. São coisas diferentes.

A nossa época é marcada pela necessidade da explicação do óbvio. Mas por que nos encontramos nessa vergonhosa situação? Porque faltam estudo, leitura e interpretação de texto. Faltam também respeito, compreensão, acolhimento, tolerância e alteridade. O que uma pessoa ganha ao distorcer a fala de um Papa, ou de qualquer outra pessoa, com o intuito de prejudicar e diminuir? Absolutamente, nada! Dentro e fora da Igreja, precisamos crescer em maturidade e conhecimento. A ignorância gera conflitos desnecessários. Os críticos do Papa poderiam se dar o trabalho de, pelo menos, ler todos os seus textos, para descobrir que o Papa tem procurado, insistentemente, defender e promover a dignidade dos pobres e das demais categorias de pessoas excluídas.

Por fim, é preciso considerar que o cristão pode e deve denunciar as injustiças que se cometem neste mundo. E esta é a razão que me levou a escrever esse texto. Uma pessoa até pode não se identificar com o fato de alguém ser homossexual, mas jamais pode se utilizar disso para julgar e condenar. É possível que se reprove determinados excessos e desvios cometidos por heterossexuais e homossexuais, em todos os âmbitos, mas é inaceitável que se utilize da doutrina da Igreja para julgar e condenar os homossexuais. Não foi para isso que a doutrina foi criada. A doutrina condena erros, não pessoas. Somente Deus tem o poder de julgar uma pessoa, e este poder não foi conferido a ninguém (cf. Mt 7,1-2).

Tiago de França

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Maria: modelo dos servidores do Evangelho

 


      Neste dia em que a Igreja católica no Brasil celebra a solenidade de Nossa Senhora Aparecida, a liturgia nos oferece o texto de Jo 2,1-11, que narra a festa de casamento em Caná da Galiléia. Para essa festa foram convidados Jesus, seus discípulos e sua mãe.

O texto conta que o vinho da festa acabou, e Maria logo percebeu. Ela sabia que Jesus poderia fazer alguma coisa, pois conhecia o seu filho. Interessante essa percepção de Maria, prova de sua sensibilidade. Aqui já podemos pensar sobre o valor da sensibilidade para a vida cristã.

Nossos dias são marcados pela insensibilidade, que manifesta o terrível pecado da indiferença. Quem tem fé em Jesus não pode ser insensível à dor do outro, porque o encontro com Jesus é encontro com o outro, que existe em determinado contexto. A falta do vinho simboliza a ausência de amor, perdão, solidariedade, justiça, mansidão, paz, e de tudo o que é necessário para vivermos dignamente.

O discípulo de Jesus, guiado pelo Espírito do Senhor, consegue identificar a falta do vinho, e não fica parado, esperando que alguém faça alguma coisa. Maria não ficou parada, mas foi até Jesus. Ela sabia que Jesus não iria ficar indiferente.

Olhando para os discípulos de Jesus, Maria diz: "Fazei o que ele vos disser". É como se dissesse: "Fiquem atentos, porque Jesus vai fazer alguma coisa para que a festa possa continuar". Então, Jesus age, providenciando vinho novo para a festa: 600 litros de vinho! O responsável pela organização da festa ficou admirado, porque experimentou do vinho novo, de boa qualidade. E a festa continuou, sem que o noivo soubesse de onde tinha saído tanto vinho.

O vinho novo é símbolo da renovação e da abundância. O desejo de Deus é que seus filhos possam se renovar sempre, mudando a mentalidade, aceitando o novo que transforma. Em Cristo, nasce o novo homem, porque "as coisas antigas já se passaram". Esse novo homem é o vinho novo presente no mundo, que causa alegria e festa. O cristianismo não é a religião da tristeza, mas da alegria e da festa.

Jesus realiza o seu primeiro sinal em uma festa de casamento. Isso é muito significativo, porque se distancia do formalismo que muitas vezes muitos cristãos querem imprimir no cristianismo. Os sinais de Deus se manifestam no cotidiano da vida comunitária. Jesus sinaliza para uma presença divina marcada pela simplicidade e pelo amor que não deixa nada faltar.

O evangelista faz questão de afirmar que diante da manifestação do sinal operado por Jesus, os "discípulos creram nele". É para crer em Jesus que os sinais são realizados. O mais importante não é o sinal, mas a fé em Jesus. Os sinais de Jesus não possuem um fim em si mesmos, mas apontam para a necessidade da fé. Pela fé, muitos outros sinais são realizados; pela fé, a comunidade cristã entra em comunhão com a Trindade, e a festa do Reino se torna realidade já neste mundo, e de forma definitiva no mundo futuro.

Tiago de França

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A missão e o desapego

 


“Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles?”
(Mt 6,26)

            Muitas são as características e as exigências da missão, porque esta não se realiza de qualquer jeito, mas requer preparação, discernimento, coragem e desapego. Nestas breves linhas, trataremos do significado e importância do desapego em vista da missão do cristão. Desapego é caminho para a liberdade. O missionário precisa ser livre para, de fato, ser presença do Deus da liberdade neste mundo. Trata-se de um desafio imenso, porque neste mundo capitalista as pessoas são induzidas ao apego, principalmente no que se refere aos bens materiais.

            Para relacionar-se bem com Deus e, assim, viver uma intensa experiência com Ele, é necessário desapegar-se de tudo aquilo que prende e aliena. Desapegar-se de si mesmo parece ser uma das formas de desapego mais exigente. Há ideias e modo de ser que, muitas vezes, não correspondem à vontade de Deus. Os pensamentos de Deus são diferentes dos nossos (cf. Is 55,8); por isso, é necessário analisar e discernir os pensamentos que povoam a mente, para saber se há sintonia com o que Deus espera e exige. O missionário é alguém que projeta a sua vida considerando o projeto de Deus, pois não é Deus que deve se submeter ao que o missionário planejou para a sua vida.

            Há modos de ser que dificultam a vida do missionário, tornando-o indiferente em relação às pessoas, especialmente os pobres e esquecidos. O ideal de vida do missionário deve ser o de Jesus. Ou seja, é necessário adotar o estilo de Jesus, marcado pela simplicidade, humildade, disponibilidade, despojamento, abertura, solidariedade, compreensão, ternura e amor. Desapegar-se de um estilo de vida egoísta e medíocre é fundamental para viver uma vida autenticamente missionária. O egoísmo é incompatível com a missão, porque uma pessoa egoísta somente pensa em si mesma, e corre o risco de transformar a missão em um instrumento de satisfação de seus próprios interesses.

            A missão do cristão nasce com a experiência de Jesus e é continuada por seus discípulos. Quem se dispõe a seguir Jesus se torna missionário e participa da sua missão. Isso significa que a missão nasce com Jesus, deve ser vivida com Jesus, aponta para Jesus, e tem como razão de ser o próprio Jesus. Falar de Jesus é falar do Reino de Deus, porque a sua missão está em função do Reino. Foi para inaugurar o Reino que foi enviado. Portanto, pelo batismo cada cristão participa da missão de Jesus. Assim, não pode o cristão realizar a missão de acordo com seus pensamentos e anseios, mas deve partir do Evangelho, observando a pedagogia de Jesus.

            O desenvolvimento da missão exige proximidade e deslocamentos, porque a missão é movimento. Jesus não realizou a sua missão somente pregando no Templo e nas sinagogas. A sua forma de ser missionário era dinâmica, marcada pelo contato com as pessoas: vivia caminhando com elas e as visitando. Seus primeiros seguidores não o conheceram no Templo ou na sinagoga, mas nos caminhos que conduziam aos mais simples do povo. Por isso, o missionário deve desapegar-se do comodismo. Certamente, é mais cômodo esperar que as pessoas procurem o missionário, mas Jesus ensinou que este deve procurá-las, indo ao encontro delas. É necessário enfrentar as resistências que aparecem, capazes de impedir o missionário de sair ao encontro das pessoas.

            Muitas vezes, a missão exige que o missionário se distancie de sua própria família, para viver distante, próximo daqueles para os quais foi enviado. Esta saída para conhecer e viver em outros lugares, com outras culturas, exige desapego. É verdade que o missionário não deve esquecer, nem perder o vínculo com a sua família biológica, mas é verdade também que a missão lhe oferece uma família mais ampla, para cuidar e deixar-se cuidar. É necessário cortar o cordão umbilical e partir, confiando no chamado de Deus e na Providência divina, que a todos assiste, misteriosamente.

            Outro tipo de apego a ser superado para o cristão ser verdadeiramente missionário é o apego aos cargos. No seio da Igreja, algumas pessoas exercem a liderança, ocupando alguns cargos: coordenam grupos e comunidades (párocos, administradores, vigários, coordenações diocesanas e paroquiais etc.); outros são chamados a exercer os inúmeros ministérios presentes na vida da Igreja. Todos os cargos e ministérios devem estar em função da missão; do contrário, transformam-se em instrumentos de envaidecimento e autoritarismo.

A teologia dos ministérios é clara ao ensinar que, na vida eclesial, os que ocupam cargos e ministérios são chamados a servir. Infelizmente, os desvios aparecem quando as pessoas se servem dos cargos e ministérios para serem vistas como influentes, bem como para gozar de possíveis privilégios. Quando isso ocorre, perde-se o sentido da missão, e o “mundanismo espiritual” (expressão muito utilizada pelo Papa Francisco) passa a dominar a vida eclesial. Desapegar-se das ambições e/ou pretensões contrárias ao espírito de serviço é fundamental para o fiel cumprimento da missão.

Por fim, e não menos importante, é preciso desapegar-se de lugares e pessoas. A missão faz com que o missionário se relacione com muitas pessoas, e com elas estabeleça vínculos de amizade. Isso é bom, justo e necessário. Sem amizade a missão não se realiza, porque o missionário não é um despachante, mas alguém que se envolve com os dilemas das pessoas, disponibilizando-se a ajudá-las. O apego às pessoas está no fato de não conseguir se libertar delas, criando uma espécie de dependência. Aí já não temos amizade, mas prisão. O missionário não pode perder a liberdade; do contrário, não consegue evangelizar. Permanecer preso às pessoas e grupos é prejudicial à missão, porque prejudica o anúncio do Evangelho. Quem se prende a pessoas e grupos corre o risco de falar somente o que lhes agrada, ocultando a verdade do Evangelho.

A disponibilidade é uma das regras da missão. Quem assume a missão se coloca à disposição da missão, sendo nomeado e enviado para os lugares nos quais a necessidade exige determinado perfil de missionário. Havendo missionário suficiente para atender à demanda da missão, o ideal é atender às exigências de determinados ofícios e lugares, no sentido de escolher o missionário “certo” para determinado lugar, ou ofício. Isso evita que determinado lugar, ou cargo tenha um missionário totalmente incompatível com as respectivas exigências. Quando isso ocorre, o povo de Deus sofre as consequências.

As obras e ofícios pertencem à Igreja, instrumento a serviço da missão de Jesus, e exigem pessoas capazes e disponíveis para servir. Este é o ideal a ser buscado e vivido. Fora deste ideal, a Igreja pode ser transformada em uma empresa, cujos cargos e ministérios são disputados, gerando conflitos e escândalos. Desapegar-se de lugares e não cair na tentação de exigir determinados lugares, cargos e ministérios são virtudes que revelam liberdade e consciência da missão. Trata-se de um processo de discernimento e um caminho que pode ser trilhado com o auxílio da graça de Deus, sem a qual não existe missão.

Tiago de França

domingo, 27 de setembro de 2020

São Vicente de Paulo: amigo dos pobres

 


       Sacerdote francês, nasceu em 1581, e morreu em 27 de setembro de 1660. Inicialmente, pensava numa carreira promissora, para ajudar a família, que era pobre. Naquele tempo, para muitos, o sacerdócio era como um "meio de vida", ou seja, caminho certo para ganhar dinheiro, prestígio e poder na Igreja e na sociedade.

         Mas o Pe. Vicente de Paulo, após inúmeros insucessos, percebeu que Deus o chamava para ser aquilo que todo padre é chamado a ser: Servidor. Diante do estado humilhante e deplorável em que se encontravam os pobres na França daquela época, o Pe. Vicente de Paulo logo se deu conta de que Deus o chamava para servir aos pobres.

Em 1625, fundou a Congregação da Missão (Padres e Irmãos Lazaristas), com a missão de evangelizar os pobres. Esta é a destinação especial e exclusiva da Congregação. Com a valiosa colaboração de Santa Luísa de Marillac, em 1633, fundou a Companhia das Filhas da Caridade, com a mesma finalidade: Evangelizar os pobres.

O Pe. Vicente de Paulo foi canonizado em 1737, pelo Papa Clemente XII. Posteriormente, em 1885, foi declarado Patrono universal de toda as obras de caridade. São Vicente passou toda a sua vida fazendo o que Jesus fez: Com palavras e obras, evangelizou os pobres. Pela primeira vez na história da Igreja, uma Congregação religiosa de padres e irmãos nasceu para evangelizar, somente, os pobres. O mesmo se diga da Companhia das Filhas da Caridade, formada por mulheres simples, inicialmente camponesas, para o cuidado dos pobres.

O carisma vicentino tem na pessoa de Jesus o seu centro. São Vicente era profundamente cristológico. Muito preocupado em formar padres que cuidassem dos pobres, incluiu no carisma da Congregação o empenho na formação do clero. Desde a sua época até os dias atuais, especialmente no período que vai da fundação da Congregação até a realização do Concílio Vaticano II, os Padres e Irmãos Lazaristas atenderam ao apelo de São Vicente, e contribuíram com a formação de milhares de padres diocesanos em muitas partes do mundo.

A celebração da memória de São Vicente é uma feliz oportunidade para recordar o lugar dos pobres na vida e missão da Igreja. Infelizmente, no seio da Igreja tem surgido inúmeros grupos e comunidades que se ocupam muito com a oração e pouco com a ação. A caridade exige serviço organizado e proximidade com os pobres. Não se trata de oferecer esmolas aos pobres, mas de se envolver com seus dilemas, ajudando-os a resolvê-los. Não se trata, também, de substituir os pobres em suas lutas por uma vida digna, mas de oferecer apoio, orientação, formação; ajudá-los a serem sujeitos da própria libertação. Foi isso que São Vicente ensinou a fazer.

Que o Espírito do Senhor nos torne sensíveis ao sofrimento dos mais pobres, pois, dizia São Vicente: "Os pobres são nossos mestres e senhores". Precisamos unir oração e ação, sendo, desse modo, contemplativos na ação. Do contrário, seremos uma Igreja de muita reza e pouca caridade.

São Vicente de Paulo, rogai por nós!

Tiago de França

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A experiência libertadora do perdão


“Não existe cristianismo sem misericórdia” (Papa Francisco).
            A ninguém se deve negar o perdão. Esta regra da vida cristã enche de alegria o coração de Deus. Na oração do Pai nosso, o discípulo de Jesus pede ao Pai: “... e perdoa-nos a nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). É preciso não esquecer do pedido completo: Pedir perdão a Deus e perdoar o próximo. Não é correto somente pedir perdão a Deus e negar o perdão aos outros. O próprio Jesus diz isso, ao afirmar que se deve perdoar “de coração” aqueles que nos ofendem (cf. Mt 18,35).
            Perdoar de coração significa perdoar de verdade, sem falsificar o ato de perdoar; sem guardar rancor, nem ressentimento; sem ficar lembrando, nem resmungando. O perdão verdadeiro parte do coração. Este, sim, liberta a pessoa. Negar o perdão é uma experiência escravizadora. Quem assim procede não é livre, porque demonstra incapacidade de perdoar. Portanto, trata-se de uma experiência que não é possível sem o auxílio da graça de Deus.
            Para perdoar é necessário, também, superar o espírito de vingança presente no mundo. Pagar o mal com o mal não é atitude do seguidor de Jesus. Essa forma nociva de agir faz com que a violência cresça e domine as pessoas, os grupos e a toda a sociedade. O que seria do mundo se todas as pessoas pagassem o mal com o mal?... Não há nenhuma vantagem na vingança. No lugar desta deve existir a compaixão, porque “se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 28,4).
            A realidade tem mostrado que vivemos numa sociedade enferma, escandalosamente marcada pela cultura do ódio. Os discursos de ódio se multiplicam e enfraquecem as relações interpessoais, fragmentando e contaminando o tecido social. Esta cultura é marcada pela intolerância, desrespeito, preconceito, julgamento e condenação, demonização e perseguição. Cresce o clima de hostilidade e confusão. Estas formas de violência passam a ser consideradas como “normais”, e as pessoas vão se acostumando com as múltiplas formas de agressão que se cometem em praticamente todos os lugares.
            Também no seio do cristianismo, vergonhosamente, assistimos a esse estado de coisas. Pessoas e grupos, que se intitulam “religiosos”, alimentam a cultura do ódio em nome de Deus e da fé cristã. Não conseguem enxergar a contradição que há entre os discursos de ódio e a fé em Jesus. Praticam a violência usando a Palavra de Deus! Fazem o que a Palavra reprova: julgam, condenam, excluem, marginalizam, desprezam e agridem pessoas, grupos e instituições. Perdem facilmente o senso do ridículo, com palavras e gestos incompatíveis com a fé cristã.
            O perdão é uma necessidade do ser humano, e a comunidade cristã deve ser lugar de reconciliação. O cristianismo não deve ser sinal de discórdia no mundo, mas instrumento da misericórdia de Deus. Para isso, os cristãos precisam dar testemunho desta misericórdia, sendo misericordiosos uns com os outros.
O perdão é prático, simples e libertador. Não é uma teoria, um discurso ou uma ideia, mas um instrumento de aproximação, congregação e de unidade. A paz também é fruto do perdão. Na discórdia não há paz, mas consciência pesada, espírito abatido e desassossego. Quando verdadeiro, o perdão é capaz de tranquilizar o coração e silenciar o espírito, libertando da perturbação.
            Deus não se cansa de perdoar, e pede que façamos o mesmo. Não há limites, nem condições para o perdão. Deve-se perdoar os outros não porque estes merecem, mas porque Deus exige. A experiência de Jesus é exemplar para todo cristão: Na cruz, pediu ao Pai que perdoasse os seus algozes (cf. Lc 23,34).
O perdão é fruto do amor. Jesus muito perdoou, porque muito amou. O amor exige e gera o perdão: Quem muito ama recebe de Deus o perdão dos pecados (cf. Lc 7,47). Deus não olha, em primeiro lugar, os muitos pecados dos pecadores, mas espera o arrependimento sincero, de coração, e a disponibilidade para a conversão.
            Para fazer a experiência do perdão é necessário ter a humildade de reconhecer os próprios pecados, porque sem este reconhecimento ninguém pede, verdadeiramente, perdão a Deus. O orgulhoso e prepotente não recebe o perdão de Deus. É necessário se despojar de todo orgulho e espírito de superioridade e, batendo no peito, inclinar-se diante de Deus e pedir perdão.
É assim que o pecador inicia o seu processo de conversão. Sem o reconhecimento das próprias fraquezas não é possível agradar a Deus. O cristão é salvo por pura graça de Deus, sem mérito pessoal algum. Por isso, o caminho que conduz à vida passa, necessariamente, pela prática da misericórdia. Fora da misericórdia não existe salvação, porque Deus é misericórdia. Uma pessoa pode ser muito religiosa, mas se não for misericordiosa, vã é a sua religiosidade. Sejamos, pois, misericordiosos.

Tiago de França