terça-feira, 14 de maio de 2019

O direito à educação e os cortes dos recursos educacionais

       Estamos no mês de maio, portanto, com o governo Bolsonaro desde o dia 1º de janeiro, e parece que a educação continua sendo negligenciada no Brasil. Aliás, mais que isso, agora assistimos a uma nova modalidade de trato com a educação pública: o governo federal, além de não valorizá-la como caminho para o verdadeiro progresso do País, resolveu cortar parte significativa dos recursos educacionais.

Não constitui novidade para ninguém a ideia de que sem educação não há povo que progrida. As nações consideradas desenvolvidas investiram e investem pesado na educação, pois sabem que não é possível educação de qualidade sem investimentos.

            Exemplo disso é o que ocorre na Alemanha, que nestes dias anunciou um investimento de 160 bilhões de euros para universidades e pesquisas. No Brasil, ao invés de aumentarem o dinheiro investido, anunciam cortes e mais cortes. Às vésperas dos protestos deste dia 15 de maio, o governo Bolsonaro já mandou seu recado desastroso: outros cortes acontecerão nos próximos dias.

Curiosamente, não se fala dos motivos que legitimam esses cortes. Fala-se de contingenciamento de gastos, bem como ousam afirmar que se gasta muito com educação no Brasil. Parece piada, mas é verdade: o governo Bolsonaro acha que no Brasil se gasta muito dinheiro com educação pública.

            O que está por trás desses cortes? Podemos, em primeiro lugar, lembrar o que o próprio presidente anda dizendo no seu twitter: que aos brasileiros basta saber ler, escrever, contar e ter um curso profissionalizante. Trata-se da fala de alguém que nunca pisou numa universidade. Quem desconhece o universo acadêmico não sabe dos custos da academia. Além de ignorar os custos, não manifesta nenhum interesse em saber, o que é o mais grave.

Também podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que o presidente não enxerga na educação a solução para os graves problemas do país. Ele não consegue conceber a educação como caminho para “o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Constituição da República de 1988, artigo 205).

            O presidente passou quase 30 anos atuando no poder legislativo e não conhece a importância da educação. Mas o que mais causa indignação nas pessoas de bom senso e boa vontade é saber que milhões de brasileiros sabiam disso, e mesmo assim, o elegeram presidente da República. O presidente foi um candidato que não enganou a ninguém. Todos sabiam da sua ignorância em matéria de educação e conhecimentos básicos fundamentais.  

Todos sabiam da sua falta de atuação parlamentar em matéria de educação. Ele foi taxativo durante a campanha, ao dizer que praticamente não conhecia nada. Mas o povo acreditou nas fake news, e agora está vendo que para governar o País não basta somente a vontade de governar, é preciso ter capacidade, boa vontade política e compromisso com a justiça e a ética no trato com a coisa pública.

            Há um terceiro fator que não pode ser esquecido nesta breve análise da negligência do governo federal quanto à educação: há um nítido projeto de desconstrução das conquistas educacionais alcançadas durante os governos petistas.  

Apesar dos pesares, os governos petistas, de Lula e Dilma, foram os que mais investiram em educação pública: novas universidades e institutos federais criados, mais pessoas pobres ingressando na universidade, novos cursos sendo abertos, maior autonomia na gestão das universidades, mais investimento na pesquisa e extensão, enfim, mais oportunidades para que o brasileiro pudesse se libertar do jugo da ignorância e do fracasso. Os números do período destes governos atestam a veracidade do que estamos falando. Uma simples pesquisa no Google ajuda o leitor a enxergar melhor aquele período.

            A quem interessa a desvalorização da educação pública, bem como o sucateamento das escolas e universidades públicas? A resposta é simples: interessa aos grandes grupos das escolas e universidades privadas, que criaram um mercado gigantesco e promissor, transformação a educação em mera mercadoria.

A educação privada visa o lucro, não se interesse com o exercício da cidadania. Na iniciativa privada, estuda quem tem dinheiro, ou quem recebe uma bolsa de estudos, bolsa que faz a instituição privada de ensino receber abatimento no pagamento dos impostos. Não existe caridade, existe negócio.

A mesma lógica funciona quando a coisa pública é privatizada. Quem defende a privatização da universidade pública, na verdade está defendendo que se pague para estudar. Em um país de 13 milhões de desempregados, onde os brasileiros vão buscar dinheiro para custear escola e universidade particulares para suas crianças, adolescentes e jovens?

A educação é “direito de todos e dever do Estado e da família” (artigo 205 da CR/88). Portanto, o cidadão paga impostos e tem o direito à educação pública de qualidade. O Estado tem o dever, ou seja, a obrigação de ofertar educação pública de qualidade. É o que diz o mandamento constitucional, e tem que ser cumprido na forma da Lei.

São por estes e outros motivos que neste dia 15 de maio, em todos os cantos do País, muitos brasileiros vão às ruas para gritar contra esta grave injustiça que o governo está praticando contra o progresso do País e contra os brasileiros. É inaceitável os cortes de verba pública na educação, bem como o sucateamento que visa a privatização do ensino público no Brasil. Basta e injustiça! Viva a educação!

Tiago de França

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Pensar em tempos de obscuridade


          Pensar livremente sempre foi o exercício fundamental dos espíritos evoluídos. A evolução da sociedade e do homem depende da difícil e desafiadora arte de pensar. O que seria da humanidade sem a ousadia de muita gente que se debruçou sobre os próprios pensamentos, provocando descobertas de toda ordem? O ser humano é ontologicamente vocacionado ao pensar, ou seja, não se realiza fora da atividade pensante. Quando entregue à preguiça mental e ao controle sistematizado da mente, o homem e a sociedade ficam como que paralisados, entregues ao arbítrio dos mais espertos.

            A filosofia, a sociologia, a história, a antropologia, a psicologia, a psicanálise e outras áreas congêneres, criadas pelo esforço permanente da inteligência humana, sempre foram abordagens incômodas, pois são contrárias aos interesses daqueles que lucram e se aproveitam da ingenuidade e cegueira da grande maioria das pessoas que não se ocupam com o pensar. A grande maioria dos humanos não se ocupa com o pensar, mas assimila os modelos e padrões estabelecidos pelas grandes corporações financeiras, que ganham muito dinheiro fabricando coisas e ideias que visam a dominação dos espíritos e dos corpos humanos.

            No mundo capitalista não há espaço para o espírito crítico. Não interessa ao mercado a multiplicação de pessoas que se dedicam ao aperfeiçoamento do pensar crítico. Este pensar desmascara os projetos de dominação. O mercado financeiro visa o lucro, e para que este seja alcançado é necessário a manipulação da consciência e o uso das forças de homens fracos. O homem fraco é aquele que não pensa sobre a vida e sobre o que acontece no mundo. É aquele que vive somente em função da satisfação de suas necessidades básicas. De fato, há milhões de pessoas que se contentam com o alimento, o vestir, o calçar, o comer e o lazer. O mercado financeiro precisa de mão de obra qualificada, e esta mão de obra é constituída por pessoas que são treinadas para somente produzir e consumir.

            Quando o governo federal diz que vai cortar os gastos com filosofia e sociologia nas universidades, o recado é claro: o governo quer colocar a educação pública a serviço dos interesses do mercado. De que tipo de gente o mercado precisa? De pessoas que aprendam a produzir com eficiência e qualidade, bem como de uma massa numerosa de consumidores inconsequentes. Consumir sem necessidade é uma espécie de consumo irresponsável. Quem não pensa a realidade do consumo é usado pelo mercado para a produção dos lucros das grandes empresas produtoras de descartáveis.

            Trazendo a reflexão para o âmbito das relações interpessoais, ocorre algo semelhante: vivemos numa situação profundamente marcada pelo esquecimento do outro. Este ganha notoriedade quando tem dinheiro ou influência, ou ambas as coisas. Há uma grande massa de seres humanos ao redor do mundo que se encontra na invisibilidade: massa de inúteis e sobrantes, de pessoas que nem produzem nem consomem. São sem importância e descartadas pelo sistema. Este é tão perverso que faz as pessoas entenderem que o que estamos descrevendo não passa de uma ideologia marxista barata.

            A expressão “isso é coisa de comunista” tem integrado a lábia barata e fajuta dos que vivem a serviço da promoção do sistema capitalista. Para tais pessoas, “bom é o capitalismo, que promove o progresso”. Tal afirmação parece acertada, mas não resiste a simples indagações: O capitalismo promove o progresso de quem? No Brasil dos 13 milhões de desempregados, quem está progredindo? No governo aliançado com as forças do grande mercado financeiro, quem está ganhando e quem está perdendo? Por acaso, estas questões são comunistas? Há muita gente poderosa se aproveitando do discurso anticorrupção e anticomunista. O Brasil é um país no qual a manipulação da consciência é de fácil execução.

            A sistematização do pensamento e da crítica é ferramenta essencial para a emancipação das pessoas; do contrário, estas continuarão consumindo as informações cuidadosamente elaboradas com a finalidade de enganar e camuflar a realidade. Sem a análise da realidade não é possível se libertar das mentiras bem contadas pelos que operam a dominação social. Os que oprimem dependem da cegueira da maioria. Sem gente cega não é possível explorar. O prazer dos poderosos deste mundo é ver as pessoas sendo exploradas; e a exploração é tão eficiente que a maioria dos explorados, uma vez conformados com a situação, até se sentem gratos por serem escravos.

            Vivemos tempos de obscuridade. Lamentavelmente, em pleno século XXI. Quando se diz que com a Internet e as redes sociais as pessoas estão mais atentas ao que está acontecendo, há um profundo engano. É verdade que a Internet continua sendo uma ferramenta importante para a busca de informações. Mas quem sabe pesquisar na Internet? Quem a utiliza para a realização permanente de pesquisas? Quem ensina às pessoas a filtrar as inúmeras informações fragmentadas? De modo geral, e as eleições gerais de 2018 demonstraram isso, os brasileiros não utilizam a Internet para pesquisas. A pesquisa não é o forte da cultura brasileira. A maioria está presente nas redes sociais, curtindo e compartilhando o que a própria rede vai ofertando, conforme o interesse dos grandes grupos que faturam muito dinheiro com a propaganda e o consumo de mentiras e mercadorias.

            A obscuridade está alicerçada na irracionalidade. Quem não pensa vive na obscuridade, ou seja, não conhece as causas dos acontecimentos da vida. A maioria tem acesso somente às versões predominantes dos acontecimentos. Os veículos de comunicação fazem seus recortes e oferecem suas versões. As pessoas simplesmente assimilam e formam a sua visão de mundo a partir disso. Assim, não há uma visão de mundo propriamente dita, pois não envolve o pensar por si mesmo. A assimilação e repetição irracional dos fatos não é uma atividade intelectualmente crítica. Sem análises não há pensamento crítico. Compreender o que está acontecendo no mundo é essencial para uma vida digna de seres humanos. Quem não enxerga a realidade é, geralmente, engolido por ela. Pensar é necessário para a evolução da humanidade. As pessoas hoje precisam compreender isto, para se libertarem das prisões que as oprimem.

Tiago de França

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Ressuscitados em Cristo Jesus


“Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse” (At 2, 23 – 24).

            Não era possível que a morte dominasse Jesus. Deus o ressuscitou! Este é o grande mistério celebrado nestes dias por milhões de cristãos em todo o mundo. A Páscoa é a celebração da vitória de Jesus, libertado das angústias da morte. Na ressurreição de Jesus todo aquele que nele crê tem a vida, experimenta a verdadeira liberdade de filho de Deus. Ressuscitando-o, Deus Pai nos apresenta, de uma vez por todas, o fim definitivo da pessoa humana e de toda a criação: a participação na vida plena, vida que dura para sempre. Solenemente, os discípulos de Cristo em nossos dias, gritam com voz forte e com o testemunho da própria vida, de cima dos telhados, esta feliz, esplendorosa e boa notícia: Jesus Cristo ressuscitou!

            A celebração do mistério sublime da ressurreição de Jesus Cristo também nos transmite uma feliz condição: a de vivermos como ressuscitados. A fé na ressurreição já nos introduz no mistério de uma vida de ressuscitados. Para compreendermos esta vida, precisamos olhar para a vida de Jesus, que nos abre a inteligência para a perfeita compreensão do mistério da sua ressurreição. Assim, sem levarmos em conta o mistério da sua vida, paixão e morte na cruz, somos incapazes de compreender a ação divina que o ressuscitou dentre os mortos. O ressuscitado é o crucificado, e este é aquele que amou até o fim. A fidelidade de Jesus no amor o levou ao madeiro da cruz e à ressurreição. Por isso, já descobrimos o sinal que evidencia o caminho que conduz à vida plena: a fidelidade no amor.

            Quando Jesus fez opção pelos pobres e excluídos, quando vivia sentado à mesa com os pecadores públicos, quando curou os enfermos e expulsou os demônios, quando desmascarou a infidelidade e a hipocrisia das autoridades civis e religiosas de seu tempo, quando anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus, enfim, quando, com palavras e gestos, buscou realizar a vontade do Pai, Ele nos ensinou a sermos fieis. Ser fiel no amor é amar até o fim. Não há regra nem convenção humana que possam se sobrepor ao amor. Portanto, para vivermos como ressuscitados precisamos viver como Jesus: amar como Ele amou. Certamente, é um desafio amar como Jesus amou, porque o amor de Jesus era incondicional, ou seja, ele amava na liberdade e para a liberdade.

            O amor incondicional é aquele que se manifesta na liberdade e na gratuidade. Se numa relação amorosa não existe liberdade, então aí não temos amor, mas relação egoísta. E onde há egoísmo não há amor. Amor e egoísmo são realidades incompatíveis. Se os outros não possuem lugar em nossos projetos e/ou planos de vida, então o amor não integra o nosso caminhar. Não há possibilidade de amar sem o encontro com os outros. Estes nos revelam o mistério de uma vida amorosa e plena. Sozinho ninguém é capaz de amar. O amor exige o sair de si mesmo na direção dos outros. Toda a vida de Jesus foi um constante encontro amoroso com os outros. Durante a sua peregrinação terrena, Jesus passou a maior parte do seu tempo amando as pessoas, servindo-as, generosa e gratuitamente. Ele sabia que a vida plena brota do amor.

            Sabemos, então, o remédio eficaz para a cura de nossos males: o amor. Não o amor discursivo, que é aquele conjunto romântico de palavras. Jesus não amava discursando, mas servindo aos outros. Ele certamente utilizava a palavra, mas a utilizava para manifestar o amor que experimentava na relação com as pessoas. Suas palavras revelavam o seu agir e a riqueza do seu coração. Amando, Jesus revelou o Deus que é amor. Em Cristo Jesus, Deus manifestou ao mundo a grandeza do seu amor pela humanidade. Revelou-nos também que pelo amor é possível a criação de uma nova humanidade. Esta é a sua opção. Desse modo, o amor é o critério fundamental para avaliarmos se estamos ou não em sintonia com Deus.

            Para vivermos como ressuscitados precisamos amar como Jesus amou. Não precisamos de grandes saberes, nem de ocuparmos grandes postos. A grandeza do amor se manifesta a partir das pequenas coisas, no cotidiano de uma vida simples. Até podemos conhecer muitas coisas e/ou ocuparmos grandes postos, mas estas coisas não constituem condição para experimentarmos o amor. Este é mais acessível aos simples, aos últimos e aos despojados. Para que o amor possa encontrar espaço em nossas vidas, precisamos abandonar o apego que muitas vezes temos às coisas, aos lugares e às pessoas. A quê e/ou a quem estamos presos? O que procuramos para sermos felizes? O amor liberta e nos faz experimentar a leveza da vida. A pessoa que verdadeiramente ama se parece com um pássaro: livre, leve e sem preocupações. O amor tudo assegura, porque se torna a única segurança na vida daqueles que amam. Quem não ama passou pela vida sem a experimentar.

            Quando nossos governantes aprovam e promovem medidas contrárias ao bem de todos, favorecendo determinados grupos políticos e empresariais, estão praticando o amor? Quando nossas Igrejas cristãs dão mais importância ao culto que à caridade fraterna, silenciam-se diante das injustiças, recusando-se a socorrer os injustiçados, estão praticando o amor? Quando as pessoas julgam, ofendem e matam em nome de Deus, estão praticando o amor? Quando, nas comunidades cristãs, líderes religiosos e demais pessoas optam por colocar as prescrições e as doutrinas religiosas acima do evangelho, excluindo aqueles que não as observam, estão praticando o amor? Quando, no cotidiano de nossas vidas, ignoramos ou tratamos as pessoas com indiferença, estamos praticando o amor? Para vivermos como ressuscitados precisamos rever estas e outras situações que nos falam da falta de amor.

            No amor o Cristo Jesus nos ressuscita para uma vida nova. Antes de sua morte na cruz, Ele nos ensinou o caminho: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 14, 34). O mandamento novo é amar como Jesus amou. Este é o caminho que nos faz viver como pessoas ressuscitadas, conhecedoras da vida em abundância, capazes de manifestar ao mundo a presença amorosa de Deus, deste Deus que amou tanto o mundo, que entregou o seu próprio Filho para a salvação de toda a humanidade. Para participamos da vida divina precisamos viver este amai-vos uns aos outros a exemplo de Jesus, que foi fiel até o fim no amor. Somente assim conheceremos, compreenderemos e participaremos do mistério pascal de Cristo Jesus.

Tiago de França

sexta-feira, 15 de março de 2019

Francisco e o ideal da Igreja em saída


“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 49).

            Evangélico e belo é o ideal da Igreja em saída, reforçado pelo Papa Francisco. Nestes dias, os católicos e muitos não católicos celebram os seis anos de seu pontificado. Também queremos oferecer algumas provocações sobre a contribuição do Papa Francisco à Igreja, com ênfase no tema da Igreja em saída, que parece ser o centro de sua eclesiologia, ou seja, da sua maneira de enxergar e conceber a Igreja e sua missão no mundo. Trata-se de um comentário breve ao número 49 da Evangelium Gaudium.

1. Uma Igreja enferma

            O Papa diz que enferma é a Igreja que se fecha em si mesma e se entrega às comodidades, agarrando-se às próprias seguranças. Quem conhece a história da Igreja, especialmente o período que vai do momento em que o cristianismo se tornou a religião oficial do império romano até o concílio Vaticano II, sabe que estas duas tentações sempre a perseguiram. Infelizmente, a Igreja caiu nestas duas tentações, dentre outras: fechamento e apego às próprias seguranças.

            O fechamento levou a Igreja a isolar-se do mundo. Ela se compreendia como uma sociedade perfeita. A hierarquia eclesiástica, separada dos leigos, vivia isolada do mundo. O clérigo era um ser separado, um privilegiado, alguém chamado à santidade. O ideal da santidade não contemplava a vida no mundo, mas se encerrava numa vida ascética, entregue à oração, aos estudos e à contemplação isolada nos claustros e residências religiosas. O sacerdote não era visto como um homem, mas uma espécie de entidade pura, vestida de preto (diocesanos) e outras cores (hábitos dos religiosos), únicos portadores do mistério.

            Muito facilmente, os clérigos se sentiam como pessoas que estavam acima das demais. No seminário era ensinado que este estilo de vida correspondia à vontade de Deus. Não era dito aos leigos que eles eram chamados à santidade, pois viviam no mundo. Entendia-se que quem vivia no mundo era mundano. No espaço público, a Igreja aparecia como manifestação pública da fé, que ocorria por meio das quermesses, procissões, acordos políticos bilaterais etc. Antes da Reforma Protestante do séc. XVI, entendia-se que o mundo deveria ser cristão católico. Para ser salvo era necessário se converter à fé cristã católica.

            Uma Igreja fechada em si mesma também é uma Igreja voltada para si mesma, preocupada em ser o centro, presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos. A burocracia religiosa é um fenômeno típico deste modelo ultrapassado de Igreja: regras para tudo, e parte delas existia para dificultar o caminho de acesso à graça de Deus. Até hoje algumas permanecem, apesar das exortações do Papa, que tem insistido no desaparecimento delas.

            Fechada em si mesma, a Igreja não tem interesse naquilo que acontece no mundo e, consequentemente, também não se preocupa com a vida das pessoas que habitam o mundo. Os próprios interesses passam a ocupar o centro das atividades eclesiais, marginalizando-se, assim, o anúncio do Evangelho de Jesus. Desse modo, a Igreja perde a sua razão de ser, pois nasceu para evangelizar. Uma Igreja fechada em si mesma também não está aberta às surpresas de Deus.

            Outra pedra de tropeço na longa história da Igreja é o apego às próprias seguranças. Certamente, toda instituição precisa de meios para desenvolver a sua missão. Com a Igreja não é diferente. Mas quando falamos de Igreja, não estamos nos referindo a uma instituição comum, mas de uma comunidade de crentes, instituída sobre a pedra angular, que é Jesus, o Messias. Jesus é o fundamento da Igreja e, portanto, a razão de ser e de existir da Igreja no mundo.

            Composta por mulheres e homens que vivem a experiência do pecado, a Igreja muitas vezes se desvia do caminho, perde o rumo da navegação no grandioso oceano da vida e da história. Pela fé, o Espírito a conduz, trabalhando diuturnamente, para direcioná-la a Deus. Em meio às fraquezas e quedas, ela muitas vezes se apega às próprias seguranças. A aquisição de um imenso patrimônio material e cultural, bem como as alianças com os poderes deste mundo, durante a sua longa história, fizeram com que a Igreja se transformasse em uma instituição dotada de poder humano.

            Quando se tem prestígio, poder e riqueza, corre-se o risco de se entregar a estas coisas. A confiança nestas coisas é caminho certo rumo à perdição. Desse modo, perde-se o horizonte da missão. Jesus deixa de ser a riqueza fundamental, sendo substituído pelas seguranças que o prestígio, o poder e a riqueza podem assegurar. A confiança em Deus fica gravemente comprometida, e começam a aparecer os escândalos que tem provocado uma ferida grandiosa na Igreja, ultimamente exposta aos olhares do mundo.

2. Uma Igreja em saída

            Na visão do Papa, a Igreja em saída é uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas. Para se ferir, acidentar-se e enlamear-se, a Igreja precisa sair de si mesma. Sair para onde? A missão da Igreja acontece neste mundo; mundo criado por Deus e lugar da sua manifestação. O povo de Deus vive no mundo, e os pobres do povo, que são os mais vulneráveis, vivem nas periferias do mundo. Parece óbvia esta realidade, mas não era a compreensão que se tinha antes do Vaticano II. A espiritualidade cristã pré-conciliar era marcada por uma escandalosa fuga do mundo. Com o concílio se descobriu que, fugindo do mundo, a Igreja não consegue cumprir o mandato missionário que recebeu de Jesus.

            Atualmente, há uma onda neopentecostal presente nas Igrejas cristãs, que tem revisitado algumas experiências espiritualistas da Igreja pré-conciliar. Esta onda também tem ressuscitado a espiritualidade marcada pelo desprezo às realidades do mundo e por uma fuga que, em muitos casos, chega a ser doentia. Há sinais evidentes daquilo que podemos chamar de esquizofrenia espiritual, ou seja, do cultivo de uma espiritualidade marcada pela mania de perseguição espiritual e outras perturbações congêneres. Não se vislumbra a caridade fraterna, presente no compromisso efetivo e afetivo com os injustiçados deste mundo. Fala-se em salvação das almas, como se estas existissem neste mundo sem o corpo ferido das pessoas, dos crucificados da história.

            Somente uma Igreja em saída é capaz de correr riscos em nome das grandes causas do Reino de Deus. As periferias existenciais são muitas, e o povo continua sendo vítima dos poderosos deste mundo. A sede e a procura por Deus continuam existindo, e a desorientação é generalizada. Assim como no passado, também hoje a Igreja é desafiada a ir ao encontro dos que clamam por justiça e paz. O mundo está cada vez mais efervescente: os conflitos estão se acirrando, e o sangue dos inocentes é constantemente derramado.

            Quem se unirá ao clamor das vítimas? Quem anunciará a Boa Notícia do Reino de Deus aos pobres? Quem tomará o partido dos injustiçados? As liturgias das Igrejas cristãs expressam o clamor das vítimas? A Igreja tem sino um sinal de comunhão com os que sofrem? Tem ela realizado o papel do bom samaritano, que cuidou das feridas do caído? Os líderes religiosos tem se identificado com o Cristo, Bom Pastor, aquele que foi capaz de dar a vida pelas pessoas? Constatam-se conflitos com os poderosos deste mundo por causa da opção pelos pobres e pela defesa da terra e seus recursos? O que tem sido mais importante: a vida das pessoas, ou as leis e/ou as prescrições legais? Estas e outras são questões que nos levam a enxergar a necessidade da conversão das estruturas institucionais e da mentalidade dos que professam a fé no seio das Igrejas.

3. Um Papa que convida à conversão

            O colégio cardinalício viu no cardeal Bergoglio a oportunidade providencial para chamar a Igreja à conversão. Na data de sua eleição, a Igreja católica estava sofrendo com a publicação de inúmeros escândalos sexuais, entre outros problemas. Isto comprometeu seriamente a imagem e a missão da Igreja. Assim que assumiu o pontificado, Francisco deu um novo tom na forma de o Papa falar, vestir, celebrar, pregar e estar entre as pessoas. Antes dele, a figura do Papa era muito protocolar. O pontífice aparecia de forma muito solene e pomposa, com linguagem, usos e paramentos antigos. Francisco permaneceu como vivia na Argentina: despojado e simples, próximo e profeticamente ousado. Utiliza uma linguagem acessível ao povo, e se esforça para não ser visto como um homem distante. A sua piedade é humilde.

            Porque não reforça a linguagem e a ideologia do poder clerical, o Papa encontrou e continua encontrando resistências entre leigos, seminaristas, padres, bispos e cardeais. Nos EUA, um arcebispo pediu, publicamente, a renúncia do Papa. Estes conflitos no alto escalão da Igreja se tornaram público, e ele tem sido sábio no enfrentamento de seus adversários. Aos opositores tem respondido levando uma vida dedicada à oração, à acolhida das pessoas e ao anúncio corajoso do Evangelho. Aos clérigos, seus discursos tem sido enfáticos, combatendo o mal do clericalismo, tão antigo e enraizado na vida da Igreja, e causador de inúmeros pecados e até crimes eclesiásticos.

            Não é o Papa sozinho que mudará toda a Igreja. A conversão desta não depende somente de uma pessoa. Nem que o Papa se utilizasse de todo o seu poder de mando, exercendo-o de forma autoritária, de cima para baixo, mesmo assim a Igreja não mudaria. O autoritarismo não provoca mudanças, mas causa feridas. A conversão não passa pelo uso do poder. Pelo menos o poder não foi o remédio dado por Jesus para a conversão das pessoas. Uma vez convertidas, estas são capazes de transformar o mundo e a Igreja. Não adianta mudar as estruturas se as pessoas estão viciadas. Também não adianta defender que as estruturas não podem ser mudadas. A conversão das pessoas provoca a conversão das estruturas. Pessoas renovadas em estruturas ultrapassadas é como o vinho novo em odres velhos.

            É verdade que o Papa tem se esforçado para transformar a Igreja numa verdadeira Igreja samaritana, disposta a servir os caídos nas estradas do mundo. Ele tem apontado nesta direção. É verdade também que muitas coisas permanecem do mesmo jeito, sem mudanças substanciais. Neste caso, não basta ter boa vontade, mas é preciso também contar com a força das circunstâncias. A Igreja não é uma instituição nova, portanto, assim como as suas estruturas foram sendo formadas ao longo de séculos, a desconstrução, reconfiguração e/ou atualização requerem tempo e enfrentamentos. O apego e as disputas pelo poder tem atrapalhado muito o processo de conversão das estruturas e das pessoas na Igreja.

            Não condenar, mas reabilitar teólogos; não julgar, mas acolher as pessoas cansadas e atribuladas; não recuar, mas denunciar os crimes do sistema capitalista selvagem; não acobertar, mas provocar a discussão sobre os abusos sexuais praticados por clérigos e religiosos, buscando soluções possíveis; não somente ensinar e exortar, mas abrir o ouvido para o exercício da escuta das pessoas e das vítimas; não compactuar, mas chamar as lideranças eclesiásticas para a experiência da conversão do coração e da mente; não se distanciar, mas falar e agir com simplicidade e proximidade; não abusar do poder, mas confiar no auxílio do Espírito que sonda todas as coisas... Estas atitudes de Francisco tem ajudado muita gente a entrar no caminho de Jesus e nele perseverar.

            Que este mesmo Espírito faça brotar e frutificar no seio da Igreja e neste mundo dividido por discórdias, as sementes da justiça e da paz semeadas por Francisco. E que seu pontificado perdure por mais alguns anos, para que o ar da primavera continue circulando no seio da Igreja, esta embarcação que tem sobrevivido às águas agitadas do mar da vida. Sejamos, pois, esperançosos!

Tiago de França

terça-feira, 12 de março de 2019

O caminho da conversão

          Nenhum cristão pode afirmar que não precisa se converter. A conversão é para toda a vida. Quando afirmamos que há pessoas convertidas é porque existem pessoas que optaram pelo caminho de Jesus e nele estão perseverando. O fato de estar no caminho de Jesus não significa que esteja imune à tentação de abandoná-lo; e, infelizmente, há muitos que abandonam.

            Desse modo, já temos o significado evangélico do que chamamos de conversão: colocar-se no caminho de Jesus. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me”, nos diz Jesus (Lc 9, 23). Inicialmente, Jesus fala de um querer: “se alguém quer...” Para que haja conversão deve existir este querer. Ninguém está obrigado a se converter. A conversão é um chamado à liberdade, e somente pode ser vivida na liberdade. É neste sentido que ensina o apóstolo Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).

            Querer se converter é querer seguir Jesus Cristo. A pessoa precisa saber que a conversão implica numa mudança radical de vida, pois quando alguém se decide pelo caminho de Jesus, passa a participar da sua vida. Esta participação na vida do divino Mestre muda radicalmente a vida do discípulo. Quem se aproxima, se torna próximo e segue Jesus, ganha um novo sentido para a vida. É verdade que não há um surgimento de outra pessoa, mas a mesma pessoa se identifica de tal modo com Jesus que esta comunhão de vida a faz resplandecer. Ocorre o que nos fala o próprio Jesus no evangelho de João: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14, 23).

            Para seguir Jesus é preciso querer amá-lo, e quem assim procede, guarda a sua palavra. O amor é esta palavra de Jesus. O amor a Jesus nos faz praticantes de seu ensinamento fundamental. No amor, Jesus, o Pai e o Espírito estabelecem morada em nós. Mas esta relação amorosa com o Deus Uno e Trino não é meramente abstrata, mas se dá no concreto da vida. Mergulhada em Deus a pessoa não é chamada a viver contemplando-o no isolamento da solidão. Certamente, momentos de solidão são necessários para uma escuta mais apurada da voz e da presença de Deus, que também se manifesta no silêncio e na quietude.

            Somos moradas itinerantes da presença amorosa de Deus, e somente assim conseguimos irradiar esta presença no mundo. Trata-se de uma presença que acolhe, aquece e ilumina. Se Deus permanece em nós, amando-nos diuturnamente, então Ele quer chegar a todos por meio de nós. Assim, quando os outros enxergam em nós a presença de Deus é porque estamos manifestando, com nossos gestos e palavras, a ternura e a misericórdia, a alegria e a acolhida, o amor e o perdão, a compreensão e bondade, a humildade e a simplicidade divinas. A pessoa que caminha com Jesus na contramão deste mundo se transforma numa referência amorosa, e aí ocorre uma forte atração na direção de Deus. Habitando em nós, Deus atrai todos a Si.

            Teresa de Calcutá, Lindalva Justo de Oliveira, Helder Câmara, Luciano Mendes, Oscar Romero, Rosa de Lima, João XXIII, Francisco de Assis, Ezequiel Ramin, Teresinha do Menino Jesus, Alfredinho Kunz e tantos outros santos, conhecidos e anônimos, foram portadores desta presença amorosa de Deus. Eles encarnaram o amor divino. Seus testemunhos são uma clara e incontestável demonstração de como Deus age no mundo. Todos carregaram as cruzes que integram o caminho de Jesus.

            Antes de falar da necessidade de carregar a cruz, Jesus fala do renunciar a si mesmo. Falar de renúncia hoje não causa nenhuma atração. Mais que outras épocas, a renúncia sempre foi vista como algo ruim. De fato, renunciar não é algo fácil de se praticar. Geralmente, precisamos renunciar aquilo que nos causa prazer, gosto, satisfação. Vivemos num mundo que produz satisfação. O mercado produz objetos que provocam a sede de satisfação nas pessoas. Estas, de modo geral, vivem a procura de satisfação, e não conhecem nem querem conhecer limites à satisfação de seus desejos.

            É verdade que em nome da conversão não podemos cair no puritanismo. O puritanismo leva ao farisaísmo. O espírito de superioridade, que consiste em se sentir melhor que os outros, é a marca do fariseu. No evangelho encontramos Jesus desmascarando o falso moralismo dos fariseus que se consideravam justos somente porque observam a letra da lei, mas não praticavam o amor: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” (Mt 23, 27). Quem segue Jesus não cultiva a cultura da aparência, mas busca o essencial, que é o amor-doação.

            Portanto, a renúncia aos desejos desenfreados é importante, mas, no caminho de Jesus, também somos chamados a renunciar outros empecilhos mais gravosos, tais como: o comodismo; a arrogância; a malícia; a ignorância; o desejo da destruição dos outros; o apego ao dinheiro; o apego ao prestígio e ao poder; a indiferença. São muitas as pedras de tropeço que aparecem no caminho. O seguimento a Jesus não é fácil porque se trata de um caminho estreito e pedregoso. Vivemos diante de dois caminhos: o que conduz à vida plena, e o que leva à perdição (cf. Mt 7, 13-14). O caminho de Jesus é o que conduz à vida, caminho apertado e exigente.

             Considerando que se trata de uma missão exigente, para seguirmos Jesus precisamos do auxílio da graça de Deus. Contando somente com as próprias forças, nenhum cristão se converte nem alcança a salvação. O homem é incapaz de salvar a si mesmo. Sem a ação do Espírito Santo não há quem consiga entrar e perseverar no caminho de Jesus. Quando permitimos a ação deste Espírito, nasce o querer e a disposição de seguir Jesus. Assim, inicia-se o processo de conversão, da necessária mudança radical de vida. Esta passa a convergir na direção de Deus. Como vimos acima, o convertido se torna um com Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

            Por fim, precisamos afirmar, categoricamente: vivemos numa realidade religiosa muito carente de pessoas convertidas, de pessoas capazes de doar a própria vida como fez Jesus. É verdade que temos, graças à ação amorosa de Deus, que não cessa, muitas testemunhas da Ressurreição de Jesus. Mas precisamos crescer cada vez mais neste caminho de santidade, que é o caminho da conversão. Precisamos avançar para as águas mais profundas (cf. Lc 5, 1-11).

Dentro e fora de nossos templos há um número grandioso de pessoas que ainda não ousaram entrar no caminho de Jesus. Isto significa que há muitos que prestam culto a Jesus, e até são fieis praticantes dos preceitos religiosos, mas que não ousam se aproximar de Jesus, para uma experiência mais íntima com ele. A experiência do ingresso no caminho de Jesus vai muito além da participação no culto e da observância dos preceitos religiosos. O culto e os preceitos devem ser expressão viva da caminhada com Jesus. Se a pessoa não faz esta experiência de Deus, o culto que presta a Deus parece perder o seu sentido. Que o Espírito nos conceda a graça de nos colocarmos no caminho de Jesus, de nele permanecermos e nos mantermos fieis até o fim.

Tiago de França

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O silêncio e a união com Deus


          Vivemos em uma época marcada pelo barulho. Tanto as grandes quanto as pequenas cidades são marcadas por uma cultura do barulho. Falta o silêncio até nas realidades rurais. Com o êxodo rural, também assistimos ao fenômeno da perda do silêncio por parte de quem foi obrigado a se refugiar nos centros urbanos. As pessoas, uma vez habituadas ao barulho, já não mais suportam ficar em silêncio para pensar na vida. Também inúmeros crentes não escutam a voz de Deus. Há uma desorientação espiritual generalizada porque falta o exercício da escuta. A obediência a Deus vem da escuta, e para escutar precisamos silenciar.

            Há vários tipos de silêncio. Algumas pessoas silenciam por medo; outras porque são silenciadas; outras, ainda, porque são obrigadas pela força das circunstâncias. Há também as que se utilizam do silêncio para fugir da própria realidade, isolando-se do mundo e das pessoas. Nestes e noutros casos, temos o silêncio exterior, pois, interiormente, a pessoa está mergulhada no barulho que atormenta e tira a paz. Portanto, o domínio da língua é o primeiro passo; o segundo é o silêncio da mente e do coração.

            Independentemente do barulho externo, é possível estar em plena sintonia com Deus, ouvindo-o, silenciosamente. A experiência dos místicos cristãos, ao longo da rica e bela história do cristianismo, mostra que é possível viver em sintonia com Deus, com coração e mente em paz, mesmo diante do barulho ensurdecedor do mundo. Este barulho é um convite apelativo à dispersão e à confusão mental. Não há como enxergar com clareza as realidades complexas da vida sem o justo e necessário silêncio. Neste sentido, o silêncio pode ser uma opção espiritual de vida. Feita a opção, ele se torna como que uma espécie de alimento sem o qual não é possível manter-se sereno e em paz.

            A paz de espírito é fruto também do exercício do silêncio. Não nos parece possível a situação de uma pessoa que adotou o silêncio como lugar e oportunidade de encontro permanente com Deus e, ao mesmo tempo, mostrar-se violento e áspero com os outros. O silêncio cultiva na pessoa a graça da mansidão, tornando-a pacífica. Ser pacífico é diferente de ser passivo. Quem cultiva o silêncio para o encontro com Deus se torna desperto na vida. Espiritualmente, não dorme nem cochila, mas permanece atento aos sinais de Deus. Enquanto a multidão se ocupa com as imagens e sons produzidos pela cultura da dispersão, as mulheres e homens que vivem da contemplação divina permanecem com os olhos fixos em Jesus.

            Fazer silêncio não é tornar-se “mudo” nem adotar atitudes de desprezo às pessoas. Também é preciso ter cuidado para não alimentar o espírito mundano da superioridade em relação aos outros. Quem contempla a Deus não foge dos outros. Não existe chamado para a contemplação divina fora do mundo e numa constante atitude de distanciamento e/ou isolamento. O discípulo fiel, que aprende a amar na escuta amorosa do Mestre Jesus é alguém presente, e não um fariseu (separado). Jesus reprovou toda e qualquer atitude farisaica. Não agrada a Deus o fato de muitos se dedicarem à contemplação, desprezando os outros. Quem despreza os outros não está em sintonia com o Deus e Pai de Jesus.

            A mansidão e a ternura são frutos da ação do Espírito Santo. Este Espírito trabalha na vida daqueles que silenciam a mente e o coração para abrir-se à sua ação amorosa. Este silêncio também faz brotar outro dom extremamente necessário para uma vida espiritual saudável e fecunda: o discernimento. Para discernir bem é preciso silenciar, deixando Deus falar. Portanto, trata-se de uma atitude fundamental na vida cristã. Deus sempre aguarda a nossa decisão e nossa abertura. Ele nada faz sem que permitamos. Ele respeita a nossa liberdade e nossas escolhas. O exercício espiritual do silêncio é caminho fecundo de liberdade.

            Quem se torna íntimo de Deus por meio do silêncio, torna-se, simultaneamente, próximo das pessoas. O encontro com as pessoas é o lugar da manifestação do amor de Deus. O testemunho das Escrituras Sagradas, a experiência de Jesus e dos cristãos ao longo dos séculos mostram, claramente, que Deus está presente quando as pessoas se encontram e partilham a vida. Desse modo, ao cultivar o silêncio como lugar e oportunidade de encontro com Deus, o cristão precisa ter o devido cuidado para não cair na tendência que marca a nossa época: a do distanciamento entre as pessoas. É necessário se manter vigilante para não cair nesta tentação. O encontro com Deus faz o cristão tornar-se cada vez mais humano, e isto significa tornar-se próximo e acessível; alguém que trilha o caminho da conversão.

            Por fim, cabe-nos, ainda, dizer que o silêncio nos concede o dom da visão da realidade. Viver sem enxergar a realidade é terrível. Cego é aquele que vive enganado, mergulhado na ilusão. Mulheres e homens guiados pelo Espírito possuem, pela graça deste mesmo Espírito, o dom da visão. Mais do que enxergar a realidade para agir conforme a vontade de Deus, o cristão também passa a enxergar a ação amorosa de Deus, que tudo redime e transforma. Trata-se da busca de Deus em todas as coisas. Portanto, o silêncio gera a visão do Deus que é puro amor presente no mundo e na vida das pessoas.

            Nossas Igrejas cristãs hoje também estão como que contaminadas pelo barulho gerador da dispersão. Quase não encontramos silêncio nos templos religiosos. Com o aparecimento e fortalecimento cada vez mais crescente do neopentecostalismo, as pessoas se dirigem a Deus com muitas palavras e muito barulho. Acredita-se que as muitas palavras tocam o coração de Deus. Fala-se com Deus como se Ele necessitasse de muito barulho para ouvir e atender. Não foi isso que Jesus ensinou. Nesta hora difícil do peregrinar do cristianismo no mundo, torna-se cada vez mais urgente o exercício da escuta amorosa, em silêncio, para compreendermos e vivermos a nossa vocação no mundo.

Tiago de França

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A segunda condenação do ex-presidente Lula


Saiu a segunda condenação do ex-presidente Lula. Já era esperada, pois na chamada "república de Curitiba", o ex-presidente é considerado, de antemão, um criminoso. Quando, previamente, há esta consideração, não adianta o trabalho da defesa. Permite-se a atuação da defesa somente para constar nos autos. Do contrário, o processo sofreria de nulidade.

Não há exagero nesta constatação. O que há de igual ou semelhante nas sentenças do ex-juiz Moro e da atual juíza do caso? Entre outros absurdos, existe a desconsideração dos elementos trazidos pela defesa aos autos do processo. Tudo o que a defesa trouxe aos autos foi simplesmente ignorado. Quando há o propósito de condenação é possível ignorar citando. É um modo inteligente de dizer que tudo foi visto e levado em conta. Mas a condenação mostra tudo.

O ex-presidente não é dono do sítio. Parece que neste ponto a juíza está de acordo. Então, qual o problema? O ex-presidente cometeu dois erros: primeiro, era amigo do dono. Isto não é crime, mas a sentença considerou como elemento coadjuvante da ação delituosa. Segundo, frequentou o sítio do amigo dono do sítio. Como a amizade era de longa data, e se tratava de uma figura ilustre ("o cara", como disse o Barack Obama, dos EUA), o dono do sítio deixou o amigo a vontade para visitar e usar o imóvel. A juíza viu nisso, acompanhando a acusação fantasiosa do MP, indícios de crime.

Mas o mais interessante são outros dois aspectos que, futuramente, farão o STJ e STF rever a condenação, se quiserem fazer justiça: a competência do juízo e a ausência de provas no que se refere ao benefício que o presidente teria recebido, sem ser o dono do imóvel, da empresa que fez as abençoadas reformas e/ou melhoramentos. Competência, no sentido jurídico-processual do termo, resolve a seguinte pergunta: Quem deveria julgar o processo? O sítio não está no Paraná. Por que, então, o processo foi instaurado lá? Qual a ligação do sítio com os desvios da Petrobras? O MP imaginou, não provou, e o juiz, que hoje é ministro de governo, se considerou competente para julgar. Parece uma clara eleição de juízo. O que a lei diz não parece ter importância.

Quem não tem noção de processo penal desconfia, e quem estudou esta matéria fica escandalizado. Mas, se analisarmos várias decisões prolatadas por inúmeros juízes no Brasil, veremos que o fato de ignorar a lei para julgar conforme anseios pessoais, grupais e populares virou moda. Em muitos casos, vale o que o juiz pensa, e não o que diz a lei e as provas dos autos.

Enquanto isso, onde está Michel Temer? E a situação do Aécio Neves, como fica? Quem matou Marielle Franco? E o Beto Richa, por que já está em sua confortável residência? E o pessoal da máfia dos ônibus coletivos do RJ? O que estão fazendo para dar um basta nos milicianos que atuam no RJ? E o Queiroz com o filho do Bolsonaro? Todos esperando o tempo passar, para gozar dos benefícios do esquecimento e da prescrição.

Mas as altas autoridades da República, nos três poderes, dizem: "As instituições estão em pleno funcionamento. Vivemos numa democracia plena". Mas estão funcionando para quem? Que tipo de democracia temos? Até quando está situação vai perdurar? Por que as pessoas não se rebelam?

Tiago de França