sexta-feira, 15 de março de 2019

Francisco e o ideal da Igreja em saída


“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 49).

            Evangélico e belo é o ideal da Igreja em saída, reforçado pelo Papa Francisco. Nestes dias, os católicos e muitos não católicos celebram os seis anos de seu pontificado. Também queremos oferecer algumas provocações sobre a contribuição do Papa Francisco à Igreja, com ênfase no tema da Igreja em saída, que parece ser o centro de sua eclesiologia, ou seja, da sua maneira de enxergar e conceber a Igreja e sua missão no mundo. Trata-se de um comentário breve ao número 49 da Evangelium Gaudium.

1. Uma Igreja enferma

            O Papa diz que enferma é a Igreja que se fecha em si mesma e se entrega às comodidades, agarrando-se às próprias seguranças. Quem conhece a história da Igreja, especialmente o período que vai do momento em que o cristianismo se tornou a religião oficial do império romano até o concílio Vaticano II, sabe que estas duas tentações sempre a perseguiram. Infelizmente, a Igreja caiu nestas duas tentações, dentre outras: fechamento e apego às próprias seguranças.

            O fechamento levou a Igreja a isolar-se do mundo. Ela se compreendia como uma sociedade perfeita. A hierarquia eclesiástica, separada dos leigos, vivia isolada do mundo. O clérigo era um ser separado, um privilegiado, alguém chamado à santidade. O ideal da santidade não contemplava a vida no mundo, mas se encerrava numa vida ascética, entregue à oração, aos estudos e à contemplação isolada nos claustros e residências religiosas. O sacerdote não era visto como um homem, mas uma espécie de entidade pura, vestida de preto (diocesanos) e outras cores (hábitos dos religiosos), únicos portadores do mistério.

            Muito facilmente, os clérigos se sentiam como pessoas que estavam acima das demais. No seminário era ensinado que este estilo de vida correspondia à vontade de Deus. Não era dito aos leigos que eles eram chamados à santidade, pois viviam no mundo. Entendia-se que quem vivia no mundo era mundano. No espaço público, a Igreja aparecia como manifestação pública da fé, que ocorria por meio das quermesses, procissões, acordos políticos bilaterais etc. Antes da Reforma Protestante do séc. XVI, entendia-se que o mundo deveria ser cristão católico. Para ser salvo era necessário se converter à fé cristã católica.

            Uma Igreja fechada em si mesma também é uma Igreja voltada para si mesma, preocupada em ser o centro, presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos. A burocracia religiosa é um fenômeno típico deste modelo ultrapassado de Igreja: regras para tudo, e parte delas existia para dificultar o caminho de acesso à graça de Deus. Até hoje algumas permanecem, apesar das exortações do Papa, que tem insistido no desaparecimento delas.

            Fechada em si mesma, a Igreja não tem interesse naquilo que acontece no mundo e, consequentemente, também não se preocupa com a vida das pessoas que habitam o mundo. Os próprios interesses passam a ocupar o centro das atividades eclesiais, marginalizando-se, assim, o anúncio do Evangelho de Jesus. Desse modo, a Igreja perde a sua razão de ser, pois nasceu para evangelizar. Uma Igreja fechada em si mesma também não está aberta às surpresas de Deus.

            Outra pedra de tropeço na longa história da Igreja é o apego às próprias seguranças. Certamente, toda instituição precisa de meios para desenvolver a sua missão. Com a Igreja não é diferente. Mas quando falamos de Igreja, não estamos nos referindo a uma instituição comum, mas de uma comunidade de crentes, instituída sobre a pedra angular, que é Jesus, o Messias. Jesus é o fundamento da Igreja e, portanto, a razão de ser e de existir da Igreja no mundo.

            Composta por mulheres e homens que vivem a experiência do pecado, a Igreja muitas vezes se desvia do caminho, perde o rumo da navegação no grandioso oceano da vida e da história. Pela fé, o Espírito a conduz, trabalhando diuturnamente, para direcioná-la a Deus. Em meio às fraquezas e quedas, ela muitas vezes se apega às próprias seguranças. A aquisição de um imenso patrimônio material e cultural, bem como as alianças com os poderes deste mundo, durante a sua longa história, fizeram com que a Igreja se transformasse em uma instituição dotada de poder humano.

            Quando se tem prestígio, poder e riqueza, corre-se o risco de se entregar a estas coisas. A confiança nestas coisas é caminho certo rumo à perdição. Desse modo, perde-se o horizonte da missão. Jesus deixa de ser a riqueza fundamental, sendo substituído pelas seguranças que o prestígio, o poder e a riqueza podem assegurar. A confiança em Deus fica gravemente comprometida, e começam a aparecer os escândalos que tem provocado uma ferida grandiosa na Igreja, ultimamente exposta aos olhares do mundo.

2. Uma Igreja em saída

            Na visão do Papa, a Igreja em saída é uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas. Para se ferir, acidentar-se e enlamear-se, a Igreja precisa sair de si mesma. Sair para onde? A missão da Igreja acontece neste mundo; mundo criado por Deus e lugar da sua manifestação. O povo de Deus vive no mundo, e os pobres do povo, que são os mais vulneráveis, vivem nas periferias do mundo. Parece óbvia esta realidade, mas não era a compreensão que se tinha antes do Vaticano II. A espiritualidade cristã pré-conciliar era marcada por uma escandalosa fuga do mundo. Com o concílio se descobriu que, fugindo do mundo, a Igreja não consegue cumprir o mandato missionário que recebeu de Jesus.

            Atualmente, há uma onda neopentecostal presente nas Igrejas cristãs, que tem revisitado algumas experiências espiritualistas da Igreja pré-conciliar. Esta onda também tem ressuscitado a espiritualidade marcada pelo desprezo às realidades do mundo e por uma fuga que, em muitos casos, chega a ser doentia. Há sinais evidentes daquilo que podemos chamar de esquizofrenia espiritual, ou seja, do cultivo de uma espiritualidade marcada pela mania de perseguição espiritual e outras perturbações congêneres. Não se vislumbra a caridade fraterna, presente no compromisso efetivo e afetivo com os injustiçados deste mundo. Fala-se em salvação das almas, como se estas existissem neste mundo sem o corpo ferido das pessoas, dos crucificados da história.

            Somente uma Igreja em saída é capaz de correr riscos em nome das grandes causas do Reino de Deus. As periferias existenciais são muitas, e o povo continua sendo vítima dos poderosos deste mundo. A sede e a procura por Deus continuam existindo, e a desorientação é generalizada. Assim como no passado, também hoje a Igreja é desafiada a ir ao encontro dos que clamam por justiça e paz. O mundo está cada vez mais efervescente: os conflitos estão se acirrando, e o sangue dos inocentes é constantemente derramado.

            Quem se unirá ao clamor das vítimas? Quem anunciará a Boa Notícia do Reino de Deus aos pobres? Quem tomará o partido dos injustiçados? As liturgias das Igrejas cristãs expressam o clamor das vítimas? A Igreja tem sino um sinal de comunhão com os que sofrem? Tem ela realizado o papel do bom samaritano, que cuidou das feridas do caído? Os líderes religiosos tem se identificado com o Cristo, Bom Pastor, aquele que foi capaz de dar a vida pelas pessoas? Constatam-se conflitos com os poderosos deste mundo por causa da opção pelos pobres e pela defesa da terra e seus recursos? O que tem sido mais importante: a vida das pessoas, ou as leis e/ou as prescrições legais? Estas e outras são questões que nos levam a enxergar a necessidade da conversão das estruturas institucionais e da mentalidade dos que professam a fé no seio das Igrejas.

3. Um Papa que convida à conversão

            O colégio cardinalício viu no cardeal Bergoglio a oportunidade providencial para chamar a Igreja à conversão. Na data de sua eleição, a Igreja católica estava sofrendo com a publicação de inúmeros escândalos sexuais, entre outros problemas. Isto comprometeu seriamente a imagem e a missão da Igreja. Assim que assumiu o pontificado, Francisco deu um novo tom na forma de o Papa falar, vestir, celebrar, pregar e estar entre as pessoas. Antes dele, a figura do Papa era muito protocolar. O pontífice aparecia de forma muito solene e pomposa, com linguagem, usos e paramentos antigos. Francisco permaneceu como vivia na Argentina: despojado e simples, próximo e profeticamente ousado. Utiliza uma linguagem acessível ao povo, e se esforça para não ser visto como um homem distante. A sua piedade é humilde.

            Porque não reforça a linguagem e a ideologia do poder clerical, o Papa encontrou e continua encontrando resistências entre leigos, seminaristas, padres, bispos e cardeais. Nos EUA, um arcebispo pediu, publicamente, a renúncia do Papa. Estes conflitos no alto escalão da Igreja se tornaram público, e ele tem sido sábio no enfrentamento de seus adversários. Aos opositores tem respondido levando uma vida dedicada à oração, à acolhida das pessoas e ao anúncio corajoso do Evangelho. Aos clérigos, seus discursos tem sido enfáticos, combatendo o mal do clericalismo, tão antigo e enraizado na vida da Igreja, e causador de inúmeros pecados e até crimes eclesiásticos.

            Não é o Papa sozinho que mudará toda a Igreja. A conversão desta não depende somente de uma pessoa. Nem que o Papa se utilizasse de todo o seu poder de mando, exercendo-o de forma autoritária, de cima para baixo, mesmo assim a Igreja não mudaria. O autoritarismo não provoca mudanças, mas causa feridas. A conversão não passa pelo uso do poder. Pelo menos o poder não foi o remédio dado por Jesus para a conversão das pessoas. Uma vez convertidas, estas são capazes de transformar o mundo e a Igreja. Não adianta mudar as estruturas se as pessoas estão viciadas. Também não adianta defender que as estruturas não podem ser mudadas. A conversão das pessoas provoca a conversão das estruturas. Pessoas renovadas em estruturas ultrapassadas é como o vinho novo em odres velhos.

            É verdade que o Papa tem se esforçado para transformar a Igreja numa verdadeira Igreja samaritana, disposta a servir os caídos nas estradas do mundo. Ele tem apontado nesta direção. É verdade também que muitas coisas permanecem do mesmo jeito, sem mudanças substanciais. Neste caso, não basta ter boa vontade, mas é preciso também contar com a força das circunstâncias. A Igreja não é uma instituição nova, portanto, assim como as suas estruturas foram sendo formadas ao longo de séculos, a desconstrução, reconfiguração e/ou atualização requerem tempo e enfrentamentos. O apego e as disputas pelo poder tem atrapalhado muito o processo de conversão das estruturas e das pessoas na Igreja.

            Não condenar, mas reabilitar teólogos; não julgar, mas acolher as pessoas cansadas e atribuladas; não recuar, mas denunciar os crimes do sistema capitalista selvagem; não acobertar, mas provocar a discussão sobre os abusos sexuais praticados por clérigos e religiosos, buscando soluções possíveis; não somente ensinar e exortar, mas abrir o ouvido para o exercício da escuta das pessoas e das vítimas; não compactuar, mas chamar as lideranças eclesiásticas para a experiência da conversão do coração e da mente; não se distanciar, mas falar e agir com simplicidade e proximidade; não abusar do poder, mas confiar no auxílio do Espírito que sonda todas as coisas... Estas atitudes de Francisco tem ajudado muita gente a entrar no caminho de Jesus e nele perseverar.

            Que este mesmo Espírito faça brotar e frutificar no seio da Igreja e neste mundo dividido por discórdias, as sementes da justiça e da paz semeadas por Francisco. E que seu pontificado perdure por mais alguns anos, para que o ar da primavera continue circulando no seio da Igreja, esta embarcação que tem sobrevivido às águas agitadas do mar da vida. Sejamos, pois, esperançosos!

Tiago de França

terça-feira, 12 de março de 2019

O caminho da conversão

          Nenhum cristão pode afirmar que não precisa se converter. A conversão é para toda a vida. Quando afirmamos que há pessoas convertidas é porque existem pessoas que optaram pelo caminho de Jesus e nele estão perseverando. O fato de estar no caminho de Jesus não significa que esteja imune à tentação de abandoná-lo; e, infelizmente, há muitos que abandonam.

            Desse modo, já temos o significado evangélico do que chamamos de conversão: colocar-se no caminho de Jesus. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me”, nos diz Jesus (Lc 9, 23). Inicialmente, Jesus fala de um querer: “se alguém quer...” Para que haja conversão deve existir este querer. Ninguém está obrigado a se converter. A conversão é um chamado à liberdade, e somente pode ser vivida na liberdade. É neste sentido que ensina o apóstolo Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).

            Querer se converter é querer seguir Jesus Cristo. A pessoa precisa saber que a conversão implica numa mudança radical de vida, pois quando alguém se decide pelo caminho de Jesus, passa a participar da sua vida. Esta participação na vida do divino Mestre muda radicalmente a vida do discípulo. Quem se aproxima, se torna próximo e segue Jesus, ganha um novo sentido para a vida. É verdade que não há um surgimento de outra pessoa, mas a mesma pessoa se identifica de tal modo com Jesus que esta comunhão de vida a faz resplandecer. Ocorre o que nos fala o próprio Jesus no evangelho de João: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14, 23).

            Para seguir Jesus é preciso querer amá-lo, e quem assim procede, guarda a sua palavra. O amor é esta palavra de Jesus. O amor a Jesus nos faz praticantes de seu ensinamento fundamental. No amor, Jesus, o Pai e o Espírito estabelecem morada em nós. Mas esta relação amorosa com o Deus Uno e Trino não é meramente abstrata, mas se dá no concreto da vida. Mergulhada em Deus a pessoa não é chamada a viver contemplando-o no isolamento da solidão. Certamente, momentos de solidão são necessários para uma escuta mais apurada da voz e da presença de Deus, que também se manifesta no silêncio e na quietude.

            Somos moradas itinerantes da presença amorosa de Deus, e somente assim conseguimos irradiar esta presença no mundo. Trata-se de uma presença que acolhe, aquece e ilumina. Se Deus permanece em nós, amando-nos diuturnamente, então Ele quer chegar a todos por meio de nós. Assim, quando os outros enxergam em nós a presença de Deus é porque estamos manifestando, com nossos gestos e palavras, a ternura e a misericórdia, a alegria e a acolhida, o amor e o perdão, a compreensão e bondade, a humildade e a simplicidade divinas. A pessoa que caminha com Jesus na contramão deste mundo se transforma numa referência amorosa, e aí ocorre uma forte atração na direção de Deus. Habitando em nós, Deus atrai todos a Si.

            Teresa de Calcutá, Lindalva Justo de Oliveira, Helder Câmara, Luciano Mendes, Oscar Romero, Rosa de Lima, João XXIII, Francisco de Assis, Ezequiel Ramin, Teresinha do Menino Jesus, Alfredinho Kunz e tantos outros santos, conhecidos e anônimos, foram portadores desta presença amorosa de Deus. Eles encarnaram o amor divino. Seus testemunhos são uma clara e incontestável demonstração de como Deus age no mundo. Todos carregaram as cruzes que integram o caminho de Jesus.

            Antes de falar da necessidade de carregar a cruz, Jesus fala do renunciar a si mesmo. Falar de renúncia hoje não causa nenhuma atração. Mais que outras épocas, a renúncia sempre foi vista como algo ruim. De fato, renunciar não é algo fácil de se praticar. Geralmente, precisamos renunciar aquilo que nos causa prazer, gosto, satisfação. Vivemos num mundo que produz satisfação. O mercado produz objetos que provocam a sede de satisfação nas pessoas. Estas, de modo geral, vivem a procura de satisfação, e não conhecem nem querem conhecer limites à satisfação de seus desejos.

            É verdade que em nome da conversão não podemos cair no puritanismo. O puritanismo leva ao farisaísmo. O espírito de superioridade, que consiste em se sentir melhor que os outros, é a marca do fariseu. No evangelho encontramos Jesus desmascarando o falso moralismo dos fariseus que se consideravam justos somente porque observam a letra da lei, mas não praticavam o amor: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” (Mt 23, 27). Quem segue Jesus não cultiva a cultura da aparência, mas busca o essencial, que é o amor-doação.

            Portanto, a renúncia aos desejos desenfreados é importante, mas, no caminho de Jesus, também somos chamados a renunciar outros empecilhos mais gravosos, tais como: o comodismo; a arrogância; a malícia; a ignorância; o desejo da destruição dos outros; o apego ao dinheiro; o apego ao prestígio e ao poder; a indiferença. São muitas as pedras de tropeço que aparecem no caminho. O seguimento a Jesus não é fácil porque se trata de um caminho estreito e pedregoso. Vivemos diante de dois caminhos: o que conduz à vida plena, e o que leva à perdição (cf. Mt 7, 13-14). O caminho de Jesus é o que conduz à vida, caminho apertado e exigente.

             Considerando que se trata de uma missão exigente, para seguirmos Jesus precisamos do auxílio da graça de Deus. Contando somente com as próprias forças, nenhum cristão se converte nem alcança a salvação. O homem é incapaz de salvar a si mesmo. Sem a ação do Espírito Santo não há quem consiga entrar e perseverar no caminho de Jesus. Quando permitimos a ação deste Espírito, nasce o querer e a disposição de seguir Jesus. Assim, inicia-se o processo de conversão, da necessária mudança radical de vida. Esta passa a convergir na direção de Deus. Como vimos acima, o convertido se torna um com Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

            Por fim, precisamos afirmar, categoricamente: vivemos numa realidade religiosa muito carente de pessoas convertidas, de pessoas capazes de doar a própria vida como fez Jesus. É verdade que temos, graças à ação amorosa de Deus, que não cessa, muitas testemunhas da Ressurreição de Jesus. Mas precisamos crescer cada vez mais neste caminho de santidade, que é o caminho da conversão. Precisamos avançar para as águas mais profundas (cf. Lc 5, 1-11).

Dentro e fora de nossos templos há um número grandioso de pessoas que ainda não ousaram entrar no caminho de Jesus. Isto significa que há muitos que prestam culto a Jesus, e até são fieis praticantes dos preceitos religiosos, mas que não ousam se aproximar de Jesus, para uma experiência mais íntima com ele. A experiência do ingresso no caminho de Jesus vai muito além da participação no culto e da observância dos preceitos religiosos. O culto e os preceitos devem ser expressão viva da caminhada com Jesus. Se a pessoa não faz esta experiência de Deus, o culto que presta a Deus parece perder o seu sentido. Que o Espírito nos conceda a graça de nos colocarmos no caminho de Jesus, de nele permanecermos e nos mantermos fieis até o fim.

Tiago de França

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O silêncio e a união com Deus


          Vivemos em uma época marcada pelo barulho. Tanto as grandes quanto as pequenas cidades são marcadas por uma cultura do barulho. Falta o silêncio até nas realidades rurais. Com o êxodo rural, também assistimos ao fenômeno da perda do silêncio por parte de quem foi obrigado a se refugiar nos centros urbanos. As pessoas, uma vez habituadas ao barulho, já não mais suportam ficar em silêncio para pensar na vida. Também inúmeros crentes não escutam a voz de Deus. Há uma desorientação espiritual generalizada porque falta o exercício da escuta. A obediência a Deus vem da escuta, e para escutar precisamos silenciar.

            Há vários tipos de silêncio. Algumas pessoas silenciam por medo; outras porque são silenciadas; outras, ainda, porque são obrigadas pela força das circunstâncias. Há também as que se utilizam do silêncio para fugir da própria realidade, isolando-se do mundo e das pessoas. Nestes e noutros casos, temos o silêncio exterior, pois, interiormente, a pessoa está mergulhada no barulho que atormenta e tira a paz. Portanto, o domínio da língua é o primeiro passo; o segundo é o silêncio da mente e do coração.

            Independentemente do barulho externo, é possível estar em plena sintonia com Deus, ouvindo-o, silenciosamente. A experiência dos místicos cristãos, ao longo da rica e bela história do cristianismo, mostra que é possível viver em sintonia com Deus, com coração e mente em paz, mesmo diante do barulho ensurdecedor do mundo. Este barulho é um convite apelativo à dispersão e à confusão mental. Não há como enxergar com clareza as realidades complexas da vida sem o justo e necessário silêncio. Neste sentido, o silêncio pode ser uma opção espiritual de vida. Feita a opção, ele se torna como que uma espécie de alimento sem o qual não é possível manter-se sereno e em paz.

            A paz de espírito é fruto também do exercício do silêncio. Não nos parece possível a situação de uma pessoa que adotou o silêncio como lugar e oportunidade de encontro permanente com Deus e, ao mesmo tempo, mostrar-se violento e áspero com os outros. O silêncio cultiva na pessoa a graça da mansidão, tornando-a pacífica. Ser pacífico é diferente de ser passivo. Quem cultiva o silêncio para o encontro com Deus se torna desperto na vida. Espiritualmente, não dorme nem cochila, mas permanece atento aos sinais de Deus. Enquanto a multidão se ocupa com as imagens e sons produzidos pela cultura da dispersão, as mulheres e homens que vivem da contemplação divina permanecem com os olhos fixos em Jesus.

            Fazer silêncio não é tornar-se “mudo” nem adotar atitudes de desprezo às pessoas. Também é preciso ter cuidado para não alimentar o espírito mundano da superioridade em relação aos outros. Quem contempla a Deus não foge dos outros. Não existe chamado para a contemplação divina fora do mundo e numa constante atitude de distanciamento e/ou isolamento. O discípulo fiel, que aprende a amar na escuta amorosa do Mestre Jesus é alguém presente, e não um fariseu (separado). Jesus reprovou toda e qualquer atitude farisaica. Não agrada a Deus o fato de muitos se dedicarem à contemplação, desprezando os outros. Quem despreza os outros não está em sintonia com o Deus e Pai de Jesus.

            A mansidão e a ternura são frutos da ação do Espírito Santo. Este Espírito trabalha na vida daqueles que silenciam a mente e o coração para abrir-se à sua ação amorosa. Este silêncio também faz brotar outro dom extremamente necessário para uma vida espiritual saudável e fecunda: o discernimento. Para discernir bem é preciso silenciar, deixando Deus falar. Portanto, trata-se de uma atitude fundamental na vida cristã. Deus sempre aguarda a nossa decisão e nossa abertura. Ele nada faz sem que permitamos. Ele respeita a nossa liberdade e nossas escolhas. O exercício espiritual do silêncio é caminho fecundo de liberdade.

            Quem se torna íntimo de Deus por meio do silêncio, torna-se, simultaneamente, próximo das pessoas. O encontro com as pessoas é o lugar da manifestação do amor de Deus. O testemunho das Escrituras Sagradas, a experiência de Jesus e dos cristãos ao longo dos séculos mostram, claramente, que Deus está presente quando as pessoas se encontram e partilham a vida. Desse modo, ao cultivar o silêncio como lugar e oportunidade de encontro com Deus, o cristão precisa ter o devido cuidado para não cair na tendência que marca a nossa época: a do distanciamento entre as pessoas. É necessário se manter vigilante para não cair nesta tentação. O encontro com Deus faz o cristão tornar-se cada vez mais humano, e isto significa tornar-se próximo e acessível; alguém que trilha o caminho da conversão.

            Por fim, cabe-nos, ainda, dizer que o silêncio nos concede o dom da visão da realidade. Viver sem enxergar a realidade é terrível. Cego é aquele que vive enganado, mergulhado na ilusão. Mulheres e homens guiados pelo Espírito possuem, pela graça deste mesmo Espírito, o dom da visão. Mais do que enxergar a realidade para agir conforme a vontade de Deus, o cristão também passa a enxergar a ação amorosa de Deus, que tudo redime e transforma. Trata-se da busca de Deus em todas as coisas. Portanto, o silêncio gera a visão do Deus que é puro amor presente no mundo e na vida das pessoas.

            Nossas Igrejas cristãs hoje também estão como que contaminadas pelo barulho gerador da dispersão. Quase não encontramos silêncio nos templos religiosos. Com o aparecimento e fortalecimento cada vez mais crescente do neopentecostalismo, as pessoas se dirigem a Deus com muitas palavras e muito barulho. Acredita-se que as muitas palavras tocam o coração de Deus. Fala-se com Deus como se Ele necessitasse de muito barulho para ouvir e atender. Não foi isso que Jesus ensinou. Nesta hora difícil do peregrinar do cristianismo no mundo, torna-se cada vez mais urgente o exercício da escuta amorosa, em silêncio, para compreendermos e vivermos a nossa vocação no mundo.

Tiago de França

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A segunda condenação do ex-presidente Lula


Saiu a segunda condenação do ex-presidente Lula. Já era esperada, pois na chamada "república de Curitiba", o ex-presidente é considerado, de antemão, um criminoso. Quando, previamente, há esta consideração, não adianta o trabalho da defesa. Permite-se a atuação da defesa somente para constar nos autos. Do contrário, o processo sofreria de nulidade.

Não há exagero nesta constatação. O que há de igual ou semelhante nas sentenças do ex-juiz Moro e da atual juíza do caso? Entre outros absurdos, existe a desconsideração dos elementos trazidos pela defesa aos autos do processo. Tudo o que a defesa trouxe aos autos foi simplesmente ignorado. Quando há o propósito de condenação é possível ignorar citando. É um modo inteligente de dizer que tudo foi visto e levado em conta. Mas a condenação mostra tudo.

O ex-presidente não é dono do sítio. Parece que neste ponto a juíza está de acordo. Então, qual o problema? O ex-presidente cometeu dois erros: primeiro, era amigo do dono. Isto não é crime, mas a sentença considerou como elemento coadjuvante da ação delituosa. Segundo, frequentou o sítio do amigo dono do sítio. Como a amizade era de longa data, e se tratava de uma figura ilustre ("o cara", como disse o Barack Obama, dos EUA), o dono do sítio deixou o amigo a vontade para visitar e usar o imóvel. A juíza viu nisso, acompanhando a acusação fantasiosa do MP, indícios de crime.

Mas o mais interessante são outros dois aspectos que, futuramente, farão o STJ e STF rever a condenação, se quiserem fazer justiça: a competência do juízo e a ausência de provas no que se refere ao benefício que o presidente teria recebido, sem ser o dono do imóvel, da empresa que fez as abençoadas reformas e/ou melhoramentos. Competência, no sentido jurídico-processual do termo, resolve a seguinte pergunta: Quem deveria julgar o processo? O sítio não está no Paraná. Por que, então, o processo foi instaurado lá? Qual a ligação do sítio com os desvios da Petrobras? O MP imaginou, não provou, e o juiz, que hoje é ministro de governo, se considerou competente para julgar. Parece uma clara eleição de juízo. O que a lei diz não parece ter importância.

Quem não tem noção de processo penal desconfia, e quem estudou esta matéria fica escandalizado. Mas, se analisarmos várias decisões prolatadas por inúmeros juízes no Brasil, veremos que o fato de ignorar a lei para julgar conforme anseios pessoais, grupais e populares virou moda. Em muitos casos, vale o que o juiz pensa, e não o que diz a lei e as provas dos autos.

Enquanto isso, onde está Michel Temer? E a situação do Aécio Neves, como fica? Quem matou Marielle Franco? E o Beto Richa, por que já está em sua confortável residência? E o pessoal da máfia dos ônibus coletivos do RJ? O que estão fazendo para dar um basta nos milicianos que atuam no RJ? E o Queiroz com o filho do Bolsonaro? Todos esperando o tempo passar, para gozar dos benefícios do esquecimento e da prescrição.

Mas as altas autoridades da República, nos três poderes, dizem: "As instituições estão em pleno funcionamento. Vivemos numa democracia plena". Mas estão funcionando para quem? Que tipo de democracia temos? Até quando está situação vai perdurar? Por que as pessoas não se rebelam?

Tiago de França

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A força do poder econômico


         O ocorrido em Brumadinho revela a força do poder econômico que atua no Brasil. Não há mistério, tudo é muito claro. Qual a forma de captação do Estado adotada pelo poder econômico? Antes de irmos ao núcleo da resposta a esta pergunta, precisamos entender a expressão poder econômico. Este poder é constituído por grandes e médias corporações empresariais. A Vale é uma das empresas que fazem parte do grupo das grandes empresas que formam o poder econômico no Brasil. O governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a vendeu a preço de banana. Hoje, é uma das maiores empresas do setor de mineração, presente em dezenas de países, cujos lucros poderiam, hoje, ser do povo brasileiro.

            O que as empresas buscam em seus negócios? Buscam o lucro. Não existe empresa sem aquisição de lucro. Quem não lucra, quebra. Para que não haja lucro a qualquer custo, o Estado existe para regulamentar as atividades empresariais. Sem regulamentação, as empresas não respeitam o meio ambiente nem a dignidade da pessoa humana. Como impedir o Estado de legislar rigidamente sobre a proteção do meio ambiente e a promoção da dignidade humana? Basta controlar a atividade legislativa. Onde se criam as leis? Nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas estatuais, na Câmara dos deputados e no Senado Federal. O controle do Poder Legislativo ocorre através do financiamento privado de campanhas eleitorais.

            Com o evento trágico de Brumadinho, esta façanha política se revelou: mineradoras financiam campanhas eleitorais de deputados estaduais e federais para que os parlamentares financiados possam legislar no interesse das mineradoras. Em outras palavras: as empresas praticamente compram a atividade parlamentar dos deputados. Por que isto não é ilegal? Porque a lei não proíbe este tipo de aberração. É tudo explícito. Falta uma reforma política que proíba este tipo de prática, que deveria ser considerada criminosa. Em princípio, os parlamentares deveriam trabalhar pela promoção do bem comum. Mas o que ocorre é que o bem comum é ignorado, e os parlamentares atuam para atender às demandas do poder econômico.

            As últimas eleições gerais indicaram que as empresas não procuram somente assegurar o apoio e a proteção do Legislativo, mas também financiam as campanhas eleitorais de chefes do Executivo: prefeitos, governadores e presidente da República. Ficou explícito o apoio de grandes empresários à candidatura do atual presidente da República. Por que tantos empresários o apoiaram? Na campanha a mentira que contaram foi a seguinte: “Apoiamos Bolsonaro porque queremos contribuir com o desenvolvimento do Brasil!” E o candidato até hoje repete a frase de efeito, que manifesta claramente a sua opção pelo empresário em prejuízo do trabalhador: “Vamos tirar o Estado das costas dos empresários e de todos aqueles que querem produzir!”

            Tirar o Estado das costas dos empresários significa, dentre outras coisas: flexibilizar a fiscalização, abolindo multas e perdoando dívidas; oferecer incentivos, reduções e subsídios fiscais às grandes empresas; reduzir as contribuições das empresas ao Estado, para que a folha de pagamento fique menos onerosa; aperfeiçoar a Reforma Trabalhista, abolindo direitos trabalhistas e aumentando as vantagens para os empresários etc. Em troca destes favores, as empresas financiam parlamentares e chefes do Executivo nos grandes municípios e nos Estados, para que ajudem na aprovação dos projetos do governo federal. Dessa forma, o Estado é enfraquecido, e a iniciativa privada passa a dominar o cenário político e econômico. A mídia aparece como colaboradora, veiculando propagandas enganosas, financiadas pelo governo e pelas empresas, com o objetivo de convencer a população.

            A propaganda fala para as pessoas que os grandes empresários, nacionais e internacionais, somente querem contribuir para o bem do Brasil e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Quem lucra com o crescimento do PIB? De que adianta termos um crescimento generoso do PIB, se milhões de brasileiros estão desempregados e inúmeros vivem abaixo da linha da pobreza? Onde está o PIB? Quem participa da riqueza produzida pelas grandes corporações empresariais? Os lucros são dos empresários, e os trabalhadores arcam com os prejuízos. Nos desastres criminosos de Mariana e Brumadinho, quem saiu lucrando e quem saiu perdendo? As vítimas e seus familiares lucravam com a mineração? Quem são sempre as vítimas destes grandes crimes ambientais e humanos?  

            Nestes dias, o povo está assistindo, impressionado, às iniciativas emergenciais de socorro às vítimas e seus familiares: muitos helicópteros; centenas de bombeiros; buscas de corpos; bloqueio de bilhões de reais; prisões de fiscais e engenheiros; promessas de revisão de normas e procedimentos; arrecadação de alimentos e outras coisas etc. Estas coisas são necessárias. É vidente que são. Medidas emergenciais são necessárias, e as que visam socorrer as vítimas e seus familiares são imprescindíveis. Em sã consciência, ninguém se opõe a elas. O que não resolve é bloquear bilhões de reais e depois desbloqueá-los, devolvendo-os às contas das empresas; aplicar multas e não obrigar os respectivos pagamentos; manter a legislação branda, que ignora os riscos; não acabar com a indústria de propinas a agentes de fiscalização do Estado etc.

Após o caso de Mariana, praticamente nada mudou. Nestes dias, governos e empresários repetem as mesmas promessas. Os governos estadual e federal dizem que vão multar, fiscalizar, endurecer a legislação, processar e prender pessoas, exigir a reparação de danos ao meio ambiente e às pessoas etc. Em poucos dias, praticamente nada disso vai acontecer. Não existe, no Brasil, a cultura de investigação séria e de punição aos grandes empresários. Estes dormem tranquilamente, porque não vivem preocupados com a segurança e a proteção de pessoas e do meio ambiente, e sabem que nada lhes acontece. A preocupação vem quando os lucros desaparecem. Aí, sim, ficam agoniados e depressivos. O dinheiro é o deus que não pode faltar. No mundo dos grandes empresários, o dinheiro resolve tudo. O desespero vem quando o deus dinheiro falta.

Diante desta situação, pergunta-se: Qual a autoridade moral e a capacidade efetiva que o governo tem para punir pelos crimes ambientais e humanos cometidos pelos membros do poder econômico? Cremos que estas breves provocações são suficientes para o leitor perceber que alimentar grandes mudanças no que se refere ao combate à corrupção que ocorre na iniciativa privada é uma grande ilusão. Esta é a nossa realidade. Quem não a enxerga, se ilude. Quando não se ilude, sofre de um tipo de otimismo comum aos tolos, que acreditam nas promessas daqueles que sempre prometeram e nunca fizeram absolutamente nada para mudar esta terrível e vergonhosa situação.

Tiago de França

sábado, 19 de janeiro de 2019

O vinho que nos faz irmãos


            Conta-nos o evangelista João que Jesus, sua mãe e seus discípulos participaram de um casamento em Caná da Galileia (cf. Jo 2, 1 – 11). O texto fala que neste casamento, Jesus realizou seu primeiro sinal e “seus discípulos creram nele”. O evangelista não fala em milagre, mas em sinal. Falar em sinal é apontar para algo mais profundo, de cunho mais existencial; é referir-se ao sentido mais profundo da missão de Jesus, missão que revela o rosto misericordioso de Deus Pai.

            Com o passar do tempo, os cristãos foram criando uma cultura religiosa dos milagres, que transformou Jesus em um milagreiro. Isto prejudicou gravemente o significado da missão do cristão e das Igrejas, que é o seguimento de Jesus. Muita gente não conhece o caminho de Jesus, não sabem o que significa segui-lo. As pessoas procuram por milagres. Elas veem em Jesus a solução para seus problemas, sejam quais forem. Jesus foi transformado numa força poderosa capaz de fazer milagres. Uma vez alcançado o milagre, Jesus é descartado ou deixado de lado.

            Quando ligamos a TV e assistimos aos canais religiosos, o que vemos? Líderes religiosos falando de milagres, curas e prodígios. Em troca de dinheiro, milagres acontecem. Trata-se de um mercado religioso promissor, que enriquece a muitos. Não se fala em outra coisa a não ser em milagres. Estes líderes religiosos criam um outro Jesus e um outro evangelho para satisfazer a sua sede de dinheiro e poder.

Alguns são mais discretos, outros mais agressivos. Mas o objetivo é o mesmo: arrecadar muito dinheiro para alimentar a vaidade pessoal e familiar. O dinheiro não serve para a caridade. Esta palavra é ignorada por eles. O Jesus milagreiro do neopentecostalismo cristão exige somente o depósito em dinheiro e uma suposta confiança na palavra do líder religioso. Tudo gira em torno do dinheiro. Prega-se que este funciona como o combustível da fé. Sem dinheiro não há fé nem milagres.

Jesus sabia que as pessoas tem esta tendência, que vai na contramão do Reino de Deus: a busca exclusiva por milagres. Os sinais de Jesus revelam que o milagre por excelência é segui-lo. Colocar-se em seu caminho é a missão a que cada cristão é chamado. No caminho de Jesus encontramos a vida plena. Caminhar com Jesus é o milagre que precisamos para termos vida em abundância. Quem caminha com Jesus se torna íntimo dele, participa da sua vida e da sua missão.

A gente caminha com Jesus participando da vida das pessoas, aproximando-nos delas. Jesus foi ao casamento, e foi informado pela sua mãe que o vinho faltou. Imaginem a vergonha que os noivos passariam se Jesus não os socorresse! Como numa festa de casamento pode faltar bebida? A presença de Jesus assegurou que nada faltaria, e Maria, sua mãe, sabia disso. Ela viu a falta do vinho, informou a situação a Jesus e recomendou que os discípulos fizessem conforme orientasse. Maria confiou em Jesus.

Em nossa vida de crentes, Jesus é o vinho que não pode faltar. Por que a gente não pede pra Jesus permanecer em nossa vida? Precisamos rever essa nossa mania de procurá-lo somente quando precisamos de um milagre. Ele quer habitar em nós. Quando Jesus está em nós, nos transformamos em vinho de primeira qualidade na vida das pessoas. Somente Jesus é capaz de nos transformar desde o mais profundo de nós mesmos. Este parece ser o milagre de Caná hoje. Quando o vinho aparece, a festa é certa e exitosa. Nada falta. A alegria e a abundância caracterizam uma vida festiva e feliz.

Outro aspecto revelador que a presença de Jesus nas bodas de Caná revela se refere ao caráter festivo da ocasião. Jesus manifestou o seu primeiro sinal em um casamento fora do templo e da sinagoga. Assim, ele nos revela que Deus é festivo, é pura alegria, puro gozo e confraternização.

Muitas vezes, somos tentados a carregar em nós a imagem de um Deus triste, que vigia, pune e castiga, um Deus perseguidor. Jesus nos fala que Deus é o Pai da alegria e da festa sem fim. Quem permanece em Deus experimenta a verdadeira alegria, aquela que não passa e que não é provocada pelos prazeres passageiros que a vida oferece.

A alegria que não passa vem da certeza da presença divina em nós. Desse modo, a nossa vida é uma festa sem fim, mesmo quando somos atingidos pelo sofrimento e pela tristeza momentânea. Esta alegria que vem de Deus é a única capaz de nos conceder paz ao espírito e aos ambientes que frequentamos. Uma vez alegres e em paz, contagiamos outras pessoas com as energias oriundas da alegria e da paz de espírito. Há muita gente que precisa de alegria e paz, e quem segue a Jesus é chamado a partilhar com os outros o vinho da alegria e da paz.

Por fim, cabe-nos ouvir a recomendação de Maria, ao perceber a falta do vinho no casamento de Caná da Galileia. Diz ela a seus discípulos: “Fazei o que ele vos disser”. Imediatamente após esta recomendação materna, Jesus manifesta o seu sinal: transformou água em vinho. Foram seis talhas, de mais ou menos cem litros cada uma. Jesus não oferece pouco, mas muito e de boa qualidade.

Assim é Deus: maravilhosamente infinito, cheio de amor. O seu amor é sem fim. Ele quer viver em nós, preenchendo-nos infinitamente. É o amor que nos concede a vida sem fim. O amor é este vinho bom, sem o qual estamos perdidos eternamente. Eis o que Jesus nos diz hoje: Sejam vinho bom e abundante na vida uns dos outros, pois é para o amor que vocês foram chamados.

Não sejamos fel e vinagre na vida dos outros, mas vinho saboroso, abundante. Em comunhão com o Deus festivo, a nossa vida se transforma em dom precioso para a vida do mundo. Nisto reside a felicidade, a alegria e a paz que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas.
Tiago de França

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A ilusão das armas


        Há muitos problemas no Brasil: o desemprego, a violência e a corrupção são os maiores. Quais medidas o governo está propondo para resolvê-los? Nem durante a campanha nem após a eleição, Bolsonaro pronunciou a palavra emprego. Não parece preocupado com a triste situação dos mais de 12 milhões de desempregados.

            No que tange à violência, quando deputado pelo Rio de Janeiro, Bolsonaro nunca propôs nada para ajudar aquele estado. O ex-juiz federal e atual ministro da Justiça e Segurança Pública só fala em combater a corrupção. Parece que não se deu conta de que se tornou ministro da segurança pública.

Em relação ao problema da violência, até agora não propôs absolutamente nada. O estado do Ceará está um caos, e a única medida tomada foi a mesma do governo Temer: envio das forças armadas, como se estas resolvessem alguma coisa.

Considerando a forma como estão tratando o caso dos ex-assessores e motorista da Família Bolsonaro, bem como do caixa 2 do ministro da Casa Civil, o combate à corrupção será igual ao que ocorreu na operação Lava Jato, que combateu somente a corrupção de pessoas ligadas ao PT e aos governos petistas. Nada se fez até agora para investigar, processar e punir políticos não petistas como Temer, Aécio, Beto Richa, Geraldo Alckmin e outros.

            Facilitar o acesso às armas não é uma medida que visa promover a segurança pública. Se assim fosse, os EUA seriam um país seguro. Todos sabemos que os norteamericanos são conhecidos no mundo pela violência, pela quantidade insuperável de pessoas presas e pela chacina de pessoas. O povo daquele país vive em estado de alerta.

            No Brasil, a situação não é diferente: caminhamos para a cifra de 800 mil pessoas encarceradas; mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano; a violência e o crime organizado dominam a sociedade. O Estado não sabe nem tem interesse de resolver a situação. Vive adotando medidas paliativas para passar a ideia de que está tomando providência. O atual governo foi eleito sem nenhum projeto para esta área. Os brasileiros continuarão sendo assassinados, principalmente os mais pobres.

            Com armas em casa, as pessoas terão mais facilidade de matar umas às outras. O decreto assinado pelo presidente dá liberdade para a posse de até 4 armas por pessoa. Está mais que clara a intenção do presidente: facilitar para que os brasileiros se matem. Assim, se reduz os gastos do governo. Gente morta é sinônimo de economia de gastos. É uma forma diabólica de conter o número da população. Esta parece ser a ideia central.

            O decreto do governo beneficiará, em primeiro lugar, à indústria das armas. Esta é a primeira interessada a beneficiada. Também os criminosos serão beneficiados, pois poderão roubar e furtar armas nas residências das pessoas. Por fim, aqueles que possuem um desejo oculto de matar pessoas também estão felizes com a medida. A partir de agora poderão ter armas para eliminar seus inimigos. Usar as armas para a legítima defesa é o que menos se verá acontecer.

            Não é nenhum exagero afirmar, categoricamente, que os responsáveis pelo sangue das vítimas desta medida são o presidente que a adotou, seus correligionários e as pessoas que o elegeram. O banho de sangue certamente será mais intenso. Os mais pobres que se cuidem!

Tiago de França