terça-feira, 4 de agosto de 2020

Mês vocacional: A vocação do padre na Igreja católica

               A teologia do ministério presbiteral revela a beleza desse ministério para a vida da Igreja. O presbítero (padre) é “o amor do coração de Jesus”, nos diz São João Maria Vianney, padroeiro dos padres. Trata-se de uma vocação que “brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno”, ensina o Papa Francisco. Portanto, não existe padre para si mesmo, mas para o povo de Deus. Assim, deve o padre amar o povo de Deus com o mesmo amor com que ama Jesus Cristo.
            Neste artigo, discorrei sobre o ministério presbiteral a partir de dois documentos do concílio Vaticano II, que explicitam, com fidelidade, a vida e a missão do presbítero na Igreja. São documentos importantes, que merecem ser conhecidos, pois é impensável que o católico desconheça o significado, importância e alcance da vida e missão dos Pastores do povo de Deus. Quanto mais se conhece, mais se respeita e valoriza.

1. O presbítero no início da Igreja
            No Novo Testamento, especialmente em algumas cartas paulinas e nos Atos dos Apóstolos, encontramos referências ao ministério do presbítero, que aparecem como “anciãos” das comunidades, cuidando das pessoas, vivendo de forma colegiada, presidindo, pregando e ensinando a doutrina cristã.
            Daí decorrem algumas características do ministério presbiteral, a saber: O padre é chamado a cuidar das pessoas. Esse cuidado não se reduz à dimensão espiritual, mas, também, à assistência material, na caridade evangélica.
            O padre não exerce sozinho a sua missão, mas é membro do povo de Deus e de um presbitério (conjunto de presbíteros ligados ao Bispo). Isso significa que o padre deve evitar o isolamento, e procurar relacionar-se bem com as pessoas, com seus irmãos padres e com o Bispo. Ao isolar-se, aparecem os problemas, que tendem a se agravar e inviabilizar a missão presbiteral.
            Sob a autoridade do Bispo, o padre preside a comunidade cristã, sem autoritarismo nem com atitude de dono. O padre não é dono da vida das pessoas, nem da comunidade. Presidir é coordenar, orientar, guiar, sugerir, organizar os trabalhos, acompanhar, permitir que as pessoas possam colaborar livremente, animar a comunidade.
            Os textos neotestamentários falam que os presbíteros eram homens da pregação da Palavra de Deus e do ensino da doutrina. Cabe ao padre a pregação do Evangelho de Cristo, com palavras e com o testemunho da própria vida. Na celebração eucarística, principalmente aos domingos, festas e solenidades, o padre deve fazer uma boa homilia.
Esta é muito importante, pois, segundo o Papa Francisco, a homilia “é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De facto, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente, uma experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento” (cf. os números 135 a 144 da exortação apostólica Evangelii Gaudium).
Deve o padre ser um homem versado nas coisas de Deus. Para isso, o período de formação é longo e marcado por inúmeras reflexões filosóficas, bíblicas, teológicas e espirituais. Uma vez tendo se empenhado na formação inicial, o padre se apresenta como conhecedor dos conceitos básicos que constituem a doutrina cristã. Na comunidade, com os demais catequistas, o padre é homem do ensino das coisas que se referem a Deus e à Igreja. Hoje, mais que em outras épocas, as pessoas estão cada vez mais sedentas, e exigem a presença de padres bem formados.

2. O presbítero segundo a constituição dogmática Lumen Gentium
            Diferentemente da eclesiologia pré-conciliar, a Lumen Gentium (LG) inverte a ordem de tratamento dos temas, quando fala do Povo de Deus e da constituição hierárquica da Igreja. Isso sinaliza para o fato de que a hierarquia não está acima do povo Deus, mas faz parte deste povo. Bispos, padres e diáconos são membros do povo de Deus. Cada membro da hierarquia precisa estar consciente disso.
            No primeiro capítulo da LG, temos o tema do mistério da Igreja. Em seguida, o segundo capítulo trata do Povo de Deus, e no terceiro capítulo, a hierarquia eclesiástica e em especial o episcopado, é apresentada, de forma densa e profunda.
            A LG afirma, no n. 28, que o padre depende do Bispo no exercício do próprio poder. Por isso, é um colaborador da ordem episcopal. Pela ordenação, é consagrado, à imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote. Como verdadeiro sacerdote do Novo Testamento, participando do sacerdócio de Cristo, tem como funções principais: Pregar o evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino. Seu múnus sagrado é exercido, principalmente, na celebração eucarística.
            O presbítero é o ministro que se coloca entre Deus e a comunidade, participando da mediação de Cristo. Portanto, apresenta a Deus as necessidades e preces do povo. No meio deste povo, adora o Pai em espírito e verdade. Medita na lei do Senhor, prega e ensina: Ensina o que crê e vive o que ensina.
            A Lumen Gentium segue dizendo que o presbítero é um esclarecido cooperador do Bispo, constituindo com este e os demais presbíteros um presbitério. Nas comunidades, torna presente o Bispo. Está associado a este com ânimo fiel, devendo-lhe obediência, respeito e reverência. Tornando visível a Igreja universal, sob a autoridade do Bispo, santifica e governa a porção do rebanho a si confiada.
            O n. 28 da LG termina exigindo que o presbítero reconheça o Bispo como pai, bem como pede que este considere todos os padres de seu presbitério como filhos e amigos. Entre si, os presbíteros devem viver uma íntima fraternidade; devem dar testemunho de verdade e vida, e evitar todo tipo de divisão. Estes são os elementos teológicos e constitutivos do ministério presbiteral, nos termos da Lumen Gentium.

3. Sacerdócio ministerial: Exigências e recomendações à luz do Decreto Presbyterorum Ordinis
            O capítulo III desse decreto, trata da vida dos presbíteros, e descreve, inicialmente, a vocação presbiteral à perfeição. Unido a Jesus, o padre deve buscar a santidade. Esta é a vocação de todo cristão, especialmente daqueles que pastoreiam o rebanho do Senhor. Sem essa união com Jesus, a santidade não pode ser alcançada.
            A vida do presbítero contém todos os meios necessários à santidade e à salvação. Por isso, deve o padre procurar ser santo em suas palavras e ações. Os fiéis precisam enxergar nele um homem de Deus, zeloso nas coisas de Deus. Ao olhar para ele, o povo precisa ver o Cristo Jesus. Assim como cada cristão é um outro Cristo no mundo, também o padre, no seio da comunidade cristã, é um outro Cristo.
            Ser santo não é ser perfeito, sem falhas; mas significa ser amigo de Jesus, próximo das pessoas, especialmente dos mais humildes e marginalizados. No seu ministério, o padre se santifica no serviço aos mais humildes do povo de Deus. Buscando a coerência de vida, cuidando de sua integridade moral, vive o que o decreto chama de “unidade de vida dos presbíteros em Cristo”. A caridade pastoral, nutrida pela Eucaristia, piedosa e convictamente celebrada, ajudará o padre a ser um homem de Deus no meio do povo.
            Em seguida, o decreto apresenta algumas “peculiares exigências espirituais na vida dos presbíteros, destacando, em primeiro lugar, a humildade e a obediência. Um padre humilde é uma bênção de Deus! A humildade atrai, enquanto que a arrogância afasta. Ser humilde significa reconhecer-se como filho de Deus, numa total dependência dele. Um padre humilde cuida melhor dos humildes, e enfrenta, corajosamente, os arrogantes deste mundo, com paciência e mansidão. Toda pessoa humilde conhece o seu lugar, sem se impor aos outros.
            A obediência é outra virtude a ser praticada pelo padre. Como fiel colaborador da ordem episcopal, deve obediência ao Bispo. Caso seja religioso, também deve obedecer aos seus superiores. Na ordenação, ajoelhado diante do Bispo, com suas mãos unidas as dele, o padre faz a promessa da obediência. Ao renovar, anualmente, as promessas sacerdotais, durante a celebração da Missa dos Santos Óleos, cada padre renova também a promessa da obediência.
            A respeito do celibato sacerdotal, diz o decreto, no n. 16: “Pela virgindade ou pelo celibato observado por amor do reino dos céus, os presbíteros consagram-se por um novo e excelente título a Cristo, aderem a Ele mais facilmente com um coração indiviso, n'Ele e por Ele mais livremente se dedicam ao serviço de Deus e dos homens, com mais facilidade servem o seu reino e a obra da regeneração sobrenatural, e tornam-se mais aptos para receberem, de forma mais ampla, a paternidade em Cristo”.
            O celibato é dom de Deus, concedido em vista da missão. Portanto, trata-se do celibato por amor ao Reino dos céus. Como celibatários, os padres se dedicam ao serviço de Deus e dos homens “com um coração indiviso”. Isso significa que o celibatário é alguém que se consagrou totalmente, sem reservas. A missão sacerdotal é sinônimo de entrega total e generosa ao serviço de Deus e de seu povo. Na Igreja católica de rito latino, o celibato é obrigatório. Essa obrigatoriedade é questionada por muitos, mas aqui não tratarei desta questão, porque o foco do artigo é a vocação do presbítero e não a disciplina eclesiástica do celibato.
            Assim, é preciso dizer que o padre não é um solteirão, nem um frustrado no campo afetivo e sexual. Devidamente integrado, e vivendo o celibato como dom de Deus, cultiva relações saudáveis, muito necessárias na vida sacerdotal. Do contrário, infelizmente, é possível encontrar padres afetiva e sexualmente desajustados, que tem causado uma enorme ferida na vida eclesial, comportando-se de forma indigna de um ministro de Deus. Trata-se de uma realidade que precisa de atenção e cuidados, que não pode ser ignorada, nem negada.
            O decreto também fala da pobreza voluntária como uma exigência do ministério presbiteral. O padre não deve ser homem rico, poderoso e de prestígio mundano na sociedade. Configurado a Cristo Bom Pastor, deve buscar viver com simplicidade e despojamento. Um padre pobre é capaz de fazer com que a Igreja viva a opção pelos pobres e, consequentemente, é bem aceito entre os pobres. A pobreza é diferente de miséria. Esta é reprovável à luz da fé e dos direitos fundamentais da pessoa humana. Jesus era pobre e realizou a sua missão entre os pobres.
            O padre deve ter, e na grande maioria dos casos tem, as condições necessárias ao desempenho da sua missão: residência, atendimento médico, alimentação, vestuário, transporte, e um salário que o ajude nas demais despesas ordinárias da vida. Para além dessas condições necessárias, tudo é supérfluo e acúmulo desnecessário. O padre deve confiar em Cristo a quem serve, e não nas falsas seguranças que as riquezas deste mundo oferecem.

4. Tentações que aparecem na vida dos presbíteros
            Assim como Jesus foi tentado, o padre também é tentado a se desviar do caminho de Jesus. Para vencer as tentações, deve estar enraizado em Cristo; do contrário, sucumbe e perde o sentido da missão para a qual foi chamado, vivendo uma aparência de vocação. Finalizo essas breves considerações, mencionando algumas tentações que são recorrentes na vida do padre, que precisam ser vencidas, com muita fé, oração e confiança no Senhor. Eis algumas das tentações mais perigosas:
- A tentação do poder e do ter, que contraria a humildade e a pobreza voluntária;
- A tentação da vida dupla, que contraria a vivência do celibato;
- A tentação do espírito de superioridade, marca da pessoa orgulhosa, que atenta contra o diálogo e a boa relação com as pessoas;
-  A tentação da preguiça e do comodismo, que atenta contra a disponibilidade para a missão, deixando as pessoas desassistidas em suas necessidades materiais e espirituais;
- A tentação da desobediência, que contraria a promessa feita no dia da ordenação;
- A tentação do carreirismo, que faz do sacerdócio um meio de tirar vantagem em tudo, especialmente na busca obstinada por cargos de visibilidade e lugares que garantam vida cômoda;
- A tentação do mundanismo espiritual, que faz o padre usar o sagrado para alimentar a sua vaidade e aparentar piedade e santidade;
- A tentação do estrelismo, que leva o padre a se colocar no centro da vida da comunidade, ocupando o lugar de Cristo;
- A tentação da inveja, que o coloca como adversário de irmãos clérigos e leigos, destruindo a fraternidade;
- A tentação de viver sem rezar, tornando-o superficial e vazio;
- A tentação do consumismo, que o transforma em escravo do consumo de coisas supérfluas, em vista somente da satisfação da própria vaidade;
- A tentação das ambições desmedidas, que transforma o padre numa pessoa egoísta, centrada somente em si mesma e nos seus interesses.
            No altar do Senhor, na meditação de sua Palavra, na oração, no encontro permanente com os que sofrem e no dom da amizade, o padre encontra Jesus que o conduz firme e forte na missão. O ministério presbiteral, assim como os demais ministérios na Igreja, depende, em primeiro lugar, da ação da graça divina; e em segundo, da abertura de cada pessoa a esta graça.
O mesmo Deus que chama é o que acompanha e mantém o padre no caminho de Jesus. É necessário confiar e se entregar, ter fé e se colocar a serviço, esperar em Deus e caminhar na sua presença. Optando pelo Reino, tudo o mais vem por acréscimo (cf. Mt 6,33). Quem escuta o chamado e se decide por caminhar com Jesus, servindo-o com amor e generosidade, não perde nada. O próprio Cristo é a riqueza, a segurança e a salvação dos discípulos missionários que se colocam em seu caminho.

Tiago de França

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Mês vocacional: A vocação do diácono na Igreja católica


           Desde os tempos primitivos, a Igreja conta com uma diversidade de dons e carismas na construção do Reino de Deus. O apóstolo Paulo nos recorda esta verdade, ao dizer: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos” (1Cor 12,4-7).
            Inspirados nestas palavras do apóstolo Paulo, quero, neste mês de agosto, refletir sobre o tema das vocações na diversidade de suas manifestações. Neste breve texto, discorrerei sobre a vocação do diácono. Posteriormente, escreverei sobre as vocações presbiteral e episcopal. São ministérios específicos que existem em função do povo de Deus e da construção do Reino. Estas vocações não existem em função de pessoas, grupos ou interesses particulares, mas constituem ministérios “em vista do bem de todos”.

1. Os diáconos são expressão do Cristo Servidor
            A vocação diaconal tem sua origem na Igreja primitiva. Portanto, é tão antiga quanto a própria Igreja. No livro dos Atos dos Apóstolos encontramos um problema na comunidade: “os fiéis de língua grega começaram a queixar-se dos fiéis de língua hebraica”. E o motivo era que as viúvas estavam sendo deixadas de lado no atendimento diário. Então os apóstolos discutiram uma solução, e acharam por bem pedir que escolhessem “homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria”, para que cuidassem do “serviço às mesas” (cf. At 6,1-6).
            A proposta agradou a todos, e foram escolhidos Estevão, “homem cheio de fé e do Espírito Santo”, Filipe, Prócoro, Nicanor, Tímon, Pármenas e Nicolau de Antioquia, que era prosélito. Pelos nomes, percebe-se que eram gregos. Eis, portanto, duas características que todo diácono deve ter: Boa reputação e ser cheio do Espírito e de sabedoria. Isso significa que não é qualquer pessoa que pode exercer esse ministério, mas aqueles que são chamados por Deus a este sagrado serviço, e são confirmados pela Igreja.
            O texto diz que foram escolhidos para atender as pessoas, ajudando-as em suas necessidades. A caridade evangélica é a marcada do serviço diaconal. O livro de Atos também revela que os diáconos também pregavam. O anúncio do Evangelho integra todas as vocações na Igreja. Todas estão em função deste anúncio, sem o qual a Igreja perde a sua razão de existir.
            Com a institucionalização eclesiástica e com o passar do tempo, o ministério do diácono permanente foi sendo marginalizado na vida eclesial. A história do sacramento da Ordem revela isso. O diaconato transitório passou a ser a expressão evidente do ministério diaconal na Igreja. Entende-se por diaconato transitório a situação do candidato às ordens sacras, que tendo concluído a formação inicial, é ordenado diácono para um período determinado, com duração mínima de seis meses. Dependendo da necessidade e do discernimento do Bispo, o diácono pode ser ordenado presbítero antes dos seis meses.

2. A restauração do diaconato permanente na Igreja
            O concílio Vaticano II (1962-1965) restaurou o diaconato permanente na Igreja católica. A constituição dogmática Lumen Gentium – sobre a Igreja, no n. 29 afirma o seguinte: “Em grau inferior da hierarquia estão os diáconos, aos quais foram impostas as mãos ‘não em ordem ao sacerdócio, mas ao ministério’. Pois que, fortalecidos com a graça sacramental, servem o Povo de Deus em união com o Bispo e o seu presbitério, no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade. É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimónio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura. Consagrados aos ofícios da caridade e da administração, lembrem-se os diáconos da recomendação de S. Policarpo: ‘misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se fez servo de todos’”.
            Assim como em Atos 6,6, os Bispos impõem suas mãos sobre o diácono no momento da ordenação. Juntamente com a oração própria, esse gesto consagra o diácono para servir o povo de Deus, imprimindo-lhe um caráter indelével, concedido pela graça sacramental. A imposição das mãos não “em ordem ao sacerdócio, mas ao ministério”, ou seja, o diácono permanente não é um padre pela metade, mas um ministro ordenado para o exercício de funções específicas, em comunhão com o Bispo e o presbitério, sem ser confundido com os leigos, nem com os presbíteros.
            O diácono serve o povo de Deus no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade. Havendo diácono na celebração eucarística, pertencem a ele as funções de proclamar o Evangelho e preparar o altar para a apresentação das oferendas. Querendo, o presbítero pode pedir que o diácono também faça a homilia. Na liturgia eucarística somente o diácono, o presbítero e o Bispo podem fazer a homilia. A Lumen Gentium, como se pode conferir acima, faz questão de explicitar outras funções do diácono, estabelecendo, assim, o que compete a esse ministro da Igreja.
            Os diáconos permanentes também podem se ocupar com a administração, de acordo com as necessidades da Igreja e as diretrizes do Bispo. O número 29 do mesmo documento, termina dizendo o que segue: “Como porém, estes ofícios, muito necessários para a vida da Igreja na disciplina atual da Igreja latina, dificilmente podem ser exercidos em muitas regiões, o diaconado poderá ser, para o futuro, restaurado como grau próprio e permanente da Hierarquia. Às diversas Conferências episcopais territoriais competentes cabe decidir, com a aprovação do Sumo Pontífice, se e onde é oportuno instituir tais diáconos para a cura das almas. Com o consentimento do Romano Pontífice, poderá este diaconado ser conferido a homens de idade madura, mesmo casados, e a jovens idóneos; em relação a estes últimos, porém, permanece em vigor a lei do celibato”.

3. Algumas prescrições canônicas
            Canonicamente, o diácono é um clérigo incardinado em uma Igreja particular (cf. cânon 266, §1 do Código de Direito Canônico – CDC). Portanto, não é um sacristão qualificado nem um mini-padre. Os números 47 e 48 das diretrizes para a formação do diaconato permanente (documento da CNBB 96) afirmam que o diaconato faz parte do sacramento da Ordem e os diáconos exercem seu ministério a partir de uma graça sacramental. A Ordem confere uma graça especial do Espírito Santo para que o ministro, em sua realidade pessoal e histórico-cultural, seja imagem de Cristo Servo.
            Os diáconos permanentes são dispensados de algumas obrigações impostas aos presbíteros e Bispos, tais como: Não são obrigados a usar o hábito eclesiástico que distinguem, exteriormente, os clérigos dos leigos (batina, clergyman); podem exercer funções/atividades seculares proibidas aos presbíteros e Bispos, como filiação partidária e sindical e atividades de comércio; “salvo determinação contrária do direito particular” (cf. cânon 288 do CDC).
            No caso daqueles que são ordenados diáconos em vista do sacerdócio ministerial, pede-se que o candidato conheça bem a natureza e as exigências do diaconato. Recorda-se também que, ao pedir a ordenação, o candidato deve compreender e aceitar a observância do celibato. Na ordenação, promete-se esta observância. Tendo aceito as exigências e solicitado a ordenação, deve o candidato estar consciente do tríplice múnus que caracteriza o diaconato: a Palavra, a Liturgia e a Caridade (cf. o n. 348 das diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil – Documentos da CNBB 110).
            Infelizmente, devido à falta de entendimento do significado e importância do ministério diaconal por parte de muitos clérigos e leigos, muitos diáconos permanentes não são devidamente respeitados e valorizados. Muitos fiéis, desprovidos do necessário conhecimento deste ministério, recusam-se a participar das celebrações presididas por diáconos permanentes. Também muitos presbíteros apresentam algumas resistências, mesmo tendo sido diáconos transitórios.
Em muitos casos, há uma espécie de preconceito em relação aos diáconos permanentes. Essa realidade, que chega a ser vergonhosa, reclama por formação e conscientização. A rejeição dos diáconos permanentes é prova incontestável da falta de conhecimento do significado e importância dos ministérios na Igreja. Esta é toda ministerial para o serviço do povo de Deus. No centro da comunidade eclesial está Jesus, e não a pessoa dos membros da hierarquia eclesiástica. Estes são chamados a ser os servidores da comunidade, a exemplo do Cristo Servidor, “que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mt 20,28).

Tiago de França

sábado, 1 de agosto de 2020

Partilhar o pão


“Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16).
            O trecho do evangelho que está sendo proclamado na liturgia dominical da Igreja católica, neste final de semana, é um convite à reflexão sobre a solidariedade que une os discípulos de Cristo (cf. Mt 14,13-21).
            Após a morte do profeta João Batista, que parece ter deixado Jesus muito triste, eis que ele procura um lugar deserto. A missão de Jesus é uma espécie de continuidade da missão de João Batista, apesar das diferenças e divergências metodológicas. João Batista preparou o caminho, e Jesus se apresentou neste caminho. O papel do profeta foi muito importante na recepção do Messias.
            Não adiantou a Jesus querer procurar um lugar deserto. As multidões souberam e o seguiram a pé. As pessoas precisavam de suas palavras e gestos, pois eram como um rebanho abandonado, vítima das doenças e da exploração religiosa e secular. Procuravam por aquele que as escutava e ajudava a aliviar seus sofrimentos.
            Ao ver as multidões, Jesus se encheu de compaixão e curou os doentes, nos diz o evangelista. Jesus não se conteve diante do sofrimento daquelas pessoas, porque era sensível à dor de cada uma delas. Era um homem cheio de compaixão. Esta era a sua essência. Assim, revela a natureza divina, que é pura compaixão e misericórdia. Deus sente compaixão e cuida de seus filhos, sem jamais abandoná-los.
            Os discípulos de Jesus, vendo que a hora já estava adiantada, sugeriram que despedisse as multidões, para que encontrassem alimento nos povoados. Parece que eles não compreenderam, ainda, a mensagem de Jesus. Optaram pelo caminho mais fácil: despedir as pessoas, sem socorrê-las. Jesus não concorda com a sugestão deles, e responde: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!”
            A resposta de Jesus também é uma advertência a todos aqueles que desejam segui-lo: É necessário dar de comer às multidões, ou seja, socorrer as pessoas em suas necessidades. No cristianismo, não basta oferecer o alimento espiritual (a oração, o pão eucarístico, o culto, a devoção, a reflexão da Palavra etc.), mas é necessário, também, socorrer as necessidades materiais das pessoas. No caso do texto que estamos meditando, o problema era a falta do alimento.
            Não ter o que comer é um problema grave, que jamais pode ser ignorado. A fome fere a dignidade das pessoas. Ninguém consegue sobreviver sem a total ausência do alimento. Toda pessoa humana tem direito à alimentação saudável e suficiente, para permanecer viva neste mundo. Jesus tinha consciência disso. É verdade que há muitos outros tipos de fome, que reclamam o alimento apropriado e necessário. No caminho de Jesus, ninguém deveria passar privação do alimento que fortalece o corpo na caminhada da vida.
            Nas comunidades cristãs, todos devem ter o alimento. Ignorar a fome dos outros é pecado grave, que contraria a bondade de Deus, que criou a terra com capacidade de gerar os frutos, e deu inteligência ao homem para que a cultivasse. O fato de termos 820 milhões de pessoas no mundo passando fome (segundo dados da ONU, em 2019) é uma gravíssima injustiça e um grave pecado. É algo que deve inquietar o coração dos discípulos de Cristo, levando-os a agir dentro de suas possibilidades.
            O texto diz que Jesus se encheu de compaixão e agiu. Seus discípulos disseram que tinham somente cinco pães e dois peixes. Jesus pede que as multidões sentem para comer. Tomando os pães e os peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos seus discípulos para que servissem às multidões. A forma como o evangelista narra faz lembrar da última ceia, na qual fez o mesmo gesto, distribuindo o pão e o vinho, expressando a sua presença na partilha do pão.
            Quando o pão é partilhado, aí está Deus, que multiplica, sem deixar que ninguém passe necessidade. É verdade que Jesus não fez surgir pães e peixes do nada, mas foi preciso que estes alimentos estivessem à disposição, para serem partilhados. A questão central é a partilha: Jesus ensina o valor da partilha daquilo que se tem para socorrer os necessitados. O Deus e Pai de Jesus é aquele que faz este belo convite: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga” (Is 55,1).
            O trecho evangélico termina dizendo que todos comeram e ficaram satisfeitos, e ainda sobraram doze cestos dos pedaços que sobraram. Deus dá com fartura. A partilha é o grande milagre da fraternidade. Quando as pessoas se unem para viver como irmãs em Cristo Jesus, nada lhes falta. A generosidade, a gratuidade e a solidariedade constroem a fraternidade. Esta caracteriza o caminho de Jesus. Neste caminho não predomina o egoísmo daqueles que somente pensam em si, satisfazendo seus próprios interesses. O caminho de Jesus é sinônimo de comunhão fraterna.
            O evangelista finaliza dizendo que mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, saciaram a fome. Claro que não se pode levar esse número ao pé da letra. O número revela a universalidade da partilha: Todos são chamados a comer para viver dignamente. Na mesa do Reino de Deus há lugar para todos, especialmente para os empobrecidos e marginalizados. O Evangelho ensina o dom da partilha, que impede que as pessoas sejam esquecidas e deixadas de lado. É preciso incluir, acolher, socorrer, matar a fome de pão, de justiça e de paz. É assim que o Reino de Deus se manifesta no mundo.

Tiago de França

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Canal no YouTube


Amigos/as,

Acatando as sugestões de alguns amigos, criei um canal no YouTube. Meu objetivo é compartilhar algumas reflexões teológicas, jurídicas e filosóficas. Sem polêmicas nem radicalismos, pretendo compartilhar ideias. Quem quiser sugerir temas para as reflexões, estou aberto a sugestões. Na medida do possível, irei atualizando o canal. Acessem, se inscrevam e compartilhem.

Abraço fraterno!

Tiago de França
Nome do canal: Com Jesus na contramão

quarta-feira, 29 de julho de 2020

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CARTA AO POVO DE DEUS


           Algumas pessoas pediram a minha opinião sobre a Carta ao povo de Deus, assinada por dezenas de Bispos da Igreja católica, publicada pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo, no dia 26 de julho do corrente ano. Li e analisei o conteúdo da Carta, bem como estou acompanhando nas redes sociais as reações de inúmeras pessoas e grupos, tanto dentro quanto fora da Igreja católica. Neste breve artigo, quero tecer algumas considerações tanto sobre o conteúdo quanto sobre essas reações. Inicialmente, é preciso dizer que não sou filiado a nenhum partido político, nem faço a defesa apaixonada de nenhum deles. Falo como cristão, candidato às ordens sacras, advogado e professor.

1. O conteúdo da Carta
            Os signatários da Carta começam falando que estamos vivendo uma situação grave, e que resolveram se manifestar em comunhão com o Papa e seu magistério, bem como com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. A premissa básica para a compreensão da Carta é o prévio conhecimento, nem que seja em linhas gerais, do significado da comunhão eclesial e da Doutrina Social da Igreja. Cabe aos Bispos se pronunciarem sobre os fatos, quer como Conferência Episcopal, quer individualmente. Neste caso, vários Bispos, de diferentes regiões do Brasil, resolveram se pronunciar sobre o momento grave em que estamos vivendo. Quem ignora a gravidade deste momento, não compreende a Carta.
            Em seguida, os Bispos falam do significado da missão da Igreja no mundo. Explicam aquilo que todo bom católico conhece e tem convicção: A Igreja nasceu para evangelizar. Citando o Papa Francisco, explicitam o conceito simples e teologicamente profundo sobre a evangelização: “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). O Reino de Deus está presente no mundo. Trata-se de uma realidade dinâmica e transformadora, que conhecerá a sua realização plena na volta definitiva de Cristo. A Igreja está a serviço desse Reino, e não o contrário. Esta é a fé da Igreja, fundamentada nas Escrituras Sagradas.
            A Carta segue manifestando a intenção dos Bispos: “Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor”. Eles não falam em nome de um partido político, nem em função da política partidária. Nenhum deles tem a pretensão de governar o País. Esta não é a função deles. Mas como a Igreja não vive a sua missão fora da realidade, esta merece a apreciação de todos, inclusive dos Bispos. Estes são homens de Deus e do mundo, e não podem ignorar o que acontece no mundo.
            A partir deste momento, os Bispos começam a fazer uma descrição pormenorizada dos principais problemas que afetam os brasileiros. Eles falam com a autoridade de quem conhece e tem a missão de anunciar o Reino de Deus. Neste anúncio está a denúncia das injustiças. Considerando a falta de um projeto de poder que favoreça, efetivamente, a promoção dos pobres e mais vulneráveis, bem como a proteção do meio ambiente, os Bispos retratam as consequências sociais que decorrem desta ausência.
O leitor da Carta precisa considerar que o atual governo não tem priorizado os mais pobres, mas governado para as classes mais favorecidas, composta, principalmente, por empresários que lutaram para eleger o atual presidente. Basta recordar a campanha eleitoral do presidente em 2018. Independente de viés ideológico, todo brasileiro, minimamente informado, sabe que o presidente foi eleito com o apoio da elite econômica do país. E sabe também que esta elite econômica controla o governo. Por isso, as medidas governamentais não favorecem os pobres.
Em breve será aprovada a Reforma Tributária, que está sendo apresentada aos poucos, para não assustar a população. Quem analisar essa Reforma verá que os pobres continuarão pagando mais impostos que os ricos. As mudanças tendem a piorar a situação dos pobres. Afirmar isso significa adesão ao comunismo? Se a resposta for positiva, então convido a estudar um pouco sobre dois conceitos: Ideologia e comunismo. Não adianta negar a realidade. O negacionismo é sinônimo de ignorância. Independentemente de preferências políticas, temos que admitir que a corda está no pescoço dos pobres.
A Carta continua com a denúncia dos discursos anticientíficos, “que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço”. Os Bispos também reconhecem a “incapacidade e inabilidade do Governo Federal” em enfrentar as crises política e econômica. Também fazem uma dura crítica ao modelo econômico neoliberal, “que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”.
Os Bispos também reprovam as ações que atentam contra a democracia, perpetradas pelo governo e assistidas por todos os brasileiros: Os ataques às instituições, que geraram grave instabilidade institucional, fato inédito na história da República brasileira. Outros expedientes condenáveis pela moral católica e pelo bom senso das pessoas são denunciados pelos Bispos: flexibilização das leis de trânsito; uso de armas de fogo pela população; recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas (fake news).
Também denunciam o “desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia”, que os estarrece. Citam ações praticadas pelo governo federal que explicitam este desprezo em cada um desses âmbitos. No aspecto econômico, os Bispos denunciam o Ministro da Economia, que “desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem”. Falam da recessão que ameaça o país, gerando desemprego e fome.
De forma contundente, denunciam a “omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que sobrevive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel”. Citam o descaso do governo quanto à situação dos povos indígenas, que, “dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020)”.
Os Bispos também denunciam a manipulação religiosa por parte do governo, que se utiliza da religião “para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes”. Essa manipulação acontece porque assiste-se à “associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário”. Não é novidade para ninguém que o presidente é amigo pessoal de muitos pastores de Igrejas ditas evangélicas, e que sempre busca favorecê-las. Curiosamente, o presidente se diz cristão, mas frequenta inúmeras Igrejas.
Chegando ao final da Carta, os Bispos convidam ao respeito à pluralidade. Como não basta denunciar, mas é necessário propor; então, eles propõem “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos”.
A Carta é finalizada com um convite: “Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12)”, e com a bênção sacerdotal do livro de Números, capítulo 6, versículos 24 a 26.

2. As reações à Carta
            As reações à Carta foram imediatas. Fora da Igreja católica, foi bem recebida pelos intelectuais comprometidos com as necessárias transformações que beneficiam os mais pobres. Esses intelectuais não são necessariamente de esquerda, mas são ativistas engajados em questões políticas e sociais, sem paixões partidárias. Também os membros dos partidos de esquerda se identificaram com as denúncias feitas na Carta. O mesmo se pode falar, certamente, dos movimentos sociais que lutam com os menos favorecidos.
            A elite econômica e todos aqueles que se beneficiam das ações contrárias ao bem comum, praticadas pelo governo federal, certamente não gostaram da Carta. Pessoas e grupos ligados ao governo devem ter se sentido confrontados, porque se beneficiam de um governo que não governa para todos. Também não deve ter gostado da Carta os pastores das Igrejas ditas evangélicas, que fazem propaganda do governo em suas Igrejas, em troca de favores. Não preciso citar nomes, porque já são bastante conhecidos.
            Os eleitores não arrependidos do presidente Bolsonaro, principalmente os mais fanáticos, odiaram a Carta. Muitos deles estão vociferando seu ódio nas redes sociais. É algo estarrecedor. Utilizam-se de palavrões e expressões ofensivas. São, de fato, fanáticos.
Dominados pelo ódio e pela total ausência de reflexão, dedicam-se a defender o presidente da República. Calúnia, difamação e muitas notícias falsas aparecem como um oceano infinito. As redes sociais se transformaram num palco de exposição do que há de mais vergonhoso no ser humano. E para piorar, muitos agem em nome de Deus e da religião cristã. Não aceitam críticas, nem estão abertos ao diálogo; são violentos e intolerantes; desconhecem Jesus e sua mensagem de justiça e paz.
 No seio da Igreja católica, as reações à Carta também apareceram. Os católicos tradicionalistas, que são mais fechados e possuem mentalidade de cristandade, odiaram a Carta. Eles também ocupam as redes sociais, sites, blogs e canais no YouTube para julgar e condenar a iniciativa dos Bispos, que são acusados de serem comunistas e petistas. No mundo da ignorância e da intolerância, discordar do atual governo é coisa de comunista e petista. Quem é contrário ao governo é, necessariamente, comunista e petista. O mesmo se diga dos críticos dos governos petistas, que também são taxados de fascistas e bolsonaristas. Trata-se de uma visão míope, reducionista e infundada.
Salvo exceções, os católicos tradicionalistas são eleitores do presidente Jair Bolsonaro. Há os que não são tradicionalistas, mas se reconhecem como conservadores, tanto clérigos quanto leigos, que também são eleitores convictos do presidente. Pelas reações de muitos nas redes sociais, também não gostaram da Carta. Alguns se utilizam das mesmas expressões dos tradicionalistas radicais, verdadeiros “talibãs católicos”. Outros não são tão violentos, mas se declaram explicitamente contrários aos Bispos, por considerarem a política um tema que não deve ser abordado na Igreja católica. Muitos acreditam que os problemas sociais e políticos são “coisas do mundo”, e que a Igreja não deve se ocupar com tais coisas.
Esses católicos parecem ignorar o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja. Também confundem política com partido político. A maioria desconhece o verdadeiro significado terminológico, sociológico, filosófico e histórico da palavra comunismo. Muitas publicações nas redes sociais revelam a ausência de argumentos minimamente razoáveis.
Há uma infinita repetição de frases de efeito, pensamentos sem lógica, notícias falsas e dados supostamente históricos, que cientificamente não se sustentam. Falta muita leitura, interpretação de texto, conhecimento histórico e senso crítico. Os tradicionalistas confundem Tradição (com “t” maiúsculo) com tradição. E quando se referem à Tradição, mostram que não a conhecem. Trata-se de uma confusão proposital e interminável, uma violência que divide a Igreja e envergonha o cristianismo perante o mundo.
Alguns dizem que a Carta não goza de legitimidade porque seus signatários não integram a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e, por isso, não poderiam falar em nome da Igreja. Sobre esse ponto, é preciso considerar três aspectos: 1) Cada Bispo é autônomo para falar em nome da Igreja, por ser sucessor dos Apóstolos, Pastor da Igreja, mestre da doutrina, sacerdote do culto e ministro de governo eclesiástico (cf. o cânon 375, §1 do Código de Direito Canônico), portanto, possui plena autonomia para se manifestar sobre qualquer assunto, especialmente acerca de questões que ferem a dignidade da pessoa humana; 2) Cada Bispo é livre para pensar, bem como para agir conforme a sua consciência. A Conferência Episcopal não é formada por Bispos que pensam e agem da mesma forma. Não existe nem deve existir pensamento uniforme na Igreja. A pluralidade de ideias e posturas é necessária e saudável, e não fere a colegialidade episcopal; 3) A legitimidade das manifestações está relacionada não somente ao poder que o Batismo confere a todo cristão, mas sobretudo ao testemunho que todos os batizados manifestam ao se interessar pelos problemas do mundo, tendo em vista solucioná-los à luz do Evangelho de Jesus.
Cada Bispo, padre, diácono e todos os demais fiéis devem procurar viver o Evangelho, e tal vivência acontece em meio aos conflitos que ocorrem na sociedade. Não se vive o Evangelho nas sacristias das igrejas, mas no meio do mundo, porque as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Gaudium et Spes – constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual, n. 1).
Por isso, parabenizo a iniciativa e a coragem dos Bispos que escreveram e assinaram a Carta. A situação social e política do país não pode ser ignorada. Cabe à Igreja profetizar. Uma Igreja sem profecia não serve ao Reino de Deus. Apesar dos riscos inerentes à profecia, é necessário obedecer ao que Deus manda. O mandato missionário de Jesus é claro e precisa ser cumprido. Não se deve pecar por omissão.
No juízo final, Jesus julgará pelo que se fez aos pobres e pequeninos (cf. Mt 25,31-45), ou seja, o amor será o critério do julgamento. Não é a defesa ferrenha da doutrina, da moral e dos bons costumes que salva, mas o anúncio de Jesus Cristo que acontece na prática da caridade. A doutrina, a moral e os bons costumes devem convergir para Cristo; do contrário, transformam-se em empecilhos na caminhada para Deus.
Em síntese, é o que penso sobre a Carta ao Povo de Deus, que muito me alegrou, por saber que a Igreja não é indiferente ao que se passa com o sofrido povo brasileiro. É preciso avançar para as águas mais profundas, sem medo das tempestades. Cristo Jesus está na embarcação, decidido a permanecer nela até o fim dos tempos.

Tiago de França

domingo, 26 de julho de 2020

O essencial e o supérfluo


“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44).
            As pessoas podem passar toda a vida se ocupando com o essencial, ou com o supérfluo. No cristianismo, o essencial é Jesus. Este Reino dos Céus de que fala o evangelista Mateus é o próprio Cristo. Como diria Orígenes, Jesus é o Reino de Deus em pessoa (autobasileia). A parábola fala de um tesouro escondido, e o que está escondido precisa ser descoberto. Jesus precisa ser descoberto. É possível que muitos cristãos passem a vida toda invocando o nome de Jesus sem descobri-lo na vida.
            A descoberta de Jesus passa, necessariamente, pela experiência da proximidade. É necessário se aproximar dele, na liturgia, nos sacramentos e na vida cotidiana. Ele está nas Escrituras, na Eucaristia e nos demais sacramentos. Estes são sinais que manifestam a sua presença. Mas esses sinais não estão desligados da vida cotidiana. Assim, quando criamos laços de fraternidade com as pessoas, então estamos vivendo essa proximidade com Jesus. As pessoas são sacramentos de sua presença.
            A parábola diz que o homem encontra o tesouro e é tomado por uma grande alegria. Encontrar-se com Jesus é conhecer e experimentar a verdadeira alegria da vida. Não se trata de uma alegria ingênua, nem passageira, mas daquela que transforma interiormente a pessoa, tornando-a leve e disposta para enfrentar os dilemas da vida. O evangelho de Mateus foi escrito para uma comunidade que enfrentava tribulações. A vida é cheia de tribulações, e exige que o discípulo de Jesus seja alguém cheio da sua alegria.
            Mas não bastou ao homem da parábola somente ficar alegre. Ele tomou a firme decisão de vender todos os seus bens para comprar o campo, onde estava o tesouro. Agindo assim, reconheceu o valor do tesouro escondido e se empenhou em tê-lo para si. Essa atitude nos faz pensar a respeito da nossa busca e interesse por Jesus, única riqueza da vida do cristão. O que estamos fazendo para permanecer com Jesus? Será que estamos deixando Jesus de lado para nos dedicar a outras coisas que julgamos mais importantes?
            No seio de nossas Igrejas há a grande tentação de se marginalizar Jesus. Muitas vezes, a procura é por outras coisas. Em nome de Jesus, muitas coisas erradas são feitas e ditas. Em nome dele, muitos procuram dinheiro, sucesso, poder, status etc. Pronuncia-se o nome de Jesus para legitimar interesses mesquinhos e mundanos. Assim, cria-se um cristianismo das aparências, da estética bem trabalhada, do discurso vazio e de práticas indignas do cristão. Usando uma expressão do Papa Francisco, vive-se o mundanismo espiritual.
            Esse mundanismo espiritual se manifesta naquelas situações em que somente encontramos superficialidades. O materialismo e a vaidade tentam se esconder por trás de rostos angelicais e de aparência de santidade. Cria-se um ambiente fervorosamente religioso, mas sem caridade com o próximo. A malícia se esconde por trás das invocações incessantes do nome de Deus. O cristianismo atual está sofrendo muito desse tipo de enfermidade.
O mundanismo espiritual é a manifestação mais evidente do que podemos chamar de corrupção religiosa. A religião não foi criada com este propósito. Jesus foi muito severo com esse tipo de procedimento, ao reprovar a conduta dos mestres da lei e fariseus, que usavam do aparato religioso para se apresentar como homens santos, bem como para explorar os mais simples do povo de Deus. O mundanismo espiritual revela a religiosidade que não liga o homem a Deus, mas o desvia do caminho que conduz a Deus.
Quando apontamos para a lua, o mais importante não é o dedo que aponta, mas a beleza da lua que precisa ser contemplada. O mesmo deve ocorrer na vida cristã, quando apontamos para Jesus, o mais importante é Jesus. Do contrário, quando se utiliza do aparato religioso (vestes, rituais, sacramentos e sacramentais, símbolos em geral, doutrina etc.) para que brilhe a pessoa que aponta e não o próprio Cristo, então temos um problema que merece reflexão e solução. É Jesus o centro da vida eclesial e cristã.
Tudo o que atrapalha o cristão na sua caminhada para Deus é desvio. Tudo o que ofusca Jesus na vida da Igreja é supérfluo e precisa ser reprovado e deixado de lado. Jesus é a Luz que não pode ser ofuscada. Na vida cristã é preciso ver o que é essencial e o que é supérfluo. No centro da vida da Igreja não está Maria, os santos, os anjos, a doutrina, a hierarquia eclesiástica, a pomposidade das cerimônias, o dízimo, as grandes edificações, entre tantas outras coisas. Nada disso. No centro da vida da Igreja está Jesus Cristo, Senhor e Salvador. Tudo deve convergir para Ele.
E antes que o leitor pense que Maria, os santos, os anjos, a doutrina, a hierarquia, o dízimo, as edificações etc. não são importantes, afirmo que são. Mas nada deve ocupar o lugar de Jesus. Insisto nisso porque temos assistido a certa multiplicação de práticas e usos no seio das Igrejas cristãs que tendem a tirar Jesus do centro. Isso é muito grave e perigoso. Se ao olharem para um cristão, as pessoas não enxergarem nada que as façam lembrar de Jesus, então temos um estilo de vida desse cristão é equivocado. A doutrina cristã é clara: O cristão deve refletir Cristo.
A caridade, a fé, a esperança, a sobriedade, a moderação, o cuidado, o respeito, a tolerância, a humildade, a mansidão, o despojamento e tantos outros valores integram o essencial. São valores que revelam que o essencial ocupa o centro da vida. A cultura da aparência e o apego ao que é transitório explicitam o supérfluo que prende a aliena. O seguimento de Jesus não é uma experiência superficial, mas adesão que transforma radicalmente a vida do discípulo; não é algo passageiro, mas que permanece.
É necessário procurar Jesus para ter a vida nele. Quem o encontra, tem a segurança necessária para viver e ser feliz. Entregar-se a Ele é a melhor escolha. É um caminho que vale a pena, pois é caminho de plenitude e paz.
Para tornar-se verdadeiramente humano, o cristão precisa colocar Jesus no centro de sua vida. Ele é a rocha e a seiva, o caminho e a porta, a bússola, o Pastor e a salvação. Por Ele somos justificados diante de Deus. Seu amor nos envolve e nos torna justos. Se estamos a Ele ligados, então não precisamos ter medo, mas podemos caminhar com passos firmes e orientados pela sua voz. Assim, a vida do discípulo se torna uma bela e gratificante aventura de amor. Quem não se aventura com Cristo, não conhece nada disso.

Tiago de França

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Os cristãos e a política



“Fazer política inspirada no Evangelho a partir do povo em movimento pode se tornar uma maneira poderosa de sanar nossas frágeis democracias e de abrir o espaço para reinventar novas instâncias representativas de origem popular”.
(Papa Francisco, audiência com os participantes de um Programa de pós-graduação em Doutrina Social da Igreja, no Vaticano, em março de 2019).

            O fenômeno da polarização política despertou, especialmente nas redes sociais, a discussão sobre o envolvimento dos cristãos com a política. Esta polarização não é um fenômeno recente, mas algo que sempre fez parte dos regimes democráticos. De uns tempos para cá, tem se intensificado e, assim, tornou-se mais violenta. A política brasileira ficou reduzida ao embate entre direita e esquerda. O que não se encontra neste antagonismo aparece como estanho e confuso. A oposição entre direita e esquerda, dirá N. Bobbio, é uma realidade antitética, ou seja, oposição necessária: uma depende da outra para subsistir (cf. o livro de N. Bobbio:  Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política).

Política e politicagem
            Antes da efervescência das redes sociais, de modo geral, o brasileiro não tinha interesse por questões políticas. Os mais simples sempre dizem que a política é coisa de “homem sabido”. Os políticos sempre se apresentaram como uma casta superior, que goza de inúmeros privilégios. Quanto mais alto o posto, mais privilégios são assegurados. O gasto público para a manutenção do aparato institucional é imenso. As regalias são escandalosas, mas, curiosamente, não são extintas. A maioria das pessoas já não se importa mais.
            A verdadeira política não tem nenhuma ligação com privilégios. Geralmente, as pessoas ignoram o sentido e o alcance da política, mesmo arcando com as consequências da ausência da boa política. Há muita politicagem e pouca política. A polarização é a política em seu estado extremado e nocivo; é a manifestação mais evidente da crise política que assola o país. Mas há quem se beneficie da situação, aproveitando-se do estado de cegueira provocado pelos radicalismos apaixonados. Enquanto as pessoas se digladiam nas bases da sociedade, os mais espertos assaltam os cofres públicos.
            Esta polarização vai além da oposição entre siglas partidárias. Na verdade, o núcleo da questão se encontra nos projetos de poder subjacentes às disputas políticas. Cada grupo político tem seu projeto de poder, que aparece claramente tanto nos discursos quanto na forma de governar. Qualquer pessoa atenta ao que acontece, é capaz de enxergar para qual direção cada governante conduz a cidade, o estado e o país. O problema é esta atenção ao que está acontecendo. O brasileiro apanha e não sabe quem deu surra!

Generalização e demonização
            No regime democrático não existe sistema representativo sem os partidos políticos (cf. o art. 1º da Lei 9.096/95, que dispõe sobre os partidos políticos). Com a polarização política surge também outros dois fenômenos congêneres, que revelam a falta de formação política da maioria da população brasileira: a generalização e a demonização de pessoas e instituições.
Toda generalização revela a falta de análise da realidade e, portanto, é insustentável e equivocada. “Maria cometeu adultério, logo todas as mulheres são adúlteras”; “O prefeito José desviou o dinheiro da merenda escolar, logo todos os prefeitos são ladrões”; “O padre Anastácio desviou o dinheiro do dízimo, logo todos os padres são ladrões”; “O casamento de Joaquim não deu certo, logo não existe felicidade no casamento”. Estes e tantos outros exemplos servem para ilustrar que, racionalmente, a generalização não tem sentido. Defender ideias oriundas de generalizações é atitude de pessoa pouco inteligente.
A generalização contribui para a demonização de pessoas e instituições. A ideia de que tudo está perdido é muito perigosa. Parte-se do princípio de que não adianta ser honesto, nem que se deva trabalhar por uma sociedade justa e fraterna. A demonização maximaliza o mal, semeando o desespero nas pessoas. O medo e a angústia também tomam conta da sociedade, e esta é levada a crer que não há futuro promissor. Tudo está fadado ao fracasso. Prega-se o caos generalizado de todas as coisas.

O joio e o trigo na política
Por mais caótica que seja uma situação, há sempre caminhos possíveis de saída do caos. Segundo uma comparação usada por Jesus de Nazaré, o joio e o trigo estão misturados, e crescem juntos até o dia da colheita (cf. Mt 13,24-30). Existe o joio, que é a erva daninha, mas também existe o trigo, que gera abundância. Na política, o joio é a corrupção, que sempre existiu na humanidade. Todas as sociedades são marcadas pela corrupção. Em todos os setores da sociedade é possível encontrá-la. É ilusão pensar que em algum país do mundo não exista uma parcela de gente que se aproveita da ingenuidade e da desinformação para tirar proveito, agindo ilicitamente.
No Brasil, desde o famoso escândalo do “mensalão”, em 2005, até os dias atuais, os brasileiros tomaram conhecimento de inúmeros ilícitos cometidos por agentes públicos em conluio com empresários. Curiosamente, fala-se muito em corrupção no Estado, e praticamente nada sobre a corrupção na iniciativa privada. Esta é exaltada como se fosse a via de salvação do país. Tudo o que é público passou a ser visto como algo ruim. Os ingênuos e desinformados pensam que a salvação está na entrega do que é público nas mãos da iniciativa privada. Por incrível que pareça, ainda não pararam para pensar no significado da expressão iniciativa privada. O que é público visa o bem comum; o que é privado visa o enriquecimento do empresário ou do grupo empresarial.

O poder da mídia e das redes sociais
Por mais degenerada que seja a política, é preciso considerar que nela há pessoas honestas. E por que muita gente duvida disso? Entre os vários motivos, dois podem ser elencados: Primeiro, porque a mídia não fala dos perfis e trabalhos de pessoas honestas. A mídia vive das más notícias. A repetição sensacionalista e diuturna dos desvios passa a impressão de que tudo está perdido, e que todos os políticos são corruptos. Segundo, porque são poucos os que se informam sobre o que acontece na política nacional. A maioria absorve, sem nenhuma filtragem, as informações veiculadas nos jornais televisivos, nos sites de notícias na Internet e nas mensagens que recebem pelas redes sociais.
Com a explosão das fake news (notícias falsas), a situação piorou. A Justiça Eleitoral não agiu com firmeza nas eleições de 2018, que foram contaminadas por uma onda gigante de notícias falsas veiculadas nas redes sociais, principalmente no Facebook, Instagram e WhatsApp. Somente agora estão descobrindo que existe uma rede criminosa e organizada de produção de notícias falsas. Infelizmente, a instituição escolar não trabalha a política em sala de aula. O assunto não é trabalhado como deveria, e os estudantes concluem a educação básica sem o conhecimento das noções mínimas de democracia, cidadania, regime democrático, políticas públicas, política, direitos humanos e garantias fundamentais etc.
A carência de informação e formação política abre espaço para a proliferação de notícias falsas e escolhas erradas. Pessoas mal informadas, ou desinformadas não conseguem fazer boas escolhas. Toda escolha é, por natureza, política. Todas as escolhas provocam transformações na sociedade.

Homem: animal político
O ser humano é político em tudo o que faz e planeja fazer: ao escolher o alimento, a profissão, o vestuário, a religião, a moradia, os amigos, o (a) companheiro (a) para viver, ter ou não filhos, votar ou não votar etc. Até aqueles que decidem sobreviver sem fazer praticamente nada na vida, também fazem uma escolha que pode ser denominada de omissão política.
Quem nada faz de sua vida não colabora com o próprio crescimento, nem com o desenvolvimento da sociedade. Os gregos diziam que o homem é um zoon politikon (animal político) inserido na pólis (cidade), e enquanto tal, é chamado a participar das discussões sobre os destinos da cidade. A filósofa Hannah Arendht, ao pensar o conceito de vida ativa, defendia que toda pessoa deve se empenhar em fazer algo, pois a ação pertence essencialmente ao homem (cf. o livro A condição humana, de H. Arendt). Participar das discussões sobre os destinos da cidade e agir para construir um mundo mais justo e fraterno são atitudes essencialmente políticas.
O leitor já deve ter percebido que a política vai além dos partidos políticos, que existem para aqueles que se candidatam e, assim, submetem-se ao poder que o povo tem de escolher seus representantes: “O poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (parágrafo único do art. 1º da Constituição da República de 1988). A formação política é a ferramenta indispensável para levar as pessoas a conhecerem o significado e o alcance deste poder popular. Sem formação, o povo continuará sendo vítima, em primeiro lugar, da própria ignorância. Os maus políticos enganam somente os desinformados e desprovidos de espírito crítico.

A fé cristã e a política
O que diz a fé cristã sobre a política? Os evangelhos não mostram um Cristo metido em questões políticas, no sentido partidarista da palavra. Ele não participou de nenhum movimento político que visava derrubar o império romano. Deus não o enviou com essa missão. Mas é verdade que o encontramos numa posição contrária à exploração a que o povo estava submetido. Ao repreender a ambição de alguns de seus discípulos, diz Jesus: “Sabeis que os que são considerados chefes das nações, as dominam, e os seus grandes impõem sua autoridade. Entre vós não seja assim. Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10,42-44).
Aqui está o fundamento da política na ótica cristã: “... seja aquele vos serve...” Jesus ensina que a autoridade legítima é aquela que serve aos mais vulneráveis. Na Igreja católica, assim como em todas as instituições, há relações de poder. Diáconos, presbíteros e bispos compõem a hierarquia eclesiástica. A autoridade exercida por cada um destes somente é legítima se for pautada no serviço ao próximo.
Neste sentido, analógica e hipoteticamente, podemos dizer que há a autoridade de direito, constituída a partir do momento em que se confere um dos três graus do sacramento da Ordem (momento da ordenação), e a autoridade de fato, que é exercida no cotidiano da vida eclesial. Quando se apresenta e age como servidor, a autoridade é plena e legítima. Do contrário, vislumbra-se um dos fatores geradores de uma crise de autoridade.
A Igreja católica, a partir da mensagem de Jesus, compreende a política como serviço ao bem comum. Conforme a citação que introduz este artigo, o cristão é chamado a fazer política “inspirada no Evangelho”, que significa fazer política conforme os valores evangélicos: solidariedade, honestidade, transparência, justiça, verdade etc. O Papa São Paulo VI dizia que a política é a forma mais sublime de caridade, explicando, assim, a importância da política na vida cristã. Portanto, não é possível separar vida cristã e política, bem como fé cristã e política. Esta é uma das formas de expressão da fé em Jesus Cristo, quando inspirada no Evangelho.
A Doutrina Social da Igreja (DSI), conjunto de ensinamentos sobre a dignidade da pessoa humana e a promoção do bem comum na sociedade, ressalta a importância da política. A construção responsável da sociedade depende da política. Os cristãos vivem no mundo, portanto, devem colaborar na construção da sociedade. Essa colaboração deve ser pautada nos valores do Evangelho.
Quais seriam as implicações da DSI, que revelam o papel do cristão na construção da nova humanidade? “A doutrina social implica, outrossim, responsabilidades referentes à construção, à organização e ao funcionamento da sociedade: obrigações políticas, econômicas, administrativas, vale dizer, de natureza secular, que pertencem aos fiéis leigos, não aos sacerdotes e aos religiosos. Tais responsabilidades competem aos leigos de modo peculiar, em razão da condição secular do seu estado de vida e da índole secular da sua vocação: mediante essas responsabilidades, os leigos põem em prática o ensinamento social e cumprem a sua missão secular da Igreja” (Compêndio da DSI, n. 83).
Neste artigo, não quero entrar na questão canônica e magisterial que trata da proibição de sacerdotes e religiosos em atividades político-partidárias, pois é um assunto a ser tratado noutro artigo, dada a necessidade de se analisar o direito canônico, as orientações do magistério dos Papas e dos Bispos e as circunstâncias que explicitam, direta ou indiretamente, as intenções políticas. Em sua doutrina social, a Igreja católica expressa claramente que a política é campo de atuação para cristãos conscientes, livres e íntegros. Sem essas três qualidades não há bons políticos, nem democracia para todos.
A DSI tem duplo objetivo: religioso e moral. Religioso, “porque a missão evangelizadora e salvífica da Igreja abraça o homem ‘na plena verdade da sua existência, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunitário e social’”, e moral, “porque a Igreja visa a um ‘humanismo total’, vale dizer à ‘libertação de tudo aquilo que oprime o homem’ e ao ‘desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens’” (Compêndio da DSI, n. 82). Portanto, através da política cada cristão participa desta missão da Igreja no mundo: Ajudar na libertação de tudo o que oprime o homem, promovendo seu desenvolvimento integral.
Com a explosão de espiritualidades desencarnadas no seio do cristianismo atual, marcadas por um espiritualismo desenfreado, que leva as pessoas a uma espécie de fuga do mundo, o tema da libertação integral passou a ser rotulado como “coisa de comunista”. No seio da Igreja há até aqueles que propagam a falsa ideia de que a DSI também é “coisa de comunista”. Os que assim se expressam, talvez não tenham sequer lido o Compêndio da DSI, bem como desconhecem que esta integra o Magistério da Igreja. Noutra oportunidade seria oportuno discorrer, de forma mais demorada, sobre a leitura, compreensão e aceitação seletiva que muitos católicos fazem do Magistério da Igreja. É um fenômeno preocupante, que atenta contra a comunhão eclesial.
O Catecismo da Igreja Católica também confirma a DSI: “Não compete aos pastores da Igreja intervir diretamente na construção política e na organização da vida social. Este papel faz parte da vocação dos fiéis leigos, agindo por sua própria iniciativa juntamente com os seus concidadãos. A ação social pode implicar uma pluralidade de caminhos concretos; mas deverá ter sempre em vista o bem comum e conformar-se a mensagem evangélica e o ensinamento da Igreja. Compete aos fiéis leigos ‘animar as realidades temporais com o seu compromisso cristão, comportando-se nelas como artífices da paz e da justiça’” (Catecismo, n. 2442).
O bem comum deve estar no centro da atividade política. Esta “ação social” a que se refere o Catecismo é o agir político na sociedade. Portadora do Evangelho de Jesus Cristo, a Igreja precisa fazer a mesma opção feita por ele, porque Deus o ungiu para evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18). Cabe à Igreja cultivar o amor aos pobres, porque são os mais vulneráveis da sociedade.
Eis o que continua dizendo o Catecismo da Igreja: “O amor da Igreja pelos pobres [...] faz parte da sua constante tradição’. Esse amor inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças, na pobreza de Jesus e na sua atenção aos pobres. O amor dos pobres é mesmo um dos motivos do dever de trabalhar: para ‘poder fazer o bem, socorrendo os necessitados’. E não se estende somente à pobreza material, mas também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa” (Catecismo, n. 2444). Por que será que os que desprezam a opção pelos pobres na Igreja não consideram estas palavras do Catecismo promulgado pelo Papa São João Paulo II? A pergunta fica para o leitor refletir.
Portanto, os que dizem ser a opção pelos pobres na Igreja “coisa de comunista”, desconhece, ou se opõe conscientemente ao Evangelho, ao Magistério e à Tradição da Igreja. Neste sentido, não é nenhum exagero afirmar que não é católico quem se opõe a esses três fundamentos da fé católica.
Também não constitui exagero a afirmação de que a política integra a caminhada cristã e eclesial neste mundo, e que cabe ao cristão o exercício da política como forma suprema de caridade. Nos regimes democráticos, o cristão não pode recusar-se a exercer a sua cidadania, sob pena de arcar com as consequências de um pecado social gravíssimo. Na política, peca-se por ação, ou omissão. Quem se recusa a participar das discussões e ações que traçam os destinos do país, peca gravemente. Essa omissão reflete na vida social, prejudicando a coletividade.

Crise política e reforma
O Brasil está mergulhado numa grave crise política. Os atores que a promovem tentam, de todas as formas, apresentar a realidade como normal e até necessária à democracia. É um equívoco. Para crescer, a democracia não precisa ser submetida a crises políticas. Estas tendem a destruí-la. Por isso a urgência em sanar a crise, antes que cause estragos piores. Mas como o ser humano aprendeu a se beneficiar até das situações mais desastrosas, há quem esteja se beneficiando da crise. Podemos dizer que são os “urubus da democracia”, que vivem da carnificina social. Para estes, quanto pior, melhor.
Desde os tempos coloniais, os maus políticos fazem parte da República brasileira. Sempre aparecem, são escolhidos e eleitos. São o produto da massificação social. As pessoas são moldadas para agir de forma massificada, ou seja, controlada. O aparato midiático é a grande ferramenta de massificação. As pessoas vão sobrevivendo do jeito que podem, com as migalhas que caem das mesas dos patrões. Estes ficam com as riquezas, concentradamente, e as demais pessoas vão se virando. Neste clima de desespero, os oportunistas são populistas, e sabem se aproveitar da fragilidade emocional e material do povo desassistido. Surgem os falsos profetas e os falsos messias.
Os maus políticos são eleitos, e isso merece reflexão. Eles conseguem enganar seus eleitores. Estes deveriam refletir. Mas, muitas vezes, o que ocorre é que muitos eleitores sequer se recordam em quem votaram. O atual cenário político brasileiro é uma prova incontestável de que a política precisa ser levada a sério; do contrário, tudo tende a piorar. Muita gente já percebeu que praticamente tudo depende da política: os preços dos alimentos, vestuário, combustível, mensalidade escolar, gás, luz, água, medicamentos etc. Do alcance da política ninguém escapa.
O Brasil carece de uma reforma política para transformar a política em instrumento de promoção do bem comum. Mas esta reforma deve contar com a participação do povo. Não adianta esperar que a classe política realize a reforma, porque a maioria dos políticos não está interessada. A falta de consciência política por parte de muita gente faz com que a situação permaneça caótica. Consciência política gera organização popular, que faz surgir o interesse em transformar a política em ferramenta fundamental para a transformação da democracia.
Impulsionada pelo Evangelho e por sua doutrina social, cabe à Igreja contribuir para que essa reforma aconteça. Até que aconteça, é importante promover a formação política dos leigos, para que sejam agentes de transformação da sociedade, cumprindo, assim, a sua vocação política. Sem exercer a sua missão no mundo, o cristão se transforma em um ser alienado, vivendo em uma espécie de mundo ilusório e/ou paralelo.
O testemunho missionário de Jesus Cristo é um convite permanente para a itinerância e o engajamento social e político. No sermão da montanha o seu ensinamento é claro: Toda pessoa que deseja segui-lo é chamada a ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-16), ou seja, o discípulo missionário de Jesus pensa e age como ele, praticando a justiça do Reino de Deus, única capaz de tornar este mundo mais justo e fraterno.
Sem isso, o cristianismo não passa de um aglomerado de pessoas dedicadas à realização de ritos e cultos, desligadas da realidade do mundo. É desse tipo de cristianismo que os maus políticos gostam. Nas mãos deles, é mais uma ferramenta para promover a alienação. É algo nocivo à democracia e ao desenvolvimento do país. É tudo muito claro, para todo mundo ver. Mas como toda realidade terrena é transitória, espera-se que tal situação encontre o seu devido lugar no tempo e na história.

Tiago de França

Obs: A imagem que acompanha este artigo é meramente ilustrativa/reprodução.