quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A segunda condenação do ex-presidente Lula


Saiu a segunda condenação do ex-presidente Lula. Já era esperada, pois na chamada "república de Curitiba", o ex-presidente é considerado, de antemão, um criminoso. Quando, previamente, há esta consideração, não adianta o trabalho da defesa. Permite-se a atuação da defesa somente para constar nos autos. Do contrário, o processo sofreria de nulidade.

Não há exagero nesta constatação. O que há de igual ou semelhante nas sentenças do ex-juiz Moro e da atual juíza do caso? Entre outros absurdos, existe a desconsideração dos elementos trazidos pela defesa aos autos do processo. Tudo o que a defesa trouxe aos autos foi simplesmente ignorado. Quando há o propósito de condenação é possível ignorar citando. É um modo inteligente de dizer que tudo foi visto e levado em conta. Mas a condenação mostra tudo.

O ex-presidente não é dono do sítio. Parece que neste ponto a juíza está de acordo. Então, qual o problema? O ex-presidente cometeu dois erros: primeiro, era amigo do dono. Isto não é crime, mas a sentença considerou como elemento coadjuvante da ação delituosa. Segundo, frequentou o sítio do amigo dono do sítio. Como a amizade era de longa data, e se tratava de uma figura ilustre ("o cara", como disse o Barack Obama, dos EUA), o dono do sítio deixou o amigo a vontade para visitar e usar o imóvel. A juíza viu nisso, acompanhando a acusação fantasiosa do MP, indícios de crime.

Mas o mais interessante são outros dois aspectos que, futuramente, farão o STJ e STF rever a condenação, se quiserem fazer justiça: a competência do juízo e a ausência de provas no que se refere ao benefício que o presidente teria recebido, sem ser o dono do imóvel, da empresa que fez as abençoadas reformas e/ou melhoramentos. Competência, no sentido jurídico-processual do termo, resolve a seguinte pergunta: Quem deveria julgar o processo? O sítio não está no Paraná. Por que, então, o processo foi instaurado lá? Qual a ligação do sítio com os desvios da Petrobras? O MP imaginou, não provou, e o juiz, que hoje é ministro de governo, se considerou competente para julgar. Parece uma clara eleição de juízo. O que a lei diz não parece ter importância.

Quem não tem noção de processo penal desconfia, e quem estudou esta matéria fica escandalizado. Mas, se analisarmos várias decisões prolatadas por inúmeros juízes no Brasil, veremos que o fato de ignorar a lei para julgar conforme anseios pessoais, grupais e populares virou moda. Em muitos casos, vale o que o juiz pensa, e não o que diz a lei e as provas dos autos.

Enquanto isso, onde está Michel Temer? E a situação do Aécio Neves, como fica? Quem matou Marielle Franco? E o Beto Richa, por que já está em sua confortável residência? E o pessoal da máfia dos ônibus coletivos do RJ? O que estão fazendo para dar um basta nos milicianos que atuam no RJ? E o Queiroz com o filho do Bolsonaro? Todos esperando o tempo passar, para gozar dos benefícios do esquecimento e da prescrição.

Mas as altas autoridades da República, nos três poderes, dizem: "As instituições estão em pleno funcionamento. Vivemos numa democracia plena". Mas estão funcionando para quem? Que tipo de democracia temos? Até quando está situação vai perdurar? Por que as pessoas não se rebelam?

Tiago de França

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A força do poder econômico


         O ocorrido em Brumadinho revela a força do poder econômico que atua no Brasil. Não há mistério, tudo é muito claro. Qual a forma de captação do Estado adotada pelo poder econômico? Antes de irmos ao núcleo da resposta a esta pergunta, precisamos entender a expressão poder econômico. Este poder é constituído por grandes e médias corporações empresariais. A Vale é uma das empresas que fazem parte do grupo das grandes empresas que formam o poder econômico no Brasil. O governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a vendeu a preço de banana. Hoje, é uma das maiores empresas do setor de mineração, presente em dezenas de países, cujos lucros poderiam, hoje, ser do povo brasileiro.

            O que as empresas buscam em seus negócios? Buscam o lucro. Não existe empresa sem aquisição de lucro. Quem não lucra, quebra. Para que não haja lucro a qualquer custo, o Estado existe para regulamentar as atividades empresariais. Sem regulamentação, as empresas não respeitam o meio ambiente nem a dignidade da pessoa humana. Como impedir o Estado de legislar rigidamente sobre a proteção do meio ambiente e a promoção da dignidade humana? Basta controlar a atividade legislativa. Onde se criam as leis? Nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas estatuais, na Câmara dos deputados e no Senado Federal. O controle do Poder Legislativo ocorre através do financiamento privado de campanhas eleitorais.

            Com o evento trágico de Brumadinho, esta façanha política se revelou: mineradoras financiam campanhas eleitorais de deputados estaduais e federais para que os parlamentares financiados possam legislar no interesse das mineradoras. Em outras palavras: as empresas praticamente compram a atividade parlamentar dos deputados. Por que isto não é ilegal? Porque a lei não proíbe este tipo de aberração. É tudo explícito. Falta uma reforma política que proíba este tipo de prática, que deveria ser considerada criminosa. Em princípio, os parlamentares deveriam trabalhar pela promoção do bem comum. Mas o que ocorre é que o bem comum é ignorado, e os parlamentares atuam para atender às demandas do poder econômico.

            As últimas eleições gerais indicaram que as empresas não procuram somente assegurar o apoio e a proteção do Legislativo, mas também financiam as campanhas eleitorais de chefes do Executivo: prefeitos, governadores e presidente da República. Ficou explícito o apoio de grandes empresários à candidatura do atual presidente da República. Por que tantos empresários o apoiaram? Na campanha a mentira que contaram foi a seguinte: “Apoiamos Bolsonaro porque queremos contribuir com o desenvolvimento do Brasil!” E o candidato até hoje repete a frase de efeito, que manifesta claramente a sua opção pelo empresário em prejuízo do trabalhador: “Vamos tirar o Estado das costas dos empresários e de todos aqueles que querem produzir!”

            Tirar o Estado das costas dos empresários significa, dentre outras coisas: flexibilizar a fiscalização, abolindo multas e perdoando dívidas; oferecer incentivos, reduções e subsídios fiscais às grandes empresas; reduzir as contribuições das empresas ao Estado, para que a folha de pagamento fique menos onerosa; aperfeiçoar a Reforma Trabalhista, abolindo direitos trabalhistas e aumentando as vantagens para os empresários etc. Em troca destes favores, as empresas financiam parlamentares e chefes do Executivo nos grandes municípios e nos Estados, para que ajudem na aprovação dos projetos do governo federal. Dessa forma, o Estado é enfraquecido, e a iniciativa privada passa a dominar o cenário político e econômico. A mídia aparece como colaboradora, veiculando propagandas enganosas, financiadas pelo governo e pelas empresas, com o objetivo de convencer a população.

            A propaganda fala para as pessoas que os grandes empresários, nacionais e internacionais, somente querem contribuir para o bem do Brasil e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Quem lucra com o crescimento do PIB? De que adianta termos um crescimento generoso do PIB, se milhões de brasileiros estão desempregados e inúmeros vivem abaixo da linha da pobreza? Onde está o PIB? Quem participa da riqueza produzida pelas grandes corporações empresariais? Os lucros são dos empresários, e os trabalhadores arcam com os prejuízos. Nos desastres criminosos de Mariana e Brumadinho, quem saiu lucrando e quem saiu perdendo? As vítimas e seus familiares lucravam com a mineração? Quem são sempre as vítimas destes grandes crimes ambientais e humanos?  

            Nestes dias, o povo está assistindo, impressionado, às iniciativas emergenciais de socorro às vítimas e seus familiares: muitos helicópteros; centenas de bombeiros; buscas de corpos; bloqueio de bilhões de reais; prisões de fiscais e engenheiros; promessas de revisão de normas e procedimentos; arrecadação de alimentos e outras coisas etc. Estas coisas são necessárias. É vidente que são. Medidas emergenciais são necessárias, e as que visam socorrer as vítimas e seus familiares são imprescindíveis. Em sã consciência, ninguém se opõe a elas. O que não resolve é bloquear bilhões de reais e depois desbloqueá-los, devolvendo-os às contas das empresas; aplicar multas e não obrigar os respectivos pagamentos; manter a legislação branda, que ignora os riscos; não acabar com a indústria de propinas a agentes de fiscalização do Estado etc.

Após o caso de Mariana, praticamente nada mudou. Nestes dias, governos e empresários repetem as mesmas promessas. Os governos estadual e federal dizem que vão multar, fiscalizar, endurecer a legislação, processar e prender pessoas, exigir a reparação de danos ao meio ambiente e às pessoas etc. Em poucos dias, praticamente nada disso vai acontecer. Não existe, no Brasil, a cultura de investigação séria e de punição aos grandes empresários. Estes dormem tranquilamente, porque não vivem preocupados com a segurança e a proteção de pessoas e do meio ambiente, e sabem que nada lhes acontece. A preocupação vem quando os lucros desaparecem. Aí, sim, ficam agoniados e depressivos. O dinheiro é o deus que não pode faltar. No mundo dos grandes empresários, o dinheiro resolve tudo. O desespero vem quando o deus dinheiro falta.

Diante desta situação, pergunta-se: Qual a autoridade moral e a capacidade efetiva que o governo tem para punir pelos crimes ambientais e humanos cometidos pelos membros do poder econômico? Cremos que estas breves provocações são suficientes para o leitor perceber que alimentar grandes mudanças no que se refere ao combate à corrupção que ocorre na iniciativa privada é uma grande ilusão. Esta é a nossa realidade. Quem não a enxerga, se ilude. Quando não se ilude, sofre de um tipo de otimismo comum aos tolos, que acreditam nas promessas daqueles que sempre prometeram e nunca fizeram absolutamente nada para mudar esta terrível e vergonhosa situação.

Tiago de França

sábado, 19 de janeiro de 2019

O vinho que nos faz irmãos


            Conta-nos o evangelista João que Jesus, sua mãe e seus discípulos participaram de um casamento em Caná da Galileia (cf. Jo 2, 1 – 11). O texto fala que neste casamento, Jesus realizou seu primeiro sinal e “seus discípulos creram nele”. O evangelista não fala em milagre, mas em sinal. Falar em sinal é apontar para algo mais profundo, de cunho mais existencial; é referir-se ao sentido mais profundo da missão de Jesus, missão que revela o rosto misericordioso de Deus Pai.

            Com o passar do tempo, os cristãos foram criando uma cultura religiosa dos milagres, que transformou Jesus em um milagreiro. Isto prejudicou gravemente o significado da missão do cristão e das Igrejas, que é o seguimento de Jesus. Muita gente não conhece o caminho de Jesus, não sabem o que significa segui-lo. As pessoas procuram por milagres. Elas veem em Jesus a solução para seus problemas, sejam quais forem. Jesus foi transformado numa força poderosa capaz de fazer milagres. Uma vez alcançado o milagre, Jesus é descartado ou deixado de lado.

            Quando ligamos a TV e assistimos aos canais religiosos, o que vemos? Líderes religiosos falando de milagres, curas e prodígios. Em troca de dinheiro, milagres acontecem. Trata-se de um mercado religioso promissor, que enriquece a muitos. Não se fala em outra coisa a não ser em milagres. Estes líderes religiosos criam um outro Jesus e um outro evangelho para satisfazer a sua sede de dinheiro e poder.

Alguns são mais discretos, outros mais agressivos. Mas o objetivo é o mesmo: arrecadar muito dinheiro para alimentar a vaidade pessoal e familiar. O dinheiro não serve para a caridade. Esta palavra é ignorada por eles. O Jesus milagreiro do neopentecostalismo cristão exige somente o depósito em dinheiro e uma suposta confiança na palavra do líder religioso. Tudo gira em torno do dinheiro. Prega-se que este funciona como o combustível da fé. Sem dinheiro não há fé nem milagres.

Jesus sabia que as pessoas tem esta tendência, que vai na contramão do Reino de Deus: a busca exclusiva por milagres. Os sinais de Jesus revelam que o milagre por excelência é segui-lo. Colocar-se em seu caminho é a missão a que cada cristão é chamado. No caminho de Jesus encontramos a vida plena. Caminhar com Jesus é o milagre que precisamos para termos vida em abundância. Quem caminha com Jesus se torna íntimo dele, participa da sua vida e da sua missão.

A gente caminha com Jesus participando da vida das pessoas, aproximando-nos delas. Jesus foi ao casamento, e foi informado pela sua mãe que o vinho faltou. Imaginem a vergonha que os noivos passariam se Jesus não os socorresse! Como numa festa de casamento pode faltar bebida? A presença de Jesus assegurou que nada faltaria, e Maria, sua mãe, sabia disso. Ela viu a falta do vinho, informou a situação a Jesus e recomendou que os discípulos fizessem conforme orientasse. Maria confiou em Jesus.

Em nossa vida de crentes, Jesus é o vinho que não pode faltar. Por que a gente não pede pra Jesus permanecer em nossa vida? Precisamos rever essa nossa mania de procurá-lo somente quando precisamos de um milagre. Ele quer habitar em nós. Quando Jesus está em nós, nos transformamos em vinho de primeira qualidade na vida das pessoas. Somente Jesus é capaz de nos transformar desde o mais profundo de nós mesmos. Este parece ser o milagre de Caná hoje. Quando o vinho aparece, a festa é certa e exitosa. Nada falta. A alegria e a abundância caracterizam uma vida festiva e feliz.

Outro aspecto revelador que a presença de Jesus nas bodas de Caná revela se refere ao caráter festivo da ocasião. Jesus manifestou o seu primeiro sinal em um casamento fora do templo e da sinagoga. Assim, ele nos revela que Deus é festivo, é pura alegria, puro gozo e confraternização.

Muitas vezes, somos tentados a carregar em nós a imagem de um Deus triste, que vigia, pune e castiga, um Deus perseguidor. Jesus nos fala que Deus é o Pai da alegria e da festa sem fim. Quem permanece em Deus experimenta a verdadeira alegria, aquela que não passa e que não é provocada pelos prazeres passageiros que a vida oferece.

A alegria que não passa vem da certeza da presença divina em nós. Desse modo, a nossa vida é uma festa sem fim, mesmo quando somos atingidos pelo sofrimento e pela tristeza momentânea. Esta alegria que vem de Deus é a única capaz de nos conceder paz ao espírito e aos ambientes que frequentamos. Uma vez alegres e em paz, contagiamos outras pessoas com as energias oriundas da alegria e da paz de espírito. Há muita gente que precisa de alegria e paz, e quem segue a Jesus é chamado a partilhar com os outros o vinho da alegria e da paz.

Por fim, cabe-nos ouvir a recomendação de Maria, ao perceber a falta do vinho no casamento de Caná da Galileia. Diz ela a seus discípulos: “Fazei o que ele vos disser”. Imediatamente após esta recomendação materna, Jesus manifesta o seu sinal: transformou água em vinho. Foram seis talhas, de mais ou menos cem litros cada uma. Jesus não oferece pouco, mas muito e de boa qualidade.

Assim é Deus: maravilhosamente infinito, cheio de amor. O seu amor é sem fim. Ele quer viver em nós, preenchendo-nos infinitamente. É o amor que nos concede a vida sem fim. O amor é este vinho bom, sem o qual estamos perdidos eternamente. Eis o que Jesus nos diz hoje: Sejam vinho bom e abundante na vida uns dos outros, pois é para o amor que vocês foram chamados.

Não sejamos fel e vinagre na vida dos outros, mas vinho saboroso, abundante. Em comunhão com o Deus festivo, a nossa vida se transforma em dom precioso para a vida do mundo. Nisto reside a felicidade, a alegria e a paz que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas.
Tiago de França

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A ilusão das armas


        Há muitos problemas no Brasil: o desemprego, a violência e a corrupção são os maiores. Quais medidas o governo está propondo para resolvê-los? Nem durante a campanha nem após a eleição, Bolsonaro pronunciou a palavra emprego. Não parece preocupado com a triste situação dos mais de 12 milhões de desempregados.

            No que tange à violência, quando deputado pelo Rio de Janeiro, Bolsonaro nunca propôs nada para ajudar aquele estado. O ex-juiz federal e atual ministro da Justiça e Segurança Pública só fala em combater a corrupção. Parece que não se deu conta de que se tornou ministro da segurança pública.

Em relação ao problema da violência, até agora não propôs absolutamente nada. O estado do Ceará está um caos, e a única medida tomada foi a mesma do governo Temer: envio das forças armadas, como se estas resolvessem alguma coisa.

Considerando a forma como estão tratando o caso dos ex-assessores e motorista da Família Bolsonaro, bem como do caixa 2 do ministro da Casa Civil, o combate à corrupção será igual ao que ocorreu na operação Lava Jato, que combateu somente a corrupção de pessoas ligadas ao PT e aos governos petistas. Nada se fez até agora para investigar, processar e punir políticos não petistas como Temer, Aécio, Beto Richa, Geraldo Alckmin e outros.

            Facilitar o acesso às armas não é uma medida que visa promover a segurança pública. Se assim fosse, os EUA seriam um país seguro. Todos sabemos que os norteamericanos são conhecidos no mundo pela violência, pela quantidade insuperável de pessoas presas e pela chacina de pessoas. O povo daquele país vive em estado de alerta.

            No Brasil, a situação não é diferente: caminhamos para a cifra de 800 mil pessoas encarceradas; mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano; a violência e o crime organizado dominam a sociedade. O Estado não sabe nem tem interesse de resolver a situação. Vive adotando medidas paliativas para passar a ideia de que está tomando providência. O atual governo foi eleito sem nenhum projeto para esta área. Os brasileiros continuarão sendo assassinados, principalmente os mais pobres.

            Com armas em casa, as pessoas terão mais facilidade de matar umas às outras. O decreto assinado pelo presidente dá liberdade para a posse de até 4 armas por pessoa. Está mais que clara a intenção do presidente: facilitar para que os brasileiros se matem. Assim, se reduz os gastos do governo. Gente morta é sinônimo de economia de gastos. É uma forma diabólica de conter o número da população. Esta parece ser a ideia central.

            O decreto do governo beneficiará, em primeiro lugar, à indústria das armas. Esta é a primeira interessada a beneficiada. Também os criminosos serão beneficiados, pois poderão roubar e furtar armas nas residências das pessoas. Por fim, aqueles que possuem um desejo oculto de matar pessoas também estão felizes com a medida. A partir de agora poderão ter armas para eliminar seus inimigos. Usar as armas para a legítima defesa é o que menos se verá acontecer.

            Não é nenhum exagero afirmar, categoricamente, que os responsáveis pelo sangue das vítimas desta medida são o presidente que a adotou, seus correligionários e as pessoas que o elegeram. O banho de sangue certamente será mais intenso. Os mais pobres que se cuidem!

Tiago de França

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Para promover a paz


Hoje, 1° de janeiro, celebramos o Dia Mundial da Paz. A paz não é fruto do mero desejo das pessoas. Não basta apenas desejar. É necessário ser pacífico. Promover a paz é responsabilidade de toda pessoa que habita este mundo. A paz é um bem universal, e um direito humano fundamental. Sem ela ninguém consegue ser feliz. O processo autêntico dos povos depende, necessariamente, da promoção da paz.

No início deste segundo milênio estamos diante do crescimento assustador da cultura da violência e da morte. Crescem no mundo as forças de morte. Países, instituições e pessoas promovem a violência, e milhões de pessoas são brutalmente assassinadas, dia após dia. Criam-se justificativas de todo tipo para tentar convencer as pessoas de que as mortes em massa são justificáveis e até necessárias. Todas estas justificativas são falsas.

No Brasil, também estamos diante deste fenômeno genocida. Anualmente, mais de 60 mil pessoas são assassinadas. A grande maioria delas pertence à classe dos excluídos. Os ricos estão protegidos, e os pobres são assassinados. O Estado é responsável pela morte de milhões de brasileiros. O Estado se tornou inimigo do povo. Ao invés de cuidar das pessoas, adotada medidas para explorá-las e matá-las.

Uma destas medidas será adotada nestes dias, pelo presidente eleito, que será empossado hoje: facilitar o porte de armas. Quem comprará estas armas? Os ricos. Para que servem as armas? Para matar pessoas. Quem são estas pessoas? São as de sempre: maioria jovem, pobre, negra e sem instrução. O presidente eleito e parte dos seus eleitores acham que está é a solução para diminuir a violência no Brasil: matar pessoas.

Para quem professa a fé em Jesus, a liberação ou facilitação do acesso às armas é uma medida contrária à Lei de Deus. O verdadeiro cristão não aceita este tipo de medida porque acredita que Deus é vida e amor. O quinto mandamento da Lei de Deus é claro: Não matarás! Matar uma pessoa é crime e pecado grave. Quem crê em Deus não mata o próximo. Derramar o sangue do próximo é ação abominável diante de Deus. Nada, absolutamente nada, justifica matar alguém.

O Deus e Pai de Jesus é o Deus da Vida, e não da morte. Toda pessoa é filha de Deus em Jesus Cristo. Matar alguém é matar um filho de Deus. Deus pedirá contas do sangue dos seus filhos, derramado pelos assassinos. Quem mata se torna assassino. Não há outra qualificação para este tipo de ação. O Estado tem que assumir a sua responsabilidade na segurança pública. Fazer justiça com as próprias mãos é atitude criminosa. O cidadão paga imposto para ter o direito à segurança pública, que é dever do Estado. Liberar o acesso às armas é falta de responsabilidade estatal. Não é o cidadão o primeiro responsável pela segurança pública, mas do Estado.

Por fim, é preciso dizer que não adianta desejar a paz sendo favorável à liberação do porte de armas. Não sejamos hipócritas! Se nossa opção é pela vida, então sejamos favoráveis às medidas que promovem a vida e a dignidade das pessoas. Basta de criminalização dos pobres e dos movimentos sociais que lutam pela justiça e paz social!

Não basta desejar a paz e um feliz ano novo. Na verdade, precisamos, urgentemente, em nossas relações com as pessoas e com a natureza, sermos pessoas pacíficas. Ser pacífico é mais que uma atitude, é um estilo de vida. Ser pacífico é ser justo para o nosso bem e para o bem de todos. Cultivemos, pois, o amor, a justiça, o respeito, a solidariedade, a participação e a tolerância em nossas relações. Assim, construiremos a paz que desejamos. As armas matam, jamais constroem a paz.

Um bom ano a todos! Muita força para lutarmos por um mundo mais justo e fraterno.

Tiago de França

domingo, 30 de dezembro de 2018

O deus dos poderosos


Neste ano, especialmente durante o período eleitoral, assistimos a muitas invocações do nome de Deus. Muitos políticos usaram o nome de Deus e a religião cristã para se beneficiar. Eles sabiam que o brasileiro é, de modo geral, religiosamente conservador, e passaram a defender, verbalmente, os valores da tradição cristã.

Eles sabiam também que este mesmo brasileiro, de tipo conservador, geralmente não faz nenhuma ligação entre fé e vida. Ao mesmo tempo em que defende os valores tradicionais, com ênfase nos valores da família, este tipo de brasileiro viola as leis e os valores que verbalmente defende.

A defesa verbal dos valores tradicionais não é sinônimo de integridade moral. Muitos mentirosos defendem a verdade para esconder suas mentiras; muitos ladrões defendem o combate à corrupção para esconder seus furtos e roubos; muitos adúlteros e estupradores defendem a moral e os bons costumes para esconder adultérios e estupros; entre outros absurdos.

O mesmo ocorre com a invocação do nome de Deus: na maioria dos casos se trata de transgressão do segundo mandamento do Decálogo. Invoca-se o nome de Deus em vão para criar na cabeça das pessoas a imagem de uma religiosidade e piedade aparentes. Deus e religião são duas realidades diferentes. Por isso, é possível que uma pessoa seja religiosa e não creia em Deus. É o que assistimos nestas falsas invocações do nome de Deus.

Um crente fiel não invoca a Deus para enganar as pessoas. Transformar Deus em um instrumento de manipulação é um pecado gravíssimo. Isto não é cristianismo, mas falsa religiosidade. Deus é incompatível com o discurso de ódio e com a proliferação das fake news (notícias falsas) veiculadas nas eleições deste ano.

Quem se utiliza da mentira de forma sistemática para enganar as pessoas e, desse modo, alcançar o poder político, não crê em Deus. Este tipo de prática é incompatível com a fé cristã. Deus não é o responsável pela vitória do presidente eleito do Brasil. Deus não enviou o presidente eleito para governar o Brasil. Isso é falso messianismo e hipocrisia religiosa. Deus não tem parte com a mentira nem com a cultura da eliminação do outro, práticas defendidas nas eleições deste ano.

Deus é Amor e Liberdade. Quem semeia o ódio e a perseguição a pessoas e grupos sociais não tem parte com Deus. O autoritarismo e as promessas de cortes dos direitos fundamentais e garantias dos cidadãos são práticas que não podem ser toleradas nem praticadas por autênticos cristãos.

O cristianismo não nasceu com a pretensão de colaborar com o sistema de opressão dos povos. Quando isto ocorre, estamos diante de um gravíssimo desvio. A mensagem de Jesus está pautada na fraternidade, na solidariedade, na justiça, no amor, na cultura do encontro e da tolerância, na fé e no respeito à diversidade da cultura, das crenças e dos modos de ser. O cristianismo só é verdadeiro somente quando trilha o caminho do amor, da justiça e da liberdade, tal como concebido por Jesus.

Precisamos aprender com o que aconteceu em 2018. O saldo total deste ano jogou o País no precipício. Para não sermos totalmente engolidos pelos males que se avizinham, as pessoas precisam manter viva a esperança ativa, que é aquela que nos coloca no caminho da resistência. Para trilhar este caminho é necessário acreditar na construção de outro mundo possível, e arregaçar as mangas para lutar com ternura, inteligência, estratégia, união e perseverança. Estas são minhas considerações finais para este ano que aos poucos termina.
Tiago de França

sábado, 15 de dezembro de 2018

Para acolher Jesus que vem


“Que devemos fazer?” (Lc 3, 10)

            O profeta João Batista, enviado para preparar o povo para receber o Messias, fala-nos da necessidade da conversão. Em simples palavras, converter-se é mudar de vida: sair da escravidão do pecado para experimentar a liberdade dos filhos e filhas de Deus. É claro que somos pecadores, e Deus conhece a nossa condição de gente fraca e resistente à sua graça. Mas apesar de sermos pecadores, também fomos, em Cristo Jesus, elevados à dignidade de filhos adotivos do Pai. Aqui reside a nossa alegria e salvação.

            Aquele que é enviado por Deus conhece a vontade de Deus. Na caminhada da missão, Deus vai revelando o significado da missão de cada pessoa que é chamada. Assim aconteceu com João, o Batista. Este era um profeta de Deus. E todo profeta fala e age de acordo com a iluminação divina. Deus se serve dos profetas para agir na Igreja e no mundo. Sem os profetas, a Igreja não consegue realizar a sua missão no mundo. Deus vai suscitando profetas e profetisas no meio do seu povo, de acordo com a necessidade e as circunstâncias.

            Antes de Jesus iniciar, publicamente, a sua missão, era necessário que João, filho de Zacarias e Isabel, endireitasse as veredas para o Messias chegar. Segundo João, Jesus é aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo (cf. Lc 3, 16). João era um profeta tão reconhecido entre o povo, que muita gente pensava que ele seria o Messias. Mas não se demorou em esclarecer: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. O Messias é Jesus, mais forte do que João.

            Todo profeta continua exercendo esta missão do profeta João: encaminhar o povo para Deus, apontando o caminho da conversão. As multidões perguntavam sobre o que deviam fazer para acolher o Messias, e a resposta do profeta aponta para o núcleo fundamental do caminho que conduz a Deus: o amor. Às multidões, recomendou que se partilhasse o pão e as roupas; aos cobradores de impostos, pediu que não explorassem o povo; aos soldados do império romano, exortou-os a não extorquir os pobres nem mentir nos testemunhos contra eles (cf. Lc 3, 11-13).

            Também hoje, a recomendação permanece a mesma: todos, sem exceção, são chamados a viver o amor, que é solidariedade concreta nas relações entre as pessoas e com a natureza. Em nome de Jesus, precisamos recomendar aos nossos governantes: respeitem os direitos adquiridos a duras penas pelos pobres! Parem de explorar os pobres com altos impostos, e cobrem mais dos ricos! Parem de mentir, com promessas enganosas e discurso anticorrupção vazio! Promovam o bem comum e trabalhem na defesa da terra, nossa mãe! Cessem a política de criminalização e matança dos pobres nas pequenas e grandes cidades! Criem políticas públicas que reduzam a desigualdade social! 

            Estas e outras recomendações devem estar na boca dos profetas. Mas onde estão os profetas? Assistimos a muitas injustiças e pouca profecia. Quem, hoje, está denunciando, em alto e bom som, o que está acontecendo no Brasil? Por acaso não é tempo de profecia? O Espírito Santo permanece conosco. Por que resistimos ao seu apelo? Ou será que tudo está conforme a vontade de Deus?

Por que os bons silenciam, enquanto os maus avançam com seus projetos de morte? Onde estão os discípulos missionários de Jesus? O nosso culto está em sintonia com o que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo? O que estamos celebrando em nossas liturgias? Por que tantos que se dizem cristãos compactuam com os projetos de destruição e morte do povo de Deus?... Precisamos, individual e comunitariamente, pensar e meditar estas questões.

O Pai, que nos enviou o Filho, espera que caminhemos com ele. Jesus está presente no mundo. Ele não está sentado, confortavelmente, ao lado de Deus, assistindo, passivamente, as desgraças que acontecem no mundo. Com a celebração do Natal, iremos proclamar que ele é o Emanuel, o Deus que permanece conosco. A nossa fé, que se revela no amor que demonstramos no cotidiano, nos fala desta presença amorosa de Deus.

Para acolher Jesus que vem é necessário este amor que salva. Nada nesta vida salva: dinheiro, poder, prestígio, e tudo o que destas coisas decorrem. Nada disso salva. Nada disso edifica. Enquanto comunidades de crentes em Jesus, precisamos tomar uma atitude urgente: colocarmos o amor no centro de nossa vida, e revermos esse cristianismo que temos. Como pode prosperar diante de Deus um cristianismo sem amor? De que vale dizer que tem fé, mas sem amor a Deus e ao próximo?

A partir daquilo que fazemos, precisamos rever o nosso modo de ser. Nossos gestos revelam o amor de Deus? Amamos mesmo, ou fingimos que amamos? A gente é presença amorosa, ou estamos perdendo tempo em discussões religiosas e teológicas secundárias? Sem o amor, a gente pode até praticar perfeitamente a religião, mas estaremos longe de Deus. Urgentemente, precisamos mais de amor e menos religiosidade sem amor. As duas realidades podem e deveriam caminhar juntas: amor e religião, mas a situação na qual nos encontramos tem demonstrado que tais realidades caminham cada vez mais separadas.

            A prova disso é o que temos visto no Brasil e no mundo: muita indiferença, preconceito, racismo, inúmeros tipos de violência, marginalização social etc. A cultura do ódio cresce cada vez mais: ódio aos pobres; aos gays, travestis, lésbicas e transexuais; ódio aos índios e negros; ódio às pessoas que constituem o que Dom Helder Câmara chamava de “minorias abraâmicas”.

Milhões de brasileiros se declaram católicos e protestantes, mas a violência cresce cada vez mais. Onde está a crença de tantos milhões de pessoas? Como estão sendo evangelizadas? O que estão escutando da boca dos líderes religiosos? Nestes dias, os católicos celebram o Tempo do Advento, tempo de espera e de preparação para a celebração do mistério da encarnação de Jesus, o Filho de Deus. Como cada um está preparando e celebrando estes dias? Que o Espírito de Jesus nos converta, e nos ajude a sermos verdadeiramente amorosos. Fora do amor não existe fé em Jesus nem salvação.

Tiago de França