quinta-feira, 20 de junho de 2019

EUCARISTIA: sacramento da caridade


A solenidade de Corpus Christi é um grande momento da vida da Igreja católica. Celebra-se, de forma solene, a memória da última Ceia do Senhor.

Na última Ceia, além de partir o pão e o vinho com os seus discípulos, Jesus realizou o gesto do lava-pés (cf. Jo 13, 1-17). Este gesto aponta para a necessidade do serviço aos irmãos: lavando os pés dos seus discípulos, Jesus ensina a servir.

Jesus é o Pão vivo descido do céu, para alimentar o povo de Deus na sua caminhada rumo à pátria definitiva. O discípulo missionário de Jesus precisa alimentar-se dele para continuar sendo fiel em seu caminhar. Fortalecido por este divino alimento, o discípulo é chamado a servir aos outros.

Não há Eucaristia sem serviço, e não há seguimento de Jesus sem Eucaristia. Para viver em comunhão com Ele, é necessário entrar na escola do serviço, alimentados pela Eucaristia, ou seja, pelo próprio Cristo.

Hoje, o que significa comungar a Eucaristia? Há um refrão de um hino que diz: "Vamos comungar, vamos comungar./ Comungar na Igreja e na vida dos irmãos". Quem são estes irmãos? São aqueles que precisam de nós, da nossa presença, da nossa escuta e da nossa colaboração material.

Portanto, a Eucaristia nos torna próximos das pessoas, nos faz samaritanos (cf. Lc 10,25-37). Por Cristo, com Cristo e em Cristo nos tornamos pessoas eucarísticas. Uma pessoa eucarística vive totalmente aberta e disponível aos outros, porque nela está Jesus, fazendo a sua morada com o Pai e o Espírito Santo.

Vivemos em um País com quase treze milhões de pessoas desempregadas. Como estas pessoas estão ganhando o pão de cada dia? Ao redor do mundo, cerca de um bilhão de pessoas passam fome todos os dias. Trata-se de um pecado que atenta a caridade evangélica. Como as pessoas podem celebrar o Pão da vida, se falta o pão em suas mesas?

A fome é um escândalo, um crime contra a humanidade e um mal absoluto. O mundo produz alimento suficiente para alimentar a todos, mas milhões de pessoas não o tem. Isso é consequência de um egoísmo perverso, de uma sociedade marcada pela indiferença e pela ganância.

Não vive em comunhão com Jesus o cristão que enxerga com naturalidade o vergonhoso e criminoso fenômeno da fome no mundo. Trata-se de um mal presente, que está próximo a nós. O que estamos fazendo para erradicar a fome no mundo? Como agimos diante da fome dos outros? O que nossas comunidades cristãs estão fazendo para ajudar os irmãos e irmãs que passam fome?

Se em nossas comunidades há pessoas que passam fome e nada fazemos para resolver este problema, então não somos dignos do Corpo e Sangue de Cristo. É preciso comungar na Igreja e na vida dos irmãos. Façamos, pois, um sério exame de consciência.

Há inúmeras formas de fome. Falamos da fome do alimento para o corpo, mas há outras fomes a serem saciadas: fome de atenção, afeto, cuidado, escuta, respeito, presença; enfim, fome de humanização. A nossa comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo é comunhão com os outros. Nestes, podemos encontrar o Corpo e o Sangue de Cristo, que sofre e que interpela a nossa humanidade.

Sem esta comunhão de vida com o próximo, Deus permanece surdo às nossas preces, e nossas liturgias, belas e solenes, não lhes agrada. Eucaristia é a vida do povo, e esta é a glória de Deus. Povos livres e saciados: eis o desejo de Deus para toda a humanidade.

Sejamos, pois, eucarísticos, e que nossas palavras e ações ajudem a construir a nova humanidade. A Trindade Santa nos quer partícipes da mesa do Reino definitivo, e a festa vai ser linda de ver e viver.
Tiago de França

domingo, 16 de junho de 2019

A Trindade


Neste domingo, a Igreja católica celebra a Solenidade da Santíssima Trindade. Não há inteligência neste mundo que seja capaz de desvendar este mistério: o mistério de um Deus em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O Pai é o Criador de todas as coisas, o Amoroso, que com o Filho e o Espírito existe desde sempre e para sempre. Este Pai não é homem nem mulher, é o mistério da perfeição, que em Jesus se revelou puro amor. O Pai é Amor e infinita misericórdia. Não é um carrasco, que criou o homem para vingar-se no tempo oportuno. Não. O Pai não é um vingador, mas é um Deus apaixonado por tudo o que criou, que a todos assiste porque jamais abandonará a obra criada. É um Deus apaixonado pelo ser humano, capaz de tudo para salvá-lo.

O Filho é Jesus, o Messias. Ungido do Pai, revelou ao mundo quem é o Pai. Humanamente, foi escandalosamente perfeito. Experimentou a condição da carne humana: fraca e limitada. Em comunhão com o Pai e o Espírito, venceu a morte e o mundo. Graças a Ele, conhecemos as entranhas da Trindade: pura relação constante de amor. O Filho amou as pessoas até o fim, até a morte de cruz. Assim, revelou-nos o grande desejo divino: recapitular todas as coisas. O Cristo Jesus é o nosso modelo de homem perfeito e de prática humana do amor divino. Ele é o nosso Salvador.

O Espírito Santo, com o Pai e o Filho, também se manifestou ao mundo e no mundo. Veio para ajudar os discípulos de Jesus a continuarem a sua missão redentora. Este é o Espírito que sonda todas as coisas, que nos faz conhecê-las e amá-las. É o grande revelador da vontade do Pai manifestada em Jesus. É este mesmo Espírito que ilumina, guia, orienta e sustenta o discípulo que se colocou no caminho de Jesus. No mundo, trabalha, dia e noite, realizando a obra de Jesus, que encontrará o seu desfecho final na realização total do Reino de Deus.

Esta é a Trindade, Deus Uno e Trino, mistério de amor, que a tudo abraça e ama. Este Deus ama a cada um de nós, com cuidado e predileção. A nossa comunhão com Ele nos conduz à felicidade verdadeira e plena. Abertos e disponíveis à ação amorosa da Trindade, esta faz a sua morada em nós e, assim, tudo é possível. Em nós, Deus nos ama e nos ensina a amar, nos torna verdadeiramente livres e nos faz conhecer, desde agora, as alegrias da vida eterna.
Tiago de França

sexta-feira, 7 de junho de 2019

O Espírito Santo e a liberdade


“O Espírito anima a história e o tempo presente. Torna a história mais humana, e torna a vida e cada dia mais feliz. Transfigura o nosso presente e gera um futuro” (José Comblin).

            A espiritualidade cristã ensina que não há libertação possível fora da ação do Espírito Santo. A história do cristianismo mostra, com clareza, que durante muito tempo o Espírito ficou como que esquecido. Era mencionado, é verdade, mas não passava de mera alusão nas fórmulas canônicas de oração. Hoje, mais que em outras épocas, temos a plena convicção da missão do Espírito no mundo.

            A festa de Pentecostes que se aproxima convida-nos à recordação do essencial: o Espírito age em nós, porque esta é a vontade de Deus e o cumprimento da promessa de Jesus (cf. Jo 14,26). É o Espírito que ilumina e guia os seguidores de Jesus em sua caminhada rumo à plenitude do Reino definitivo. Como bem disse José Comblin, em sua obra O Espírito Santo no mundo: “O Espírito anima a história”. Isto significa que o plano divino haverá de se cumprir porque o Espírito de Deus está agindo, dia e noite, para que a humanidade chegue ao conhecimento da realização plena daquilo que Deus, desde a eternidade, planejou realizar.

            Este mesmo Espírito “anima o tempo presente”. O nosso tempo é marcado pelos inúmeros males, decorrentes de muitos conflitos de interesses. Há uma sede de poder e de riqueza, que há muito tempo domina o espírito humano. Em nome do poder e da riqueza, os homens são capazes de tudo. Há um caminho de autoaniquilação, que se apresenta como projeto global de destruição. Diante de tanta violência e morte, parece não existir saída.

Estaria o mal afastando, de forma definitiva, a realização do plano de Deus? A fé em Jesus responde negativamente. A profissão de fé dos que acreditam na ação amorosa de Deus no mundo nos abre a janela da grande alegria esperançosa do mundo que há de vir: nos porões da humanidade, lá onde tudo parece treva, as sementes do Reino estão sendo lançadas, e elas já estão dando frutos de vida eterna.

Desde as periferias do mundo, onde se pode escutar o clamor dos injustiçados de todos os tempos e lugares, Deus Pai, Filho e Espírito Santo está trabalhando, despertando e alimentando a esperança do mundo futuro: este mundo transformado naquilo que a Trindade deseja: lugar de fraternidade, justiça e paz para todos. Não pode o mal resistir à força do amor. Não podem os corações resistirem ao fogo abrasador do Espírito que sonda todas as coisas. A nossa profecia não é a profecia da desgraça definitiva, mas da esperança que insiste em prevalecer porque o Espírito a cultiva no mais profundo das entranhas humanas.

Quando sopra o Espírito, os olhos se abrem; os caídos se levantam; os injustiçados gritam; a alegria transborda como água no deserto; a luz da verdade afasta as trevas da mentira; cessam as inimizades e reina a proximidade e o reconhecimento das chagas de Cristo Jesus nos outros; enfim, nada neste mundo escapa da luz resplandecente Daquele que foi enviado a este mundo, em nome de Jesus, para continuar alimentando a chama que fumega. Assim é o Espírito de Deus.

O tempo presente assiste também à rejeição das crenças religiosas e à decepção de muita gente. Aos poucos as pessoas estão descobrindo, mesmo que de forma dolorosa, que o mistério divino sempre foi confiado a mulheres e homens fracos. Desde a experiência missionária de Jesus é assim. Já no grupo dos Doze encontramos Pedro negando Jesus, e Judas Iscariotes entregando o seu Mestre por trinta moedas de prata. Assim são os homens: interesseiros, mesquinhos, frágeis, prepotentes, limitados. Mas a estas pessoas quis Jesus confiar a continuidade da sua missão.

É verdade que esta convicção de nossa fraqueza não pode ser utilizada para justificar nossas incoerências. Pelo contrário, serve-nos para reconhecermos que somos pó da terra e que precisamos confiar Naquele que nos chamou à vida e à missão. Conhecendo a natureza humana, Jesus prometeu que o Pai enviaria o Espírito, o Paráclito, e assim se fez. É este Espírito que conduz a família humana, e de modo especial, a missão de Jesus na história humana. Entregues a este Espírito, os discípulos de Cristo conseguiram, conseguem e sempre conseguirão cumprir o mandato missionário do anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus.

A Igreja católica, que celebrará Pentecostes nestes dias, sabe da sua missão no mundo; sabe também das suas limitações. Conhece seus medos e incoerências, sua falsa prudência e sua omissão. Esta mesma Igreja, constituída de mulheres e homens, santos e pecadores, peregrinos nas estradas deste mundo desigual, não pode, jamais, recuar. Interiormente, parece muito evidente o surgimento de um movimento de retorno à grande disciplina que vigorava antes do Concílio Vaticano II. Mas o Espírito aponta para o futuro. Ele gera o futuro. O passado não é o lugar da vida, mas daquilo que se viveu. A missão acontece no presente, com olhos voltados para o futuro. Do passado se aprende a não repetição daquilo que não agradou à Trindade.

Não é possível assistirmos à renovação da Igreja, do espírito humano e de toda a humanidade, caminhando para trás. A marcha da história acontece no sentido oposto: caminhamos para o amanhã com os pés no aqui e agora. É agora que o Reino está acontecendo. É agora que o Espírito está trabalhando. Trata-se de um movimento constante, que resultará na libertação total e definitiva. O testemunho das Sagradas Escrituras nos mostra que esta é a vontade de Deus revelada na pessoa de Jesus, o Filho de Deus. E não existe força capaz de impor outra orientação ou rumo à marcha da história.

Não se trata de mero determinismo, mas de movimento de liberdade. As experiências que vamos conhecendo vão nos apontando para o caminho que conduz à liberdade. Porque este é o desejo mais profundo do nosso coração: desejamos ser livres. Mas não se trata de qualquer liberdade, mas daquela que realmente nos torna dignos de sermos reconhecidos como humanos e filhos de Deus.

Neste processo, o Espírito “torna a história mais humana”. Este caminho de humanização das pessoas, para que se revele o Deus vivo que está em todas elas, conta com a participação do Espírito Santo. Quando nos colocamos neste caminho, tudo se transfigura, se renova e aparece tal como é. O Espírito concede-nos a graça da visão da realidade e do conhecimento concreto daquilo que chamamos vida. Esta passa a ser percebida e sentida, vivida plenamente. É assim que o Espírito trabalha. Mas, mais que isto, Ele também tem seus meios, que a nossa pobre inteligência é incapaz de conhecer. O que sabemos e afirmamos é a antífona daquilo que reza o grande e infinito salmo do amor divino por cada um de nós.

Que o Espírito nos ilumine e nos conceda a graça de conhecermos, concretamente, a verdadeira vida. Assim, somos livres, humanos e felizes.

Tiago de França

terça-feira, 14 de maio de 2019

O direito à educação e os cortes dos recursos educacionais

       Estamos no mês de maio, portanto, com o governo Bolsonaro desde o dia 1º de janeiro, e parece que a educação continua sendo negligenciada no Brasil. Aliás, mais que isso, agora assistimos a uma nova modalidade de trato com a educação pública: o governo federal, além de não valorizá-la como caminho para o verdadeiro progresso do País, resolveu cortar parte significativa dos recursos educacionais.

Não constitui novidade para ninguém a ideia de que sem educação não há povo que progrida. As nações consideradas desenvolvidas investiram e investem pesado na educação, pois sabem que não é possível educação de qualidade sem investimentos.

            Exemplo disso é o que ocorre na Alemanha, que nestes dias anunciou um investimento de 160 bilhões de euros para universidades e pesquisas. No Brasil, ao invés de aumentarem o dinheiro investido, anunciam cortes e mais cortes. Às vésperas dos protestos deste dia 15 de maio, o governo Bolsonaro já mandou seu recado desastroso: outros cortes acontecerão nos próximos dias.

Curiosamente, não se fala dos motivos que legitimam esses cortes. Fala-se de contingenciamento de gastos, bem como ousam afirmar que se gasta muito com educação no Brasil. Parece piada, mas é verdade: o governo Bolsonaro acha que no Brasil se gasta muito dinheiro com educação pública.

            O que está por trás desses cortes? Podemos, em primeiro lugar, lembrar o que o próprio presidente anda dizendo no seu twitter: que aos brasileiros basta saber ler, escrever, contar e ter um curso profissionalizante. Trata-se da fala de alguém que nunca pisou numa universidade. Quem desconhece o universo acadêmico não sabe dos custos da academia. Além de ignorar os custos, não manifesta nenhum interesse em saber, o que é o mais grave.

Também podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que o presidente não enxerga na educação a solução para os graves problemas do país. Ele não consegue conceber a educação como caminho para “o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Constituição da República de 1988, artigo 205).

            O presidente passou quase 30 anos atuando no poder legislativo e não conhece a importância da educação. Mas o que mais causa indignação nas pessoas de bom senso e boa vontade é saber que milhões de brasileiros sabiam disso, e mesmo assim, o elegeram presidente da República. O presidente foi um candidato que não enganou a ninguém. Todos sabiam da sua ignorância em matéria de educação e conhecimentos básicos fundamentais.  

Todos sabiam da sua falta de atuação parlamentar em matéria de educação. Ele foi taxativo durante a campanha, ao dizer que praticamente não conhecia nada. Mas o povo acreditou nas fake news, e agora está vendo que para governar o País não basta somente a vontade de governar, é preciso ter capacidade, boa vontade política e compromisso com a justiça e a ética no trato com a coisa pública.

            Há um terceiro fator que não pode ser esquecido nesta breve análise da negligência do governo federal quanto à educação: há um nítido projeto de desconstrução das conquistas educacionais alcançadas durante os governos petistas.  

Apesar dos pesares, os governos petistas, de Lula e Dilma, foram os que mais investiram em educação pública: novas universidades e institutos federais criados, mais pessoas pobres ingressando na universidade, novos cursos sendo abertos, maior autonomia na gestão das universidades, mais investimento na pesquisa e extensão, enfim, mais oportunidades para que o brasileiro pudesse se libertar do jugo da ignorância e do fracasso. Os números do período destes governos atestam a veracidade do que estamos falando. Uma simples pesquisa no Google ajuda o leitor a enxergar melhor aquele período.

            A quem interessa a desvalorização da educação pública, bem como o sucateamento das escolas e universidades públicas? A resposta é simples: interessa aos grandes grupos das escolas e universidades privadas, que criaram um mercado gigantesco e promissor, transformação a educação em mera mercadoria.

A educação privada visa o lucro, não se interesse com o exercício da cidadania. Na iniciativa privada, estuda quem tem dinheiro, ou quem recebe uma bolsa de estudos, bolsa que faz a instituição privada de ensino receber abatimento no pagamento dos impostos. Não existe caridade, existe negócio.

A mesma lógica funciona quando a coisa pública é privatizada. Quem defende a privatização da universidade pública, na verdade está defendendo que se pague para estudar. Em um país de 13 milhões de desempregados, onde os brasileiros vão buscar dinheiro para custear escola e universidade particulares para suas crianças, adolescentes e jovens?

A educação é “direito de todos e dever do Estado e da família” (artigo 205 da CR/88). Portanto, o cidadão paga impostos e tem o direito à educação pública de qualidade. O Estado tem o dever, ou seja, a obrigação de ofertar educação pública de qualidade. É o que diz o mandamento constitucional, e tem que ser cumprido na forma da Lei.

São por estes e outros motivos que neste dia 15 de maio, em todos os cantos do País, muitos brasileiros vão às ruas para gritar contra esta grave injustiça que o governo está praticando contra o progresso do País e contra os brasileiros. É inaceitável os cortes de verba pública na educação, bem como o sucateamento que visa a privatização do ensino público no Brasil. Basta e injustiça! Viva a educação!

Tiago de França

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Pensar em tempos de obscuridade


          Pensar livremente sempre foi o exercício fundamental dos espíritos evoluídos. A evolução da sociedade e do homem depende da difícil e desafiadora arte de pensar. O que seria da humanidade sem a ousadia de muita gente que se debruçou sobre os próprios pensamentos, provocando descobertas de toda ordem? O ser humano é ontologicamente vocacionado ao pensar, ou seja, não se realiza fora da atividade pensante. Quando entregue à preguiça mental e ao controle sistematizado da mente, o homem e a sociedade ficam como que paralisados, entregues ao arbítrio dos mais espertos.

            A filosofia, a sociologia, a história, a antropologia, a psicologia, a psicanálise e outras áreas congêneres, criadas pelo esforço permanente da inteligência humana, sempre foram abordagens incômodas, pois são contrárias aos interesses daqueles que lucram e se aproveitam da ingenuidade e cegueira da grande maioria das pessoas que não se ocupam com o pensar. A grande maioria dos humanos não se ocupa com o pensar, mas assimila os modelos e padrões estabelecidos pelas grandes corporações financeiras, que ganham muito dinheiro fabricando coisas e ideias que visam a dominação dos espíritos e dos corpos humanos.

            No mundo capitalista não há espaço para o espírito crítico. Não interessa ao mercado a multiplicação de pessoas que se dedicam ao aperfeiçoamento do pensar crítico. Este pensar desmascara os projetos de dominação. O mercado financeiro visa o lucro, e para que este seja alcançado é necessário a manipulação da consciência e o uso das forças de homens fracos. O homem fraco é aquele que não pensa sobre a vida e sobre o que acontece no mundo. É aquele que vive somente em função da satisfação de suas necessidades básicas. De fato, há milhões de pessoas que se contentam com o alimento, o vestir, o calçar, o comer e o lazer. O mercado financeiro precisa de mão de obra qualificada, e esta mão de obra é constituída por pessoas que são treinadas para somente produzir e consumir.

            Quando o governo federal diz que vai cortar os gastos com filosofia e sociologia nas universidades, o recado é claro: o governo quer colocar a educação pública a serviço dos interesses do mercado. De que tipo de gente o mercado precisa? De pessoas que aprendam a produzir com eficiência e qualidade, bem como de uma massa numerosa de consumidores inconsequentes. Consumir sem necessidade é uma espécie de consumo irresponsável. Quem não pensa a realidade do consumo é usado pelo mercado para a produção dos lucros das grandes empresas produtoras de descartáveis.

            Trazendo a reflexão para o âmbito das relações interpessoais, ocorre algo semelhante: vivemos numa situação profundamente marcada pelo esquecimento do outro. Este ganha notoriedade quando tem dinheiro ou influência, ou ambas as coisas. Há uma grande massa de seres humanos ao redor do mundo que se encontra na invisibilidade: massa de inúteis e sobrantes, de pessoas que nem produzem nem consomem. São sem importância e descartadas pelo sistema. Este é tão perverso que faz as pessoas entenderem que o que estamos descrevendo não passa de uma ideologia marxista barata.

            A expressão “isso é coisa de comunista” tem integrado a lábia barata e fajuta dos que vivem a serviço da promoção do sistema capitalista. Para tais pessoas, “bom é o capitalismo, que promove o progresso”. Tal afirmação parece acertada, mas não resiste a simples indagações: O capitalismo promove o progresso de quem? No Brasil dos 13 milhões de desempregados, quem está progredindo? No governo aliançado com as forças do grande mercado financeiro, quem está ganhando e quem está perdendo? Por acaso, estas questões são comunistas? Há muita gente poderosa se aproveitando do discurso anticorrupção e anticomunista. O Brasil é um país no qual a manipulação da consciência é de fácil execução.

            A sistematização do pensamento e da crítica é ferramenta essencial para a emancipação das pessoas; do contrário, estas continuarão consumindo as informações cuidadosamente elaboradas com a finalidade de enganar e camuflar a realidade. Sem a análise da realidade não é possível se libertar das mentiras bem contadas pelos que operam a dominação social. Os que oprimem dependem da cegueira da maioria. Sem gente cega não é possível explorar. O prazer dos poderosos deste mundo é ver as pessoas sendo exploradas; e a exploração é tão eficiente que a maioria dos explorados, uma vez conformados com a situação, até se sentem gratos por serem escravos.

            Vivemos tempos de obscuridade. Lamentavelmente, em pleno século XXI. Quando se diz que com a Internet e as redes sociais as pessoas estão mais atentas ao que está acontecendo, há um profundo engano. É verdade que a Internet continua sendo uma ferramenta importante para a busca de informações. Mas quem sabe pesquisar na Internet? Quem a utiliza para a realização permanente de pesquisas? Quem ensina às pessoas a filtrar as inúmeras informações fragmentadas? De modo geral, e as eleições gerais de 2018 demonstraram isso, os brasileiros não utilizam a Internet para pesquisas. A pesquisa não é o forte da cultura brasileira. A maioria está presente nas redes sociais, curtindo e compartilhando o que a própria rede vai ofertando, conforme o interesse dos grandes grupos que faturam muito dinheiro com a propaganda e o consumo de mentiras e mercadorias.

            A obscuridade está alicerçada na irracionalidade. Quem não pensa vive na obscuridade, ou seja, não conhece as causas dos acontecimentos da vida. A maioria tem acesso somente às versões predominantes dos acontecimentos. Os veículos de comunicação fazem seus recortes e oferecem suas versões. As pessoas simplesmente assimilam e formam a sua visão de mundo a partir disso. Assim, não há uma visão de mundo propriamente dita, pois não envolve o pensar por si mesmo. A assimilação e repetição irracional dos fatos não é uma atividade intelectualmente crítica. Sem análises não há pensamento crítico. Compreender o que está acontecendo no mundo é essencial para uma vida digna de seres humanos. Quem não enxerga a realidade é, geralmente, engolido por ela. Pensar é necessário para a evolução da humanidade. As pessoas hoje precisam compreender isto, para se libertarem das prisões que as oprimem.

Tiago de França

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Ressuscitados em Cristo Jesus


“Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse” (At 2, 23 – 24).

            Não era possível que a morte dominasse Jesus. Deus o ressuscitou! Este é o grande mistério celebrado nestes dias por milhões de cristãos em todo o mundo. A Páscoa é a celebração da vitória de Jesus, libertado das angústias da morte. Na ressurreição de Jesus todo aquele que nele crê tem a vida, experimenta a verdadeira liberdade de filho de Deus. Ressuscitando-o, Deus Pai nos apresenta, de uma vez por todas, o fim definitivo da pessoa humana e de toda a criação: a participação na vida plena, vida que dura para sempre. Solenemente, os discípulos de Cristo em nossos dias, gritam com voz forte e com o testemunho da própria vida, de cima dos telhados, esta feliz, esplendorosa e boa notícia: Jesus Cristo ressuscitou!

            A celebração do mistério sublime da ressurreição de Jesus Cristo também nos transmite uma feliz condição: a de vivermos como ressuscitados. A fé na ressurreição já nos introduz no mistério de uma vida de ressuscitados. Para compreendermos esta vida, precisamos olhar para a vida de Jesus, que nos abre a inteligência para a perfeita compreensão do mistério da sua ressurreição. Assim, sem levarmos em conta o mistério da sua vida, paixão e morte na cruz, somos incapazes de compreender a ação divina que o ressuscitou dentre os mortos. O ressuscitado é o crucificado, e este é aquele que amou até o fim. A fidelidade de Jesus no amor o levou ao madeiro da cruz e à ressurreição. Por isso, já descobrimos o sinal que evidencia o caminho que conduz à vida plena: a fidelidade no amor.

            Quando Jesus fez opção pelos pobres e excluídos, quando vivia sentado à mesa com os pecadores públicos, quando curou os enfermos e expulsou os demônios, quando desmascarou a infidelidade e a hipocrisia das autoridades civis e religiosas de seu tempo, quando anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus, enfim, quando, com palavras e gestos, buscou realizar a vontade do Pai, Ele nos ensinou a sermos fieis. Ser fiel no amor é amar até o fim. Não há regra nem convenção humana que possam se sobrepor ao amor. Portanto, para vivermos como ressuscitados precisamos viver como Jesus: amar como Ele amou. Certamente, é um desafio amar como Jesus amou, porque o amor de Jesus era incondicional, ou seja, ele amava na liberdade e para a liberdade.

            O amor incondicional é aquele que se manifesta na liberdade e na gratuidade. Se numa relação amorosa não existe liberdade, então aí não temos amor, mas relação egoísta. E onde há egoísmo não há amor. Amor e egoísmo são realidades incompatíveis. Se os outros não possuem lugar em nossos projetos e/ou planos de vida, então o amor não integra o nosso caminhar. Não há possibilidade de amar sem o encontro com os outros. Estes nos revelam o mistério de uma vida amorosa e plena. Sozinho ninguém é capaz de amar. O amor exige o sair de si mesmo na direção dos outros. Toda a vida de Jesus foi um constante encontro amoroso com os outros. Durante a sua peregrinação terrena, Jesus passou a maior parte do seu tempo amando as pessoas, servindo-as, generosa e gratuitamente. Ele sabia que a vida plena brota do amor.

            Sabemos, então, o remédio eficaz para a cura de nossos males: o amor. Não o amor discursivo, que é aquele conjunto romântico de palavras. Jesus não amava discursando, mas servindo aos outros. Ele certamente utilizava a palavra, mas a utilizava para manifestar o amor que experimentava na relação com as pessoas. Suas palavras revelavam o seu agir e a riqueza do seu coração. Amando, Jesus revelou o Deus que é amor. Em Cristo Jesus, Deus manifestou ao mundo a grandeza do seu amor pela humanidade. Revelou-nos também que pelo amor é possível a criação de uma nova humanidade. Esta é a sua opção. Desse modo, o amor é o critério fundamental para avaliarmos se estamos ou não em sintonia com Deus.

            Para vivermos como ressuscitados precisamos amar como Jesus amou. Não precisamos de grandes saberes, nem de ocuparmos grandes postos. A grandeza do amor se manifesta a partir das pequenas coisas, no cotidiano de uma vida simples. Até podemos conhecer muitas coisas e/ou ocuparmos grandes postos, mas estas coisas não constituem condição para experimentarmos o amor. Este é mais acessível aos simples, aos últimos e aos despojados. Para que o amor possa encontrar espaço em nossas vidas, precisamos abandonar o apego que muitas vezes temos às coisas, aos lugares e às pessoas. A quê e/ou a quem estamos presos? O que procuramos para sermos felizes? O amor liberta e nos faz experimentar a leveza da vida. A pessoa que verdadeiramente ama se parece com um pássaro: livre, leve e sem preocupações. O amor tudo assegura, porque se torna a única segurança na vida daqueles que amam. Quem não ama passou pela vida sem a experimentar.

            Quando nossos governantes aprovam e promovem medidas contrárias ao bem de todos, favorecendo determinados grupos políticos e empresariais, estão praticando o amor? Quando nossas Igrejas cristãs dão mais importância ao culto que à caridade fraterna, silenciam-se diante das injustiças, recusando-se a socorrer os injustiçados, estão praticando o amor? Quando as pessoas julgam, ofendem e matam em nome de Deus, estão praticando o amor? Quando, nas comunidades cristãs, líderes religiosos e demais pessoas optam por colocar as prescrições e as doutrinas religiosas acima do evangelho, excluindo aqueles que não as observam, estão praticando o amor? Quando, no cotidiano de nossas vidas, ignoramos ou tratamos as pessoas com indiferença, estamos praticando o amor? Para vivermos como ressuscitados precisamos rever estas e outras situações que nos falam da falta de amor.

            No amor o Cristo Jesus nos ressuscita para uma vida nova. Antes de sua morte na cruz, Ele nos ensinou o caminho: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 14, 34). O mandamento novo é amar como Jesus amou. Este é o caminho que nos faz viver como pessoas ressuscitadas, conhecedoras da vida em abundância, capazes de manifestar ao mundo a presença amorosa de Deus, deste Deus que amou tanto o mundo, que entregou o seu próprio Filho para a salvação de toda a humanidade. Para participamos da vida divina precisamos viver este amai-vos uns aos outros a exemplo de Jesus, que foi fiel até o fim no amor. Somente assim conheceremos, compreenderemos e participaremos do mistério pascal de Cristo Jesus.

Tiago de França

sexta-feira, 15 de março de 2019

Francisco e o ideal da Igreja em saída


“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 49).

            Evangélico e belo é o ideal da Igreja em saída, reforçado pelo Papa Francisco. Nestes dias, os católicos e muitos não católicos celebram os seis anos de seu pontificado. Também queremos oferecer algumas provocações sobre a contribuição do Papa Francisco à Igreja, com ênfase no tema da Igreja em saída, que parece ser o centro de sua eclesiologia, ou seja, da sua maneira de enxergar e conceber a Igreja e sua missão no mundo. Trata-se de um comentário breve ao número 49 da Evangelium Gaudium.

1. Uma Igreja enferma

            O Papa diz que enferma é a Igreja que se fecha em si mesma e se entrega às comodidades, agarrando-se às próprias seguranças. Quem conhece a história da Igreja, especialmente o período que vai do momento em que o cristianismo se tornou a religião oficial do império romano até o concílio Vaticano II, sabe que estas duas tentações sempre a perseguiram. Infelizmente, a Igreja caiu nestas duas tentações, dentre outras: fechamento e apego às próprias seguranças.

            O fechamento levou a Igreja a isolar-se do mundo. Ela se compreendia como uma sociedade perfeita. A hierarquia eclesiástica, separada dos leigos, vivia isolada do mundo. O clérigo era um ser separado, um privilegiado, alguém chamado à santidade. O ideal da santidade não contemplava a vida no mundo, mas se encerrava numa vida ascética, entregue à oração, aos estudos e à contemplação isolada nos claustros e residências religiosas. O sacerdote não era visto como um homem, mas uma espécie de entidade pura, vestida de preto (diocesanos) e outras cores (hábitos dos religiosos), únicos portadores do mistério.

            Muito facilmente, os clérigos se sentiam como pessoas que estavam acima das demais. No seminário era ensinado que este estilo de vida correspondia à vontade de Deus. Não era dito aos leigos que eles eram chamados à santidade, pois viviam no mundo. Entendia-se que quem vivia no mundo era mundano. No espaço público, a Igreja aparecia como manifestação pública da fé, que ocorria por meio das quermesses, procissões, acordos políticos bilaterais etc. Antes da Reforma Protestante do séc. XVI, entendia-se que o mundo deveria ser cristão católico. Para ser salvo era necessário se converter à fé cristã católica.

            Uma Igreja fechada em si mesma também é uma Igreja voltada para si mesma, preocupada em ser o centro, presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos. A burocracia religiosa é um fenômeno típico deste modelo ultrapassado de Igreja: regras para tudo, e parte delas existia para dificultar o caminho de acesso à graça de Deus. Até hoje algumas permanecem, apesar das exortações do Papa, que tem insistido no desaparecimento delas.

            Fechada em si mesma, a Igreja não tem interesse naquilo que acontece no mundo e, consequentemente, também não se preocupa com a vida das pessoas que habitam o mundo. Os próprios interesses passam a ocupar o centro das atividades eclesiais, marginalizando-se, assim, o anúncio do Evangelho de Jesus. Desse modo, a Igreja perde a sua razão de ser, pois nasceu para evangelizar. Uma Igreja fechada em si mesma também não está aberta às surpresas de Deus.

            Outra pedra de tropeço na longa história da Igreja é o apego às próprias seguranças. Certamente, toda instituição precisa de meios para desenvolver a sua missão. Com a Igreja não é diferente. Mas quando falamos de Igreja, não estamos nos referindo a uma instituição comum, mas de uma comunidade de crentes, instituída sobre a pedra angular, que é Jesus, o Messias. Jesus é o fundamento da Igreja e, portanto, a razão de ser e de existir da Igreja no mundo.

            Composta por mulheres e homens que vivem a experiência do pecado, a Igreja muitas vezes se desvia do caminho, perde o rumo da navegação no grandioso oceano da vida e da história. Pela fé, o Espírito a conduz, trabalhando diuturnamente, para direcioná-la a Deus. Em meio às fraquezas e quedas, ela muitas vezes se apega às próprias seguranças. A aquisição de um imenso patrimônio material e cultural, bem como as alianças com os poderes deste mundo, durante a sua longa história, fizeram com que a Igreja se transformasse em uma instituição dotada de poder humano.

            Quando se tem prestígio, poder e riqueza, corre-se o risco de se entregar a estas coisas. A confiança nestas coisas é caminho certo rumo à perdição. Desse modo, perde-se o horizonte da missão. Jesus deixa de ser a riqueza fundamental, sendo substituído pelas seguranças que o prestígio, o poder e a riqueza podem assegurar. A confiança em Deus fica gravemente comprometida, e começam a aparecer os escândalos que tem provocado uma ferida grandiosa na Igreja, ultimamente exposta aos olhares do mundo.

2. Uma Igreja em saída

            Na visão do Papa, a Igreja em saída é uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas. Para se ferir, acidentar-se e enlamear-se, a Igreja precisa sair de si mesma. Sair para onde? A missão da Igreja acontece neste mundo; mundo criado por Deus e lugar da sua manifestação. O povo de Deus vive no mundo, e os pobres do povo, que são os mais vulneráveis, vivem nas periferias do mundo. Parece óbvia esta realidade, mas não era a compreensão que se tinha antes do Vaticano II. A espiritualidade cristã pré-conciliar era marcada por uma escandalosa fuga do mundo. Com o concílio se descobriu que, fugindo do mundo, a Igreja não consegue cumprir o mandato missionário que recebeu de Jesus.

            Atualmente, há uma onda neopentecostal presente nas Igrejas cristãs, que tem revisitado algumas experiências espiritualistas da Igreja pré-conciliar. Esta onda também tem ressuscitado a espiritualidade marcada pelo desprezo às realidades do mundo e por uma fuga que, em muitos casos, chega a ser doentia. Há sinais evidentes daquilo que podemos chamar de esquizofrenia espiritual, ou seja, do cultivo de uma espiritualidade marcada pela mania de perseguição espiritual e outras perturbações congêneres. Não se vislumbra a caridade fraterna, presente no compromisso efetivo e afetivo com os injustiçados deste mundo. Fala-se em salvação das almas, como se estas existissem neste mundo sem o corpo ferido das pessoas, dos crucificados da história.

            Somente uma Igreja em saída é capaz de correr riscos em nome das grandes causas do Reino de Deus. As periferias existenciais são muitas, e o povo continua sendo vítima dos poderosos deste mundo. A sede e a procura por Deus continuam existindo, e a desorientação é generalizada. Assim como no passado, também hoje a Igreja é desafiada a ir ao encontro dos que clamam por justiça e paz. O mundo está cada vez mais efervescente: os conflitos estão se acirrando, e o sangue dos inocentes é constantemente derramado.

            Quem se unirá ao clamor das vítimas? Quem anunciará a Boa Notícia do Reino de Deus aos pobres? Quem tomará o partido dos injustiçados? As liturgias das Igrejas cristãs expressam o clamor das vítimas? A Igreja tem sino um sinal de comunhão com os que sofrem? Tem ela realizado o papel do bom samaritano, que cuidou das feridas do caído? Os líderes religiosos tem se identificado com o Cristo, Bom Pastor, aquele que foi capaz de dar a vida pelas pessoas? Constatam-se conflitos com os poderosos deste mundo por causa da opção pelos pobres e pela defesa da terra e seus recursos? O que tem sido mais importante: a vida das pessoas, ou as leis e/ou as prescrições legais? Estas e outras são questões que nos levam a enxergar a necessidade da conversão das estruturas institucionais e da mentalidade dos que professam a fé no seio das Igrejas.

3. Um Papa que convida à conversão

            O colégio cardinalício viu no cardeal Bergoglio a oportunidade providencial para chamar a Igreja à conversão. Na data de sua eleição, a Igreja católica estava sofrendo com a publicação de inúmeros escândalos sexuais, entre outros problemas. Isto comprometeu seriamente a imagem e a missão da Igreja. Assim que assumiu o pontificado, Francisco deu um novo tom na forma de o Papa falar, vestir, celebrar, pregar e estar entre as pessoas. Antes dele, a figura do Papa era muito protocolar. O pontífice aparecia de forma muito solene e pomposa, com linguagem, usos e paramentos antigos. Francisco permaneceu como vivia na Argentina: despojado e simples, próximo e profeticamente ousado. Utiliza uma linguagem acessível ao povo, e se esforça para não ser visto como um homem distante. A sua piedade é humilde.

            Porque não reforça a linguagem e a ideologia do poder clerical, o Papa encontrou e continua encontrando resistências entre leigos, seminaristas, padres, bispos e cardeais. Nos EUA, um arcebispo pediu, publicamente, a renúncia do Papa. Estes conflitos no alto escalão da Igreja se tornaram público, e ele tem sido sábio no enfrentamento de seus adversários. Aos opositores tem respondido levando uma vida dedicada à oração, à acolhida das pessoas e ao anúncio corajoso do Evangelho. Aos clérigos, seus discursos tem sido enfáticos, combatendo o mal do clericalismo, tão antigo e enraizado na vida da Igreja, e causador de inúmeros pecados e até crimes eclesiásticos.

            Não é o Papa sozinho que mudará toda a Igreja. A conversão desta não depende somente de uma pessoa. Nem que o Papa se utilizasse de todo o seu poder de mando, exercendo-o de forma autoritária, de cima para baixo, mesmo assim a Igreja não mudaria. O autoritarismo não provoca mudanças, mas causa feridas. A conversão não passa pelo uso do poder. Pelo menos o poder não foi o remédio dado por Jesus para a conversão das pessoas. Uma vez convertidas, estas são capazes de transformar o mundo e a Igreja. Não adianta mudar as estruturas se as pessoas estão viciadas. Também não adianta defender que as estruturas não podem ser mudadas. A conversão das pessoas provoca a conversão das estruturas. Pessoas renovadas em estruturas ultrapassadas é como o vinho novo em odres velhos.

            É verdade que o Papa tem se esforçado para transformar a Igreja numa verdadeira Igreja samaritana, disposta a servir os caídos nas estradas do mundo. Ele tem apontado nesta direção. É verdade também que muitas coisas permanecem do mesmo jeito, sem mudanças substanciais. Neste caso, não basta ter boa vontade, mas é preciso também contar com a força das circunstâncias. A Igreja não é uma instituição nova, portanto, assim como as suas estruturas foram sendo formadas ao longo de séculos, a desconstrução, reconfiguração e/ou atualização requerem tempo e enfrentamentos. O apego e as disputas pelo poder tem atrapalhado muito o processo de conversão das estruturas e das pessoas na Igreja.

            Não condenar, mas reabilitar teólogos; não julgar, mas acolher as pessoas cansadas e atribuladas; não recuar, mas denunciar os crimes do sistema capitalista selvagem; não acobertar, mas provocar a discussão sobre os abusos sexuais praticados por clérigos e religiosos, buscando soluções possíveis; não somente ensinar e exortar, mas abrir o ouvido para o exercício da escuta das pessoas e das vítimas; não compactuar, mas chamar as lideranças eclesiásticas para a experiência da conversão do coração e da mente; não se distanciar, mas falar e agir com simplicidade e proximidade; não abusar do poder, mas confiar no auxílio do Espírito que sonda todas as coisas... Estas atitudes de Francisco tem ajudado muita gente a entrar no caminho de Jesus e nele perseverar.

            Que este mesmo Espírito faça brotar e frutificar no seio da Igreja e neste mundo dividido por discórdias, as sementes da justiça e da paz semeadas por Francisco. E que seu pontificado perdure por mais alguns anos, para que o ar da primavera continue circulando no seio da Igreja, esta embarcação que tem sobrevivido às águas agitadas do mar da vida. Sejamos, pois, esperançosos!

Tiago de França