sábado, 19 de janeiro de 2019

O vinho que nos faz irmãos


            Conta-nos o evangelista João que Jesus, sua mãe e seus discípulos participaram de um casamento em Caná da Galileia (cf. Jo 2, 1 – 11). O texto fala que neste casamento, Jesus realizou seu primeiro sinal e “seus discípulos creram nele”. O evangelista não fala em milagre, mas em sinal. Falar em sinal é apontar para algo mais profundo, de cunho mais existencial; é referir-se ao sentido mais profundo da missão de Jesus, missão que revela o rosto misericordioso de Deus Pai.

            Com o passar do tempo, os cristãos foram criando uma cultura religiosa dos milagres, que transformou Jesus em um milagreiro. Isto prejudicou gravemente o significado da missão do cristão e das Igrejas, que é o seguimento de Jesus. Muita gente não conhece o caminho de Jesus, não sabem o que significa segui-lo. As pessoas procuram por milagres. Elas veem em Jesus a solução para seus problemas, sejam quais forem. Jesus foi transformado numa força poderosa capaz de fazer milagres. Uma vez alcançado o milagre, Jesus é descartado ou deixado de lado.

            Quando ligamos a TV e assistimos aos canais religiosos, o que vemos? Líderes religiosos falando de milagres, curas e prodígios. Em troca de dinheiro, milagres acontecem. Trata-se de um mercado religioso promissor, que enriquece a muitos. Não se fala em outra coisa a não ser em milagres. Estes líderes religiosos criam um outro Jesus e um outro evangelho para satisfazer a sua sede de dinheiro e poder.

Alguns são mais discretos, outros mais agressivos. Mas o objetivo é o mesmo: arrecadar muito dinheiro para alimentar a vaidade pessoal e familiar. O dinheiro não serve para a caridade. Esta palavra é ignorada por eles. O Jesus milagreiro do neopentecostalismo cristão exige somente o depósito em dinheiro e uma suposta confiança na palavra do líder religioso. Tudo gira em torno do dinheiro. Prega-se que este funciona como o combustível da fé. Sem dinheiro não há fé nem milagres.

Jesus sabia que as pessoas tem esta tendência, que vai na contramão do Reino de Deus: a busca exclusiva por milagres. Os sinais de Jesus revelam que o milagre por excelência é segui-lo. Colocar-se em seu caminho é a missão a que cada cristão é chamado. No caminho de Jesus encontramos a vida plena. Caminhar com Jesus é o milagre que precisamos para termos vida em abundância. Quem caminha com Jesus se torna íntimo dele, participa da sua vida e da sua missão.

A gente caminha com Jesus participando da vida das pessoas, aproximando-nos delas. Jesus foi ao casamento, e foi informado pela sua mãe que o vinho faltou. Imaginem a vergonha que os noivos passariam se Jesus não os socorresse! Como numa festa de casamento pode faltar bebida? A presença de Jesus assegurou que nada faltaria, e Maria, sua mãe, sabia disso. Ela viu a falta do vinho, informou a situação a Jesus e recomendou que os discípulos fizessem conforme orientasse. Maria confiou em Jesus.

Em nossa vida de crentes, Jesus é o vinho que não pode faltar. Por que a gente não pede pra Jesus permanecer em nossa vida? Precisamos rever essa nossa mania de procurá-lo somente quando precisamos de um milagre. Ele quer habitar em nós. Quando Jesus está em nós, nos transformamos em vinho de primeira qualidade na vida das pessoas. Somente Jesus é capaz de nos transformar desde o mais profundo de nós mesmos. Este parece ser o milagre de Caná hoje. Quando o vinho aparece, a festa é certa e exitosa. Nada falta. A alegria e a abundância caracterizam uma vida festiva e feliz.

Outro aspecto revelador que a presença de Jesus nas bodas de Caná revela se refere ao caráter festivo da ocasião. Jesus manifestou o seu primeiro sinal em um casamento fora do templo e da sinagoga. Assim, ele nos revela que Deus é festivo, é pura alegria, puro gozo e confraternização.

Muitas vezes, somos tentados a carregar em nós a imagem de um Deus triste, que vigia, pune e castiga, um Deus perseguidor. Jesus nos fala que Deus é o Pai da alegria e da festa sem fim. Quem permanece em Deus experimenta a verdadeira alegria, aquela que não passa e que não é provocada pelos prazeres passageiros que a vida oferece.

A alegria que não passa vem da certeza da presença divina em nós. Desse modo, a nossa vida é uma festa sem fim, mesmo quando somos atingidos pelo sofrimento e pela tristeza momentânea. Esta alegria que vem de Deus é a única capaz de nos conceder paz ao espírito e aos ambientes que frequentamos. Uma vez alegres e em paz, contagiamos outras pessoas com as energias oriundas da alegria e da paz de espírito. Há muita gente que precisa de alegria e paz, e quem segue a Jesus é chamado a partilhar com os outros o vinho da alegria e da paz.

Por fim, cabe-nos ouvir a recomendação de Maria, ao perceber a falta do vinho no casamento de Caná da Galileia. Diz ela a seus discípulos: “Fazei o que ele vos disser”. Imediatamente após esta recomendação materna, Jesus manifesta o seu sinal: transformou água em vinho. Foram seis talhas, de mais ou menos cem litros cada uma. Jesus não oferece pouco, mas muito e de boa qualidade.

Assim é Deus: maravilhosamente infinito, cheio de amor. O seu amor é sem fim. Ele quer viver em nós, preenchendo-nos infinitamente. É o amor que nos concede a vida sem fim. O amor é este vinho bom, sem o qual estamos perdidos eternamente. Eis o que Jesus nos diz hoje: Sejam vinho bom e abundante na vida uns dos outros, pois é para o amor que vocês foram chamados.

Não sejamos fel e vinagre na vida dos outros, mas vinho saboroso, abundante. Em comunhão com o Deus festivo, a nossa vida se transforma em dom precioso para a vida do mundo. Nisto reside a felicidade, a alegria e a paz que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas.
Tiago de França

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A ilusão das armas


        Há muitos problemas no Brasil: o desemprego, a violência e a corrupção são os maiores. Quais medidas o governo está propondo para resolvê-los? Nem durante a campanha nem após a eleição, Bolsonaro pronunciou a palavra emprego. Não parece preocupado com a triste situação dos mais de 12 milhões de desempregados.

            No que tange à violência, quando deputado pelo Rio de Janeiro, Bolsonaro nunca propôs nada para ajudar aquele estado. O ex-juiz federal e atual ministro da Justiça e Segurança Pública só fala em combater a corrupção. Parece que não se deu conta de que se tornou ministro da segurança pública.

Em relação ao problema da violência, até agora não propôs absolutamente nada. O estado do Ceará está um caos, e a única medida tomada foi a mesma do governo Temer: envio das forças armadas, como se estas resolvessem alguma coisa.

Considerando a forma como estão tratando o caso dos ex-assessores e motorista da Família Bolsonaro, bem como do caixa 2 do ministro da Casa Civil, o combate à corrupção será igual ao que ocorreu na operação Lava Jato, que combateu somente a corrupção de pessoas ligadas ao PT e aos governos petistas. Nada se fez até agora para investigar, processar e punir políticos não petistas como Temer, Aécio, Beto Richa, Geraldo Alckmin e outros.

            Facilitar o acesso às armas não é uma medida que visa promover a segurança pública. Se assim fosse, os EUA seriam um país seguro. Todos sabemos que os norteamericanos são conhecidos no mundo pela violência, pela quantidade insuperável de pessoas presas e pela chacina de pessoas. O povo daquele país vive em estado de alerta.

            No Brasil, a situação não é diferente: caminhamos para a cifra de 800 mil pessoas encarceradas; mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano; a violência e o crime organizado dominam a sociedade. O Estado não sabe nem tem interesse de resolver a situação. Vive adotando medidas paliativas para passar a ideia de que está tomando providência. O atual governo foi eleito sem nenhum projeto para esta área. Os brasileiros continuarão sendo assassinados, principalmente os mais pobres.

            Com armas em casa, as pessoas terão mais facilidade de matar umas às outras. O decreto assinado pelo presidente dá liberdade para a posse de até 4 armas por pessoa. Está mais que clara a intenção do presidente: facilitar para que os brasileiros se matem. Assim, se reduz os gastos do governo. Gente morta é sinônimo de economia de gastos. É uma forma diabólica de conter o número da população. Esta parece ser a ideia central.

            O decreto do governo beneficiará, em primeiro lugar, à indústria das armas. Esta é a primeira interessada a beneficiada. Também os criminosos serão beneficiados, pois poderão roubar e furtar armas nas residências das pessoas. Por fim, aqueles que possuem um desejo oculto de matar pessoas também estão felizes com a medida. A partir de agora poderão ter armas para eliminar seus inimigos. Usar as armas para a legítima defesa é o que menos se verá acontecer.

            Não é nenhum exagero afirmar, categoricamente, que os responsáveis pelo sangue das vítimas desta medida são o presidente que a adotou, seus correligionários e as pessoas que o elegeram. O banho de sangue certamente será mais intenso. Os mais pobres que se cuidem!

Tiago de França

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Para promover a paz


Hoje, 1° de janeiro, celebramos o Dia Mundial da Paz. A paz não é fruto do mero desejo das pessoas. Não basta apenas desejar. É necessário ser pacífico. Promover a paz é responsabilidade de toda pessoa que habita este mundo. A paz é um bem universal, e um direito humano fundamental. Sem ela ninguém consegue ser feliz. O processo autêntico dos povos depende, necessariamente, da promoção da paz.

No início deste segundo milênio estamos diante do crescimento assustador da cultura da violência e da morte. Crescem no mundo as forças de morte. Países, instituições e pessoas promovem a violência, e milhões de pessoas são brutalmente assassinadas, dia após dia. Criam-se justificativas de todo tipo para tentar convencer as pessoas de que as mortes em massa são justificáveis e até necessárias. Todas estas justificativas são falsas.

No Brasil, também estamos diante deste fenômeno genocida. Anualmente, mais de 60 mil pessoas são assassinadas. A grande maioria delas pertence à classe dos excluídos. Os ricos estão protegidos, e os pobres são assassinados. O Estado é responsável pela morte de milhões de brasileiros. O Estado se tornou inimigo do povo. Ao invés de cuidar das pessoas, adotada medidas para explorá-las e matá-las.

Uma destas medidas será adotada nestes dias, pelo presidente eleito, que será empossado hoje: facilitar o porte de armas. Quem comprará estas armas? Os ricos. Para que servem as armas? Para matar pessoas. Quem são estas pessoas? São as de sempre: maioria jovem, pobre, negra e sem instrução. O presidente eleito e parte dos seus eleitores acham que está é a solução para diminuir a violência no Brasil: matar pessoas.

Para quem professa a fé em Jesus, a liberação ou facilitação do acesso às armas é uma medida contrária à Lei de Deus. O verdadeiro cristão não aceita este tipo de medida porque acredita que Deus é vida e amor. O quinto mandamento da Lei de Deus é claro: Não matarás! Matar uma pessoa é crime e pecado grave. Quem crê em Deus não mata o próximo. Derramar o sangue do próximo é ação abominável diante de Deus. Nada, absolutamente nada, justifica matar alguém.

O Deus e Pai de Jesus é o Deus da Vida, e não da morte. Toda pessoa é filha de Deus em Jesus Cristo. Matar alguém é matar um filho de Deus. Deus pedirá contas do sangue dos seus filhos, derramado pelos assassinos. Quem mata se torna assassino. Não há outra qualificação para este tipo de ação. O Estado tem que assumir a sua responsabilidade na segurança pública. Fazer justiça com as próprias mãos é atitude criminosa. O cidadão paga imposto para ter o direito à segurança pública, que é dever do Estado. Liberar o acesso às armas é falta de responsabilidade estatal. Não é o cidadão o primeiro responsável pela segurança pública, mas do Estado.

Por fim, é preciso dizer que não adianta desejar a paz sendo favorável à liberação do porte de armas. Não sejamos hipócritas! Se nossa opção é pela vida, então sejamos favoráveis às medidas que promovem a vida e a dignidade das pessoas. Basta de criminalização dos pobres e dos movimentos sociais que lutam pela justiça e paz social!

Não basta desejar a paz e um feliz ano novo. Na verdade, precisamos, urgentemente, em nossas relações com as pessoas e com a natureza, sermos pessoas pacíficas. Ser pacífico é mais que uma atitude, é um estilo de vida. Ser pacífico é ser justo para o nosso bem e para o bem de todos. Cultivemos, pois, o amor, a justiça, o respeito, a solidariedade, a participação e a tolerância em nossas relações. Assim, construiremos a paz que desejamos. As armas matam, jamais constroem a paz.

Um bom ano a todos! Muita força para lutarmos por um mundo mais justo e fraterno.

Tiago de França

domingo, 30 de dezembro de 2018

O deus dos poderosos


Neste ano, especialmente durante o período eleitoral, assistimos a muitas invocações do nome de Deus. Muitos políticos usaram o nome de Deus e a religião cristã para se beneficiar. Eles sabiam que o brasileiro é, de modo geral, religiosamente conservador, e passaram a defender, verbalmente, os valores da tradição cristã.

Eles sabiam também que este mesmo brasileiro, de tipo conservador, geralmente não faz nenhuma ligação entre fé e vida. Ao mesmo tempo em que defende os valores tradicionais, com ênfase nos valores da família, este tipo de brasileiro viola as leis e os valores que verbalmente defende.

A defesa verbal dos valores tradicionais não é sinônimo de integridade moral. Muitos mentirosos defendem a verdade para esconder suas mentiras; muitos ladrões defendem o combate à corrupção para esconder seus furtos e roubos; muitos adúlteros e estupradores defendem a moral e os bons costumes para esconder adultérios e estupros; entre outros absurdos.

O mesmo ocorre com a invocação do nome de Deus: na maioria dos casos se trata de transgressão do segundo mandamento do Decálogo. Invoca-se o nome de Deus em vão para criar na cabeça das pessoas a imagem de uma religiosidade e piedade aparentes. Deus e religião são duas realidades diferentes. Por isso, é possível que uma pessoa seja religiosa e não creia em Deus. É o que assistimos nestas falsas invocações do nome de Deus.

Um crente fiel não invoca a Deus para enganar as pessoas. Transformar Deus em um instrumento de manipulação é um pecado gravíssimo. Isto não é cristianismo, mas falsa religiosidade. Deus é incompatível com o discurso de ódio e com a proliferação das fake news (notícias falsas) veiculadas nas eleições deste ano.

Quem se utiliza da mentira de forma sistemática para enganar as pessoas e, desse modo, alcançar o poder político, não crê em Deus. Este tipo de prática é incompatível com a fé cristã. Deus não é o responsável pela vitória do presidente eleito do Brasil. Deus não enviou o presidente eleito para governar o Brasil. Isso é falso messianismo e hipocrisia religiosa. Deus não tem parte com a mentira nem com a cultura da eliminação do outro, práticas defendidas nas eleições deste ano.

Deus é Amor e Liberdade. Quem semeia o ódio e a perseguição a pessoas e grupos sociais não tem parte com Deus. O autoritarismo e as promessas de cortes dos direitos fundamentais e garantias dos cidadãos são práticas que não podem ser toleradas nem praticadas por autênticos cristãos.

O cristianismo não nasceu com a pretensão de colaborar com o sistema de opressão dos povos. Quando isto ocorre, estamos diante de um gravíssimo desvio. A mensagem de Jesus está pautada na fraternidade, na solidariedade, na justiça, no amor, na cultura do encontro e da tolerância, na fé e no respeito à diversidade da cultura, das crenças e dos modos de ser. O cristianismo só é verdadeiro somente quando trilha o caminho do amor, da justiça e da liberdade, tal como concebido por Jesus.

Precisamos aprender com o que aconteceu em 2018. O saldo total deste ano jogou o País no precipício. Para não sermos totalmente engolidos pelos males que se avizinham, as pessoas precisam manter viva a esperança ativa, que é aquela que nos coloca no caminho da resistência. Para trilhar este caminho é necessário acreditar na construção de outro mundo possível, e arregaçar as mangas para lutar com ternura, inteligência, estratégia, união e perseverança. Estas são minhas considerações finais para este ano que aos poucos termina.
Tiago de França

sábado, 15 de dezembro de 2018

Para acolher Jesus que vem


“Que devemos fazer?” (Lc 3, 10)

            O profeta João Batista, enviado para preparar o povo para receber o Messias, fala-nos da necessidade da conversão. Em simples palavras, converter-se é mudar de vida: sair da escravidão do pecado para experimentar a liberdade dos filhos e filhas de Deus. É claro que somos pecadores, e Deus conhece a nossa condição de gente fraca e resistente à sua graça. Mas apesar de sermos pecadores, também fomos, em Cristo Jesus, elevados à dignidade de filhos adotivos do Pai. Aqui reside a nossa alegria e salvação.

            Aquele que é enviado por Deus conhece a vontade de Deus. Na caminhada da missão, Deus vai revelando o significado da missão de cada pessoa que é chamada. Assim aconteceu com João, o Batista. Este era um profeta de Deus. E todo profeta fala e age de acordo com a iluminação divina. Deus se serve dos profetas para agir na Igreja e no mundo. Sem os profetas, a Igreja não consegue realizar a sua missão no mundo. Deus vai suscitando profetas e profetisas no meio do seu povo, de acordo com a necessidade e as circunstâncias.

            Antes de Jesus iniciar, publicamente, a sua missão, era necessário que João, filho de Zacarias e Isabel, endireitasse as veredas para o Messias chegar. Segundo João, Jesus é aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo (cf. Lc 3, 16). João era um profeta tão reconhecido entre o povo, que muita gente pensava que ele seria o Messias. Mas não se demorou em esclarecer: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. O Messias é Jesus, mais forte do que João.

            Todo profeta continua exercendo esta missão do profeta João: encaminhar o povo para Deus, apontando o caminho da conversão. As multidões perguntavam sobre o que deviam fazer para acolher o Messias, e a resposta do profeta aponta para o núcleo fundamental do caminho que conduz a Deus: o amor. Às multidões, recomendou que se partilhasse o pão e as roupas; aos cobradores de impostos, pediu que não explorassem o povo; aos soldados do império romano, exortou-os a não extorquir os pobres nem mentir nos testemunhos contra eles (cf. Lc 3, 11-13).

            Também hoje, a recomendação permanece a mesma: todos, sem exceção, são chamados a viver o amor, que é solidariedade concreta nas relações entre as pessoas e com a natureza. Em nome de Jesus, precisamos recomendar aos nossos governantes: respeitem os direitos adquiridos a duras penas pelos pobres! Parem de explorar os pobres com altos impostos, e cobrem mais dos ricos! Parem de mentir, com promessas enganosas e discurso anticorrupção vazio! Promovam o bem comum e trabalhem na defesa da terra, nossa mãe! Cessem a política de criminalização e matança dos pobres nas pequenas e grandes cidades! Criem políticas públicas que reduzam a desigualdade social! 

            Estas e outras recomendações devem estar na boca dos profetas. Mas onde estão os profetas? Assistimos a muitas injustiças e pouca profecia. Quem, hoje, está denunciando, em alto e bom som, o que está acontecendo no Brasil? Por acaso não é tempo de profecia? O Espírito Santo permanece conosco. Por que resistimos ao seu apelo? Ou será que tudo está conforme a vontade de Deus?

Por que os bons silenciam, enquanto os maus avançam com seus projetos de morte? Onde estão os discípulos missionários de Jesus? O nosso culto está em sintonia com o que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo? O que estamos celebrando em nossas liturgias? Por que tantos que se dizem cristãos compactuam com os projetos de destruição e morte do povo de Deus?... Precisamos, individual e comunitariamente, pensar e meditar estas questões.

O Pai, que nos enviou o Filho, espera que caminhemos com ele. Jesus está presente no mundo. Ele não está sentado, confortavelmente, ao lado de Deus, assistindo, passivamente, as desgraças que acontecem no mundo. Com a celebração do Natal, iremos proclamar que ele é o Emanuel, o Deus que permanece conosco. A nossa fé, que se revela no amor que demonstramos no cotidiano, nos fala desta presença amorosa de Deus.

Para acolher Jesus que vem é necessário este amor que salva. Nada nesta vida salva: dinheiro, poder, prestígio, e tudo o que destas coisas decorrem. Nada disso salva. Nada disso edifica. Enquanto comunidades de crentes em Jesus, precisamos tomar uma atitude urgente: colocarmos o amor no centro de nossa vida, e revermos esse cristianismo que temos. Como pode prosperar diante de Deus um cristianismo sem amor? De que vale dizer que tem fé, mas sem amor a Deus e ao próximo?

A partir daquilo que fazemos, precisamos rever o nosso modo de ser. Nossos gestos revelam o amor de Deus? Amamos mesmo, ou fingimos que amamos? A gente é presença amorosa, ou estamos perdendo tempo em discussões religiosas e teológicas secundárias? Sem o amor, a gente pode até praticar perfeitamente a religião, mas estaremos longe de Deus. Urgentemente, precisamos mais de amor e menos religiosidade sem amor. As duas realidades podem e deveriam caminhar juntas: amor e religião, mas a situação na qual nos encontramos tem demonstrado que tais realidades caminham cada vez mais separadas.

            A prova disso é o que temos visto no Brasil e no mundo: muita indiferença, preconceito, racismo, inúmeros tipos de violência, marginalização social etc. A cultura do ódio cresce cada vez mais: ódio aos pobres; aos gays, travestis, lésbicas e transexuais; ódio aos índios e negros; ódio às pessoas que constituem o que Dom Helder Câmara chamava de “minorias abraâmicas”.

Milhões de brasileiros se declaram católicos e protestantes, mas a violência cresce cada vez mais. Onde está a crença de tantos milhões de pessoas? Como estão sendo evangelizadas? O que estão escutando da boca dos líderes religiosos? Nestes dias, os católicos celebram o Tempo do Advento, tempo de espera e de preparação para a celebração do mistério da encarnação de Jesus, o Filho de Deus. Como cada um está preparando e celebrando estes dias? Que o Espírito de Jesus nos converta, e nos ajude a sermos verdadeiramente amorosos. Fora do amor não existe fé em Jesus nem salvação.

Tiago de França

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos


           No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU, em Paris, adotou o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Trata-se de um texto que traz um conjunto de princípios norteadores para a construção da solidariedade, da justiça e da paz no mundo. Considerando a atual situação do Brasil, temos alguma coisa para comemorar? Vivemos tempos sombrios.

            Apesar do trágico cenário no qual estamos inseridos, precisamos considerar que temos um número significativo de pessoas e instituições que, diuturnamente, lutam na defesa e promoção dos direitos humanos. São pessoas que vivem sendo constantemente ameaçadas. São instituições que carecem, muitas vezes, de apoio e reconhecimento. Mas mesmo assim, permanecem firmes e perseverantes na luta pelos direitos humanos.

            Um grande número de brasileiros, infelizmente, induzidos por um grupo de gente ignorante e maliciosamente interesseira, pensam que “direitos humanos só servem pra proteger bandido!” Esta afirmação é famosa, e nas eleições deste ano, o eleito presidente da República insistiu em dizer que comunga com este pensamento. Lastimavelmente, este eleito foi diplomado hoje. Na verdade, não foi diplomação, mas puro deboche.

            A ideologia “direitos humanos só servem pra proteger bandido!” revela a ignorância de grande parcela do povo. É uma ideologia que beneficia os ricos e poderosos do País. Estes são os que vivem à custa do suor e do sangue da maioria. Esta minoria rica não está preocupada com a situação dos pobres, negros, crianças, mulheres, indígenas, quilombolas, LGBTs, jovens, idosos e outras categorias de gente excluída. Esta multidão constitui as minorias do País.

            Quando afirmam que os “direitos humanos só servem pra proteger bandidos!”, na verdade, estão querendo esconder a triste realidade brasileira, que tende a se agravar nos próximos anos. Quem quiser ter uma ideia de como serão tratados os direitos humanos nos próximos anos, basta observar o currículo e o histórico dos ministros indicados pelo presidente eleito. Não é possível que estes indicados traiam as suas biografias. Certamente, vão agir conforme o currículo e o histórico que possuem. São figuras assustadoras.

            Qual é a nossa situação? Por mais que a mídia tente desviar o foco das atenções do público, a realidade está aí, nua e crua. Somos um País marcado pela matança de pessoas. Fere-se, facilmente, o direito à vida. Mais de 63 mil pessoas são assassinadas a cada ano. Somos o País que mais mata travesti no planeta terra. Milhares de mulheres são desrespeitadas, estupradas, espancadas e mortas. O machismo é uma das marcas da nossa “cultura”.

            A concentração de renda cresce cada vez mais, ao mesmo que tempo em que cresce, assustadoramente, o número de pobres e miseráveis. Estamos voltando ao mapa da fome. Nossos adolescentes e jovens terminam o ensino médio (quando terminam!), sem saber ler e escrever corretamente. A falta de educação de qualidade para todos faz crescer o número de analfabetos funcionais, bem como daqueles que não tem a mínima noção da realidade: brasileiros que não tem noção do que está acontecendo no Brasil.

            Os presídios estão lotados de pobres, negros, analfabetos e pobres. Somos o terceiro país do mundo com o maior número de presos, sendo que um terço deles estão aguardando julgamento, ainda. A grande maioria, quando consegue cumprir a totalidade da pena imposta, não consegue reconstruir a própria vida. A maioria retorna ao mundo do crime. Dia e noite, nossos policiais matam e morrem. E o que o governo manda fazer é: Matem mais! “Bandido bom é bandido morto!” Este “bandido bom” é o favelado, pobre, negro e jovem: os sem nada na vida!

Apesar do aumento da insegurança, continuam acreditando que matar é a solução. Para isso, reivindicam a liberação do porte de armas e a excludente de ilicitude para policiais, dando-lhes poder para matar, indiscriminadamente. A vida humana perdeu o seu valor. Quem mata é aplaudido e condecorado. Matam cinco suspeitos e aparecem cinquenta. Há um círculo vicioso de mortes dos pobres. Ninguém vê gente rica sendo morta nem punida na forma da lei, pelos crimes que pratica. O aparelho estatal é usado para mandar matar, para dar a impressão de que o Estado está cumprindo o seu papel.

O desmatamento da Amazônia cresce a cada dia. Os ricos compram terras e invadem outros. Os grandes invasores de terras no Brasil são os ricos, verdadeiros grileiros. Para isso, expulsam os povos originários de suas terras, e tomam as que pertencem à União. A regra é desmatar para produzir. Dizem que é para produzir riqueza para o país, para que o PIB (Produto Interno Bruto) cresça. Mas este PIB cresce para quem? Para os ricos. O PIB cresce, mas os pobres permanecem na miséria e a desigualdade social aumenta.

Na escola, a violência virou quase a regra. Há a ilusão de que se ensina e se aprende. E para completar a situação, querem impor a “Escola sem partido”. Esta significa: Escola com o partido do governo eleito. Trata-se da junção da doutrina neoliberal com o conservadorismo. Querem ensinar às crianças e jovens que o melhor para os EUA é o melhor para o Brasil, e que ser patriota significa ser gerenciado pelos EUA.

Acredita-se que os norteamericanos querem ajudar o Brasil a se transformar numa potência econômica. Além disso, desejam também trabalhar uma agenda conservadora, alicerçada nos valores tradicionais exclusivistas, cujo resultado será o controle da maioria sobre as minorias. A regra é transformar o Brasil em um país cristão, sendo o fundamentalismo a marca deste cristianismo. Os que desejam impor este conservadorismo extremado afirmam que os “direitos humanos é coisa de comunista!”

Estas e tantas outras situações revelam uma sistemática violação dos direitos humanos no Brasil. É um fato que muito nos envergonha perante o mundo. De uns tempos para cá, principalmente após o golpe parlamentar de 2016, o Brasil tem ganhado a fama de ser um país intolerante e marcado por inúmeras e graves violações. Assim como em muitas partes do mundo, cresce no Brasil a cultura da intolerância e desrespeito às liberdades individuais e coletivas. Os direitos fundamentais são tratados como se fossem privilégio de grupos isolados, o que, na verdade, são direitos de todos, que devem ser assegurados pelo Estado.

O que fazer diante desta situação triste e vergonhosa? Certamente, as pessoas precisam tomar conhecimento do verdadeiro significado dos direitos humanos. Precisam, definitivamente, aprender que estes direitos são universais, inalienáveis e imprescindíveis à promoção da dignidade da pessoa humana. É necessário que surjam líderes para reunir o povo, para despertar a consciência crítica e o interesse em agir coletivamente para que se crie uma cultura da resistência. Com criatividade, ousadia e coragem, partindo da realidade dos pobres, é possível criar outro mundo possível, alicerçado na justiça que constrói a paz.

É urgente que as pessoas se reúnam e se organizem nas Igrejas, nos partidos políticos, nas associações e sindicatos, utilizando das mídias sociais e outros meios, para a construção de uma ampla frente de resistência popular. Somente assim é possível preservar os direitos conquistados e conseguir que outros sejam implementados.

Governos autoritários e inclinados à corrupção somente podem ser vencidos na força da resistência organizada e consciente do seu papel. Sem organização que vise a promoção do bem comum, restará somente um povo que reclama, mas que não luta pela sua libertação. Hoje, como em outras épocas, buscando novas formas de organização e manifestação, resta-nos trilhar o caminho da liberdade. Sim, isto é possível. Não podemos nos curvar diante dos que nos oprimem. O ser humano é chamado a ser livre, e somente se realiza na liberdade.

Tiago de França

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O anúncio do Evangelho de Jesus nas redes sociais


         As redes sociais constituem lugar apropriado para o anúncio do Evangelho de Jesus. Não é pequeno o número daqueles que utilizam Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, WhatsApp e tantas outras mídias sociais, no Brasil e em todo o mundo. São bilhões de pessoas conectadas, compartilhando notícias, fotografias, eventos etc.

Há pessoas de todos os tipos nas redes sociais, com intenções diversas. Por isso, também encontramos criminosos, camuflados em perfis falsos. Há aqueles que cometem crimes sem a necessidade de perfis falsos. Infelizmente, tais pessoas transformam as redes sociais em espaço de guerras virtuais, onde ocorrem à calúnia, difamação, injúria e tantos outros tipos de ofensas à honra das pessoas. A troca de acusações é uma constante, bem como a difusão das notícias falsas (fake news).

            Estes e outros abusos transformam as redes sociais em um lugar onde reina a superficialidade. No mundo virtual as pessoas tendem a ser superficiais, passando a exercer papeis que não seriam capazes de desempenhar no mundo real. Há uma multiplicação de comportamentos indignos de um ser verdadeiramente humano. Claro que não são todas as pessoas que se utilizam das redes sociais para assim proceder, mas, infelizmente, o número dos dissimulados não é insignificante.

            Por outro lado, também encontramos boas pessoas, que compartilham boas  e verdadeiras notícias. As redes sociais oferecem a feliz oportunidade do encontro e reencontro entre as pessoas, bem como a possibilidade de as pessoas conhecerem outras, para novas amizades. O mundo se transforma em uma “aldeia global”.

Por meio das redes sociais é possível o acesso e o conhecimento de novas realidades culturais, o compartilhamento de ideias, sonhos e visões de mundo. Para muita gente é, também, oportunidade de conhecimento humano e afetivo, que, em muitos casos, desemboca em relacionamentos duradouros.

            Segundo os indicadores atuais, os que mais utilizam as redes sociais são os adolescentes e jovens. Deve ser pequeno o número de jovens que não possuem algum tipo de rede social. Isto é uma faca de dois gumes: por um lado é bom, por outro é ruim. Dependendo da forma e da intenção com a qual se utiliza, as redes sociais podem ser perigosas, mas também podem ser benéficas. No parágrafo anterior apontamos alguns dos benefícios, mas há um grande risco que queremos salientar.

            Curiosamente, as redes sociais podem se transformar em uma gravíssima fuga da realidade. Esta se encontra no mundo real. A vida acontece no mundo real. As redes sociais podem refletir o mundo real, mas é neste mundo real que acontece a ação humana, capaz de transformá-lo para melhor ou para pior. Se as pessoas avançam para as águas profundas do mundo virtual, certamente podem morrer afogadas. A causa de morte de muita gente hoje é, justamente, o excesso de virtualidade. Muita gente não é mais encontrada no mundo real: vivem refugiadas e escondidas no mundo virtual.

            Esta é uma situação muito grave, que se deve evitar. Quando o barco da vida se perde nas águas profundas do oceano do mundo virtual, a vida já não é mais possível: a morte é certa. Muito facilmente, encontramos, nas ruas das cidades, as pessoas caminhando, mas ali somente são seus corpos. São como cadáveres ambulantes. Elas estão no mundo virtual, grudadas em seus smartphones (telefones celulares). Se estes lhes são tirados, são capazes de morrer! A vida de milhões de pessoas se transformou em um vício. Os jovens que não estudam nem trabalham (geração nem-nem) são as maiores vítimas. Não estudam nem trabalham, mas estão nas redes sociais.

            Aí está a cultura da superficialidade e do fingimento. É muito comum encontrarmos a expressão de muita felicidade nas fotos e selfs (fotos que a pessoa tira de si mesma) publicadas nas redes sociais: as pessoas estão sempre rindo, aparentando uma vida feliz. No mundo real, muitas delas não tem muita ligação com a aparência das selfs que tiram. A regra é fingir estar bem.

E quando as pessoas se apegam à imagem e ao perfil que criaram no mundo virtual, já não querem mais ser encontradas no mundo real: fogem do encontro e reencontro no mundo real. Consciente ou inconscientemente, muitas tem medo de serem descobertas no mundo real.

No mundo real as pessoas se revelam, mesmo que consigam enganar as outras por um certo período de tempo. Fica, então, a evidente conclusão: sem a sábia administração do mundo virtual, perde-se, facilmente, o contato e o compromisso com o mundo real. E quando isso ocorre, a vida não passa de uma frágil ilusão.

Dada esta sucinta descrição, pergunta-se: Como anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus nas redes sociais? Cremos que a descrição deixou bem clara a necessidade do anúncio desta Boa Notícia. Como esta deve ser apresentada nas redes sociais? O que Jesus tem a dizer aos que se encontram no mundo virtual? Como deve o cristão proceder neste mundo tão complexo e dinâmico? Ou será que o cristão não deveria aderir às redes sociais? Vamos pensar possíveis respostas para estas indagações.

Hoje, exige-se que o anúncio do Evangelho aconteça em linguagem pós-moderna. A cultura dos povos evolui com o passar dos anos. A linguagem também acompanha esta evolução. É necessário falar de um modo que as pessoas compreendam. O Evangelho precisa ser anunciado na linguagem utilizada pelas pessoas hoje. Jesus foi fiel à linguagem do seu tempo. Ele falou de ovelhas, de Reino, de sementes, reis e súditos e outras categorias, porque estas palavras integravam não somente a linguagem, mas sobretudo também a realidade da época.

Vivemos na era digital, do conhecimento e da manipulação ideológica. O evangelizador precisa saber as palavras e os códigos linguísticos utilizados hoje para, assim, anunciar o Evangelho de forma apropriada; de forma que as pessoas compreendam a mensagem de Jesus. Isto significa atualizar o Evangelho para os nossos dias. Esta atualização não é sinônimo de mudança do sentido das palavras de Jesus. Em outros termos, não estamos defendendo que devamos mudar a mensagem de Jesus. Isto não deve ser feito. Mudar a mensagem é trair o próprio Jesus.

Atualizar é falar em linguagem pós-moderna o Evangelho de Jesus, preservando o essencial, que é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Nas redes sociais, somos chamados a anunciar o amor de Deus para as pessoas. Anúncio do amor de Deus é diferente do anúncio da doutrina das Igrejas. O que significa amar a Deus e ao próximo hoje? Eis a questão fundamental para o anúncio do Evangelho.

Evangelizar não é doutrinar. Evangelizar é anunciar o Reino de Deus, que é amor, justiça e paz para todos, numa perspectiva escatológica, ou seja, o amor, a justiça e a paz vão se realizando neste mundo, não de forma plena, mas de forma progressiva e parcial no tempo e no espaço, até a volta definitiva de Jesus.

Humanamente, somos incapazes de realizar plenamente o amor, a justiça e a paz. Não somos perfeitos. Mas em meio às limitações de nossa condição humana, vamos trilhando o caminho do amor, da justiça e da paz. As redes sociais constituem lugar de testemunhar estas realidades que integram a mensagem de Jesus.

Desse modo, o discípulo missionário de Jesus, nas redes sociais, anuncia o amor, a justiça e a paz. Não é um instigador da discórdia, nem alguém que compartilha a mentira. O discípulo missionário de Jesus é alguém que promove a unidade, respeitando a diversidade da cultura e dos modos de ser e de agir das pessoas. É um promotor da tolerância, do respeito e da cultura do encontro.

Ao mesmo tempo em que anuncia os valores fundamentais do Evangelho de Jesus: justiça, solidariedade, amor, atenção aos marginalizados, paz, compreensão, cultura do encontro, tolerância, acolhida, respeito etc., o discípulo missionário também se utiliza das redes sociais para denunciar as injustiças que afetam a sociedade. O compartilhamento de notícias verificáveis faz parte deste processo de denúncia, que deve ser constante, ousado e criativo.

Denunciar é mostrar a realidade como ela é, sem maquiagens. Neste sentido, cabe ao discípulo missionário, antes de compartilhar as notícias, verificar a fonte e pesquisar a sua veracidade. Denunciar não é caluniar, injuriar nem difamar. Estas três atitudes são crimes previstos em lei.

Denunciar é desmascarar a mentira, é apontar o pecado que destrói as pessoas. Não se trata de apontar o pecado de pessoas, de forma isolada; mas de apontar o pecado das estruturas e das forças de morte presentes no mundo. A denúncia das injustiças é a oportunidade que as pessoas tem de conhecerem seus opressores e planejarem ações para que tais injustiças cessem.

            Este exercício profético do anúncio e da denúncia cabe a todas as pessoas, especialmente aquelas que dizem ser cristãs. O seguidor de Jesus tem um seríssimo compromisso com a verdade, jamais com a mentira. Mentir continua sendo pecado, e se torna grave quando causa sérios prejuízos às pessoas, também no mundo virtual. Nas redes sociais encontramos muitos cristãos dando contratestemunho, inventando e compartilhando mentiras sobre os outros. Esta é uma situação que também precisa ser denunciada.

            O que Jesus espera de seus seguidores é que estes sejam sinceros, transparentes, autênticos e amorosos. Não é possível seguir a Jesus e ser um disseminador de mentiras, gerando confusão na cabeça das pessoas. Propagadores de mentiras são agentes de Satanás, pai da mentira e da confusão. A verdade é o que condiz com a realidade dos fatos, é o que realmente acontece. Todos, em sã consciência e com reta intenção, podem e precisam ter acesso à verdade, promovendo-a, custe o que custar. É a verdade que liberta, disse Jesus (cf. Jo 8, 32).

            Se as pessoas procuram viver conforme o amor, a justiça e a paz, as redes sociais deixam de ser uma rede geradora de tolos e hipócritas, e passa a ser uma rede de solidariedade humana, necessária ao verdadeiro crescimento das pessoas. Por fim, queremos deixar uma questão para a reflexão pessoal do leitor cristão que utiliza as redes sociais: A forma como utilizo as redes sociais constitui um testemunho de Cristo ressuscitado, ou um contratestemunho que envergonha e destrói a dignidade das pessoas?...

E para os que não professam a fé cristã, também vale a pena pensar: A forma como utilizo as redes sociais tem colaborado para a minha humanização e para a humanização das pessoas?... Esta humanização, em linguagem cristã, é o testemunho mencionado na questão dirigida aos que acreditam e seguem a Jesus. Boa reflexão!

Tiago de França