sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O valor da proximidade na construção da nova humanidade

       Umas das características da vida pós-moderna é a distância entre as pessoas. Inúmeros são os motivos que explicam este fenômeno que tem agravado a situação esquizofrênica de muitas relações interpessoais. Dentre os motivos se destacam a falta de interesse pelos outros, pelo bem-estar dos outros; a busca desenfreada do prazer a todo custo; a falta de sensibilidade; o esquecimento dos outros e a busca obsessiva da realização dos próprios interesses.

            Estes e outros motivos explicam a falta de proximidade. A pressa de buscar o que se deseja, e o medo da não realização, provoca o esquecimento dos outros. Estes não são esquecidos quando servem de ponte para que os objetivos pessoais de muita gente sejam alcançados. Os outros são transformados em objetos de satisfação dos desejos. Ocorre o que se passou a chamar de coisificação do ser humano. Os egoístas costumam coisificar os outros, pois, como somente pensam em si, os outros aparecem como oportunidades de satisfação de interesses.

            Este parece ser o tipo predominante de relação que temos em nossa sociedade doente e perversa. A proximidade aparece como remédio contra este mal. Mas o que significa aproximar-se dos outros? Por que é necessária esta proximidade? Analisaremos a questão à luz dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Independentemente de religião, o testemunho de Jesus de Nazaré tem muito a dizer às mulheres e homens de hoje, pois ele não estava preocupado com a religião, mas com as pessoas. Falar de proximidade significa falar de relação entre as pessoas, tendo em vista a promoção da dignidade humana.

            Toda pessoa precisa de se relacionar. Ninguém nasceu para o isolamento, pois neste não há felicidade possível. Para ser feliz, as pessoas precisam se abrir às outras, experimentando o dom da relação interpessoal. Não há ser humano fora da relação com os outros, pois é nesta que toda pessoa cresce e se desenvolve, realiza-se e conhece a felicidade. Fugir dos outros é atitude sintomática, um claro sinal de que há algo de errado, considerando que o humano é, por natureza, um ser de relação, de abertura ao infinito presente nos outros.

            Com Jesus de Nazaré, os cristãos aprendem que fora da relação com os outros não é possível ser salvo. A salvação oferecida por Deus em Cristo e no Espírito é um dom gratuito a ser alcançado na fraternidade. Ninguém salva a si mesmo nem é salvo sozinho. A salvação é uma graça comunitária. O cristão é salvo com os outros, vivendo em comunidade. O cristianismo é o caminho do grupo, da comunidade, onde se gera a fraternidade entre as pessoas. Ninguém é fraterno sozinho. Ser fraterno implica a presença e a relação com os outros.

            Para o exercício da arte da proximidade são necessárias algumas condições, dentre as quais podemos destacar, à luz do Evangelho de Jesus, as seguintes:

1. Querer. Tudo começa com o querer. Se alguém não deseja tornar-se próximo, então permanecerá distante. A proximidade exige um querer livre, portanto, espontâneo, que nasce da vontade livre de cada pessoa. Esta precisa querer se aproximar, e permitir a aproximação dos outros;

2. Convicção. Quem não se convence da necessidade da proximidade, dificilmente se disponibilizará a tornar-se próximo dos outros. Convencer-se significa ter a clareza do valor e do alcance da proximidade, da sua imprescindibilidade para a própria vida e para a vida dos outros;

3. Abertura. Sem esta não é possível se aproximar de quem quer que seja. Sem a pré-disposição de abrir-se aos outros, para um encontro efetivo e afetivo, não é possível a relação entre as pessoas. Não existe verdadeiro encontro sem abertura. Fechado em si mesmo, todo ser humano perde a feliz oportunidade de crescer com os outros, pois estes sempre têm algo a dizer e ensinar. A abertura aos outros é oportunidade certa de autoconhecimento e crescimento humano.

4. Respeito. Os outros são diferentes. Isto não constitui defeito, mas característica fundamental da raça humana. Todos são diferentes, e na diversidade dos modos de ser está a riqueza do gênero humano. Se todas as pessoas fossem iguais, o mundo certamente seria insuportável. Aliás, a vida não seria possível. Portanto, para que exista proximidade é necessário respeito por aquilo que o outro é na sua singularidade. Querer mudar os outros é atitude desrespeitosa. Cada pessoa, na relação com as demais, é chamada a autoconhecer-se e, a partir daí, avaliar o que precisa mudar em si mesmo. A mudança parte de cada pessoa, e não da imposição dos caprichos dos outros.

5. Acolhida. Abrir-se aos outros também significa acolher bem, com amor e generosidade. Os outros precisam se sentir acolhidos, do contrário, não permanecem. Numa sociedade marcada pela repulsa e pela rejeição, a acolhida é gesto profético e humanitário. A proximidade exige acolhida, porque não tem sentido querer ser próximo sem o desejo de acolher aquele a quem se dirige. No movimento que provoca o encontro com os outros, a acolhida ocupa lugar central. Acolher o outro do jeito que este se apresenta é uma virtude.

6. Compreensão. Esta é resultado da cultura do encontro. Como compreender os outros sem fazer a experiência do encontro? “Ouvi dizer”, “acho que seja assim”, “desconfio que seja”, “aparenta ser, não sei se é” etc., são expressões que revelam a distância entre as pessoas; distância que provoca pré-julgamentos que, muitas vezes, são equivocados. Aí não há compreensão. Esta se manifesta no encontro com os outros. É a proximidade que gera a compreensão. Sem o desejo de compreender os outros não é possível relacionar-se. Para uma proximidade exitosa a compreensão é uma exigência fundamental.

7. Escuta. Não é pequeno o número dos que precisam ser escutados. Há pessoas desejosas da escuta, porque foram esquecidas em seu clamor. Há muito clamor para poucos ouvidos. Quem escutará o lamento dos que choram? A proximidade também exige escuta. Esta é um dom precioso. Quem escuta, aprende. Escutar é dar aos outros o poder da fala. Se um escuta, o outro fala. Se não há quem escute, para quem se vai falar? A proximidade exige mais a escuta do que a fala. O aprendizado vem da escuta atenta e amorosa. A multiplicação das palavras torna a proximidade pesada e, muitas vezes, insuportável. É necessário saber dosar, e se dispor a escutar mais.

8. Atenção. Muitas vezes, as pessoas se aproximam umas das outras e, de repente, esquecem-se que estão juntas: cada um se ocupa consigo mesmo. O telefone móvel (celular) é uma das ferramentas que ajudam nesta ocupação consigo mesmo na presença dos outros. A proximidade exige a decisão de estar com os outros, inteiramente. Não há proximidade na mera justaposição de pessoas, ou seja, no mero encontro de corpos. É imprescindível a atenção à pessoa do outro, ao que está sendo dito com o corpo, a voz, os gestos e o olhar. Os outros pedem a nossa atenção. Na proximidade é necessário estar por inteiro na presença do outro. Este merece a nossa presença plena e amorosa.

9. Paciência. Quando não é possível ter êxito na proximidade com algumas pessoas, a paciência é de grande valia. O outro tem o seu tempo e seu ritmo. A presença diante do outro não deve ser impositiva, pois as relações saudáveis são naturais e espontâneas, leves e tranquilas. A perseverança é filha da paciência. Toda pessoa impaciente não consegue se relacionar bem, pois não sabe esperar, não conhece a tranquilidade necessária para estar diante dos outros.

10. Verdade. Este é um dos valores fundamentais que precisam estar presentes na relação entre as pessoas. Aproximar-se com o intuito de enganar é pura desonestidade. As pessoas merecem a verdade, pois é esta que liberta. Relações pautadas na mentira não prevalecem, não perduram, são fadadas ao fracasso. Por isso, a proximidade exige a fala verdadeira, a conduta transparente. Não se deve aproximar-se do outro para mentir sobre outras pessoas. Este tipo de encontro não edifica, mas causa destruição da reputação alheia. A mensagem de Jesus ensina que é preciso ser verdadeiro com as pessoas, para que estas, conhecendo a verdade, experimentem a liberdade. Ninguém é livre cultivando a mentira.

          Estas breves provocações certamente nos deram uma indicação sobre a importância da proximidade para que exista, de fato, a cultura do encontro. Somente esta é capaz de erradicar a “globalização da indiferença” (expressão do Papa Francisco). Encontrando-se, as pessoas se entendem e se realizam; encontrando-se, encontram a solução para os problemas da vida. A solução para muitos desencontros está na proximidade. Esta nos faz vencer o medo e a solidão, realidades presentes na vida de tanta gente. Ser fraterno é possível e necessário. A proximidade é meio para este feliz convite de humanização, urgentemente oportuno para as mulheres e homens de hoje.

Tiago de França

sábado, 9 de novembro de 2019

O governo Bolsonaro, a prisão após segunda instância e a Lava Jato


        Há uma coisa que a mídia sabe fazer muito bem: confundir a cabeça das pessoas. Os grandes canais de TV aberta informam e desinformam as pessoas, diuturnamente. Atualmente, a Globo é oposição ao governo. O SBT e a Record estão defendendo Bolsonaro e seu governo. Edir Macedo e Sílvio Santos nunca cumprimentaram Bolsonaro. Mas como este se tornou Presidente, então se tornou “amigo” destes grandes empresários. Estes gostam de dinheiro.
Certamente, não tem nenhuma admiração pela pessoa do Bolsonaro, mas este, com seu estilo de “governar”, totalmente aberto ao capitalismo selvagem, passou a despertar o interesse dos grandes empresários. Não é segredo para ninguém que a classe empresarial quer dominar plenamente o Estado. Este domínio é estratégico. Um Estado dominado pelo empresariado não “incomoda” com políticas de fiscalização e impostos. Assim, quem domina o atual governo são os ricos, e o objetivo é claro: Transformar o Estado em um instrumento cooperador da exploração dos brasileiros.
Para enganar o povo, o governo e os empresários precisam da mídia. O SBT e a Record estão contribuindo neste sentido. A ordem do governo é divulgar a falsa notícia de que as reformas propostas irão transformar o Brasil em um país de primeiro mundo!
Na verdade, o que está acontecendo? Cresce o número de miseráveis (13,5 milhões de pessoas, segundo o IBGE); o desemprego não cai (mais de 12 milhões de pessoas); fecham-se as oportunidades (falta investimento em saúde e educação, então o povo morre nos hospitais e o número de vagas nas universidades diminui assustadoramente); as leis trabalhistas deixam o pobre desprotegido e favorecem os patrões; a Amazônia está em chamas, o que simboliza a ausência de uma política ambiental que realmente proteja o meio ambiente etc. O Brasil está estagnado. A economia está paralisada. O governo não sabe governar. Só sabe cortar na carne dos pobres.
Além desta estagnação, a família do Presidente está envolvida em questões que não foram esclarecidas. O Queiroz continua sumido, sem dar explicações. Os filhos do Presidente envolvidos em polêmicas e não respondem pelo que falam nem pelo que fazem. Um deles, recentemente, ameaçou o País com a retomada de um dos instrumentos mais cruéis da ditadura militar (os Atos Institucionais, referindo-se ao de número 5, que foi o mais cruel). Fez apologia à ditadura, que é o mesmo que fazer apologia à tortura, sendo esta um dos instrumentos mais utilizados na época; e não deu em nada até o momento.
O ex-juiz Sérgio Moro, um dos ministros mais apagados do atual governo, foi o grande mentor da vitória do Bolsonaro. Colocando o ex-presidente Lula na cadeia, colaborou para que o capitão de reserva do Exército, um dos políticos mais insignificantes da história da Câmara dos Deputados, chegasse à Presidência da República. O povo brasileiro, enganado pelas falsas notícias veiculadas pelo WhatsApp, acreditou que Bolsonaro iria acabar com o problema da violência, do desemprego e da corrupção.
A violência continua crescendo, o desemprego está aí, e a corrupção permanece do mesmo jeito. Muitos dos ministros do atual governo são suspeitos de corrupção. Poucos escapam. A bola da vez é o ministro do Turismo, indiciado pela Polícia Federal, pelo uso de candidaturas-laranjas no PSL, partido do Bolsonaro.
A Globo parece que está recebendo a recompensa pelo que fez: ajudou o ex-juiz Sérgio Moro a prender o ex-presidente Lula, tirando-o da disputa eleitoral de 2018. Veio a público o privilégio que a Globo tinha: o acesso às informações junto à operação Lava Jato. A Globo sabia de tudo, e tudo recebia. O vazamento era seletivo. Este vazamento é um dos graves problemas da operação. Com as revelações do The Intercept Brasil, a operação Lava Jato caiu no descrédito. Muita gente já percebeu que a Lava Jato se transformou em um instrumento de política partidária para enaltecer procuradores, o então juiz Sérgio Moro, e para colaborar para a vitória da extrema direita, na pessoa do Bolsonaro.
Para recompensar o então juiz Moro pelo seu excelente trabalho político, Bolsonaro o nomeou para ser Ministro da Justiça. Somente os ingênuos não entenderam que se tratou de uma troca de favores. É uma situação que viola a Constituição, porque esta ensina que o juiz deve ser imparcial, ou seja, não deve agir para beneficiar pessoas, grupos ou instituições.
O juiz tem que julgar de acordo com a sua consciência, a lei e as provas que constam nos autos do processo. A condenação que levou o ex-presidente Lula à cadeia possui dois problemas: a parcialidade do juiz e a ausência de provas. Espera-se que o STF corrija este vergonhoso erro do então juiz, que agiu parcialmente. Quem acompanhou com a devida atenção o desenrolar do processo sabe bem que estes dois problemas ficaram estampados.
Nesta quinta-feira, 7 de novembro, o Supremo Tribunal Federal retomou o entendimento correto sobre o que diz a Constituição: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória” (Art. 5º, inciso LVII, da CR/88). Se uma pessoa não pode ser considerada culpada até que sejam julgados os recursos cabíveis que contestam a decisão que a condenou, por que esta pessoa deve ser presa? É claro que cabendo prisão preventiva, de acordo com os requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal, a pessoa deve ser presa. Mas fora desta possibilidade, a Constituição confere ao condenado a possibilidade de somente ser preso quando esgotados os recursos.
Se o Judiciário é lento e se alguns juízes são seletivos, a culpa é do condenado? Quantas pessoas se beneficiarão com a proibição da prisão após a condenação em segunda instância? Temos mais de 800 mil pessoas presas no Brasil, e o número dos que serão beneficiados com a decisão do Supremo é de 4.895 pessoas, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Portanto, é mentirosa a afirmação de que agora o Judiciário vai mandar soltar todos os encarcerados. Serão soltos, para responder à condenação em liberdade, somente os condenados em segunda instância, que não se enquadrem no artigo 312 do Código de Processo Penal.
O grande problema do brasileiro, principalmente daqueles que não possuem instrução, e que facilmente são enganados pela mídia, é que não se dão o trabalho de procurar a informação correta. Em matéria de Direito, se discutem a lei, as provas e o processo. Política não é questão jurídica. Vale o que está no processo. As paixões políticas, que tem provocado a chamada polarização, não interessam ao Direito. As pessoas precisam aprender a se informar e discutir conteúdo. Sem conteúdo somente há confusão e ideologia barata.
A decisão do Supremo beneficiou o ex-presidente Lula. Por que isto aconteceu? Porque a situação do ex-presidente se enquadra nos limites da decisão. É tudo muito simples. Isto não significa que ele esteja livre do processo. Pelo contrário, continuará se utilizando dos recursos junto às cortes superiores (STJ e STF), nos termos da lei processual, para provar a sua inocência. Os recursos constituem um direito que a Constituição e a lei conferem a quem foi condenado questionar a sentença penal condenatória. O ex-presidente está exercendo este direito. Não se trata de nenhum benefício concedido pelo Judiciário.
Politicamente falando, Bolsonaro não gostou nem da decisão do Supremo nem da notícia da soltura do ex-presidente. Não gostar, até ele pode. Mas respeitar a decisão da Corte, é obrigado. Vivemos em um Estado Democrático de Direito, que apesar dos pesares, reclama o respeito às decisões judiciais, principalmente quando elas se mostram justas. Como antipetista declarado, Bolsonaro encontrará no ex-presidente Lula um político de oposição ferrenha. O ex-presidente fará oposição ao governo da maneira mais eficiente: encontrando-se com o povo pelas ruas do País. O ex-presidente repetirá o discurso que fez antes de ser preso, pouco tempo antes das eleições: Bolsonaro não tem capacidade para governar. Tudo está se confirmando.
A classe média preconceituosa e alienada, que ajudou a eleger Bolsonaro, já está percebendo que o padrão de vida que possuem está ameaçado. Quem está bem hoje são os ricos. Quem trabalha para si e para os outros anda preocupado com a situação deplorável do Brasil. É para essa gente que o ex-presidente Lula vai falar. Mas há uma classe de gente com quem o ex-presidente vai se encontrar, que o espera com alegria: os pobres do povo brasileiro, especialmente a grande maioria dos nordestinos, que não votou em Bolsonaro. A notícia da sua soltura alegrou o coração da maioria dos nordestinos, gente sofrida, mas de uma esperança firme, que não é responsável pelo que está acontecendo no Brasil.
A Lava Jato certamente continuará fazendo o seu trabalho. Não é o fim da prisão após a segunda instância que vai atrapalhar o trabalho da operação. Como Sérgio Moro não é mais o famoso juiz de Curitiba, a Lava Jato perdeu o seu viés político. Bom seria se ela pudesse se ocupar com os crimes cometidos antes da chegada do PT ao poder, em 2003. Mas a Lava Jato não se ocupou tanto com o PSDB. A impressão que passou foi a de que se trata de uma operação pensada para prender possíveis corruptos ligados a Lula e à Dilma, ex-presidentes do Brasil, como se somente a partir dos governos destes petistas é que a corrupção passou a existir no Brasil.
Por acaso não existiu corrupção durante os governos petistas? Certamente, existiu. Mas será que existiu da maneira como a Lava Jato apontou? É questionável. Na era FHC não existiu corrupção? Certamente, sim. Por que não se apura? É assunto que não se discute. Por que políticos fortes da direita não foram investigados e punidos na forma da lei? Ninguém fala nada. Por que as pessoas não se perguntam sobre estas e outras questões referentes à Lava Jato? Porque a mídia não permite que se perguntem sobre as coisas.
A mídia cria o discurso e oferece pronto, todo mastigado, de acordo com seus interesses. A Globo transformou o então juiz Moro em um herói nacional, e o apresentou como aquele que iria acabar com a violência e a corrupção no Brasil. Bolsonaro sabendo disso, aproveitou-se da situação, durante sua campanha eleitoral: fez a promessa de que, uma vez eleito, o então juiz seria Ministro da Justiça.
O que temos agora? O que este Ministro está fazendo? Como está lidando com o combate à corrupção e à violência no país? Por que não resolve o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco? Por que não manda investigar o Queiroz? Por que não combate a milícia no RJ? Por que não busca soluções para o grave problema dos presídios brasileiros? O Presidente que o convidou para ser Ministro o trata como mero funcionário, como alguém que somente deve obedecer. Está praticamente reduzido a nada. Por que ainda não renunciou? Será porque está aguardando ser indicado ministro do STF?
A situação do Brasil é singular em todo o mundo. Não existe nada igual em outro lugar do planeta. Trata-se de uma realidade que tem chamado a atenção do mundo. O atual governo não tem compromisso com os mais pobres. Os ricos estão tomando o país para si. O discurso anticorrupção já foi abandonado. Não se fala mais. A regra agora é tornar o Estado pequeno e incapaz de defender os mais pobres. O resultado disso talvez se pareça com o que está acontecendo com o Chile: convulsão social e total descontrole de todas as dimensões sociais. Talvez quando isto acontecer, muitos despertarão do sono e se libertarão da cegueira.
Tiago de França

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O que significa ser professor?


                Ser professor...
            É despertar a consciências das pessoas, para que possam ser livres e críticas, audaciosas e expansivas. Sem consciência crítica não existe exercício possível da cidadania. Vivemos em um País marcado por milhões de pessoas que se deixam enganar, e isto ocorre por causa da ignorância. A eleição do atual governo federal foi uma prova incontestável disso.
            É mostrar as veredas que conduzem ao conhecimento, para que as pessoas possam se libertar das trevas da ignorância. Um povo marcado pela ignorância é manobrável, domesticável e, portanto, manipulável. Sem conhecimento nenhum ser humano ser realiza enquanto pessoa. Somos seres capazes e desejosos de conhecimento. Este é sinônimo de poder que emancipa e confere liberdade e dignidade.
            É ser aberto à aprendizagem e, assim, despertar o gosto pelo saber. Somos seres de imaginação e de espanto, de inteligência e perspicácia. Nascemos para a geração e o cuidado da vida. Sem aprendizagem de novas habilidades não é possível cuidar bem. As pessoas e toda a Terra carecem de cuidado. A aprendizagem nos oferta a possibilidade de sermos criadores e aperfeiçoadores da arte de cuidar.
            É ser oposição a tudo o que fere a dignidade da pessoa humana. Não há professor sem a necessário posicionamento diante do que acontece na vida. É inconcebível que um professor seja alienado, alguém que não se interessa por aquilo que está além da sala de aula. Assim, o professor não age somente na escola e na universidade. O professor é um mestre da vida.
            É um formador de opinião, é alguém capaz de instruir, apontar rumos, abrir horizontes, é um facho de luz em meio à confusão da mentira e da ilusão. Neste sentido, os que são dominados pelas ideologias do sistema dominante veem no professor uma ameaça a ser combatida e erradicada. O professor é alguém que tem um compromisso com a verdade da realidade de todas as coisas.
            É cidadão e patriota, um apaixonado pelo seu País, apesar dos pesares. Por isso, no exercício da sua função tem plena consciência de que é um agente transformador da realidade, porque colabora, afetiva e efetivamente, com a construção de uma sociedade mais justa e solidária, comprometida com o desenvolvimento integral das pessoas. Toda pessoa, para realizar-se em alguma profissão, precisa do professor. A profissão de professor é a mãe de todas as outras profissões.
            É ser consciente do papel libertador da educação, colocando-se na frente de batalha da resistência contra todas as forças sociais, culturais, econômicas, religiosas e políticas que oprimem as pessoas. O professor, especialmente os de humanas (que é o meu caso!), é um eterno contestador, alguém que faz uso da palavra que denuncia, edifica, conscientiza, desperta e desestabiliza todo aquele que se coloca na contramão da liberdade. O professor é um agente transformador a serviço da liberdade. Por isso, não há soma de dinheiro capaz de recompensar o trabalho de um professor.
            É ser, no hoje da realidade brasileira, oposição clara e consciente ao atual governo federal, que tem se mostrado, indiscutivelmente, contrário à educação como instrumento de desenvolvimento integral dos brasileiros e caminho certo de liberdade e cidadania para todos. Como professor, a minha esperança aponta para o futuro, e tenho a plena certeza de que esta vergonhosa situação conhecerá o seu fim, porque a história não mente: todos os governos opressores caem e a maldade dos seus componentes fica registrada na memória histórica para sempre.
Prof. Tiago de França

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Sentire cum ecclesia


       Desde os primeiros momentos que marcaram o início do pontificado do Papa Francisco, tem surgido no seio da Igreja algumas reações contrárias à pessoa do Papa e à sua forma de governar a Igreja. Este breve artigo não pretende reforçar o risco da denominada “papolatria” (idolatria ao Papa), pois também esta é uma atitude reprovável à luz do Evangelho de Jesus.
            A denúncia das injustiças é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus. A Igreja, assembleia dos discípulos missionários de Cristo, é chamada a anunciar o Reino de Deus. Esta é a sua missão. O Papa, Bispo de Roma, chamado a trabalhar incansavelmente pela unidade cristã, não ocupa o lugar de Jesus. Não é ele o centro da vida da Igreja. A eclesiologia do concílio Vaticano II coloca Jesus no centro da vida cristã e eclesial. O Papa Francisco conhece e pratica esta eclesiologia, e está bem consciente de sua missão como sucessor de Pedro.
            Com o passar do tempo, desde a sua posse como Bispo de Roma, tem crescido o número daqueles que se utilizam das redes sociais e outros meios para distorcer as falas e os gestos do Papa. As redes sociais são utilizadas por pseudocatólicos que, não aceitando Francisco como Papa, dedicam-se a mentir e, assim, causar confusão e divisão. Com a convocação do Sínodo para a região Pan-Amazônica, as ofensas se intensificaram. A imaginação de muitos opositores do Papa é diabolicamente fértil! Não se cansam de mentir e vociferar.
            As mensagens veiculadas demonstram, com clareza e despudor, um ódio visceral, uma grave demonização da pessoa, das falas e dos gestos do Papa Francisco. Entre os opositores, cardeais, bispos, padres, diáconos, seminaristas, religiosos/as e leigos estão fazendo um verdadeiro estrago na Igreja: são pessoas que se dedicam à divisão da Igreja em nome de Jesus e da tradição da própria Igreja. São pseudocatólicos mal-intencionados, que não compreendem nem aceitam a mensagem de Jesus, que convida à unidade na diversidade.
            Há de se fazer uma justa distinção, para evitarmos injustiças: temos visto que na Igreja há um grupo mais alinhado à tradição, que é mais preocupado com a conservação desta tradição do que com o anúncio do Evangelho de Jesus. Apresentam-se como ferrenhos defensores da tradição. Atualmente, estes “conservadores” podem ser divididos em “conservadores moderados”, e “conservadores radicais” ou “ultraconservadores”. Estes últimos estão em campo de batalha, pois entendem que é preciso permanecer em estado permanente de guerra contra as pessoas que não comungam com suas ideias.  
            Ultraconservadores são “cristãos” radicais, que não estão interessados em dialogar nem refletir. Diálogo e reflexão não integram o jeito ultraconservador de ser. O cardeal Burke é um exemplo clássico de “cristão” ultraconservador. Na crítica destrutiva que fazem ao Papa e ao Sínodo da Amazônia não aparece a preocupação com a evangelização dos povos amazônicos. Não há esta preocupação. O cardeal e seus discípulos estão preocupados em manter aspectos da tradição que não mais servem à evangelização das mulheres e homens de hoje. São de mentalidade tridentina e, portanto, contrários à evolução dos tempos.
            Os ultraconservadores acreditam que a salvação da Igreja está na observância da lei e na conservação da tradição, e não no Evangelho de Jesus. Assim como os fariseus, o mais importante é a lei, e não a vida das pessoas. Não aceitam a posição de Jesus em relação aos fariseus. Neste sentido, não aceitam o Evangelho de Jesus. Entre cumprir a lei e salvar uma pessoa, preferem cumprir a lei. Ainda não compreenderam o ensinamento do apóstolo Paulo, que ensina que não é a letra da lei que salva, mas o espírito é que faz viver (cf. 2Cor 3, 6).
            Esta onda de ódio que tomou conta de muitos, fere a dignidade pessoal do Papa Francisco e a unidade da Igreja Católica, que já experimentou, em épocas diferentes de sua história, o terrível mal da divisão. Graças ao uso da rede mundial de computadores e das redes sociais, as ofensas e mentiras chegam mais facilmente a milhões de pessoas, tornando o estrago cada vez maior. Como a muita gente faltam o bom senso, o conhecimento e o discernimento, então a adesão à mentira é certa por parte de muitos.
            No seio da Igreja Católica e nas relações interpessoais em geral, as pessoas devem ser livres para pensar e manifestar o seu pensamento. Mas ninguém pode dizer que é livre para ofender aos outros, difamando, caluniando e injuriando. Tais ofensas constituem pecado, portanto, são contrárias ao Evangelho. Na ordem civil, também são consideradas crimes contra a honra.
A mensagem de Jesus que o verdadeiro cristão é chamado a anunciar é alicerçada na verdade, na liberdade e no respeito às diferenças. Discordar é diferente de acusar. Grande parcela dos que acusam o Papa, afirmando ser ele herege, não sabem sequer o que significa a palavra heresia. Muitos são filhos da ignorância e da maledicência. Quem realmente conhece o Papa sabe muito bem da sua fidelidade à tradição da Igreja, da sua simplicidade e do seu empenho em buscar a Deus em todas as coisas, fazendo tudo para a maior glória de Deus, como um bom jesuíta que é.
Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas), cunhou a expressão “sentire cum ecclesia”: sentir com a Igreja. Ao final dos Exercícios Espirituais, escritos por Santo Inácio, aparecem dezoito regras que viabilizam este “sentir com a Igreja”. Para sentir com a Igreja, o cristão católico precisa estar em comunhão com a Igreja. Quem colabora para dividi-la, é inimigo da Igreja, corpo místico de Cristo. Trata-se de um pecado gravíssimo, pois contraria a mensagem de Jesus, que exige a unidade daqueles que se tornam seus discípulos missionários.
É possível e tolerável que as pessoas discordem da disciplina eclesiástica, bem como se posicione contra os pecados cometidos por membros da Igreja, principalmente clérigos. Mas é inadmissível se colocar frontalmente contra a unidade da Igreja, semeando a mentira e contrariando as verdades fundamentais da fé cujo alicerce é a mensagem de Jesus. Não se trata de defender o corporativismo, mas de denunciar a persistente ação obstinada contra aqueles que estão no caminho de Jesus, em comunhão com toda a Igreja.
Portanto, são inimigos da cruz de Cristo os que semeiam a discórdia, com o objetivo de dividir a Igreja, instrumento de salvação da humanidade. Tais pessoas precisam ler o Evangelho de Jesus, meditar a mensagem nele contida, e buscar praticá-la, tendo em vista a conversão. Neste caso, converter-se significa retornar à comunhão com a Igreja, gravemente ferida por aqueles que, desprezando o Evangelho de Jesus, comportam-se de forma incoerente com o chamado divino à unidade no amor.  
Tiago de França

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

São João XXIII, o Papa do Vaticano II


Porque soube ler os sinais dos tempos, São João XXIII convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II, o maior evento religioso da história recente da Igreja Católica. Esta leitura dos sinais dos tempos é, sem dúvida, graça do Espírito Santo.

Graças ao Vaticano II, celebramos a Eucaristia em língua vernácula, e não em latim. Os católicos não mais "assistem" à missa, mas dela são chamados a participar. Os fieis celebram a missa, juntamente com o padre ou o bispo que a preside.

A partir do Vaticano II, os leigos não mais são considerados meros destinatários do evangelho de Cristo, mas discípulos missionários de Cristo, para anunciar, com palavras e gestos, a Boa Notícia do Reino de Deus. O clero não é mais superior aos leigos; não é mais uma casta de privilegiados diante de Deus.

O Vaticano II quis inaugurar um novo jeito de ser Igreja, alicerçado na comunhão e participação, promovendo a diversidade dos carismas e dons. A Igreja não é mais uniforme, mas se descobriu plural e promotora da pluralidade. A salvação oferecida por Deus não é mais "propriedade" da Igreja, pois fora desta há claros sinais de salvação.

A Igreja voltou às fontes e redescobriu a sua verdadeira missão: evangelizar! Durante séculos se ocupou com muitas outras coisas, consideradas supérfluas, marginalizando o essencial. São João XXIII, profundo conhecedor da história da Igreja, percebeu que esta precisava se atualizar, pois era visível que não estava mais em condições de falar ao homem moderno. A Igreja estava ultrapassada. Até hoje continua em alguns aspectos.

O "Papa bom", como passou a ser chamado, devido à sua docilidade, caridade e bom humor, abriu as portas e janelas da Igreja, para o necessário diálogo com a diversidade das culturas, e para a assistência aos que sofrem. O Vaticano II deixou claro que o mundo não precisa de instituições religiosas fechadas e proselitistas, instituições a serviço dos poderosos deste mundo. A Igreja é chamada a ser Casa de acolhimento e de salvação, lugar do encontro com o Deus vivo, instrumento de Deus para a salvação do gênero humano.

O Vaticano II é o grande milagre que atesta a santidade de São João XXIII. É verdade que em muitos aspectos a Igreja ainda não evoluiu, continua estagnada. Mas é verdade também que depois de São João XXIII nos veio Francisco, que comunga do mesmo espírito eclesial, do mesmo ardor missionário e do mesmo sonho de uma Igreja em saída, aberta ao diálogo e ao novo que o Espírito Santo faz surgir na história.

São João XXIII deixa o exemplo de caridade com os pobres, simplicidade nas relações com as pessoas, escuta atenta ao que o Espírito diz à Igreja, humildade no jeito de ser, profunda confiança no Deus e Pai de Jesus, que conduz a história rumo à plenitude de seu Reino.

Que São João XXIII interceda pela caminhada da Igreja, nesta hora tão difícil, com tantos embates e falta de fé, interna e externamente. A Igreja, caindo e se levantando, com suas virtudes e pecados, continua a sua missão, que é missão de Cristo, porque este é o desejo do Deus que quer que a vida e a liberdade prevaleçam para sempre. A Igreja não pode deixar de cumprir o mandato missionário de Jesus, custe o que custar.

Tiago de França

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Algumas considerações sobre o Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica


           De 06 a 27 de outubro realizar-se-á em Roma a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, convocado pelo Papa Francisco no dia 15 de outubro de 2017. Essa assembleia sinodal tem sido muito comentada, elogiada e criticada em praticamente todo o mundo. Não é nada extraordinário que apareçam críticas e elogios. Mas o extraordinário é quando tais críticas, com teor destrutivo e/ou depreciativo e, em alguns casos, calunioso e difamatório, surjam dentro da própria Igreja Católica, com o objetivo único de depreciar e questionar a legitimidade do Papa, causando divisão e confusão na cabeça das pessoas. Na história recente da Igreja, nunca um Sínodo e um Papa foram tão questionados.

A oposição ao Sínodo fora da Igreja

            O governo de Jair Bolsonaro constitui a maior expressão oposicionista ao Sínodo dos Bispos. Tanto o presidente quanto pessoas do seu governo, civis e militares, levantaram algumas suspeitas descabidas sobre o evento. Constatada a oposição, podemos frisar três pontos.

            Primeiro, o governo (presidente e sua equipe) não parece ter clareza do que vem a ser um Sínodo de Bispos na Igreja Católica. As falas revelam total ignorância. Explícita e vergonhosamente, não sabem nem procuram saber o que é um Sínodo de Bispos. Propositadamente, confundem o evento com uma espécie de reunião de uma organização não-governamental (ONG). A Igreja Católica não é uma ONG. Espalham também a ideia de que o Sínodo é uma espécie de reunião com finalidade meramente civil, no sentido de criar projetos para resolver os problemas da região amazônica, projetos que poderiam questionar ou colocar em risco a soberania nacional. Os bispos não se reunião com esta finalidade. Um Sínodo não existe para isso.

            O Sínodo é um evento eclesial, convocado pelo Papa, que conta com a participação de Bispos e especialistas/peritos no assunto a ser tratado. Evento eclesial significa evento religioso, promovido por uma instituição religiosa, com finalidade religiosa. Parece simples, mas o governo não entende isso. O Papa não convocou os Bispos para traçar um plano, visando a derrubada de governos; nem para pensar em como se infiltrar em questões estritamente governamentais. Neste sentido, a Igreja não vive mais atrelada ao Estado. Não é mais a reguladora da ordem social. Hoje, a Igreja Católica está com dificuldades de regular a si mesma. Portanto, não há interesse em traçar projetos reguladores para que os governos observem.

            Segundo, o governo entende instituição religiosa como totalmente desvinculada dos problemas do mundo. O presidente e seus correligionários parecem desconhecer a ação evangelizadora da Igreja. A Igreja Católica não existe para si mesma, mas é instrumento da salvação no mundo. Isto significa que os problemas sociais são matéria de preocupação, estudos e ação pastoral. O agir eclesial acontece no mundo, não fora dele. É no mundo que estão os cristãos, seguidores de Jesus Cristo.

Tudo o que interfere na vida cristã constitui matéria de interesse da Igreja Católica. Para o campo social, a Igreja Católica elaborou o que se denomina Doutrina Social da Igreja, que consiste no conjunto de orientações doutrinais e critérios de ação, pautados na Bíblia, na doutrina dos Santos Padres, dos teólogos e do magistério dos bispos e dos últimos Papas. A instituição eclesiástica não é alheia ao que ocorre no mundo. A questão ambiental na Amazônia é de grande interesse para a Igreja Católica, pois a fé cristã contempla a Deus como Criador de todas as coisas, e este Deus exige o cuidado da Terra, Casa comum. A Igreja Católica é chamada a ser promotora e defensora da vida, na diversidade de suas manifestações, defendendo uma ecologia integral.

Terceiro, o governo é contrário à promoção de uma ecologia integral. Dificilmente, o presidente sabe o que significa esta ecologia integral. Isto não quer dizer que não tenha consciência do que diz e do que faz. O governo tem a plena clareza de que está reforçando o projeto de morte da Amazônia, quando faz aliança e aprova medidas que afrouxam a fiscalização, evitando a punição dos que a destroem.

É do conhecimento de todos que o presidente da República não é fã da defesa do meio ambiente. A prova disso está na política ambiental adotada (se é que podemos falar em política ambiental neste governo!). Nunca na história do Brasil a região amazônica sofreu tanto ataque e destruição de sua biodiversidade como está sofrendo no atual governo. Nunca! Qualquer pessoa que faz uso do bom senso reconhece isso. Terríveis crimes ambientais são cometidos, diuturnamente, mas o governo não demonstra interesse em fiscalizar e punir, como manda a legislação ambiental. Pelo contrário, estão mudando as leis para que os criminosos se sintam estimulados a continuar cometendo seus crimes.

Além do governo federal, grandes empresários dos ramos do agronegócio e da mineração são contrários ao Sínodo. Empresários e fazendeiros, interessados em explorar a região amazônica, espalham mentiras sobre o Sínodo. Não é difícil compreender as reais intenções destas figuras milionárias, que fazem o capitalismo selvagem acontecer, em detrimento da preservação ambiental. Foram estes empresários e fazendeiros que trabalharam para eleger o atual presidente da República. Este era o candidato deles. Como conseguiram eleger, então pensam que podem tudo, por serem ricos e terem o governo para facilitar seus projetos de destruição da natureza. É o que está acontecendo no Brasil, diante dos olhos do mundo inteiro.

Estes empresários e latifundiários são insaciáveis: quanto mais dinheiro, melhor. Não estão interessados em proteger a vida dos povos originários da região amazônica. Assim como o presidente da República, acham que os povos originários possuem terras demais. Defendem também a falsa tese de que tais povos precisam se desenvolver, abraçando o estilo de vida capitalista, que mata milhões de pessoas ao redor do mundo. A grande mídia tem uma função importante neste processo gradativo de destruição das riquezas naturais: aliar-se ao governo e aos ricos empresários para convencer a população menos instruída de que estão trabalhando pelo desenvolvimento. As mentiras são produzidas e veiculadas com este objetivo.

Também os EUA tem interesse na exploração da Amazônia. O governo brasileiro considera os norteamericanos um exemplo para o mundo. De fato, são exemplos de falsa democracia, e de projeto predatório de poder, bem como representam uma gravíssima ameaça à saúde do gênero humano em todo o mundo. Os EUA não respeitam a legislação e acordos internacionais, tanto em matéria ambiental quanto em outras esferas do direito e da economia.

Geralmente, não se comprometem com a preservação ambiental nem com o equilíbrio climático, pois entendem ser um entrave ao desenvolvimento. Para os norteamericanos, em primeiro lugar, estão a produção de riquezas, o consumo desenfreado e irresponsável, e o controle político das nações pobres e em vias de desenvolvimento. Todo Chefe de Estado que possui uma visão escravocrata da vida social e da política, explicitada numa cultura da subserviência, submete-se a eles.

No caso do Brasil, o presidente e sua família tem verdadeira veneração pelos EUA, principalmente pelo presidente Trump. Equivocadamente, Jair Bolsonaro pensa que o Brasil ganharia notoriedade internacional somente por ser aliado aos EUA; mas a realidade tem demonstrado que o Brasil, por este e outros motivos, está passando vergonhosa no cenário internacional. Trump e Bolsonaro são retratos fieis da velha política corrompida e predatória e, por isso mesmo, prestam um desserviço à humanidade. Nestes dias, tivemos notícia de que o presidente norteamericano corre o risco de sofrer impeachment, sob a acusação de desonestidade e traição à pátria.

A oposição ao Sínodo dentro da Igreja Católica

            No seio da Igreja Católica, leigos, padres, bispos e até cardeais são contrários ao Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica. Não se sabe ao certo quantificar o número deles. O certo é que estão conseguindo fazer muito barulho. Na verdade, geralmente, os que se opõem ao Sínodo são os mesmos que se opõem ao Papa Francisco e seu jeito de exercer a missão pontifícia. Desse modo, o Sínodo se tornou uma excelente oportunidade para seus opositores o acusarem. Podemos analisar alguns motivos que explicam esta oposição ao Sínodo por parte de muitas pessoas, leigos e clérigos, na Igreja Católica.

            O primeiro motivo é a falta de conhecimento da temática que vai ser tratada na assembleia sinodal. O Sínodo vai tratar da evangelização na Amazônia e da ecologia integral. Pelo teor das críticas, de modo geral, os que se opõem ao Sínodo desconhecem a história da Igreja na Amazônia, bem como o processo de evangelização dos povos amazônicos. Este motivo, por si só, já é suficiente para invalidar os argumentos dos opositores do Sínodo. Eles opinam sem conhecimento de causa. Não se ocupam sequer com a leitura do instrumento de trabalho que norteará as discussões do evento. Trata-se de uma oposição intelectualmente fraca e desonesta.

            O segundo motivo é mais implícito: a briga pelo poder no seio da Igreja Católica. Este parece ser os casos dos cardeais que, abertamente, questionaram o Sínodo: cardeais Walter Brandmüller e Raymond Burke. Por trás da crítica destes cardeais, que uma vez analisadas se mostram contraditórias e teologicamente sem fundamento, estão a frustração e o ressentimento por não estarem ocupando altos cargos na Cúria Romana, no pontificado de Francisco. No caso de padres e bispos opositores ao Sínodo, que também revela uma oposição ao Papa, encontramos o mesmo problema: o Papa tem combatido o clericalismo dentro da Igreja Católica, e os que são clericalistas não se sentem bem com a denúncia do Papa.

Por isso, uma vez desmascarados, passam a tentar deslegitimar a forma como o Papa exerce o seu ministério. Aí encontramos mesquinhez, covardia e grave pecado contra a unidade da Igreja. Há até os que são favoráveis e exigem a renúncia do Papa! Os opositores do Papa são ousados e violentos, mas como não possuem boa-fé nem estão alicerçados na verdade, nada conseguirão. Tudo o que se opõe à verdade não prospera. A história está aí com inúmeros casos ilustrativos disso.

O terceiro motivo é a tentativa frustrada de ressuscitar o espírito de cristandade no seio da Igreja Católica. O tempo da cristandade já passou. A Igreja Católica não é mais a instituição reguladora da vida social. Hoje, sequer consegue regular a vida de seus membros. O tempo passou, e as sociedades assistem à evolução. Estamos em tempos pós-modernos.

Não adianta querer voltar aos tempos medievais. A Igreja Católica é convidada a acompanhar a evolução da vida social e de todas as coisas. Conservando o depósito da fé, é necessário anunciar o Evangelho de Jesus em linguagem pós-moderna. É necessário repensar os métodos de evangelização, as estruturas físicas e os esquemas mentais. Sem a conversão das estruturas e da mentalidade não é possível evangelizar.

A cada dia surgem novas demandas, novos problemas, novos desafios. Não é possível avançar, oferecendo respostas e esquemas antigos. O homem medieval passou. A grande maioria dos católicos, que não tem prática religiosa, está em plena sintonia com o pensamento e o estilo de vida pós-modernos. Estão metidos na confusão atual do mundo. São atingidos pela “globalização da indiferença” (expressão do Papa Francisco). As crianças, adolescentes e jovens de hoje possuem outra mentalidade, totalmente diferente da mentalidade dos que viveram nos séculos passados.

A evolução dos tempos obriga as instituições a se atualizarem. Com a Igreja não deve ser diferente. Os estudiosos em eclesiologia falam de uma certa “falsa prudência” da Igreja, no que se refere ao seu lento processo de atualização. É verdade que uma instituição bimilenar não se moderniza nem se atualiza da noite para o dia. Na Igreja, praticamente tudo foi construído lentamente, e lentamente é revisto. Algumas coisas não são revistas, apesar de expressarem pouca coisa às pessoas de hoje. Conservando-se o essencial, é possível transformar a Igreja naquilo que o Concílio Vaticano II declarou: a Igreja é “em Cristo, como que o sacramento ou sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 42).

Na Igreja há um fenômeno um tanto curioso: Os que são contrários à evolução das práticas eclesiais somente o são litúrgica, pastoral e canonicamente; pois no uso daquilo que é pós-moderno (roupas, calçados, joias, computadores, casas, carros, contas bancárias etc.) são totalmente atualizados. Basta observar os usos pessoais de boa parte do clero para perceber este fenômeno.

Há pessoas com mentalidades antigas, fazendo uso de estilos de vida pós-modernos. Também entre os leigos conservadores e ultraconservadores isso é constatado. Há clérigos com mentalidade tridentina, mas que fazem uso de objetos de luxo, de última geração. Só querem aderir à liturgia proclamada em Trento; nada mais. Se fossem aderir à rigorosa disciplina clerical estabelecida por aquele Concílio, certamente não suportariam. Prevalece a ética da conveniência.

O que esperar do Sínodo?

             Os estudiosos em teologia, principalmente os pastoralistas, esperam que o Sínodo possibilite o surgimento de uma Igreja com rosto amazônico. Os números demonstram que os católicos na Amazônia brasileira estão cada vez mais reduzidos. Nas últimas décadas, cresceu significativamente o número de protestantes. Isto não significa que a Igreja Católica tenha que abandonar a região. Cada Igreja cristã possui os seus métodos de evangelização. A Igreja Católica está presente na Amazônia há séculos. Portanto, para evitar o espírito de competição e o proselitismo, deve-se repensar a forma e a linguagem que a Igreja Católica utiliza na evangelização dos povos amazônicos.

            Neste sentido, não constitui heresia a necessária revisão da disciplina eclesiástica, dos ministérios e dos métodos de evangelização da Igreja presente naquela importante região do mundo. Cada contexto exige da Igreja uma forma diferente de evangelização. Um exemplo simples inaugurado pelo Concílio Vaticano II: antes deste, as celebrações eram realizadas em latim; após o Concílio, adotaram-se as línguas vernáculas (de cada país, ou região). A liturgia e a disciplina eclesiásticas não caíram prontas do céu, mas foram sendo criadas e recriadas pelos cristãos ao longo dos séculos. O Sínodo não está propondo uma mudança substancial da doutrina da Igreja Católica. Não é disso que se trata. Não se tocará no essencial, mas apenas que se faça uma revisão da caminhada da Igreja Católica nas realidades amazônicas.

            Não é possível anunciar o Evangelho aos povos amazônicos com a mesma linguagem e métodos utilizados na evangelização que acontece no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Rio Grande do Sul, ou em qualquer outro lugar fora da Amazônia legal. Estamos falando de contextos diferentes. Conservando o essencial, é possível que na Amazônia exista um jeito diferente de evangelizar. Segundo o instrumento de trabalho, devidamente lido e analisado, esta é a proposta.

Assim, afirmar que o Sínodo constitui uma ameaça à Tradição da Igreja é de uma ignorância escandalosa e covarde. Sem ousadia e criatividade, tudo continuará do mesmo jeito. Os povos amazônicos e a biodiversidade presente naquela região precisam da presença e da atuação profética da Igreja Católica.

Aquela região corre graves riscos. O Papa Francisco, tomando conhecimento destes graves riscos, não se demorou para atender ao pedido dos bispos e demais pessoas envolvidas, convocando o Sínodo. Impulsionados pela Palavra de Deus, o Papa e os Bispos certamente expressarão, em alto e bom tom, um grito profético, desde Roma, para que o mundo inteiro saiba o que está acontecendo na Amazônia. A Igreja Católica não pode perder esta feliz oportunidade, pois já é tempo de renovação da presença eclesial, principalmente naquela região, para que todos possam ter vida, e vida em abundância.

Tiago de França

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

São Vicente de Paulo e a caridade


“Todos os homens compõem um corpo místico; somos todos membros uns dos outros. Nunca se ouviu que um membro, nem mesmo nos animais, tenha sido insensível à dor do outro membro; que uma parte do homem seja esmagada, ferida ou vítima de violência, e que as outras não se ressintam. Isto é impossível. Todos os nossos membros tem tanta simpatia e ligação uns com os outros que o mal de um é o mal do outro. Com mais razão, os cristãos, sendo membros de um mesmo corpo e membros uns dos outros, são obrigados a compadecer-se. O quê! Ser cristão e ver seu irmão aflito, sem chorar com ele, sem estar doente com ele! É ser sem caridade; é ser cristão em pintura; é não ter humanidade; é ser pior que os animais” (São Vicente de Paulo, presbítero, em 30 de maio de 1659).

            Neste dia 27 de setembro, data da memória litúrgica de São Vicente de Paulo (1581 – 1660), nos parece oportuno fazermos uma reflexão sobre estas palavras deste santo homem de Deus. Na Igreja, muitas vezes, as pessoas tendem a ter devoção aos santos sem conhecer o conteúdo daquilo que eles ensinaram e viveram. Este tipo de devoção não tem sentido. A devoção aos santos somente é legítima quando nos conduz ao seguimento de Jesus Cristo, pois os santos são modelos de seguimento de Jesus Cristo. O devoto precisa conhecer a vida e os ensinamentos dos santos para, à luz do testemunho deles, colocar-se no caminho de Jesus e nele perseverar.

            As palavras de São Vicente, que introduzem esta breve reflexão, foram ditas quase no fim da sua vida. Portanto, trata-se de um forte ensinamento, dado com autoridade, que saiu da boca de um homem experiente, de um discípulo missionário de Jesus, servidor dos pobres. Quem conhece a biografia de São Vicente percebe a verdade deste ensinamento. E quem conhece a história da Igreja, desde a época deste grande santo até hoje, percebe também a importância e a atualidade de suas palavras. Tudo o que São Vicente falava estava em plena sintonia com a missão que exercia. A sua espiritualidade é essencialmente cristológica, ou seja, considerava Jesus Cristo o modelo por excelência de missionário e de missão. Cristo Jesus está no centro da espiritualidade de São Vicente de Paulo.

            Mas o Cristo Jesus contemplado e conhecido por São Vicente era intimamente ligado aos pobres. Para ele, não existe o Cristo Jesus sem os pobres. Jesus Cristo é aquele que foi enviado para evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18). Trata-se de uma destinação exclusiva. Por isso, São Vicente dizia aos Padres e Irmãos da Missão (Lazaristas), congregação fundada por ele, que estavam destinados, exclusivamente, à evangelização dos pobres, assim como Jesus, pois este mesmo Cristo Jesus “é a regra da missão”. O carisma vicentino é profundamente cristológico e missionário. Jesus Cristo e os pobres ocupam a centralidade do carisma e da missão vicentina.

            A leitura e a interpretação que São Vicente fez do Evangelho de Jesus é teologicamente ortodoxa, pois ele vai no coração da mensagem de Jesus: o anúncio do Reino de Deus, em primeiro lugar, aos pobres. Na história da Igreja não existia, antes dele, uma Congregação de Padres e Irmãos com dedicação exclusiva à evangelização dos pobres. São Vicente escutou os apelos do Espírito Santo nos pobres. Na sua época, estes estavam abandonados: não eram assistidos, nem materialmente nem espiritualmente. O povo passava fome, porque faltavam o pão material e o espiritual. São Vicente ensinava que é necessário matar a fome de alimento e a fome da Palavra de Deus e da Eucaristia. Também a Companhia das Filhas da Caridade foi criada com a mesma finalidade: evangelizar os pobres.

            A fundação da Congregação da Missão e da Companhia das Filhas da Caridade são expressões de um Deus que está presente, operando suas maravilhas no mundo. São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac estavam convictos de que Deus estava presente e pedia este serviço humano e espiritual aos pobres. Com o crescimento do número daqueles e daquelas que ingressavam nas fileiras do serviço missionário, esta convicção da vontade de Deus para aquele momento histórico crescia cada vez. Esta presença amorosa e confirmadora de Deus fazia com que São Vicente e Santa Luísa fossem aprofundando o carisma e, assim, no amor afetivo e efetivo para com os pobres, imprimiram na Igreja a centralidade de Jesus Cristo na Igreja a partir dos pobres.

            Meditemos agora as palavras de São Vicente, transcritas no início desta reflexão. São palavras ricas de conteúdo teológico e espiritual, que merecem ser lidas, meditadas e trazidas para o hoje do nosso agir eclesial e social.

“Todos os homens compõem um corpo místico; somos todos membros uns dos outros...”

            A imagem do corpo místico nos fala da unidade. Em tempos pós-modernos, esta imagem não parece ter muito sentido. A partir da modernidade, o individualismo que decorre da centralização no próprio eu, tornou-se a regra da relação entre as pessoas. O ditado popular “cada um por si, e Deus por todos!” passou a ser muito difundido. Para Jesus e São Vicente, não existe esse “cada um por si”. Deus nada faz na vida de quem pratica esta regra. “Cada um por si” é sinônimo de egoísmo, e este é anticristão. Teologicamente, afirma-se que a Igreja é corpo místico de Cristo, e que na comunidade cristã somos membros uns dos outros, pautando-se na eclesiologia do apóstolo Paulo, genuinamente cristã.

            Esta unidade do corpo místico de Cristo não corresponde à uniformidade. São Vicente sabia muito bem disso. O homem moderno e, posteriormente, o pós-moderno descobriu o sentido e o valor da promoção da diversidade. As pessoas, as culturas e os modos de ser e de viver são plurais. Também são plurais as crenças e as religiões, as subjetividades, e a vida no seu conjunto. Somos chamados à unidade na diversidade dos dons, carismas, culturas, religiosidade e vivências. A diversidade é natural e necessária, sem a qual a vida seria tediosa e insuportável. As realidades humanas e o próprio ser humano não são passíveis de repetição. O novo sempre gera o plural, e quem não se reconcilia com esta realidade fundamental não consegue se situar no mundo.

            Em São Vicente, a imagem do corpo místico nos revela o rosto dos outros. Estes existem. Como viver neste mundo se comportando como se os outros não existissem? Não há vida autêntica sem os outros. Nenhum ser humano se descobre e cresce sem a relação com os outros. A humanidade somente evolui na saudável relação com os outros. Caímos numa profunda crise identitária e civilizatória quando os outros são esquecidos e excluídos. Parece ser a realidade deste início de século. Em São Vicente, os outros são os pobres, os explorados e esquecidos, os que padecem toda sorte de sofrimento. Os pobres são membros do corpo místico de Cristo; desprezá-los corresponde a desprezar o próprio Cristo Jesus.

            Qual tem sido o lugar dos pobres na vida de nossas Igrejas cristãs? Hoje, a pergunta mais apropriada parece ser: Para que serve os pobres em nossas Igrejas cristãs? Esta pergunta explicita uma visão utilitarista dos pobres. Serve somente para devolver o dízimo, para assumir funções nas comunidades, para servir aos sacerdotes, para ouvir sermões moralistas, para serem domesticados em função do bem-estar dos mais ricos? Como as Igrejas tem evangelizado os pobres? Eles são, de fato, tratados como membros corpo místico de Cristo? São Vicente dizia que os pobres “são os nossos mestres e senhores”. Isto é profundamente místico e teológico.

“...os cristãos, sendo membros de um mesmo corpo e membros uns dos outros, são obrigados a compadecer-se”.

            A compaixão é uma virtude cristã. Quem segue a Jesus se torna membro do seu corpo, e com os demais irmãos e irmãs que professam a mesma fé e se encontram no mesmo caminho, torna-se membro destes outros. Quem vive em plena comunhão com Jesus, vive em comunhão plena com os outros. Não há exceção. Fora da comunhão não existe salvação. Nenhum cristão pode viver isolado, cultivando uma comunhão somente com Deus. Isto não é ser cristão. Ter os olhos fixos em Jesus significa ter os olhos filhos nos outros, porque Jesus está nos outros: Ele está no meio de nós. Ele está em nós. Fora da comunhão não há compaixão. Como vou me compadecer dos outros se não me relaciono, se fujo das pessoas, se as enxergo com espírito de superioridade, se as julgo indignas da minha presença e da minha amizade?

            Padecer com os outros é participar de seus sofrimentos. Isto é profundamente evangélico e, consequentemente, cristão. Não há cristianismo de guetos, de grupos que se isolam para adorar o Senhor e se recusam a padecer com os outros. Isto é falso cristianismo. Também não há autêntico cristianismo em grupos que se dedicam a causar divisão e confusão, instigando o ódio entre as pessoas, recusando-se a aceitar a diversidade dos dons, carismas e modos de ser e de viver.  

Na verdade, quem assim procede se torna inimigo da cruz de Cristo e do corpo místico de Cristo. Estes pecados integram o hoje de nossas Igrejas cristãs. O cristianismo se encontra cada vez mais dividido e marcado pela cultura do ódio e da eliminação dos outros. Estas coisas não derivam da comunhão com Deus, mas da ação de pessoas mal-intencionadas, que agem como se fossem demônios, agentes causadores da discórdia.

            Compaixão não é sentir pena dos outros, mas sentir com as entranhas a realidade dos outros. Jesus viveu esta experiência. A compaixão é um movimento na direção dos que sofrem. É um movimento, portanto, indica emoção e ação. Um cristianismo excessivamente emotivo é prejudicial, porque se torna facilmente alienante. O excesso das emoções sufoca a liberdade da pessoa. É uma espécie perigosa de escravidão. Em nossos dias, graças ao excesso de apreço à subjetividade, as pessoas estão muito emotivas.  

Facilmente, o cristianismo se transforma numa ferramenta a serviço de uma espécie de overdose emocional. Daí decorre a valorização somente do estilo de vivência cultual que toca as emoções, provocando o choro, os arrepios, os desmaios, as supostas visões e êxtases, gritarias, confusão mental etc. Jesus não pediu isso. A compaixão é simples, é do cotidiano da vida, é amor-doação.

“Ser cristão e ver seu irmão aflito, sem chorar com ele, sem estar doente com ele! É ser sem caridade; é ser cristão em pintura; é não ter humanidade; é ser pior que os animais”.

            Duas das características da espiritualidade de São Vicente é a objetividade e a clareza. Ele era muito simples no que dizia, porque a sua ação missionária era vivida entre os simples. São Vicente não se perdia em grandes discursos teológicos, de conteúdo abstrato e de difícil entendimento. Era um místico da missão, simples e acessível a todos. Não vivia encerrado em mosteiros e conventos, mas estava presente, junto ao pobre sofredor. Era um profundo entendedor da aflição dos pobres. Conhecia de perto a vida deles; comungava de suas dores e aflições.

            Suas palavras nos questionam: Até que ponto estamos dispostos a viver em comunhão com o sofrimento dos outros? Precisamos rezar esta indagação. Para entrarmos no movimento da misericórdia e da compaixão, precisamos nos posicionar. Orar, meditar, refletir e sentir são realidades importantes. Mas em nosso cotidiano, como nos comportamos diante da aflição dos outros? O que, de fato, fazemos? Ou somos indiferentes? Ser santo depende disso: ser caridoso, ter humanidade. O “cristão em pintura” é aquele cristão bonito, bem aparentado, bem decorado, com verniz sempre novo... Mas não passa disso. É o cristão de aparência, que pode ser até muito piedoso, mas que trata o irmão aflito com total indiferença.

            “Ser pior que os animais”. Esta expressão é impactante. A pessoa humana possui uma dignidade maior que a dos animais e, portanto, deve ser tratada com todo respeito e amor. Até os animais tratamos com o devido cuidado. As pessoas merecem a nossa atenção, cuidado, proximidade, acolhida, compreensão e amor. É isto que Jesus pede; é isto que nos ensina São Vicente. Este amor às pessoas é incondicional, ou seja, amamo-las porque são nossas irmãs em Cristo Jesus, porque conosco formam o corpo místico de Cristo. Nós as amamos porque esta é a nossa vocação: amamos a cada uma delas do jeito que são, sem impor a obrigação de que mudem para satisfazer os nossos caprichos.

            A tendência do cristianismo atual é trilhar outro caminho, diametralmente oposto: existe uma espécie de egocentrismo espiritual, ou seja, um eu que deseja sempre se sobrepor, “justificado” por práticas religiosas e excessos de piedade. O Papa Francisco, profeta de nossos dias, faz menção a um mal congênere, presente no cristianismo atual: o mundanismo espiritual.

Nesta realidade, as pessoas aparentam ser religiosas, mas são, na verdade, mundanas, entregues a toda espécie de apegos e males: são maliciosas, covardes, oportunistas, competitivas, materialistas, vaidosas, hedonistas etc., mas que alimentam certa piedade cujo objetivo é o de camuflar todas estas coisas.

            São Vicente nos ensina a termos humanidade. Isto significa que precisamos crescer em humanidade, que não está desvinculada da dimensão espiritual da vida. Pessoas verdadeiramente espirituais são verdadeiramente humanas. Ser humano significa sentir a vida, sentir os outros, sentir-se pessoa, gente. A espiritualidade cristã não nos eleva para outro mundo. A missão do cristão acontece neste mundo, pois Deus criou este mundo para o ser humano e nele está presente.

São Vicente era um homem de Deus, espiritualizado, mas, simultaneamente, humano e enraizado na realidade. Era um místico prático, do cotidiano, em plena comunhão com o Deus que se fez carne e habita entre nós e em nós. Hoje, São Vicente nos diz: Lembrai-vos, irmãos, da carne de Cristo nos corpos sofridos e mutilados dos mais pobres! Em sintonia com a mensagem profética do Papa Francisco, nos diz São Vicente: Saiam, irmãos, pelo mundo afora! Ide ao encontro dos pobres, nossos mestres e senhores! Assim, nossa Igreja encontrará o verdadeiro caminho da conversão pastoral, tão urgentemente necessária.
Tiago de França