sábado, 27 de agosto de 2011

Dom Hélder Câmara e Dom Luciano Mendes: profetas da justiça e do amor


Um breve artigo é insuficiente para falar de dois grandes homens santos que marcaram a história da Igreja. Falar sobre Dom Hélder e Dom Luciano é expressar o significado do ser Bispo na Igreja. Além disso, é expressar, sobretudo, o valor e a urgência da profecia dentro e fora da instituição religiosa. É conflituosa a relação que há entre profecia e instituição. Há duas palavras que caracterizam a vida destes dois profetas da Igreja no Brasil: incompreensão e perseguição.

O profeta não vive para a instituição. Esta não gera nem o profeta nem a profecia. Estes são obras do Espírito do Senhor. Guiado pelo Espírito, o profeta anuncia o Reino e este anúncio pressupõe a denúncia das injustiças. Quando estas são praticadas no interior da Igreja, o profeta também a denuncia. Jesus de Nazaré, o profeta maior, denunciou os equívocos e crimes praticados pela religião do seu tempo. Para o profeta, Jesus é a inspiração e a referência fundamental.

Dom Hélder saiu do Rio de Janeiro para Olinda e Recife, Dom Luciano saiu de São Paulo para Mariana. De fato, o profeta não ocupa o centro, mas vive à margem, na periferia. A profecia não é exercida a partir do centro, mas a partir da periferia porque é lá que vivem os pobres. Não há profeta nem profecia sem os pobres. Os profetas sempre nascem no meio deles e quando não nascem, são gerados a partir deles. Se uma pessoa rica quiser exercer o ministério profético terá que se deixar guiar pelo Espírito, e este a torna humildemente pobre. O Espírito nunca contradiz a opção divina porque o Espírito realiza o que o Pai manda.

Há outras duas palavras que caracterizam estes dois Bispos da Igreja: justiça e amor. A vida deles foi um testemunho fiel de justiça e de amor. Eles ensinaram que a justiça que liberta não é aquela fabricada pelos homens, mas é a justiça do Reino de Deus. Na justiça dos homens, os pobres não têm vez nem voz. Os homens inventaram as leis dizendo que as mesmas existem para defender os fracos, mas é mentira. Desde que inventaram as leis, a justiça tem se mostrado injusta porque criminaliza o pobre e o condena. Isto justifica a opção que Deus fez pelos pobres. Deus sabe que os pobres dependem dele para sobreviver neste mundo.

A justiça do Reino de Deus não é cega, mas possui olhos abertos e enxerga o injustiçado e lhe faz justiça; é a única justiça que promove a igualdade entre as pessoas. No Reino de Deus, a justiça divina diz que todos são iguais, ninguém é maior nem melhor que ninguém: todos são filhos de um mesmo Pai. Nela o homem não é objeto nem de processo nem de burocracia, pois estes existem para que alguns ganhem dinheiro à custa do sofrimento do próximo. Na justiça dos homens, a lentidão existe para que os injustiçados desistam de ganhar a causa. Na justiça do Reino de Deus, os injustiçados têm suas causas ganhas sem precisar de processo porque Deus é justo, bom e misericordioso no julgar.

Dom Hélder e Dom Luciano também ensinaram o verdadeiro significado do amor. Eles não aprenderam a amar nas universidades (Dom Luciano era jesuíta e Doutor em Filosofia, e Dom Hélder foi formado no rigor disciplinar da formação lazarista e tinha uma inteligência extraordinária). Eles aprenderam a amar quando se dispuseram a amar mais as pessoas do que os ofícios que exerciam: despojaram de todo espírito de superioridade e prepotência e revestiram-se do espírito de Cristo. Servindo aos pobres aprenderam a levar uma vida humilde e simples. Eles descobriram que a missão deles não era a de ser porta-voz do Vaticano, mas de serem missionários do Evangelho de Jesus de Nazaré: eram homens de Igreja sem a sujeição da inteligência ao Bispo de Roma.

Eles ensinaram que o amor está acima dos discursos eclesiásticos e, muitas vezes, não é expresso por estes. Certamente, quem os conheceu sabe que, enquanto Bispos, discursavam muito, mas a incoerência não se encontrava em seus discursos. Em nenhum momento entravam em contradição com o Evangelho porque não falavam de si nem para si, mas a exemplo dos apóstolos de Jesus de Nazaré, testemunhavam a Ressurreição do Senhor. Segundo Dom Hélder e Dom Luciano, o amor verdadeiro se expressa na solidariedade com o próximo, preferencialmente o próximo pobre e sofredor. Eles eram profeticamente comprometidos com as causas dos pobres e com a promoção da justiça e da paz.

No dia 27 de agosto de 1999, aos 90 anos de idade, Dom Hélder entregou-se definitivamente nos braços do Pai. Na mesma data do ano de 2006, aos 75 anos, Dom Luciano viveu a mesma experiência pascal. A vida deles não deixa dúvidas: o Espírito faz suscitar profetas também na hierarquia da Igreja. Com isto, o Espírito está dizendo que a Igreja precisa se converter naquilo que ela deve ser: uma humilde servidora dos pobres. O testemunho destes santos Bispos chama a atenção para a necessidade de a Igreja escutar os profetas, pois sem eles não há profecia e sem esta não há Reino de Deus. Escutemos, pois, os profetas e convertamo-nos.


Tiago de França

Um comentário:

Tiago Medeiros disse...

Lindo texto, é bem profundo e relatar esses 2 homens profetas da igreja de Cristo é confortador!!!!! Parabéns pelo postagem...

Abç!!!!