domingo, 6 de setembro de 2015

Efatá!

“Olhando para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abre-te!’” (Mc 7, 34)

            Conta o evangelho segundo Marcos, que Jesus de Nazaré estava atravessando a região da Decápole, portanto, fora dos ambientes judaicos. Os judeus entendiam que os estrangeiros eram impuros, e com eles não se poderia conversar. Eles tinham outra cultura e outra religião. Este é o contexto da narração que queremos meditar brevemente (cf. Mc 7, 31 – 36). Estando entre estranhos, eis que algumas pessoas (o evangelista não revela seus nomes) levam a Jesus um homem surdo, que falava com dificuldades, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. A situação é de aflição: Um homem que não escuta e que mal consegue falar.

            Na Bíblia, a surdez é descrita como resistência à escuta da palavra de Deus. No Antigo Testamento encontramos os profetas denunciando, incansavelmente, este mal. Escutar não é somente prestar atenção à proclamação da palavra de Deus, mas ouvir com o coração e obedecer. É colocar-se numa atitude de prontidão, de serviço. Surdos são todos aqueles que se recusam a escutar (obedecer) à palavra de Deus. Jesus não somente liberta da surdez física, mas, principalmente, da surdez do coração. Este segundo tipo é o mais perigoso e o mais difícil de se curar. Há pessoas com sofrem com a surdez física, mas escutam e obedecem à voz de Deus. Escutam a Deus com o coração.

            Para curar o homem, Jesus se afastou da multidão, levando-o consigo. Este foi participar da intimidade de Jesus: O Nazareno, o homem, a surdez e a dificuldade para falar. O homem estava diante da fonte libertadora de todo mal. Jesus não quis saber se era estrangeiro, pagão ou impuro; simplesmente colocou o dedo nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou-lhe a língua, olhou para o céu, suspirou e disse Efatá! E, imediatamente, o homem começou a ouvir e a falar sem dificuldade. Após a cura, recomendou com insistência que não contassem a ninguém (segredo messiânico), mas, como era de se esperar, as pessoas não seguiram a recomendação. Era impossível que ficassem caladas diante de tamanha maravilha.

            Hoje, Jesus olha para cada uma daquelas pessoas que se colocaram em seu caminho e diz: “ABRE-TE!” O autêntico cristão não é uma pessoa fechada, isolada, presa a si mesma. Não vive em função de seus próprios interesses. Não é dissimulado nem age pautado na indiferença. Aliás, indiferença é falta de ação em prol do bem do próximo. Por que abrir-se? A resposta é simples: Para que as pessoas nos olhem, assim como fizeram aquelas pessoas que presenciaram a cura do homem surdo, e digam: Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar. Maravilhadas com Jesus, estas foram as palavras que lhe foram dirigidas.

            Abrir-se ao novo, ao diferente, ao que nos desafia, à possibilidade de uma humanidade nova. Abrir-se às pessoas, sem as lentes do preconceito. Olhar para elas com os olhos de Jesus: Com serenidade e abertura de coração. Abrir-se é fazer-se próximo, evitando, assim, a mediocridade de uma vida vazia e sem sentido. É contemplar a beleza de Deus estampada nas pessoas e no mundo. Abrir-se é reconciliar-se consigo mesmo e com os outros, numa relação alicerçada no amor, na compreensão e na acolhida. Somente assim, venceremos toda indisposição e às tendências que nos levam a pensar que somos superiores aos outros. Quem se livra dessa pretensão é feliz; do contrário, vive na perturbação porque o espírito de superioridade corrói as pessoas desde as suas entranhas, tirando-lhes a paz.

            Imaginemos um lindo garotinho sírio, de apenas 3 anos de idade, que fugindo dos horrores da guerra, juntamente com sua família, rumo à Europa (ver foto que acompanha esta meditação), não consegue chegar ao seu destino, perdendo a vida e sendo encontrado às margens do mar, de bruços, em silêncio. Este garotinho morto, é um grito forte e incansável contra a covardia daqueles que promovem a guerra: Contra os assassinos e seus benfeitores. Este garotinho representa todas as pessoas que estão sendo brutalmente assassinadas, diariamente, pelas inúmeras formas de violência em todas as partes do mundo.

            Onde estão os nossos ouvidos e nosso coração? Onde está a nossa voz e a força de nossos braços? Não temos nada que ver com a morte de milhares de pessoas ao redor do mundo, em nossas cidades, bairros e em nossa rua? Somos mais um na multidão dos covardes, que simplesmente olham, lamentam e passam para o outro lado do caminho? Onde está o coração dos governantes das maiores potências econômicas do mundo? Preso ao dinheiro e à sede de poder? Onde estão os eruditos, os estudiosos em humanidades, os que aperfeiçoam as tecnologias? Que tipo de espécie animal somos nós? Somos realmente humanos? Para que servem nossa inteligência e nossos títulos de mestres e doutores? Por que insistimos na descoberta de vida em outro planeta se sequer estamos dando conta do nosso planeta? O que estão fazendo os cristãos em suas Igrejas, assim como os demais crentes em suas religiões? Enclausurados nos templos?... Pensemos nessas questões e não sejamos medíocres e fúteis.

            Para bem concluirmos essa meditação, ao leitor fazemos um convite: Olhe para a foto do pequenino Aylan Kurdi, que acompanha esta meditação. Olhe com atenção e sem pressa. Coloque-se no lugar dele, assim como no de sua família. Agora olhe para cada membro de sua família e de sua comunidade. Procure localizar os que estão caídos, agonizando, praticamente mortos por causa de seus sofrimentos. Agora, com sinceridade e verdade de consciência e de coração, sem fugas, responda para si mesmo a questão: O que estou fazendo da minha vida?... Não precisa ter medo nem se desesperar. Lembre-se: Você está vivo e o tempo está passando... O mundo precisa de seres humanos. ABRE-TE!


Tiago de França

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