terça-feira, 25 de abril de 2017

Ética, onde estás?

        No mundo antigo, os gregos conceberam o conceito de ética. Este conceito provém de êthos, e significa o conjunto de costumes normativos da vida em sociedade, o modo de ser, o caráter. O filósofo Aristóteles concebeu o homem como zoon politikón, ou seja, animal político: alguém vocacionado à vida em comum na cidade: pólis, em grego. Neste sentido, o homem somente se realiza enquanto ser racional quando vive a sua vocação de sujeito político. A ideia de justiça, para os gregos, surge da relação entre ética e política. Justo é o homem que sabe discernir, e usando do discernimento aprende a viver em sociedade.

        Com o advento da modernidade, surgiram alguns problemas, e um deles ganhou força com o passar do tempo: O liberalismo. Trata-se de uma doutrina que prega uma pseudoliberdade: uma liberdade prejudicial ao homem. É aqui que a relação entre ética e política se torna cada vez mais doente. Na sua essência, o liberalismo não está preocupado com questões éticas. Uma sociedade “livre”, com pouca intervenção do Estado, faz surgir o liberalismo econômico, alicerce do capitalismo selvagem. Na segunda metade do séc. XX, preocupados em revigorar o sistema, os capitalistas resgataram as bases do liberalismo, fazendo surgir o neoliberalismo.

        Qual o resultado prático da separação entre ética e política? A degradação do homem e da natureza. Iluminado pela razão, e crendo que esta solucionaria todos os seus problemas, o homem cria ciência e tecnologia, dando origem à razão instrumental, marcadamente moderna. Com a evolução desta razão, que está a serviço do sistema capitalista, o homem se deu conta de que é capaz de destruir a si mesmo: Somente na primeira metade do séc. XX, consegue ocasionar duas guerras mundiais, e com o alvorecer do séc. XXI, aperfeiçoa cada vez mais o seu poder de autodestruição. Irresponsavelmente, age sem nenhuma preocupação com a própria vida nem com a vida das futuras gerações. O homem se tornou um dos animais mais perigosos, capaz de erradicar a vida do mundo.

        E quanto ao Brasil, o que dizer da relação entre ética e política em nossa conjuntura nacional? Nos últimos anos, nunca se ouviu falar tanto em corrupção como agora. As pessoas já não se surpreendem mais ao ouvir, diuturnamente, os telejornais noticiarem novos escândalos de corrupção. No Brasil, a corrupção mais se parece com a profundidade do oceano: Ninguém consegue medir. Quanto mais se vasculha, mais se acha. Governantes e governados, salvo exceções, vivem metidos na corrupção. O famoso “jeitinho brasileiro” tem se mostrado como a regra, e a honestidade se tornou exceção. A realidade mostra que esta afirmação não é exagerada.

        Não podemos afirmar que o povo brasileiro é corrupto, mas é correto dizer que muita gente do povo é corrupta. Não estamos falando de uma pequena parcela, mas de um número assustador e cada vez mais crescente de pessoas que desconhecem, na vida prática, o significado da palavra ética. Segundo elas, a ética é perda de tempo. Afirmam, categoricamente, que é coisa de gente tola. Defendem que a corrupção vale a pena e traz felicidade ao homem. Acreditam que a vida se encerra em ganhar a qualquer custo. Viver se resume a tirar vantagem em tudo. A esperteza e a capacidade de enganar os outros são exaltadas como marcas do indivíduo corrupto.

        Desde criança, as pessoas já aprendem a mentir e enganar, a tirar vantagem em tudo, a passar os outros para trás. Cria-se uma cultura na qual o outro deve ser ultrapassado, traído, e, se possível, eliminado. A noção de dignidade da pessoa humana não sobrevive numa sociedade marcada pela corrupção. Pessoas corruptas não se preocupam com a dignidade dos outros nem com a própria. Na verdade, desconhecem o real conteúdo da expressão dignidade humana. A corrupção fere de morte a dignidade das pessoas, desumanizando-as. Somente seres humanos dignos são capazes de respeitar e promover a dignidade dos outros.

        Assim, como a maioria do povo brasileiro é capaz de construir uma sociedade justa e fraterna para todos se o combate à corrupção não constitui, atualmente, preocupação fundamental? De modo geral, as pessoas escutam e leem os jornais, mas permanecem com as mesmas atitudes. O médico escuta falar da corrupção, balança a cabeça, reprovando tal situação, mas no seu consultório vende o atestado médico. Uma das características de muita gente corrupta é reprovar a corrupção praticada por outros. São escandalosamente dissimulados! A dissimulação é uma das tentativas de acobertar a corrupção, e com aquela nasce a falsa moral e/ou o moralismo. Por trás de muitos discursos moralistas se esconde muita corrupção.

        Fala-se em corrupção sistêmica, que é aquela que atinge todo o sistema, sem permitir exceções. No Brasil, a corrupção pode ser encontrada em todas as instituições. Chama-nos a atenção, a corrupção no sistema político. Centenas de políticos, em conluio com empresários e alguns agentes do Poder Judiciário, há décadas, assaltam os cofres públicos. Uma parcela dos ladrões envolvidos foi identificada, a outra continua sem ser conhecida. A corrupção no Judiciário não é investigada. Não se tem notícia da citação de um nome sequer. Cita-se o nome de políticos e empresários, mas omite-se os nomes de juízes, desembargadores, ministros, procuradores, e outros sujeitos importantes do Judiciário. Este Poder se coloca acima dos outros, apresentando-se como o único capaz de acabar com a corrupção no Brasil.

Acabar com a corrupção nunca foi a meta do Judiciário, e a história está aí para provar isso. Quem detém poder aquisitivo não teme à justiça, e o motivo é simples: Não há justiça para punir os crimes dos poderosos. No senso comum, o povo já tem decorada a lição: No Brasil, salvo raras exceções, a justiça sempre serviu para castigar os empobrecidos, quando estes se rebelaram e se rebelam contra os poderosos. Estes sabem muito bem que sempre podem contar com a conivência e com a força bruta do Estado. Considerando os desvios praticados, o saldo final de uma operação como a Lava Jato será insignificante. Muita gente poderosa não será punida, e se houver punição para alguns, a pena será branda, aplicada segundo a conveniência, não segundo o que manda a lei. Para escapar da punição, os poderosos mudam a lei, e o juiz simplesmente a aplica no caso concreto, em nome de uma pseudolegalidade.

Ninguém se deixe iludir: O barulho da grande mídia em torno dos escândalos de corrupção não constitui combate à corrupção. A grande mídia não está preocupada em combater a corrupção, pois não nasceu para exercer este papel. Toda cobertura midiática tem seu propósito: Esconder a corrupção, e o faz de modo eficiente e permanente. Durante o período do golpe militar foi assim. A mídia foi a grande responsável em disseminar a ideologia da segurança nacional, domesticando o povo e ceifando a sua capacidade de reação.

Com o fim do regime ditatorial, a mídia permaneceu do mesmo jeito: Antipopular e antidemocrática, portanto, inimiga do bem comum, aliada dos poderosos. Hoje, o sucessor do governo Dilma Rousseff continua se utilizando da aliança com a grande mídia, com objetivo de impor reformas contrárias ao bem comum, profunda e escandalosamente antidemocráticas. O poder midiático é tão forte que o povo mal consegue reagir, e quando o faz é por algumas horas, sob a ameaça constante da força bruta do Estado, que de democrático só tem o nome. O Estado Democrático de Direito é uma ideologia criada para iludir as pessoas, levando-as a pensar que vivem em um País onde os direitos e garantias fundamentais são respeitadas. Como aceitar um Estado Democrático de Direito no qual os direitos fundamentais são, progressivamente, erradicados?... Os mais pobres perdem seus direitos e os poderosos mantém seus privilégios. É isto que está acontecendo, hoje, no Brasil.

E a ética, onde ficou? Permanece com aqueles que se comprometem com a construção de um novo mundo possível. Somente quem assume esta responsabilidade é capaz de ser verdadeiramente ético. Todos aqueles que vivem em função dos próprios interesses, em detrimento do bem comum, não são éticos nem podem ser.

Egoístas, materialistas, individualistas, corporativistas, os defensores e promotores da cultura da eliminação do outro, os covardes, as pessoas de mau caráter, os mentirosos, enfim, todos os que se colocam nas fileiras daqueles que servem à cultura da morte não são éticos nem podem ser. Na verdade, são pessoas mesquinhas e, portanto, nocivas à sociedade. O mundo já não tem espaço para tanta gente assim. Portanto, cabe-nos crer na possibilidade de sermos diferentes, de sermos verdadeiramente éticos: justos, íntegros e ousados, para o bem de toda a humanidade. Isto é possível. Ser ético é uma questão de atitude, não de discurso. Trata-se de uma postura, de um jeito de ser, verdadeiro caminho de felicidade; não de qualquer felicidade, mas aquela que inclui o outro, pois na vida social não é possível ser feliz sem a comunhão com o outro.

Tiago de França

domingo, 16 de abril de 2017

O CRISTO VENCEU, RESSUSCITOU!

Jesus ressuscitou, aleluia!
A morte foi vencida.
A esperança dos pobres vive!
Demos graças a Deus!

As forças do anti-Reino são barulhentas.
O barco está em alto mar.
A tempestade é forte.
Mas o mal não passa disso. Tudo é transitório.

As forças do Reino são silenciosas: são sementes que germinam durante a noite.
O mar bravio obedece à voz Daquele que o criou.
A tempestade não derruba aqueles que estão sobre a Rocha.
O amor não é passageiro. Deus é Pai, infinitamente bom!

Demos graças a Deus porque Jesus ressuscitou.
A morte foi vencida e a esperança dos pobres vive.
Sigamos firmes e alegres.
Deus jamais nos abandona. Ele é a nossa vida, o nosso Tudo.

Feliz Páscoa!


Tiago de França

sábado, 8 de abril de 2017

O escândalo da cruz de Jesus

“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6 – 7).

        Jesus foi brutalmente assassinado na cruz. Autoridades religiosas em conluio com o poder político de seu tempo o conduziram ao madeiro da cruz. Sua morte era das piores. Morto, estava entre os piores homens da época. Um escândalo!

        Seus seguidores acreditam que seja o Messias prometido pelos antigos profetas. De fato, identificou-se de tal modo com a vida profética, que cumpriu, na carne, a missão de Messias. Não um Messias convencional, nos moldes esperados. Mas um Messias contestador, um subversivo, um louco, homem muito perigoso à luz da mentalidade romana de então.

        Trataram logo de eliminá-lo. Morto, o problema estaria resolvido. Mas a história não terminou com a morte sangrenta na cruz. Ele não foi enviado para simplesmente ser morto e, assim, permanecer derrotado, exposto à vergonha pública, crucificado como um pecador digno de desprezo.

        Nele havia algo extraordinário: Tornou-se, divinamente, humano! Suas palavras, gestos, seus ensinamentos e sua entrega testemunham a presença de Deus no mundo. Nele, Deus revelou a sua verdadeira Face: humilde e, humanamente, desprovido de poder. Das alturas dos céus, quis Deus descer à terra, tornando-se homem em Jesus.

        Para a tristeza de quem procura por um Deus Todo-poderoso, Senhor dos Exércitos, implacável para com os ímpios... Eis que, de repente, manifesta-se Deus na figura de um homem, carne e osso, plenamente humano, nascido em Nazaré, terra de gente mal afamada. O Pai de Jesus é o Deus dos empobrecidos, é o Pai amoroso que armou sua tenda na periferia, e a partir desta manifestou o seu poder. Qual poder? A sua infinita misericórdia.

        Assim, há algo escandaloso que até os mais piedosos na religião cristã tem dificuldade de compreender e aceitar: A realidade de um Deus que se manifesta a partir da fraqueza humana. Um Deus que se manifesta na pequenez, na insignificância do mundo, na clandestinidade. Um Pai que ama, verdadeiramente, seus filhos, especialmente os mais pecadores.

        Não há teologia nem liturgia que mude tal realidade fática e histórica. Deus é assim: Escandalosamente, amoroso! O homem busca o poder, mas Deus não é poder nem se manifesta nas estruturas de poder humano. Deus não se encontra onde o poder não é serviço, onde as pessoas são enganadas, exploradas e mortas. Ele rejeita a profissão de fé dos poderosos exploradores. Estes não o conhecem, pois adoram um deus falso, um ídolo, e com este perecem.

        Os presidentes dos EUA, da Rússia, da Síria e tantos outros, atualmente, são os inimigos declarados de Deus e seu Reino. São demônios encarnados que maquinam e executam a morte de milhares de inocentes. Em nome de interesses políticos e econômicos derramam o sangue de inocentes. Na Síria, nestes dias, até armas químicas usaram, matando inúmeros inocentes, dentre os quais se encontravam dezenas de crianças. O sangue destes inocentes clama a ira de Deus, clama por justiça. E a fé no Pai de Jesus nos assegura: Cedo ou tarde, os poderosos caem de seus tronos, e os humildes são exaltados.

        A sede de sangue, que domina aqueles que lutam pelo poder, continua fazendo vítimas, em todo tempo e lugar. Há calvários espalhados no mundo inteiro. No Brasil, temos o atual presidente da República, que juntamente com sua base de apoio, está castigando e mandando para o calvário milhões de brasileiros, promovendo reformas que estão custando o suor e o sangue de muitos. Trata-se de um projeto de desmonte dos direitos humanos fundamentais, posto em prática sem dó nem piedade. Os agentes de Satanás estão soltos, sugando o sangue dos pobres da terra.

        Exposto ao sol do meio dia, agonizando, Jesus continua sentindo, na carne, a dor da crucificação. Ele está na carne sofrida dos empobrecidos, que estão sendo castigados nos quatro cantos da terra. Seu grito é ensurdecedor. Seu sangue jorra, sem cessar. As mulheres de Jerusalém choram, desesperadamente, a morte de Jesus; de seus filhos em Cristo Jesus. Os dias são pesados, sufocantes, de agonia e sofrimento. A natureza geme em dores de parto.

        Apesar disso, Jesus e os crucificados da história elevam ao Pai um clamor: Imploram que não sejam abandonados. E o Pai, fiel e misericordioso, permanecendo junto a seu povo, haverá de manifestar a sua força, fazendo ressurgir a vida. E esta vida foi criada para ser eterna. É ela que tem a palavra final. Assim cremos e professamos, por todos os séculos dos séculos.


Tiago de França

Obs: Acompanha esta meditação, uma foto na qual aparecem crianças sírias, mortas em um massacre determinado pelo líder do governo sírio, que mandou utilizar armas químicas, no dia 04/04/17.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O amor. Pensamentos (XXXVII)

O amor é aquela força, a maior de todas, que arrebata as pessoas, libertando-as da mediocridade.


Tiago de França

sábado, 25 de março de 2017

Jesus e o dom da visão

“Acreditas no Filho do Homem?” (Jo 9, 35)

        Conta o evangelista João, que Jesus viu um homem cego de nascença. Esta afirmação pode parecer simplória, levando-nos a pensar que não há nada de tão importante. Pelo contrário, na verdade, Jesus nos vê. Deixar crescer em nós uma consciência espiritual a respeito da visão de Jesus sobre cada um de nós é uma graça, um dom de Deus. Jesus nos vê e deseja que saibamos disso. Deseja também que aprendamos a ver o próximo, nosso irmão na fé.

        O evangelista continua dizendo que o homem cego era mendigo, e que vivia pedindo esmolas ao redor do Templo. A sua condição era humilhante. Era um marginalizado. Não tinha vida digna. Faltava-lhe a visão dos olhos da carne. Diante da situação, Jesus não ficou somente observando, mas agiu: concedeu-lhe a capacidade de enxergar. Vendo pela primeira vez, o homem foi integrado à sociedade, saindo da marginalização.

        Toda pessoa que se liberta de uma limitação ganha nova vida. Para ter acesso à visão, o homem cego, mesmo sem conhecer Jesus, sem saber de onde vinha nem para onde ia, deixou-se curar. Havia nele uma disposição interna, um querer, uma profunda vontade de enxergar. Geralmente, há em nós uma forte resistência à visão. Há pessoas que preferem não enxergar. E aqui não estamos nos referindo à cegueira dos olhos da carne, mas à cegueira dos olhos do espírito. Trata-se da recusa de enxergar a vida como ela é, sem rótulos e sem fugas: enxergar as coisas como elas verdadeiramente são.

        A experiência do homem cego é de confiança na pessoa de Jesus. Não havia nenhuma dúvida em seu coração. Estava ansioso para enxergar, e acreditava que ele poderia fazê-lo ver. Diante de Jesus, o homem estava totalmente confiante, entregue, crente. Na relação de plena confiança, a visão aparece de forma definitiva. As trevas desaparecem porque a luz da visão se manifesta com toda a sua força. A libertação da cegueira dos olhos do espírito exige fé, e esta é sinônimo de plena confiança Naquele que é o único capaz de conceder o dom da visão.

        Narra, ainda, o evangelista que os religiosos do Templo não gostaram da notícia: ficaram incomodados com o fato de o homem cego ter sido libertado da cegueira. Para os religiosos da época, o cego era um homem que nasceu todo em pecado, alguém digno de desprezo e rejeição. Quando questionado, afirmou com convicção: Jesus é um profeta! A profecia de Jesus era muito pesada para os religiosos da época. Estes diziam que ele não vinha de Deus porque não obedecia às prescrições religiosas, não vivia em função delas.

        Isto nos faz pensar sobre a nossa situação religiosa atual, especialmente a realidade do cristianismo. O que tem sido mais importante para os cristãos: a mensagem de Jesus, ou a observância das prescrições religiosas? Se o cristão quiser saber sobre seu destino espiritual, sobre se está ou não no caminho de Jesus, precisa responder a esta pergunta fundamental. Ter fé em Jesus não é obedecer às prescrições religiosas, mas colocar-se no seu caminho e perseverar.

        Quem se encontra com Jesus e é libertado da cegueira se coloca, naturalmente, em seu caminho. Trata-se de um caminho de liberdade porque presente a luz. Em Jesus, a visão é dom porque é compromisso. Muitas pessoas não querem enxergar porque não querem assumir compromisso com aquilo que poderiam ver. Optam pela cegueira porque esta conduz à omissão, e nesta tudo é mais confortável, não há incômodo. Somente a consciência, bem lá no fundo de si mesmo, vez e outra, como que em um despertar repentino, acusa a pessoa omissa de seu pecado. Mas ela não se importa porque uma das marcas da pessoa omissa é não ouvir o apelo de sua própria consciência.

        Jesus nos coloca o desafio e o chamado à visão. Ninguém é obrigado a enxergar. A visão enquanto dom não passa pela obrigação, mas dar-se na liberdade e para a liberdade. É para sermos livres que somos chamados à visão. Ela não ocorre num passe de mágica, mas é processual, de acordo com as circunstâncias e o ritmo de cada pessoa. Ninguém está isolado das próprias circunstâncias. Quem sentir o chamado, aceitando, pode ter acesso à visão, encontrando-se com Jesus.

É arriscado enxergar, mas é caminho de vida e de salvação aberto a todos. Para a construção de um modo novo é imprescindível enxergar a realidade. Quem não enxerga, facilmente é enganado e manipulado. Precisamos ousar enxergar para descobrirmos a mentira e a verdade presentes na realidade. Os poderosos deste mundo precisam cada vez mais de um povo cada vez mais cego e, consequentemente, ignorante. Assim, eles podem continuar explorando, e este povo, uma vez constituído por uma maioria de gente cega, é e sempre será incapaz de reagir à exploração. É isto que está acontecendo atualmente no Brasil. Aos poucos, estamos caminhando rumo ao passado. Estão impondo aos brasileiros, gradativamente, o estilo de vida do Brasil da era colonial.

Feliz aquele que enxerga a vida, pois não há vida digna sem a visão da realidade.

Tiago de França

quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma palavra às mulheres

       
      Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Em um país marcado pelo machismo e pelo conservadorismo, as mulheres não tem muito o que comemorar. Causa repugnância a forma como as mulheres são tratadas no Brasil: são desrespeitadas em sua dignidade. Este desrespeito é constituído por inúmeras formas de violência contra a mulher.

A situação é tão grave e vergonhosa, que foi necessária a criação de uma lei para proteger a mulher da violência de inúmeros indivíduos que pensam ser homens. Apesar disso, a Lei Maria da Penha não consegue erradicar a violência contra a mulher, e os fatores são inúmeros.

        Para milhões de indivíduos que pensam ser homens, a mulher é propriedade particular, uma coisa, um objeto de uso, que pode ser utilizado e descartado. Para eles, a mulher serve para ser um depósito de espermatozoides, para lavar e passar roupas, lavar louça e fazer comida, cuidar de crianças e arrumar a casa, enfim, ser a empregada do lar. A mulher é a bela, recatada e do lar. Por isso, trata-se de um ser inferior, que pode ser desrespeitado sem que isso seja considerado um problema.

        Na sociedade, as que conseguem os postos de trabalho até então ocupados pelos homens, não recebem os mesmos salários. As estatísticas mostram que a mulher trabalha mais e ganha menos. O homem trabalha menos que a mulher. E não há nenhum projeto efetivo nem vontade política para mudar isso. A situação se normalizou. Se a mulher é inferior ao homem, então deve ter salários menores: esta é a ideologia dominante.

        Estes mesmos indivíduos defendem, ainda, o absurdo de que a mulher deve sofrer calada. Assédio, agressões, piadas indecentes, olhares, estupros, chantagem emocional, enfim, ela deve sofrer tudo isso calada. Eles defendem o silêncio forçado, a mordaça. No parlamento brasileiro, formado por 90% de homens, a mulher não tem vez nem voz.

Uma boa parcela de parlamentares, constituída por hipócritas e adúlteros, trabalha tão somente para barrar a conquista dos direitos das mulheres. Infelizmente, milhões de mulheres elegeram seus próprios inimigos na política. Quanto mais o político se mostra violento e indecente em relação às mulheres, maior é a sua popularidade. É assim porque parte do povo se identifica com a violência contra a mulher. Trata-se de uma parcela grande de gente ignorante e criminosa.

Na religião cristã, a situação não é muito diferente. Apesar de Jesus ter ensinado a fraternidade e, consequentemente, a igualdade entre mulheres e homens, inúmeros líderes religiosos pregam a subserviência; ensinam que a mulher deve obedecer ao homem, sendo-lhe submissa. Para isso, procuram versículos bíblicos para legitimar seu desejo de dominação.

Sem a mulher, o Cristianismo desaparece, mas esta verdade não é considerada. Na Igreja Católica, a mulher não participa da hierarquia nem preside a Eucaristia. Também em muitas outras Igrejas e religiões, a mulher é excluída de alguns ofícios, que somente podem ser desempenhados por homens, exclusivamente.

Este exclusivismo contraria o evangelho, mas os conservadores não estão preocupados com o evangelho, mas querem continuar exercendo o poder, sem a interferência e participação da mulher. O poder de decisão é do homem. A mulher está para o serviço, especialmente os serviços de ornamentação e limpeza.

        Por estes e tantos outros motivos, não resta à mulher outra alternativa senão ir à luta, permanecendo firme na conquista de seus direitos. Precisa ocupar o seu espaço com dignidade. A mulher necessita, também, aprender cada vez mais a usar a palavra e aproveitar as oportunidades que surgem, sem aderir ao autoritarismo de muitos indivíduos.

Sem perder a ternura, posicionar-se com coragem e firmeza. O mundo carece cada vez mais de mulheres audaciosas, conscientes de seu papel na sociedade, amorosas, livres e libertadoras. O que seria do mundo sem a ternura das mulheres?...
Avante, mulheres!

Tiago de França

domingo, 5 de março de 2017

Despedida. Pensamentos (XXXVI)

Despedir-se de quem a gente gosta é um cálice amargo que a vida nos obriga a experimentar. E por mais que experimentemos, a gente nunca se acostuma.


Tiago de França