quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O CHAMADO DE DEUS (Reflexão por ocasião do Mês Vocacional)


“Não fostes vós que me escolhestes; eu vos escolhi e vos destinei a ir e dar fruto, um fruto que permaneça” (Jo 15, 16).

        Este versículo presente no Evangelho de Jesus segundo João é de uma beleza e profundidade grandiosas. O chamado de Deus é um tema que jamais pode ser esquecido, porque aponta para a realidade da missão. Não existe missão sem missionário, bem como não há missionário sem o chamado de Deus. Em breves linhas, queremos refletir um pouco sobre algumas características deste chamado. A partir do testemunho de Jesus de Nazaré, missionário do Pai, queremos ousar algumas provocações sobre o tema da vocação. Na Igreja, durante o mês de agosto, reflete-se sobre este tema, que é muito caro à vida eclesial.

A escolha é sempre de Deus

        Deus nos escolhe antes mesmo da nossa concepção. No projeto de salvação da humanidade, Deus pensa uma missão para cada pessoa. Na medida em que as necessidades humanas vão aparecendo, também vão surgindo, simultaneamente, mulheres e homens que se colocam a serviço da construção de um mundo mais justo e fraterno. Cada pessoa vai descobrindo suas aptidões, e busca, na medida do possível, desenvolvê-las para servir, realizar-se e ser feliz. São inúmeras as profissões e competências.

        No seio das religiões, há aqueles que optam por servir a Deus em ministérios específicos. No Cristianismo, serve-se a Deus no caminho de Jesus. Não há como servir a Deus fora deste caminho, porque Jesus é o Caminho que leva ao Pai. Assim, Deus escolhe mulheres e homens para servi-lo na pessoa do próximo. O Evangelho de Jesus revela que este próximo é o que está distante, o desconhecido, aquele que nos olha nos olhos e nos interpela para a missão. Jesus chega a dizer que o próximo também é o nosso inimigo, a quem devemos amar. Esta é a missão.

        O Evangelho de Jesus nos fala da escolha divina. Quando Jesus escolhe as pessoas que irão acompanhá-lo mais de perto, a escolha recai sobre pessoas simples e humildes, desprovidas de dinheiro, poder e prestígio. Ele não escolheu pessoas extraordinárias, mas mulheres e homens comuns. No Antigo Testamento das Escrituras encontramos o mesmo critério: Deus escolheu pessoas comuns para servi-lo em situações desafiadoras. Jesus revela que Deus não escolhe pessoas fortes e dotadas de grande inteligência, mas pessoas fracas e desprovidas da cultura erudita deste mundo.

Com isso, não estamos condenando a necessidade de cultura e erudição, mas esta não é condição ou requisito para ser missionário de Jesus. Um missionário não precisa ser, necessariamente, erudito. A história mostra que, em muitos casos, tal erudição atrapalhou e continua atrapalhando a muitos no caminho de Jesus. À luz da sabedoria humana, Jesus não era um homem erudito, mas um simples filho de carpinteiro, dotado da sabedoria divina que conhece todas as coisas.

Com isso, queremos dizer que, no caminho de Jesus, o mais importante é o seguimento que acontece na plena comunhão com a Trindade. Sem esta comunhão, não adianta conhecer toda a ciência disponível neste mundo. É preciso ter muito cuidado com a tentação de deixar de lado o essencial da missão, que é a comunhão plena com a Trindade Santa, que escolhe, chama, consagra e envia para a missão.

Deus chama e envia para a missão

        Muito se pode falar sobre a missão. Há uma teologia da missão com muitas obras valiosas. Aqui vamos ao essencial, compreendendo a missão a partir da experiência de Jesus, o missionário do Pai, enviado a este mundo para inaugurar o Reino de Deus. Ao longo da história do Cristianismo, apareceram várias formas de se compreender a missão do cristão e da Igreja. Cada época é marcada por uma concepção diferente. Em várias circunstâncias, as concepções se afastaram do sentido que o Evangelho confere à missão.

        É importante sabermos para qual tipo de missão somos chamados, para não cairmos na tentação de pensarmos que estamos servindo ao Senhor, sendo que, na realidade, podemos estar nos servindo da missão para a satisfação de nossas necessidades e caprichos. No centro da missão a que somos chamados está a opção de Jesus, que é a opção pelos pobres. Portanto, não há missão fora desta opção. Esta revela a parcialidade de Jesus, ou seja, ele não era um missionário neutro, apolítico, desvinculado da realidade, um alienado. Jesus era pobre, viveu entre os pobres, realizou a sua missão a partir da realidade dos pobres e morreu como um despossuído, como alguém que não tinha onde reclinar a cabeça.

        O lugar da missão de Jesus é muito importante para compreendermos os desígnios divinos. Desde a saída do povo da escravidão no Egito, Deus fez uma opção clara pelos oprimidos. Estes estão presentes na história da humanidade desde sempre. A humanidade se organizou em sociedade, e nesta encontramos as classes sociais. Visivelmente, sempre existiram duas grandes classes: a classe dos que possuem o poder para mandar e explorar, e a classe dos que não tem poder e são explorados.

A classe dos explorados é a classe dos que foram empobrecidos. A maioria das riquezas é concentrada nas mãos de uma minoria poderosa, enquanto que o resto da humanidade sobrevive com aquilo que sobra. Esta é uma realidade antiga, que tende a se perpetuar. Os poderosos sempre encontram formas cada vez mais sofisticadas para manter suas riquezas e privilégios. Enquanto isso, as vítimas do saque da riqueza lutam, diuturnamente, para continuar sobrevivendo. A opção de Deus é por estes últimos de todos os tempos e lugares. Toda a Bíblia testemunha, com clareza, esta opção, do Gênesis ao Apocalipse.

Desse modo, a missão do cristão é seguir Jesus, o Messias enviado do Pai. Segui-lo é colocar-se em seu caminho e nele perseverar. Este caminho nos leva ao encontro do Outro (Deus) nos outros (as pessoas e suas circunstâncias, especialmente os pobres). O grande desafio da missão é permanecer com os pobres. Falamos em desafio porque a realidade dos pobres é muito difícil, marcada pelo sofrimento.

Basta olhar para a situação dos pobres em todas as partes do mundo, principalmente na África e América Latina: há muito desemprego; fome; violência; serviços públicos precários; criminalização dos pobres e dos movimentos que os apoiam; violação dos direitos humanos e garantias fundamentais; uma massa enorme de jovens pobres nas prisões e sem perspectivas, jogados nas periferias; falta de saneamento básico; entre tantos outros males.

É para cuidar deste povo sofredor que Deus chama e envia. Este cuidado exige aproximação, despojamento, entrega e muita coragem. O missionário não é chamado a resolver todos estes problemas. O Poder Público tem o dever constitucional de resolvê-los. O missionário é chamado a permanecer presente, despertando a esperança e fazendo o povo enxergar que Deus não está ausente. É chamado a denunciar todas essas injustiças, nomeando os verdadeiros responsáveis. O missionário deve despertar a consciência adormecida dos que sofrem, para que não caiam na ilusão de pensar que os próprios pobres são os responsáveis pela existência de tantos males. O mal não surge do nada. Há sempre alguém ou certas categorias de pessoas que o provocam.

A missão do cristão no mundo consiste é ir ao encontro dos que sofrem, para fazer o que fez o samaritano da parábola do Evangelho: ver, aproximar-se e curar as feridas. Neste sentido, o missionário é alguém sensível aos sofrimentos dos outros. Não há como enxergá-los sem esta sensibilidade. Quem tem aversão aos pobres não consegue sequer enxergá-los. Aproximar-se, permanentemente, é outra exigência da missão. Esta cura das feridas é muito abrangente: cura-se por meio da escuta dos outros; da ajuda financeira; do abraço que conforta; da palavra que ilumina e orienta; da simples presença que acompanha e tira os outros da solidão etc. Estas e outras formas de cura das feridas constituem anúncio do Evangelho de Jesus. Trata-se da mensagem encarnada do Mestre.

Ser missionário na e com a Igreja

        “A Igreja é sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano” (Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 1). Para que este pensamento conciliar seja, de fato, a realidade da Igreja, todo cristão católico precisa ser missionário. Este é o desafio que sempre se apresentou à Igreja, especialmente e de forma mais insistente após o Concílio Vaticano II. Até a realização deste Concílio, os católicos, de modo geral, não se enxergavam como Igreja, mas como pessoas que assistiam às celebrações e recebiam os sacramentos.

        A história da Igreja no Brasil fala de um povo muito piedoso e tradicional, mas que não compreendia a própria fé. Não existia um esforço para levar as pessoas a pensar a própria fé e conhecer melhor o sentido da missão da Igreja. A Igreja existia para salvar as almas da perdição eterna, orientando, assim, o rebanho do Senhor para o caminho do bem. A piedade popular era a marca do peregrinar do povo de Deus. Havia o povo de Deus e, separadamente, a hierarquia clerical. Missionários eram os padres e as freiras. Os bispos eram as autoridades máximas da Igreja, homens distantes, vistos muito raramente pelos fieis. Batizava-se para não ser chamado de pagão, pois não se compreendia o batismo como compromisso para a missão. Resumidamente, esta era a compreensão da Igreja pré-conciliar.

        O Vaticano II fez a Igreja voltar às suas fontes primitivas. Aquela foi obrigada a rever a sua própria identidade e missão no mundo. A Igreja é Povo de Deus: eis a grande e valiosa concepção que resume, belamente, a identidade da Igreja pós-conciliar. Dentre outras mudanças, a hierarquia eclesiástica passa a fazer parte do povo de Deus, e este povo passa a ser um povo sacerdotal. A Igreja deixa de ser vista como uma sociedade perfeita no meio do mundo, para ser considerada uma realidade sujeita a reformas constantes. Apesar disso, uma das maiores dificuldades da instituição eclesiástica é justamente a de reformar-se.

        Esta dificuldade impõe um ritmo à vida da Igreja que, em muitos aspectos, dificulta a prática do Evangelho. Atualmente, o Papa Francisco está trilhando o caminho das reformas. As dificuldades e resistências são muitas. Há quem se oponha às reformas, e o número dos que assim procedem não é pequeno. As resistências são visíveis e em diversas circunstâncias e lugares tem se mostrado de forma bastante violenta. Por outro lado, há muito entusiasmo por parte daqueles que são favoráveis às reformas. É verdade que o Papa sozinho não reformará uma instituição milenar, que herdou do passado problemas e vícios aparentemente insanáveis.

        As ideologias e modismos do tempo presente não ajudam a Igreja a reformar-se. Em seu seio há inúmeros clérigos e fieis que estão contaminados pelo que o Papa chamou de mundanismo espiritual. O apego ao dinheiro e ao poder; o espírito de competição e a vaidade; entre outros males, são verdadeiros entraves à conversão da Igreja. Mudanças estruturais não caminham, devido ao medo de se expor à insegurança. O relativismo que, entre outros fatores, gera a globalização da indiferença, e uma crise moral global são fermentos farisaicos que ganharam proporções gigantescas na vida dita pós-moderna.

        Para ser discípula e missionária de Jesus, a Igreja – povo de Deus em marcha na história –, precisa, humildemente, levar mais a sério a chamada conciliar à comunhão e participação, tendo em vista a centralidade do Reino de Deus. A Igreja precisa, de uma vez por todas, ser advogada dos pobres em detrimento dos interesses dos poderosos deste mundo. Não se pode adotar a política da boa vizinhança, visando manter a boa aparência e a aprovação junto a um público descomprometido com as grandes causas do Reino de Deus. Esta política e preocupação com aprovação são instrumentos de políticos que não prezam o bem comum.

        Neste mesmo sentido, escreveu o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 49:

“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37)”.

         O fechamento, a comodidade e o apego às próprias seguranças sempre foram grandes pecados na vida da Igreja. Em tempos de modernidade, o medo de tudo o que é moderno a deixou isolada do mundo, como se fosse uma ilha. Pensava-se que o mudo seria o lugar da perdição, e não o lugar da missão. Enclausurava-se numa vida profundamente marcada pela ascese e piedade, longe dos problemas humanos. Religiosos e clérigos eram reconhecidos pela batina preta e hábitos que vestiam e pelas práticas de oração que excluíam a vida do mundo. Havia uma clara diferença entre ser fiel à batina ou ao hábito e ser fiel a Jesus. A fidelidade era sinônimo de obediência às prescrições legais e morais.

        A comodidade é outro mal a ser combatido no seguimento de Jesus. Para quem não opta pelo seguimento de Jesus, a comodidade, a priori, não parece ser um mal. À luz da mentalidade capitalista, as pessoas devem procurar viver comodamente. É verdade que toda pessoa merece e deve ter as suas necessidades básicas atendidas: alimento, moradia, saúde, educação, lazer etc. O Papa não está ignorando estas necessidades. A comodidade aparece no sentido de que os missionários, clérigos e não clérigos, não podem buscar viver comodamente, no sentido de viver de forma indiferente aos sofrimentos dos outros, encerrados numa vida tranquila. Assim, comodidade é sinônimo de segurança, que induz à preguiça e impede a saída de si mesmo para o encontro com os outros.

        Apegar-se às próprias seguranças só é possível quando elas existem. Uma pessoa pobre não compra um carro de luxo nem adquire uma mansão. Os pobres não contam com a comodidade oriunda das seguranças que o dinheiro pode oferecer. Os despossuídos estão expostos à falta de segurança. Assim como Jesus, não tem a quem se apegar. Deus é a riqueza dos pobres. A segurança oriunda do dinheiro, das leis, dos procedimentos e das estruturas constitui um gravíssimo entrave na caminhada da Igreja. Para que existam missionários abertos, livres e disponíveis, é necessário que haja desapego. Um missionário apegado às seguranças que as estruturas oferecem é um peso para a vida da Igreja.

        Por fim, precisamos considerar que a reflexão sobre o chamado de Deus nos coloca diante da necessidade de nos convertermos, pessoal e eclesialmente. Precisamos ser para os outros força, luz e consolação. Com certa urgência, precisamos também renunciar a tudo aquilo que nos prende e aliena, a tudo o que nos impede de sermos verdadeiramente humanos.

Ser missionário de Jesus na Igreja não é tarefa para pessoas dotadas de espírito angelical. É o Espírito de Jesus que nos ilumina, guia e orienta na missão. Sem medo e com alegria, despojemo-nos de nossas falsas pretensões e nos coloquemos no caminho de Jesus. É Jesus a regra da missão, dizia São Vicente de Paulo. É o Mestre que ocupa a centralidade da caminhada. Com os olhos fixos nele podemos andar sobre as águas agitadas do mar da vida.

Entregues sem reservas, nada nos falta. Na missão encontramos a verdadeira alegria, aquela que dura para a vida eterna. Sem esta disposição e entrega total de si mesmo, não há conversão possível. A Igreja será outra, totalmente diferente, mais livre e fiel a Jesus, quando nós, seus membros, nos deixarmos guiar pelo Espírito que sonda todas as coisas e nos faz missionários do Reino de Deus, na Igreja e no mundo.

Tiago de França

domingo, 29 de julho de 2018

Partilhar o pão


“Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6, 5).

        O relato da multiplicação dos pães e peixes é, de fato, belíssimo (cf. Jo 6, 1 – 15). O texto traz inúmeros detalhes que merecem a nossa atenção. A indagação acima transcrita nessa breve meditação me chamou a atenção. Jesus demonstra preocupação com a grande multidão que o seguia. Ele teve que oferecer a palavra, os gestos e o pão. A multidão faminta precisava do alimento: pão e peixe, refeição comum da época.

        Quando li a pergunta de Jesus, dirigida a Filipe, seu discípulo, logo pensei: Tenho me preocupado com a falta de pão na mesa das pessoas que padecem pela falta de alimento? Dentro das minhas possibilidades, o que tenho feito? Preferi meditar algumas horas, antes de redigir estas linhas. Precisamos levar o Evangelho de Jesus a sério, para não cairmos na tentação de celebrarmos belamente a liturgia no templo e fingirmos que estamos em comunhão com Jesus, o Pão enviado do Pai. O nosso louvor deve permanecer em sintonia com o nosso viver.

        No Evangelho segundo João, o sinal da multiplicação não foi a realização de uma mágica. Jesus não era mágico. Ele não fez três pães e dois peixes se transformarem, do nada, em alimento suficiente para mais de cinco mil pessoas. Jesus não era mágico, nem embusteiro nem charlatão. Hoje, ninguém está autorizado a fazer mágica em nome de Jesus. Ele não nos enviou para realizar tais coisas. Devemos estar atentos com as deturpações que se fazem desse texto em muitas de nossas Igrejas cristãs. A todos os cristãos, Jesus pergunta hoje: Vocês estão realmente preocupados com os que passam fome? O que vocês estão fazendo para saciá-los?...

         Jesus nos fala do dom da partilha fraterna do pão. Há pão para saciar a fome de todos, mas nem todos tem acesso ao pão. Não falta pão, mas falta solidariedade. Esta não encontra espaço numa sociedade marcada pelo egoísmo. Quem é incapaz de partilhar também é incapaz de amar. E isto é muito grave. Todo aquele que deseja seguir Jesus precisa estar disposto a partilhar. Não existe seguimento de Jesus fora da partilha fraterna do pão. Não existe meio termo. No caminho de Jesus a vida é partilhada com os outros. O seguidor de Jesus vive para os outros e não para si mesmo.

        A mensagem é muito simples, mas bastante exigente. A partilha do pão exige a visão dos outros. Como partilhá-lo se não se enxerga os famintos? Mas não basta ver. É necessário sentir compaixão, e este sentir está intimamente ligado ao ir ao encontro dos outros. Todo faminto é um irmão em Cristo Jesus, é um outro Cristo, que nos olha nos olhos e nos interpela sem cessar. Como vamos deixar um irmão de Jesus passar fome? Que tipo de fé temos? No âmbito da fé cristã não há espaço para a indiferença. Um cristão que sabe o que realmente significa ser cristão não é indiferente aos outros. Qual o sentido de acumular o pão, vivendo ao lado de quem dele necessita e não tem?...

        Há muitos pães para partilhar: o pão da mesa (alimento); o pão da palavra que acolhe, orienta e conforta; o pão do olhar acolhedor; o pão do sorriso que atrai; o pão do abraço que recebe e transmite boas energias; o pão da compreensão diante da situação dos outros; o pão da alegria diante das situações desesperadoras; o pão da verdade quando estamos diante da mentira; o pão do perdão das ofensas recebidas; o pão das mãos abertas e estendidas aos caídos; o pão da escuta daqueles que precisam ser escutados; o pão da simples presença que confere alegria, conforto e segurança... Há tantos pães que podemos partilhar com os outros. Não sejamos egoístas. Estes não participam do Reino de Deus.

        Para os líderes de nossas Igrejas, Jesus faz o apelo: Meus irmãos, o povo está aí, diante de vocês, sentado na relva, de mãos estendidas e com olhar esperançoso, com um clamor ensurdecedor, olhando nos olhos de cada um de vocês... Vocês não podem abandoná-lo, nem ignorá-lo. É de vocês a responsabilidade de saciar a fome deste povo. Sejam fieis. Deem o devido alimento e façam a festa da partilha acontecer. Façam isso em memória de mim.

Tiago de França

sábado, 21 de julho de 2018

A compaixão e o caminho de Jesus


“Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6, 34).

        A compaixão é uma das exigências do caminho de Jesus. Colocar-se neste caminho é tornar-se compassivo. Compaixão é “padecer com”, “sentir com”, participar do sofrimento do próximo. Esta participação é efetiva e afetiva. A fé em Jesus torna o discípulo compassivo. Portanto, a compaixão parte desta fé. Esta se manifesta naquela.

        Em um mundo marcado pelo egoísmo, compadecer-se dos outros é uma virtude escandalosa. Hoje, inúmeras pessoas tendem a viver como se os outros não existissem. A indiferença parece ser a palavra ordenadora da sociedade. A realidade dos outros não causa interesse. Não se procura os outros para saber se estão bem. Não há participação na vida dos outros. Passa-se por estes, mas sem enxergá-los. O contato entre as pessoas é superficial, pois estas são superficiais.

        Atualmente, a preocupação parece centrada na busca pelo sucesso e bem-estar. As pessoas lutam para ter conforto material. Há uma preocupação exagerada pelo cultivo da aparência. O importante é aparecer bem nas fotografias publicadas nas redes sociais. Nestas, a falsa alegria é uma constante. Todo mundo parece conectado, em plena comunhão. Mas tudo não passa de aparência. Pessoalmente, a maioria dos milhões de usuários das redes sociais é triste e infeliz. Fotografa-se tudo, principalmente roupas, carros, casas e viagens. Estas coisas são o motivo da alegria passageira dos que cultivam a ilusão das aparências.

        Esta multidão de usuários faz parte da imensa multidão daqueles que não tem pastor. São pessoas dispersas, que vivem buscando algo concreto para continuar sobrevivendo. É verdade que há muita gente acordada e consciente de sua missão no mundo, que também está nas redes sociais. Mas tais pessoas constituem a minoria. A maioria é afetada pela total desorientação. São as “curtidas” em suas publicações que parecem manter a sua autoestima alta ou baixa. Não há liberdade nem realidade, mas prisão e virtualidade.

        No mundo real também encontramos outra multidão de gente injustiçada, padecendo inúmeros tipos de sofrimentos. As dores são muitas e as esperanças tornam-se cada vez mais escassas. Há tanta gente agonizando. A fome, o desemprego, as doenças, as perturbações, a falta de perspectiva, a desolação, a corrupção e tantas outras situações e sentimentos destrutivos ceifam a vida humana. Toda essa gente forma um grande rebanho que precisa ser orientado e assistido. Em todas as épocas da história sempre existiu este povo sofredor.

        No tempo de Jesus também existia o rebanho dos oprimidos. O império romano não tinha piedade do povo, mas explorava-o cruelmente. Também muitos religiosos cometiam o mesmo pecado, explorando o povo. Este vivia abandonado, esperando que Deus enviasse o Libertador. Em Jesus, o povo encontrou uma palavra de orientação, conforto e salvação. Jesus pronunciava palavras de vida eterna, que despertavam e reanimavam a esperança das pessoas. Sensível às dores do povo, Jesus participava de seus sofrimentos.

        No seguimento de Jesus, a comunhão com os sofredores deste mundo é uma exigência fundamental. Quem deseja se colocar no caminho de Jesus deve saber que este caminho não está à margem do sofrimento humano. Em outros termos, o sofrimento humano integra o caminho de Jesus. Sem compadecer-se do outro, o discípulo de Jesus não se torna missionário. Compadecer-se não é sentir pena nem ficar lamentando. A compaixão não se encerra no mero sentir, mas exige um envolver-se com a realidade do próximo. Neste sentido, a compaixão provoca um deslocamento, um sair de si mesmo.

        Sair de si mesmo: eis o desafio da compaixão. Como sair de si mesmo se decidirmos viver no isolamento? Não é possível sair de si mesmo se estamos isolados em nossa zona de conforto. Se vivemos dedicados à busca de segurança para nossa vida pessoal, dificilmente poderemos ir ao encontro dos outros. Muitas vezes, esperamos que as pessoas possam vir até nós. Não estamos dispostos a sair, porque este sair incomoda. A tendência atual é que cada um permaneça no seu mundo, cuidando dos próprios interesses, sem conexão com os demais. A fé cristã é totalmente contrária a este estilo de vida, porque não pode ser praticada no individualismo. A fé em Jesus é incompatível com o egoísmo.

        A compaixão exige aproximação. Não basta ver, mas é necessário se aproximar. Esta aproximação confere o conhecimento da realidade dos outros. Enxergar de longe é atitude de quem não quer se comprometer. Quando vemos o caído e não nos aproximamos dele, é porque não queremos nos comprometer: passamos adiante, fingindo não ter visto nada. Quem perde a sensibilidade é incapaz de sentir compaixão. Uma pessoa insensível não enxerga os sofrimentos dos outros. Na verdade, o insensível não enxerga os outros em hipótese nenhuma, exceto quando precisa se aproveitar de uma ocasião para a satisfação de seus próprios interesses.

        Somente o fato de nos aproximarmos dos outros já é uma ação evangélica. Mesmo que não possamos resolver o problema, mesmo quando somos impotentes diante de determinadas situação que se mostram insolúveis; mas somente o fato de permanecermos com quem sofre, isto é compadecer-se, isto significa seguir Jesus. Trata-se de uma demonstração fática da comunhão fraterna: exigência da fé cristã. A compaixão nos faz entrar na dinâmica amorosa do encontro com os outros. É neste encontro que crescemos na fé, no amor e na esperança.

        Por fim, precisamos considerar que Jesus, o Bom Pastor, também se dirige a todos os pastores de nossas Igrejas. Estes não podem abandonar o rebanho sofrido e sedento de justiça e paz. Em Jeremias 23, 1, a advertência divina é clara: “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho de minha pastagem, diz o Senhor!” Todos os que se colocam a serviço do pastoreio do povo de Deus devem estar atentos: Não se deve deixar perder-se e dispersar-se o rebanho do Senhor.

Diante de Deus, cada pastor prestará contas do que fez com o rebanho. Assim, toda pessoa que desejar servir como pastor no seio do povo de Deus deve saber, antecipadamente, que o mandamento de Deus pede que se cuide, com todas as forças e com o coração cheio de amor, do rebanho divino, que peregrina neste mundo rumo ao Reino definitivo.

O desejo de Deus é a vida do seu rebanho, e para que este continue firme e forte na caminhada, mulheres e homens são escolhidos e eleitos para pastorear, enviando-os para cuidar com o mesmo cuidado que Jesus teve em sua missão terrestre. O Deus que chama e envia, é o mesmo que, por meio do Espírito Santo, mantém fieis os que são enviados em missão. O rebanho necessita de bons e santos pastores.


Tiago de França

terça-feira, 10 de julho de 2018

As esquisitices do Judiciário brasileiro


       
       A situação do Judiciário brasileiro tem demonstrado, com muita clareza, que estamos longe de termos uma justiça verdadeiramente imparcial. O que seria uma justiça imparcial? A resposta para esta questão exige coerência com o que acontece hoje no País. Não apelemos para conceitos estritamente jurídicos. Ninguém precisa ser especialista em Direito para entender que uma justiça imparcial é aquela que não adere ao projeto de poder político em detrimento do bem comum. É desse tipo de justiça que precisamos. Neste sentido, o Judiciário precisa se transformar, de fato, em um instrumento de promoção da democracia e do Estado Democrático de Direito. Mas como isto é possível?

        Inicialmente, é preciso considerar uma outra questão fundamental: Os operadores do Direito, especialmente os membros do Judiciário e do Ministério Público, tem interesse em promover o Estado Democrático de Direito? É verdade que não podemos cair na tentação de pensarmos que todos os operadores do Direito são antidemocráticos ou inimigos da democracia. Jamais. Mas é verdade também que há setores importantes destes Poderes que estão a serviço de uma minoria endinheirada que há séculos saqueia as riquezas e mantém sob controle a funcionalidade das instituições judiciárias do País.

        Jessé de Souza, renomado sociólogo brasileiro, autor de inúmeras obras, dentre as quais encontramos A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, classifica esta elite endinheirada como elite do atraso. De fato, é esta elite que tem mantido o País em um permanente regime de escravidão. Esta mesma elite é dona dos meios de produção que controlam a economia e que também controlam a política.

Para continuar exercendo o controle, a elite do atraso procura manipular as instituições responsáveis pela aplicação da lei, para que estas não se transformem em pedras de tropeço, o que causaria a interrupção do grandioso projeto de escravidão permanente que impera no Brasil. Recomendamos vivamente a leitura atenta das últimas obras do Jessé de Souza, especialmente a supracitada. Vale a pena.

        Quase que diariamente assistimos a espetáculos deprimentes, realizados por operadores importantes de setores do Judiciário. No último domingo, 8 de julho, apareceu, explicitamente e mais uma vez, a parcialidade de juízes no tratamento que tem dado ao ex-presidente Lula, condenado na operação Lava Jato e candidato à presidência da República. Um desembargador recebe a petição de habeas corpus, defere a ordem e manda soltar. O juiz de primeiro grau, responsável pela operação, que tinha sentenciado inicialmente o réu, publica despacho, dizendo que não iria obedecer e mandando a Polícia Federal fazer o mesmo. Aqui temos a chamada quebra de hierarquia. Curiosamente, o juiz desobediente está de férias, pois tinha alegado cansaço e excesso de trabalho!

Poucas horas depois, o mesmo desembargador reforça a ordem de habeas corpus. Não sendo suficiente a confusão, mais dois desembargadores entraram na confusão: o desembargador relator do processo do réu, que cassou a decisão do seu colega, avocando (chamando para si) a competência. Também o presidente do Tribunal se manifestou, opinando pela manutenção da prisão. E para fechar com chave de ouro este capítulo intenso do espetáculo judicial, a presidente do Supremo Tribunal Federal também se manifestou e, ironicamente, discorreu, de forma breve, sobre a importância de duas questões jurídicas essenciais ao Judiciário: disse que a justiça é imparcial e que os ritos e recursos próprios devem ser espeitados. O Judiciário tem pecado justamente porque estes dois fatores andam bem ausentes na tramitação de inúmeros processos, principalmente nos processos que correm contra o ex-presidente Lula.

Esta confusão toda não teria ocorrido se o ex-presidente Lula não fosse candidato à presidência da República, estando em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto. O mais desinformado dos brasileiros sabe disso. A prisão do ex-presidente é um escândalo permanente, conhecido no mundo inteiro. Não é novidade para ninguém que personagens centrais do Judiciário realizam manobras espetaculares para mantê-lo preso. Trata-se de uma condenação e prisão que não se sustentam, juridicamente falando. Condenação sem provas cabais ameaça o Estado Democrático de Direito.

A utilização de instrumentos jurídicos com fins meramente político-partidários é algo assombroso. Mas o que fazer diante de uma ditadura judicial? A quem recorrer? Quando a classe das mulheres e homens togados tende a dominar a vida política e social de uma nação, não há liberdade nem democracia possíveis.

Qual a importância da Constituição e das leis? Como é possível o Estado Democrático de Direito se a interpretação constitucional obedece à ética da conveniência? Quando convém, condena-se; quando não, absolve-se. Contra algumas figuras, reconhecidamente corruptas, que subtraem milhões e milhões dos cofres públicos, não há sequer investigação. E quando há, misteriosamente, tais investigações não chegam a lugar nenhum.

Dependendo do réu, quando há condenação, converte-se a prisão comum em prisão domiciliar. A impressão que se tem é que os ricos somente podem cumprir prisão domiciliar, quando são condenados, o que é raro. Tal raridade se comprova quando visitamos um presídio superlotado: a grande maioria dos encarcerados é pobre, negra, analfabeta ou semianalfabeta, e jovem. As prisões sempre foram destinadas aos “lascados” da sociedade. Esta é a realidade que historicamente se comprova.

O rigor das normas vigentes não é aplicado a todos. As pessoas não são iguais perante a lei. A resposta judicial às demandas é ineficiente e parcial. O cotidiano forense mostra claramente isso. Não há teoria que consiga esconder esta realidade. Por mais que a mídia hegemônica tente camuflar a realidade, numa tentativa desesperada de passar a falsa imagem do fim da corrupção, esta tentativa já constitui corrupção.

A mídia mente até certo ponto. A mentira é tão mal contada que o povo desconfia em pouco tempo. Há sempre uma parcela do povo que anda acordada, e quando tem oportunidade, mostra que nem toda a população é enganada. O engano nunca é eterno. Chega um momento em que as pessoas cansam de levar chibatadas. Foi assim no Brasil colonial. Os escravos foram se organizando e se insurgindo, fugindo para os quilombos, lugares de liberdade.

        Somos um povo marcado pela escravidão. Foram séculos de chibatadas. Até hoje há uma multidão de gente habituada ao chicote. Há um silêncio ensurdecedor por parte de milhões de escravos no Brasil. A escravidão moderna se refaz, se reinventa e quer crescer. O sistema econômico é poderoso. É tão poderoso que impede as pessoas de enxergarem a realidade.

Quem controla o sistema sabe muito bem que a visão da realidade é atividade perigosa, arriscadamente subversiva. Os poderosos querem contar sempre com um povo fraco e obediente, desprovido de organização, livre da consciência crítica. Esta, para eles, é muito perigosa, pois faz o oprimido colocar para fora da sua mente a imagem opressora do seu senhor. Um povo que é senhor de si mesmo é a grande utopia que faz os homens livres lutarem sem cessar. Lutam porque acreditam noutro mundo possível.

O que fazer diante de tamanha aberração? Não cabe o desespero. Este parece não resolver absolutamente nada. Um povo desesperado não tem futuro porque não tem rumo. Uma pessoa desesperada, de modo geral, é cega. Os poderosos amam situações desesperadores. Não é à toa que eles ganham muito dinheiro em tempos de crise. Só existe crise para os pobres. Estes arcam com as consequências das crises, são acusados de provocá-las, bem como também são obrigados a trabalharem muito para que sejam superadas. São sempre considerados culpados.

Os mais ricos do País nunca tem culpa de nada. A mídia os apresenta como os responsáveis pelo desenvolvimento, como aqueles que somente pensam e fazem o melhor para o País. Na verdade, ocorre o contrário. Quem saqueou a Petrobrás e saqueia os cofres públicos no Brasil? Os pobres? Sabemos muito bem quem são. Os donos das empreiteiras e demais grandes empresários são uns pobres coitados? Nossa classe política é formada por pobres coitados? Reflitamos.

Por mais arriscado que seja, o Brasil precisa, urgentemente, de mulheres e homens capazes de conscientizar e organizar o povo. Precisamos de autênticos líderes políticos: pessoas corajosas que visem o bem comum. Estamos fartos de políticos que são eleitos e se aproveitam dos seus mandatos para saquear as riquezas do povo. Hoje, infelizmente, os inimigos do povo estão na classe política que deveria representá-lo e gerir, com justiça, seu patrimônio.

Neste sentido, é extremamente importante que reflitamos sobre a realidade e procuremos oferecer a nossa contribuição para a construção da verdadeira democracia. Não é verdade que temos uma democracia segura e forte. A realidade mostra que a democracia brasileira é jovem, insegura e fraca. Inúmeros brasileiros são desrespeitados e espancados, diuturnamente.

Os direitos fundamentais, os mais básicos e, portanto, essenciais não são promovidos nem respeitados. Tudo não acontece sequer pela metade. A situação é tensa, mas nem tudo está perdido. Ainda é possível devolver o Brasil aos brasileiros. Trata-se de uma caminhada lenta e sofrida, marcada pelas dores e esperanças de quem acorda cedo para ver o sol nascer, tomar o café quente que desperta e sentir o calor humano das relações que constroem uma sociedade que poderá ser justa e fraterna. Precisamos crer nisso. É possível.

Tiago de França

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Eucaristia: Pão da vida para todos


     
     Quando Jesus partilhou o pão e o vinho, durante a última ceia com seus discípulos, não havia, de sua parte, a intenção de criar exclusivismo. Na missa, os católicos escutam o sacerdote rezar: “Tomai todos e comei... Tomai todos e bebei...” Na comunidade cristã, a Eucaristia deve ser de todos. Não deveria ser privilégio de poucos.

Em épocas passadas, os cristãos católicos entendiam a Eucaristia como banquete para pessoas santas. Este era o ensinamento que recebiam da Igreja. Quem estivesse no pecado não poderia comungar. Até hoje, muitos grupos ultraconservadores tratam a Eucaristia como prêmio para os justos. Mas quem é o justo? Quem é o santo? Quem é digno do corpo e sangue do Senhor?...

        Na mesa eucarística não há lugar para exclusão de pessoas. Para ser verdadeira ceia do Senhor deve existir lugar para todos, especialmente para os que mais pecam. Quem mais peca precisa do auxílio da graça divina. É na Eucaristia que o pecador encontra a graça por excelência, a graça da reconciliação e a verdadeira vida.  

Como o cristão pode crescer na fé e na virtude separado do corpo e sangue do Senhor? A quem Jesus deu poder para impedir o acesso à sua mesa? O banquete eucarístico é um baquete para pecadores. Quem for puro e imaculado não precisa comungar. Quem é o puro e o imaculado? Quem não é pecador?...

        Estas são observações evangélicas para a compreensão sacramental da Eucaristia. São indagações que honestamente não podemos esconder nem evitar. Jesus deseja fazer morada, com o Pai e o Espírito, no coração de todos. Não há fila para privilegiados. Com Jesus não há filas, mas lugar à mesa, que é circular, que a todos inclui, preferencialmente os aflitos e sofredores.  

Neste sentido, não adianta enfeitar ruas, praças, avenidas e vielas com belos tapetes para Jesus eucarístico passar, sendo que, no cotidiano da vida, se julga e condena as pessoas. Esta seria uma comunhão indigna do corpo e sangue de Jesus. Precisamos ter em mente que também se comunga Jesus nos outros.

        Aqui aparece outra belíssima dimensão que integra a doutrina católica sobre a Eucaristia. A participação no corpo e sangue de Jesus não é mero ritualismo, mas compromete quem se achega à mesa sagrada. Sentar-se com Jesus e os irmãos à mesa significa participar da sua vida. Comungar é entrar em comunhão plena e eterna com a Trindade. Quem recebe a Eucaristia passa a conviver com Jesus. Aliás, mais que isso: passa a ser com Jesus.

O Mestre da vida passa a integrar o ser da pessoa. Trata-se de uma relação integradora e libertadora. Carregar consigo o Cristo eucarístico requer abertura e disponibilidade para a missão. Comungar é tornar-se um com a Trindade, Comunidade de Amor. Esta missão possui raízes no testemunho religioso e político de Jesus.

        É neste sentido que não se pode aceitar que cristãos que vivem participando do banquete eucarístico tenham atitudes antievangélicas, de forma consciente e propositada. Trata-se de uma profunda contradição.

Como pode o cristão viver em comunhão com Jesus enganando, traindo, agredindo e matando as pessoas? Como posso dizer que estou unido a Jesus, sendo, ao mesmo tempo, favorável à cultura da eliminação dos outros? Como posso estar frequentando o banquete eucarístico se me aproveito da crise para tirar vantagem sobre as pessoas, aproveitando-me da sua inocência e ingenuidade?...

Estas realidades pecaminosas são inadmissíveis a um cristão. Ou optamos por Jesus e abandonamos as injustiças, ou optamos pelos deuses que este mundo cria e recria, e nos tornamos inimigos do Reino de Deus. Estas realidades são incompatíveis. A Eucaristia exige adesão clara ao projeto de Jesus, que é o Reino de Deus.

        Que a celebração do corpo e o sangue de Jesus nos ensine a sermos mais irmãos uns dos outros para que o Reino de Deus se torne realidade entre nós. Sem este desejo pela fraternidade, cada celebração eucarística não passará de mero ritual, que somente agrada aos olhos e ouvidos, mas que não alcança o coração.

Tiago de França

domingo, 20 de maio de 2018

O Espírito sopra onde quer


“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

        Após a celebração da ascensão do Senhor, hoje celebramos Pentecostes, festa solene da manifestação do Espírito Santo. Sobre este Espírito podemos dizer muitas coisas, mas jamais diremos a plenitude do seu significado para a história da caminhada do cristianismo no mundo. O Espírito continua sendo mistério de fé. Para conhecê-lo, precisamos de abertura e fé. Abertura para acolhê-lo, fé para aderir à sua ação misteriosa e salvadora.

        Quem vive sob a ação do Espírito sabe da sua força. Nada resiste à sua ação. Na história, Ele faz acontecer o projeto salvador de Jesus, tornando-o conhecido e experimentado. Não há como seguir Jesus sem a graça do Espírito. Sabendo disso, antes de sua ascensão, Jesus promete o envio do Espírito. E este não foi enviado pelo Pai e por Jesus para nos fazer uma rápida visita, mas veio para permanecer, para acompanhar a caminhada humana na história, rumo à sua realização final.

        Unido ao Pai e ao Filho, o Espírito permanece conosco. Manifesta-se como sopro, invisível aos nossos olhos, mas conhecido do nosso coração. Exige-nos acolhida e disponibilidade. Quem não deseja agir para transformar o mundo e construir o Reino de Deus, não pode invocá-lo. O Espírito conduz à ação. Ele é Deus agindo no mundo e revelando, progressivamente, o grandioso projeto de salvação universal. Não há como acolher o Espírito sem adesão a este projeto de vida plena para todos.

        O Espírito é livre e libertador. Livre porque ninguém o domina, nem determina a sua ação. Não são os homens que orientam a sua ação. Por isso, é ilusão pensar que os religiosos são donos do Espírito. Este não é propriedade de nenhuma religião, instituição ou liderança religiosa. O Pai e o Filho não enviaram o Espírito para criar religião, instituição e crenças religiosas. Estas coisas são criações humanas. Pode o Espírito se servir delas, certamente. Mas Ele está muito além, e nos concede a graça de sempre superá-las, no sentido de não nos deixar presos a elas.

        Certamente, o Espírito também não serve ao mero espiritualismo presente em nossas experiências religiosas. Buscando seus próprios interesses, muitas vezes econômicos, muitos deturpam o sentido da presença do Espírito nas comunidades cristãs, levando as pessoas a crer que o Espírito existe para realizar milagres. Esta visão reducionista e deturpada do Espírito causa confusão e ilusão. Nas situações confusas e ilusórias não encontramos a ação do Espírito, porque este ilumina e concede o dom do discernimento. Na confusão de muitos cultos, nos quais ocorrem verdadeiros shows de milagres, não está o Espírito.

        Na contemplação e na ação transformadora do mundo está o Espírito. Ele orienta, ilumina, guia, inspira, encoraja, tranquiliza, anima, auxilia e santifica o discípulo missionário de Jesus. Todo aquele que se coloca no caminho de Jesus encontra no Espírito a força necessária para se manter firme e fiel até o fim. É o Espírito que concede e mantém nos crentes o dom da fé. Por meio da contemplação e da ação, o discípulo missionário vai se deixando conduzir, e vai conhecendo cada vez mais o Espírito. Este, com o Pai e o Filho, nunca se revela de uma vez. A sua revelação vai acontecendo na medida em que vai sendo acolhido no coração daquele que crê.

        Na intimidade de cada discípulo missionário de Jesus, o Espírito vai se revelando e se manifestando. Esta manifestação é muito suave, silenciosa e discreta. Toda espetacularização contradiz a ação do Espírito. Não há estrelismo. É tudo mistério. Neste campo, a linguagem humana é incapaz de descrever. O Espírito é sempre imprevisível. De repente, ele sonda e envia o discípulo missionário para onde Ele quer. Tudo ocorre em função da missão. Nada acontece em função da vaidade pessoal do discípulo missionário. Este, deixando-se conduzir pelo Espírito, não se transforma em alguém que passa a deter poderes sobrenaturais. Isso é ilusão. O Espírito se manifesta a partir de nossas fraquezas. Ele se serve até de nossos pecados para manifestar a sua graça.

        Há alguns sinais que acompanham, ora de forma visível, ora de forma bem discreta, aqueles que estão sendo conduzidos pelo Espírito. Este torna a pessoa mais sensível à dor dos outros, fazendo despertar o amor e a compaixão. Guiado pelo Espírito, o cristão é alguém que se entrega ao amor-doação. No amor tudo pode acontecer. O amor se manifesta de várias formas. O Espírito o torna fecundo e libertador. O Espírito também concede alguns dons aos que a Ele se entregam. Estes dons são concedidos de acordo com as pessoas e seus contextos. O Espírito está atento às necessidades do povo de Deus, e vai fazendo surgir no meio deste povo mulheres e homens capazes de assumir determinados serviços. Estes serviços estão sempre em função do Reino de Deus.

        Por fim, é preciso afirmar que dentro e fora de nossas Igrejas o Espírito está agindo. Ele é força permanente. Ele sonda todas as realidades. Nada lhe é estranho nem desconhecido. Dentre os dons que Ele nos concede, está o dom da visão da realidade. Este dom é maravilhoso. Por meio dele, a pessoa permanece acordada, livre das ilusões e da confusão deste mundo. Este dom também faz brotar na pessoa um outro dom importantíssimo: o da sensibilidade. Como ser sensível à realidade se não a vejo? Mas o dom da visão não confere somente a graça de permanecermos acordados na vida, mas nos oferece também a divina oportunidade da visão de Deus. O Espírito nos faz enxergar Deus em todas as coisas. Nada neste mundo é tão belo e infinitamente maravilhoso quanto a visão de Deus!

        Que este Espírito nos mantenha fieis a Jesus, hoje e sempre.

Tiago de França

sábado, 5 de maio de 2018

Ser no amor


Aprende-se a amar, amando
Ama-se, apesar de tudo
Esta é a regra
A lei

O amor tudo ultrapassa
No amor, transcende-se
Esta é a vida
O dom

Indiferença, desamor
Individualismo, cultura do ódio
Esta é a morte
O fim

Mas o fim, a destruição
Total do ser, não há
Esta é a palavra final
O amor

Cristãos, sal e luz
Da terra, banhada de sangue
Que jorra dos corpos das vítimas
A dor

Acima da lei, acima dos moralismos
Que discriminam, que matam
Acima dos estranhamentos e da hipocrisia está
O amor

O amor: a lei total do ser
Palavra final, dom que se recria
A regra da vida, o sal, a luz, a razão e o sentido
Tudo em todos, para todos

Amém.

Tiago de França