sábado, 22 de julho de 2017

Para manter a fé em meio às crises e dificuldades da vida

     
     Algumas pessoas tem nos pedido para falar da fé em meio às crises e dificuldades que se manifestam na vida. Muitas delas reclamam a falta de fé na hora em que mais precisam dela. Afinal, o que ocorre com aquelas pessoas aparentemente muito religiosas, que quando atribuladas não encontram na fé seu porto seguro para se manterem firmes?  

Vamos pensar a fé a partir da experiência missionária de Jesus de Nazaré, a fim de corrigirmos alguns equívocos que se repetem no senso comum sobre a fé e suas manifestações no cotidiano da vida.

        A fé é um dom gratuito de Deus. Isto significa que não é recebida por herança dos nossos antepassados nem é dada pela religião. A fé não pode ser possuída porque não é uma coisa; nem é passível de manipulação porque o dom divino não se submete aos conceitos oriundos da inteligência humana. 

As pessoas manipulam o que elas mesmas inventam. A fé não é invenção humana. A religião está para a fé como o telhado está para a chuva: o telhado somente serve para acolher a água e deixá-la escoar.

        Geralmente, as pessoas pensam que todo aquele que pratica a religião possui o dom da fé. É um equívoco pensar dessa forma. Quem assim pensa, na verdade, confunde religião com fé. Estas realidades são distintas: a fé vem de Deus, a religião vem dos homens. A religião nasceu da inteligência humana, e esta produz cultura. Religião é um produto cultural.  

A fé, enquanto dom divino, pode se manifestar dentro e fora da religião. Por isso, por mais religiosa que seja uma pessoa, pode ocorrer que não tenha fé. As práticas religiosas podem promover a fé, mas também podem impedir que se manifeste e até extingui-la.

        Neste sentido, é possível encontrar no interior das Igrejas cristãs pessoas altamente perigosas: vingativas, ladras e assassinas, amantes do dinheiro, do prestígio e do poder, inimigas do projeto de Deus, que é o seu Reino. Há uma outra parcela que vive mergulhada na ilusão e na ingenuidade, que, enganadas por seus pastores, praticam uma falsa religião, com a repetição incansável de práticas religiosas que não conduzem ao amor a Deus e ao próximo.

Portanto, frequentar o culto religioso não é sinônimo de fé. Uma coisa é a fé, outra são as manifestações da fé. Enquanto dom, a fé é sempre verdadeira. Já as manifestações da fé podem ou não ser falsas. Atualmente, há muitas manifestações falsas de fé.

        As pessoas que vivem mergulhadas na ilusão e na ingenuidade religiosas não conseguem se manter de pé quando atingidas pelas crises e dificuldades. Para manter-se de pé é necessária uma fé amadurecida, consciente de si mesma, totalmente voltada para Deus. Uma fé capaz de levar à comunhão plena com Aquele que a concedeu.  

Há quem leia a Bíblia, frequenta o culto, dar o dízimo, trabalha na pastoral, recebe a Eucaristia, mas tem o coração longe de Deus. Como confia em Deus a pessoa distante dele? Como vai se sentir amada por Ele se a preocupação é somente voltada para manter aparência religiosa? Jesus revelou que Deus não deseja adeptos religiosos, mas quer filhos entregues ao amor.

        Há um salmo na Bíblia que fala que “quem confia no Senhor é como o monte de Sião, nada o pode abalar porque é firme para sempre”. A confiança em Deus é precedida pela aproximação. Aproximar-se de Deus significa abrir o coração para acolhê-lo, pois é Ele que vem ao encontro da pessoa. A iniciativa do encontro é sempre dele. A Escritura ensina que Ele nos amou primeiro, e este amor ensina a amar.  

É no seu amor que aprendemos a amá-lo sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. Somente quem se deixa amar por Deus é capaz de confiar nele. É seu amor que gera a virtude da confiança em nós. O amor de Deus também confere o conhecimento de Deus, e porque conhecemos, podemos confiar. Não se ama o que não se conhece. Para o enfrentamento das crises e dificuldades pessoais é necessária esta fé: livre, madura, filha do amor que gera a confiança em Deus.

A fé tem a força de livrar e libertar a pessoa do vazio existencial, vazio que é fruto da crise de sentido da vida, que marca os tempos pós-modernos. Deus é o Pai amoroso que liberta do abismo do vazio. A sua presença preenche a vida daquele que crê. Esta mesma presença é a única capaz de fazer o crente conhecer e sentir a verdadeira alegria e felicidade. A fé é o único caminho que faz a pessoa conhecer o sentido da sua vida, que se encontra em Deus. Este sentido, sem o qual ninguém vive, não pode ser encontrado no dinheiro, no prestígio e no poder. As pessoas se perdem no vazio porque nestas coisas procuram o sentido e a felicidade da vida.

No campo social e político, a pessoa de fé enraizada em Deus não foge da sua responsabilidade. A fé orienta a pessoa para a ação política, pois, segundo o Evangelho de Jesus, esta mesma fé possui uma dimensão profundamente política, que não pode ser ignorada. Peca gravemente a pessoa que diz ter fé e não se posiciona politicamente.

Atuar politicamente, a partir da fé, significa anunciar e construir uma nova humanidade, profundamente marcada pela justiça, pelo amor e pela verdade. A fé no Deus e Pai de Jesus leva, necessariamente, ao engajamento político e social. Assim, o cristão, pessoa de fé, não se cala diante da injustiça, e encontra-se em estado permanente de protesto. A política se torna, desse modo, a “mais alta forma de caridade” (expressão do Papa Paulo VI). Quem ignora a dimensão política da fé, ignora também o sentido e alcance da realidade do Reino de Deus no mundo.  
       

Tiago de França

quarta-feira, 12 de julho de 2017

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A CONDENAÇÃO DO EX-PRESIDENTE LULA

Após um mês sem ter tempo para dar continuidade à publicação de nossos artigos, eis que agora podemos retomá-los. Reiniciamos com uma breve análise: algumas considerações sobre a condenação do ex-presidente Lula. Hoje, o juiz Sérgio Moro condenou o ex-presidente a nove anos e seis meses de prisão.

Tendo lido a sentença penal condenatória, publicada pelo mencionado juiz federal, alguns aspectos nos chamaram a atenção, entre os quais algumas “provas” consideradas pelo juiz para condenar o réu.  O juiz se serviu de rasuras encontradas no apartamento do ex-presidente, rasuras que não apontam registro de propriedade do tríplex. Rasuras que contém a escrita de números soltos. A rasura em si não constitui prova porque não indica nada. Mas para quem já tinha a convicção prévia da condenação, a rasura serviu para justificá-la. No direito brasileiro, só era o que faltava: rasuras com escritos que nada indicam se transformam em prova robusta!

Outra “prova” aceita pelo juiz para justificar a condenação foi a existência de uma reserva do tríplex para o ex-presidente e sua falecida esposa. A mera reserva, sem a efetiva compra e registro do imóvel, se transformou em prova cabal, na concepção do juiz. Segundo este, reserva é sinônimo de propriedade. Ao que parece, o juiz entende que a mera proposta de compra e venda transfere a titularidade do imóvel. Trata-se de um entendimento que não se sustenta em lugar nenhum.

A OAS Empreendimentos sempre teve total disponibilidade sobre o imóvel. Considerando o caráter empreendedor da empresa, é evidente a necessidade de melhoramentos em vista da venda do imóvel para quem quer que seja. O juiz cogitou que a empresa reservou, fez os melhoramentos e transferiu a propriedade ao ex-presidente. Não há uma prova sequer nem da reserva, nem da encomenda dos melhoramentos, nem da transferência. O juiz copiou a acusação genérica do Ministério Público, que acusou, mas não apresentou provas suficientes.

Outra “prova” um tanto curiosa, considerada pelo juiz, para justificar a condenação foi a reportagem de jornal. Isso mesmo! No Brasil, o juiz usa até reportagem de jornal para condenar, criminalmente, uma pessoa. Qual o problema desta “prova”? Reportagem de jornal, principalmente do jornal O Globo, não constitui prova contra ninguém. O que faz um jornal? Recorta a notícia e oferece a narrativa dos fatos de acordo com seus interesses, sem, na maioria dos casos, nenhum compromisso com a verdade. É conhecida a perseguição das Organizações Globo ao ex-presidente. Sabendo disso, o juiz sentenciante utilizou justamente reportagem do mencionado jornal como se ela fosse prova suficiente para elucidar a verdade dos fatos.

O depoimento de delator, criminoso confesso, portanto, interessado nos benefícios do acordo de delação; depoimento dado sem nenhum compromisso com a verdade, foi utilizado pelo juiz como prova. Quem entende o mínimo do instituto da delação premiada sabe que a palavra do delator não constitui prova contra quem quer que seja. A palavra do delator é meio para obtenção de prova.

O juiz Moro ignorou este entendimento jurisprudencial, adotado, inclusive, pelo Supremo Tribunal Federal. No dia em que a palavra de um delator for considerada prova suficiente para condenar alguém, então, pode-se entender que não é necessária a investigação do conteúdo da delação. Uma vez o delator falando, de plano, a sua palavra seria considerada verdadeira, espécie de verdade dogmática, inalcançável pelo contraditório. Mas não é esta a realidade do instituto nem é este o entendimento jurisprudencial adotado no Brasil.

Contra o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, o juiz Moro já tinha utilizado a mesma façanha, condenando-o a mais de quinze anos de prisão; condenação que foi “fundamentada” na palavra de delatores. Os desembargadores que revisaram a sentença absolveram o réu porque não se pode condenar alguém, baseando-se somente em delações premiadas.

Sem a devida investigação do conteúdo da delação, é totalmente absurda a confiança na palavra de criminoso confesso. Mas parece que o juiz Moro não aprendeu a lição, e resolveu repetir a dose. Se os mesmos desembargadores se mantiverem fieis à jurisprudência vigente, o juiz de Curitiba vai passar vergonha novamente.

Curiosamente, além destas hipóteses inconsistentes de provas, o juiz aproveitou o espaço da sentença para fazer juízo político do ex-presidente. Este, em depoimento ao magistrado, afirmou, categoricamente, que o processo era para julgar a sua conduta política, dada a ausência de crime. Na ocasião, o juiz negou esta possibilidade; mas na sentença, entrou em contradição: teceu elogios ao ex-presidente, por este ter se dedicado a implementar medidas eficientes de combate à corrupção, e na parte dispositiva da sentença, justificou que não decretou a prisão preventiva do ex-presidente porque isto configuraria uma situação traumática. Trata-se de pura conveniência pessoal, e não processual. Puro capricho do juiz sentenciante. A lei processual penal não respalda este tipo de conduta judicial.

Ao finalizar a sentença, condenando o ex-presidente à pena privativa de liberdade, o juiz copiou parte da exposição do PowerPoint utilizada pelos membros do Ministério Público quando da coletiva de impressa, para fechar com chave de ouro a sua longa e exaustiva sentença penal condenatória. Nesta parte, mencionou possíveis ligações do ex-presidente com os desvios ocorridos na Petrobrás, por meio de possíveis acordos entre o réu e a OAS para assaltar os cofres da estatal.

O juiz somente menciona, mas sem fazer referência à prova nenhuma. Esta parte da sentença faz lembrar os inimigos do ex-presidente que, apaixonadamente, o acusam de ter sido o responsável pelo maior escândalo da história do Brasil, ignorando totalmente a história porque não a estudam. Trata-se de argumento falacioso, que não merece crédito porque desprovido de conteúdo passível de verificação.

Dada esta breve análise de algumas partes curiosas da frágil e descabida sentença do juiz de Curitiba, cabe-nos, ainda, responder à pergunta que não quer calar: A quem interessa a condenação do ex-presidente Lula? Todos sabemos da resposta, mas vale a pena repetir para jamais esquecermos: Interessa, em primeiro lugar, ao PSDB e os partidos coligados que apoiam o nome que este partido vai lançar nas eleições presidenciais de 2018.

As pesquisas de intenção de voto apontam o ex-presidente Lula vitorioso em todos os cenários possíveis, e isto constitui a dor de cabeça do PSDB e da elite brasileira. Neste sentido, a notícia da condenação do ex-presidente acalmou um pouco a dor de cabeça dos caciques do PSDB, partido eternamente fiel aos interesses do mercado e do capital financeiro internacional.

Assim, a condenação do ex-presidente veio numa boa hora para o PSDB, mesmo sabendo que o senador Aécio Neves está praticamente queimado na opinião pública, devido às provas que apareceram nos escândalos de corrupção envolvendo a sua “ilibada” conduta! A sorte do senador tucano é que goza do apadrinhamento por parte de juízes importantes da alta Corte de justiça do País, pois, do contrário, já estaria preso.

Enquanto o juiz Moro condena o ex-presidente Lula, baseando-se em rasura, reportagem de jornal, depoimento de criminoso confesso e outras suposições, o STF devolveu o exercício do mandato do senador tucano porque o considera “chefe de família, com carreira política elogiável”, palavras do ministro Marco Aurélio Mello.

Há, por fim, uma outra questão reveladora: Por que somente hoje, 12 de julho, o juiz Moro resolveu sentenciar o ex-presidente? Nesta semana estão acontecendo dois grandes escândalos em Brasília, que tomaram a cena política nacional: a aprovação da reforma trabalhista no Senado e a discussão da denúncia contra Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Para tirar o foco destes escândalos, o juiz Moro resolveu fazer com que o povo brasileiro se voltasse para o ex-presidente Lula, numa tentativa desesperada de acelerar a sua inelegibilidade. Enquanto isso, Michel Temer usa o dinheiro público para, através de emendas aos parlamentares, comprar votos para escapar da possível autorização para instauração de ação penal no Supremo Tribunal Federal.

A condenação do ex-presidente Lula é uma prova incontestável da politização do Judiciário brasileiro. Incansavelmente, temos dito que a justiça brasileira tem se mostrado cada vez mais seletiva: condena uns, absolve outros, de forma absurdamente arbitrária. Portanto, é mentira que a justiça está passando o Brasil a limpo. Onde há seletividade não há justiça, mas manutenção da corrupção porque os grandes corruptos, milionários, continuam rindo da cara do povo.

Alguns destes criminosos milionários são frequentadores assíduos dos gabinetes e residências de juízes e de outros operadores importantes do Direito. Como a justiça pode passar o Brasil a limpo se o réu almoça, janta e toma uísque com o juiz que vai julgar seu processo?... Assiste-se a uma escandalosa banalização da ideia de justiça. A realidade tem demonstrado que o Judiciário serve para aplacar a ira dos fracos e manter os privilégios dos ricos.

Os pobres continuarão sendo vítimas dos desvios do dinheiro público porque o Judiciário se mostra demasiadamente tendencioso na aplicação da lei. Os criminosos de colarinho branco que ocupam o parlamento brasileiro são tão descarados que até elogiam a operação Lava Jato, pois sabem que ela não os alcançará, uma vez que são criminosos de direita, totalmente atrelados ao mercado financeiro, que domina a política brasileira e afronta o Judiciário.

Pelo que se vislumbra a curto prazo, esta situação irá permanecer. Pensar que a justiça brasileira passou a punir a elite, de forma imparcial, destemida e eficaz, seria uma ilusão. Sejamos realistas, e a realidade nos diz, que do ponto de vista ético e moral, as instituições da República brasileira chegaram ao fundo do poço. E o povo está tão cansado de saber que “tudo não vai dar em nada!”, que prefere assistir calado. A descrença é tão evidente quanto a cegueira e a apatia. Vivemos tempos sombrios.

Tiago de França

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Optar pelo amor. Pensamentos (XLII)

Quem opta pela paixão, com ela passa. Quem opta pelo amor, com ele permanece.

Tiago de França

domingo, 11 de junho de 2017

Deus é amor

       
        Jesus revelou a verdadeira imagem de Deus. Aliás, mais que uma imagem, revelou a verdadeira face de Deus. E o que revelou? Que Deus é amor. O Pai, o Filho e o Espírito Santo formam a Comunidade do Amor. O amor é como que o conteúdo que dá existência ao mistério do Deus Uno e Trino.  

Deus não existe fora do amor porque é amor. Ele somente sabe amar e é incapaz de ter e alimentar ódio de suas criaturas e do homem, criado à sua imagem e semelhança. No mistério da Trindade todas as coisas são regeneradas e recriadas. Enquanto amor, Deus recria todas as coisas, impedindo que pereçam.

        A revelação bíblica, do Gênesis ao Apocalipse, mostra tudo o que existe foi criado por amor, pelo amor e para o amor. Portanto, toda a criação tem a sua origem no amor e terá o seu fim no amor. Sendo amor, Deus está no começo e no fim; Ele é a fonte da vida, seu sentido e seu fim. Acolher o mistério da Trindade é reconhecer Deus como infinito amor, doação plena, fonte da vida, alegria da criação, felicidade sem fim.  

Acolher o mistério da Trindade, o Amor por excelência, também significa experimentar na vida este mistério de amor. Somente quem ama conhece a Deus. Por isso, para compreender o mistério da Trindade é preciso amar; amar na verdade e na liberdade, até às últimas consequências. Não há outro caminho.

        O amor revela a dinâmica do mistério da Trindade. Mas como amar? Há uma forma própria de amor, para se alcançar o conhecimento deste mistério insondável? A resposta é positiva. É preciso amar como Jesus amou: na verdade, na liberdade e na opção pelos últimos. É verdade que não há neste mundo alguém que possa amar tão perfeitamente como Jesus amou. Somos pecadores e amamos a partir de nossas imperfeições. 

Mas é verdade também que o amor de Deus é mais perfeitamente praticado quando reconhecemos as nossas imperfeições, pois a graça de Deus se manifesta a partir de nossas fraquezas. Deus manifesta seu amor quando, humildemente, diante dele, assumimos a nossa realidade pecadora e clamamos a sua misericórdia.

        Amar como Jesus amou é doar-se no serviço ao próximo: os pais se doam quando assumem com responsabilidade a criação e educação dos filhos; o professor se doa na difícil arte de lecionar quando desperta a consciência crítica de seus alunos; o político se doa quando não desvia o dinheiro público, visando sempre o bem comum; os empregadores se doam quando respeitam seus empregados, assegurando-lhes e promovendo-lhes os direitos trabalhistas; o líder religioso se doa quando não usa do ofício religioso para ser servido, mas empenha-se a dar a própria vida pela vida do rebanho do Senhor; enfim, amar como Jesus amou é doar-se, é sair de si na direção do outro, é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

        Pessoas egoístas são incapazes de conhecer e experimentar o mistério da Trindade, portanto, incapazes de amar a Deus e ao próximo. O egoísta somente enxerga a si mesmo e em tudo busca satisfazer seus próprios interesses. Não sabe o significado prático da palavra doação. Para ele, doar-se é fazer papel de tolo. O mundo está cheio de pessoas egoístas, que usam da esperteza para se aproveitar dos outros.  

Com muita facilidade, os egoístas se deixam corromper porque, em suas vidas, em primeiro lugar está seu próprio bem e não o bem comum. Enxergam a vida como um campo vasto de possibilidades para a satisfação de seus objetivos e sonhos pessoais. Não se importam com o bem comum, pois acreditam que todas as pessoas são “átomos de egoísmo” e que cada um deve se virar como pode, sem a colaboração dos outros, fora do espírito da verdadeira fraternidade.

        Não se vive o amor, que revela o mistério trinitário, no isolamento. Neste não há amor. Pessoas isoladas não amam. O verdadeiro amor não existe em função da própria pessoa. Em outros termos, ninguém nasceu neste mundo somente para amar a si mesmo. Na verdade, não há amor a si mesmo sem amor ao próximo. O amor só existe em função do outro.

Amar é abrir-se ao outro. Quem despreza o próximo jamais pode dizer que ama e conhece a Deus. Tal declaração seria mentirosa. É neste sentido que o apóstolo João afirma que todo aquele que diz que ama a Deus e não ama o próximo é mentiroso (1 Jo 4, 20). Não se ama a Deus odiando o próximo. Quem assim procede está na mentira, jamais na verdade.

        Nas Igrejas cristãs encontramos muita falta de amor: pessoas sendo desprezadas, humilhadas, excluídas, julgadas e condenadas. Em matéria religiosa, teologicamente falando, não se pode afirmar que a acolhida do Amor passa, necessariamente, pelo cumprimento fiel das normas e regras religiosas. Jesus não pediu a instauração de normas e regras, mas ensinou a amar. A prática do amor exige, muitas vezes, a desobediência de normas e regras religiosas.

O próprio Jesus, para amar e ensinar o mandamento do amor, teve que desobedecer a vários preceitos religiosos do Judaísmo. Um exemplo clássico para ilustrar nossa meditação: diante da mulher pega em flagrante adultério, a lei mandava apedrejá-la em praça pública (cf. Jo 8, 1 – 11). E o que fez Jesus? Ensinou que a lei orientava o oposto do amor. Ensinou a amar aquela mulher porque a sua salvação estava no amor. O amor restaura o pecador, não as penas da lei.

        Neste sentido, o Papa Francisco tem feito um bem enorme à Igreja e à humanidade, quando exorta às pessoas de fé, bem como aquelas mulheres e homens de boa vontade que não são católicos nem cristãos, a acreditarem no amor. Acertadamente, fiel ao Evangelho de Jesus, o Papa tem chamado a atenção para o valor da vida e do amor. Em seus escritos, discursos e gestos, tem insistido na necessidade do amor. Torna-se cada vez mais urgente amar o próximo e a natureza, frutos da generosidade divina.

Quem ama não faz mal a ninguém porque reconhece que o mal é incompatível com o amor. Quem ama somente pode fazer o bem. Assim, o amor é a vocação primeira de todo ser humano. O amor ultrapassa os limites das culturas e religiões. Não há humanidade sadia sem o amor, não há pessoa humana fora do amor. Desprovida de amor e desprezando-o, a espécie humana se torna a mais perigosa, com infinito potencial destruidor da vida no mundo.

        Acreditar em Deus é crer no amor. E quem crer no amor vive segundo o amor. E quem vive segundo o amor conhece a Deus, encontrou a paz e é feliz. Quem ama experimenta, de fato, a vida. É o amor que nos dá a certeza de que a passagem neste mundo não é sem sentido. Quem se fecha à possibilidade do amor, que constitui o sentido da vida, realmente não vive, mas apenas ocupa lugar no espaço. A vida no mundo depende do amor. Quem não ama já perdeu a vida, apenas espera a morte fazer desaparecer o corpo.

Quem ama não morre, mas mergulha no reino da liberdade e da vida sem fim. Quem ama se torna morada da Trindade e torna-se, com Ela, um só mistério de amor. Não há palavras para descrever esta comunhão de amor. Quem quiser conhecer, precisa experimentar. É uma experiência linda de viver!


Tiago de França

sábado, 3 de junho de 2017

O Espírito Santo e o projeto de Jesus

“Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

        Neste domingo, a Igreja Católica celebra, solenemente, a festa de Pentecostes. Certamente, muitos não terão a oportunidade de saber da verdadeira missão do Espírito na vida e na missão da Igreja povo de Deus em marcha na história. Geralmente, a pregação reduz a ação do Espírito ao campo da experiência particular.  

Invoca-se o Espírito para que conceda seus dons, em vista de uma vida santa, de uma santidade particular. E não é pequeno o número dos que participam de momentos de “êxtase” e “repouso”, falando da manifestação do Espírito que fala uma linguagem incompreensível, portanto, intraduzível. Ousamos dizer, para a frustração de muitos, que isto não é compatível com o que o Novo Testamento fala do Espírito Santo.

        Quem não se recorda do projeto de Jesus não pode dizer que age sob a ação do Espírito, pois este nos remete, direta e permanentemente, a este projeto libertador. E é assim porque o Pai e o Filho não enviaram o Espírito a este mundo para simplesmente se ocupar com êxtases particulares que tendem a tranquilizar o espírito humano. Em alguns casos, mais perturba que tranquiliza.

Neste sentido, o Espírito não cria no cristão uma fé intimista, que se manifesta na relação fiel – Deus. Onde fica o próximo nesta relação? E a confusão da história humana? E a planície, por acaso fica abandonada, esperando que o cristão desça da montanha da transfiguração?... Pentecostes é celebração da manifestação do Espírito, e para compreendermos bem esta manifestação, ousaremos algumas provocações de ordem espiritual.

        O Espírito está para além das fronteiras de nossas Igrejas cristãs. Nenhuma instituição religiosa tem a posse do Espírito porque este é livre e libertador. Ele age onde, quando e como quer. Não se enquadra nos esquemas humanos, por mais religiosos que sejam.

Não está em função dos projetos humanos, mas foi enviado para que o projeto de Jesus, que é o Reino de Deus, se torne efetivo no meio do mundo. Muito além das fronteiras do Cristianismo, podemos encontrar o Espírito trabalhando, habitando os corações das mulheres e homens de boa vontade, de forma silenciosa e discreta, com a força que lhe é peculiar.  

        O Espírito renova todas as coisas na perspectiva do Reino de Deus. Todas as pessoas que abrirem seus corações à generosidade e bondade divinas, recebem o Espírito. Esta generosidade e bondade já constituem frutos do Espírito. Todas as coisas são recapituladas em Cristo Jesus pela força do Espírito. Não há realidade neste mundo que lhe seja desconhecida. A sua força está presente na bondade de todas as criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus.  

Ele renova todas as criaturas para que permaneçam no espírito do seu Criador, restauradas para a sua glória. O Espírito faz as criaturas participarem da vida do seu Criador, sendo, assim, felizes. E no meio da criação está o homem, elevado em Cristo à dignidade de filho de Deus, para a manifestação definitiva da obra divina. A pessoa humana é o retrato da infinita bondade e misericórdia do Deus. O Espírito revela essa íntima unidade entre Deus e as pessoas, fazendo-lhes partícipes do seu amor.

        O Espírito é a força dos fracos e a Luz que desperta para a plenitude do Reino de Deus. Em todos os tempos e lugares há mulheres e homens que são pisados e explorados por quem detém o poder. Há uma esperança que nutre a caminhada dos fracos, os oprimidos da história. Muitas vezes, eles não sabem de onde ela vem, quem a alimenta. Sabem somente que a cada dia precisam caminhar, levantar-se do chão, reerguer-se, manter-se de pé, fazer a vida acontecer. Estas pessoas gritam, gemem de dor. São desfiguradas, abatidas, mas não totalmente vencidas. 

Elas também festejam, se alegram e cantam, e no mais profundo do seu ser, acreditam que a noite vai passar, por mais tenebrosa que seja. O evangelho revela que é o Espírito enviado a este mundo que desperta e alimenta a esperança destes empobrecidos. Iluminados e sustentados pela força do Alto reconhecem que são amados por Deus, apesar das dores e sofrimentos. Sabem que Deus permanece com eles, diuturnamente, porque é fiel, e sua fidelidade não tem fim.

        O Espírito revela o lugar do encontro com Deus e do movimento cotidiano de seu Reino. Há lugares nos quais podemos encontrar Deus agindo. Geralmente, para estes lugares não queremos ir. E é assim porque estes lugares não são confortáveis, mas incômodos. Lá está o rosto de Jesus que nos questiona, que coloca o dedo na nossa ferida. O rosto de Jesus nos faz enxergar a nossa preguiça, a nossa covardia, a nossa omissão. Queremos viver deitados na rede, tomando água de coco, ou seja, queremos o conforto de nossas capelas, algumas até com ar condicionado.  

Enquanto isso, Jesus nos espera lá na periferia. Não gostamos dessa palavra. Ela nos dá medo. A sociedade, marcada pela mentira e pela hipocrisia, nos induz a pensar que na periferia só tem o que não presta. Fala-se que lá estão as pessoas imundas, sujas, pecadoras, impuras. O Espírito nos revela que Jesus possui exatamente estas características: é imundo, sujo, considerado pecador e impuro. E é assim porque é o Verbo encarnado na periferia do mundo.

No Reino definitivo assistiremos a um escândalo quando estivermos diante do verdadeiro Cristo Jesus: com cara de homem da periferia, homem próximo das pessoas mal afamadas. O Espírito revela que quem quiser conhecer Jesus cuide em se adaptar às periferias existenciais. Cada um precisa conhecer as periferias de sua vida, de seu contexto.

Jesus costuma habitar os lugares e as pessoas que nos causam certa repugnância. E por mais que não aceitemos esta verdade evangélica, ela permanece para sempre porque Deus é o mesmo, ele não muda para satisfazer os nossos gostos e nossos medos. O Reino de Deus está acontecendo nas alegrias, esperanças, angústias, na dor e nas festas dos empobrecidos. Estes são bem-aventurados porque possuem a visão de Deus.

        O Espírito nos faz entrar no reino da liberdade sem fim. Neste mundo, há quem pensa que o poder, o dinheiro e o prestígio libertam. As pessoas se apegam a estas coisas e pensam que são felizes. Confundem conforto material com felicidade. A mediocridade é a palavra que traduz o significado da vida que levam. Contra o mal da mediocridade, a ação amorosa do Espírito é o remédio. Quem faz a experiência da comunhão com o Espírito está livre da sede pelo poder, dinheiro e prestígio.  

Na verdade, os que vivem sob a ação do Espírito fogem do mal do poder, do dinheiro e do prestígio. O Espírito não confere poder humano a ninguém. A sua marca é a da fraqueza. Esta manifesta a sua força. Todas as pessoas espirituais são humanamente frágeis, não possuem poder para nada. O poder que o Espírito confere é o do testemunho. Trata-se de um poder superior a qualquer outro, capaz de arrastar multidões para o caminho de Jesus.

As mulheres e homens espirituais não acumulam dinheiro, não o possuem, mas apenas utilizam-no para a satisfação das necessidades básicas. Elas sabem que vivem da graça de Deus, que as assiste na hora certa. O prestígio não constitui a meta da vida dos que vivem segundo o Espírito. Quando se tornam conhecidas é por causa do seu testemunho, que é como a luz sobre os telhados, para a edificação do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja povo de Deus. Não buscam o sucesso nem o prestígio, mas a discrição, o silêncio, a clandestinidade. Longe dos holofotes da mídia podemos encontrar inúmeros discípulos missionários de Jesus, guiados pelo Espírito.

        Por fim, é preciso considerar que o Espírito liberta o cristão de certa imagem falsa de si mesmo. Ele o faz enxergar e aceitar a verdade de si mesmo. Por isso, é o Espírito que liberta da mentira e da ilusão, abrindo os olhos do crente para que encontre Deus na realidade do mundo. Esta liberdade aponta para a paz de espírito. Toda pessoa que se encontrou consigo mesma conhece a verdadeira paz porque se encontrou com Deus.  

O resultado é que a pessoa se liberta das preocupações e das ambições. Despoja-se das pretensões, passando a buscar somente o Reino de Deus e sua justiça. Quem vive à procura daquilo que o mundo oferece: poder, prestígio e dinheiro, já perdeu a paz. Vive inquieto, perturbado, leva uma vida seca, sem vida. Somente as pessoas livres no Espírito é que conhecem a verdadeira alegria de viver. As demais, gozam da falsa alegria, que o mundo é capaz de dar: uma alegria passageira, que esconde o vazio e as trevas de uma vida sem sentido.

Todos os que permanecem no Espírito são alegres, disponíveis, generosos e transparentes como água cristalina. O mundo e nossas Igrejas precisam cada vez mais de pessoas verdadeiramente livres, conscientes de sua missão no mundo, ungidas pelo Espírito, capazes de amar até às últimas consequências. Esta é a vontade de Deus. Isto é o que o Espírito nos diz nesta hora tão difícil de nossa história. Oremos para que o Espírito nos empurre para o meio do mundo, para darmos testemunho do amor de Deus e de sua justiça. Este é o caminho que conduz a Deus. Que o Espírito permaneça em nós, para sempre, libertando-nos de nossos demônios interiores, para sermos missionários do Reino do Pai.


Tiago de França

sábado, 27 de maio de 2017

A presença de Jesus, o cristão e os escândalos de corrupção

“Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (Atos 1, 11).

        O relato da ascensão de Jesus aos céus pode ser uma excelente oportunidade para meditarmos sobre o mistério de sua presença entre nós. Certamente, alguns pregadores católicos enfatizarão o movimento da subida de Jesus ao céu. Na verdade, Jesus nos chama a atenção para a sua permanência entre nós, pois não nos deixou órfãos. Ele não nos abandona para ir viver confortavelmente em outra dimensão. Ascensão é, na verdade, movimento de descida para a realidade conflituosa da vida.

        Nossa tendência é justamente repetir o gesto dos discípulos de Jesus, que ficaram parados olhando para o céu. Viver parado, olhando para o céu, é a atitude do cristão acomodado, que aprendeu a adorar Jesus no silêncio da capela do Santíssimo. Para quem é católico, não discordamos da importância da adoração silenciosa numa bela capela ou templo religioso. Mas precisamos ser contemplativos na ação. Sempre há algo que pode ser feito, por mais insignificante que pareça ser. Podemos celebrar a ascensão de Jesus, fazendo-o presente na simplicidade de nossa ação.

        Muita coisa ruim anda acontecendo no mundo, especialmente no Brasil. Nesta semana que passou, em terras paraenses, dez pessoas foram assassinadas. Segundo testemunhas, as polícias civil e militar chegaram atirando: as vítimas sequer puderam reagir. Anteriormente, um segurança de uma fazenda foi assassinado. Pelo que se conhece na região, este é o resultado do poder dos fazendeiros, que matam, impiedosamente, com o apoio da polícia. Dada a impunidade que impera no País, será mais uma chacina a cair no esquecimento. Os que foram assassinados são pessoas pobres, e estes não contam para a justiça. No Brasil, a morte de um trabalhador pobre não significa nada.

        A ascensão de Jesus é um mistério que se celebra na vida destes pobres trabalhadores e suas famílias. Certamente, há mulheres e homens indignados por esta injustiça, que se repete, escandalosamente. No Pará, há os irmãos da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, que estão denunciando este crime. Há também membros da Ordem dos Advogados do Brasil, que exigem investigações. No Judiciário, deve existir operadores preocupados com esta terrível situação. Em toda parte, há pessoas que não compactuam com o derramamento de sangue de pessoas que lutam por seus direitos. Nestas pessoas, manifesta-se o mistério da presença de Jesus.

        Além deste fato estarrecedor, que revela o quanto precisamos de um Judiciário que, de fato, funcione, também assistimos ao agravamento da crise política. Nosso atual Presidente é descarado: apesar das denúncias de corrupção, com as devidas provas oferecidas por um dos donos da JBS, insiste em se manter no cargo. O apego ao poder a qualquer custo é algo doentio e deplorável. Mesmo fazendo mal ao País, Michel Temer zomba da cara dos brasileiros, e insiste em permanecer no poder.

É tanta podridão, envolvendo também operadores do Judiciário, que este não sabe que rumo tomar. No mesmo Judiciário, os amigos do Presidente pendem para a impunidade, e já falam de indulto ao Michel Temer. Outros, apontam para o caminho da devida e necessária punição. A situação do Judiciário, de modo geral, é de total parcialidade. Em nome da amizade com corruptos, manipula-se a lei, escancaradamente. Aos inimigos, a lei; aos amigos, a impunidade.

O que um seguidor de Jesus pode fazer diante de uma situação dessas? É necessário manter viva a esperança. Mas não uma esperança passiva. O cristão é chamado a profetizar: crer na verdade e anunciá-la. E a verdade está na realidade dos fatos. Estes falam por si, independentemente de interpretação. É preciso aprender a ler os acontecimentos à luz da presença de Jesus.

No evangelho, Jesus ensina que o cristão deve permanecer do lado de quem está sendo enganado e explorado. Assim, o nosso lado é o dos pobres do povo brasileiro. Há muita gente pobre, que está sendo vítima das ditas “reformas” que o corrupto Michel Temer está fazendo. Jesus permanece presente na vida dos pobres do povo, e quem o segue deve permanecer com ele na vida de seu povo.

Esta é a opção de Jesus: os pobres sofredores do povo. Por isso, nas Igrejas e comunidades cristãs, todos aqueles que aderem aos discursos e práticas dos opressores se colocam na contramão do evangelho, e são dignos que serem chamados de inimigos do povo de Deus. Todos os corruptos são inimigos do povo de Deus, devendo ser desmascarados e punidos. São filhos do demônio, o pai da mentira e do roubo.

E por mais que ostentem amizade com padres, bispos e pastores, tanto católicos quanto protestantes, não deixam de ser discípulos e agentes de Satanás. Sabemos bem que Satanás é sinônimo de divisão, mentira e destruição, e é justamente isso que os corruptos fazem: dividem, mentem e destroem a vida, saqueando o dinheiro do povo brasileiro. Se há pastores que os abençoam, não o fazem em nome do Deus e Pai de Jesus, mas em nome de Satanás, pai da mentira e da confusão. Deus não abençoa quem rouba e mata as pessoas.

Celebrar a ascensão de Jesus é crer que ele permanece fiel, e sua fidelidade é um convite para também sermos fieis a Deus, praticando a justiça para que surja a paz. A alegria da sua presença nos transforma em missionários da justiça do Reino de Deus, incansáveis peregrinos neste mundo, firmes e fortes até às últimas consequências.

Que o Espírito de Jesus nos liberte de toda e qualquer alienação e desespero, a fim de que o Reino de Deus se torne realidade entre nós. Vamos nos manter de pé, combatendo a mentira e denunciando as forças do anti-Reino e seus agentes. Somos da parte de Deus. Ele nos envia, nos confirma e nos anima na fé, no amor e na esperança. Avante, sempre!


Tiago de França

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A gravidade da crise política brasileira

É muito grave a situação política do Brasil. Vive-se numa realidade que podemos denominar antipolítica, pois a verdadeira política é o oposto daquilo que estamos assistindo. Retrospectivamente, o que ocorreu? Em agosto de 2016, sem provas de crime de responsabilidade, derrubaram a Presidenta Dilma Rousseff.

As pedaladas fiscais, motivo alegado para a sua queda, imediatamente após o processo de impedimento, foram consideradas legais. Hoje, os chefes do poder executivo podem pedalar à vontade! O processo contra a Presidente Dilma tinha que ter um motivo, e as pedaladas constituíram, para aquela situação específica, crime de responsabilidade.

Michel Temer chega ao poder, apoiado por todos aqueles que se empenharam em derrubar Dilma Rousseff: PSDB, DEM, empresários, juristas, juízes, procuradores e tantos outros. Uma vez empossado, não perdeu tempo: anunciou “reformas” que tiveram e continuam tendo o único objetivo de reforçar o poder dos ricos e enfraquecer a força dos pobres.

Com o apoio de um segmento forte do Judiciário, a Constituição começou a ser violada, vergonhosamente. Em nome da ordem e do progresso, passou-se a ceifar os direitos adquiridos a duras penas.

No silêncio da madrugada e no sigilo dos telefonemas, e-mails e encontros, o governo e seus apoiadores continuaram fazendo o que mais sabem fazer: cometer ilícitos, faturando milhões e milhões de reais. Como todo criminoso costuma deixar rastro, nem que seja discreto e quase imperceptível, a bomba explodiu!

Além da grande Odebrecht, chegou a vez da JBS. Delatores firmaram acordos com a Justiça e resolveram dar nomes aos bois. Como era de se esperar, Michel Temer e Aécio Neves, até então intocáveis, passaram a ocupar o centro das atenções: estão sendo acusados pela Procuradoria-Geral da República de articularem meios de obstruir o trabalho da Lava Jato.

Além de obstrução de justiça, conduta grave e ilícita, os mesmos formam um trio criminoso: soma-se à periculosidade dos dois, o ex-deputado Eduardo Cunha, que se encontra preso. Amigo pessoal do ainda Presidente Temer, Eduardo Cunha não quer perder a posição: ocupa lugar central na seara da antipolítica brasileira. Temer sabe do quanto seu amigo é perigoso, caso este se torne seu inimigo.

Eduardo Cunha detém a força de derrubar dois presidentes, consecutivamente. O segundo cairá se abandoná-lo, isolando-o na prisão, sem dar-lhe a devida assistência, inclusive financeira. Centenas de políticos em Brasília estão na mira de Eduardo Cunha, que os tem na palma de suas mãos, pois com ele formaram uma das organizações criminosas mais fortes e eficientes da história recente do Brasil.

Nunca antes na história do País a justiça investigou, processou e prendeu tantos criminosos ricos como agora. As provas são robustas e inúmeras: fotos, vídeos, áudios, documentos. Mediante prova, a justiça tem que condenar. A lei processual penal dispõe de condenação mediante provas.

O judiciário tem a grande chance de se redimir perante a sociedade, considerando que é do conhecimento de todos, que o judiciário, historicamente, sempre ignorou os crimes praticados pelos ricos, em detrimento dos pobres. Parcela do judiciário está envolvida, quer na prática de crimes, quer na omissão, recusando-se a julgar os seus verdadeiros autores. Infelizmente, esta parcela de operadores do direito não arca com as consequências dos seus atos e omissões. Muito raramente um magistrado é condenado por crimes cometidos no exercício de sua função.

O que será do Brasil daqui pra frente? O que pode ocorrer? Rodrigo Maia, atual Presidente da Câmara, é o cogitado para substituir Temer na Presidência. A Constituição prevê eleições indiretas pelo parlamento. Portanto, deputados e senadores irão escolher uma pessoa devidamente alinhada aos seus interesses para ocupar o cargo de Chefe de Estado e de Governo, na Presidência da República. Considerando que a maioria dos que compõem o atual parlamento é inimiga da ética, o resultado poderá ser assustador.

O Brasil poderá ter um novo Presidente pior que Temer. Pelo andar da carruagem, o povo não vai às urnas antes do próximo ano. Indiretamente, será eleito um novo Presidente se conseguirem derrubar Temer. Este já adiantou que não renuncia. Talvez, com possíveis e novas revelações, torne-se impossível que o mesmo continue presidindo o País.

Se o Brasil fosse constituído por um povo consciente e unido, o Temer já teria renunciado. Mas ele sabe que o povo demora para enxergar e reagir. Mesmo com os jornais da Globo permanecendo, curiosamente, sugerindo a sua renúncia, o povo só assiste. É claro que existe toda uma militância política devidamente organizada, que está nas ruas do País, protestando, permanentemente.

Mas a maioria do povo permanece de braços cruzados, esperando que o milagre aconteça: espera-se que a cadeira presidencial seja ocupada por uma mulher ou homem justo, que tire a política brasileira do lamaçal vergonhoso da corrupção e liberte o País das crises política e econômica. Enquanto isso, em Brasília, deputados e senadores, bem como alguns outros agentes interessados em continuar sugando o dinheiro público, se organizam para manter a atual conjuntura intacta.

Finalizamos estas breves considerações com uma pergunta que julgamos fundamental para o momento: Até quando o povo brasileiro vai insistir em continuar elegendo pessoas que, declaradamente, não visam a promoção da verdadeira democracia, pautada na justiça social e nos princípios verdadeiramente democráticos?... Em 2018, caso tenhamos eleições gerais, o povo terá, mais uma vez, a chance de dar um basta nestes abusos, ou, pelo menos, amenizá-los. É o que esperamos.


Tiago de França