domingo, 15 de outubro de 2017

SER PROFESSOR

     
      Este dia não pode passar despercebido. Trata-se do Dia do Professor: O único profissional responsável pela formação dos demais profissionais. Na qualidade de professor, queremos oferecer algumas provocações a partir da nossa experiência pessoal.

        Inicialmente, é preciso dizer que o professor não é um mero repetidor nem transmissor de conteúdos. Qualquer pessoa pode fazer isso. O professor não é qualquer pessoa. Apesar de que, muitas vezes, muitos professores se permitem ser reduzidos a isso. Antes de mais nada, o professor é um educador.

        Educar não se reduz a ensinar bons modos. Educar é despertar no outro o desejo de pensar. O aluno precisa ver no professor um despertador da consciência crítica. Esta consciência surge por um intenso e gradual trabalho que ocorre no mundo da educação. A escola é o lugar da fomentação desta consciência.

        O trabalho do professor é uma arte, que exige perseverança e muita paciência. Cada aluno tem seu ritmo e seu contexto histórico. Como dizia o filósofo Ortega y Gasset, cada pessoa é um “eu e suas circunstâncias”. E o professor é chamado a considerar isso. A educação é um infinito trabalho de lapidação das pessoas. O aluno vem à escola, com suas histórias, pré-conceitos, saberes, hábitos, tradições etc., e o professor aproveita tudo isso para despertar nele a necessidade de tudo avaliar, criticamente.

        Atualmente, o trabalho do professor tem aumentado e se tornado desafiante. Diante da onda neoconservadora que tem tomado conta do País, nós, professores, estamos nos perguntando: O que está acontecendo? Será que temos desempenhado bem a nossa missão? De onde vem toda essa cultura da violência? Por que tanta gente de mente fechada e embrutecida? É verdade que a escola não cultiva a cultura do ódio e da indiferença. Nenhum professor que se preze, por mais mal preparado que seja, cultiva na mente do aluno a cultura da violência. Também é verdade que a escola precisa se empenhar melhor no combate a esta cultura da intolerância, que ousa imperar na sociedade.

        Outro grande mal que tem surgido atualmente, e que tem dificultado demais o trabalho do professor, e que, infelizmente, tem ganhado corpo na sociedade, é a proposta denominada “Escola sem partido”. Trata-se de uma ideologia neoconservadora que nasceu com a pretensão de tirar a liberdade de lecionar do professor. Sem liberdade não há educação. A educação existe em função da liberdade. Como ensina o grande cientista da educação, Paulo Freire: Educa-se para a liberdade. Quando se proíbe o professor de tratar determinado assunto, o que se quer, na verdade, é limitar o espaço da discussão do conhecimento. Em um regime democrático de direito isto é muito grave, pois contraria a liberdade de expressão concedida nos termos da Constituição da República em vigor.

        Hoje, o professor não pode deixar de lado a sua missão, deixando-se dominar pela omissão e pela covardia. As crianças, adolescentes e jovens são as principais vítimas da alienação oriunda da falta de consciência crítica. O professor é o único profissional capaz de despertar em todos o sublime gosto pelo pensar, e por meio deste, ensina-se a todos a aprender a analisar, criteriosamente, a realidade de si mesmo e do mundo; tendo em vista a realização das transformações necessárias para o verdadeiro progresso e evolução humana. Não há verdadeiro progresso sem uma educação verdadeiramente libertadora. Há de se trabalhar sempre para assegurar às pessoas a realização da sua vocação primeira: a vocação para o pensar.

        Particularmente, como professor de filosofia e educação religiosa, tenho procurado desempenhar esta árdua, mas gratificante missão: Levar o aluno a enxergar a realidade, despertando o desejo de pensar, criticamente. O aluno pode até não se dar bem na apreensão dos conceitos básicos do conteúdo, mas se é capaz de enxergar o que está por trás daquilo que se apresenta como óbvio, já me deixa de alma lavada. Tenho alunos que me dão esta alegria: A de se apaixonarem pela busca do conhecimento, insaciavelmente.

Por isso, apesar de um sistema educacional que precisa ser revisto na perspectiva da criação de sujeitos livres e, portanto, autônomos, sou professor porque acredito na transformação das pessoas. Sou professor porque acredito em outro mundo possível, a ser construído por pessoas livres e libertadoras, conscientes de si mesmas e do que acontece ao seu redor. Esta é a minha bandeira. Esta é a minha esperança. Pela a libertação integral das pessoas e erradicação da ignorância geradora de todo tipo de intolerância e violência, sou professor, e com muito orgulho!

Com estima e consideração à minha genitora, Cícera Luís de França, minha primeira professora, que me ensinou a ler, contar, enxergar e ser gente! Aos meus professores de ontem e de hoje, a minha eterna gratidão.

Prof. Tiago de França

sábado, 7 de outubro de 2017

A liberdade artística e o conservadorismo no Brasil

Amigos/as,

Atendendo a alguns pedidos, gravei uma reflexão sobre a polêmica em torno do nu artístico que tem aparecido em algumas exposições, e que causou tanto alvoroço nas redes sociais. Para facilitar o acesso, dividi a reflexão em cinco breves partes, no meu canal no YouTube, que podem ser vistas nos links a seguir. Trata-se de uma reflexão sobre o conservadorismo religioso e cultural que vigora atualmente no Brasil. 

Bom fim de semana a todos/as!


Tiago de França
A liberdade artística e o conservadorismo no Brasil


sábado, 30 de setembro de 2017

O perigo do farisaísmo religioso

Disse Jesus: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 28 – 32).

        Jesus era escandaloso, e os mais religiosos nunca gostaram disso. Até hoje é assim: muitos religiosos não gostam de algumas páginas do Evangelho, porque nelas aparece Jesus “dando valor a quem não presta!” Os “convertidos” são unânimes em dizer: “Não se pode dar valor a quem não presta! Deve-se viver longe dessa raça de pecadores!” Estes religiosos vivem na contramão da mensagem de Jesus. O que fez e ensinou o Filho de Deus? Com seu testemunho, ensinou que no Reino de Deus os pecadores tem precedência.

        Será que Jesus está nos induzindo ao pecado? Estará nos ensinando que devemos pecar para alcançar o Reino de Deus? Lógico que não! O pecado existe e destrói o ser humano, afastando-o do caminho que conduz à vida. Pecado é sinônimo de morte. Ninguém ganha nada se entregando ao pecado. Mas o pecado não pode ser usado por quem se diz religioso para julgar e condenar os outros. Jesus reprova o juízo e a condenação dos pecadores. Quem é o santo, justo e perfeito, para julgar e condenar quem peca? Quem, nesta vida e neste mundo, não peca?... A ninguém Jesus deu o poder de julgar e condenar.

        Aos profissionais da religião judaica, sacerdotes e anciãos do povo, Jesus é enfático: Os cobradores de impostos e prostitutas precederão a vocês no Reino de Deus! Deve ter sido muito dolorido ouvir isso da boca de Jesus. Os sacerdotes e anciãos se consideravam justos diante de Deus porque conheciam a letra da lei, esforçando-se em cumpri-la.  

Eram rubricistas, portanto, dados à aplicação literal da lei, considerando-a fonte de salvação. Jesus os desmascara, mostrando que não é a lei que salva, mas o amor de Deus. E este amor acolhe a todos e se revela na vida dos pecadores. Por isso, os cobradores de impostos e as prostitutas conheciam o que os mestres da lei não conheciam: o amor de Deus.

        Na época de Jesus, estas categorias de pecadores eram vítimas do desprezo. Eram julgados e condenados pelos religiosos do Templo e das sinagogas. No espaço público, viviam expostos ao escárnio. Sabendo disso, e consciente da sua missão, concedida por Deus Pai, Jesus escandaliza a todos: Vai ao encontro destes pecadores e com eles passa a conviver.

Como pode, aquele que chamam de Messias, se misturar com os pecadores?... Esta é a pergunta que fala da inquietação e do incômodo dos mestres da lei da época. Entendiam que o Messias seria alguém puro, que jamais se misturaria com pecadores. Jesus revelou, com o testemunho de sua vida, que o verdadeiro Messias não é assim.

        Hoje, no seio das Igrejas cristãs reina o que denominamos farisaísmo religioso. Como este farisaísmo tem se revelado? Há grupos religiosos que se consideram justos e santos, observantes dos preceitos religiosos, desprovidos do amor e compaixão pelo próximo.

Na Igreja Católica, grupos ultraconservadores resolveram intensificar a perseguição ao Papa, acusando-o de heresia. A acusação não tem procedência porque o Papa está plenamente alinhado à mensagem de Jesus e, justamente por isso, tem incomodado muita gente no seio da Igreja e fora desta. Os ultraconservadores não aceitam o Evangelho de Jesus, mas são dominados por uma incontrolável sede de poder e autoafirmação. São fariseus ousados, que estão a serviço das forças que separam e dividem a Igreja.

        Na sua relação com a sociedade, o cristianismo está muito mal representado: Há inúmeros membros de várias Igrejas cristãs que se dedicam a julgar e condenar as pessoas. Atualmente, há dois grupos que estão sendo brutalmente perseguidos por cristãos ultraconservadores no Brasil: LGBT e membros da umbanda e do candomblé.  

As notícias são assustadoras: O número de assassinatos de gays e travestis tem aumentado, assustadoramente, bem com a destruição de lugares sagrados nos quais se celebram os rituais das religiões afro-brasileiras cresce cada vez mais.

A intolerância religiosa tem ganhado espaço, escandalosamente. Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e membros das religiões afro-brasileiras são, hoje, os “pecadores públicos”, a quem Jesus dirige as mesmas palavras que dirigiu aos publicanos e prostitutas do seu tempo.  

Aos líderes religiosos e a todos os cristãos, que se ocupam com o julgamento e condenação das pessoas, considerando-se melhores que os outros, Jesus diz: Em verdade vos digo que as lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, os membros das religiões afro-brasileiras e todos aqueles que são desprezados pelas religiões vos precedem no Reino de Deus. O Deus e Pai de Jesus ama e acolhe a todos, sem distinção. E todo aquele que nele crê deve fazer o mesmo, pois amar a Deus é amar o próximo como a si mesmo, sem distinção.

Assim, o farisaísmo é um pecado grave, que faz muito mal à religião cristã. Jesus condenou com veemência a hipocrisia dos fariseus, e foi perseguido por eles. O fermento dos fariseus é muito perigoso. Trata-se de um veneno mortal, que ceifa a vida de muitos.

Desse modo, é uma contradição afirmar que acreditamos em Deus, condenando as pessoas. A fé e a condenação são realidades irreconciliáveis. Quem tem fé se reconcilia consigo mesmo, com suas fraquezas e limitações. Uma pessoa de fé é alguém capaz de aceitar-se, para amar e aceitar o outro. Cada pessoa, independentemente de seus pecados, é morada de Deus.

Adora-se a Deus, amando-o nas pessoas. Portanto, o cristão deve reconhecer o seu pecado, e ajudar os outros a superar também suas fraquezas. Quem não se reconhece pecador, fragilmente humano, é incapaz de amar. Quanto mais humilde para reconhecer suas fraquezas, mais aberta se torna a pessoa para amar o outro. Esta é a vontade Deus. E este Deus está onde reina o amor, afastando, assim, toda espécie de indiferença e condenação. Todos somos pecadores, e no amor a gente conhece e encontra Deus, que deseja ser Tudo em todos, desde sempre e para sempre. Amemo-nos!

Tiago de França

sábado, 23 de setembro de 2017

A bondade infinita de Deus

“... Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20, 15).

        Esta pergunta faz parte da resposta que um patrão generoso deu a um empregado insatisfeito, que reclamou do valor recebido por seu trabalho. Este patrão aparece numa parábola contada por Jesus, que queria falar da justiça divina para seus ouvintes. Conta a parábola que um patrão convidou pessoas que estão sem nada fazer, para trabalhar. E convidou em vários momentos do dia.  

Ao final, quando do pagamento da diária, o patrão surpreendeu a todos: deu a todos o mesmo valor, tanto aos que trabalharam o dia inteiro quanto aos que trabalharam poucas horas do dia. E quando um dos que chegou primeiro na vinha foi reclamar, recebeu, juntamente com o dinheiro, uma resposta firme: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

Hoje, quem vive segundo a lógica do mercado capitalista ignora totalmente a atitude deste patrão. Este não age como todos agem. É um patrão diferente. Trata-se de alguém que visa, em primeiro lugar, atender à necessidade do outro, e não o quanto este trabalhou ou deixou de trabalhar. A lógica do patrão é diferente porque não passa pela via do merecimento, do cálculo humano da equivalência.

Todos os que atenderam ao convite para trabalhar na vinha mereceram receber o mesmo valor porque todos precisavam viver dignamente. Este tratamento igualitário promove a verdadeira justiça. A justiça de Deus é diferente da dos homens porque Deus visa, em primeiro lugar, a bondade e a generosidade. Ele é bom e generoso.

Esta parábola nos permite corrigirmos uma falsa imagem de Deus que até hoje vigora no seio das comunidades cristãs e na mentalidade das pessoas: A imagem de um deus justiceiro, que age como se fosse um patrão, exercendo poder sobre as pessoas. Infelizmente, muitas pessoas pensam que Deus é um patrão, que dá a cada um conforme o que cada um merece. Neste sentido, a graça divina não é gratuita, pois ele somente a concebe a quem a merece.

Um exemplo clássico que ocorre em muitas comunidades da Igreja Católica: Somente pode receber a Eucaristia a pessoa que merece, que está no chamado “estado de graça”. Assim, quem está no pecado não merece receber. Trata-se de verdadeira deturpação do sentido da Eucaristia. Jesus não falou do Pão da Vida dessa forma. Ele, Jesus, é o Pão dos Pecadores. Os que se julgam estar em “estado de graça” não devem recebê-lo na Eucaristia.

Deus não é patrão, mas Pai. São duas realidades distintas. O patrão manda, exige resultado (produção), recompensa conforme os resultados obtidos, pune o empregado desidioso e demite com ou sem justa causa aqueles que não se alinham à política da empresa. No mundo mercadológico é assim que funciona. E quando o patrão demite, não está preocupado se o empregado vai passar fome ou não.

A preocupação do patrão é com a sua empresa. Esta precisa crescer, independentemente de quem seja o empregado. Este é uma peça na engrenagem do sistema, e está no ofício para produzir riqueza. Quem não produz riqueza é descartado pelo patrão porque o lucro é a meta. No sistema capitalista, a situação é esta. Os patrões são obrigados a se alinharem a esta lógica; do contrário, não sobrevivem.

Deus não é assim. Deus contradiz a lógica que domina o mundo. Deus é Pai e Mãe, pura bondade e generosidade. Uma mãe e um pai tem filhos, não empregados. Deus é bom e chama para o centro da convivência harmoniosa todos aqueles que são relegados ao esquecimento e à exclusão. Ele vai ao encontro daqueles que precisam trabalhar na sua vinha. Deus inclui, não exclui. A lógica do exclusivismo, que gera marginalização, não condiz com o projeto de Deus. A sua bondade alcança a todos, não apenas algumas pessoas, grupos, ou alguma religião. O seu chamado à vida e à liberdade é universal. O seu amor é para todos. Ninguém está excluído.

Se muitos religiosos e muitas denominações religiosas pregam o contrário, afirmando que Deus salva um número determinado de pessoas, bem como somente ama alguns, legitimando, assim, que Ele faz acepção de pessoas: esta é uma mentira que precisa ser combatida e erradicada. Esta imagem falsa de Deus não permanece de pé quando confrontada com a verdadeira imagem de Deus revelada na pessoa de Jesus. Em Jesus, Deus parte da periferia, resplandecendo a sua glória lá onde reside os chamados “pecadores públicos”. O Deus e Pai de Jesus não é um Ser supremo e abstrato, acessível às mentes inteligentes. Deus não é metafísica, mas bondade encarnada no mundo.

Permanece, assim, o desafio a todos os que se reconhecem como crentes e cristãos: Testemunhar no meio do mundo a bondade e a generosidade de Deus. Como ocorre este testemunho? É simples. Tudo ocorre a partir da simplicidade porque nesta está a verdade. O crente, simplesmente, é alguém que ama a todos, sem fazer distinção, e sem julgar quem quer que seja. Testemunhar a bondade é atender o chamado divino a sermos bons como Ele é bom.

Assim, todo aquele que afirma crer na bondade de Deus, mas despreza, julga, condena, discrimina, se afasta, ridiculariza, desrespeita, humilha e maltrata o próximo, não está na verdade, mas é mentiroso, e peca gravemente contra Deus. O mundo atual carece de pessoas amorosas, boas e generosas, para que a covardia e a indiferença desapareçam, e todos, sem exceção, possam viver em harmonia, experimentando a justiça do Reino de Deus, porque esta é a Sua vontade. Quem opta pela violência é inimigo de Deus, e quem opta pelo amor conhece a Deus e Deus permanece nele (cf. 1Jo 4, 7).


Tiago de França

sábado, 16 de setembro de 2017

A experiência cristã do perdão

Amigos e amigas,

Clicando no link a seguir, vocês poderão assistir a uma reflexão sobre a importância do perdão para a vida cristã, tendo em vista a construção da cultura da paz. 

Com meu fraterno abraço,

Tiago de França
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Link: A experiência cristã do perdão.

Brasil: Um País de ladrões e estupradores

       
       O título do presente artigo pode parecer exagerado, mas não é. Os números revelam que inúmeras pessoas são estupradas no Brasil, principalmente mulheres. Um dos casos que mais chamou a atenção foi o de Diego Ferreira de Novais, 27 anos, que estuprou uma mulher em um ônibus, em São Paulo. Registros mostram que Diego foi detido dezessete vezes por crimes sexuais, o que demonstra a necessidade de internação compulsória.  

Entre outros aspectos, chamou a atenção a quantidade de ocorrências e a forma como o Judiciário lida com a situação, o que revela despreparo de muitos juízes, bem como sinais evidentes de machismo. Um juiz machista e mal preparado não vê problema em atos obscenos, importunação ofensiva ao pudor e estupro. Neste sentido, as mulheres não podem esperar muito do Judiciário.

        Os fatos revelam que há uma cultura do estupro no Brasil. A mulher é considerada, por muitos homens, objeto de satisfação sexual. Pesquisa do Datafolha de setembro de 2016, revelou que um em cada três brasileiros acredita que a culpa é da mulher, nos casos de estupro. A culpabilização da vítima é uma prova de que o machismo reina no País, e está longe de acabar. A mentalidade machista tem início no seio das famílias.  

Muitos pais deseducam seus filhos a tratar as meninas como seres inferiores e objetos sexuais. Convencem os meninos de que quem nasce no sexo masculino tem que ser “macho” e “pegador”. Estas e outras expressões são típicas de pessoas sexualmente desequilibradas. De modo geral, os “pegadores” são desequilibrados e imorais, dominados pela idiotice porque não tem nada no cérebro, mas somente potência sexual em estado de desequilíbrio.

        A realidade reclama uma educação que promova o respeito e a liberdade. É necessário reeducar as pessoas para a importância da igualdade de gênero. Trata-se de um equívoco grave, em pleno século XXI, pensar que a mulher é inferior ao homem. A mulher não é uma coisa, mas pessoa, digna de respeito, consideração e amor. Nos espaços privado e público, e no exercício profissional, a mulher deve ser tratada em pé de igualdade.  

Hoje, graças à coragem de muitas mulheres, existe um forte movimento de resistência contra os abusos e a exploração das mulheres. Não é mais possível tolerar o feminicídio e todas as demais formas de agressão à dignidade feminina. Temos a Lei Maria da Penha que nos chama a atenção, do ponto de vista legal, para o respeito à integridade da mulher. Portanto, a solução passa pela educação familiar e escolar, visando a abertura da mente e a mudança de mentalidade, para a erradicação do machismo e da cultura do estupro.

        Além da cultura da violência contra a mulher, que muito nos envergonha perante o mundo, o País também sofre com os escândalos de corrupção. Nunca na história brasileira, o povo tomou conhecimento de tantos desvios. Esta mesma história conta que sempre houve escândalos e desvios, mas estes nunca chegavam ao conhecimento do povo. Com a chegada do ex-Presidente Lula à Presidência, o Ministério Público e a Polícia Federal ganharam plena autonomia para investigar. Esta liberdade de investigação fez com que o povo conhecesse a verdade até então oculta: A corrupção no Brasil é sistêmica e os mais ricos são os que mais roubam.  

A operação Lava Jato tem revelado que grandes empresários, aliados a muitos políticos, sempre desviaram bilhões e bilhões de reais dos cofres públicos. A novidade não está nos desvios, mas no fato da sua publicidade. É verdade que ainda há muitos desvios ocorrendo ocultamente, mas boa parte veio a público. Isto é um dado positivo.

        Os escândalos revelam um País acostumado à corrupção. A situação é tão gritante, que muita gente já não se surpreende nem se escandaliza mais ao ouvir a notícia de um novo escândalo. Em todos os setores da sociedade a corrupção está infiltrada. O famoso “jeitinho brasileiro” demonstra a esperteza de um povo que não foi educado para conhecer e cumprir a lei.  

É verdade que há muita gente honesta e de boa índole, mas é escandaloso o número daqueles que sempre procuram atalhos para tirar vantagem em tudo. Somente cumprem a lei quando não há outro jeito; do contrário, se encontrarem uma brecha ou oportunidade, optam pelo descaminho e/ou criminalidade. O ordenamento jurídico brasileiro possui lei para normatizar praticamente tudo, mas, mesmo assim, as pessoas sempre escapam e a impunidade é assustadora.

        No quesito impunidade, o povo já decorou a lição: No Brasil, os mais ricos sempre escapam, seja porque o Judiciário faz vista grossa, seja porque possuem excelentes advogados, que atuam de forma enérgica e tecnicamente bem para livrar os criminosos ricos de possíveis condenações. Vez e outra um empresário é preso, processado e condenado; mas não demora muito na cadeia.

O Judiciário tem se utilizado bastante da prisão domiciliar para “punir” os mais ricos, pois tem certa dificuldade de vê-los sofrendo. Fala-se que no Judiciário, os juízes formam uma “casta”! Se considerarmos os privilégios e o status do cargo, de fato, trata-se de uma casta poderosa, contra a qual praticamente não cabe recurso. Se um juiz entender um fato de uma forma, os demais das cortes superiores tendem na mesma linha. Dizia Rui Barbosa que contra a ditadura do Judiciário não há a quem apelar.

        A ditadura do Judiciário existe e ninguém pode negar tal fato. Uma de suas principais facetas é a seletividade. Quando absolve o rico e pune o pobre, aí está a seletividade. Quando a pena do rico é menor que a do pobre, também aí há seletividade. Os críticos desta visão poderão perguntar: Mas há pobres que cometem crimes bárbaros! Não discordo da existência da periculosidade de muitos pobres que entram no mundo do crime, mas a tese que defendemos é: Hoje, os ladrões do dinheiro público no Brasil não são pobres. Os que atualmente estão sendo acusados, investigados e processados no âmbito da operação Lava Jato e outras operações não são pessoas pobres; mas ricos que não se contentam com o que tem, querendo sempre mais.

Os pobres do povo são as vítimas, são os que trabalham diuturnamente para os empresários, são os que mais pagam impostos. Os bilhões de reais desviados fazem falta ao custeio dos serviços públicos básicos à população, e os pobres são os que dependem da prestação destes serviços.

        Os fatos mostram que há uma cultura da corrupção no Brasil contra a qual precisamos aderir a uma cultura da honestidade. Esta não se aprende nos bancos da escola nem na universidade. A honestidade é adquirida pela prática da virtude. Virtuosa é a pessoa que adere à prática do bem, visando sempre o bem comum. No regime democrático de Direito, as pessoas precisam aprender a viver em sociedade, respeitando o lugar do outro. Viver honestamente significa aderir a práticas justas e transparentes; significa agir de acordo com valores éticos imprescindíveis à convivência social, tais como a justiça, a solidariedade, a mansidão, o respeito, a fraternidade etc.

Toda pessoa que, no espaço público, procura somente a satisfação dos próprios interesses, torna-se facilmente nociva à sociedade. A sociedade brasileira carece de pessoas que pautem suas vidas na honestidade e na busca do bem comum. As pessoas precisam ser educadas para a solidariedade e a justiça. Não é possível existir um País justo e fraterno para todos sem justiça e solidariedade. Não basta combater a corrupção. Precisamos, sobretudo, prevenir para que não exista. E não há prevenção maior do que todo cidadão tomar consciência do significado e valor da cidadania, consciência que conduz à prática da honestidade, transparência e justiça.


Tiago de França

sábado, 2 de setembro de 2017

Seguir Jesus hoje

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24).

        Da parte de Jesus há sempre um convite: “Se alguém quer me seguir...” Trata-se de um chamado sempre aberto e universal. Decidir-se por Jesus é uma atitude que confere sentido à vida. Quem escolhe seguir Jesus, inicia uma experiência de vida, que se expressa na adesão a um projeto de vida. Falar em projeto significa que seguir Jesus vai muito além de simpatizar-se com ele. Jesus não quer que meramente gostemos dele, que admiremos suas palavras, mas deseja que sejamos seus discípulos e discípulas.

        Os que decidem seguir Jesus assumem um novo jeito de ser, deixando de ser meras cópias do mundo, sem fugas. Vivendo no mundo, o discípulo assume o estilo de vida do Mestre: um estilo profundamente marcado pelo amor-doação. Fora do projeto de Jesus encontramos o falso amor, segundo o qual as pessoas se apoderam umas das outras, portanto, possuindo-se. As pessoas falam do amor, mas não amam. Vivem no infinito e perigoso jogo de satisfação dos interesses, e escondem este jogo se utilizando da linguagem do amor. Há belos discursos de amor, manifestações coloridas de amor, mas, na prática, somente há aparência de amor.

        No seguimento de Jesus, aquele que renuncia a si mesmo é que verdadeiramente ama. Sem renúncia não há amor. Hoje, as pessoas não querem sequer escutar a palavra renúncia. Aprenderam que renúncia é sinônimo de negação da vida. Praticam o hedonismo, ou seja, buscam o prazer a todo custo, e pensam que assim são felizes. Ser feliz, segundo pensam, é desfrutar de uma vida prazerosa. A regra é ter prazer, um prazer que nunca se sacia. E o resultado é o número assustador de pessoas superficiais, vazias, cansadas, ansiosas, usadas e abusadas, perturbadas, sem rumo, sem vida. As pessoas buscam a satisfação de seus interesses, entregando-se ao egoísmo. Os que conseguem satisfação pensam que são felizes. Na verdade, vivem na ilusão. Estão perdidos na vida.

        Jesus ensina um caminho que vai na contramão de tudo isso. E justamente por isso, as pessoas não aceitam este caminho. Trata-se de um caminho que conduz à doação de si, doação que conduz à cruz. Não é um caminho de prosperidade. Enquanto as pessoas procuram o prazer, o sucesso, o prestígio, o poder, a riqueza e a glória, Jesus exige a renúncia e aponta para a cruz. As pessoas não querem carregar a cruz. Com a ajuda da religião, elas distorcem a mensagem de Jesus, e criam outra mensagem e um outro Jesus. O verdadeiro Jesus é demasiadamente exigente e pesado. As pessoas querem um Jesus leve, que lhes assegure prazer, satisfação e vida tranquila. Desejam crer num Jesus que não exija renúncia nem fale de cruz.

        Renunciar é muito difícil. Por que tenho que pensar no próximo, se devo procurar sempre cuidar, em primeiro lugar, de mim mesmo? Por que devo responsabilizar-me pelo outro? O que tenho a ver com o sofrimento do outro? Por que devo preocupar-me com o outro, se não o conheço? Por que fazer minha parte na transformação do mundo, se não colaborei diretamente para que chegássemos a tamanha calamidade? Por que devo fazer alguma coisa, se a culpa é do governo?... Estas e tantas outras perguntas revelam a tendência que as pessoas tem de tentarem justificar seu pecado de omissão. Não querem renunciar à segurança, mas buscam-na, desesperadamente. Não renunciam à zona de conforto para assumir riscos.

        Renunciar gera desprazer e, portanto, é desconfortável. Ocupar-se com o outro dá trabalho porque este outro é diferente. As pessoas não são educadas para o diferente, para a tolerância, para o cuidado. No mundo, aprendem a ser interesseiras, mesquinhas, maliciosas, ambiciosas, covardes e omissas. Algumas até se escandalizam com a indiferença que reina na sociedade, mas quando se deparam com as feridas abertas do próximo, preferem passar para o outro lado do caminho. E para apaziguar suas consciências, procuram ir ao culto, elevar a Deus hinos de louvor. Outras, doam algumas moedas aos pobres mendicantes, e isto lhe confere uma paz momentânea. Doam moedas, mas não renunciam à maldade que habita seus corações.

        Jesus pede também que se tome a cruz. Carregar a cruz não é tarefa fácil porque implica responsabilidade. Carregar a cruz não é amar o sofrimento. Isso é masoquismo. Deus não provoca o sofrimento na vida de ninguém. Deus não é mau. Há pessoas que pelo simples fato de terem nascido neste mundo são vítimas do sofrimento, são atingidas por ele. Há outras que provocam o sofrimento, fazendo opção por ele. Parece estranho, mas é verdade. Há muita gente que procura sarna para se coçar e encontra! Hoje, milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas da exploração dos poderosos, que gera sofrimento. Com elas está Jesus, carregando a cruz. Jesus não livra ninguém do sofrimento, mas permanece sempre disposto a caminhar junto, ajudando, aliviando e salvando.

        A religião cristã, com seus pastores e suas estruturas, tem um papel importante a desempenhar: ir ao encontro dos que sofrem, para ajudar-lhes a carregar a cruz. Um cristianismo que não assume o papel daquele que ajudou Jesus a carregar a sua pesada cruz, é pedra de tropeço no processo de humanização das pessoas. Neste sentido, é papel das Igrejas cristãs ajudar o povo a carregar a cruz. Muita gente do povo sofre. Muitas feridas estão abertas, precisando do óleo da misericórdia. Se os cristãos se fecham nos seus templos, tapando os olhos e ouvidos ao clamor daqueles que estão caídos nos caminhos e periferias do mundo, estes cristãos praticam idolatria. Jesus está chamando, gritando e agonizando na carne sofrida das mulheres e homens que são vítimas dos poderes que ceifam a vida.

        Os cristãos fariseus e hipócritas fecham os olhos e tapam os ouvidos para não ouvirem o clamor de Jesus, que sai da boca dos sofredores. Preferem perder tempo com discussões doutrinais e rituais, discutindo em suas reuniões sobre quem pode ou não participar dos momentos litúrgicos. Vivem ocupados com abstrações e regras, para ver quem está de acordo ou não com a lei. Estão preocupados com o número daqueles que frequentam o culto, bem como com a quantidade de dinheiro que entra em forma de dízimos e ofertas. Enquanto brigam para ver quem é conservador e progressista, Jesus permanece de mãos estendidas no madeiro da cruz, implorando sempre a misericórdia do Pai, para que encontremos o caminho que conduz à vida.

        A palavra de Jesus permanece para sempre, e não há doutrina humana que a mude. Sua palavra é clara e imutável: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Sem renúncia e sem a cruz não se segue Jesus. Não há meio termo. Não há interpretação que mude isso. Esta palavra é radical e eterna. O seguimento é exigente, profundamente marcado pelo amor-doação, expresso na renúncia e na cruz. Quem quiser participar do Reino de Deus Pai, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga Jesus. A genuína fé cristã não oferece outro caminho senão este. Assim disse Jesus, e sua palavra é palavra de vida eterna, e seu chamado permanece aberto. Quem quiser segui-lo, arrisque-se. É caminho estreito, que conduz à vida sem fim.


Tiago de França