sábado, 10 de março de 2018

O amor de Deus pelas pessoas e pelo mundo


“Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

        O mundo não é maldito nem é obra de Satanás. Nossa meditação precisa iniciar com esta afirmação categórica, porque no seio do Cristianismo há inúmeros cristãos que pensam o contrário. Há quem fuja do mundo por pensar que este é causa de perdição eterna. Na verdade, Deus criou o mundo e tudo o que nele há para que as pessoas pudessem viver e encontrar este mesmo Deus neste mundo. Segundo a teologia da criação, tudo o que Deus criou é muito bom, e tudo foi criado para o bem de todos. O mundo é o palco da vida, pois é nele que se realiza a salvação do gênero humano e de toda a criação.

        Dando asas às ambições desmedidas, que se manifestam na sede do ter e do poder, ao longo da história, o ser humano (conjunto de pessoas situadas no mundo) se desviou e transformou o mundo naquilo que temos hoje. O que temos não é fruto do acaso nem do castigo de Deus, mas é fruto das escolhas feitas; escolhas que sempre geram consequências, a curto ou a longo prazo. As pessoas foram criando culturas, estilos de vida, sistemas econômicos, relações de poder etc. Se assistimos a conflitos, lutas pelo poder, exclusão, guerras e morte degradante e violenta, todas estas coisas resultam do agir humano, alicerçado nos constantes conflitos de interesses.

        Este é o mundo que temos e não adianta fugirmos dele. Não há outro para vivermos. Deus está nele, atuando, diuturnamente. Há pessoas, que impulsionadas por Ele, trabalham pela libertação do homem e do mundo. Deus não abandonou o mundo nem o homem. Ele está presente, despertando o amor e o cuidado por tudo o que existe. Ele está em todas as coisas. Ter fé é enxergar a sua presença em todas as coisas. A fé concede a visão de Deus e nos faz enxergar a sua presença amorosa, discreta, humilde e forte. Deus está na pequenez de tudo o que se manifesta para o bem, para a paz e para a harmonia.

        Jesus afirmou que Deus muito ama o mundo e as pessoas. Não pode o seguidor de Jesus fazer o oposto: fugir do mundo e não amar as pessoas. O seguimento a Jesus acontece neste mundo, pois foi para isto que ele foi criado: para acolher todas as pessoas, a fim de que possam viver a plena vida. Aos olhos de Deus, o mundo é o palco da vida e da verdadeira felicidade. Tudo foi pensado e criado visando vida plena para todos. Quem segue Jesus sabe disso e precisa experimentar a verdadeira vida, que consiste em viver em sintonia com o Amor presente em toda a criação. É o Amor que gera vida plena. O homem não consegue criar nada que consiga assegurar vida plena e eterna.

        Jesus também fala que o homem prefere as trevas à luz, porque as ações humanas são más. Em todas as épocas da história humana sobre a terra encontramos a verdade empírica desta afirmação de Jesus. Façamos um breve recorte. Olhemos para o Brasil atual: os poderosos preferem as trevas da ganância, da sede de dinheiro e poder, a luta por este poder, a corrupção, o escândalo e a confusão.

Todas estas coisas são obras das trevas, pois geram opressão e morte. Diuturnamente, escutamos nos jornais o retrato das pessoas mergulhadas nas trevas do erro e da ignorância. Quando diante da luz da verdade, todas são desmascaradas e expostas ao ridículo. Apesar das denúncias, da pouca punição (a “justiça” protege os poderosos e pune os pobres!), os filhos das trevas permanecem fieis aos seus propósitos espúrios. Enquanto um é desmascarado, há outros dez tramando e executando seus planos de pura maldade e destruição do bem comum. Os filhos das trevas odeiam a luz, pois sabem que esta expõe toda podridão que constitui o seu viver.

Por fim, diz Jesus em Jo 3, 21: “...quem age conforme a verdade, aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus”. O mundo precisa de pessoas autênticas, que trilhem o caminho da verdade sem jamais abandoná-lo. Somente permanece em Deus que age conforme a verdade. Em Deus não há mentira nem há, na relação com Ele, espaço para a mentira. Na relação com Deus conhecemos quem realmente somos. Ele nos revela a verdade de cada um de nós. Aceitando e vivendo na verdade revelada por Deus, as pessoas se tornam autênticas, tornam-se pessoas de Deus porque estão em Deus. Quem não age conforme a verdade está distante de Deus, pois Deus é luz, e todo aquele que dele se aproxima, permanece na luz, permanece na verdade.

Para gozar da liberdade dos filhos e filhas de Deus é imprescindível este agir conforme a verdade, porque é a verdade que liberta, integralmente. A vontade de Deus é que sejamos livres. É na liberdade que a sua luz e seu amor se manifestam. É na liberdade que conhecemos a Deus. Não há outro caminho. Neste mundo, a partir do que somos e fazemos, somos chamados à luz da verdade que conduz à liberdade. No amor encontramos esta luz e esta verdade.

Quem não ama e quem não age conforme a verdade, é escravo de si mesmo e permanece nas trevas do erro e da ignorância. Para darmos frutos de justiça e santidade precisamos trilhar este caminho, estreito e pedregoso, que permanece sempre aberto. Deus nos chama para nos colocarmos neste caminho. É nele que podemos nos converter e, assim, encontrarmos alento e salvação para a nossa vida. É neste caminho que nossa vida se torna feliz e eterna. Ousemos trilhá-lo.
Tiago de França

quinta-feira, 8 de março de 2018

Reflexões por ocasião do Dia Internacional da Mulher 2018

Amigos/as,

Hoje é dia de homenagear as mulheres, mas sem hipocrisia. Não temos muito o que comemorar nesta data. O Brasil é um péssimo exemplo para o mundo, quando o assunto é o respeito às mulheres. 

Compartilho com vocês uma reflexão breve sobre este Dia Internacional da Mulher. Mulheres, recebam meu fraterno abraço! Que vocês possam continuar firmes e fortes na luta por igualdade e libertação! Meus parabéns!

Tiago de França

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

MENSAGEM QUARESMAL 2018

Quaresma: Tempo de silêncio, oração, escuta da Palavra e conversão

“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1, 15)

        Ninguém se converte sem escutar a voz de Deus. Esta voz está presente no testemunho das Sagradas Escrituras, no clamor dos que sofrem, e na bela manifestação de toda a criação. A escuta leva à obediência na fé. O Espírito sonda todas as coisas e torna a pessoa capaz desta obediência. Sem a presença deste Espírito, ninguém escuta nem obedece a Deus. Portanto, converter-se é, em primeiro lugar, escutar e obedecer. Daí tudo o mais acontece, de acordo com a graça de Deus.

        O que Deus tem nos falado hoje, nesta hora tão difícil da história mundial e brasileira? O que o Espírito está falando às Igrejas? Como tem sido a vivência de nossa fé, dentro de nossas Igrejas? Qual a nossa postura diante dos ataques à dignidade das pessoas, especialmente das que são excluídas? A partir de quais contextos Deus está falando ao nosso coração? Onde estão nossas Igrejas quando os poderosos de nosso País perseguem, maltratam e ceifam os direitos e a vida dos mais pobres? Como temos reagido quando diante das injustiças praticadas perante nossos olhos?...

        Silenciar o coração e a mente, e colocar-se diante de Deus em oração, para meditar sobre estas questões são atitudes fundamentais no processo pessoal e comunitário de conversão. O tempo passa e não podemos adiar a nossa conversão. Precisamos, definitivamente, aceitar Jesus: Aceitá-lo com a boca, com a mente, com o coração, com toda a nossa inteligência e forças. Quem, verdadeiramente, aceita Jesus se torna uma pessoa nova, ressuscita para uma vida nova. Somente Jesus é capaz de transformar a nossa vida. Sem ele, estamos perdidos.

        O mundo está profundamente doente porque a humanidade está enferma. Há muito egoísmo, ambições, interesses em conflito permanente, desamor. Há muito ódio, indiferença, competição, perseguição e dispersão. Há uma multidão infinita de gente perturbada e desorientada, cega e aprisionada, entregue à própria sorte. Simultaneamente, no meio de toda essa gente, há inúmeras pessoas que vivem buscando, sedentas de sentido, desejosas de liberdade e alegria. Há muita gente fugindo do vazio, abismo perigoso, que mata, impiedosamente.

        A pessoa convertida é aquela que se colocou no caminho de Jesus e nele está perseverando. Não há outra forma de conhecer Jesus senão a partir do seu caminho; caminho estreito e pedregoso. As pessoas que trilham este caminho, pura aventura de amor, tornam-se amorosas. Quem é amoroso não tem medo, pois entrou no reino da liberdade. Somente assim se conhece Jesus, permanecendo com ele por toda a eternidade. Quem permanece com Jesus, vive unido ao próximo, no amor e na liberdade. Converter-se é permanecer em Jesus na comunhão com os outros.

        Quem trilha a estrada da conversão vive em espírito de vigilância e atenção. Ser vigilante significa estar atento a si mesmo, às sombras interiores e à ação do Espírito sobre elas. Todo aquele que confia na ação deste Espírito, torna-se vaso disponível em suas mãos suaves e transformadoras. É o Espírito que conduz ao deserto, lugar das provações, da escuta e da purificação. Trata-se de um processo lento, purificador, santificador e, consequentemente, libertador. Não existe a possibilidade de sermos verdadeiramente humanos sem nos submetermos ao deserto das provações, que é o nosso próprio interior.

        Para a construção de uma humanidade nova é necessário que surja o homem novo, firme e decidido a entrar no reino da liberdade. Este homem novo nasce da fé, da esperança e do amor; nasce da ação silenciosa e amorosa da Trindade Santa, que vem e faz morada. Fora da Trindade não há renovação espiritual possível. Desligado de Deus, o homem é um ser errante no meio do mundo. Contando somente com a própria inteligência, negligenciando a dimensão espiritual inerente à sua condição, o homem gira em torno de si, sendo a causa da sua própria ruína. É o que assistimos no mundo atual. Dotado de inteligência e contando com muita tecnologia e poder aquisitivo, o homem anda para trás, mergulhado num movimento global de destruição de si mesmo e do mundo em que vive.

        Torna-se urgente recuperar o sentido da humanização das pessoas. O mais importante é o homem sadio e feliz. Não há felicidade nem progresso em meio a tanta patologia e morte. É mentirosa toda promessa de realização e felicidade exclusivista. Ninguém é feliz excluindo os outros. Tendo como alicerce o sofrimento do outro, o que chamam de felicidade não passa de exploração, artifício de Satanás, pai da mentira e da confusão. A felicidade da pessoa convertida consiste em saber-se amada por Deus. Basta o amor para ser feliz. Tudo o mais é acessório e, muitas vezes, supérfluo.

        Aproveitemos o Tempo da Quaresma para meditar estas coisas. Não podemos aceitar que, ano após ano, continuemos estagnados em nosso processo de conversão. Nosso mundo precisa, urgentemente, de autênticos seres humanos: Pessoas que saibam conviver, no amor. A fé cristã nos ensina que é possível sermos plenamente humanos, e a Trindade Santa está aí, querendo fazer morada em nós, querendo nos humanizar. E uma vez plenamente humanos, seremos, definitivamente, divinos. Esta é a vontade de Deus. É isto que Ele tem falado ao nosso coração.

Feliz itinerário quaresmal, até a celebração da Páscoa do Senhor!

Fraternalmente, no Espírito do Senhor,

Tiago de França 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dom Helder Câmara: profeta do Reino de Deus


“Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver” (Dom Helder Câmara).

        Sobre Dom Helder Câmara se pode dizer muitas coisas. Nascido em Fortaleza – CE, em 7 de fevereiro de 1909, era um homem de qualidades extraordinárias. Para fazer a memória do seu nascimento, quero recordar de uma de suas qualidades: A sua intimidade com Deus no silêncio e na oração.

        Como Jesus, Dom Helder gostava de silenciar. Suas madrugadas eram fecundas. Enquanto as pessoas dormiam, estava ele lá, conversando com a Trindade. No silêncio das madrugadas, rezava, meditava, escrevia, pensava, escutava a Trindade falar. A profundidade de seus pensamentos tinha origem neste silêncio orante.

        Com Dom Helder se aprende que somente silenciando é possível escutar Deus. O mundo é tão barulhento. Há tanta perturbação e dispersão. As pessoas andam tão agitadas e estressadas. Há muitos estímulos que nos chamam para fora de nós mesmos. O silêncio aponta para a direção oposta. No silêncio a gente se volta para dentro, para o lugar onde a Trindade nos espera: O mais profundo do nosso ser. Dom Helder sabia disso.

        Para ser profeta é preciso silenciar, para, assim, tornar-se íntimo de Deus. O dom da profecia se manifesta por meio da palavra e do gesto. O profeta fala em nome de Deus, fala a palavra que Deus inspira falar. Para o profeta não cair na tentação de anunciar suas próprias ideias, é chamado a subir a montanha da contemplação para escutar o que Deus tem para falar, para conhecer a palavra libertadora da Trindade. Dom Helder sabia disso.

        Estar na presença do profeta é estar na presença de Deus, porque o profeta encarna a palavra de Deus. Suas palavras e gestos são divinos, revelam quem é Deus. E é assim porque na montanha da contemplação, onde reina o silêncio e se exercita a escuta amorosa da Trindade, o profeta é revestido pela autoridade da palavra de Deus, e em nome de Deus age e fala. Quem esteve pessoalmente com Dom Helder percebia, imediatamente, que da sua pessoa irradiava força, energia, alegria, paz, mansidão, confiança, luz, verdade, liberdade e muito, muito amor.

        O profeta Dom Helder rezava no silêncio. Não há profeta sem uma vida intensa de oração. Como enviado de Deus, todo profeta precisa permanecer em Deus. A oração é como que o sustentáculo, o sangue que corre nas veias do mensageiro de Deus. A oração gera inúmeros efeitos, dentre os quais podemos citar a paz interior, que é sinônimo de imperturbabilidade; sede de justiça, que gera inquietação, mas não a perturbação oriunda do barulho do mundo; o permanecer acordado, pois todo profeta é alguém desperto; a mansidão no falar e no agir; uma profunda confiança na palavra de Jesus; a liberdade de espírito, pois todo profeta só obedece à Trindade.

        Assim era Dom Helder: Livre como Jesus, anunciava a palavra de Deus. Na Igreja, foi um pastor destemido em tempos sombrios de ditadura militar. Como Jesus, alimentou e despertou a esperança dos pobres. Foi um servidor fiel, humilde de coração. Para quem acredita noutro mundo possível, ele aparece como discípulo missionário, que inspira e aponta para Jesus. Dom Helder era apaixonado por Jesus.

        Desde a minha adolescência, quando iniciei o contato com seus escritos e seu testemunho profético, o tenho como inspiração. Dom Helder me ajuda a compreender melhor Jesus e me tornar íntimo da Trindade. Com ele, aprendi que quando nos abrimos à ação do Espírito de Jesus, somos tomados pela ternura da Trindade. Assim, peço sempre que este mesmo Deus me conserve neste propósito: No desejo de permanecer no caminho de Jesus, segundo seu Espírito, sendo livre, leve e solto, com os olhos fixos no Amor. Nada mais desejo, pois, assim, sou feliz.

Dom Helder Câmara, intercedei por nós, para que sejamos fieis a Jesus!

Tiago de França

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O serviço ao próximo e a cura do egoísmo

“E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los” (Mc 1, 31).

        O mundo atual é dominado pelo sistema capitalista que, dentre outras regras, tem uma que se sobressai: Toda pessoa, para ter sucesso na vida, não deve pensar nos outros nem agir em função do bem do outro. Na sua acepção mais selvagem, o capitalismo conduz ao individualismo. Cada pessoa deve pensar em si, esforçar-se, ter uma meta e trilhar o caminho do sucesso. Pensar e ocupar-se com o outro são atitudes desnecessárias, e até atrapalham na caminhada rumo à vitória. Esta é a explicação que nos faz enxergar e compreender o individualismo que domina o mundo.

        Pessoas dominadas pelas ideologias capitalistas são altamente competitivas e individualistas, pois enxergam a vida do ponto de vista da competição. Existe todo um conjunto de discursos, terapias, fórmulas e uma forte mentalidade que ensina que, para ser felizes, as pessoas precisam derrotar as outras. Os outros são vistos como adversários na competição, e a derrota deles é motivo de alegria. Numa competição, só há vencedores porque há perdedores. A competição se transformou na regra do “bem-viver”. Quem não está apto a competir perde o direito de viver, e se conseguir se manter vivo, se mantém na sobrevida. O que chamam de vida feliz está reservada para os que estão aptos a competir.

        A sociedade capitalista é assim dividida: de um lado, temos os que conseguem vencer na vida, e de outro lado, temos os derrotados, os não aptos, os incapazes. O discurso da meritocracia foi criado para legitimar esta escandalosa e desumana situação. Os que pregam e acreditam na meritocracia dizem que os perdedores são aqueles que não se esforçaram, suficientemente, e por causa dessa falta de esforço devem aceitar a própria derrota e se subordinar aos vencedores. Nesta linha de pensamento, os pobres são pobres porque querem, pois, se houver esforço e dedicação, deixam de ser pobres. Neste sentido, os pobres devem trabalhar para os ricos, se quiserem sobreviver.

        Isso explica a perpetuação da mentalidade escravocrata que reina no mundo. De modo geral, as pessoas não enxergam a exploração. A humilhação, a marginalização e/ou exclusão das pessoas são fenômenos naturalizados. As ideologias de dominação são tão violentas que as pessoas não veem problema algum nas desigualdades geradoras de exclusão social. Os que dominam se utilizam de todos os meios para manter a grande massa de pessoas anestesiada, ou seja, há um forte movimento ideológico que tem como finalidade manter as pessoas cegas e passivas diante da própria situação de escravidão. A grande mídia e o mercado são as ferramentas utilizadas pelos que dominam para alcançar tal finalidade.

        Com muita facilidade, as pessoas aprendem a ser egoístas: vivem em função de si mesmas, buscando, sempre e em primeiro lugar, os próprios interesses. Os egoístas se relacionam de forma doentia, porque se utilizam dos outros para alcançarem os próprios objetivos. Os outros não passam de meras oportunidades de crescimento. Não se contentando com pouca coisa, os egoístas se transformam em pessoas extremamente ambiciosas, sedentas de sucesso, brilho e ostentação. Cultiva-se uma vida superficial e vazia, profundamente marcada pela busca de uma felicidade que não é felicidade. Para os capitalistas egoístas, ser feliz é ter bens materiais, dinheiro, poder, títulos, contatos e boa aparência. As ideologias capitalistas afirmam que não há felicidade fora dessas coisas.

        Na contramão de tudo isso, há a proposta de Jesus: Vida e liberdade para todos. Esta proposta, denominada Reino de Deus, desmascara e denuncia as mentiras que constituem o projeto de felicidade do sistema capitalista selvagem. A proposta de Jesus é inclusiva, fraterna e libertadora: Inclusiva porque não deixa ninguém de fora. No Reino de Deus há lugar para todos. Fraterna porque todos são considerados irmãos. As pessoas não se enxergam como inimigas. O outro não é alguém que precisa ser eliminado. Libertadora porque o egoísmo dar lugar à alteridade. Na proposta de Jesus, as pessoas pensam nos outros e se colocam a seu serviço, na liberdade, no amor e na gratuidade.

        No mundo capitalista, as pessoas não conseguem amar. De modo geral, os estilos de vida excluem o amor. O que chamam de amor, na verdade é apego. Não há amor, mas aparência de amor. Tudo é marcado pela satisfação dos desejos e interesses. O amor é outra realidade. Ele não encontra espaço na vida de quem vive procurando satisfazer desejos a todo custo. O amor exige doação, gratuidade, liberdade, alteridade. No mundo capitalista, há o sacrifício constante da vida humana. As pessoas são desfiguradas, transformam-se e são transformadas em objetos. Somente o amor é capaz de libertá-las desta desumanização, mas poucas pessoas acolhem e experimentam o amor.

        O versículo bíblico que acompanha estas provocações fala de Jesus curando a sogra de seu discípulo Pedro. Para curá-la, ele se aproxima. Na lógica do Reino de Deus, esta aproximação é como que uma regra de vida. Não conhecemos as pessoas à distância. Não há cura do egoísmo sem aproximação. É necessário aproximar-se dos outros. Sem proximidade não há fraternidade. Jesus ensina a vivermos misturados. Neste sentido, quem quiser segui-lo deve renunciar ao farisaísmo, marcado pelo distanciamento. Ele também ensina a estender a mão para os outros. Não há amor sem mãos estendidas. Egoístas não conseguem estender as mãos para servir. Quem ama vive para servir.

        É preciso, por fim, ajudar a levantar quem está caído. Quem são os caídos que estão ao nosso redor? Se estamos caídos, quem poderá nos ajudar a levantar? A solidariedade é atitude de quem ama. A pessoa que ama ajuda a levantar os outros. Nosso testemunho amoroso ajuda a erguer quem está prostrado no egoísmo. Quando nos colocamos a serviço dos outros, a vida se torna leve e feliz. A cura do egoísmo está no serviço ao próximo. Não há ocupação mais gratificante e libertadora que ser útil ao próximo. O capitalismo gera uma sociedade repleta de pessoas inúteis. O egoísmo nos transforma em pessoas inúteis, em pedras de tropeço. Para que haja verdadeiro desenvolvimento, deve existir pessoas disponíveis, portanto, de mãos estendidas, de mente e coração abertos para compreender e servir. Nisto consiste a verdadeira felicidade e o verdadeiro progresso do mundo.

Tiago de França

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Política e mídia no Brasil


         
       Ontem, 1º de fevereiro, quando retornei para casa, após uma reunião de professores e direção do colégio onde trabalho, devido à chuva, tive que pegar um táxi para chegar em casa sem molhar meus papeis. Durante o percurso, o taxista, moço extrovertido, começou a falar do que andava escutando no rádio e na TV. A sua fala era a de quem acreditava, piamente, em tudo o que ouvia, sem o mínimo discernimento. Aí está o problema da maioria dos brasileiros. Escuta e assiste aos jornais sem desconfiar de nada. O que os noticiários falam parece dogmático.

        Não poderia, na qualidade de professor, deixar o taxista ir embora sem inquietá-lo. Particularmente, gosto de incomodar as pessoas com perguntas que elas não costumam fazer. Quando paguei o valor cobrado, disse ao jovem taxista: “Você não desconfia de nada que escuta? Já parou para pensar em tudo aquilo que você escuta no rádio e na TV? No seu lugar, cuidaria em questionar os noticiários. As coisas não são tão óbvias assim. Pense nisso!” Ele riu, agradeceu, e foi embora.

        Não é segredo para ninguém que a mídia controla a mentalidade do povo. Este não foi habituado a ler, analisar, ponderar, interpretar, discernir, para, assim, ter uma visão crítica da realidade. De modo geral, as pessoas não pensam, mas querem tudo já pensado por outros. Sabendo disso, a mídia entrega a informação pronta, de acordo com as suas ideologias e interesses. Por isso, não é exagero dizer que a mídia é como que o cérebro da maioria do povo. Prova disso é a forma como o povo enxerga a realidade. Basta ler, escutar e assistir aos jornais para saber o que se passa na cabeça das pessoas. Em outras palavras, o que elas tem na cabeça é o que os jornais falam, diuturnamente.

        Este é o motivo de os políticos terem medo da mídia, pois sabem do seu poder. Assim, de forma escancarada, os políticos corruptos procuram, imediatamente, ter estreitos vínculos com os donos dos meios de comunicação. Estes vínculos são marcados pela cortesia e pela liberação de muito dinheiro público para propaganda que enaltecem as ações interesseiras dos políticos. Estes, de modo geral, não pensam no bem comum, mas usam do poder da mídia para propagar mentiras. As propagandas, pagas com dinheiro do povo, são mentiras bem elaboradas que tem a finalidade de anestesiar o poder de reação do povo. Este paga para ser enganado.

        A prova de que não estamos falando de coisas abstratas é o que ocorre com o atual governo. Cresce cada vez mais o orçamento milionário para a propaganda de mentiras que tem por objetivo convencer as pessoas de que os projetos do governo visam o bem comum. É o que está acontecendo com a proposta da “reforma” da Previdência. Para alcançar esta meta, o presidente da República foi às principais emissoras de TV, dentre elas a Globo e o SBT, para tentar enganar o povo. Não há o menor pudor. Tudo é feito de forma descarada. Parte-se do pressuposto de que todos os brasileiros são ignorantes e domesticáveis na forma de pensar, o que não é verdade.

        2018 entra para a história como um dos piores anos eleitorais após a redemocratização do Brasil, ocorrida após o golpe militar de 1964 a 1985. Além das figuras políticas com históricos reconhecidamente abomináveis, o Judiciário resolveu ingressar, explicitamente, na arena política partidária. Usando da interpretação esquizofrênica da lei, operadores do direito fazem uma seleção tendenciosa dos candidatos à presidência da República. Unido ao Judiciário, a mídia também faz o seu trabalho sujo: O Judiciário condena, e a mídia demoniza; do contrário, quando absolve ou deixa os crimes prescreverem, a mídia canoniza. Desse modo, temos no Brasil os poderes executivo, que domina o legislativo, que é dominado pelo judiciário, estando este unido à mídia neoliberal hegemônica, encabeçada pelas organizações Globo. Como diz o povo, no senso comum: “Está tudo dominado!”

        O cenário é considerado tenebroso para quem enxerga, mas para o povo, que sequer sabe o que está acontecendo, tudo está dentro da normalidade. Diariamente, a cúpula do judiciário repete o mesmo discurso, veiculado pela mídia: “As instituições estão funcionando. Estamos dentro da normalidade constitucional. Ninguém está acima da lei. A lei é igual para todos!” Em nome da lei absurdos acontecem. Em matéria de direito, já não se confia na Constituição, pois, em inúmeros casos e cada vez mais, o que vincula é o que os julgadores entendem sobre ela. A insegurança jurídica é uma ameaça constante.

A história é mestra em ensinar, e mostra que, cedo ou tarde, os homens maus tropeçam na própria maldade. Vez e outra os empobrecidos acordam e lutam, e sempre encontram períodos de tempo para respirar e recarregar as energias. Nem tudo está perdido. Há inúmeras pessoas, mulheres e homens de fé e coragem, que estão de mangas arregaçadas, combatendo aqueles que estão a serviço dos projetos opressores. Os poderosos não terão a última palavra. Esta é a nossa esperança. Nas próximas reflexões, a gente vai tentando jogar luz sobre as trevas, para que estas se dissipem e a visão da realidade chegue a todos. Devemos fazer a nossa parte, mesmo que pareça ser uma gota d’água no imenso oceano. Vale a pena.

Tiago de França

sábado, 27 de janeiro de 2018

A palavra libertadora de Jesus


“O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” (Mc 1, 27)

        Conta o evangelista Marcos que Jesus ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei. Qual o segredo da autoridade de Jesus? Que tipo de autoridade tinha ele? Como os mestres da lei ensinavam? Inicialmente, é preciso reconhecer que Jesus era um homem livre, enquanto que os mestres da lei eram escravos da lei. Os mestres da lei se apegavam à lei, e viviam em função dela. Eles pensavam que a lei tinha poder para salvar. Jesus, com seus gestos e palavras, ensinou que não é a lei que salva, mas o amor.

        Além de serem escravos da lei, havia também uma grave falta de coerência entre a interpretação que se fazia da lei e a vida de quem a interpretava. Em outras palavras, os mestres da lei não eram coerentes com aquilo que ensinavam. Eram rigorosos na arte de ensinar, jogando pesados fardos nas costas dos outros, mas eles mesmos não se importavam em obedecer à lei. Jesus denunciou esta hipocrisia religiosa, e foi perseguido por causa disso. Até hoje é assim no seio da religião cristã: inúmeros líderes religiosos são rigorosos, conduzindo o povo no ensinamento da lei, mas levam uma vida escandalosa.

        O evangelista Marcos não apresenta Jesus com longos discursos, nem mostra Jesus trazendo um conjunto de novas doutrinas para renovar o conjunto das leis e costumes judaicos. A novidade de Jesus se encontra na mensagem do Reino de Deus, que é vida e liberdade para todos. Vivendo livremente, Jesus ensinou como se vive a verdadeira fé em Deus. Vivendo humilde e despojadamente, ensinou ao povo que o chamado divino à liberdade é universal e constitui o núcleo da fé no Deus vivo e verdadeiro. Escutando Jesus, o povo logo enxergou a sua liberdade, serenidade, leveza, coerência e verdade.

        Esse modo de ser e de viver de Jesus muito nos questiona. Ele denuncia a superficialidade e o vazio existencial de nossos dias. Denuncia a vida de aparência de milhões de cristãos, que ao invés de cultivar a fé em Deus, perdem tempo com futilidades e preocupações banais. Também denuncia a incoerência dos líderes religiosos, que, ao invés de conduzir o povo à verdadeira experiência de encontro com Deus, exploram as pessoas, iludindo-as com falsas promessas e falsos milagres.

A prática religiosa de nossas Igrejas precisa ser revista, para que Jesus ocupe o seu centro, o seu devido lugar. A hipocrisia religiosa continua reinando. Muitas aberrações são praticadas em nome de Jesus. Mas o Jesus que legitima essas aberrações não é o Cristo Jesus dos evangelhos.

        A palavra de Jesus nos liberta de nosso comodismo, da alienação e da falta de fé. Mais do que em outras épocas da história, precisamos hoje contemplar Jesus e meditar a sua palavra. Há em nós muitos espíritos maus: os espíritos da cegueira, da vaidade, do egoísmo, da indiferença, do orgulho, e de tudo aquilo que nos impede de sermos verdadeiramente autênticos e livres. A autenticidade de Jesus estava na sua coerência de vida. Nossa sociedade, famílias e instituições precisam de pessoas autênticas como Jesus. É urgente que os cristãos se libertem da vida aparente e, portanto, mentirosa. No caminho de Jesus, a mentira não tem lugar.

        O verdadeiro cristão não foge daquilo que realmente é. Cada um é chamado a conhecer a verdade de si mesmo. Sem a aceitação desta verdade não é possível ser feliz, não é possível ter fé, não é possível ser cristão. A prática da oração e do encontro alegre e generoso com os outros são caminhos de autoconhecimento e seguimento de Jesus. São oportunidades para a construção constante do genuíno ser cristão. Tornar-se íntimo de Jesus para que nele possamos encontrar a nossa verdadeira identidade. Ouvir e meditar a sua palavra, para ser como ele: eis o chamado que nos é feito, insistentemente.

Quem permanece com Jesus está em paz, experimenta a paz inquieta, aquela que faz conhecer e viver a justiça do Reino de Deus. Nada neste mundo é tão maravilhoso que permanecer com Jesus. Para viver com ele é preciso confiar e entregar-se, porque o seu amor por nós é infinito e forte. Ele nos quer bem. Não há beleza maior que viver do amor de Jesus. É algo extraordinário, que nenhuma teologia é capaz de descrever. Vale a pena experimentar. O Pai com o Filho e no Espírito, na intimidade amorosa, é o Deus que nos liberta dos espíritos maus e opressores. Experimentemos esta libertação. Ela é puro amor, é nossa salvação.
Tiago de França