quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dom Helder Câmara: profeta do Reino de Deus


“Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver” (Dom Helder Câmara).

        Sobre Dom Helder Câmara se pode dizer muitas coisas. Nascido em Fortaleza – CE, em 7 de fevereiro de 1909, era um homem de qualidades extraordinárias. Para fazer a memória do seu nascimento, quero recordar de uma de suas qualidades: A sua intimidade com Deus no silêncio e na oração.

        Como Jesus, Dom Helder gostava de silenciar. Suas madrugadas eram fecundas. Enquanto as pessoas dormiam, estava ele lá, conversando com a Trindade. No silêncio das madrugadas, rezava, meditava, escrevia, pensava, escutava a Trindade falar. A profundidade de seus pensamentos tinha origem neste silêncio orante.

        Com Dom Helder se aprende que somente silenciando é possível escutar Deus. O mundo é tão barulhento. Há tanta perturbação e dispersão. As pessoas andam tão agitadas e estressadas. Há muitos estímulos que nos chamam para fora de nós mesmos. O silêncio aponta para a direção oposta. No silêncio a gente se volta para dentro, para o lugar onde a Trindade nos espera: O mais profundo do nosso ser. Dom Helder sabia disso.

        Para ser profeta é preciso silenciar, para, assim, tornar-se íntimo de Deus. O dom da profecia se manifesta por meio da palavra e do gesto. O profeta fala em nome de Deus, fala a palavra que Deus inspira falar. Para o profeta não cair na tentação de anunciar suas próprias ideias, é chamado a subir a montanha da contemplação para escutar o que Deus tem para falar, para conhecer a palavra libertadora da Trindade. Dom Helder sabia disso.

        Estar na presença do profeta é estar na presença de Deus, porque o profeta encarna a palavra de Deus. Suas palavras e gestos são divinos, revelam quem é Deus. E é assim porque na montanha da contemplação, onde reina o silêncio e se exercita a escuta amorosa da Trindade, o profeta é revestido pela autoridade da palavra de Deus, e em nome de Deus age e fala. Quem esteve pessoalmente com Dom Helder percebia, imediatamente, que da sua pessoa irradiava força, energia, alegria, paz, mansidão, confiança, luz, verdade, liberdade e muito, muito amor.

        O profeta Dom Helder rezava no silêncio. Não há profeta sem uma vida intensa de oração. Como enviado de Deus, todo profeta precisa permanecer em Deus. A oração é como que o sustentáculo, o sangue que corre nas veias do mensageiro de Deus. A oração gera inúmeros efeitos, dentre os quais podemos citar a paz interior, que é sinônimo de imperturbabilidade; sede de justiça, que gera inquietação, mas não a perturbação oriunda do barulho do mundo; o permanecer acordado, pois todo profeta é alguém desperto; a mansidão no falar e no agir; uma profunda confiança na palavra de Jesus; a liberdade de espírito, pois todo profeta só obedece à Trindade.

        Assim era Dom Helder: Livre como Jesus, anunciava a palavra de Deus. Na Igreja, foi um pastor destemido em tempos sombrios de ditadura militar. Como Jesus, alimentou e despertou a esperança dos pobres. Foi um servidor fiel, humilde de coração. Para quem acredita noutro mundo possível, ele aparece como discípulo missionário, que inspira e aponta para Jesus. Dom Helder era apaixonado por Jesus.

        Desde a minha adolescência, quando iniciei o contato com seus escritos e seu testemunho profético, o tenho como inspiração. Dom Helder me ajuda a compreender melhor Jesus e me tornar íntimo da Trindade. Com ele, aprendi que quando nos abrimos à ação do Espírito de Jesus, somos tomados pela ternura da Trindade. Assim, peço sempre que este mesmo Deus me conserve neste propósito: No desejo de permanecer no caminho de Jesus, segundo seu Espírito, sendo livre, leve e solto, com os olhos fixos no Amor. Nada mais desejo, pois, assim, sou feliz.

Dom Helder Câmara, intercedei por nós, para que sejamos fieis a Jesus!

Tiago de França

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O serviço ao próximo e a cura do egoísmo

“E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los” (Mc 1, 31).

        O mundo atual é dominado pelo sistema capitalista que, dentre outras regras, tem uma que se sobressai: Toda pessoa, para ter sucesso na vida, não deve pensar nos outros nem agir em função do bem do outro. Na sua acepção mais selvagem, o capitalismo conduz ao individualismo. Cada pessoa deve pensar em si, esforçar-se, ter uma meta e trilhar o caminho do sucesso. Pensar e ocupar-se com o outro são atitudes desnecessárias, e até atrapalham na caminhada rumo à vitória. Esta é a explicação que nos faz enxergar e compreender o individualismo que domina o mundo.

        Pessoas dominadas pelas ideologias capitalistas são altamente competitivas e individualistas, pois enxergam a vida do ponto de vista da competição. Existe todo um conjunto de discursos, terapias, fórmulas e uma forte mentalidade que ensina que, para ser felizes, as pessoas precisam derrotar as outras. Os outros são vistos como adversários na competição, e a derrota deles é motivo de alegria. Numa competição, só há vencedores porque há perdedores. A competição se transformou na regra do “bem-viver”. Quem não está apto a competir perde o direito de viver, e se conseguir se manter vivo, se mantém na sobrevida. O que chamam de vida feliz está reservada para os que estão aptos a competir.

        A sociedade capitalista é assim dividida: de um lado, temos os que conseguem vencer na vida, e de outro lado, temos os derrotados, os não aptos, os incapazes. O discurso da meritocracia foi criado para legitimar esta escandalosa e desumana situação. Os que pregam e acreditam na meritocracia dizem que os perdedores são aqueles que não se esforçaram, suficientemente, e por causa dessa falta de esforço devem aceitar a própria derrota e se subordinar aos vencedores. Nesta linha de pensamento, os pobres são pobres porque querem, pois, se houver esforço e dedicação, deixam de ser pobres. Neste sentido, os pobres devem trabalhar para os ricos, se quiserem sobreviver.

        Isso explica a perpetuação da mentalidade escravocrata que reina no mundo. De modo geral, as pessoas não enxergam a exploração. A humilhação, a marginalização e/ou exclusão das pessoas são fenômenos naturalizados. As ideologias de dominação são tão violentas que as pessoas não veem problema algum nas desigualdades geradoras de exclusão social. Os que dominam se utilizam de todos os meios para manter a grande massa de pessoas anestesiada, ou seja, há um forte movimento ideológico que tem como finalidade manter as pessoas cegas e passivas diante da própria situação de escravidão. A grande mídia e o mercado são as ferramentas utilizadas pelos que dominam para alcançar tal finalidade.

        Com muita facilidade, as pessoas aprendem a ser egoístas: vivem em função de si mesmas, buscando, sempre e em primeiro lugar, os próprios interesses. Os egoístas se relacionam de forma doentia, porque se utilizam dos outros para alcançarem os próprios objetivos. Os outros não passam de meras oportunidades de crescimento. Não se contentando com pouca coisa, os egoístas se transformam em pessoas extremamente ambiciosas, sedentas de sucesso, brilho e ostentação. Cultiva-se uma vida superficial e vazia, profundamente marcada pela busca de uma felicidade que não é felicidade. Para os capitalistas egoístas, ser feliz é ter bens materiais, dinheiro, poder, títulos, contatos e boa aparência. As ideologias capitalistas afirmam que não há felicidade fora dessas coisas.

        Na contramão de tudo isso, há a proposta de Jesus: Vida e liberdade para todos. Esta proposta, denominada Reino de Deus, desmascara e denuncia as mentiras que constituem o projeto de felicidade do sistema capitalista selvagem. A proposta de Jesus é inclusiva, fraterna e libertadora: Inclusiva porque não deixa ninguém de fora. No Reino de Deus há lugar para todos. Fraterna porque todos são considerados irmãos. As pessoas não se enxergam como inimigas. O outro não é alguém que precisa ser eliminado. Libertadora porque o egoísmo dar lugar à alteridade. Na proposta de Jesus, as pessoas pensam nos outros e se colocam a seu serviço, na liberdade, no amor e na gratuidade.

        No mundo capitalista, as pessoas não conseguem amar. De modo geral, os estilos de vida excluem o amor. O que chamam de amor, na verdade é apego. Não há amor, mas aparência de amor. Tudo é marcado pela satisfação dos desejos e interesses. O amor é outra realidade. Ele não encontra espaço na vida de quem vive procurando satisfazer desejos a todo custo. O amor exige doação, gratuidade, liberdade, alteridade. No mundo capitalista, há o sacrifício constante da vida humana. As pessoas são desfiguradas, transformam-se e são transformadas em objetos. Somente o amor é capaz de libertá-las desta desumanização, mas poucas pessoas acolhem e experimentam o amor.

        O versículo bíblico que acompanha estas provocações fala de Jesus curando a sogra de seu discípulo Pedro. Para curá-la, ele se aproxima. Na lógica do Reino de Deus, esta aproximação é como que uma regra de vida. Não conhecemos as pessoas à distância. Não há cura do egoísmo sem aproximação. É necessário aproximar-se dos outros. Sem proximidade não há fraternidade. Jesus ensina a vivermos misturados. Neste sentido, quem quiser segui-lo deve renunciar ao farisaísmo, marcado pelo distanciamento. Ele também ensina a estender a mão para os outros. Não há amor sem mãos estendidas. Egoístas não conseguem estender as mãos para servir. Quem ama vive para servir.

        É preciso, por fim, ajudar a levantar quem está caído. Quem são os caídos que estão ao nosso redor? Se estamos caídos, quem poderá nos ajudar a levantar? A solidariedade é atitude de quem ama. A pessoa que ama ajuda a levantar os outros. Nosso testemunho amoroso ajuda a erguer quem está prostrado no egoísmo. Quando nos colocamos a serviço dos outros, a vida se torna leve e feliz. A cura do egoísmo está no serviço ao próximo. Não há ocupação mais gratificante e libertadora que ser útil ao próximo. O capitalismo gera uma sociedade repleta de pessoas inúteis. O egoísmo nos transforma em pessoas inúteis, em pedras de tropeço. Para que haja verdadeiro desenvolvimento, deve existir pessoas disponíveis, portanto, de mãos estendidas, de mente e coração abertos para compreender e servir. Nisto consiste a verdadeira felicidade e o verdadeiro progresso do mundo.

Tiago de França

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Política e mídia no Brasil


         
       Ontem, 1º de fevereiro, quando retornei para casa, após uma reunião de professores e direção do colégio onde trabalho, devido à chuva, tive que pegar um táxi para chegar em casa sem molhar meus papeis. Durante o percurso, o taxista, moço extrovertido, começou a falar do que andava escutando no rádio e na TV. A sua fala era a de quem acreditava, piamente, em tudo o que ouvia, sem o mínimo discernimento. Aí está o problema da maioria dos brasileiros. Escuta e assiste aos jornais sem desconfiar de nada. O que os noticiários falam parece dogmático.

        Não poderia, na qualidade de professor, deixar o taxista ir embora sem inquietá-lo. Particularmente, gosto de incomodar as pessoas com perguntas que elas não costumam fazer. Quando paguei o valor cobrado, disse ao jovem taxista: “Você não desconfia de nada que escuta? Já parou para pensar em tudo aquilo que você escuta no rádio e na TV? No seu lugar, cuidaria em questionar os noticiários. As coisas não são tão óbvias assim. Pense nisso!” Ele riu, agradeceu, e foi embora.

        Não é segredo para ninguém que a mídia controla a mentalidade do povo. Este não foi habituado a ler, analisar, ponderar, interpretar, discernir, para, assim, ter uma visão crítica da realidade. De modo geral, as pessoas não pensam, mas querem tudo já pensado por outros. Sabendo disso, a mídia entrega a informação pronta, de acordo com as suas ideologias e interesses. Por isso, não é exagero dizer que a mídia é como que o cérebro da maioria do povo. Prova disso é a forma como o povo enxerga a realidade. Basta ler, escutar e assistir aos jornais para saber o que se passa na cabeça das pessoas. Em outras palavras, o que elas tem na cabeça é o que os jornais falam, diuturnamente.

        Este é o motivo de os políticos terem medo da mídia, pois sabem do seu poder. Assim, de forma escancarada, os políticos corruptos procuram, imediatamente, ter estreitos vínculos com os donos dos meios de comunicação. Estes vínculos são marcados pela cortesia e pela liberação de muito dinheiro público para propaganda que enaltecem as ações interesseiras dos políticos. Estes, de modo geral, não pensam no bem comum, mas usam do poder da mídia para propagar mentiras. As propagandas, pagas com dinheiro do povo, são mentiras bem elaboradas que tem a finalidade de anestesiar o poder de reação do povo. Este paga para ser enganado.

        A prova de que não estamos falando de coisas abstratas é o que ocorre com o atual governo. Cresce cada vez mais o orçamento milionário para a propaganda de mentiras que tem por objetivo convencer as pessoas de que os projetos do governo visam o bem comum. É o que está acontecendo com a proposta da “reforma” da Previdência. Para alcançar esta meta, o presidente da República foi às principais emissoras de TV, dentre elas a Globo e o SBT, para tentar enganar o povo. Não há o menor pudor. Tudo é feito de forma descarada. Parte-se do pressuposto de que todos os brasileiros são ignorantes e domesticáveis na forma de pensar, o que não é verdade.

        2018 entra para a história como um dos piores anos eleitorais após a redemocratização do Brasil, ocorrida após o golpe militar de 1964 a 1985. Além das figuras políticas com históricos reconhecidamente abomináveis, o Judiciário resolveu ingressar, explicitamente, na arena política partidária. Usando da interpretação esquizofrênica da lei, operadores do direito fazem uma seleção tendenciosa dos candidatos à presidência da República. Unido ao Judiciário, a mídia também faz o seu trabalho sujo: O Judiciário condena, e a mídia demoniza; do contrário, quando absolve ou deixa os crimes prescreverem, a mídia canoniza. Desse modo, temos no Brasil os poderes executivo, que domina o legislativo, que é dominado pelo judiciário, estando este unido à mídia neoliberal hegemônica, encabeçada pelas organizações Globo. Como diz o povo, no senso comum: “Está tudo dominado!”

        O cenário é considerado tenebroso para quem enxerga, mas para o povo, que sequer sabe o que está acontecendo, tudo está dentro da normalidade. Diariamente, a cúpula do judiciário repete o mesmo discurso, veiculado pela mídia: “As instituições estão funcionando. Estamos dentro da normalidade constitucional. Ninguém está acima da lei. A lei é igual para todos!” Em nome da lei absurdos acontecem. Em matéria de direito, já não se confia na Constituição, pois, em inúmeros casos e cada vez mais, o que vincula é o que os julgadores entendem sobre ela. A insegurança jurídica é uma ameaça constante.

A história é mestra em ensinar, e mostra que, cedo ou tarde, os homens maus tropeçam na própria maldade. Vez e outra os empobrecidos acordam e lutam, e sempre encontram períodos de tempo para respirar e recarregar as energias. Nem tudo está perdido. Há inúmeras pessoas, mulheres e homens de fé e coragem, que estão de mangas arregaçadas, combatendo aqueles que estão a serviço dos projetos opressores. Os poderosos não terão a última palavra. Esta é a nossa esperança. Nas próximas reflexões, a gente vai tentando jogar luz sobre as trevas, para que estas se dissipem e a visão da realidade chegue a todos. Devemos fazer a nossa parte, mesmo que pareça ser uma gota d’água no imenso oceano. Vale a pena.

Tiago de França

sábado, 27 de janeiro de 2018

A palavra libertadora de Jesus


“O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” (Mc 1, 27)

        Conta o evangelista Marcos que Jesus ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei. Qual o segredo da autoridade de Jesus? Que tipo de autoridade tinha ele? Como os mestres da lei ensinavam? Inicialmente, é preciso reconhecer que Jesus era um homem livre, enquanto que os mestres da lei eram escravos da lei. Os mestres da lei se apegavam à lei, e viviam em função dela. Eles pensavam que a lei tinha poder para salvar. Jesus, com seus gestos e palavras, ensinou que não é a lei que salva, mas o amor.

        Além de serem escravos da lei, havia também uma grave falta de coerência entre a interpretação que se fazia da lei e a vida de quem a interpretava. Em outras palavras, os mestres da lei não eram coerentes com aquilo que ensinavam. Eram rigorosos na arte de ensinar, jogando pesados fardos nas costas dos outros, mas eles mesmos não se importavam em obedecer à lei. Jesus denunciou esta hipocrisia religiosa, e foi perseguido por causa disso. Até hoje é assim no seio da religião cristã: inúmeros líderes religiosos são rigorosos, conduzindo o povo no ensinamento da lei, mas levam uma vida escandalosa.

        O evangelista Marcos não apresenta Jesus com longos discursos, nem mostra Jesus trazendo um conjunto de novas doutrinas para renovar o conjunto das leis e costumes judaicos. A novidade de Jesus se encontra na mensagem do Reino de Deus, que é vida e liberdade para todos. Vivendo livremente, Jesus ensinou como se vive a verdadeira fé em Deus. Vivendo humilde e despojadamente, ensinou ao povo que o chamado divino à liberdade é universal e constitui o núcleo da fé no Deus vivo e verdadeiro. Escutando Jesus, o povo logo enxergou a sua liberdade, serenidade, leveza, coerência e verdade.

        Esse modo de ser e de viver de Jesus muito nos questiona. Ele denuncia a superficialidade e o vazio existencial de nossos dias. Denuncia a vida de aparência de milhões de cristãos, que ao invés de cultivar a fé em Deus, perdem tempo com futilidades e preocupações banais. Também denuncia a incoerência dos líderes religiosos, que, ao invés de conduzir o povo à verdadeira experiência de encontro com Deus, exploram as pessoas, iludindo-as com falsas promessas e falsos milagres.

A prática religiosa de nossas Igrejas precisa ser revista, para que Jesus ocupe o seu centro, o seu devido lugar. A hipocrisia religiosa continua reinando. Muitas aberrações são praticadas em nome de Jesus. Mas o Jesus que legitima essas aberrações não é o Cristo Jesus dos evangelhos.

        A palavra de Jesus nos liberta de nosso comodismo, da alienação e da falta de fé. Mais do que em outras épocas da história, precisamos hoje contemplar Jesus e meditar a sua palavra. Há em nós muitos espíritos maus: os espíritos da cegueira, da vaidade, do egoísmo, da indiferença, do orgulho, e de tudo aquilo que nos impede de sermos verdadeiramente autênticos e livres. A autenticidade de Jesus estava na sua coerência de vida. Nossa sociedade, famílias e instituições precisam de pessoas autênticas como Jesus. É urgente que os cristãos se libertem da vida aparente e, portanto, mentirosa. No caminho de Jesus, a mentira não tem lugar.

        O verdadeiro cristão não foge daquilo que realmente é. Cada um é chamado a conhecer a verdade de si mesmo. Sem a aceitação desta verdade não é possível ser feliz, não é possível ter fé, não é possível ser cristão. A prática da oração e do encontro alegre e generoso com os outros são caminhos de autoconhecimento e seguimento de Jesus. São oportunidades para a construção constante do genuíno ser cristão. Tornar-se íntimo de Jesus para que nele possamos encontrar a nossa verdadeira identidade. Ouvir e meditar a sua palavra, para ser como ele: eis o chamado que nos é feito, insistentemente.

Quem permanece com Jesus está em paz, experimenta a paz inquieta, aquela que faz conhecer e viver a justiça do Reino de Deus. Nada neste mundo é tão maravilhoso que permanecer com Jesus. Para viver com ele é preciso confiar e entregar-se, porque o seu amor por nós é infinito e forte. Ele nos quer bem. Não há beleza maior que viver do amor de Jesus. É algo extraordinário, que nenhuma teologia é capaz de descrever. Vale a pena experimentar. O Pai com o Filho e no Espírito, na intimidade amorosa, é o Deus que nos liberta dos espíritos maus e opressores. Experimentemos esta libertação. Ela é puro amor, é nossa salvação.
Tiago de França

sábado, 6 de janeiro de 2018

A manifestação de Deus no mundo

     
     Nestes dias, numa reunião de professores, falávamos sobre a espiritualidade ideal para o século XXI. Numa breve intervenção, falei da centralidade da pessoa de Jesus. Na ocasião, citei uma palavra do grande teólogo José Comblin (in memoriam), que escreveu em um de seus livros: “A fé vem de Deus e a religião vem dos homens”. Um outro livro seria necessário para discorrermos sobre esta belíssima verdade, e ainda assim não esgotaria a totalidade do sentido desta afirmação.

        Também nestes dias, escutei uma jovem falar da sua indignação e da sua falta de esperança no futuro do Brasil. Ela falava a partir do contexto da sua realidade: a realidade sofrida de uma pequena cidade do norte de Minas Gerais. A cidade é governada por um jovem prefeito, que não sabe fazer outra coisa senão desviar dinheiro público. A justiça local não liga para a situação. Estive pessoalmente nesta pequena cidade, e a situação é desoladora. Da boca dos pobres, escuta-se o lamento: “Aqui quem manda é quem tem dinheiro. Quem tem dinheiro manda até na justiça!”

        Como falar de Jesus em meio a este tipo de situação? Como alimentar a esperança dos pobres diante de um quadro tão deplorável e, portanto, desumanizador... Pelo que vi e ouvi das pessoas da referida cidade, o padre que dá assistência à comunidade não liga para a situação. “O que o padre faz é arrecadar dinheiro, pois ele diz que sem dinheiro o bispo não transforma em paróquia”, reclamaram as pessoas. Em muitos lugares, os padres da Igreja tem a grande oportunidade de serem profetas do Senhor, mas o medo e a acomodação não permitem. Em alguns casos, falta vocação para o sacerdócio. Este é um dos motivos que explica a procura desesperada por dinheiro.

        É justamente nestas situações que se manifesta o clamor de Jesus. O clamor dos pobres é o clamor de Jesus. Conta o evangelho que Jesus nasceu em Belém, terra de Judá (cf. Mt 2, 1-12). O lugar onde nasceu Jesus era como esta pequena cidade do norte de Minas: praticamente ninguém ouviu falar. Trata-se de um lugar sem grande importância política, lugar de pobreza e de sofrimento. Quando noutro relato um importante letrado soube da origem de Jesus, indagou: Pode alguma coisa boa sair de Nazaré da Galileia? Neste relato, Jesus teria nascido em Nazaré. Isso mostra que Jesus nasceu em um lugar de gente suspeita.

        Deus quis encarnar-se em Belém, e hoje está presente onde se encontram os bem-aventurados de seu Reino: os pobres, os humildes, os simples, os puros de coração, os perseguidos, os caluniados, os que tem sede de justiça, os misericordiosos, os injustiçados e todos os excluídos de nossa sociedade. Em Belém aconteceu o feliz encontro dos magos do Oriente com o Deus encarnado. Hoje, todos aqueles que desejam fazer a mesma experiência devem se dirigir aos lugares de encontro com os bem-aventurados de Deus. O mesmo evangelho diz que Deus permanece o mesmo, ontem, hoje e sempre. Assim, Ele permanece disponível no mesmo lugar, acolhendo e se alegrando com todos aqueles que se dispõem a encontrá-lo nas periferias deste mundo.

        Por fim, retomo o pensamento do teólogo belga, que fez a sua experiência de encontro com Jesus no interior do nordeste brasileiro: “A fé vem de Deus e a religião vem dos homens”. A fé é dom de Deus. Portanto, não vem dos homens. Religião é cultura, que nasceu para satisfazer uma necessidade humana. Os homens criaram a religião, e muitos precisam dela para se relacionar com Deus. Desse modo, a religião não pode ocupar o lugar de Deus, pois é Deus o absoluto, e não a religião. Esta pode até desaparecer, pois não é eterna. Pode também a religião se transformar, ser recriada e repensada, adaptar-se à evolução das culturas. O mesmo ocorre com as formas de manifestação da fé. Enquanto dom, a fé não muda. O que muda são as formas da sua manifestação no mundo.

        Hoje, muita gente confunde a fé com a religião. Na verdade, são realidades que não se confundem. Podemos ter pessoas de fé sem religião, bem como pessoas religiosas sem fé. A fé não depende necessariamente da religião para existir. É verdade que a religião surgiu para ajudar as pessoas no cultivo da sua fé. Mas é verdade também que, em muitos casos, a religião atrapalha a fé das pessoas. Isto costuma acontecer quando tais pessoas absolutizam a religião, como se esta assegurasse a salvação. Sabemos bem que Jesus é o caminho que conduz a Deus. Assim, não é a religião o caminho.

        Em tempos sombrios como os atuais, precisamos recuperar Jesus. É Jesus e não a religião o centro de nossa vida e fé. Não precisamos brigar por causa de religião. Este tipo de conflito é inútil e não leva a nada. Para não nos perdermos no caminho, precisamos fixar os olhos em Jesus. Não é possível seguir Jesus sem esta atitude fundamental. Ninguém se encontra com Jesus deixando-se dominar pela dispersão e desorientação. Fixar o olhar nele significa identificar o lugar do seu convívio e se dirigir na sua direção. Jesus nos chama e quer permanecer em nós.

Os cristãos, sem Jesus no centro, se perdem na caminhada da vida, e já não são mais cristãos. A fé sem Jesus no centro já não é mais fé cristã. Se quisermos sobreviver às atrocidades de nossos dias, precisamos recuperar Jesus, fixar os olhos nele, colocarmo-nos em seu caminho, perseverando até às últimas consequências. Isto é o que o Espírito de Jesus fala aos cristãos da hora presente: ou colocamos Jesus no centro, ou continuaremos assistindo ao desespero tomando conta das pessoas, numa gritaria sem fim, perdidas, sem rumo.

Ousemos optar por Jesus. Vale a pena. O seu amor é lindo de ver e de viver! Que neste ano que se inicia, o auxílio divino permaneça conosco. Caminhemos firmes na esperança, hoje e sempre.

Tiago de França

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE NATAL 2017

Deus vem ao nosso encontro para nos humanizar

        Celebra-se no Natal a encarnação de Deus na humanidade. Em Jesus, Deus vem ao nosso encontro para nos tornar cada vez mais humanos. O divino se manifesta no humano. O modus operandi de Deus é maravilhoso porque se revela a nós como Aquele que deseja nos tornar divinos, fazendo-nos participar da Sua vida. Não há mistério tão feliz quanto este: Deus quer fazer morada em nós e, assim, revela-nos o seu grande e infinito amor. Sem esta íntima relação com Ele, não podemos conhecer o seu amor. Portanto, trata-se de uma divina experiência que não ocorre nas alturas dos céus, mas em nossa carne, na humanidade de nossos corpos, no calor de nossas experiências cotidianas.

        O Deus que vem é Aquele que deseja permanecer. Encarnando-se, Deus habita este mundo, obra de Suas mãos. Sua vinda e permanência entre nós recria todas as coisas. Tudo é recapitulado em Cristo Jesus. Em Jesus, o Ungido do Pai, manifesta-se a plenitude do humano e do divino. Com Jesus, aprendemos o verdadeiro significado de ser imagem e semelhança de Deus. Olhando para Ele e fixando nossos olhos Nele, conhecemos a nossa vocação primeira: a de sermos filhos amados Daquele que nos ama, apesar de nossas fraquezas e de nossos pecados. O pecado não é empecilho para Deus. Deus é infinitamente superior e nos eleva, libertando-nos do medo e do poder da morte.

        A celebração do Natal é a celebração da esperança ativa. Os que acreditam no mistério sublime da encarnação de Deus na humanidade experimentam a força da esperança, e esta impulsiona o discípulo missionário de Jesus nas lidas do Reino de Deus. Não há manifestação deste Reino sem a esperança, que, juntamente com a fé e o amor, fazem resplandecer em meio às trevas do mundo o Espírito de Jesus. Em Jesus, a esperança nos transforma em missionários da Boa Notícia da encarnação de Deus no meio dos empobrecidos e fragilizados deste mundo. A esperança cristã coloca o missionário de Jesus no seu devido lugar: o lugar da manifestação de Deus neste mundo, que é Belém, terra de Judá, presente nas periferias dos quatro cantos da terra.

        Desse modo, a celebração do Natal de Jesus é uma excelente oportunidade para respondermos, com sinceridade e verdade, à questão: Onde Jesus está nascendo hoje? Ousemos responder de acordo com o Evangelho do próprio Cristo, que é a mensagem central do Reino de Deus. Jesus não nasceu no palácio real, em meio à segurança e ao luxo. O mistério da encarnação divina aconteceu no meio dos empobrecidos, entre os últimos. Nascendo numa manjedoura e em terras de pouca importância e visibilidade no vasto império romano, quis Deus confundir os grandes, manifestando-se em meios aos fracos e oprimidos. Deus escolheu a fragilidade e a pequenez, a insignificância e o lugar dos últimos, tornando-se carne humana entre os empobrecidos e pecadores.  

        Desse modo, hoje, no Brasil e em nossas comunidades, Jesus está nas periferias existenciais: Ele está nascendo, solenemente, na vida dos empobrecidos e marginalizados: na vida dos quase treze milhões de desempregados; na vida das mulheres vítimas dos inúmeros estupros que se cometem diuturnamente; na vida dos que se encontram nos leitos e filas dos hospitais públicos; na vida das minorias sexuais vítimas da violência; na vida dos trabalhadores que padecem os cortes em seus direitos trabalhistas por causa da “reforma” feita pelo “governo” atual; na vida dos que estão jogados nas ruas, praças, avenidas e vielas das grandes cidades, aflitos e dominados pela fome, frio, drogas, vícios e falta de perspectiva; na vida dos jovens, sem estudo e sem trabalho, sem esperança, sobrevivendo nas ruas e nas prisões lotadas e desumanas; enfim, Deus está se manifestando no mesmo lugar e nas mesmas pessoas de sempre.  

        O governo federal, a sua base aliada, os grandes empresários e a grande mídia, mentirosa e manipuladora da consciência popular, exercem, covardemente, o papel de Herodes, dedicando-se, sem descanso, a perseguir, oprimir e matar a vida do povo brasileiro. Esta corja de criminosos é inimiga do Deus presente na pessoa de Jesus. Portanto, desconhecem o verdadeiro sentido do Natal, e não podem, jamais, sentar à mesa do Reino de Deus. Não se celebra o Natal perseguindo Jesus na pessoa dos empobrecidos. E todo aquele que compreende o verdadeiro sentido da encarnação de Deus neste mundo, posiciona-se, frontalmente contra os Herodes que dilaceram a vida dos empobrecidos. Quem se coloca a serviço dos Herodes é inimigo do Deus encarnado, e conhecerá a ruína no tempo certo.  

        Esperançosos, celebremos! Que o Deus da vida e da liberdade permaneça conosco hoje e sempre, encorajando-nos para permanecermos firmes, fieis e fortes nas lutas de seu Reino que também é nosso. Assim seja!

Desejo a você, sua família e comunidade, um Feliz Natal, e que o ano vindouro favoreça os nossos anseios por justiça e paz!

Receba meu abraço fraterno e minha prece.

Fraternalmente, em Cristo Jesus – Verbo encarnado,

Tiago de França

sábado, 2 de dezembro de 2017

Viver despertos

       
      Na vida, há quem vive e há os que meramente sobrevivem. Inúmeros são os fatores que levam à sobrevida, e um deles é a dispersão. Nestas breves linhas, queremos falar da importância do viver despertos a partir de uma experiência pessoal de encontro com o despertar. Permita-me uma breve partilha fraterna sobre o tema.

        Quando seminarista na comunidade dos Irmãos e Padres Lazaristas, conheci um santo homem que viveu a experiência do despertar. Era noviço, e durante o ano, o santo padre vinha ao nosso encontro. Era, de fato, um santo padre. Chamava-se Geraldo Ferreira Barbosa (in memoriam). Aos noviços, ele falava sobre espiritualidade. Com ele, conheci a espiritualidade cultivada e ensinada pelo místico jesuíta Anthony de Mello.

        Observava bem a maneira como o padre Geraldo nos falava. A mansidão, humildade, desapego e alegria eram contagiantes. Estas eram suas qualidades. Em particular, sempre conversava com ele. Ao deixar o processo formativo, tive a graça de conversar, longamente, com ele. Escutei palavras sábias de um homem santo e sábio, que as guardo no coração.

        Com Anthony de Mello e com o padre Geraldo aprendi a ler o evangelho de Jesus na perspectiva da espiritualidade do desapego e da atenção. Passei a praticar esta espiritualidade, que é a mesma que Jesus praticou em sua peregrinação terrena. Em minha experiência particular, tenho experimentado os efeitos desta espiritualidade, e o maior deles é a graça de viver o presente, porque neste está a vida. Esta, de fato, acontece no aqui e agora. É pura manifestação da graça de Deus.

        O que significa estar atento? Significa permanecer acordado. Viver dormindo é o mesmo que não perceber a vida, não experimentá-la; é viver acorrentado pelas preocupações da vida, pelos apegos, pelos desejos e ambições, é ser escravo de si mesmo e dos outros. Infelizmente, a grande maioria das pessoas sobrevive assim. Não sabem nem experimentam a liberdade dos filhos e filhas de Deus.

        Quem vive em estado permanente de atenção tem o dom da visão da vida: enxerga a vida como ela é, sem fugas nem ilusões. Trata-se de um despertar para a vida; um despertar que dura a vida toda. Nem a morte consegue tirar a vida de quem realmente conseguiu despertar, pois quem desperta já se libertou do medo e do poder da morte. Quem vive desperto é reconciliado com a própria morte. Assim, o morrer se torna lucro.

        Para despertar é necessário viver, permanentemente, a experiência do desapego. Desapegar-se de si mesmo, das coisas, das pessoas e dos acontecimentos. Viver a vida com liberdade, sem se deixar prender a nada. Amar a todos na liberdade e para a liberdade. Trata-se de uma experiência de leveza, de mansidão e de gratuidade. Pessoas desapegadas são livres e leves, são alegres e destemidas, compassivas e esperançosas. São pessoas que não vivem sofrendo por causa das preocupações da vida, pois confiam plenamente na divina providência. Elas vivem a certeza de que Deus jamais as abandona.

        Neste domingo, os cristãos da Igreja católica iniciam a experiência do tempo litúrgico do advento, preparando-se para a celebração solene do Natal de Jesus. No evangelho, Jesus recomenda a vigilância. Vigiar é permanecer acordado e em ação; é viver a experiência da atenção e do desapego. Sozinho, ninguém é capaz. O mesmo Deus que chama para viver despertos é quem concede a graça desta experiência feliz. Há muito o que se falar sobre a experiência do despertar, mas a linguagem humana é incapaz de explicitar o que Deus faz na vida daqueles que se abandonam em suas mãos e à sua graça.

        Por isso, vale a pena se arriscar e experimentar. Somente assim, conhecerá a vida e vivê-la-á abundantemente. Quem quiser viver de verdade, libertando-se da vida mesquinha e medíocre, deve se abrir à generosa e misericordiosa ação de Deus, que, silenciosa e discretamente, nos faz conhecer o verdadeiro sentido da vida e a verdadeira alegria de viver. Do contrário, as pessoas não passam de cadáveres ambulantes, que experimentam o gozo das alegrias passageiras, iludindo-se a si mesmas, pensando que são felizes.

        Quem quiser conhecer e experimentar a vida, acorde e desapegue-se!


        Tiago de França


Obs: Na foto, segurando o cálice, o Pe. Geraldo Ferreira Barbosa, C.M.