sábado, 23 de setembro de 2017

A bondade infinita de Deus

“... Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20, 15).

        Esta pergunta faz parte da resposta que um patrão generoso deu a um empregado insatisfeito, que reclamou do valor recebido por seu trabalho. Este patrão aparece numa parábola contada por Jesus, que queria falar da justiça divina para seus ouvintes. Conta a parábola que um patrão convidou pessoas que estão sem nada fazer, para trabalhar. E convidou em vários momentos do dia.  

Ao final, quando do pagamento da diária, o patrão surpreendeu a todos: deu a todos o mesmo valor, tanto aos que trabalharam o dia inteiro quanto aos que trabalharam poucas horas do dia. E quando um dos que chegou primeiro na vinha foi reclamar, recebeu, juntamente com o dinheiro, uma resposta firme: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

Hoje, quem vive segundo a lógica do mercado capitalista ignora totalmente a atitude deste patrão. Este não age como todos agem. É um patrão diferente. Trata-se de alguém que visa, em primeiro lugar, atender à necessidade do outro, e não o quanto este trabalhou ou deixou de trabalhar. A lógica do patrão é diferente porque não passa pela via do merecimento, do cálculo humano da equivalência.

Todos os que atenderam ao convite para trabalhar na vinha mereceram receber o mesmo valor porque todos precisavam viver dignamente. Este tratamento igualitário promove a verdadeira justiça. A justiça de Deus é diferente da dos homens porque Deus visa, em primeiro lugar, a bondade e a generosidade. Ele é bom e generoso.

Esta parábola nos permite corrigirmos uma falsa imagem de Deus que até hoje vigora no seio das comunidades cristãs e na mentalidade das pessoas: A imagem de um deus justiceiro, que age como se fosse um patrão, exercendo poder sobre as pessoas. Infelizmente, muitas pessoas pensam que Deus é um patrão, que dá a cada um conforme o que cada um merece. Neste sentido, a graça divina não é gratuita, pois ele somente a concebe a quem a merece.

Um exemplo clássico que ocorre em muitas comunidades da Igreja Católica: Somente pode receber a Eucaristia a pessoa que merece, que está no chamado “estado de graça”. Assim, quem está no pecado não merece receber. Trata-se de verdadeira deturpação do sentido da Eucaristia. Jesus não falou do Pão da Vida dessa forma. Ele, Jesus, é o Pão dos Pecadores. Os que se julgam estar em “estado de graça” não devem recebê-lo na Eucaristia.

Deus não é patrão, mas Pai. São duas realidades distintas. O patrão manda, exige resultado (produção), recompensa conforme os resultados obtidos, pune o empregado desidioso e demite com ou sem justa causa aqueles que não se alinham à política da empresa. No mundo mercadológico é assim que funciona. E quando o patrão demite, não está preocupado se o empregado vai passar fome ou não.

A preocupação do patrão é com a sua empresa. Esta precisa crescer, independentemente de quem seja o empregado. Este é uma peça na engrenagem do sistema, e está no ofício para produzir riqueza. Quem não produz riqueza é descartado pelo patrão porque o lucro é a meta. No sistema capitalista, a situação é esta. Os patrões são obrigados a se alinharem a esta lógica; do contrário, não sobrevivem.

Deus não é assim. Deus contradiz a lógica que domina o mundo. Deus é Pai e Mãe, pura bondade e generosidade. Uma mãe e um pai tem filhos, não empregados. Deus é bom e chama para o centro da convivência harmoniosa todos aqueles que são relegados ao esquecimento e à exclusão. Ele vai ao encontro daqueles que precisam trabalhar na sua vinha. Deus inclui, não exclui. A lógica do exclusivismo, que gera marginalização, não condiz com o projeto de Deus. A sua bondade alcança a todos, não apenas algumas pessoas, grupos, ou alguma religião. O seu chamado à vida e à liberdade é universal. O seu amor é para todos. Ninguém está excluído.

Se muitos religiosos e muitas denominações religiosas pregam o contrário, afirmando que Deus salva um número determinado de pessoas, bem como somente ama alguns, legitimando, assim, que Ele faz acepção de pessoas: esta é uma mentira que precisa ser combatida e erradicada. Esta imagem falsa de Deus não permanece de pé quando confrontada com a verdadeira imagem de Deus revelada na pessoa de Jesus. Em Jesus, Deus parte da periferia, resplandecendo a sua glória lá onde reside os chamados “pecadores públicos”. O Deus e Pai de Jesus não é um Ser supremo e abstrato, acessível às mentes inteligentes. Deus não é metafísica, mas bondade encarnada no mundo.

Permanece, assim, o desafio a todos os que se reconhecem como crentes e cristãos: Testemunhar no meio do mundo a bondade e a generosidade de Deus. Como ocorre este testemunho? É simples. Tudo ocorre a partir da simplicidade porque nesta está a verdade. O crente, simplesmente, é alguém que ama a todos, sem fazer distinção, e sem julgar quem quer que seja. Testemunhar a bondade é atender o chamado divino a sermos bons como Ele é bom.

Assim, todo aquele que afirma crer na bondade de Deus, mas despreza, julga, condena, discrimina, se afasta, ridiculariza, desrespeita, humilha e maltrata o próximo, não está na verdade, mas é mentiroso, e peca gravemente contra Deus. O mundo atual carece de pessoas amorosas, boas e generosas, para que a covardia e a indiferença desapareçam, e todos, sem exceção, possam viver em harmonia, experimentando a justiça do Reino de Deus, porque esta é a Sua vontade. Quem opta pela violência é inimigo de Deus, e quem opta pelo amor conhece a Deus e Deus permanece nele (cf. 1Jo 4, 7).


Tiago de França

sábado, 16 de setembro de 2017

A experiência cristã do perdão

Amigos e amigas,

Clicando no link a seguir, vocês poderão assistir a uma reflexão sobre a importância do perdão para a vida cristã, tendo em vista a construção da cultura da paz. 

Com meu fraterno abraço,

Tiago de França
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Link: A experiência cristã do perdão.

Brasil: Um País de ladrões e estupradores

       
       O título do presente artigo pode parecer exagerado, mas não é. Os números revelam que inúmeras pessoas são estupradas no Brasil, principalmente mulheres. Um dos casos que mais chamou a atenção foi o de Diego Ferreira de Novais, 27 anos, que estuprou uma mulher em um ônibus, em São Paulo. Registros mostram que Diego foi detido dezessete vezes por crimes sexuais, o que demonstra a necessidade de internação compulsória.  

Entre outros aspectos, chamou a atenção a quantidade de ocorrências e a forma como o Judiciário lida com a situação, o que revela despreparo de muitos juízes, bem como sinais evidentes de machismo. Um juiz machista e mal preparado não vê problema em atos obscenos, importunação ofensiva ao pudor e estupro. Neste sentido, as mulheres não podem esperar muito do Judiciário.

        Os fatos revelam que há uma cultura do estupro no Brasil. A mulher é considerada, por muitos homens, objeto de satisfação sexual. Pesquisa do Datafolha de setembro de 2016, revelou que um em cada três brasileiros acredita que a culpa é da mulher, nos casos de estupro. A culpabilização da vítima é uma prova de que o machismo reina no País, e está longe de acabar. A mentalidade machista tem início no seio das famílias.  

Muitos pais deseducam seus filhos a tratar as meninas como seres inferiores e objetos sexuais. Convencem os meninos de que quem nasce no sexo masculino tem que ser “macho” e “pegador”. Estas e outras expressões são típicas de pessoas sexualmente desequilibradas. De modo geral, os “pegadores” são desequilibrados e imorais, dominados pela idiotice porque não tem nada no cérebro, mas somente potência sexual em estado de desequilíbrio.

        A realidade reclama uma educação que promova o respeito e a liberdade. É necessário reeducar as pessoas para a importância da igualdade de gênero. Trata-se de um equívoco grave, em pleno século XXI, pensar que a mulher é inferior ao homem. A mulher não é uma coisa, mas pessoa, digna de respeito, consideração e amor. Nos espaços privado e público, e no exercício profissional, a mulher deve ser tratada em pé de igualdade.  

Hoje, graças à coragem de muitas mulheres, existe um forte movimento de resistência contra os abusos e a exploração das mulheres. Não é mais possível tolerar o feminicídio e todas as demais formas de agressão à dignidade feminina. Temos a Lei Maria da Penha que nos chama a atenção, do ponto de vista legal, para o respeito à integridade da mulher. Portanto, a solução passa pela educação familiar e escolar, visando a abertura da mente e a mudança de mentalidade, para a erradicação do machismo e da cultura do estupro.

        Além da cultura da violência contra a mulher, que muito nos envergonha perante o mundo, o País também sofre com os escândalos de corrupção. Nunca na história brasileira, o povo tomou conhecimento de tantos desvios. Esta mesma história conta que sempre houve escândalos e desvios, mas estes nunca chegavam ao conhecimento do povo. Com a chegada do ex-Presidente Lula à Presidência, o Ministério Público e a Polícia Federal ganharam plena autonomia para investigar. Esta liberdade de investigação fez com que o povo conhecesse a verdade até então oculta: A corrupção no Brasil é sistêmica e os mais ricos são os que mais roubam.  

A operação Lava Jato tem revelado que grandes empresários, aliados a muitos políticos, sempre desviaram bilhões e bilhões de reais dos cofres públicos. A novidade não está nos desvios, mas no fato da sua publicidade. É verdade que ainda há muitos desvios ocorrendo ocultamente, mas boa parte veio a público. Isto é um dado positivo.

        Os escândalos revelam um País acostumado à corrupção. A situação é tão gritante, que muita gente já não se surpreende nem se escandaliza mais ao ouvir a notícia de um novo escândalo. Em todos os setores da sociedade a corrupção está infiltrada. O famoso “jeitinho brasileiro” demonstra a esperteza de um povo que não foi educado para conhecer e cumprir a lei.  

É verdade que há muita gente honesta e de boa índole, mas é escandaloso o número daqueles que sempre procuram atalhos para tirar vantagem em tudo. Somente cumprem a lei quando não há outro jeito; do contrário, se encontrarem uma brecha ou oportunidade, optam pelo descaminho e/ou criminalidade. O ordenamento jurídico brasileiro possui lei para normatizar praticamente tudo, mas, mesmo assim, as pessoas sempre escapam e a impunidade é assustadora.

        No quesito impunidade, o povo já decorou a lição: No Brasil, os mais ricos sempre escapam, seja porque o Judiciário faz vista grossa, seja porque possuem excelentes advogados, que atuam de forma enérgica e tecnicamente bem para livrar os criminosos ricos de possíveis condenações. Vez e outra um empresário é preso, processado e condenado; mas não demora muito na cadeia.

O Judiciário tem se utilizado bastante da prisão domiciliar para “punir” os mais ricos, pois tem certa dificuldade de vê-los sofrendo. Fala-se que no Judiciário, os juízes formam uma “casta”! Se considerarmos os privilégios e o status do cargo, de fato, trata-se de uma casta poderosa, contra a qual praticamente não cabe recurso. Se um juiz entender um fato de uma forma, os demais das cortes superiores tendem na mesma linha. Dizia Rui Barbosa que contra a ditadura do Judiciário não há a quem apelar.

        A ditadura do Judiciário existe e ninguém pode negar tal fato. Uma de suas principais facetas é a seletividade. Quando absolve o rico e pune o pobre, aí está a seletividade. Quando a pena do rico é menor que a do pobre, também aí há seletividade. Os críticos desta visão poderão perguntar: Mas há pobres que cometem crimes bárbaros! Não discordo da existência da periculosidade de muitos pobres que entram no mundo do crime, mas a tese que defendemos é: Hoje, os ladrões do dinheiro público no Brasil não são pobres. Os que atualmente estão sendo acusados, investigados e processados no âmbito da operação Lava Jato e outras operações não são pessoas pobres; mas ricos que não se contentam com o que tem, querendo sempre mais.

Os pobres do povo são as vítimas, são os que trabalham diuturnamente para os empresários, são os que mais pagam impostos. Os bilhões de reais desviados fazem falta ao custeio dos serviços públicos básicos à população, e os pobres são os que dependem da prestação destes serviços.

        Os fatos mostram que há uma cultura da corrupção no Brasil contra a qual precisamos aderir a uma cultura da honestidade. Esta não se aprende nos bancos da escola nem na universidade. A honestidade é adquirida pela prática da virtude. Virtuosa é a pessoa que adere à prática do bem, visando sempre o bem comum. No regime democrático de Direito, as pessoas precisam aprender a viver em sociedade, respeitando o lugar do outro. Viver honestamente significa aderir a práticas justas e transparentes; significa agir de acordo com valores éticos imprescindíveis à convivência social, tais como a justiça, a solidariedade, a mansidão, o respeito, a fraternidade etc.

Toda pessoa que, no espaço público, procura somente a satisfação dos próprios interesses, torna-se facilmente nociva à sociedade. A sociedade brasileira carece de pessoas que pautem suas vidas na honestidade e na busca do bem comum. As pessoas precisam ser educadas para a solidariedade e a justiça. Não é possível existir um País justo e fraterno para todos sem justiça e solidariedade. Não basta combater a corrupção. Precisamos, sobretudo, prevenir para que não exista. E não há prevenção maior do que todo cidadão tomar consciência do significado e valor da cidadania, consciência que conduz à prática da honestidade, transparência e justiça.


Tiago de França

sábado, 2 de setembro de 2017

Seguir Jesus hoje

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24).

        Da parte de Jesus há sempre um convite: “Se alguém quer me seguir...” Trata-se de um chamado sempre aberto e universal. Decidir-se por Jesus é uma atitude que confere sentido à vida. Quem escolhe seguir Jesus, inicia uma experiência de vida, que se expressa na adesão a um projeto de vida. Falar em projeto significa que seguir Jesus vai muito além de simpatizar-se com ele. Jesus não quer que meramente gostemos dele, que admiremos suas palavras, mas deseja que sejamos seus discípulos e discípulas.

        Os que decidem seguir Jesus assumem um novo jeito de ser, deixando de ser meras cópias do mundo, sem fugas. Vivendo no mundo, o discípulo assume o estilo de vida do Mestre: um estilo profundamente marcado pelo amor-doação. Fora do projeto de Jesus encontramos o falso amor, segundo o qual as pessoas se apoderam umas das outras, portanto, possuindo-se. As pessoas falam do amor, mas não amam. Vivem no infinito e perigoso jogo de satisfação dos interesses, e escondem este jogo se utilizando da linguagem do amor. Há belos discursos de amor, manifestações coloridas de amor, mas, na prática, somente há aparência de amor.

        No seguimento de Jesus, aquele que renuncia a si mesmo é que verdadeiramente ama. Sem renúncia não há amor. Hoje, as pessoas não querem sequer escutar a palavra renúncia. Aprenderam que renúncia é sinônimo de negação da vida. Praticam o hedonismo, ou seja, buscam o prazer a todo custo, e pensam que assim são felizes. Ser feliz, segundo pensam, é desfrutar de uma vida prazerosa. A regra é ter prazer, um prazer que nunca se sacia. E o resultado é o número assustador de pessoas superficiais, vazias, cansadas, ansiosas, usadas e abusadas, perturbadas, sem rumo, sem vida. As pessoas buscam a satisfação de seus interesses, entregando-se ao egoísmo. Os que conseguem satisfação pensam que são felizes. Na verdade, vivem na ilusão. Estão perdidos na vida.

        Jesus ensina um caminho que vai na contramão de tudo isso. E justamente por isso, as pessoas não aceitam este caminho. Trata-se de um caminho que conduz à doação de si, doação que conduz à cruz. Não é um caminho de prosperidade. Enquanto as pessoas procuram o prazer, o sucesso, o prestígio, o poder, a riqueza e a glória, Jesus exige a renúncia e aponta para a cruz. As pessoas não querem carregar a cruz. Com a ajuda da religião, elas distorcem a mensagem de Jesus, e criam outra mensagem e um outro Jesus. O verdadeiro Jesus é demasiadamente exigente e pesado. As pessoas querem um Jesus leve, que lhes assegure prazer, satisfação e vida tranquila. Desejam crer num Jesus que não exija renúncia nem fale de cruz.

        Renunciar é muito difícil. Por que tenho que pensar no próximo, se devo procurar sempre cuidar, em primeiro lugar, de mim mesmo? Por que devo responsabilizar-me pelo outro? O que tenho a ver com o sofrimento do outro? Por que devo preocupar-me com o outro, se não o conheço? Por que fazer minha parte na transformação do mundo, se não colaborei diretamente para que chegássemos a tamanha calamidade? Por que devo fazer alguma coisa, se a culpa é do governo?... Estas e tantas outras perguntas revelam a tendência que as pessoas tem de tentarem justificar seu pecado de omissão. Não querem renunciar à segurança, mas buscam-na, desesperadamente. Não renunciam à zona de conforto para assumir riscos.

        Renunciar gera desprazer e, portanto, é desconfortável. Ocupar-se com o outro dá trabalho porque este outro é diferente. As pessoas não são educadas para o diferente, para a tolerância, para o cuidado. No mundo, aprendem a ser interesseiras, mesquinhas, maliciosas, ambiciosas, covardes e omissas. Algumas até se escandalizam com a indiferença que reina na sociedade, mas quando se deparam com as feridas abertas do próximo, preferem passar para o outro lado do caminho. E para apaziguar suas consciências, procuram ir ao culto, elevar a Deus hinos de louvor. Outras, doam algumas moedas aos pobres mendicantes, e isto lhe confere uma paz momentânea. Doam moedas, mas não renunciam à maldade que habita seus corações.

        Jesus pede também que se tome a cruz. Carregar a cruz não é tarefa fácil porque implica responsabilidade. Carregar a cruz não é amar o sofrimento. Isso é masoquismo. Deus não provoca o sofrimento na vida de ninguém. Deus não é mau. Há pessoas que pelo simples fato de terem nascido neste mundo são vítimas do sofrimento, são atingidas por ele. Há outras que provocam o sofrimento, fazendo opção por ele. Parece estranho, mas é verdade. Há muita gente que procura sarna para se coçar e encontra! Hoje, milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas da exploração dos poderosos, que gera sofrimento. Com elas está Jesus, carregando a cruz. Jesus não livra ninguém do sofrimento, mas permanece sempre disposto a caminhar junto, ajudando, aliviando e salvando.

        A religião cristã, com seus pastores e suas estruturas, tem um papel importante a desempenhar: ir ao encontro dos que sofrem, para ajudar-lhes a carregar a cruz. Um cristianismo que não assume o papel daquele que ajudou Jesus a carregar a sua pesada cruz, é pedra de tropeço no processo de humanização das pessoas. Neste sentido, é papel das Igrejas cristãs ajudar o povo a carregar a cruz. Muita gente do povo sofre. Muitas feridas estão abertas, precisando do óleo da misericórdia. Se os cristãos se fecham nos seus templos, tapando os olhos e ouvidos ao clamor daqueles que estão caídos nos caminhos e periferias do mundo, estes cristãos praticam idolatria. Jesus está chamando, gritando e agonizando na carne sofrida das mulheres e homens que são vítimas dos poderes que ceifam a vida.

        Os cristãos fariseus e hipócritas fecham os olhos e tapam os ouvidos para não ouvirem o clamor de Jesus, que sai da boca dos sofredores. Preferem perder tempo com discussões doutrinais e rituais, discutindo em suas reuniões sobre quem pode ou não participar dos momentos litúrgicos. Vivem ocupados com abstrações e regras, para ver quem está de acordo ou não com a lei. Estão preocupados com o número daqueles que frequentam o culto, bem como com a quantidade de dinheiro que entra em forma de dízimos e ofertas. Enquanto brigam para ver quem é conservador e progressista, Jesus permanece de mãos estendidas no madeiro da cruz, implorando sempre a misericórdia do Pai, para que encontremos o caminho que conduz à vida.

        A palavra de Jesus permanece para sempre, e não há doutrina humana que a mude. Sua palavra é clara e imutável: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Sem renúncia e sem a cruz não se segue Jesus. Não há meio termo. Não há interpretação que mude isso. Esta palavra é radical e eterna. O seguimento é exigente, profundamente marcado pelo amor-doação, expresso na renúncia e na cruz. Quem quiser participar do Reino de Deus Pai, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga Jesus. A genuína fé cristã não oferece outro caminho senão este. Assim disse Jesus, e sua palavra é palavra de vida eterna, e seu chamado permanece aberto. Quem quiser segui-lo, arrisque-se. É caminho estreito, que conduz à vida sem fim.


Tiago de França

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Dom José Maria Pires, intercedei por nós!

Dom José Maria Pires, bispo da Igreja dos Pobres, viveu a sua Páscoa no dia ontem; no mesmo dia da celebração da Páscoa de outros dois grandes santos da Igreja: Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes. Tive a graça de conhecer Dom José Maria Pires no meio dos pobres, lá no Vale do Jequitinhonha. Agora, participa da liturgia solene na pátria celeste. Seu testemunho permanece vivo entre nós. Que ele interceda por nós, para que sejamos fieis a Jesus. Amém!

Tiago de França

domingo, 27 de agosto de 2017

Para conhecer e permanecer com Jesus

     
      Quando ainda estava com seus discípulos, Jesus quis saber o que se passava na cabeça deles. Certa vez, perguntou-lhes sobre o que pensavam a seu respeito. A resposta de Pedro, um dos discípulos, foi imediata e reveladora: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16). Jesus afirmou que esta resposta de Pedro foi uma revelação de Deus Pai. Todo aquele que segue Jesus hoje, deve responder à pergunta sobre quem é Jesus.

Não nos parece razoável seguir a um desconhecido. O evangelho nos fala do necessário encontro com Jesus, para conhecê-lo de perto. Para conhecer uma pessoa é preciso aproximar-se dela. A partir da experiência de Jesus, e considerando a realidade religiosa do cristianismo de nossos dias, refletiremos sobre esta necessária aproximação: Aproximar-se para conhecer e permanecer com Jesus.

        Na comunidade cristã, as pessoas escutam falar de Jesus, mas, muitas vezes, não se encontram com ele. É verdade que a comunidade cristã é um dos lugares de encontro com ele. Toda comunidade cristã deveria revelar a presença de Jesus. Infelizmente, há casos nos quais isto não ocorre. Há comunidades que revelam de tudo, menos a presença dele. Nelas encontramos o julgamento, a condenação e as exclusão de pessoas. Na história da Igreja há pessoas que revelaram o significado da filiação divina de Jesus.

        Crer em Jesus como Filho do Deus vivo não é somente professar o credo apostólico na liturgia dominical. É muito fácil crer com os lábios. Oferecer hinos de louvor ao Deus vivo é, certamente, atitude inerente ao crente que professa a fé na comunidade cristã. A liturgia celebra o amor vivido pelos que creem no Deus vivo. Por isso, os que creem precisam, em primeiro lugar, viver o amor. Quem vive no amor, de fato, já celebra a verdadeira liturgia, e proclama, com o testemunho da própria vida, que Jesus é o Filho do Deus vivo.

        Vale a pena lembrar o testemunho de dois bispos, que marcaram a história da Igreja Católica no Brasil: Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida. Neste domingo, 27 de agosto, celebra-se a memória de ambos, pois o primeiro faleceu em 27 de agosto de 1999, e o segundo em 27 de agosto de 2006. Estes bispos possuem muitas coisas em comum, sendo a opção pelos pobres a mais importante. Eles se encontraram com Jesus na pessoa dos pobres. Não foram bispos convencionais, como tantos outros, mas foram profetas do Reino de Deus.

        Dom Helder era poeta, místico e profeta. Cearense de nascimento, tornou-se conhecido pela sua ação pastoral junto aos pobres, pela sua denúncia firme das injustiças, e pelo seu jeito humilde e alegre de ser. Era homem da palavra e do gesto, como todo profeta. Fiel a Jesus, cultivou uma profunda intimidade com o Filho do Deus vivo. Homem de oração, era um contemplativo na ação. Com outros, viveu radicalmente a opção de Jesus. Amado pelos pobres e odiado por muitos ricos, denunciou com firmeza e ousadia os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil. Foi escutado e aplaudido no Brasil e no exterior. Também no seio da Igreja era odiado, tanto por leigos quanto por padres e bispos coniventes com a ditadura. Também o papa João Paulo II não gostava da sua atuação, pois reclamava das viagens do “bispo vermelho” ao exterior, principalmente à Europa. O papa sofria do mal da inveja, assim como tantos outros clérigos da Igreja.

        Dom Luciano era jesuíta, homem dos pobres e místico. Dotado de rara inteligência, mas revestido de grande humildade. Não aparentava ser doutor. Homem de gestos e palavras profundamente marcadas pela profecia, tornou-se um dos bispos mais importantes da história da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi secretário-geral e presidente. Profundo conhecedor, defensor e promotor dos direitos humanos, trabalhou, incansavelmente, pela promoção da dignidade da pessoa humana, especialmente dos mais pobres. Em Mariana – MG, como Arcebispo, manifestou a bondade divina como pastor zeloso junto aos pobres. Morreu com fama de santidade, e seu processo de beatificação foi instaurado em 27 de agosto de 2014.

        Dom Helder e Dom Luciano jamais podem ser esquecidos. Hoje, mais do que em outras épocas, a Igreja Católica no Brasil precisa reler a biografia destes dois santos. Eles compreenderam e anunciaram a mensagem de Jesus. Foram missionários do evangelho da caridade, da verdade e da liberdade. Ambos nos indicam o caminho de Jesus, caminho de profecia: anúncio da Boa Notícia do Reino e denúncia dos crimes contra a vida do povo de Deus. Todo o povo de Deus, principalmente os líderes religiosos, precisam aprender com estes santos, a aderir à proposta de Jesus: o Reino de Deus.

        Hoje, Dom Helder e Dom Luciano nos ensinam a denunciar o que está acontecendo no Brasil. O País está sendo governado por uma organização criminosa, que faz o que quer, sem ser devidamente punida na forma da lei. Muitos criminosos não estão sendo punidos, apesar de seus crimes serem de conhecimento público. O governo federal não é governo, mas desgoverno. Todas as medidas tomadas são contrárias ao bem comum e, portanto, violam os direitos e garantias fundamentais. A reforma trabalhista, que já é lei, bem como a previdenciária e tributária, que estão por vir, atentam contra a dignidade de todos os brasileiros.

Recentemente, o desgoverno anunciou a realização de dezenas de privatizações, a extinção de uma reserva ambiental de milhões de hectares de terra, e tantas outras medidas que estão em curso, demonstram, claramente, que o Brasil está sendo, gravemente, violentado. Neste sentido, a Igreja precisa posicionar-se aberta e profeticamente, assim como Dom Helder e Dom Luciano se pronunciaram, quando exerceram, com ousadia profética, a missão de pastores do povo santo de Deus.

O povo está sendo violentado, e os pastores precisam erguer a voz. Não pode a Igreja ser omissa, pois “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 01). Hoje, assiste-se no Brasil a muita angústia, tristeza e sofrimento, provocados por quem explora, impiedosamente, o povo.

Os pobres e todos aqueles que sofrem precisam da voz profética da Igreja, a fim de que tais abusos e crimes sejam, incansavelmente, denunciados. A Igreja precisa proclamar a verdade sobre os telhados, para que o povo não seja enganado por aqueles que mentem e se utilizam de todos os meios possíveis para sustentar suas mentiras. Que o testemunho profético e missionário de Dom Luciano e Dom Helder nos inspire e nos desperte para o conhecimento da verdade, a prática da caridade e da liberdade. Assim como eles, não podemos calar. A profecia não pode cair. O Espírito de Jesus nos impele a falar e lutar. A esperança dos pobres vive!

Tiago de França

domingo, 20 de agosto de 2017

A simplicidade da vida

       
       A vida é simples. Muito antes de o homem criar a complexidade da vida social, tal como se configura hoje, viver era algo muito simples. As pessoas não perdiam tempo e energia para buscar tanta coisa e resolver tanto problema. Em si mesma, a vida não nos apresenta tantos problemas. Estes são criações humanas. Assim como a natureza intocada, a vida é plena harmonia e paz. Toda pessoa nasceu para viver em sintonia com a harmonia do universo, misteriosamente criado para oferecer vida plena.

        A natureza tem muito a ensinar. Nela, todas as coisas tem o seu lugar. Sem a interferência do homem predador, ela ensina e promove a harmonia. Tudo nela desempenha harmoniosamente uma função: plantas, águas, animais, aves, o ar, o calor, a terra etc. Tudo é saudável e respira vida. Nos primórdios, o homem apareceu no meio da infinita riqueza natural e se enxergou como parte dela. Essencialmente, o homem é natureza. Somente depois, perdeu a sensibilidade e a compreensão desta verdade fundamental.

        Quando se associou a outros, o homem descobriu que pode ser feliz con-vivendo em sociedade. Posteriormente, descobriu também que é preciso aprender a con-viver. Na relação com o outro, conheceu, no mais profundo de si mesmo, muitas riquezas, mas também muitos limites: conheceu o amor e sua força transformadora, mas também a indiferença e sua força destruidora. Nas relações sociais, com o passar do tempo, o homem criou o poder. Daí em diante, a humanidade passou a desandar, pois nas relações de poder há sempre uma desigualdade: alguns mandam e a maioria obedece, poucos vivem com fartura e a maioria padece pela falta do essencial para viver.

        De modo geral, os que mandam não pensam no bem de todos. Há um vício destruidor no poder de mando: o de sempre buscar a satisfação dos próprios interesses. Usando de sua inteligência, o homem cria e recria mecanismos de controle, cada vez mais eficientes. Com o capitalismo, esses mecanismos ganharam dimensões globais. Surgiram grandes corporações empresariais, e seus proprietários desejam, por meio delas, dominar o mundo. E este mundo é controlado por elas, que carregam as grandes marcas.

        Como não há quem escape da dominação do capitalismo, pois alcança a todos, direta e indiretamente, muita gente procura viver de forma alternativa: ousam pensar, sentir, enfim, viver de forma diferente, na contramão da dominação. Os que dominam tornam a vida difícil, e buscam sempre controlar a forma de pensar das pessoas, pois sabem que controlando o pensar, as submetem com facilidade. Milhões de pessoas no mundo já não enxergam a possibilidade da construção de uma nova humanidade. Isso decorre da falta de visão da realidade: as pessoas não conseguem enxergar e compreender o mal presente no mundo. Elas sentem seus efeitos, mas não compreendem a origem e não sabem quem o provocam.

        O capitalismo cria e recria um mundo doente: a competição e a desigualdade são realidades cruéis. O mundo da competição tira o sossego das pessoas, obrigando-as a competir para encontrarem um lugar de destaque. O capitalismo é um sistema que gera desigualdade, pois não assegura lugar para todos. O surgimento do mundo da exclusão gera uma sociedade profundamente marcada por pessoas agitadas e violentas. E as pessoas chegam a este ponto porque o sistema as violenta, oprime e mata.

        Essa agitação oriunda da violência, tanto no âmbito privado quanto no público, tira das pessoas a serenidade, o discernimento e a paz de espírito. O estresse e a ansiedade tiram a visão das pessoas, levando-as ao desespero. Assistimos a milhões de pessoas desesperadas e sem rumo, totalmente desorientadas. Também o medo é outra marca do nosso tempo, provocado pela insegurança. Atualmente, essa insegurança é oriunda da violência que cresce cada vez mais, bem como das crises política e econômica que não chegam a um fim.

        Neste clima de perturbação social, as pessoas não conseguem enxergar a simplicidade da vida, pois são convencidas de que a vida é difícil e complexa. O sistema, com suas ideologias, ensina que elas devem viver buscando, se atualizando, consumindo, correndo... De repente, estas pessoas estão diante da morte, surpreendidas e sem saída, e quando olham para trás, percebem que a vida passou sem que tenham visto. Milhões de pessoas morrem sem ter vivido a vida.

        Por mais desafiante que seja a vida, porque o ser humano a tornou, muitas vezes, insuportável, vale a pena viver. Apesar dos condicionamentos, sempre há brechas para escolhas livres. É necessário aproveitar essas brechas para que a liberdade apareça. No mais profundo de si e no segredo da própria consciência, toda pessoa é livre para sonhar e ser feliz. Do reconhecimento e aceitação daquilo que se é, surge pessoas pacíficas, instrumentos de transformação do mundo.

        Os que tem o dom da fé conseguem ir além, pois sabem que Jesus era totalmente livre e ensinou o caminho da liberdade. Os que o seguem trilham o caminho da liberdade em meio às opressões da vida. Não se trata de mero sentimentalismo, mas de conquista diária, de compromisso consigo mesmo e com o outro. A simplicidade está na verdade da vida de cada pessoa. Cada uma traz consigo uma verdade reveladora de si. Conhecer e aceitar esta verdade é caminho de liberdade. O mundo carece de pessoas livres, integradas e simples. Viver a vida como ela é, sem fugas nem ilusões: Eis o caminho que torna uma pessoa simples e livre.

        A você que leu estas reflexões, advertimos e desejamos: Viva a vida como ela é, sem fugas nem ilusões! Assim, seu testemunho iluminará o mundo. Sejamos felizes!
Tiago de França