quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Os ex-seminaristas na Igreja

       
       Este tema praticamente não é tratado na Igreja. Aqui e acolá podemos encontrar alguma referência aos ex-seminaristas. Dada nossa condição, achamos por bem oferecer a presente reflexão. Na Igreja católica, entre os leigos se encontram os ex-seminaristas, que são aqueles que participaram do processo de seleção, admissão e permanência em algum seminário, lugar no qual acontece, via de regra, a formação dos futuros presbíteros da Igreja.

Praticamente, desde o concílio de Trento, no séc. XVI, o seminário é o lugar por onde devem passar aqueles que desejam ser presbíteros. Nossa reflexão não quer oferecer um olhar sobre o seminário, mas sobre os ex-seminaristas, que tendo saído do seminário, se encontram no meio do mundo. Para isto, iremos pensar o tema analisando três aspectos: Alguns motivos que levam muitos a sair do seminário; como são tratados os ex-seminaristas na Igreja e, por fim, o lugar que ocupam no cenário eclesial.

1 – Alguns motivos que levam muitos a deixarem o seminário

            Inúmeros são os motivos que levam um seminarista a deixar o processo de formação presbiteral, mas, independentemente do motivo, geralmente, os ex-seminaristas são vistos como pessoas que perderam a vocação. A expressão “perda da vocação” não resiste a um olhar teológico prudente. Transmite-se, falsamente, a ideia de que Deus chama e depois desiste do chamado. Claramente se vê que se trata de uma ideia sem sentido.

            Noutras vezes, os ex-seminaristas são vistos como pessoas que se aproveitaram da Igreja para fazer um ou dois cursos superiores (Filosofia e Teologia, na maioria dos casos, ou outro curso solicitado e/ou proposto pelo candidato ou pela Igreja). Em alguns casos, isto é verdadeiro. De fato, muitos candidatos ao concluírem os estudos abandonam o processo formativo.

Nestes casos, o sucesso fora do seminário não é muito garantido, visto que o mercado de trabalho pouco valoriza filósofos e teólogos. Se o candidato consegue, posteriormente, prosseguir nos estudos, chegando ao mestrado e/ou doutorado nestas áreas, com muito sacrifício poderá encontrar trabalho em uma instituição universitária, para o cargo de professor. Assim como no parágrafo anterior, também não se pode generalizar que os ex-seminaristas procuraram ingressar no seminário somente para terem seus estudos custeados pela Igreja.

            Uma terceira espécie de acusação feita aos ex-seminaristas é a de serem subversivos. Fala-se que deixaram o seminário porque não tinham amor à Igreja porque a criticavam demais. Faculta-lhes falta de obediência e fidelidade à ortodoxia. Isto porque o bom seminarista resiste a tudo e a todos, silenciosamente. Ensinam a ser como Jesus no caminho do calvário: a sofrer em silêncio.

Na verdade, há uma distorção deste “silêncio de Jesus”. O que se espera do seminarista é que não se manifeste diante das contradições internas do processo formativo. Na faculdade de Filosofia aquele aprende a filosofar, mas quando começa a praticar o que aprendeu, torna-se alvo de incompreensões, perseguições e, em alguns casos, são expulsos do seminário. Assim, pensar parece ser algo pecaminoso a ser evitado.

            Outras acusações poderiam ser elencadas, mas estas explicitam bem o que geralmente acontece. Ainda podemos, rapidamente, pensar nas situações daqueles que se frustraram com a realidade do ministério ordenado. Antes de ingressarem no seminário idealizaram o ministério ordenado como algo santo, puro, distante da realidade. No seminário, convivendo com os padres e conhecendo um pouco os bastidores da vida clerical, desanimaram e pediram para sair. Estas saídas costumam ser pacíficas, sem grandes problemas. O candidato desiludiu-se por causa de suas idealizações e excesso de expectativa.

            Há, ainda, os que procuram se esconder por trás do sacerdócio. Procuram esconder seus transtornos de personalidade e perversões. Estudos recentes analisam esta situação. Nos seminários e no clero há algumas pessoas que se recusam a tratar de questões patológicas e que, consequentemente, chegam a cometer atrocidades como suicídio, pedofilia, roubos e outras situações congêneres.

Alguns candidatos com tendências homoafetivas radicadas procuram o ministério ordenado. O número não é insignificante. Muitos conseguem ser ordenados, apesar da proibição expressa da Igreja no que tange ao ingresso dos candidatos com tendências radicadas. A promoção vocacional que os acolhe e o processo formativo que os acompanha pecam por omissão, permitindo que cheguem à ordenação. Alguns chegam a ser bispos.

Quando não são expulsos por não terem se comportado conforme o estabelecido nas regras que constituem o processo formativo, geralmente as consequências são lastimáveis. Aqui não estamos afirmando que homens com tendências homoafetivas não possuem vocação para o sacerdócio ministerial, mas nos referimos àqueles que procuram no sacerdócio uma forma mais tranquila e segura para “praticarem” a homossexualidade, fugindo, assim, da própria realidade. Na Igreja, esta situação não é pensada seriamente, exceto por pessoas isoladas.

            É preciso, ainda, considerar aqueles candidatos que deixam o processo formativo com muita liberdade e seriedade. Entre eles se encontram os que saem porque perceberam que não dariam conta do celibato obrigatório. Honestamente, deixaram o processo formativo porque não se viam tendo uma vida dupla no ministério ordenado. A infidelidade no ministério ordenado é assustadora: padres que, aos olhos dos fieis são celibatários, mas na vida privada possuem suas/seus amantes. O que torna mais grave a situação é que se utilizam do dinheiro ofertado pelo povo para manterem tais relacionamentos.

2 – O tratamento dado aos ex-seminaristas

            Geralmente, salvo raras exceções, os ex-seminaristas são tratados com indiferença. Quando ainda se encontram no seminário são vistos e queridos, apesar da falsidade de muitos casos e circunstâncias. Geralmente, há uma falsa fraternidade no seminário. Não há comunidade, mas comunitarismo. O que isto significa? Significa que todos, aparentemente, se respeitam e se prezam, mas ao deixar o seminário, o ex-seminarista não é mais lembrado por praticamente ninguém. Tudo se resume à seguinte sentença: Saiu do seminário, logo, morreu para a instituição. Não existe mais.

Quando um seminarista sai, evita-se até que se comente sua saída. É um silêncio covarde. Recomenda-se, direta ou indiretamente, que nada se comente a respeito com o povo nas visitas e trabalhos pastorais. Ninguém fala nada, e em pouco tempo o nome daquele candidato não é mais mencionado. Quando se menciona é para falar mal de sua conduta, quando de sua passagem no seminário.  

            Alguns seminaristas, que continuam no processo formativo, e alguns padres procuram saber como estão alguns ex-seminaristas. São exceções, porque comumente não há nenhuma preocupação. Para a maioria, não importa se estão vivos e o que estão fazendo da vida. Quando um ex-seminarista consegue ser alguém “importante” na sociedade, p. ex., um médico ou juiz famoso, ou um escritor ou político de renome, aí, sim, os religiosos aparecem para elogiar, gritando para todos ouvirem: “Fulano era nosso seminarista, fez jus à formação que recebeu no seminário!” Esta expressão é ridiculamente hipócrita, mas é comumente pronunciada nos meios eclesiásticos.

            As congregações religiosas tradicionais como, por exemplo, jesuítas, franciscanos, salesianos, beneditinos, lazaristas, dominicanos, agostinianos, que são as mais ricas (financeiramente falando); em relação aos ex-seminaristas, agem da mesma forma. Se o candidato permanece no processo formativo e é suficientemente aplicado e inteligente, tais instituições lhe asseguram todos os meios possíveis para torná-lo um grande religioso. Investe-se muito dinheiro na formação de alguns candidatos.  

Do contrário, se deixarem o processo formativo, então já não servem mais, são esquecidos. Investe-se em função da instituição, não em função da sociedade. É inaceitável que uma congregação religiosa ajude um ex-seminarista a se tornar um missionário secular, no cumprimento de seu dever, exercendo honradamente uma profissão que ajude no autêntico progresso social. Pode até existir, mas, particularmente, não conheço nenhum caso.

            Desse modo, ao sair do seminário, o ex-seminarista se encontra diante do mundo dominado pelo capitalismo selvagem. No seminário, principalmente se for de congregação religiosa tradicional, o candidato tem todas as suas despesas custeadas. Não precisa se preocupar com nada. Sua vida é tranquila e pautada em todas as seguranças possíveis. O voto de pobreza lhe assegura tudo! A partir deste voto o candidato está assegurado, caso não venha a ser dispensado.

Caso seja oriundo de família rica, o ex-seminarista não tem com que se preocupar porque terá todas as condições possíveis para reorientar a vida. Caso contrário, terá que penar muito para ser “alguém” na vida. Em alguns casos, aparece um bispo, padre, uma família ou alguma instituição que acredita no potencial daquele que outrora queria ser padre, ajudando-o a reorientar a caminhada da vida. Somente assim, alguns conseguem se realizar em alguma profissão, que a exercem, em muitos casos, com espírito evangélico.

Numa sociedade profundamente desigual e competitiva, ex-seminaristas que não contam com o necessário apoio não conseguem ir muito longe, profissionalmente falando. Referimo-nos aos que desejam contribuir com outro mundo possível, pois há aqueles que não tem motivação para nada, são desprovidos de perspectiva de futuro. Não sonham com nada nem querem nada com a vida.

3 – O lugar dos ex-seminaristas na Igreja

            A Igreja ensina que nela há lugar para todos. De fato, permanece aberta a todos a participação na comunhão eclesial, mas é verdade também que nem todos são acolhidos. Como não são valorizados, os ex-seminaristas não se sentem motivados para oferecerem sua contribuição com a Igreja.  

Muitos tiveram uma sólida formação no seminário e poderiam contribuir, por exemplo, com a formação dos leigos nas comunidades, mas como são tratados com certa suspeita, então se evita a concessão de convites para possíveis programas de formação. “Se não serviu para ser padre, então não serve para formar os leigos! Certamente, só vai causar divisão, com indagações bobas à doutrina da Igreja”, disse certa vez um padre a uma ministra extraordinária da Eucaristia que propôs convidar-me para uma palestra sobre o documento de Aparecida em uma determinada paróquia.

            Permita-me o leitor, para concluir estas considerações, partilhar outra situação concreta que me ocorreu. Antes do meu ingresso no seminário, tive a graça de conhecer um dos maiores bispos que a Igreja no Maranhão já teve: Dom Franco Masserdotti, missionário comboniano. Era um grande pastor, homem culto e humilde, dedicado às causas do Reino de Deus. Era bispo diocesano de Balsas – MA.  

Certa vez, desafiei-o, escrevendo-lhe um pedido. Tratava-se de uma crítica ao modelo tradicional de presbítero na Igreja. Na época eu não tinha estudado Filosofia nem Teologia. Em matéria teológica, já estava iniciado na teologia do padre José Comblin (1923 – 2011), um dos maiores teólogos e profetas da Igreja no Brasil.

No pedido, escrevi o que pensava e explicitei o que eu queria. No final da redação do pedido, escrevi: “Dom Franco, quero ser um padre livre como Jesus: pobre e missionário. Quero exercer o sacerdócio desligado dos poderes de pároco e/ou administrador. Quero ser um padre peregrino, livre para me encontrar com as pessoas, permanecendo no meio delas, nos caminhos por onde a Providência me enviar. Quero ser um pobre padre, que como Jesus não tinha onde reclinar a cabeça. O senhor é bispo e pode atender a este meu pedido, mesmo indo contra as prescrições da Igreja, que caminha na direção praticamente oposta. Se sua resposta for positiva, estou disposto a deixar tudo para efetivar este propósito que, no meu entender, é coisa de Deus e não dos homens”. Na época, eu tinha 22 anos de idade.

Depois de alguns dias, ele me escreveu. Na sua carta manifestou sua total concordância com a minha exposição e desejo. Pediu que eu aguardasse mais um pouco. Afirmou que nunca tinha recebido um pedido tão desafiador e tão original. Poucos dias após, infelizmente, Dom Franco morreu atropelado, enquanto fazia seus exercícios físicos na estrada que dá acesso à cidade de Balsas. Era um santo homem de Deus, pastor zeloso do seu povo. Pelo que conversamos, se ele estivesse vivo, hoje, certamente, eu seria este pobre padre peregrino nos caminhos de Jesus.

Hoje, fico pensando neste pedido que fiz a Dom Franco e creio que somente seria possível se os bispos repensassem o modelo de presbítero, ou se algum bispo ousado e livre apostasse nesta aventura do Espírito. Desde muito tempo as regras não mudam. Quem quiser ser padre na Igreja tem que ser celibatário (obrigatoriamente), estudar Filosofia e Teologia, passar longos anos no seminário e ter muito cuidado com o que fala e com o que faz, para não ser taxado de subversivo e ter sua ordenação impossibilitada.

O papa Francisco tem demonstrado total abertura, conferindo liberdade aos bispos para que estes tomem novas iniciativas. O papa tem convidado os bispos para a escuta daquilo que o Espírito diz à Igreja, mas, infelizmente, a maioria deles está como que estagnada, sem iniciativas. O medo não permite de ousar coisas novas. A maioria prefere a segurança das leis e das estruturas e, assim, a Igreja vai agonizando.

Não sabemos até quando esta situação vai perdurar. Enquanto isso, inúmeros cristãos continuam desassistidos. Em muitos casos evitam procurar os padres porque não se identificam com eles, por terem se tornado autoridades distantes, que somente aparecem para ministrar os sacramentos e, posteriormente, desaparecem. Para finalizar, vale uma expressão de uma jovem universitária, que depois de ter me perguntado se eu era padre, disse: “Acho estranha a vida que os padres levam. Eles parecem viver em outro mundo. Jesus pediu isso deles?...”


Tiago de França

5 comentários:

Robson Paes Landim disse...

Boa tarde. Paz e Bem!
Sou ex-aspirante salesiano e discordo do que você diz sobre o tratamento que as congregações, em especial os Salesianos de Dom Bosco, dão aos ex-seminaristas.
Desde que saí, fui acompanhado espiritualmente, psicologicamente. Sempre fui muito bem acolhido, muito bem tratado. Me tornei amigo da congregação e do movimento. Os padres me tratam normalmente, os demais seminaristas da minha turma me tratam como irmão. Meu ex-diretor nunca me tratou com indiferença ao sair, pelo contrário, sempre me acolhe como filho. Acho que essa questão também vai muito de cada um, já que grande parcela dos ex-seminaristas deixam até de participar da vida da comunidade local. Em algumas vezes nem voltam.
Apesar da minha vergonha ao sair, não pela atitude, mas porque muitos apostavam em minha vocação, logo voltei pra minha paróquia para servir. Houve resistência de certa forma no início, mas depois aceitaram e me acolheram até melhor do que antes. Você acabou generalizando em seu texto.

Paz e Fogo!
Pelos seminaristas e ex-seminaristas, rogai a Deus, ó São Luiz Gonzaga!

Altair de Almeida Costa disse...

Sou ex-seminarista franciscano e, por saudade e/ou gratidão organizo há 38 anos encontros no seminário onde estudei. Há vários grupos de ex-seminaristas que também realizam tais encontros. Veja na minha página: http://www.gregoriano.org.br/enfrades/outrosencontros.htm
Um abraço.
Altair Costa (Tachinha).

Anônimo disse...

Mas nem todas as congregações fazem isso com ex- seminarista, no meu caso por exemplo me mandaram embora do seminário e até hj nunca tive apoio deles e nem da ofm, sou apenas esquecido.
Principalmente na minha comunidade, que eu poderia dar formação dos conhecimentos que adquiri até hj nunca aceitaram.
Então irmão Altair só tenho que dizer isso.

Filosofia Usjt disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Na Arquidiocese de SP, realmente não há apoio algum aos ex-seminarista. E estes são vistos com certo desdém ou indiferença.
Realmente, a Igreja enquanto instituição muitas vezes está distante dos ensinamentos de Jesus.